A maior ilha da Coreia do Sul, Jeju fica a sul da península, no Estreito da Coreia. Os seus 258 kms de costa, com uma montanha proeminente ao centro, aliados às paisagens vulcânicas fazem desta um paraíso tropical procurado por muitos coreanos e asiáticos, com infinitas atracções para miúdos e graúdos. A rota aérea Jeju – Seul é a mais concorrida do mundo, e os aeroportos locais que ligam a ilha mais parecem estações de metro em hora de ponta, tal é o movimento. Mas para além da beleza natural, Jeju é também a terra das haenyeo, as mulheres mergulhadoras em busca do marisco no mar, um símbolo cultural demonstrativo da tenacidade destas mulheres, distinguido como património imaterial pela Unesco.


Na costa leste da ilha de Jeju, o vulcão Seongsan Ilchulbong anda adormecido, mas continua a desempenhar um papel espiritual para os ilhéus. Carregado de misticismo, diz que as suas rochas feitas de cinza das muitas erupções têm as qualidades dos guardiões que protegem contra os demónios – os Dolhareubang, as esculturas de pedra (literalmente, avôs de pedra) que vamos vendo um pouco por toda a ilha, um símbolo de Jeju, a par das tangerinas e das haenyeo. O Seongsan Ilchulbong é um cone vulcânico (conhecidos localmente por oreums) de tufo a 182 metros acima do mar, originado há cerca de 5000 anos depois de um fluxo de magma sob o mar. Este fenómeno fez com que o cone erigisse isolado no mar, embora esteja hoje ligado à ilha por um istmo entretanto formado pelos sedimentos e areias acumuladas, e no topo tivesse sido formada uma cratera pelo contacto da lava quente com as águas frias do mar. Seongsan significa “castelo na montanha” e Ilchulbong “pico do nascer do sol”, alusões certeiras à sua forma e às panorâmicas que o seu topo proporciona.



Na subida até ao alto, um pouco cansativa mas acessível a todos se feita sem pressa, para além das formas singulares das rochas criadas pela lava, vamos vendo grandes vistas de terra e mar, incluindo da vizinha ilha Udo. No topo, às grandes panorâmicas junta-se uma vista privilegiada para a cratera, com 600 metros de diâmetro e 90 metros de profundidade, em tempos usada para agricultura, mas agora apenas preenchida com vegetação rasteira.



Na base noroeste da cratera, uma pequena praia aninha-se na enorme parede vertical do cone. Aí, um igualmente pequeno restaurante, a Casa Haenyeo, serve algum do peixe e marisco tirado directamente do mar pelas haenyeo, as “mulheres do mar”, de significado literal. O Museu Haenyeo não fica aqui, antes a cerca de 10 quilómetros de distância, em Gujwa-eup, mas este é o lugar onde se pode assistir a uma performance das haenyeo – com sorte, podemos vê-las em acção noutros pontos da ilha.

A tradição das haenyeo vem do século 17, passada de mães para filhas. Estas mulheres, também conhecidas por jomyeo, são um exemplo de persistência e pioneirismo, tendo desempenhado ao longo dos tempos um papel significativo na economia da ilha, e mesmo fora dela, uma vez que chegaram a ir mergulhar em lugares como Japão e Rússia. Esta forma de ganhar a vida, uma profissão a par das actividades domésticas, que eram e são também desempenhadas por elas, é igualmente parte de toda uma estrutura social. Note-se que o marisco e peixe apanhados por estas mulheres não era para seu consumo próprio, antes para venda a terceiros. Mais, como mulheres fortes e símbolos da ilha, foram elas que em 1932 iniciaram o maior movimento feminista anti-japonês, contra a exploração colonialista.



Historicamente, ainda meninas, com 8 ou 9 anos, começavam a aprender a mergulhar. E porquê as mulheres como mergulhadoras do mar? Muito provavelmente, devido às frequentes idas e perdas de vidas de homens para a pesca e guerra, bem como aos solos pouco dados à agricultura, não restando outra opção às famílias que não a dedicação das suas mulheres à pesca do marisco. Tudo isto é ainda mais assinalável num país como a Coreia, tradicionalmente influenciado pelo confucionismo, que considera que o papel das mulheres é cuidar da casa e dos filhos. Com o aumento dos níveis de educação e formas mais fáceis de ganhar a vida mas últimas décadas, as mulheres estão mais cientes do risco desta forma de vida e do sacrifício face a uma atividade que não é assim tão lucrativa. Estima-se que sejam hoje cerca de 2000 as haenyeo, a maior parte delas com mais de 60 anos.


Há todo um ritual associado aos mergulhos das haenyeo, iniciando o seu aquecimento prévio à entrada no mar em santuários próprios, onde executam ritos de influência xamânica em honra da deusa do mar e cânticos. As suas melodias estão ligadas ao ritmo das ondas do mar e são maioritariamente lamentos pelas suas vidas, maridos e governo. E os seus instrumentos de trabalho e roupas são simples e artesanais, um fato de mergulho, óculos, bóia, rede e uma faca (bitchang) para retirar o marisco das rochas. Pescam especialmente ouriços do mar e abalone, mas também polvo e outros. E conseguem mergulhar até 13 metros de profundidade aguentando a respiração por 2 minutos. Sem artifícios para além dos mencionados. É obra. A performance a que assistimos, com o Seongsan Ilchulbong e muitos turistas como testemunhas, é inspiradora e, para além de todas as palavras, gera um nós um respeito imenso por estas mulheres, com muitas décadas de vida árdua, símbolo da cultura e tradição de um povo. Só por elas, Jeju merece uma visita.




Igualmente surpreendente é perceber como uma ilha onde a natureza impera pode ser um lugar onde a arquitectura brutalista se integra na perfeição. Claro que esse resultado acontece pelo génio de um dos maiores arquitectos do mundo – Álvaro Siza Vieira também tem um projecto em Jeju, mas é Tadao Ando que tem aqui trabalhos de excelência. A Glass House é um deles, brutalismo lado a lado com a serenidade, betão e vidro de mãos dadas. Parte do Resort Pheonix Island, as colunas de betão suportam o corpo superior em vidro e o edifício impõe-se na paisagem. Com uma forma singular, o vidro domina em cada canto, de forma a que, quando no interior, se possa apreciar a envolvente na sua plenitude. Acompanha-o o trabalho de arquitectura paisagística, que dialoga na perfeição com o edifício, criando caminhos que serpenteiam à sua volta. Todos os detalhes foram pensados para que a arquitectura torne ainda mais grandioso o cenário natural.








Ao lado está o muito delicado Museu Yumim, também projecto de Tadao Ando, onde todos os elementos de bom gosto marcam presença. “Procurar a unidade entre os humanos, natureza e espaço, essa é a melhor arquitectura. Nessa medida, Jeju é uma terra atractiva”, eis a explicação do arquitecto. Ao entrar neste museu, pensamos que vamos em busca de peças de arte, mas o espaço revela-nos muito mais, constatando que arte pode ser tudo o que nos rodeia. A anteceder o edifício, há um generoso espaço exterior que percorremos em deslumbre: o som (vulgarmente dito música) é adaptado aos elementos, criando um ambiente tranquilo e relaxante. Há ainda o reconfortante efeito sonoro e visual da água a cair nas paredes. E um aroma agradável,? propositadamente criado para nos envolver. O betão permanece, mostrando que pode ser elegante. No interior do museu, o deslumbre continua, com belíssimas obras artísticas em vidro, muitas delas de arte nova, também inspiradas na natureza, num aproveitamento magistral dos espaços.

É provável de que da península onde estão instaladas a Glass House e o Museu Yumin, parte da mesma larga baía do Seongsan Ilchulbong, se alcancem grandiosas panorâmicas para o vulcão mítico de Jeju. Porém, o céu e, em consequência, o horizonte estavam baços e sem cor, feios, num palavra. Tínhamos escolhido terminar a nossa viagem pela Coreia do Sul na ilha de Jeju, para mergulhar entre paisagens exuberantes. Em quatro dias, nunca o sol apareceu, a chuva tornou-se um convidado inconveniente, afastando o desejo de experimentar as águas do mar de Jeju. Pior, o nevoeiro chegou a ser tão intenso que em muitos lugares nada pudemos perceber.






Foi o caso da arquitectura do Museu Bonte, mais uma obra de Tadao Ando, o primeiro museu do arquitecto japonês desenhado na Coreia, onde apenas pudemos usufruir do espaço interior. “Bonte” significa “forma original” e, à semelhança do projecto anterior, também aqui é evidente a intenção de integrar a natureza na arquitectura geométrica, incorporando a luz e a água como elementos arquitectónicos, numa perfeita harmonia da arquitectura com o ambiente. A colecção aqui exposta não o está de forma tão elegante como no Museu Yumin, mas vale igualmente a pena conhecê-la. São 5 galerias, parte arte coreana tradicional, parte arte contemporânea, incluindo obras de Yayoi Kusama, que teve uma exposição há pouco tempo no Museu de Serralves.


Já se disse, o mau tempo foi uma constante, mas não impediu que seguíssemos a passear. A montanha Hallasan tem 1947 metros, o ponto mais alto de toda a Coreia do Sul, mas não da península coreana – esse título pertence a Baekdusan, com 2744 metros. A identidade histórica coreana vai de Baekdu a Halla e diz-se que a energia do monte no norte (Baekdu) da península é a mesma do monte a sul (Halla), que marca o fim da Coreia, possuindo ambos elementos semelhantes. Hallasan ocupa uma grande parte do centro da ilha, considerada Parque Nacional, e são dezenas os oreums ao seu redor.


Há vários trilhos no Parque, mas apenas dois levam ao topo do vulcão, cuja cratera está ocupada por um lago. Não os percorremos, limitando-nos a subir ao oreum nas costas do centro de visitantes do Parque, o Eoseungsaeng-ak. São apenas 1000 metros para cada lado e a subida pelo trilho é fácil, permitindo-nos ficar completamente envolvidos pelo floresta típica da ilha. Mais, estava uma ventania e nevoeiro danados, mas a floresta não se deixou penetrar por eles, pelo que tivemos uma agradável caminhada. Para além de uma risota pegada pela aventura de tentarmos manter-nos de pé no topo da cratera, agarrando-nos bem aonde pudemos, não fosse o vento levar-nos a voar até uma outra cratera. Não tivemos, porém, direito a qualquer vista, tal era o nevoeiro.



Relativamente perto, voltámos a embrenhar-nos na floresta, desta vez pela Saryeoni, igualmente cerrada na sua vegetação, mas agora com umas árvores bem altas e formosas.




E visitámos a cratera do Sangumburi, mais um vulcão adormecido, com grandes e serenas paisagens ao redor.




Uma das grandes atracções da ilha, para quem gosta de caminhar, é o Olle Trail, uma rede de 27 rotas que ao longo de 437 kms seguem maioritariamente junto à costa, ligando povoações por caminhos que ainda hoje são usados pelos locais. Não percorremos nenhum deles, mas, como não podia deixar de ser, espreitámos a costa de Jeju em muitos dos seus pontos. Diga-se, desde já, que na Coreia, e na Ásia em geral, não se faz praia como no ocidente – aqui, as pessoas vão à praia para passear, brincar, molhar os pés, e não estender a toalha na areia ou mergulhar em fato de banho. E, bom, cortesia do clima, desta vez fizemos como os locais, aproveitando ainda para apreciar o recorte da costa.






Na costa noroeste de Jeju, a pequena faixa formada pelas praias Hyeopjae e Geumneung é uma das mais bonitas. Diante delas está a ilha de Biyangdo, a compor ainda mais o cenário. De areia branca, a água é cristalina e de cor esmeralda, e na maré baixa a rocha negra vulcânica fica à vista e podemos observar os “rasgões” nela solidificados, criando marcas curiosas. A lava é, aliás, uma constante na ilha, sendo os Túneis de Lava de Manjanggul uma das grandes atracções de Jeju, infelizmente encerrados aquando da nossa visita.


Na costa nordeste, o destaque vai para a praia Hado, com areia e relva. A sua implantação é também muito bonita, desta vez enquadrada pelo oreum Jimibong.







A costa norte é mais concorrida, com uma série de hotéis e restaurantes, mas não deixa de ter a sua dose de praias que merecem a visita, como Sehwa, Woljeong-Ri, Kymnyoung e Hamdeok.


Mas talvez a praia mais famosa de Jeju seja Jungmun. Num ambiente tipicamente tropical, com densa e luxuriante vegetação à beira mar, tem uma longa faixa de areia. No mar, os surfistas usufruem das ondas num belo cenário.



Estamos já na costa sul, onde fica Seogwipo-si, a segunda cidade da ilha, depois de Jeju-do. É aqui que está uma mão cheia de fenómenos geológicos e naturais, que fazem de Jeju uma ilha especial e muito desejada. Perto da praia de Jungmun estão as Cascatas Cheonjeyeon, muito bonitas e envolvidas na luxuriante floresta subtropical, cortada por um rio onde estão 3 quedas de água. A primeira delas é na verdade apenas um lago com uma cor irreal, mas talvez em épocas de chuva mais abundante possa ter a companhia de uma cascata. Diz a lenda que as fadas costumavam descer do céu para aqui tomar banho.



A segunda cascata é evidente, com 22 metros de altura, 12 metros de largura e 20 metros de profundidade. Neste caso, a lenda conta-nos que um dragão sagrado vivia na bacia do rio e que em tempos de fome os locais rezavam a pedir chuva na cascata, sendo as suas preces sempre atendidas.



A última cascata não é tão proeminente quanto a anterior, mas tem uma bela piscina natural a emoldurá-la, para além de um caminho com vegetação exuberante até ela, incluindo um canal de água ao estilo levada. O espaço deste complexo das Cascatas Cheonjeyeon tem ainda uma elegante ponte a ligar ambas as margens do rio – do outro lado encontramos um pavilhão de arquitectura e decoração tipicamente coreanas, bem como uma nesga de vista para a segunda cascata por entre a densa vegetação.



As colunas de basalto de Jusangjeolli não andam longe, mais uma das imagens de marca de Jeju. Ao longo de cerca de 2 kms da costa Jungmun Daepon, as falésias apresentam-se com riscas nas paredes rochosas, as “jeolli”, em coreano. Estas escorrências são o resultado da contracção da lava, em virtude do rápido arrefecimento das suas altas temperaturas, fenómeno formado há 250.000 a 140.000 anos. Veem-se cortes verticais, bolinhas e outras formas diversas que a rocha basalto tomou.


Mais adiante na costa, vemos outra formação rochosa curiosa, a Rocha Oedolgae, um pilar de pedra com 20 metros altura, isolado no mar junto à costa, fruto da erosão da rocha vulcânica pelas ondas.





Mas há mais cascatas nesta costa sul, uma delas a oeste da cidade de Seogwipo-si, mesmo à sua entrada, e outra a este. A Cascata Cheonjiyeon está também inserida num parque cheio de vegetação e atravessado por mais um curso de água. Dá-nos mais uns momentos idílicos e serenos, cheios de reflexos do arvoredo na água e pontes para atravessar entre as margens, culminando, então, no momento alto da queda de água.

Por fim, a Cascata Jeongbang, a única cascata na Ásia que cai directamente no mar. Com 23 metros de altura, o seu nome vem do facto de parecer seda branca pendurada do céu.


Perto fica o memorial a Seobul (Xu Fu), um enviado do imperador da China que veio a Jeju no século 3 a.C. em busca de plantas que permitissem a eterna juventude no Monte Halla. Não o conseguiu, mas deixou a inscrição “Seobul esteve aqui” cravada num penhasco. O nome Seogwipo virá desta história. E, historicamente, este sítio foi onde os penhascos foram usados para execuções durante a Revolta de Jeju, também conhecida como Incidente de 3 de Abril, um massacre de milhares de civis de Jeju que ocorreu entre 1948 e 1949, em decorrência da insurgência da população contra as más condições de vida na sequência da divisão da península entre o norte e o sul, tendo este ficado sob influência americana. Uma página negra na história da Coreia do Sul.
Seogwipo-si, para além de uma boa base para se partir a explorar a zona sul da ilha, é uma cidade agradável, com bons restaurantes para se provar o típico barbecue de porco preto e interessantes espaços museológicos. Infelizmente, o Lee Jungseop Art Museum estava encerrado, mas pudemos conhecer o caminho dos artistas em sua homenagem e uma pequena galeria a ele dedicada. Este artista nasceu no que é hoje a Coreia do Norte, estudou no Japão e voltou à Coreia, mas a guerra fez com que buscasse refúgio em Jeju. Por entre uma vida atribulada, triste e vítima de doença, conseguiu, ainda assim, legar-nos uma boa colecção artística.




A ilha de Jeju é, para além da sua natureza e geologia, um verdadeiro parque de diversões, com parques temáticos variados e para todos os gostos. Há o Parque Jardim do Snoopy, o Museu do Sexo e Saúde e mais um monte de parques temáticos. Tudo com entrada paga, claro, incluindo os parques das cascatas acima referidos. No entanto, uma das marcas mais reconhecidas de Jeju é o chá Osulloc, cuja visita aos seus campos de chá é de entrada livre, talvez porque sabem que iremos gastar muito mais do que o equivalente a uma entrada na sua magnífica loja, cheia de apelativos produtos. O complexo da Osulloc correspondente à loja / museu e casa de chá está certeiramente implantado na paisagem que o rodeia, com jardins e campos de chá à sua volta, cheios de linhas verdes perfeitas, um lugar muito atmosférico.



Os campos da Ossuloc estavam até 1979 abandonados, mas o fundador da marca teve a ideia de construir uma cultura de chá para as gerações que se lhe seguissem. E, assim, com determinação transformou estes campos num área ideal para o cultivo do chá, criando o “Chá Verde da Coreia”, sendo hoje uma das 3 maiores regiões produtoras de chá verde do mundo. A natureza desempenha aqui um papel essencial, graças aos 5 elementos que caracterizam Jeju: sol, vento, água, solo e nevoeiro. Acresce que cada um dos campos possui características únicas, produzindo diferentes cores, cheiros e gostos no chá. É, sobretudo, a alta concentração de matéria orgânica no solo vulcânico, o quente do sol e a água naturalmente limpa de Jeju que resultam num ambiente perfeito para o crescimento das folhas de chá. Ainda, os ventos fortes e frequentes que circulam na atmosfera permitem que as folhas absorvam melhor os nutrientes e os nevoeiros persistentes funcionam como uma sombra natural para que as folhas de chá se tornem vividas em cor, delicadas no gosto e elevadas em nutrição. Afinal o nevoeiro sempre serve para alguma coisa boa.