Primeiro dia em Goa – Pangim


A primeira imagem que se tem à chegada a Goa não é outra senão a de uma imensa vegetação que nos toma, envolve e afaga. O intenso calor, numa passagem do 8 ao 80, não distrai os nossos sentidos do verde que nos consome na viagem do aeroporto até Pangim. O cansaço e o sono da viagem desde Lisboa também não são suficientes para que nos deixemos acomodar no banco do táxi. A vegetação luxuriante não nos permite fechar os olhos. Assim como não o permite a condução do endiabrado motorista, sempre agarrado furiosamente à buzina com a mão esquerda, deixando a direita livre para as intrépidas manobras que muitas vezes levam o seu bólide para o lado dos veículos que vêm no sentido contrário. Credo (e até nós podemos ir benzendo à passagem das diversas igrejinhas pelo caminho). Não há muita escolha para além de olhar para as palmeiras, cajueiros e seus semelhantes. Escolha boa.

Pangim, Panjim, Panaji ou Nova Goa. Tudo nomes atribuídos à capital do Estado de Goa. Vamos optar por se lhe referir pelo nome português: Pangim. 
Escolhemos Pangim para nossa base nos cinco dias que por aqui passámos. Desde aqui chegamos a qualquer canto do estado em menos de duas horas. 
A mais nova capital de estado – Goa tornou-se estado pertencente à União Indiana em 1987 – é ao mesmo tempo a mais pequena e a mais calma, a menos indiana, enfim. Já Richard Burton, quando por aqui andou no século XIX, se referia às pessoas de andar preguiçoso, à Goa cheia de palmeiras e à monotonia das ruínas. Falou também da violência doméstica comum entre cristãos em Goa e dos gritos vindos do interior dos lares. Essa não confirmámos, mas ao contrário do inglês, só levávamos os primeiros preconceitos.
“Sossegad” é o termo oficial e plenamente acertado para descrever o ambiente goês. 
As ruas de Pangim até têm alguns passeios, vemos árvores com o propósito de fazer sombras, os parques e praças são harmoniosos, as casas são pitorescas, as gentes simpáticas. Esta foi a primeira cidade moderna da Índia, cortesia portuguesa. Antes, porém, este pequeno porto de pescadores não tinha grande significado, sendo antes o lugar simbólico onde os portugueses vinham dar graças na sua pequena igreja pela boa chegada da aventurosa viagem desde Lisboa. Apenas um ponto de passagem antes de seguirem para Goa. Até que Goa foi sendo progressivamente abandonada e se tornou a Velha Goa. Em 1759 o vice-rei mudou-se para Pangim e em 1834 esta foi reconhecida como Nova Goa e, mais tarde, em 1843, como capital do Estado Português da Índia.

Um passo de gigante na história, mais. Desde 2004 Goa tem sido palco do International Film Festival of India. Este evento e outras dinâmicas, sem esquecer as praias e, em especial, o ambiente descontraído que se vive por todo o estado, tem atraído muitos artistas e gente de todas as profissões e já não apenas os hippies que começaram a vir em bandos nos anos sessenta.
Caminhado pelas ruas pacatas de Pangim o charme e a atmosfera cool, sossegada para seguirmos os locais, é evidente e encanta. Para nós, portugueses, junta-se a emoção de estar tão longe do nosso país e ao mesmo tempo senti-lo quase que a cada canto. Não é nem saudosismo nem nacionalismo, é a óbvia realidade.

As Fontainhas e São Tomé, bairros de ruas estreitas e casas coloridas, são aqueles onde em Pangim encontramos a maior concentração de exemplos de moradias cuja arquitectura nos é familiar. As varandas e alpendres, sim, mas também as buganvílias, o brasão que por vezes se apresenta à entrada, o ferro utilizado como elemento decorativo, o oratório na fachada ou imagem de santos, não faltando sequer os cortinados de renda que se mostram à rua.

Sobretudo nas Fontainhas, que leva o nome pela fonte que aqui ainda existe, o edificado está melhor conservado e, para além de restaurantes e hotéis de charme, têm vindo a abrir galerias de arte.
A galeria Gitanjali é um excelente exemplo, e há que lembrar que aqui no bairro fica também a delegação local da Fundação Oriente e a sede da Fundação Charles Correa, um dos maiores arquitectos indianos e autor do projecto do edifício da sede da Fundação Champalimaud em Lisboa.

Um pouco por onde se vai caminhado a memória portuguesa vai se fazendo sentir. Deparamo-nos com azulejos. As ruas e as casas têm nomes portugueses, rua de Natal aqui, moradia da Silva Pereira ou vivenda Pacheco ali. Visualmente, a presença da língua portuguesa na sua vertente escrita é marcante e constantemente tropeçamos nela (Rua Povo Lisboa, Rua de Ourem, Casa Lusitana comércio geral, A Pastelaria, Godinho Liquors, Rui Ferreira Advocate, Consultório Médico Pinto). Como escreveu José Eduardo Agualusa no seu Um estranho em Goa, “se alguém lançar uma pedra, em qualquer lugar de Goa, é quase certo que vai acertar num porco, numa igreja ou num Sousa”. (Nota: os nomes de família portugueses não significa que sejam descendentes de portugueses; o mais certo é que sejam indianos que adoptaram o cristianismo – voluntariamente ou não – e adoptaram nomes de católicos)
Mas a língua portuguesa não é falada por muitos. Longe disso. Em Goa apenas 1% da sua população fala português. O português sempre foi a língua da administração e das elites. Hoje poucos a falam, os filhos optaram por não a estudar e o ensino oficial também não a tem como opção. É o hindi e o inglês que levam a melhor. O concanim, a língua do estado de Goa, é a preferida das gentes. Ainda assim, não é difícil encontrar em Pangim e arredores quem fale tão bem como nós o português ou que arranhe pelo menos umas quantas palavras de ocasião. Alguns até fazem questão de meter conversa quando se apercebem que somos portuguesas e que connosco podem desenferrujar a língua que falavam quando crianças e jovens. 

Mais uma nota: logo desde as primeiras horas em Pangim fez-me uma confusão danada ver nomes como Fontainhas e Altinho, zonas incontornáveis da cidade, ou Botelho e Mascarenhas. Como é que os indianos se safam com tantos nh e lh? Perguntei. Para eles apenas há Fontainas e Altino, Botelo e Mascarenas. 

Altinho, que nome tão mimoso. Fica acima das Fontainhas, à distância de uma curta caminhada e não muito áspera subida. Passamos pela Igreja de Nossa Senhora da Imaculada Conceição e decidimos que na volta a ela nos dedicaremos. A poucos metros da mais importante morada católica da capital goesa fica a mesquita e ainda a menos metros desta um templo hindu. Não insinuo que todos convivem em harmonia. Desconheço-o. Mas registo a comunhão territorial e a lembrança cívica no que respeita ao tratamento do lixo.

O Altinho é um género de Restelo, com casarões lugar de residência oficial de membros do governo e consulados. Também, aqui fica o Bishop Palace, o arcebispado em edifício imponente. Mas ao contrário de qualquer bairro lisboeta, para chegar ao Altinho passamos obrigatoriamente por um sem número de árvores de fruto – as bananas e as jacas estão ali à mão de semear e a época das mangas ainda está por vir. 

Vale mesmo muito a pena vir até ao Altinho, nem que seja provar um delicioso bolo no Café Bodega (pasteleiro indiano famoso mudou-se para cá e tem feito furor) depois de uma visita à exposição presente no Centro de Artes Sunaparanta e seu agradável palacete azul. No jardim não falta sequer um baloiço preso à arvore. Chegamos até ao Sunaparanta depois de subirmos uma escadaria fácil onde à sua beira vemos pequenos marcos de capelas, como se de uma Via Crucis se tratasse. O mais interessante é que estes marcos têm sempre à sua volta o colar de flores amarelas que se veem à entrada de qualquer templo hindu.

Descendo rumo ao centro de Pangim chegamos finalmente à Igreja de Nossa Senhora da Imaculada Conceição para a visitar. Perdemos a missa dada aos domingos de manhã em português, mas vemos iniciar os preparativos para a missa da tarde em concanim. Ficou a curiosidade: será que para a missa em português estava tanta gente como para a missa em concanim?

Esta igreja, a principal de Pangim e seu cartão postal, foi construída em 1619 sobre uma outra pré-existente. É alvíssima, rodeada por um intenso arvoredo tropical, e possui uns breves mas notáveis elementos decorativos num azul vivíssimo, tudo contrastes que dão ao lugar um ambiente especial. Cá de baixo, olhando para a escadaria que leva à igreja, o conjunto mais parece um bolo de noiva. Destaca-se o enorme sino, trazido da antiga Igreja e Mosteiro de Santo Agostinho, hoje ruína simbólica da Velha Goa. 

De noite pudemos vê-la iluminada de forma simples mas encantadora, enquanto víamos passar uma procissão da Semana Santa. Não fosse o seu enquadramento natural – palmeiras – e as santas de feições e cores não tão habituais para os olhos habituados à arte sacra feita em Portugal, dir-se-ia que estávamos em casa. Registaram o nome da igreja? Imaculada Conceição. Padroeira de Portugal. Cá e lá comemoração a 8 de Dezembro.

Descendo a igreja, com pouca demora iremos dar aos Jardins Municipais Garcia de Orta. O nome Garcia de Orta mantém-se, mas o busto de Vasco da Gama foi substituído logo depois da independência de Goa face a Portugal. Em seu lugar, no meio do jardim está agora o pilar de Ashoka, com os quatro leões representados, emblema nacional da Índia.

Continuando a caminhada por Pangim, rapidamente chegamos à beira do rio Mandovi. A pacatez da paisagem revela-se-nos, embora seja cortada aqui e ali pela azáfama dos barcos e pela presença dos casino flutuantes e de reclames gigantescos na outra margem. Preferimos valorizar mais uma vez a água e a vegetação.

O Instituto Menezes Braganza, antes Instituto Vasco da Gama, fica por aqui. Esta foi a primeira biblioteca pública da Ásia, criada em 1832. Este edifício longo de cor amarela foi palco de alguns movimentos independentistas e o nome Menezes Braganza é uma homenagem a Luís de Menezes Bragança, jornalista goês. A visita ao átrio do edifício é obrigatória: as paredes estão inteiramente decoradas com cenas dos Lusíadas em azulejo, como a partida de Vasco da Gama para a Índia, a passagem do Cabo da Boa Esperança e o encontro com o zamorim de Calicute. Camões esteve em Goa e aqui escreveu os Lusíadas e parte da sua restante obra. Há quem defenda que foi a sua vivência em Goa que o transformou de um poeta da corte para um dos mais originais.

Passámos rapidamente por Miramar, praia citadina a dez minutos do centro de Pangim, acertada para se observar o movimento e os costumes de veraneio locais, mas não para tomar banho (pessoas vestidas na areia à beira da praia é quase obrigatório). E seguimos para Dona Paula, um vilarejo piscatório a mais dez minutos de caminho, onde o fim de tarde nos concedeu o primeiro mega pôr do sol em Goa. Em todas as tardes aqui passadas, o sol a deixar o dia foi uma constante enorme; enorme em emoção, em explosão de cor e em tamanho do dito sol. 

Para terminar o longo dia de domingo que tinha começado ainda na manhã de sábado em Lisboa, concedemo-nos a primeira incursão pela cozinha goesa em Goa. O Viva Panjim foi o escolhido, nas Fontainhas, a poucos metros do nosso verde hotel La Maison. A um pacífico xacuti de frango juntámos um arriscado xec xec de caranguejo e um demolidor sarapatel. Tudo absolutamente saboroso e perfeito. Mas uma pergunta, cuja dúvida não conseguimos ver desfeita, permanece. Com este calor, como é que os indianos se atiram a esta comida ardente?
(ainda penso no sarapatel fantástico que não consegui terminar por motivos linguísticos, mesmo com o pão e a água como companheiros indispensáveis)

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