Goa

                                                            “Vimos buscar cristãos e especiarias.”
                                                              
                                                           “O Senhor de Calecute disse: “Vasco da Gama, fidalgo da 
                                                            vossa casa, veio à minha terra, com o que eu folguei. Em 
                                                            minha terra há muita canela, e muito cravo, e gengibre, e 
                                                            pimentas e muitas pedras preciosas. E o que quero da tua é 
                                                            ouro, e prata, e coral e escarlata.”
                                                            (Roteiro da Primeira Viagem de Vasco da Gama, atribuído a 
                                                            Álvaro Velho)
Tal como o Gama, viemos a ver e descobrir, mas como embaixadoras de nós, sem um grande rei como mandante e apoio. Viemos também em busca dos cristãos ainda presentes e de exemplos de especiarias para saborear, mais como forma de reforçar ideias pré-concebidas e para de volta o podermos relatar aos nossos. 
Uma das mãezinhas expressou o desejo de que a semana passasse depressa. Afinal de contas, Goa é Índia. Mas a Índia não é como Goa. Nisso reforçámos plenamente a ideia que levávamos.
Um enclave português durante mais de 450 anos, Goa é hoje o mais pequeno estado da União Indiana, tendo-se juntado aos amigos em 1987. É também o estado mais rico e com a vida mais confortável, descontraída e menos confusa da Índia, daí que muitos para lá queiram ir, não apenas turistas de férias em busca das suas praias, mas diversos indianos, sobretudo artistas.
Para nós, portugueses, a história de Goa começa com Vasco da Gama. 
Não foi aqui que o navegador aportou na sua primeira viagem à Índia, em 1498, após passar o Cabo da Boa Esperança. Na verdade chegou mais a sul, a Calicute, mas Afonso de Albuquerque decidiu, em Dezembro de 1510, tomar Goa aos muçulmanos do sultanato de Bijapur (na época Goa era um importante centro de importação de cavalos que depois seguiam para o Decão). 
O domínio português seguiu até ao mesmo Dezembro mas de 1961 – foram quase exactamente 451 anos até que a “borbulha feia no rosto da Índia” (como então Nehru designava Goa) se transformasse no “corte de uma mão” (como então Salazar caracterizava a perda de Goa).
Para quem gosta de história e literatura, crónicas de viagem em especial, poucos territórios e temas melhores do que Goa / Índia haverá. Começando no Roteiro da Primeira Viagem de Vasco da Gama, atribuído a Álvaro Velho, seguindo pelas Lendas da Índia, de Gaspar Correia (nome da minha escola preparatória, estando eu então longe de saber quem era o senhor; saberão hoje os seus alunos?), as Décadas de João de Barros, a História do Descobrimento e Conquista da Índia, de Lopes da Castanheda, os Colóquios dos Simples e Drogas e Coisas Medicinais da Índia, de Garcia de Orta, passando pelo Goa and the Blue Mountains, de Richard Burton, não terminamos nunca. Podemos acrescentar ainda os bem mais recentes Um Estranho em Goa, de José Eduardo Agualusa, e Era uma Vez em Goa, de Paulo Varela Gomes, para além do recente e interessantíssimo Entre Dois Impérios – Viajantes Britânicos em Goa (1800-1940), de Filipa Lowdes Vicente.
A expedição de Vasco da Gama à Índia foi preparada com todas as precauções. O objectivo da missão era mercantil e diplomático. Não estranha, assim, o seu carácter prospector e a vontade de conhecer e entender os produtos autóctones e estabelecer contactos com os donos das especiarias e outros ricos produtos do Oriente – o tal “ver e descobrir”. Os cronistas da expansão trataram de registar e apontar os diferentes costumes e as suas obras eram parte da estratégia de afirmação do poder do reino de Portugal.
A viagem não foi, pois, um milagre. Mas a notícia caiu como uma bomba, em especial na República de Veneza, que considerou a viagem do Gama como a pior notícia que podia ter recebido. A audácia portuguesa era inequívoca, aliada a um trabalho árduo e curiosidade imensa. Nacionalismo? Nada disso. Apenas história. E esta ensina-nos que se Lisboa era então a capital do império no ocidente, Goa passou a ser a capital do império no oriente, com uma estrutura político administrativa e eclesiástica semelhante à da metrópole e um vice-rei como representante do rei de Portugal e muitos poderes no seu regaço.

A Goa dourada, a Roma do oriente, era a mais importante colónia portuguesa e um entreposto comercial próspero. A sua localização geográfica era estratégica, rodeada de rios e portos de abrigo (fácil de perceber ainda hoje de um qualquer ponto da paisagem actual goesa), dando segurança à nossa frota, e Goa possuía ainda uma excelente posição não apenas para o comércio marítimo no oriente, mas também para o comércio com a restante Índia.

A Goa que Afonso de Albuquerque e os portugueses em geral encontraram em 1510 era uma cidade organizada e com um comércio vibrante. Sendo considerada pela coroa portuguesa como a “chave de toda a Índia” e símbolo do poder, não espanta que a tenham desenvolvido ainda mais, numa parceria coroa – missionários que levou a que a cidade crescesse de tal forma que era considerada uma das maiores do mundo. Em população e em edificações de significado. Estas últimas, em especial igrejas, mantém-se ainda hoje em grande número, pese embora o progressivo abandono da Goa Velha.
Nos dias de hoje, o imaginário da Goa de outros tempos perdura na mente de alguns portugueses e também de alguns indianos. A sua cultura, nomeadamente arquitectura, música e gastronomia, são encontros entre o oriente e o ocidente, híbridos tornados especiais e por muitos objecto de admiração.
E daqui se lança esta pequena introdução para um descomprometido diário da nossa curta estadia em Goa, a relatar em próximos posts. Mas à pergunta, “encontramos ainda influência portuguesa em tão distante paragem?”, sempre se pode ir adiantando um rotundo sim.

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