De Provesende ao Pinhão – 2° desvio à EN2

“Não é descer de Sabrosa para o Pinhão, estacar em São Cristóvão, e abrir a boca de espanto. Não é ir a São Leonardo de Galafura ou ao Miradoiro de São Brás, olhar o caleidoscópio, e ficar maravilhado. É compreender toda a significação da tragédia, desde a tentação do cenário, à condenação de Prometeu, ao clamor do coro.” – Miguel Torga, in “O Doiro”

Provesende é uma das mais belas aldeias vinhateiras do Douro. Situada no alto de um planalto, a sua implantação é privilegiada, rodeada de uma sucessão de montes e de muitas plantações de vinha. Com um longo passado e cheia de histórias para contar – uma delas a da origem do seu nome, que derivará de “pobre Zaide”, o mouro local vencido pelos vizinhos cristãos -, diz-se que nela podemos encontrar o maior número de casas brasonadas por metro quadrado. A cultura vitivinícola que aqui fez estabelecer uma série de nobres é a grande responsável pela sua construção, mas num espaço tão pequeno merecem ainda uma visita a Igreja Matriz e a Fonte Velha em estilo barroco, ambas do século XVIII, bem como o Pelourinho manuelino.

Do Largo da Igreja Matriz, situado a 590m de altitude, tem início um dos trilhos mais bonitos do nosso país. Ao longo de quase 6 kms descemos até ao Pinhão, a 80m de altitude. O trilho é conhecido como “Trilho Torgueano Provesende – São Cristóvão do Douro – Pinhão” e percebe-se porquê. Foi em paisagens esplendorosas como esta que Torga foi buscar inspiração para a escrita das mais belas descrições do nosso país, como aquela com que iniciámos este texto.

A região do Douro é um exemplo da sobrevivência e superação do Homem face a terrenos inóspitos. Com a permissão e colaboração da Natureza, desde a época romana que insiste na cultura da vinha e vem transformando a paisagem, moldando-a em socalcos. Em resultado e em reconhecimento, em 2001 o Alto Douro Vinhateiro foi distinguido pela UNESCO como Património da Humanidade. São cenários magníficos aqueles que teremos por companhia durante esta caminhada de pouco mais de 1h 30m.

Saímos de Provesende e logo começamos a descer – uma constante ao longo de todo o percurso, daí que este trilho seja relativamente fácil para qualquer pessoa em termos de esforço físico. Caminhamos em terra batida, junto a muros de xisto, percebendo que os solos aqui são xistosos. E logo tem início o desfile de vinhas. Vinhas e mais vinhas, nunca cansam, e o passatempo perfeito é observar as várias formas das suas linhas, quase todas elas dispostas em socalcos, mas todas plantadas nas íngremes encostas. As características topográficas e climáticas do Vale do Douro fazem com que esta seja uma região óptima para a cultura da vinha. Um solo ácido, um fundo dos vales húmido e sujeito a forte radiação solar e sobretudo a exposição e a orientação dos terrenos aliado ao clima mediterrâneo de invernos frios e verões quentes e secos, eis a conjugação perfeita de factores para que esta seja não apenas uma região propícia à vinha mas também uma de excelência para a produção de vinhos do Porto Vintages.

E é por isso que em toda esta zona encontramos das mais famosas quintas do Douro. Este trilho de São Cristóvão não passa por nenhuma delas, mas atravessa muitas outras vinhas particulares. E é por isso que, bem perto, percebemos que já se veem umas uvas, bem verdinhas. Mas as vinhas não estão sozinhas nesta paisagem, antes têm a companhia de muitas oliveiras.

À medida que vamos descendo vamos avistando o Douro ao fundo, mais um momento alto da caminhada. Afinal, é por ele que aqui estamos e é até ele que caminhamos.

Uma breve passagem na estrada permite-nos debruçar sobre a aldeia de São Cristóvão do Douro, no vale da outra vertente do monte, belamente rodeado de mais socalcos de vinha.

De volta ao trilho de terra, o Miradouro de São Cristóvão do Douro é soberbo. Como dizia o guia que aqui largou um grupo de ingleses, “este é o spot”: uma soberba vista do rio Pinhão a juntar-se às águas do rio Douro. Não vale a pena procurar mais, este é o lugar para se estar e deixar ficar. E talvez arriscar compreender a sua beleza dramática, que Torga tão bem nos tentou explicar.

O Pinhão já está mesmo à nossa beira, mas há que descer até ele. Diversos afortunados possuem aqui casas alcandoradas, todas com terrenos de vinhas, os mais felizes até com acesso ao rio. O rio Pinhão corre sereno e um moço privilegiado rema no seu caiaque, passando tranquilamente por baixo da ponte romana. O cheiro das figueiras adoça ainda mais o cenário idílico e acompanha-nos em até à foz do Pinhão, onde atravessamos o rio pela nova ponte pedonal, com vista para a ponte ferroviária (e mais para lá há ainda uma outra ponte).

A vila do Pinhão não é muito antiga, tendo crescido com o comércio do vinho do Porto no século XIX. Os vinhos continuam a sair do seu Cais, e se antigamente seguiam em pipas nos típicos barcos rabelos e depois de comboio, hoje fazem-no através de todos os meios de transporte ao dispor. O Cais do Pinhão é também muito movimentado pelo intenso turismo que a vila recebe. Daqui podemos sair a passear de barco e uns metros mais adiante tomar o comboio rumo à Régua ou a Tua. Mas neste Verão de Covid-19 tudo está estranhamente calmo, ideal para o sossego da observação dos incríveis reflexos dos montes que caem sobre o Douro. Pode ser uma paisagem oferecida, fácil, mas assumimos com todo o prazer o seu abraço preguiçoso.

Este percurso não pode terminar senão na estação de comboio do Pinhão. Pode ser hiper turística, um cliché até, mas esta é mesmo uma das mais bonitas de Portugal. Inaugurada no século XIX, foi a partir de 1937 que começou a ganhar fama pela beleza da decoração das suas paredes em azulejo. São 24 painéis em azulejo azul que através da representação de cenas do dia-a-dia no Douro contam a história da produção do vinho do Porto, desde o momento da vindima até ao transporte fluvial do vinho. E aqui, observando estes azulejos e as vidas que mostram, recordo uma passagem de “Vindima”, único romance de Miguel Torga, e percebo que o Douro nem sempre e nem para todos foi só passeio e facilidades, antes o tal resultado do esforço dos homens face a uma natureza inóspita.

“Depois da ceia, o pessoal, extenuado, esfarrapado é imundo, dormia pelos cantos a fazer horas. Ganho o dia aos cestos, numa escravidão de besta de carga, era preciso ganhar a noite, enterrado em vinho, num marcar passo que a princípio dava gosto e alegria, e depois era uma tortura sem fim.”

Pela EN2, na companhia de um castelo e de um mergulho: 2ª etapa – Vila Real – Lamego (61 km – 104 km)

“Numa curva da estrada, o Douro apareceu.” – Miguel Torga, in Vindima

De todas as seis etapas da nossa jornada pela EN2 esta é a mais curta, apenas 43 kms. Porquê? Precisamente porque “numa curva da estrada, o Douro apareceu” e sabemos que se dela desviarmos mais Douro teremos a inundar-nos.

Apesar de curta, esta etapa tem dos mais belos metros de toda a viagem.

Antes de deixarmos Vila Real passeámos pelo Jardim da Carreira, construído no século XVIII como jardim público da cidade, e conhecemos o Parque Corgo, a grande zona de lazer criada já neste século. Aqui espreitamos o Corgo, afluente do Douro a quem se irá juntar no Peso da Régua. A EN2 atravessa o coração de Vila Real, Sé de um lado, Paços do Concelho do outro, Casa de Diogo Cão à espreita, e à saída atravessa uma pequena ponte sobre o Rio Cabril antes de se fazer acompanhar pelo Vale do Corgo à sua esquerda. A situação geográfica de Vila Real, dominada pelo vale deste rio, é um pouco esquisita, fazendo com que ela ganhe altura e não seja fácil vencer os desníveis do território, com prédios encavalitados na encosta, não se podendo dizer que a cidade nova seja bonita. Mas depois de voltarmos a atravessar novo afluente do Corgo, desta vez o Sordo, este vale torna-se grandioso, e nem o enorme viaduto da A4 prejudica esta imagem.

A partir daqui o cenário entra num crescendo de panorâmicas épicas. As curvas sucedem-se e os montes invadem-se uns aos outros, tornando-se siameses, dando movimento à paisagem. Já se veem os famosos socalcos do Douro. E veem-se aldeias empoleiradas na encosta, como a bela Cumieira. A EN2 ainda atravessa mais um afluente do Corgo, o Aguilhão, antes de chegarmos a Santa Marta de Penaguião. A conjugação de montes e vales cravados por cursos de água moldou este território, fazendo dele um dos pedaços mais bonitos do nosso país.

Atravessamos Santa Marta de Penaguião e as suas esculturas públicas não enganam: esta é terra da vinha e da vindima.

Incrivelmente, a descida para a Régua consegue ser ainda mais bonita. As encostas, carregadas de vinha verde no princípio de Julho, estão dispostas em socalcos com linhas de vinhas que parecem uma obra de arte. Um cenário delicioso. Dá vontade de parar em cada berma da Estrada para com tempo melhor o apreciarmos, e felizmente vamos tendo espaço para o fazer. Pelo contrário, começamos a ver Peso da Régua ao longe, bonita com o Douro a enquadrá-la, mas aí já não temos a mesma sorte.

Estes breves 25 quilómetros de Vila Real à Régua são, não nos cansamos de repetir, beleza pura. Mas não chega. Da Régua desviamos da EN2 durante 19 kms para irmos ter com o Miradouro de São Leonardo da Galafura.

“O Douro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso de natureza. Socalcos que são passadas de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir […] A beleza absoluta.”

A Galafura deixa-nos sem palavras, mas felizmente Torga, sempre ele, dá-nos uma ajuda para tentar compreender o arrebatamento que nos tocou. Da Galafura ao Pinhão pela margem norte do Douro são quase 40 kms, num sobe e desce constante pela ruralidade da região, feita de aldeias e de quintas. Nos últimos quilómetros da descida para o Pinhão os artísticos socalcos voltam a acompanhar-nos. É tudo demasiadamente belo. O Pinhão é extremamente turístico, aqui param os barcos e o comboio, mas merece todos os elogios. A paisagem que envolve a vila é de uma serenidade tocante.

De volta à Régua, seguimos desta vez pela margem sul do Douro. São 25 kms pela EN 222, provavelmente a estrada mais romântica do nosso país. Sempre junto ao rio, observando os incríveis reflexos dos seus montes, a condução faz-se lentamente, para melhor aproveitar cada pedaço da tal beleza sublimada.

Já dá vontade para o um mergulho do dia e aqui começa a frustração. Temos um rio imenso, vilas e quintas carismáticas, mas está difícil escolher um lugar para nos envolvermos na sua água. A Régua não é bonita, cresceu desmesuradamente como eixo central da indústria do vinho, e nem para um mergulho sob a observação do homem da capa, o Sandeman, serve.

Temos de desviar até à Rede, praia fluvial oficial, a caminho de Mesão Frio. São apenas 10 kms sempre a direito, novamente junto ao rio mas agora na margem norte. Passamos pelas Caldas de Moledo, lugar das antigas Termas, hoje decadente e ao abandono. Na Rede também não se vê ninguém, espreito o rio, escolho o lugar e, finalmente, o meu primeiro mergulho no Douro. Só verde e água à volta. Que maravilha.

Daqui voltamos à Régua. As visitas a esta cidade ficam-se normalmente pela sua zona ribeirinha. Mas o seu coração antigo fica mais para o interior e lá para cima – esta é mais uma daquelas urbes que teve de vencer o desnível da sua implantação. Temos o largo da igreja matriz com coreto e alguns edifícios interessantes e, depois, por aí abaixo, o edifício dos paços do concelho até chegar novamente à beira rio. Aqui fica o Museu do Douro, instalado no edifício da antiga “Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro”, então detentora do monopólio da comercialização do Vinho do Porto, nesta que foi a primeira região vinícola demarcada do mundo, em 1756. Aqui se procura preservar a identidade e memória da região duriense, paisagem natural humanizada, com a exposição de objectos etnográficos ligados à vitivinicultura.

Até Lamego, última paragem do dia, são apenas 14 kms. Se a parte final da EN2 de Vila Real ao Peso da Régua havia sido sempre a descer, agora até Lamego é sempre a subir. A passagem do quilómetro 100 acontece lá em cima e o centro da cidade 4 kms depois, sendo que a Estrada faz questão de atravessar a sua bela avenida principal. Até lá, muitas vinhas e povoações penduradas na encosta.

À chegada subimos ao Castelo De Lamego – o nosso castelo do dia -, entrando pela pitoresca Porta dos Figos, em arco, a sua entrada norte. Aqui temos o núcleo arqueológico e centro interpretativo de um lugar que remonta à época romana. O Bairro do Castelo é pequeno e logo chegamos à Torre de Menagem. Diz-se que é obra dos mouros, mas terá sido construída no século XII, já a cidade estava sob o domínio cristão. Infelizmente, cheguei ao castelo a bater as 18:00, hora de fecho, pelo que já não pude nem deambular pela sua praça de armas nem subir à torre. Instalado num afloramento rochoso altaneiro à cidade, as vistas devem ser largas, mas tive de me contentar em vê-lo de fora.

De quase qualquer canto da cidade se avista o monte do castelo, como a caminho do Santuário de Nossa Senhora dos Remédios, por exemplo. Mas aqui o interesse é outro, e não necessariamente um de devoção religiosa. Momento brilhante da arquitectura barroca e rococó, a beleza do traçado da interminável escadaria (686 degraus) e os elementos decorativos que vamos encontrando em cada patamar são sublimes.

Já cá em baixo na cidade, a avenida central que prolonga o Santuário prolonga igualmente a sua beleza, pintalgada de mais esculturas e lagos.

Cidade-Património do Douro, muitos são os elementos arquitectónicos de visita obrigatória, como a Sé Catedral com o seu maravilhoso portal, diversos edifícios brasonados, o antigo Seminário e o antigo Paço do Bispo. Em comum, quase todos eles têm fachadas brancas fortemente dominadas pelo seus apontamentos em granito. Esta monumentalidade de Lamego, em especial os solares brasonados dos séculos XVII e XVIII, explica-se facilmente pelo seu passado ligado ao comércio do vinho nesta histórica Região Demarcada do Douro. E para terminar o dia, nada melhor do que compor a barriga com uma vitela arouquesa no literal Manjar do Douro.

Trilho das Fisgas do Ermelo – 1° desvio à EN2

“O pouco que sou devo-o às fragas. Foi a pisá-las que aprendi a conhecer a dureza do mundo e a admirar o ímpeto que se não resigna à lisa sonolência duma paz interior espalmada. A inquietação da terra vê-se nos montes. Sem eles, quem daria aos homens o permanente exemplo da sublevação natural que há no espírito da própria vida?” – Miguel Torga

Em territórios de Vila Real e Mondim de Basto, percorrer o trilho das Fisgas do Ermelo é a melhor forma de se conhecer e perceber a Serra do Alvão, sua natureza bruta e modos de vida das suas povoações.

De Vila Real ao Ermelo, a aldeia de xisto onde tem início o trilho, são 30 kms. Mas grande parte deles são percorridos no troço da EN 304 correspondente ao Vale da Campeã, entre as serras do Alvão e do Marão. São cenários grandiosos aqueles por onde rolamos nesta que é considerada uma das melhores estradas da Europa para se conduzir.

Deixamos o carro na aldeia do Ermelo, a quem foi dado foral no século XII por D. Sancho I, passamos pelo seu Pelourinho junto àquela que foi a antiga casa da cadeia e junta de freguesia (extinta), uma fonte aqui, um espigueiro ali e inúmeras casas de xisto com telhado de lousa. E são precisamente para umas placas de lousa que o artista local se orgulha de chamar a nossa atenção. Lemos os textos aí inscritos contando a história do lugar e dedicatórias à sua beleza e encanto (“há (sic) tarde quando anoitece / louco de tanta beleza / o Ôlo não adormece / canta um hino à natureza”) e iniciamos os 12 kms do percurso pedestre (PR3 Fisgas de Ermelo) que nos manterá epicamente ocupados ao longo das próximas quase 6 horas.

O Olo é o rio que nasce no Alvão, um pouco para lá da povoação de Lamas de Olo, e desagua no Tâmega pouco antes de Amarante. É ele a grande estrela deste trilho ao proporcionar, em parceria com as locais rochas quartzíticas, uma queda de água com um desnível de cerca de 400 metros que se desenvolve em diversos patamares, formando lagoas de água cristalina, as “piocas”. No entanto, o primeiro curso de água de que nos aproximamos é a Ribeira de Fervença (que em breve se juntará ao Olo), até onde descemos desde a aldeia do Ermelo e cruzamos a sua ponte de madeira.

A partir daqui iniciamos uma longa subida a caminho das Fisgas e da aldeia de Varzigueto, primeiro protegidos pela vegetação, mas logo a céu aberto – daí que a caminhada em dias de maior calor possa ser ainda mais extenuante. Só que as vistas são absolutamente fantásticas, um emaranhado de serras e penhascos agrestes – um lugar de espanto e terror, como tão bem caracterizou Miguel Torga -, onde ao longe uma espuma branca pinta um desses penhascos, escorregando por ele abaixo. São, precisamente, as Fisgas. Os pretextos para pararmos e deixarmo-nos absorver pela magia do cenário são muitos, fazendo com que nem a subida nem o calor nos detenha.

A Lomba do Bulhão é o primeiro miradouro oficial, mesmo de frente para as Fisgas e debruçada sobre o vale do Olo.

Todavia, durante esta primeira parte da caminhada, a da subida, as Fisgas têm a forte concorrência do Monte Farinha, acompanhado de mais dois ondulantes montes, todos em filinha uns ao lado dos outros. O Monte Farinha é, a par das Fisgas, o grande símbolo do concelho de Mondim de Basto, e tem o Santuário da Senhora da Graça no seu topo, lugar incontornável da passagem da Volta a Portugal em bicicleta. Já o tínhamos subido (de carro) num dia de vento e chuva e havíamos sentido que o ambiente que lá se experimenta era quase místico. Agora ao longe, vendo-o em toda a sua formosura no meio de uma paisagem imensa, não podemos deixar de recordar todo o seu poder.

Estamos em Terras de Basto e a felicidade inunda-nos. Que cenário!

As Fisgas ainda vão longe, por enquanto percebemos pouco mais do que a tal longa espuma branca a pintar a rocha, mas mesmo à distância o barulho intenso da queda da água faz-se sentir. À medida que circundamos o percurso, agora por um trilho com uma subida menos pronunciada, e nos aproximamos das Fisgas, vamos percebendo alguns dos muitos patamares em que vai caindo e as piscinas naturais que vai formando, as piocas. Este é um fenómeno natural onde um acidente geológico originado por uma falha interrompe o curso do Olo em sucessivas quedas de água em desníveis ao longo de centenas de metros.

Logo vemos uma pioca mais larga, vazia de gente, e definimos que é aí que vamos querer mergulhar. Mas não nos podemos distrair com a ansiedade e com o desejo de refrescar porque nesta vertente do trilho as lascas da pedra são usadas para definir o caminho.

Já estafados, finalmente o trilho dá-nos uma recta e até uma leve descida com o bónus de árvores como cobertura, uma espécie de descanso bem antes do meio do percurso.

Mais um miradouro, desta vez quase junto às Fisgas e às Piocas, próximo do Alto da Cabeça Grande, talvez o ponto mais elevado da nossa jornada, a 802 metros de altitude (a aldeia do Ermelo, onde começámos, está apenas a cerca de 420 metros).

É pouco depois que surge o desvio para as Piocas de Cima. Primeiro assistimos ao Olo a correr plano e lentamente. Depois percebemos um desnível seguido de uma piscina natural, mais um desnível e outra piscina, e mais um e outra, e poderíamos estar aqui até ao fim do dia a contá-los.

O lugar é verdadeiramente incrível e a vontade de uma banhoca gelada e refrescante ganha a concorrência de querer perceber como é a piscina que se segue. Controlamos uma vez mais a ansiedade e entramos na água, gentil e cristalina. Boiamos e olhamos o céu, a tentar acreditar que temos toda esta natureza para nós. Ainda dentro de água, espreitamos a próxima piscina. Demoramo-nos. Só então, já fora da lagoa escolhida, vamos caminhar em busca de mais piocas pelos blocos de pedras que as rodeiam que, por não serem escorregadias, não constituem um perigo de maior. Percebemos, com ingenuidade, que a tal pioca mais larga que viramos do miradouro anterior está um bocadão mais lá abaixo, sendo que o abaixo aqui é relativo, porque as verdadeiras Piocas de Baixo estão infinitamente mais abaixo. Digamos que esta lagoa generosa estará no primeiro 1/4 da infinitude da queda de água das Fisgas. Aliás, o nome “Fisgas” deriva precisamente desta forma que a água do Olo encontrou para se acomodar na parede rochosa, como que enfisgando-se.

Mas não vale a pena arriscar demasiado em busca de mais piocas, porque as que temos cá em cima temo-las que chegue. Continuamos, por isso, caminho rumo a Varzigueto, agora sempre junto ao Olo, estreito, quase um fio de agua sereno que vai dando para molhar os pés e a espaços até banhar o corpo todo.

Varzigueto, aldeia de montanha, está belamente implantada a 745 metros de altitude e aqui a ruralidade impera. Também com casas de xisto, palheiros e espigueiros, aqui as vacas pareciam indomáveis, teimando em escolher o seu caminho à revelia do seu domador. Não deixo Varzigueto sem quase tropeçar ou pisar num pedaço de qualquer coisa enrolado no chão. Felizmente que o senhor PAN não anda por aqui e alguém já lhe tinha dado uma paulada na cabeça, ou teria apanhado o susto da minha vida.

Atravessada Varzigueto, retornamos, passamos a ponte e seguimos agora pela margem contrária do Olo. Mesmo repetidas, as vistas continuam bonitas e, saciados, não desviamos novamente para as Piocas de Cima. O som forte da água a cair continua.

Pouco depois passamos pela Cancela do Miradouro com nova panorâmica, e mais próxima, para o Monte Farinha.

E logo chegamos ao mais famoso e acessível miradouro para as Fisgas do Ermelo, aquele onde se chega de carro imediatamente a seguir ao Fojo, com a sua capela, e o mais próximo que podemos chegar delas sem qualquer esforço físico. Há anos tinha aqui estado e é incrível como, apesar de brutal, não se percebe nem um décimo da enormidade das Fisgas. Aqui se lê e confirma com sentimento as palavras de Torga já referidas anteriormente: “Cá me vim debruçar também sobre o despenhadeiro das Fisgas, com os pés seguros pelos companheiros por causa das vertigens. E apreciei devidamente este misto de espanto e terror. A contemplação dos abismos naturais é necessária de vez em quando a quem tem a atracção dos outros. Toma-se consciência, com rigor físico, das asas que nos faltam para estar à altura da máxima de Nietzsche”.

Deste miradouro iniciamos uma descida num terreno de pedra. Até aqui o trilho tinha estado sempre muito bem marcado, com indicações amiúde, mas nesta descida perdi-me, voltando no entanto ao caminho com pouca demora e sem esforço de maior.

As Piocas de Baixo são outra das atracções da jornada. E começam por se ver e ouvir desde bem ao alto, logo aguçando a vontade de as espreitar de perto. No Ermelo tinham-nos dito que este era o lugar mais bonito de toda a região. Descemos, desviamos no trilho, descemos mais um pouco e aí estão as lagoas de baixo. Acontece que não esperávamos encontrar aqui tanta gente e, sobretudo, parafernália como colchões de água, bóias com patinho e música a sair demasiado alta de um rádio. Alguém chegou primeiro e tomou o lugar para si. Merecem respeito na mesma, uma vez que tanto para chegar às Piocas de Baixo como às de Cima há que caminhar mais de 1 km, nada é oferecido.

De qualquer forma, já não houve mergulho nestas piocas, antes subimos e seguimos rumo aos últimos 2 kms até à meta na aldeia do Ermelo. Que acabaram por ser um pouco mais, uma vez que alguma distração fez perder nova sinalização num qualquer cruzamento, levando a que se tivesse que saltar uns quantos muros até retomar o trilho. Continuamos a descer e aqui ficamos preocupados, porque sabemos que o casario de Ermelo está mais acima e, cansados, sabemos que teremos de enfrentar mais uma subida.

Cruzamos a ponte da Abelheira e reconheço a água do rio pintalgada de vegetação em forma de pompons que há anos tinha apreciado. Aqui é um bom lugar para descansar, tomar banho e até mergulhar.

E, bom, a partir daqui é mais 1 km sempre a subir. Com o acumulado da caminhada, quase 6 horas, é o que mais custa. Mas, com a chegada às casinhas de xisto do Ermelo todo o cansaço se vai e uma enorme alegria nos inunda pelo feito da conclusão de uma das mais épicas e incríveis caminhadas jamais feitas no nosso país. O coração do Alvão tinha sido atingido, mas eu é que sai conquistada, ainda mais após uma perseguição e espera de alguns anos.

Sirvozelo, o elogio da pedra

Nem me lembro mais porque achei que Sirvozelo devia ser uma paragem a visitar depois de deixar Pitões das Júnias a caminho de Vilarinho de Negrões. Há que fazer um desvio, mas no meu plano inicial achei que tinha de o fazer. E em boa hora o fiz.

Sirvozelo fica a sudoeste da Albufeira da Paradela, na bacia hidrográfica do rio Cávado, no concelho de Montalegre, limites do Parque Nacional Peneda Gerês. Estas são as Terras do Barroso, fortes em tradição e zelosas da sua identidade.

Sirvozelo é uma aldeia típica de Portugal. Para o bem, mas também para o mal. Está deserta. Os Censos de 2011 contabilizaram apenas 3 habitantes no povoado. Mas apesar da ausência de humanos, não sendo difícil arriscar que os animais estarão aqui em maior número, o interesse e a beleza deste povoado está na parceria Natureza-Homem que aqui deixou a sua marca.

O topónimo Sirvozelo derivará de “terra silvosa”, mas são as pedras que aqui fazem toda a diferença na paisagem. Terra de penedos e de poderosos e gigantescos monólitos de granito, as suas casas foram construídas de forma a aproveitar estes abrigos naturais. É vê-las encostadinhas aos pedregulhos. Parece até que os estão a sustentar. Alguns destes blocos têm formas magníficas e é incrível constatar como se equilibram. O Largo principal da povoação, onde fica a Capela, toma o nome de “Largo do Arrebatadouro”, e é isso mesmo que Sirvozelo faz em nós: arrebata-nos.

A volta à povoação faz-se num pulinho. As casas, de construção tradicional, são todas em pedra, excepção para os telhados em telha ocre, substitutos do já pouco usado colmo. Vemos os clássicos canastros. E vemos uns pedaços de terra verde, divididos e talvez prontos para o cultivo. Tudo isto guardado por formosos penedos.

Pitões das Júnias

Pitões das Júnias é dos lugares mais incríveis que já conheci. Por sorte, fica no meu país.

Um lugar que cabe numa road trip, um lugar para se caminhar por cenários dramáticos ímpares, um lugar de montanhas afiadas, um lugar com uma cascata com uma altura de 30 metros e um mosteiro com quase 1000 anos, um lugar com história e tradição, um lugar longínquo, isolado e desolado. Pitões das Júnias reúne tudo isto, um lugar de natureza e cultura, mas é sobretudo um lugar vivo.

Já havia estado nas Júnias anteriormente, mas essa visita entranhou-se de tal forma no meu imaginário que sempre pretendi repetí-la.

Desta vez entrei por Espanha e à aproximação dos seus inconfundíveis cumes afiados comecei de imediato a ficar ansiosa. Uma ansiedade saborosa, como a que sente a criança que sabe que está prestes a receber um doce.

Pitões das Júnias fica situada no concelho de Montalegre, literalmente para Trás-os-Montes. Este território é habitado desde o megalítico, daí as mamoas, antas e dolmens que se vêem na região.

A paisagem deste pedaço da Terra Fria transmontana, a tal que o dito sentencia “9 meses de inverno e 3 de inferno”, é fabulosa. Entre barragens – a Albufeira do Rio Salas, em Espanha, e a Albufeira da Paradela, em Portugal -, também à conta dos diversos ribeiros que descem da montanha nunca se está muito longe da água. Mas são os seus penedos que trazem o carisma à região e, em particular, a Pitões das Júnias.

A povoação ergue-se abaixo de umas montanhas escarpadas, como a Fraga da Espinheira, a 1337 metros de altitude na Serra do Gerês. Inconfundível e inesquecível na sua forma. E sob a sua protecção foi, então, instalada a aldeia de Pitões das Júnias, a 1100 metros de altitude. Embora agreste, este lugar está protegido dos ventos frios do norte e os tais cursos de água fazem com que as terras de cultivo sejam boas. O rei na terra é, no entanto, o gado, em especial o boi barrosão. Ele caminha livre por esta terra selvagem.

O gado é o centro da vida e da economia de Pitões – o presunto e o fumeiro local são de qualidade superior – e a ele está ligada uma das figuras mais emblemáticas do espírito comunitário da povoação, a vezeira. O pastoreio é aqui efectuado sob regras democráticas próprias, juntando-se todo o gado sob a vigilância de um ou dois pastores e, com isso, possibilitando a disponibilidade de mais braços para os restantes trabalhos colectivos como as segadas (ceifa) e as malhadas (debulha). O boi do povo é, assim, representativo da coesão social de Pitões das Júnias (mas não exclusivo dela, uma vez que Trás-os-Montes, na generalidade, é ainda hoje conhecida por esta sua faceta comunitária).

Não estranha, pois, que os edifícios da aldeia tenham quase todos eles lugares para guardar o gado.

Vale a pena percorrer as suas ruas sem demoras. As casas são representativas da arquitectura barrosã, em granito local e com cobertura de telha e já não tanto de colmo, e com rés-do-chão e primeiro andar. No rés-do-chão são guardados os animais e por vezes aí fica a cozinha, lugar não só de refeição mas também de convívio. O primeiro andar é reservado aos sobrados e à sala.

São muitas as casas desta aldeia que não é pequena, mas a maioria não está inteira. A sua população, segundo os últimos Censos de 2011, é de apenas 161 habitantes, tendo vindo a diminuir drasticamente desde há 70 anos. Claro que nas férias este número multiplica-se pela visita dos muitos emigrantes que daqui, em tempos, partiram para outras zonas do país e, sobretudo, para França e Brasil.

As casas estão dispostas à volta da igreja e os terrenos agrícolas rodeiam a povoação. A horta, essa, fica ali mais próxima das habitações.

Outro dos encantos de Pitões das Júnias é o seu Mosteiro de Santa Maria das Júnias. A princípio poderá causar surpresa o facto de este mosteiro estar afastado da povoação e situado num pequeno vale encaixado onde corre um ribeiro, quase como se pretendesse passar despercebido. Mas quando ficamos a conhecer que a sua função original era a de eremitério tudo tem mais lógica. Se bem que num lugar destes, de paisagem selvagem e bruta, a lógica não tem de ser chamada à razão.

Construído no século XII no lugar de um eremitério do século IX, este antigo mosteiro cisterciense (que começou por ser beneditino), com igreja românica, está praticamente todo ele em ruínas. Mantém-se erguida, precisamente, a igreja, e o seu campanário (mais tardio) e portal em arco com a cruz de malta são excelentes testemunhos do que foi a sua grandeza até ao século XVIII e à sua extinção definitiva por volta de 1834. Apesar da ruína, podemos perceber como era o mosteiro pelo que sobeja dos seus corpos.

O espaço tomado hoje pela relva, por exemplo, correspondia aos claustros e destes resta a parte da sua arcada gótica, três arcos de volta perfeita. Crê-se que a comunidade monástica de Pitões das Júnias tenha sido relativamente modesta, quer em número de monges quer em poder económico. Os monges dedicavam-se à pastorícia e ao apoio dos peregrinos em direcção a Santiago de Compostela.

Deste Mosteiro, subindo um pouco a encosta, saí um trilho que nos leva à Cascata de Pitões das Júnias. Mato rasteiro e blocos de granito é o que pisamos no caminho. Diz que por aqui, entre fauna diversa, podemos encontrar cobras de dois metros, mas inofensivas. Felizmente não o pude confirmar. A silhueta das fragas ao fundo tomou toda a minha atenção.

Seguimos junto a uma levada de água e a determinado passo temos de optar por desviar à esquerda e dar uma espreitada na Cascata desde cima – o barulho da água é ensurdecedor – ou tomar a direita para a ver desde frente. Podemos tomar as duas opções, esquerda primeiro, voltar, direita depois.

Poucas centenas de metros mais à frente chegamos aos infindáveis degraus da escadaria de madeira (atenção à descida, que os degraus confundem-se) que nos deixarão no miradouro face a face com a Cascata.

Graças a um desnível granítico, a água jorra desde uma altura de mais de 30 metros. Em baixo, no vale que se abre diante nós fica o Carvalhal do Beredo, guardado pelo recorte da Serra do Gerês. Um cenário imenso.