Toilet

 

Ver um filme de Bollywood é toda uma experiência. Positiva ou negativa, aí dependerá do gosto de cada um. 

Como fã da Índia, proponho-me a vê-los mais por questões culturais do que estéticas.

Fixe-se este filme: Toilet: Ek Prem Katha (Toilet: Uma História de Amor).

Tem cor, ritmo, música, melodrama e “humor” como todos em Bollywood. Mas tem algo de novo: uma preocupação social e uma mensagem e vontade de mudar consciências. Recorde-se que o cinema na Índia, em especial Bollywood, é um meio poderoso de comunicação, lançando modas, unindo comunidades e famílias.

Como o título do filme indica, a temática gira à volta do problema das casas de banho na Índia ou, melhor dizendo, da ausência delas. Estima-se que cerca de 60% dos indianos não tenham acesso a casa de banho. Mas o que parece apenas um problema de higiene e salubridade – e é-o também, com péssimo saneamento, contaminação de águas, propagação de doenças e muitos mais problemas públicos – traz consequências para a segurança e privacidade sobretudo das mulheres, sujeitas a assaltos e violações quando vão fazer as suas necessidades em espaços abertos. E problemas de saúde para ambos, homens e mulheres, por aguentarem as suas necessidades por tantas horas, aguardando que a noite caia para poder fazer dos campos a sua casa de banho.

Este filme retrata a história de uma mulher que se casa, por amor, mas que se decide divorciar logo em seguida porque a casa do seu marido não possui casa de banho (estando ela habituada a esta facilidade em casa de seus pais). Aí se percebe que o ponto não é apenas a casa de banho, a mulher, a defecação. Mais do que tudo, é uma questão cultural.

Muitos associam ainda a ideia de defecação a sujidade no sentido de impureza. A este propósito recorde-se a estratificação social indiana baseada nas castas. Assim, possuir uma casa de banho dentro de casa, onde se cozinha, reza e lava, é sujo e conspurcável.

Ou seja, há que mudar consciências e neste filme vê-se a luta de um casal num constante desafio às superstições e mentalidades que estão em todo um povo, começando pela própria aldeia e até família.

Não é um grande filme, mas é um entretenimento típico de Bollywood que nos oferece uma visão de um aspecto cultural sério do dia-a-dia da Índia que a nós, ocidentais, nos escapa em todos os sentidos. Enriquecedor, pois então.

Na Índia, de Albert Londres

Albert Londres foi um jornalista francês que viajou pelo mundo.
Em 1922 andou pela Ásia e passou pela Índia, tendo-nos legado um pequeno livro cheio de apontamentos deliciosos. No prefácio do seu Na Índia, Ana Cristina Leonardo escreve:
“O repórter, com o seu faro particularmente dotado para o pormenor, o seu gosto pela petite histoire e o seu apurado sentido crítico e de justiça – um virtuoso das letras íntegro de carácter, todos o confirmam -, esboça um retrato que hoje, à distância de quase um século, se continua a provar ser acurado e genuíno.”.
E é-o mesmo. 
Acerca das viagens de comboio, por exemplo, confirmarmos décadas depois que tudo parece igual – e igualmente estranho aos sentidos ocidentais.
Leia-se:
“Circular constitui um dos prazeres preferidos da raça”. “Nos países moderados, chegamos sensatamente à estação no dia da partida, talvez uma hora antes. Mas isso é porque não somos verdadeiros conhecedores dos prazeres da via férrea. Muito antes da data em que participarão no grande mistério da tracção, os indianos invadem com os seus guarda-chuvas, seguidos da esposa, transportando o cachimbo do marido e os potes de cobre, e das crianças nuas, o átrio da South Indian Railway ou de qualquer outra próspera companhia. Aí comem costas com costas, uma questão de castas (não esquecer as castas), e fazem as suas orações, lavam as tíbias. Um odor a jardim zoológico invade a área. Felizes, aí dormem enquanto esperam por um comboio que apanharão… provavelmente.”
Uma outra constatação de que tudo permanece igual: 
“Quando o hindu abre o olho, está pronto, não precisa sequer de sair de casa uma vez que dorme pelos passeios.”.
A ironia domina toda esta obra de Albert Londres e está igualmente presente na descrição da caminhada de Gandhi, num capítulo breve titulado “Como Apareceu… e Desapareceu Gandhi”, e na forma curta mas certeira de descrever os processos de não cooperação e de desobediência civil que nortearam a sua acção. 
Nesta descrição do âmago indiano não precisamos de ter estado na Índia para nos parecer familiar, cortesia de todos os estereótipos que envolvem a vida no subcontinente: 
“Cruzamo-nos com leprosos prateados e com leprosos carcomidos. Estendem-nos a mão. Podemos dar-lhes dois annas, parece que a coisa não se apanha assim. Um elefantíaco, com uma perna normal passeia a outra perna de paquiderme. Metade dos transeuntes tem a cara pintada como ovos da Páscoa. Há quem apresente três traços brancos horizontais, mas não faço ideia porquê. Aqueles que têm um ponto branco entre os dois olhos são os que adoram Shiva, o deus criador, e aqueles que têm um vermelho é porque adoram Brahma, o deus criador, e aqueles que têm um ponto amarelo é porque adoram Vishnu, o deus conservador. E aqueles que adoram Hanuman, o deus macaco, limitam-se a ter uma macaca no coração.”
Obviamente, não poderiam faltar umas palavras sobre a vaca: 
“A vaca é a deusa das ruas. Acompanha-vos pelos passeios e olha convosco para as belas montras. Quando se instala no meio das avenida, mesmo os carros de topo a contornam respeitosamente para não a incomodarem. Se tivéssemos de escolher, mais depressa passaríamos por cima do corpo de um homem do que do rabo de uma vaca.”.
Este é, também, um livro que não foge à crítica político-social de uma época em que o Império Britânico governava a imensa Índia. A ironia segue: 
“Sob uma fotografia de Gandhi, os comerciantes, que são comerciantes antes de serem indianos, vendem o belo algodão inglês a senhoras que são coquetes antes de serem nacionalistas.”
Acerca das relações entre indianos e ingleses, a contundência corre solta: 
“O sorriso é um movimento facial desconhecido na Índia. O indiano não sorri. O inglês não sorri. Neste país onde o calor vos esmaga, toda a gente está congelada! Seja o que for que aconteça, nunca devereis dizer que o contacto entre indianos e ingleses foi cortado. Ele nunca existiu. Pode-se dizer que há tanta afinidade entre um indiano e um inglês como entre um rebanho de ovelhas e um banco de bacalhau, por exemplo. Porque, no que diz respeito ao inglês, pode-se afirmar que ele conseguiu deixar de ver o indiano. Se um deles parasse numa rua de Calcutá para lhe perguntar:

O que pensa o Senhor do indiano?

Ele responder-lhe-ia:

O indiano? Vejamos. Para já, onde é que vive esse povo?”

Albert Londres utiliza a expressão “a cor do ódio” para designar os sentimentos ingleses face aos nativos e também por isso esta é uma obra indispensável para se compreender a história recente (presente?) da Índia sob todos os domínios.

Filmes Indianos


Como escreve Suketu Mehta, no seu Maximum City, para os indianos, ir ao cinema é um projecto para toda a família.

Na Índia o cinema é entretenimento, sim, mas é também um momento para se estar com a família, com os amigos, com a comunidade até. À falta de ter vivido esta experiência de forma directa, é fácil a qualquer um de nós ver amiúde os filmes indianos a retratarem o cinema como um momento em que a aldeia se junta, o mais certo ao ar livre, em volta de um qualquer écran. É, pois, uma arte para o povo em geral. E reúnem-se para assistir não são só a um filme de Bollywood, mas a qualquer outro dos muitos cinemas regionais que pululam pela Índia – mais uma marca da sua imensa diversidade. 
Ou seja, o cinema da Índia não é só Bollywood, mas é esta indústria que mais fama dá ao sub-continente. Aqui são produzidos mais de 1000 filmes todos os anos, a eles acrescendo as várias indústrias locais, representando os filmes estrangeiros menos de 10% daqueles que são apresentados em sala. Bollywood diz respeito aos filmes falados em hindi, apesar de muitos dos seus actores serem acusados de falar mal esta língua. Independentemente disso, eles são verdadeiras estrelas e a sua popularidade atesta-se pelos inúmeros reclames que usam a sua imagem. 



Em geral, a forma de ver cinema na Índia não é muito diferente da do Ocidente – as míticas salas de cinema têm vindo a dar lugar a outras mais modernas, normalmente em espaços comerciais. Em Mumbai, no entanto, restam ainda alguns desses outros cinemas, como o Regal e o Eros, a fazer jus à colecção de edifícios em art deco de que a cidade é portadora.

Em seguida indicarei alguns filmes indianos a que assisti e que considero que por uma razão ou por outra valem a pena serem vistos. 

O primeiro deles não é uma obra prima, não é o maior sucesso, é uma quase grande banhada, mas serve na perfeição para representar o que é a paixão do cinema nos tempos de hoje não só na Índia, mas também no vizinho Paquistão. O nome deste filme não podia ser mais certeiro: Filmistaan (2012).


Dos filmes que retratam a Bombaim de ontem podemos começar por um murro no estômago e assistir a Salaam Bombay! (1988) e depois seguir com várias histórias dentro de um mesmo filme na Mumbai mais moderna quer com o Dhobi Ghat (2010) quer com o Live in a… Metro (2007). Pelo meio, A Wednesday (2008), um thriller também rodado na cidade, e A Lancheira (2013), relação por carta entre cozinheira anónima e senhor trabalhador a quem é distribuído o seu almoço diário – uma imagem de marca de Mumbai.


Um clássico de qualidade é o Bombay (1995), o qual retrata as tensões religiosas na cidade dessa época. Destaque total para a lindíssima banda sonora do filme, em especial a preciosa “Kehna Hi Kya”. 
Para tensões religiosas noutra latitude, em Delhi, Amu (2005) é também um bom filme.


Mr and Mrs Iyer (2002) é um belo filme e imperdível pelo que mostra da relação entre mulheres e homens, ela hindu, ele muçulmano.


Filmes históricos também os há: Jodhaa Akbar (2008), retrato do imperador mogol Akbar, e Lagaan (2001), sobre como o cricket pode aproximar e afastar colonizador e colonizado.


Alguns filmes bem populares, mas sensíveis a espaços como o Taare Zameen Par (2007), acerca do encontro entre um miúdo diferente e um professor também ele diferente, e 3 Idiots (2009), um nome de filme absolutamente parvo mas que não deve servir para afugentar os espectadores. Ainda, Ghajini (2008), um thriller de muita qualidade, e Zindagi Na Milegi Dobara (2011), banhada de uns amigos que partem de viagem para Espanha – e o filme foi mesmo realizado em Espanha e o seu sucesso levou a que montanhas de indianos quisessem seguir os passos dos seus heróis.


Nesta lista não podem faltar as xaropadas com Shahrukh Khan, aqueles filmes indianos intermináveis, em que a história é quase sempre a mesma, o amor (quase) impossível entre um rapaz e uma rapariga, um pobre e um rico, à vez, com muitos interlúdios feitos de música e dança. Dois exemplos deste Bollywood puro: a versão mais recente de Devdas (2002) e o sempre citado Dilwale dulhania le jayenge (1995) – ainda hoje em cena em pelo menos um cinema de Mumbai, vinte anos depois. Deste último, para além do xarope que não fez efeito e me levou a querer assistir a mais e mais filmes indianos, retenho a sua bela canção “Tujhe Dekha To”.


Do cinema indiano clássico, é incontornável para um europeu citar Satyajit Ray, nomeadamente Pather Panchali (1955) e Charulata (1964), o grande cineasta bengali, talvez mais aclamado e amado no ocidente do que propriamente na generalidade do seu país. 
E, depois, Mother India (1957), de Mehboob Khan, o épico que retrata a dura vida da mulher indiana.


Por fim, alguns filmes realizados por não indianos ou indianos radicados fora da Índia. 
Destaque para Slumdog millionaire (ganhou o Oscar em 2008).
Deleitar-se com a ironia de Wes Anderson em The Darjeeling Limited (2007).
Fazer de conta que se acredita que ainda há tipos bons e ingénuos como Amal (2007).

Assuntos de Família, de Rohinton Mistry

Assuntos de Família, de Rohinton Mistry, é um livro que gira à volta das relações entre os elementos de uma família da classe média de Mumbai. Não faltam situações cuja acção se desenrola na cidade, nem alusões a alguns dos seus marcos. O mar, a brisa, o calor, os elementos naturais estão igualmente presentes. Imagino que as histórias se passem no centro da cidade e esta é percorrida a maior parte das vezes de autocarro, de comboio ou a pé; raramente de táxi, quase nunca em veículo próprio – pois é, a classe média de Mumbai é frequentadora dos transportes públicos, mais uma idiossincrasia desta cidade.
Antes de citar frases de amor à cidade constantes neste livro, segue a transcrição de um parágrafo que traduz o uso caótico dos comboios, pelas palavras de Mr. Kapur, que não deixa de concluir ele próprio por uma das grandezas da cidade: o espírito de entreajuda.
“Um dia, na semana passada, arrumei o carro perto da estação de Grant Road e comprei um bilhete de cais, para ver passar os comboios e os passageiros. Apeteceu-me. Nunca ando de comboio, bem vejo como vão apinhados, quando passo de automóvel ao lado das linhas de caminho-de-ferro. Mas, da plataforma, nesse dia vi qualquer coisa de novo. Ia um comboio a partir, completamente cheio, e os homens que corriam ao seu lado desistiram de o apanhar. Todos, excepto um. Conservei os olhos nele porque o cais estava a chegar ao fim. De repente, o homem ergueu os braços e houve pessoas no comboio que estenderam os seus e o agarraram. “Mas que estão eles a fazer? Será que o desgraçando vai ser arrastado e morto?”, pensei eu. No momento seguinte levantaram-no do cais. As pernas dele balouçavam fora do compartimento e eu quase gritei para fazer parar o comboio. Os pés pedalavam no ar. Encontraram um ponto de apoio, escorregaram, encontraram-no de novo. Ali estava ele pendurado, com a vida literalmente pendente na mão de estranhos. E entregara-se a eles. Confiara nesses estranhos.”
Mr. Kapur é o chefe de um dos elementos da família, uma personagem bem optimista a quem o autor não se cansa de colocar na boca frases que expressam todo o seu amor por Bombaim (e insiste que a cidade é Bombaim e não Mumbai), feito delicadezas, mas também de excessos.
Alguns exemplos:
“O meu amor por Bombaim é demasiado grande, mas pouco sensato.”
“Não consigo fazê-lo perceber o que sinto por Bombaim. É como o amor puro por uma bela mulher, que envolve gratidão pela existência dela e devoção pela sua presença viva. Se Bombaim fosse uma criatura de carne e sangue, com o meu tipo sanguíneo, Rh negativo, e muitas vezes penso que o é, seria capaz de dar-lhe todo o meu sangue em transfusão, até à última gota, para lhe salvar a vida.”
“Shakespear é como Bombaim: em qualquer eles podemos encontrar tudo aquilo de que precisamos porque ambos contêm o universo.”
“De agora em diante aceito o que Bombaim me oferece: calor, humidade, brisa do mar, tufões…”
“Quero aproveitar tudo o que a minha cidade tem para me oferecer. Quero misturar-me com o seu povo, ser parte desses corpos esmagados nas ruas, nos comboios e nos autocarros. Amalgamar-me no todo orgânico que constitui Bombaim. É aí que reside a minha redenção.”

Maximum City, de Suketu Mehta


Mumbai, para muitos ainda Bombaim, é uma cidade carismática, digna de todos os adjectivos superlativos.
Não admira, pois, que seja palco de muitos livros (idem para filmes). Alguns exemplos entre os que tive oportunidade de ler são Os Filhos da Meia-Noite, de Salman Rushdie, de 1981, A Morte de Vishnu, de Manil Suri, de 2001, Assuntos de Família, de Rohinton Mistry, de 2002, ou Maximum City, de Suketu Mehta, de 2004.
Este último, que possuiu como sub-titulo “Bombaim, a cidade dos contrastes e excessos”, escrito por um jornalista-escritor é um documento poderoso pelo retrato implacável que traça da cidade para onde todos parecem querer ir viver, enriquecer, sonhar.

Algumas citações retiradas da edição portuguesa (Dom Quixote, 1.ª edição, 2011) acerca das questões sociais e urbanísticas, deixando de lado a longa temática do poder, corrupção e religião a que o autor se dedica:

“Porque continuam as pessoas a viver em Bombaim? Cada dia é uma agressão aos sentidos a partir do momento em que se acorda, começando pelo transporte que se apanha para chegar ao trabalho, os escritórios onde se trabalha e as formas de entretenimento a que se é submetido. Os gases dos tubos de escape são tão densos que o ar ferve como se fosse sopa. Está-se em constante contacto físico com as pessoas: nos comboios, nos elevadores, quando se volta para casa para dormir. Vive-se numa cidade costeira, mas a maioria das pessoas vive de costas para o mar e só se aproxima dele uma hora aos domingos à tarde, numa praia nojenta. Também não se acaba quando se adormece, porque com a noite chegam os mosquitos dos pântanos da malária, os bandidos do submundo e os altifalantes estrondosos das festas dos ricos e dos festivais dos pobres. Porque se há-de querer deixar a casa de tijolo na aldeia com as suas duas mangas e a sua vista de pequenas colinas a leste para ir viver para lá?” (página 483)

Sobre as casas de Mumbai: “Para a grande maioria das famílias de Bombaim – setenta e três por cento, de acordo com o censo de 1990 -, a casa consiste numa única assoalhada: ali dorme-se, cozinha-se, come-se. A média é de 4,7 pessoas por assoalhada. A função do mobiliário muda continuamente ao longo do dia; a cama converte-se em sofá de manhã; a mesa da sala é uma secretária entre as refeições. Os seus ocupantes também são rápidos, trocam de roupa embrulhados numa toalha atrás de uma cortina, tão depressa que achamos que são invisíveis. Mas a invisibilidade está, efectivamente, a ser concedida pelos outros ocupantes da sala ao desviarem o olhar durante a transformação, como conseguiram os seus pais conceber cinco crianças naquela sala? Deve ter havido muita coisa vista e não observada, ouvida e não escutada.” (página 464)

Sobre o seu apartamento em Mumbai: ” Está rodeado por edifícios altos, de modo que as pessoas que passam por baixo ou saem para as varandas dos prédios em frente podem ver todos os cantos do meu apartamento e observar-nos enquanto deambulamos pela cozinha, comemos, trabalhamos ou dormimos. Há vinte andares no prédio e dez apartamentos por andar. Cada apartamento terá uma média de seis pessoas e três criados; o seu contingente de pessoal de apoio adicional (guardas, pedreiros, varredores) será um por andar. Isso dá duas mil pessoas neste prédio. No prédio contíguo vivem duas mil pessoas e outras duas mil no que fica atrás. A escola no centro do recinto tem dois mil alunos, bem como professores e funcionários. Isso soma oito mil seres humanos a viverem em alguns hectares. É a população de uma cidade pequena.” (página 32)

E porquê tantos criados? “Todos os dias lavam-se e esfregam-se os apartamentos. Aprendemos o sistema de castas dos criados: a criada interna recusa-se a esfregar o chão; isso é para a criada de fora; nenhuma das duas está disposta a limpar as casas de banho, o domínio exclusivo de um bhangi, que não faz outra coisa. O motorista recusa-se a lavar o carro; isso é monopólio do vigilante do prédio. O andar acaba cheio de criados. Acordamos todos os dias às seis da manhã, quando a mulher do lixo vem buscar os sacos do dia anterior. A partir desse momento, a campainha não pára de tocar: o leiteiro, o jornaleiro, o amolador de facas, um comprador de papel e garrafas usados, o massagista, o homem da televisão por cabo. Todos os serviços do mundo, trazidos à minha casa”. (página 33)

O tema cocós não pode faltar: “Todas as manhãs, pela janela do meu escritório, vejo homens a fazerem as necessidade nas rochas junto ao mar. Duas vezes por dia, quando a maré baixa, eleva-se um cheiro horrível das rochas e estende-se aos andares de meio milhão de dólares a leste. […] Metade da população não tem uma retrete onde cagar, de modo que o faz ao ar livre. Estamos a falar de cinco milhões de pessoas. Se cada um caga meio quilo por dia, são dois milhões e meio de quilos de merca a cada dia”. Pior ainda para as mulheres, “têm de fazê-lo entre as duas e as cinco da manhã, porque é a única altura em que gozam de privacidade”. (página 140)

Na cidade de Mumbai, enfim, “o maior luxo de todos é a solidão”. (página 138)

Mumbai em movimento

Mumbai é uma metrópole intensa, sempre com gente de um lado para o outro, num movimento constante que facilmente roça o caos.
Caminhar pelas suas ruas é todo um programa e quase que somos levadas a crer que fazemos parte daquele filme. Mas não. É um mundo à parte e estamos apenas de passagem. 
Tendo passado por Mumbai em apenas um feriado e um fim de semana, não pudemos assistir à entrega das refeições como o filme Lunchbox retrata, mas pudemos testemunhar que aqui tudo se transporta e como se transporta.

Até as nossas malas: elas seguiram num ponto privilegiado sobre as ruas de Mumbai a caminho do aeroporto.

Mumbai – Parte 2


Férias são férias, logo, não há horários. Vai daí, levantámo-nos de madrugada de forma a que por volta das 6:00 já estávamos na Sassoon Dock, uma das mais antigas docas de Mumbai, construída em 1875, situada a sul de Colaba. À entrada a sua pitoresca torre do relógio recebe-nos. A melhor hora para visitar esta doca é ao nascer do sol, quando os barcos dos pescadores Koli vão chegando e descarregando o seu peixe. 





O peixe é então içado para cima de uma forma artesanal e até precária, para depois as mulheres o transportarem em alguidares ou cabazes, a maior parte das vezes acomodados sobre as suas cabeças. Nós ficámos por ali, fomos-nos deixando estar, a incomodar o trabalho das gentes da doca, numa azáfama intensa logo ao raiar do dia. O cheiro não é menos intenso e à chegada ao nosso país, ao tirar da mala os ténis então usados nessa manhã, ainda havia vestígios desse odor que se encrava nos objectos e no ambiente. O movimento segue solto e o peixe é comercializado logo ali. Com o nascer do dia observamos outros pormenores e vemos que não só o peixe fresco tem lugar nesta doca, também o peixe deixado a secar marca presença. E, ou não estivéssemos na Índia, a cor é uma constante.


Ainda nessa manhã fomos de passeio até às Ilhas Elefanta. O nome, está-se mesmo a ver, tem contributo português. Este é um passeio muito popular e os barcos para lá saem das traseiras da Gateway of India. Uma boa forma de apreciar este símbolo de um outro ângulo, magistralmente acompanhado pelo Taj. 


Na viagem de barco os passageiros entretiveram-se a oferecer biscoitos às gaivotas. Quando o Babu se cansou da actividade virou-se para nós e, depois de apresentar toda a sua família (mulher, um filho de 14 anos e uma filha de 8 anos) e amigos, não mais nos largou. Quis saber como se escrevia o seu nome em português e ficou algo desiludido por constatar que o nosso idioma é escrito sob o mesmo alfabeto que a língua inglesa. Não conseguiu acrescentar mais uma forma de escrever “Babu” às quatro que já sabia, mas em compensação pode ouvir cantar a Xana dos Rádio Macau e ficar a conhecer o som da nossa língua. Curioso o rapaz. 





A viagem de barco até às Elefanta dura cerca de uma hora. Aqui encontramos uma série de caves e templos hindus património da Unesco, construídas provavelmente no século V. Não se tendo ainda como certo, considera-se que esta é no entanto uma refinada obra de arte dos tempos Gupta ou Chalukya.
O lugar é dedicado ao deus Shiva e apesar de algumas das estátuas terem sido destruídas, diz-se que cortesia também dos portugueses, restam ainda exemplos fantásticos. Como a principal escultura esculpida na rocha, enorme nos seus seis metros de altura, representando as três faces de Shiva: a criadora, a protectora e a destruidora. A não perder igualmente as figuras que ladeiam aquela.
Outro dos pontos altos do lugar é algo mais terreno, os muitos macacos que nos acompanham em quase todo o lado e que insistem em nos imitar nas poses mais naturalmente humanas (ou será que somos nós que os imitamos?).


A jornada é agradável, mas estávamos apertadas pelo pouco tempo que nos sobrava – apenas uma tarde mais – e voltámos rápido, desta vez sem a companhia do nosso novo amigo Babu.


Já em pleno centro da cidade fica a Victoria Terminus, também designada Chhatrapati Shivaji Terminus, o novo nome em homenagem ao herói maratha.
Esta é a estação de comboios mais conhecida da Índia e provavelmente a única do mundo declarada património da humanidade pela Unesco. Construída durante dez anos e inaugurada em 1887, a Victoria Terminus é mais um símbolo de Mumbai impossível de perder. Por ela passam todos os dias cerca de três milhões de passageiros de todas as classes que pretendem ligação entre o centro administrativo e financeiro da cidade e os seus subúrbios. Não nos podemos esquecer que os comboios na Índia são parte da experiência, quer pela comodidade que representam quer pela vida e movimento que nos proporcionam testemunhar. Foi aqui na Victoria Terminus que aconteceu o primeiro serviço de comboio de passageiros da Índia e o seu edifício majestoso e grandioso foi talvez o primeiro edifício público da cidade. Em resumo, é um ícone. E como ícone que é não escapou aos atentados de Mumbai em 2008, à semelhança do Taj.
Por tudo isto, se é impossível perdemos uma visita a esta estação, é igualmente impossível deixarmos de nos deslumbrar com tanta exuberância arquitectónica. Aqui encontramos uma mescla de estilos: vitoriano, hindu, islâmico, tudo junto num extravagante convívio. Mais um delírio para o olhar. Neste encontro entre a arquitectura revivalista gótica vitoriana e a arquitectura tradicional indiana vamos vendo desfilar pela fachada espécies da fauna e flora locais, com o leão a dominar, imponente. Neste conjunto destacam-se ainda uma profusão de torres, pináculos, cúpulas, frontões, gárgulas, janelas em arco decoradas a rosa e branco e, enfim, uma imensidão de figuras que fazem deste revivalismo gótico uma excentricidade absoluta e um estilo único, o estilo Mumbai.





Este estilo, porém, não é unânime. Alberto Moravia, no seu livro “Uma Ideia da Índia”, por exemplo, escreve sobre o estilo gótico vitoriano que é “o estilo mais feio do mundo”. Já a arquitectura moderna do país, em geral, é “um pesadelo”, tendo os ingleses construído o país “contra todo o bom senso”. Sobre a profusão de ornamentos, esta é para o autor “delirante” e resultado da principal característica da arte indiana, “o ódio ao vazio”.


Ódio ou não, vazio é palavra rara em Mumbai. Vejam-se os bazares, por exemplo. Visita a Mumbai que se preze não fica completa sem uma passagem por um dos seus muitos bazares. 
Perto da Victoria Terminus fica o Crawford Bazaar. Também conhecido como Mahatma Jyotiba Phule Mandai, o edifício deste mercado, datado de 1869, tem uma arquitectura característica onde se destaca sobretudo a sua torre. Mas é o seu interior que nos provoca mais uma enorme explosão de sentidos. A cor oferecida pela variedade dos legumes e frutas que aqui são vendidos, ao lado de animais domésticos, em especial cães, gatos e passarinhos, é toda uma experiência para guardar. Os vendedores são simpáticos e oferecem-nos a provar algumas frutas. Infelizmente ainda não era a época da manga. Outros deixam-se estar por ali sentados, relaxados, ou deitados, indolentes.





A área envolvente ao Crawford Bazaar é uma zona habitada por muçulmanos. Veem-se mesquitas e muito verde das bandeirinhas do islão. As ruas por aqui não são largas e estão ocupadas por lojas e mais lojas. Um imenso bazar. E uma imensidão de gente nas ruas, de tal forma que é impossível caminhar a pé pelos exíguos passeios, obrigando-nos a dividir a estrada com os veículos que teimam em passar – podem ser carros ou carrinhos de madeira improvisados para transportar as mercadorias. O barulho compõe o caos.





Caos esse que nos acompanha até ao Chor Bazaar, a uma boa distância do Crawford.
Seguindo pela confusão fomos percebendo que os edifícios desta Mumbai central estão extremamente mal conservados, a desfazerem-se até. No entanto, apesar do seu mau estado preservam pormenores artísticos cativantes. 
O Chor Bazaar é um mercado de antiguidades. De forma literal, Chor significa ladrões. Mas a palavra “chor” terá derivado da palavra “shor”, cujo significado é barulhento. Os britânicos terão entendido mal a palavra e de mercado barulhento passou-se a mercado dos ladrões. Ambas não andarão muito longe da verdade. Nada adquirimos por aqui, mas fica a experiência de deambular pela velha e confusa Mumbai. 




O fim do dia, o fim da viagem, não podia deixar de ser passado na praia de Chowppaty. Como os locais. O final da Marine Drive, já perto de Malabar Hill, é mais um lugar cheio de cor, seja ela trazida pela natureza ou pelas muitas pessoas que a ocupam. Esta praia não é um lugar para se tomar banho, apesar de haver quem não se importe de partilhar a água com os cocós. É, antes, o lugar para se deixar estar na areia sozinho, em família ou entre amigos; sossegado, a confraternizar ou a brincar; a pousar os pés na areia, a despedir-se do sol ou a provar a comida de rua. A comida de rua está presente em quase toda a Mumbai, mas Chowppaty é o lugar dela, seja o kulfi, o vada pav ou o bhelpuri.
Parte inevitável da experiência de Mumbai é a sua comida. A cidade máxima é o também no capítulo gastronomia da Índia. Seja em restaurantes ou na rua as expectativas, diziam-nos à partida, eram elevadas. A final, podemos afirmá-lo com certeza, foram mais do que cumpridas. Reportagem gastronómica na Cantina dos Sabores da mana aqui (praia de Chowpatty), aqui (restaurante Ziya), aqui (restaurante Khyber) e aqui (restaurante Colaba Social).