Mumbai – Parte 1

No primeiro dia em Mumbai, de manhã cedo tomámos um comboio urbano para chegar ao Mahalakshmi Dhobi Ghat. Com carruagem exclusiva para mulheres, lá fomos vendo o movimento pela janela, enquanto as locais se sentavam no chão junto às portas abertas das carruagens – e nisto as mulheres dos comboios são iguais aos homens.


Dhobi Ghat é uma lavandaria a céu aberto. Correcção. É a maior lavandaria a céu aberto do mundo e na saída da estação de comboio de Mahalakshmi, lá do alto, percebe-se bem porquê. A princípio parece mais uma favela, mas observando melhor há uma característica que a distingue dos outros amontoados de construções precárias: as filas e filas de roupas estendidas.
Este Dhobi Ghat pode ser visitado. Mas o mais provável é que à entrada do bairro seja pedido dinheiro aos incautos turistas. E, depois, só há uma de duas soluções. Ou voltar para trás sem apreciar a vida dos dhobis ou engolir um grande sapo e assumir a espoliação e deixar-se ser guiada por um “guia” cuja pronúncia inglesa é digna de figurar em qualquer programa de humor. Está visto que a solução por nós tomada foi esta última.





Aqui são lavadas cerca de meio milhão de roupas todos os dias, roupas essas que podem ser para aqui enviadas quer por instituições quer por particulares. O mais incrível é verificar que um bairro tão informal e precário é capaz de prestar um serviço altamente funcional e organizado onde as falhas são poucas. As roupas são etiquetadas, lavadas e passadas a ferro para que depois possam ser devolvidas aos seus donos. São colocados papelinhos em cada uma e ficam por ali empilhadas. Em seguida os dhobis – profissão de homem – enchem-nas de água nos tanques e em movimentos rápidos e ritmados rodam as roupas encharcadas no ar e batem-nas contra o cimento do tanque uma série de vezes. Há máquinas modernas por aqui, mas a maior parte do trabalho é manual. E é um espectáculo. Um espectáculo de cor, também, proporcionado pelas peças de roupa. Para além do que, enquanto caminhamos pelas ruas estreitas do bairro, contornando os tanques, é-nos permitido observar e perceber alguma da vivência diária das suas gentes, que não apenas trabalham aqui como aqui vivem.


A uma caminhada não muito longa do Mahalakshmi Dhobi Ghat fica o santuário (Dargah) Haji Ali, dedicado a este santo muçulmano. O lugar é especial, um pequeno istmo que parece flutuar no mar, alcançável através de um corredor longo só possível de percorrer na maré baixa. A arquitectura indo-islâmica do santuário é delicada, branco puro a destacar-se na paisagem, bem como os seus pormenores, sobretudo as suas cúpulas e minaretes. 








Este é um lugar popular e, por isso, confuso. Um microcosmos de Mumbai. Pelo dito corredor passamos por um monte de tendas onde tudo se vende, de um lado, e diversos pedintes, do outro. Em ambos os lados o Mar da Arábia destaca-se e a sua sujidade – se tudo se vende nas tendas, tudo parece boiar na água – não impede que as crianças lá se banhem. 



De volta ao sul de Mumbai, é obrigatório deixar-nos ficar pelo Oval Maidan a assistir aos rapazes equipados rigorosamente de branco enquanto jogam cricket, com o edifício da Universidade e a Torre do Relógio Rajabai a comporem o cenário. Estes são alguns dos edifícios coloniais que distinguem Mumbai, num estilo gótico revivalista que é um gáudio para o olhar. 



Para lá do Oval Maidan, Fort a chegar a Colaba, fica o distrito da arte Kala Ghoda. Com várias galerias por aqui, seríamos tentados a escrever que esta é uma outra Mumbai. Mas não. O bom gosto e a arte imperam dentro de portas – a Delhi Art Gallery, a Jehangir Art Gallery e o Museu Prince of Wales ficam por aqui -, mas por fora os edifícios estão muito mal conservados. Parte boa da experiência por esta área, onde fica também a azulíssima Sinagoga, é que a arte indiana contemporânea fica lado a lado com a vida de rua mais pura que a cidade tem para oferecer, como é o caso dos carrinhos de venda de comida de rua e das lojinhas improvisadas.




Para um banho de multidão, não há como perder a Gateway of India. Este é um dos maiores símbolos de Mumbai e, ao mesmo tempo, um símbolo colonial. 


Construído pelos britânicos para comemorar a visita do Rei George V à Índia em 1911, este arco triunfal em pedra basalto com alguns pormenores bem bonitos acabou por ser concluído apenas em 1924 e, naquela que é constantemente apontada como uma ironia, foi por aqui que saíram os britânicos quando abandonaram o sub-continente. Virado para o Mar da Arábia, como se abraçasse os visitantes à entrada da cidade, serve também como adeus à porta da saída. Sobre ele escreveu Octávio Paz, no seu “Vislumbres da Índia”, que lhe pareceu “uma versão fantasista dos arcos romanos”. Faltam-lhe os romanos, mas sobram-lhe os indianos (não são muitos os turistas não indianos). É um mar de gente que parece não ter fim, um daqueles lugares para se ir uma vez na vida e tirar as fotos da praxe, daquelas em que se posa para agarrar o monumento ou selfies ou o que a imaginação mandar. 




E a imaginação por aqui manda muito. Afinal de contas, o mítico hotel Taj Mahal Palace é vizinho do Gateway of India. O mesmo Octávio Paz, na obra citada, escrevia sobre o Taj que este era um “delírio de um oriente fim de século”. Construído em 1903 em estilo mourisco, oriental, florentino, o que calhar, é provavelmente o lugar mais democrático de Mumbai. Diz-se que o parse que o mandou construir fê-lo depois de haver sido barrado na entrada de hotéis de topo naquela época. A decisão foi então a de construir um hotel onde todos tivessem lugar e que fosse ao mesmo tempo tão luxuoso como os mais luxuosos. Conseguiu superar todos os outros e este é hoje um lugar histórico e cheio de histórias para contar. Uma delas triste, muito triste, como foi a dos atentados que o lugar sofreu em 2008. Mas a melhor história do Taj é a de ter recuperado e hoje ser novamente possível a qualquer um de nós, visitante e não hóspede, percorrer algumas das suas alas e salões. A arquitectura do Taj é alegre e esfuziante, mais um delírio nesta Mumbai. Há que circundar todo o edifício e perceber, então, que é mesmo verdade, o Taj foi construído ao contrário e o erro levou a que a fachada estivesse aberta à cidade e de costas viradas para o mar.


Mas nada disso importa.
Importa que é fim do dia e o lugar para se estar é na Marine Drive, seja no skybar do Hotel Intercontinental, o Dome, apartado da confusão, ou no meio da gente que todos os dias enche a promenade que vai desde Nariman Point até Malabar Hill. Do topo do Dome, no entanto, conseguimos apercebermo-nos melhor do porquê do apodo de “queen’s necklace” (colar da rainha): a curva da Marine Drive, cidade de um lado, mar da Arábia do outro, luzinhas do cair do dia como adereço, não deixa dúvidas: Mumbai tem charme e é bonita.


Mumbai

Mumbai será muito provavelmente em poucos anos a maior cidade indiana em número de habitantes. Por enquanto possui “apenas” cerca de 14 milhões, mas continua a atrair muitos mais, quase todos eles com o sonho comum de alcançarem uma vida melhor, fazerem dinheiro, quem sabe até tornarem-se estrelas de Bollywood. 
Acontece que Mumbai é a cidade da Índia por excelência, com tudo o que de bom e de mau à ideia está associado. Lado a lado convivem as melhores moradias com as maiores favelas. A entrada na cidade pelo seu aeroporto não deixa dúvidas: as favelas estão coladas à pista e seguirão até ao centro da cidade, num mar de precariedade sem fim. Mas ao mesmo tempo vemos irromper pela linha do horizonte rumo aos céus uma série de edifícios, uns já construídos, outros em construção, que nos mostram que há lugar para outro tipo de habitações. O lixo e o luxo dizem presente em iguais proporções. 
A história de Mumbai é tão interessante como as personagens que a habitam. E nós, portugueses,  temos muito a ver com ela. A escassez de água em Mumbai (e em toda a Índia) é hoje uma realidade, mas a sua abundância já foi um problema que a ambição e engenho do Homem tornou contornável. 
A antiga Bombaim (mudou de nome para Mumbai, em 1995, em homenagem à deusa local Mumba), talvez corruptela de “bom baia”, foi dada como dote aos ingleses pelo casamento de Isabel de Bragança e Charles II, em 1661. Parece que na época os ingleses nem sabiam muito bem onde ficava Bombaim – talvez lá para os lados do Brasil; afinal, surpresa, não, é na Índia. Maior surpresa ainda foi constatarem que a terra disponível não era muita – esta parte do dote era um monte de ilhas difíceis de comunicar entre si. Em todo o caso, os ingleses pretendiam uma nova base na costa ocidental da Índia e lançaram mãos à obra para transformar este porto de pescadores através da construção de línguas de terra, vulgo passeios, de forma a ligar as sete ilhas (Colaba, Old Woman’s Island, Bombay, Mazgaon, Parel, Mahim e Worli) que estavam separadas pelo mar e por pântanos. Ou, mais correcto, de forma a ligar as quatro ilhas que restavam, depois de os portugueses terem já passado pela empreitada de as ligar.
A cidade foi crescendo e de porto de pescadores foi tornando-se um centro de comércio que conquistava cada vez mais terra à água do Mar da Arábia. Os subúrbios juntaram-se às outrora ilhas e a indústria também ganhou destaque. Comércio, indústria, centro financeiro, terra dos sonhos. Mumbai é tudo isso e muito mais.
A “cidade máxima” como se lhe referiu Suketu Mehta num dos livros mais celebrados sobre a cidade. Nele o autor reproduz as palavras de um amigo: “Bombaim não tem a ver com monumentos; tem a ver com experiências” (já Alberto Moravia escrevia “a experiência da Índia”).
Mumbai é uma metrópole enorme, confusa, difícil de compreender pelos estranhos, ainda mais se estes se propõem lá passar apenas dois dias. Dai que a nós não nos tenha restado se não viver umas poucas experiências. Chegámos à noite, vindas de Goa, e do trajecto do aeroporto para o hotel foram cerca de 45 minutos a tentar captar o movimento da cidade feita de prédios altos em Bandra. Não fomos a Bandra, não fomos a Juhu Beach, ficámo-nos apenas pelo sul de Mumbai. Prédios altos, sim, mas a primeira e mais forte ideia de Mumbai é a das suas favelas intermináveis, parecendo que se ocupam da área contígua à linha do comboio, sendo maior o aglomerado junto às estações.
Deixámos as coisas no hotel e saímos rapidamente para jantar ali mesmo na zona do Fort. Logo na primeira noite vimos uma ratazana com uma poça de sangue fresquinho à volta; na segunda noite uma ratazana em fuga rápida bem à frente dos nossos pés; na terceira noite nem vestígios de ratazanas, apenas uma noite calma em que os indivíduos – todos homens – se procuram acomodar para dormir na rua, em qualquer espaço da rua, não precisa de ser um canto, pode ser até em cima do seu carrinho de vender sumos ou frutas, num perfeito equilíbrio. De manhã é vê-los a derramar canecas de água sobre os seus corpos, que a higiene não pode faltar.
Não sei se é pobreza, não sei se é miséria. É todo um mundo à parte, para os europeus. Para quê visitá-lo?, perguntam muitos. Para vivê-lo, respondo.
Vamos, então, a algumas experiências por nós vividas.

"Entre Dois Impérios – Viajantes Britânicos em Goa (1800-1940)", de Filipa Lowndes Vicente


Por incrível que pareça, não se encontram muitos livros sobre Goa do ponto de vista histórico (nem de nenhum outro). No entanto, no final do ano de 2015 foi publicado “Entre Dois Impérios – Viajantes Britânicos em Goa (1800-1940)”, de Filipa Lowndes Vicente (edição Tinta da China), com uma parte dedicada em exclusivo às mulheres viajantes.

A opção de focar os viajantes britânicos é plenamente justificada e o título da Parte I, “Colonizar a colónia vizinha”, não deixa dúvidas acerca dos preconceitos e intenções dos ingleses face à Goa portuguesa.

Pegando no que os vários britânicos foram escrevendo na sequência das suas visitas a Goa, a autora mostra-nos a sua (deles) estranheza, incómodo e até confusão pelo que observavam.
William Howard Russell, escritor oficial da viagem do príncipe de Gales a Goa, em 1875, por exemplo, ao referir-se às pessoas escrevia que “os europeus pareciam hindus mascarados e era muito difícil perceber onde acabava o hindu e começava o europeu”.

Aponta a autora, então, que para um inglês, Goa era mais estrangeira do que o resto da Índia. É duplamente exótica por não encaixar nas representações que previamente os viajantes faziam da Índia. O que acontecia era que “em Goa as fronteiras não eram tão claras e isso podia ser perturbador para quem queria que os goeses cantassem música nativa e se vestissem de nativos. Os nativos não correspondiam às suas expectativas sobre a alteridade e a vontade de reconhecer fronteiras bem definidas entre “nós” e os “outros”. Os viajantes não queriam ver-se ao espelho. Queriam o diverso. Não lhe perturbava a diferença, mas a familiaridade do que via e ouvia, demasiado semelhante a si própria”.

Por outro lado, os britânicos possuíam um sentimento de superioridade em relação a Goa, a “outra” colónia. A Dunlop Smith, membro da comitiva de Lord Minto na visita a Goa em 1909, por exemplo, “o que mais parecia incomodar não era a pobreza, nem a óbvia decadência goesa em relação a um passado longínquo, mas os sinais de riqueza, de orgulho ou de ostentação que pareciam ter sobrevivido ao declínio”.

Os britânicos que chegavam a Goa (e qualquer pessoa, em geral) constatavam o abandono da Velha Goa. Os tempos do Romantismo levavam a que o interesse pela ruína estivesse em voga. No entanto, este abandono e ruína que se verificavam constituíam uma “metáfora perfeita para a história do auge e declínio do império português” que os ingleses não deixavam de repisar. 

Não surpreende, pois, que o tema mais comum aos viajantes em Goa durante este período seja o do contraste entre o passado glorioso do império português na Índia e a decadência do presente. E que tal leve os ditos viajantes a assinalar que fosse efectuada uma reflexão sobre as lições da história e sobre a forma como os britânicos deveriam analisar as causas da decadência portuguesa na Índia, para não incorrer nos mesmos erros. Ou seja, “Goa enquanto laboratório para as políticas coloniais britânicas do presente”. Para eles, “Goa era uma outra Índia”, “um lugar colonizado por outros mas que seria mais bem colonizado por eles”. Vemos aqui presentes e marcantes os estereótipos de que Portugal era sujeito, como país da Europa do Sul, “atrasado” e “inferior”. A pretensão britânica sobre a Índia do lado tinha subjacente a ideia de que “se o governo português não sabia fazê-lo, então devia permitir que outros o fizessem”. 

A este propósito, a autora levanta uma interpretação curiosa acerca da “feminilidade dos territórios colonizados ou dos seus habitantes”, segundo a qual “Goa era do género feminino (da ausência de um exército à desolação de uma capital parada no tempo, da riqueza da terra por explorar aos portos onde não havia movimento ou comércio, da ridicularização de cerimónias e costumes desajustados ao abuso de indumentárias que já tinham passado de moda, da religiosidade exacerbada do catolicismo às ruínas de um passado que não voltaria: tudo isto culminava numa Velha Goa, onde a natureza já ganhara há muito a batalha contra a intervenção humana e onde as ruínas eram tanto matéria como metáfora, o desmoronamento do império português tornado visível). O império britânico, pelo contrário, apresentava sinais de uma masculinidade latente.”

Estas ideias britânicas estavam muito presentes nos discursos coloniais e ao mesmo tempo levam a autora a questionar se não poderemos encontrar nestas posições uma forma de “dupla colonização” ou de “duplo orientalismo”.

Os britânicos em Goa estavam ainda condicionados pelas diferenças de religião entre o catolicismo e o protestantismo. Eles viam o catolicismo como “uma religião exacerbada, excessiva, plena de rituais e de imagens que a afastavam da essência divina e do verdadeiro cristianismo, imbuído no protestantismo. Um excesso semelhante ao do hinduísmo. Viam como problemático a fusão entre as duas religiões, catolicismo e hinduísmo, que levara a que algumas superstições dos gentios fossem acrescentadas às suas. Ou seja, a hibridez de Goa congregava o pior de dois mundos.”. Entendiam Goa como um lugar amoral, onde o excesso de riqueza levara à decadência.

Não obstante esta posição religiosa diversa, apesar das críticas à Inquisição em Goa, São Francisco Xavier estava presente (pela curiosidade que despertava) em quase todos os textos dos viajantes britânicos. 

Dos motivos para visitar Goa, a autora aponta três modelos dominantes:
aqueles que viajavam por motivos de doença e que aproveitavam para escrever (turismo de saúde ou turismo medicinal);
Padres católicos ou protestantes que tinham um interesse religioso por Goa;
Relatos de viagem escritos por homens que foram a Goa em visita oficial.

O viajante mais conhecido será Richard Burton, autor de Goa and the Blue Mountains, publicado em 1851. Burton tinha curiosidade por uma outra Índia, desejava partir para um lugar menos comum e atraia-o Camões. Ainda assim, não deixou de ser crítico da Goa portuguesa. Face aos edifícios da Velha Goa estranha-os em relação ao turista habituado à Índia britânica. E explica a sua destruição pela pobreza dos portugueses. A lição histórica que Goa e os seus erros poderia representar para a política colonizadora britânica está bastante presente. Tal como o seu racismo, a par de ideologias suas contemporâneas: aponta o clima e a mistura de sangue como dois dos principais factores que teriam levado à degeneração da raça. Burton, tal como outros britânicos, ligavam a decadência e o declínio de Goa (do império português, enfim) a uma consequência da política de casamentos e ao cruzamento de portugueses com hindus de castas baixas. Esta mistura entre colonizadores e colonizados teria, segundo ele, afectado a consolidação da soberania portuguesa, para além de que, o não envio dos filhos de portugueses para Portugal (ao contrário do que seguiam os britânicos) terá resultado num processo de aculturação que mais não fez do que tornar ténue a linha entre aqueles que possuíam o poder e aqueles que a ele estavam subjugados. Filipa Lowndes Vicente esclarece ainda que “as relações de britânicos com mulheres indianas, [eram] tão comuns como não oficiais, estavam imbuídas de uma hierarquização que, longe de demostrar a tolerância ou a empatia com a terra colonizada, poderia até ser considerada como uma outra forma de colonização”.

Em seguida, algumas ideias mais expressas por outros viajantes.

O Conde Van Hübner, diplomata austríaco, dizia acerca da cidade de Velha Goa que era um “monumento fúnebre” que preservava as cinzas do Portugal heróico, enquanto a natureza selvagem que a tinha invadido substituía a função das flores que, habitualmente, se plantavam junto aos túmulos. O silêncio sepulcral apenas era interrompido pelos sinos que chamavam devotos inexistentes, e o abandono desolador da antiga cidade apelava tão-só à lira de Camões para lhe cantar as tristezas.

James Forbes viajou em 1813. Publicou cartas e desenhos. A curiosidade era o que o movia e registou o contraste entre o branco das casas e a natureza luxuriante. Não deixa, no entanto, de referir a inquisição de Goa e de a considerar uma cidade desoladora, um cenário melancólico de deploração e ruína.

Charles Frédéric de Montholon-Sémonville, diplomata e senador francês, fez de Goa um lugar de passagem a caminho de Mumbai. Em relação a Pangim, expressou a sua emoção: “Encontrei muito frequentemente, sobretudo nesta costa do Malabar, lugares deliciosos; mas aqui, no cenário quase mágico que se desenrolava à minha frente, qualquer coisa distinta e que me deixou espantado pela sublime estranheza da cena. Nos montes que dominam as margens do rio, nas ilhas, nos fortes, nos conventos, toda a arquitectura portuguesa do século XVI; os seus muros grandes e altos que tiveram os seus dias de pujança e dominação inquieta e orgulhosa, testemunhos hoje em dia silenciosos de uma rápida decadência, parecem ainda projectar, sob um sol incandescente, um orgulho de grandes sombras douradas sobre um solo indiano, pisado com tanto impacto pela primeira conquista europeia empreendida na Ásia.”

Williams Howard Russell, acompanhante do Príncipe de Gales na sua visita oficial a Goa em 1875, narrou a viagem. Considerou que os portugueses na Índia ficavam muito castanhos e os europeus pareciam hindus em costume, ou seja, vestidos com trajes ocidentais. Notou a ausência de mulheres entre a pequena multidão reunida para saudar o Príncipe. A mistura racial, os mestiços, levou-o a afirmar que era muito difícil perceber onde acabava o hindu e começava o europeu – a etnia e o género, pela presença ou pela ausência, converteram-se nos primeiros critérios de classificação de uma Índia percebida como diferente. Sobre Goa: “um arsenal em ruínas; palácios em ruínas; paredes do cais em ruínas; igrejas em ruínas – tudo em ruínas.” A lição: ” A história dos portugueses na Índia contribuiria certamente para enriquecer a narrativa moral de qualquer historiador de filosofia que quisesse debruçar-se sobre o declínio e a queda de impérios. Gama! Albuquerque! Estes são os grandes nomes a ter em consideração. É um lugar que qualquer inglês deveria visitar. Um lugar onde em especial um Príncipe Inglês poderá retirar enorme proveito da sua visita. Se nós nos orgulhamos dos nossos feitos e da nossa história na Índia, e se nos rejubilamos pelas façanhas da nossa raça, ao olharmos para certas ruínas como aquelas que o Príncipe de Gales tem contemplado, somos levados a questionar-nos sobre os factores que minam as fundações de Estados poderosos e que contribuem para transformar em pó o trabalho de estadistas e soldados.”

Quanto às duas mulheres focadas autonomamente no livro de Filipa Lowndes Vicente, Isabel Burton e Katherine Guthrie, o catolicismo da primeira distingue-a dos demais viajantes. Mas pouco mais as diferencia dos restantes nas conclusões a que chegam após a visita a Goa, para além do que, tal como os homens, escreviam a partir das ideologias dominantes na sua época e não questionavam a legitimidade do império britânico.

Isabel Burton escreveu: “A Índia portuguesa, graças a Deus, é apenas uma faixa de território com cerca de 70 milhas de comprimento, e fariam bem melhor se a vendessem ao governo britânico; de todos os lugares esquecidos e abandonados por Deus, mil anos atrasados em relação ao resto da criação, nunca vi nada que igualasse Goa.”. Notou ainda o isolamento de Goa face ao resto do mundo, ausência de bens de consumo, moda, vestuário medieval e grotesco, mas como muitos outros realçava a hospitalidade dos anfitriões, sem deixar de acrescentar de que tinha pena deles por terem de viver ali. Descreve o lugar como morto e com um clima pior ainda. Na sua primeira impressão de Pangim remeteu para Santos, no Brasil, onde tinha vivido. Dizia que todas as cidades construídas pelos portugueses eram feitas à semelhança de Lisboa e que a paisagem obedecia a uma mesma tipologia – a mesma “entrada abrupta do mar, entre rochedos montanhosos, sobre um rio amplo e sinuoso, ou um braço de mar, com margens de madeira, com as mesmas cidades brancas empoleiradas nas suas margens”. ” A costa longa e plana, o interior ondulado e coberto de vegetação, sobretudo pelas palmeiras, o território pontuado de aldeias brancas de telhados de palha e por casas verdes e brancas; pequenas fortalezas brancas que um canhão de dez libras demoliria; igrejas alongadas, assemelhando-se a celeiros, com grandes fachadas pintadas de branco, por dentro e por fora, a espreitar por entre a vegetação, mostram como os portugueses souberam moldar o território com base nos padrões do seu país de origem e das suas colónias. Nós estamos como que em Portugal, – numa faixa do Brasil – num hemisfério indiano.”

Guthrie, por seu lado, logo à chegada da fronteira portuguesa notou diferença nos territórios, uma paisagem mais cultivada, jardins com vegetais e laranjeiras, uma ponte com um santuário de cada um dos lados. A arquitectura das casas surge como característica nova e repara na ausência da varanda e da sua preciosa sombra e acredita que os portugueses nunca tinham sido capazes de se adaptar às arquitecturas locais, nem adaptar às características benéficas das regiões onde se instalavam.
“A minha primeira impressão de Goa e, acrescentarei, a minha última, era de que se tratava do mais estranho recanto da terra que eu alguma vez visitara.”. Também considerava os goeses educados. Mas a sua visão protestante fazia com que considerasse que a religiosidade vivida pelos católicos estava repleta de gestos supersticiosos e irracionais alimentamos por padres interessados em perpetuar a ignorância dos povos. Sobre Velha Goa não podia ser mais incisiva: ruína, solidão, natureza selvagem, ar infesto.

Concluindo, Filipa Lowndes Vicente encontra nas narrativas dos viajantes britânicos em Goa estudadas uma orientalização do português, ou seja, uma espécie de colonização dos colonizadores portugueses.

Livro a não perder por todos aqueles que gostam de história, literatura de viagem e estudos étnicos e do género. Melhor, para quem aprecia os quatro focados a um mesmo tempo.

Quinto dia em Goa – Holi

Neste dia, 24 de Março de 2016, saímos para brincar ao Holi em Pangim.
A largada de pequenas bombas, um género de estalinhos, havia ficado para trás. O dia traz as cores, muitas cores. E a alegria, muita alegria.

O Holi é um festival hindu tradicional celebrado no primeiro dia de lua cheia do calendário hindu, o mesmo é dizer por volta do fim de Fevereiro ou Março. Neste ano de 2016, o Holi calhou a 24 de Março. Como festival tradicional que é, o Holi assenta numa série de mitos. A vitória do bem sobre o mal, o adeus ao Inverno e as boas vindas à Primavera, um agradecimento para que o futuro traga boas colheitas. Sobretudo, um dia de festa em que todos saem para a rua para brincar e divertir-se.
Normalmente, são dois dias de festa. Na noite da véspera, acendem-se fogueiras e ao seu redor praticam-se pequenos rituais religiosos para que o mal seja destruído. Ou sai-se pelas ruas a libertar pequenas bombinhas – os estalinhos – provavelmente para afugentar o dito mal, embora desta vez também tenha tido a capacidade de afugentar um trio de portuguesas.


Na manhã do dia seguinte – o dia do Holi – é que acontece a alegria maior, um imenso e penetrante carnaval de cores. Quem sai à rua, prevenido ou não, arrisca-se, ou quer mesmo, a ser atingido com as cores vindas do pó que é jogado para o ar ou directamente em nós ou com as cores dos balões de água ou pistolas de água. As primeiras cores que ganhámos foram precisamente de pistolas de água, por duas crianças tímidas que brincavam na rua e às quais nos juntámos antes de seguir para o Azar Maidan, o parque onde a celebração do Holi era mais forte. No entanto, para além de pessoas pelas ruas a largar o pó colorido, viam-se ainda bandas e um género de procissão.





No Azar Maidan o pó e a música eram esfuziantes e contagiantes. Impossível não nos deixarmos levar pela cor e pelo som. A alegria é tão intensa, tudo é tão intenso que apenas dura uma manhã.  “Happy Holi” está na boca de todos nós. Depois do almoço, deixa de se ver gente na rua e a que por cá se deixa estar é porque não arranja forças para seguir o seu caminho, de tão tocada que está. O excesso também tem lugar no Holi e, ao que parece, acaba por ser bem tolerado.
(um parêntesis para referir que Goa tem o seu próprio e muito especial Holi: o Shigmo, celebrado também pela altura de Março ou Abril)


Já depois de um banho tomado e enviada a roupa forçadamente colorida para o lixo, caminhamos mais um pouco pelas ruas de Pangim, escapando com sucesso à largada das cores de fim de festa. 
Almoçámos no Venite, no bairro de São Tomé, falámos mais português e deleitámo-nos pela última vez com a saborosa e bem condicionada comida goesa. 


Ainda não cansadas de tanta cor, demos uma espreitada ao imensamente laranja Templo Maruti, dedicado ao simpático macaquinho Hanuman. Daqui de cima acabámos por ganhar uma outra panorâmica da cidade de Pangim e sua vizinha vegetação. 

Para o fim a despedida do nosso simpático anfitrião no Hotel Maison Fontainhas. Depois de uns dias por lá e de umas agradáveis conversas já não tivemos dúvida: aquele abanar de cabeça para o lado era um sim, sim de agradecimento e saudade mútuos.

Quarto dia em Goa – praias a norte

Tomámos o autocarro de Pangim para Mapusa e aí ficámos a aguardar por novo autocarro para Vagator, enquanto explicava às minhas companheiras quem eram os rapazes das publicidades na estação – “este é o Shahrukh Khan, tem cá um arzinho de canastrão; eu cá gosto é do outro Khan, o Amir”.




Chegámos a Vagator mesmo a tempo de estender a toalha, dar um mergulho (a água apenas quente já estava a uma temperatura mais tolerável), beber uma água de coco e voltar para a toalha para deitar durante quase uma hora. Até que começou a chegar gente. Muita gente (traduzindo para pessoas normais, é o mesmo que dizer alguma gente). 
Tempo de sair. 
E experimentar um doce sumo de bambu feito artesanalmente na hora.



Até aqui já tínhamos visto umas quantas influências portuguesas na paisagem de Goa, nomeadamente na arquitectura religiosa (igrejas) e na arquitectura civil (casas residenciais). Depois da manhã de praia em Vagator, chegou a vez da visita ao forte de Chapora, sentinela desta praia. Também na arquitectura militar os portugueses deixaram a sua marca. 



No topo de uma colina com vista para a bela Vagator, no cruzamento de um canal que serve de intermediário entre o rio e o mar, os portugueses construíram este forte em 1617. A laterite foi a pedra usada, a mesma usada também na construção das igrejas de Goa, mas aqui foi deixado o seu tom vermelho à mostra. O forte de Chapora foi abandonado em 1892 e hoje está em ruínas, embora sejam ainda perceptíveis algumas das suas estruturas. Independentemente do seu estado de conservação, é difícil imaginar uma localização mais estratégica para implantar um ponto de vigia. E mais deslumbrante. A vista, sempre a vista.



Quarta-feira é dia de mercado em Anjuna e para lá seguimos de tarde.
Pelo caminho veem-se mais umas quantas igrejas, mas a de Anjuna, dedicada a Santo António é deliciosa nos seus pormenores. 


Anjuna é um dos locais mais famosos de toda a Goa e foi para cá que os hippies, nos anos 60, começaram por vir. Nessa época, o mercado de Anjuna era onde os ditos hippies vendiam alguns dos seus produtos, como calças jeans, e assim iam sustentando as suas vidas. Hoje o mercado está nos roteiros turísticos e para além de hippies a vender (e russos a comprar) existem também bancas de indivíduos vindos de todos os cantos da Índia e não só. Há alas inteiras só com chineses, por exemplo. A minha experiência com mercados tem sido sempre muito penosa. A princípio penso que é ali que despacharei os souvenirs todos, mas uma vez lá entrando só quero é fugir. Sem surpresa, aconteceu o mesmo em Anjuna. O mercado é grande mas repetitivo: têxteis, incenso, chás, bijuteria, baralha e dá de novo. Fica mesmo em cima da praia e prolonga-se pelo interior. 


Quanto à praia, tem um ar bastante abarracado e haverá muito melhores e mais bonitas em Goa.
Mesmo não sendo apreciadora nem do estilo hippie nem da música trance que inundou a região nos anos 80, tinha que vir a Anjuna, quanto mais não fosse para imaginar a figura do Graham, de Paulo Varela Gomes, no seu já citado Era Uma Vez em Goa. A história passa-se nos anos 60, Graham tinha visto um postal de Anjuna e desde aí quisera visitá-la; quando aqui chegou, porém, “o mar não era azul-turquesa, a areia não resplandecia de branco-zinco, os coqueiros não estavam todos curvados harmoniosamente sobre a branda espuma das águas, havia muitas coisas feias pelo areal, desde bosta de vaca a destroços trazidos pelas ondas, a areia era cinzenta, a água parda. Fiquei triste. O paraíso não tinha as cores e a textura prometidas”. Avisada previamente, a minha decepção foi zero.

Depois de Anjuna demos uma olhada na praia de Candolim, umas das zonas mais concorridas de toda a Goa, e agradecemos pela brilhante ideia de termos escolhido a pacata Pangim para nosso poiso, ainda que longe da praia. Propositadamente, não quisemos visitar Baga e Calangute para não reforçar a ideia.

Pretendíamos terminar o dia no Forte Aguada, um dos maiores e mais bem preservados, construído no início do século XVII pelos portugueses com o objectivo de controlar a entrada no rio Mandovi e proteger Velha Goa dos inimigos holandeses e maratas. O nome “aguada” vem da muita água que havia nas redondezas e que abastecia os navios que por aqui aportavam. Diz-se que daqui se obtém um dos melhores pores do sol da região. Acontece que na subida para o forte descobrimos o local exacto retratado numa foto que tínhamos visto e que logo estabelecemos como objectivo a sua busca e visita. Descemos a correr desde o Forte Aguada até ao rio Nerul para ainda apanhar as cores do fim do dia a brincarem com o rio e o templo. Missão cumprida. 



Restava-nos regressar a Pangim. Já noite, esperámos na paragem do autocarro em Candolim ainda um bom bocado, com a companhia de uma vaca. A vaca não entrou na discoteca. Perdão. A vaca não entrou no autocarro. Como lhe competia, o autocarro era bastante luminoso, mas desta vez a viagem não foi tão agradável, pois estava bastante cheio e fizemos a viagem toda em pé. Cansadas, mas provavelmente não mais cansadas do que os companheiros locais de viagem. 

Ao jantar, no delicioso – comida e ambiente – Verandah arriscámos finalmente o vindalo e saímos para tentar brincar ao Holi. Ao som das bombinhas partimos para a nossa segunda corrida do dia e resolvemos deixar a brincadeira para o dia seguinte.

Terceiro dia em Goa – Margão, Chandor, Quepem e as praias do sul

Neste dia alugámos um táxi e fomos para sul na companhia do nosso motorista goês, Diogo Fernandes de seu nome, apesar de não falar uma palavra do nosso idioma.
De Pangim, capital do estado de Goa, a Margão, a entitulada capital comercial, é cerca de uma hora de viagem de carro. Em Margão, já se sente um pouco mais de confusão do que na pacata Pangim, quer no trânsito quer nas próprias pessoas que inundam as ruas. Mas também em Margão se encontra uma marca bem definida da presença portuguesa na sua arquitectura, tendo os portugueses estendido o seu domínio a esta região de Salcete durante o século XVII, quando a Velha Goa caia, ficando então conhecida por Novas Conquistas. A zona que rodeia a igreja principal da cidade é envolvida por duas ruas com diversos exemplos de casas e mansões portuguesas grandiosas e bem conservadas. Passámos aqui para dar um alô aos familiares do nosso novo primeiro-ministro, ainda que ninguém tenha disso suspeitado.

Desta passagem rápida por Margão não poderemos dizer que a chegámos a conhecer, apenas que da cidade ficámos com uma muito pequena ideia e logo rumámos a Chandor. Em Chandor, zona rural a cerca de 15 km de Margão, continuámos a nossa busca por mansões portuguesas. Aqui fica a Casa Braganza, um dos maiores exemplos da arquitectura residencial indo-portuguesa visitáveis pelo público em geral.

Esta casa apalaçada ocupa por si só quase uma zona inteira de Chandor, vila antiga que antes dos portugueses chegarem já era um centro importante quer para os hindus quer para os muçulmanos. Encimada por uma igreja branca com frisos azuis, uma praça longa espraia-se tomando à sua esquerda a Casa Braganza e à direita o mausoléu da família. Nos dias de hoje, a enorme Casa Braganza, construída no século XVII, são na realidade duas casas separadas, cada uma propriedade de um ramo diferente da família proprietária original. Possui, no entanto, uma entrada comum. Os dois ramos da família não se dão lá muito bem e uma acusa a outra de desviar os turistas para uma ala da mansão. Guerras à parte, conscientemente visitámos apenas a ala ocidental – ramo Menezes Braganza – e não tirámos as teimas se seria mais bonita do que a Pereira Braganza.

A Dona Judite, ainda parente da proprietária que faleceu há poucos anos, recebeu-nos e guiou-nos em português. Apesar de o seu exterior logo atrair, o interior desta mansão esconde autênticos tesouros. Porcelana chinesa vinda de Macau – algumas encomendas privadas da família -, vidro de Veneza, espelhos e candelabros da Bélgica, tapeçaria portuguesa, mobiliário resultado de técnicas e materiais locais, bem como uma biblioteca que se crê ter sido a primeira biblioteca privada em Goa, reunida por Luís Menezes Braganza, o jornalista que dá o nome ao Instituto homónimo em Pangim. Esta casa possui um grande salão para festas e zonas de estar com umas espreguiçadeiras que pela sua forma levam o nome de “namoradeiras” tão catitas tão catitas que não fosse a vigilância intensa da Dona Judite (não tirar fotos!) éramos capazes de ter arranjado uma estratégia para as meter no bolso e trazê-las para o nosso próprio palácio. Mais catita ainda só mesmo a técnica de usar a casca das ostras para telas de janela – poupa a casa ao calor e deixa entrar na mesma a claridade. Falámos um pouco com a nossa anfitriã acerca do uso da língua portuguesa em Goa nos tempos actuais, perguntando se era fácil para um interessado encontrar lugar para estudar português. Que não, que não havia assim tantos lugares porque o interesse da nova geração não era muito. Os filhos desta família, por exemplo, também já não falam português, não escolhem aprender o idioma porque os amigos também não o escolhem. Talvez por isso, por essa influência perdida, a certo passo a Dona Judite já estava a falar connosco em inglês sem que o tenha notado.

Ainda em Chandor, outra mansão que pode ser visitada é a elegante Casa Fernandes.
Uma breve nota sobre esta marca arquitectónica da presença portuguesa em Goa. Primeiro, são muitos e diversos os exemplos desta arquitectura residencial em Goa, espalhada ao longo de todo o estado, mas mais presente na zona de Margão e Chandor. Estas mansões tradicionais do século XVIII em diante ainda estão em boas condições de ser habitadas e muitas continuam na propriedade das suas famílias originais. Apetece lembrar o que escreveu Graham Greene no seu texto sobre Goa: “as casas de Goa foram feitas com piedade para durarem muito tempo”. Curiosamente, os seus proprietários não eram na sua maioria nobres portugueses, mas antes goeses ricos ou goeses com postos na administração a quem foi conferida terra.
Em segundo lugar, há que valorizar quer o exterior quer o interior destas residências. O interior, tal como o descrito acima na visita à Casa Menezes Braganza, é rico em elementos decorativos vindos de quase todos os cantos do mundo. Muitas vezes é distinto ainda por as casas possuírem as suas próprias capelas ou pequenos oratórios. O seu exterior é a parte mais acessível e reconhecível. A sua arquitectura é original. Um híbrido resultado de uma mescla entre a arquitectura e a arte portuguesa e influências indianas (embora haja quem, como Paulo Varela Gomes, prefira olhar esta arquitectura como uma arquitectura própria goesa, puramente goesa, existente apenas aqui, em Goa, e em mais lado nenhum, distinta da que encontramos em Portugal, África ou Brasil, também com influências portuguesas). Sem querer entrar na discussão, a um olhar leigo parece de facto que existe aqui uma fusão de estilos e motivos orientais e ocidentais. Vemos a varanda, o balcão ou alpendre que se abre ao olhar de terceiro (uma mudança face à arquitectura hindu e muçulmana, mais virada para o uso do espaço interior. A fachada comporta alguns elementos decorativos, seja o uso do ferro, portas com brasão, frontões triangulares. Dois tipos de casas mais comuns são as “casas pátio”, de um único piso, e as “casas sobrado”, com um piso térreo mais um piso superior. Mas, depois, a cor já nos transporta para além do nosso país, dando-lhe um sabor de trópicos.

Um exemplo mais de casa residencial a visitar é o Palácio do Deão, em Quepem, a cerca de 8 kms de Chandor. José Paulo de Almeida, o Deão, veio de Braga no século XVIII e fundou a cidade. Com vista para uma pequena igreja e um riozinho nas traseiras, construiu uma mansão que foi objecto de um belo restauro nos últimos anos. Uma jovem família goesa de nome português mudou-se para aqui e abriu a sua nova mansão a visitas dos interessados, podendo sob marcação desfrutar-se de uma refeição num terraço belíssimo. O ambiente da casa é fantástico, quer o interior, onde voltamos a ver as conchas de ostra a fazer de cortinados, quer o seu exterior, a que não falta um bucólico jardim tropical. 

Em Quepem demos ainda uma olhada ao seu pequeno mercado, onde para além de apreciarmos as cores e provarmos tamarindo comprámos umas bananas anãs como entrada para o almoço.

Seguimos, então, para as praias do sul.
Patnem, a primeira que visitámos, logo foi eleita como a mais bonita da viagem. Pequena o quanto baste, acolhedora o bastante, a vegetação que a cerca a quase toda a volta, deixando o certo e óbvio lugar para o mar, é intensa e belíssima.

No entanto, numa escolha que pode ser acusada de duvidosa, optámos por almoçar e dar um mergulho na vizinha Palolem. Não menos bonita, mas maior e com mais gente, sobretudo com mais infraestruturas na praia (restaurantes e cabanas). Depois de um desolador mergulho – que raio de temperatura era aquela? Cá fora estavam 35 graus e a água estava ainda estupidamente mais quente. Na nossa terra vamos à água para refrescar; aqui vai-se à água para quê? Para fugir das vacas? Mas porquê se elas ficam ali tão sossegadinhas ao lado do nadador-salvador? 

Dizia, depois de um mergulho caminhámos pela praia até descobrirmos recantos inesperados e vistas fantásticas. Palolem pode mesmo receber o título de praia mais bonita de todo o estado de Goa.

Antes de voltar para Pangim visitámos ainda a praia de Agonda e depois o rio Sal a desaguar perto de Betul, com os pequenos barcos calmamente atracados sob um colorido irreal enquanto o dia se preparava para dar lugar à noite. Um pouco mais à frente os barquinhos dão a vez aos barcões e a calma à azáfama do movimento das grandes embarcações do porto. 

Todos os caminhos por onde passámos eram luxuriantes, mas a estrada que vai de Agoda a Assolna é ainda mais preciosa. A vegetação segue solta, indomável mas esteticamente perfeita. Não seguimos junto ao mar, mas sentimos que ele está perto de nós. Pelo caminho tanto vemos pequenos templos como pequenas igrejas, e ao mesmo tempo tanto casas simples como casas de que ainda se pressente a imponência de outrora. As estradas do sul não tinham muito movimento é o silêncio imperava, entrecortado aqui e ali pelas nossas gargalhadas de felicidade ou pelo toque do telemóvel do nosso motorista Diogo que, apesar de não falar uma palavra de português, insistia em disparar as palavras de uma cantora brasileira: “o sol já raiou, a alegria é maior”.