Wenceslau de Moraes

De Wesceslau de Moraes li dois livros este verão, “Paisagens da China e do Japão” e “Traços do Extremo Oriente”. A escrita do português mais japonês de sempre é delicada, intimista e apaziguadora. 
Algumas passagens tiradas do “Paisagens da China e do Japão”:
– talvez sobre os bambus de Kyoto, “Aqui, um bosque de bambus gigantes, cuja sombra eterna e cuja paz soturna dão alucinações aquele que se aventura em devassar o seu mistério”; 

– acerca do shintoismo, “O shintoismo da palavra shinto (a estrada dos deuses), é a crença primitiva, patriarcal, das épocas remotas mo Japão; e conservada até hoje, a despeito da grande propaganda de Buda que se fez e se faz, é ainda a religião nacional, a religião do Estado. O shintoismo é a adoração pelo sol, pelo Imperador seu filho, por todas as forças da criação, pelas divindades protectoras, pelos génios, pelos nobres, pelos heróis e pelos sábios. O templo de shinto é o recinto consagrado a uma dessas invocações. Distingue-se antes de tudo pelo torii, o grande arco de pedra ou de madeira avizinhando do lugar, e como que indicando o caminho ao peregrino. Torii quer dizer descanso dos pássaros.”;
– e, como não podia deixar de ser, qualquer texto sobre o Japão não pode fugir de falar sobre a impermanência das estações, “há alguns dias, na cidade de Kobe, – poderia precisar o dia, e quase a hora, se tamanho rigorismo me exigissem, – irrompeu a Primavera. Irrompeu: não há sombra de exagero no vocábulo, irrompeu, surgiu de um pulo, fez explosão. Neste país do Sol Nascente, onde o sol, e com ele todas as grandes forças naturais, são ainda uns selvagens – se assim posso expressar-me – uns selvagens sem freio, sem noção das conveniências, incapazes de se apresentarem de visita, de luva e casaca, numa corte qualquer da nossa Europa; neste Laís do Sol Nascente, ia eu dizendo, a criação inteira apostou, parece, em oferecer em cada dia uma surpresa, toda ela exuberâncias inauditas, espalhafatos únicos, repentismos nervosos, caprichos doidos, como se reunisse em si a quinta essência da alma das crianças e a quinta essência da alma das mulheres, a gargalhada, a troça, enfim, motejadora de tudo quanto é ordem, harmonia, contemporizadora lei das transições.”.
E mais algumas passagens, desta vez tiradas do “Traços do Extremo Oriente”:
– uma explicação mitológica de como foi formado o arquipélago da Japão, “Copio de um livro as seguintes linhas: – “Antigamente os deuses invisíveis residiam no céu. O deus Yzagani e a deusa Yzanani datam dessa época puramente divina. Um dia, alguns pingos de água caíram da lança do deus, quem quisera sondar a profundeza do mar, e formaram a ilha de Awaji, que se tornou a ilha dos seus amores. A deusa deu ao mundo as oito principais ilhas do Japão, depois os trinta e cinco deuses ou kamis, e entre estes Amaterasu, a deusa do Sol. Amaterasu resolveu suplantar todas as divindades que haviam governado o mundo, em favor de um menino nascido das jóias que lhe ornavam a fronte. O filho do sol desceu à ilha de Kiusiu onde, durante duas gerações, residiu a família imperial; depois do que, dois dos seus membros atravessaram o mar interior, guiados pela ave de oito cabeças e protegidos pela espada milagrosa. Conquistaram o Nippon central aos deuses e aos homens rebeldes. Um deles, Yware Hiko, cujo nome póstumo foi Jimmu Tenno, foi o primeiro soberano do Japão; morreu em 585 antes de Jesus Cristo; os seus descendentes ocupam hoje o trono.”;
– e para não deixar dúvidas sobre a preferência de Wesceslau entre o Japão e a China, eis um comentário definitivo, “China é suja e monótona. Loti dizia o inferno amarelo.”.

Tóquio – algumas apreciações

Tóquio não é uma cidade bonita, daquelas que lembraremos pelas formas das suas colinas ou pelo rebolar dos seus rios. Mesmo os seus arranha-céus, com excepção de uns poucos, não são facilmente identificáveis no skyline da cidade. Mas tem uma vida contagiante. A qualquer hora do dia se sente movimento, jovem e louco em Shibuya ou Akihabara, artístico e de negócios em Ropoongi ou Midtown, turístico e cerimonioso no Senso-ji, consumista em Ginza e Aoyama.

Ainda assim, é possível encontrar zonas sossegadas.

Alguns aspectos estranhos merecem ser elencados, desde logo a ausência de caixotes de lixo. Pelos vistos não fazem muita falta aos habitantes de Tóquio, que dispõem de uma rede fantástica de gestão dos resíduos em suas residências e, assim, já estão habituados a levar o lixo acumulado durante o dia para casa para reciclagem. O primeiro mundo é aqui.

Outro aspecto verdadeiramente surpreendente, mas muito comum na Ásia, é a disposição dos fios de electricidade pelas ruas, emaranhados como se fossem um ninho ou esticados como uma corda de secar a roupa. O terceiro mundo também tem lugar aqui.

No metro e comboio da cidade a regra – sempre respeitada pelos seus usuários – é o silêncio. Falar ao telemóvel é proibido e as carruagens não são lugares de convívio entre companheiros de viagem, antes lugares para uma soneca. O incrível é que o pessoal em Tóquio parece acordar sempre a tempo de sair no seu destino.

Outro sinal de comportamento higiénico é a proibição de fumar na maioria das ruas.

Mas se o fumo está ausente, uma presença constante são as lojas do Pachinko, aquelas onde se podem jogar aqueles jogos de máquinas ou aqueles jogos absurdos que o Japão exportou.

Intrigante é a quantidade de mulheres curvadas (corcundas, mesmo) que encontramos nas ruas, seja em Tóquio ou noutras cidades que visitámos. Elas lá vão, irrequietas, com os seus carrinhos de compras, mas a sua figura revela fragilidade. Uma fragilidade que pode ser a consequência de anos de trabalho no campo ou da falta de cálcio por não beber leite, quem sabe?

Para o fim uma curiosidade. Encontrámos vários japoneses que à resposta de que éramos portuguesas nos replicaram que já haviam estado em Portugal. Não é grande coisa, pois não. A questão é que para além de termos encontrado num restaurante uma revista com uma reportagem sobre a ilha da Madeira, esses vários japoneses para além do continente tinham todos visitado a Madeira. Será paixão pelas ilhas?

Japão – Tóquio – 16º dia

Pode ser esquisito, mas também não me importava de começar mais vezes os meus dias com um pequeno-almoço de sushi – uma das experiências que não se deve perder em Tóquio, em especial quando se visita o Mercado Tsukiji.

O Tsukiji, o mercado central de Tóquio, é considerado o maior mercado de peixe do mundo, quer em termos de extensão quer de variedade. Ver a chegada e posterior corte dos peixes que vão abastecer a maioria dos restaurantes de Tóquio é um ritual madrugador que não está acessível à maioria das pessoas, em especial se forem turistas. A verdade é que este mercado tornou-se tão turístico que, actualmente, a maior parte do seu interior está vedado antes das 9 horas. No entanto, às 5 horas já a fila está formada para que uma centena de pessoas assista aos leilões do atum.

Temos, então, um mercado interior, onde o bulício dos trabalhadores é intenso, e o mercado exterior, com lojas livres para os cidadãos. A maior piada está no mercado interior. Diz-se que a variedade das espécies marinhas por aqui ascende às 2000. Todos os nossos sentidos têm de estar totalmente alerta, não só para apreciar coisas nunca vistas, mas também para não se ser atropelado por uma das maquinetas conduzidas loucamente pelos trabalhadores. Ou seja, não é muito fácil percorrer-se este mercado interior, mas é extremamente compensador fazê-lo e poder sentir toda a azáfama no tratamento dos produtos marinhos.

O mercado exterior é óptimo para ir petiscando, uma vez que os comerciantes fazem questão de nos dar a provar algumas das suas iguarias.

Acontece que quando se passa para a visita ao mercado exterior é da praxe que já se tenha tomado o pequeno-almoço de sushi num dos restaurantes do mercado. O critério é tentar escolher um que tenha locais ao balcão, mas as filas são tão grandes em quase todas as portas que o difícil mesmo é aguentar a ansiedade de entrar em qualquer um deles para experimentar o delicioso sushi matutino.

As horas que nos restavam neste último dia em Tóquio foram passadas na área de Roppongi, mais especificamente nos empreendimentos de Roppongi Hills e do Midtown. O primeiro foi concluído em 2003 e veio mudar a paisagem de Tóquio e introduzir um novo conceito de planeamento urbano. O segundo foi concluído em 2007 e seguiu a mesma linha. Ambos são verdadeiros exemplos da arquitectura urbana deste século, grandes complexos de aço e vidro, que abarcam num mesmo espaço as vertentes de comércio, escritórios, residência, hotéis e centros culturais.

O Roppongi Hillstem-nos a dar as boas vindas diversas esculturas, entre as quais o Maman de Louise Bourgeois, a aranha gigante que já tínhamos visto em Londres e Bilbau. A sua maior atracção é a Torre Mori, de 54 andares. Nos andares 52 e 53 fica o Mori Art Museum e no último andar o observatório Tokyo City View, havendo ainda a possibilidade de subir ao telhado para ver o Sky Deck por mais uns yenes. Dizer desde já que pela vista não merece a pena, uma vez que a nossa capacidade de circular pelo telhado é bastante limitada, ficando, ao invés, com uma excelente vista para o heliporto. Mas dizer, também, que foi a melhor compra que podíamos ter feito porque a jovem funcionária dos bilhetes se baralhou toda na venda e em troca da nossa nota de 5000 yenes para pagamento deu-nos de troco 6000 yenes. Resultado: estávamos tão aflitas com o dinheiro, que não queríamos que sobrasse para não perdermos com os câmbios, que na verdade faltava-nos era dinheiro. Graças à menina que, pelo menos momentaneamente não soube fazer contas, pudemos ficar com mais dinheiro e tempo livre para seguirmos para o aeroporto num autocarro directo que saia mesmo junto ao nosso hotel. Sugoi de su ne!

A vista da Mori Towerfoi a melhor que encontrámos. Tempo limpo, dava para a nossa vista alcançar muito e tentar compreender melhor a ligação entre os bairros da cidade. Aqui de cima tudo ficou mais claro e percebemos que Aoyama e o seu mega cemitério é mesmo aqui ao pé. Isto anda tudo ligado. A Torre de Tóquio, famosa marca da cidade, espécie de Torre Eiffel mas em vermelho, estava ali mesmo à nossa disposição visual.

Quanto ao Mori Art Museum, de arte contemporânea, vimos aqui uma muito interessante exposição, daquelas que nos deixam a pensar, de seu nome “Go Betweens – O Mundo Visto Pelas Crianças“.

O Tokyo Midtown é igualmente um muito bem sucedido projecto de arquitectura urbana com diversas funcionalidades. Com espaços públicos muito agradáveis, quase fazendo esquecer que estamos numa das maiores metrópoles do mundo, possui um jardim no qual está instalado uma jóia da arquitectura, o 21 Design Sight, de Tadao Ando. Se em Kyoto tínhamos visitado um seu edifício residencial que achámos muito discreto e se o Omotesando Hills em Tóquio não tinha deslumbrado, as linhas deste centro cultural voltaram a fazer com que a minha admiração por Tadao crescesse. Simplesmente perfeito em arquitectura e enquadramento.

Para finalizar a nossa passagem por Tóquio, tempo ainda para um passeio e uma descansada pelos jardins do Palácio Imperial. Bonito, algo isolado da confusão, mas com os arranha-céus ao fundo para não nos deixar esquecer que estávamos em Tóquio.

Japão – Tóquio – 15º dia

Logo de manhã dirigimo-nos para a zona de Asakusa, junto ao rio Sumida, para visitar o Senso-ji, o maior templo budista de Tóquio.

Antes, porém, abeiramo-nos do rio para ver a Tokyo Sky Tree, a torre de radiodifusão de apenas 634 metrinhos, completada em 2012 e entrada imediatamente para o lugar número 2 do mundo das mais altas estruturas, atrás apenas do Burj Khalifa do Dubai.

O Senso-ji foi, com toda a certeza, o lugar mais povoado que encontrámos em Tóquio, rivalizando intensamente com o Shibuya Crossing. Ainda para mais, foi num domingo que o visitámos e, para além dos turistas de fora de Tóquio, apanhámos também com os locais. Zen é tudo o que não se deve esperar daqui. Incenso talvez, mas encontrões são garantidos. Ainda assim, tirando a confusão do edifício principal, onde se encontra uma estátua enorme de Kannon, a deusa da misericórdia, consegue-se encontrar nos seus jardins alguma tranquilidade e muitas mais divindades. E como é bonito o espaço.

À volta do Senso-ji, designadamente até chegarmos à sua entrada, o mar de gente já anuncia o que nos espera – um sítio super turístico. São lojas e mais lojas cheias de toda a parafernália capaz de adoçar os turistas. As ruas são pedonais e se fugirmos do centro somos ainda capazes de ser contemplados com algum do verdadeiro espírito da antiga Edo.


Aqui perto fica a Kappabashi-dori, também conhecida como a “cidade da cozinha”. É uma rua onde se vende tudo o que se possa imaginar existir de artefactos para fazer de uma banal refeição ou hora de chá um momento encantador e inesquecível. É impossível não nos perdermos a ver pratos e mais pratinhos ou copos e mais copinhos para, de volta a casa, sermos a inveja do bairro. Para além disso, aqui encontramos lojas inteiras que se dedicam à venda dos modelos de itens do menu da maioria dos restaurantes que vemos em Tóquio. Pois é, uma coisa estranhíssima por aqui é vermos pratos com comida que parece mesmo verdadeira em exposição na montra. Que facilita a vida ao turista, facilita, mas que não deixa de ser absolutamente kitsch, ai isso não deixa.

Continuando a caminhada do dia por Tóquio, seguimos para o Parque Ueno (Ueno Koen), onde ficam uma série de museus.

Optámos por visitar o imperdível Museu Nacional de Tóquio, o qual dispõe da maior colecção de arte japonesa, mas também de outras regiões. Mas, já que estávamos no Japão, vamos ao que interessa: aqui encontramos expostos elementos que nos permitem conhecer os inícios e a emergência do budismo no Japão, a adaptação autóctone para o budismo zen, a caligrafia, a arte da cerimónia do chá, alguma roupagem militar, biombos e portas de correr, o teatro no e kabuki e a pintura ukiyo-e. A cultura japonesa é verdadeiramente rica, daí que este museu sirva para aguçar o apetite a quem, de volta para casa, queira saber mais acerca de determinados temas.

O designado Museu Nacional de Tóquio é composto por vários edifícios, mas um deles, o que acolhe a Galeria de Tesouros Horyuji, do arquitecto Yoshio Taniguchi, é ele próprio uma perfeita obra de arte. Há que procurá-lo, que ele está lá, placidamente escondido.

Ainda no Ueno Koen fica outra gabada peça arquitectónica, o Museu Nacional de Arte Ocidental, obra de Corbusier da década de 1950.

Este Parque é muitíssimo concorrido, não só pela cultura que proporciona, mas também em termos de lazer. Aqui existe um lago curioso. Ao princípio tínhamos achado que o desenho no mapa era o de um lago com água, mas surpreendente foi verificar que era um lago, sim, mas cheio de lótus enormes. Diz que é comum no verão os lótus preencherem a água de tal forma que ela deixa de ser visível. Mais uma para o rol de estranhezas da cidade.
 

Saídas do Ueno Koen percorremos a rua que segue por baixo da linha do comboio até Akihabara. É conhecida como a Arcada Ameyoko, antigo mercado negro nos tempos do pós II Grande Guerra. Hoje parece ser um bom lugar para procurar pechinchas, para quem tenha paciência para o seu ar de feira ambulante.

Akihabara é o lugar dos o
taku, os nerds. Quem se encanta pela cultura japonesa actual – urbana e jovem -, que vai desde a indústria electrónica até à manga e anime, vai se sentir aqui como no céu. Este é todo um novo mundo. Akihabara é conhecida como a “cidade da electrónica”, mas hoje vem ganhando o título de “cidade da manga”.

São edifícios inteiros dedicados a todo o equipamento electrónico do passado, presente e futuro. Sim. Mas, são também edifícios inteiros dedicados a esse mercado inacreditável da manga, a banda desenhada japonesa. Universo este que é composto pelos livros, sim, mas também por todo o merchandising à sua volta, como acessórios, roupa, bonecada. E os livros, bem, os livros possuem as temáticas todas, incluindo histórias de rapaz encontra biblicamente rapaz, ou rapariga encontra biblicamente rapariga, ou ambos os quatro se encontram juntos ou separados, em número suficiente para encher vários pisos inteiros. Sério, isto existe?

O fim deste dia intenso terminou numa izakaya recolhida em rua interior de Ginza, numa esplanada improvisada no passeio, mesas ainda mais improvisadas aproveitando grades de cerveja. Seria o último jantar no Japão e ainda hoje tenho a certeza de que poderia ser feliz a alimentar-me todos os dias daqueles petiscos fantásticos.

Japão – Shimoda e Shirahama – 13º e 14º dias

A uma sexta-feira decidimos ir passar uma espécie de meio fim-de-semana à Península de Izu, uma escapada algo comum para os habitantes de Tóquio. O local eleito foi o mais a sul nesta Península, Shimoda, a pouco mais de duas horas de comboio não directo de Tóquio. A viagem é extremamente agradável, em especial o troço que segue de Ito até Izukyu Shimoda (é este o nome correcto da estação, só Shimoda induz-nos em erro e leva-nos para outro lado). Quase sempre junto ao Pacífico, vamos vendo a água super azul, num belo contraste com o verde da vegetação.

 Shimoda já aparecia em documentos históricos de períodos antigos do Japão, mas o seu papel na história ficou definitivamente cravado quando na década de 1850 teve um contributo decisivo para a abertura do país do sol nascente. Foi na sua baía que os “black ships” do Comodoro Matthew Perry aqui aportaram em primeiro lugar e, assim, a cidade de Shimoda tornou-se o primeiro porto japonês a abrir-se aos estrangeiros, acabando com a política de séculos de seclusão do xogunato Tokugawa. Tratados foram aqui assinados com os americanos e, anos mais tarde, tratados voltariam aqui a ser assinados com os russos.

Hoje, como reconhecimento do papel de Perry no impulso da modernização do Japão, vemos um monumento com um busto seu e uma rua com o seu nome, por sinal do mais pitoresco que pode existir. Já lá vamos.

Antes, dizer que é imperdível seguir o percurso sugerido pelo turismo da cidade, saindo da estação directamente para a baía e seguindo sempre junto à costa, contornando-a até irmos alcançar, precisamente, a Rua Perry.

A costa é bordejada por montes cheios de vegetação. Ao contrário da calmaria das águas da baía, as ondas num mar algo revolto teimavam em bater junto às rochas na costa mais aberta. O suficiente para abrir o apetite da mana para a sessão de surf que esperava vir a ter mais tarde.

Shimoda tem vindo a transformar-se de porto de pesca para centro de turismo. No entanto, não lembro de nos termos cruzado com um só turista, quer junto à costa quer nas suas ruas. Estas possuem um ambiente de cidade perdida, peixe deixado a secar à porta, cafés e comércio que poderíamos encontrar numa aldeia portuguesa. A Rua Perry, pelo contrário, é bem distinta. Com um canal a dividir os dois lados da rua, aqui encontramos um ambiente mais vivo, lojas de artesanato, cafés com estilo, rua lindamente decorada com flores.

Existem diversas praias perto de Shimoda, mas a nossa escolha para passar a tarde, noite e manhã seguinte recaiu em Shirahama. O seu nome quer dizer qualquer coisa como “praia de areia branca”, ao que parece com a ajuda dos australianos que para aqui transportaram alguma dessa areia.


Shirahama é ainda descrita como uma surf city. Por sorte, na tarde em que chegámos havia condições suficientes para qualquer surfista se divertir um pouco. E para qualquer banhista ter um dos seus primeiros dias de praia do ano (no dia 11 de Julho? Onde é que isto já se viu? Cortesia de São Pedro para Lisboa 2014).

A praia é bonita. O enquadramento é especial, com muito verde à volta. Os edifícios que a acompanham não são nada de especial, e existe mesmo lá um hotel mamarracho que não faz falta nenhuma (se fosse necessária confirmação, não é só em Portugal que existem atentados à paisagem). Mas no final da praia, sobre uma rocha saída, existe um santuário xintoísta – apenas o tori – que o torna um dos mais bem localizados em todo o mundo, certamente.

O nosso hotel ficava perdido no meio da estrada, com uma vista fabulosa para o mar. E com um pequeno onsen, aberto de noite e exclusivo de um dos quartos, sob marcação, com uma vista para o mesmo mar e, nessa noite, para a lua cheíssima.

Foi, aliás, a lua cheia que nos safou quando terminámos a nossa tarde na praia e nos pusemos a caminhar para tentar descobrir outras praias vizinhas, passando por uns templos. Quando voltámos era já noite e a rua principal não tinha iluminação. Arranjar um restaurante também não foi muito fácil, uma vez que as alternativas não eram muitas. A verdade é que Shirahama não está assim tão desenvolvida. É uma perfeita cidade de praia perdida no mundo e isso é bom, muito bom.

A manhã do dia seguinte foi totalmente dedicada ao escaldão. Cerca de 30 graus, água quase à mesma temperatura. Sem ondas, desta vez. Como era sábado, a praia estava muito composta. Entretivemo-nos a observar a dinâmica da praia.

Uns levam a tenda – literalmente – e todos os apetrechos indispensáveis a um bom dia de praia, como carne e champanhe. Todos possuem bóia como amiga inseparável no momento de ir molhar os pezinhos. Outro (foi só um) escolhe usar como indumentária a roupa que o Borat imortalizou, mas desta vez em cor-de-rosa e, depois do almoço, em verde choc. Este senhor estava mesmo deitado ao nosso lado, com um género de capacete a protegê-lo do sol, e nem queríamos acreditar na figurinha.

Praia no Japão? Diversão garantida.

Voltámos para Tóquio ao fim do dia e resolvemos que ainda tínhamos tempo para passear por Harajuku, com o pretexto de descobrir a embaixada do Brasil na cidade, uma vez que tinha visto umas fotos do pavilhão especial que aí instalaram para a Copa e a sua arquitectura me tinha agradado. Dêmos como o edifício, mas claro que já era de noite e não o pudemos apreciar. Ou seja, não há testemunhos de eventuais ondas de choque que os 7×1 possam ter deixado por este oriente.

Mas a viagem não foi perdida. Aliás, nada se perde em caminhar, sempre se conhece e aprende e apreende algo de novo. No caso, a pacatez de Harajuku e Aoyama, em que a poucos metros de uma meca do consumismo se consegue encontrar ruas estreitas com prédios baixos, uns de arquitectura banal, outros verdadeiras vilas ode ao bom gosto. Acabámos por jantar numa pequena osteria com esplanada no mini passeio, numa destas ruas calmas. Poderia ser Europa, mas a barata que atravessava zelosamente a rua lembrava a humidade deste início de noite de Julho em Tóquio.

Japão – Fuji – 11º e 12º dias

De manhã seguimos de comboio, cerca de duas horas não directas, para o digníssimo Fuji-san, a montanha sagrada dos japoneses. Eis um bom site sobre a ascensão ao Fuji.

A viagem desde Tokyo pode ser feita directamente de autocarro desde Shinjuku até à Quinta Estação, mas como tínhamos o passe de comboio optámos por seguir até Otsuki e aí trocar para Kawaguchiko (apesar desta viagem não estar coberta pelo passe). Neste último percurso de comboio temos o Fuji-san por companhia e aqui o vemos pela primeira vez, apesar de garantirem que ele é visível de Tóquio num dia claro. São cerca de 100 quilómetros de distância, mas o maior impedimento para ver a maior montanha do Japão desde a maior cidade do Japão é mesmo a claridade, o céu limpo, coisa talvez só possível num dia de inverno.


O Fuji-san, vê-se à distância, é soberbo na sua elegância. São 3776 metros de pura majestade, ainda salpicados neste mês de Julho aqui e ali com linhas de neve, que o tornam ainda mais distinto. Da janela do comboio, é impossível afastar o olhar da sua formosura cónica. Perfeito.

Kawaguchiko é uma das cidades / vilas da região dos 5 lagos que envolve o Monte Fuji. Neste dia serviu-nos como rota de entrada para seguirmos directamente para a 5a Estação, a 2305 metros, até onde chegam a maior parte daqueles que querem admirar o Fuji-san de mais de perto ou donde partem aqueles que querem alcançar o seu topo. Nós estávamos neste último grupo. De qualquer forma, e em apanhado curto, subir o Fuji-san pode ter sido uma tradição sagrada, mas só chegar à 5a Estação já é inspiração suficiente. Na verdade, o que antes era uma peregrinação sagrada, hoje é um passeio turístico.

Uma coisa não mudou, porém: a sua ascensão implica alguma devoção. Não que subir ao topo do Fuji-san seja uma missão só para uns poucos Hércules. Nada disso. O trilho está bem marcado, sendo o de Yoshidaguchi o mais concorrido, e vê-se por aqui, pelo menos no início da caminhada na 5a Estação (que há quem a inicie desde mais abaixo), todo o tipo de pessoas. Jovens que parecem estar em boa forma, jovens que parecem ter estreado umas botas / ténis só naquele momento, grupos de adolescentes em excursão da escola, famílias com filhos pequenos, cinquentões já bem entradotes, homens e mulheres. A questão é que os cerca de 7 quilómetros até ao topo, mais ou menos percorridos em 6 horas, são efectuados numa subida constante, nem sempre num terreno fácil. E, depois, há que sobretudo contar com as surpresas da altitude, que os corpos não reagem todos da mesma maneira. No meu caso direi que comecei por apreciar a quase base da montanha, terra negra a lembrar a sua origem vulcânica, mas surpreendentemente cercada de uma vegetação verdíssima. O contraste é mais uma daqueles imagens que não sairão da memória, a juntar a toda a beleza do Fuji-san. À medida que ia subindo, tentando acompanhar o ritmo louco da mana, que certamente deveria querer bater um qualquer recorde (dizer, para antecipar, que não iríamos precisar das 6 horas de média previstas para a ascensão), fui deixando de poder apreciar a paisagem em toda a sua plenitude. Entre uma golfada de ar e outra a atenção a dispensar aos pormenores foi sendo inadvertidamente reduzida.

O plano era chegar até à estação 8,5 onde iríamos pernoitar no nosso abrigo de montanha, o Goraiko-kan, a 3450 metros, a apenas 800 metros do objectivo final, a 45 minutos de distância, mais coisa menos coisa. Este é o último abrigo. Chegámos aqui por volta das 18:00, sempre com um dia bom, sem chuva e sem vento, e com necessidade apenas no último quilómetro de vestir algo mais do que uma t-shirt. Ainda tínhamos mais uma hora de luz, mas deixámo-nos ficar ali, a ver as nuvens que se iam pondo abaixo de nós. Jantar às 18:30 e cama logo de seguida, que o despertar estava previsto para as 4:00 da madrugada para ver o sol nascer. O abrigo é uma cabana onde parte é zona comum, onde se toma as refeições, e a outra parte é o dormitório, onde as ovelhas, perdão, as pessoas são colocadas para dormir. Uma vez que este dia não calhou a um fim de semana, nem a época alta estava no seu pico, pudemos dormir a uma distância de cerca de 30 centímetros do colega do lado. Sorte que de um lado eu tinha uma parede e do outro a mana.

Estávamos avisadas de que o clima por aqui muda com muita frequência, daí que mesmo que se inicie a ascensão com sol de 30 graus devamos levar conosco roupa adequada ao tempo frio e de chuva. Ao fim da tarde, a conversa dos rapazes do abrigo (eles vivem ali?) sobre tufão e coisas do género, bem como o facto de meia-hora depois de termos chegado com tempo lindo se ter posto um tempo fechado e chuva, deveria ter servido de alerta. Durante a noite, mal dormida, a sempre corajosa mana dizia-me que estava com medo. Não era para menos. O barulho do vento era arrepiante e o facto de estarmos num abrigo de madeira a mais de 3000 metros de altitude não ajudava. A ideia era: mesmo que daqui a pouco não consigamos subir os 800 metros que nos faltam, como é que vamos conseguir descer os 6 quilómetros já conhecidos?

Infelizmente, utilizando a razão, tivemos de deixar de lado o plano de subir até à cratera do Fuji. Um dos irmãos nórdicos que o fez nessa noite / dia, e que conhecemos na descida, disse que foi chegar lá, tirar uma selfie, e descer logo, sempre agarradinhos ao chão para não voarem. O outro irmão não conseguia nem falar, tal deve ter sido o medo.

Nós descemos mal o dia raiou e não foi muito fácil. O vento era intenso e empurrava-nos de tal forma que tínhamos de cravar bem os pés na terra.

O tempo no Japão é mesmo uma matéria.

A manhã em Kawaguchiko foi triste. Do seu lago nada de avistar o Fuji-san. Aliás, com aquele tempo, podíamos caminhar por toda a região próxima deste ícone que não o vislumbraríamos. Mas, há que dizê-lo, esta região será fantástica para caminhadas e mais contacto com a natureza, para além de existirem também aqui uns quantos onsen.

 

 

De volta a Tóquio, depois de descansarmos um pouco saímos para uma volta por Shimbashi e Shiodome. Arranha céus com espaço público arejado junto de uma frente de rio algo confusa pelas obras que provavelmente tratam de ganhar mais espaço à água. Por aqui ficam alguns edifícios interessantes, nomeadamente o Dentsu de Jean Nouvel, parte do complexo Caretta Shiodome, misto de comércio, restauração e escritórios. Deve-se subir até ao seu 46 andar, o antepenúltimo, para vistas desta parte da cidade. Lá embaixo vemos com mais perfeição o trânsito e a baia de Tóquio, bem como os contornos do mercado Tsujiki e do parque Hama Rikyu. Inexplicável como este parque, que dizem delicado e sossegado, fecha às 17:00, quando nesta altura do ano, pelo menos, existem mais duas horas de dia pela frente.

 

Depois de mais um passeio até Harajuku decidimos acabar o dia na Sunshine City de Ikebukuru, mais um mega complexo que junta comércio, serviços e escritórios. E um aquário e um planetário. E um ultimo andar transformado em ponto de observação a 251 metros acima do solo. Foi para isto que aqui viemos, na expectativa de imaginarmos uma visão nocturna do Monte Fuji, para além de toda a Tóquio.

E também para experimentarmos um dos loucos sabores de gelado na cidade do gelado no Sunshine. Mas onde é que estava ela? Mais uma vez o meu japonês não funcionou por estas bandas.

 

Japão – Tóquio – 10º dia

Ao contrário de Kyoto, ninguém vai a Tóquio à espera de encontrar belos e encantadores templos. A explicação encontra-se facilmente no facto de Kyoto ter sido a capital imperial, lugar de cultura, e Tóquio ter-se tornado capital administrativa apenas no século XVII – era, então, a Edo. Acontece que em 1853 o Comodoro americano Matthew Perry chega com os seus barcos à Baia de Tóquio e, a partir daí, tudo muda no Japão. Vendo a necessidade irreversível de se abraçar a modernidade, dá-se a Restauração Meiji em 1868 e, com ela, viria a transferência definitiva da capital do país para Tóquio, a capital de leste, agora tanto em termos administrativos como imperiais.

Assistiu-se a uma rápida industrialização, as linhas ferroviárias cresceram sem parar, a luz eléctrica apareceu, bem como edifícios ao estilo ocidental em bairros como Ginza. Nem o altamente destruidor terramoto de Kanto, em 1923, foi capaz de parar a intensa modernização da capital, reerguendo-se os japoneses num ápice. Idem para os bombardeamentos aliados de 1944, os quais destruíram dois dos maiores templos de Tóquio, o Meiji-jingu e o Senso-ji, logo reconstruídos. O resto da história, já se sabe, o Japão após a capitulação do imperador Hirohito, em 1945, viria a transformar-se por completo, quer no seu íntimo – renunciando à militarização e domando o seu espírito nacionalista e expansionista – quer no seu exterior. As grandes empresas adaptaram-se e criaram os grandes conglomerados que hoje reconhecemos, como a Mitsubishi e a Toyota, e os cidadãos adoptaram o “american way of life” e superaram-no, criando uma economia pujante e uma cultura que iria ela própria cativar os ocidentais.

Vem isto a propósito de não se esperar encontrar belos e encantadores templos em Tóquio. A verdade é que, ainda assim, tal é possível.

Começámos a manhã com um passeio pelo Meiji-jingu, rivalizando no caminho com as centenas de chineses que tiveram a mesma ideia. À entrada do parque encontramos, empilhados, cestos de sake, cada um mais bonito do que outro. O santuário é xintoísta, arquitectura moderna, equilibrado, vendo-se ao fundo os arranha-céus da cidade. Apesar de ficar às portas de Harajuku e Aoyama, das zonas mais movimentadas da cidade, consegue-se viver no santuário e nos jardins à sua volta uma calma imensa e sentirmo-nos mesmo afastados da louca vida urbana.

Aqui perto fica o Estádio Nacional Yoyogi, que acolheu os Jogos Olímpicos de Tóquio em 1964, um momento de viragem para os japoneses, em que sentiram que finalmente tinham passado os tempos de guerra e a sua reconstrução bem conseguida os havia permitido fazer parte das mais modernas economias. A arquitectura dos edifícios que ainda aqui encontramos, cortesia do arquitecto Kenzo Tange, é notável. O Ginásio Nacional Yoyogi é fantástico nas formas que toma, lembrando uma concha ou, quem sabe onde a imaginação nos leva, porque não a crista de um cabelo mantido a gel.

A ponte que nos leva da estação de Harajuku ao parque do Meiji-jingu ou ao parque Yoyogi é onde os meninos e as meninas do cosplay se costumam encontrar. Não vimos nenhum ajuntamento em especial, mas vimos, sim, muita gente estranha aqui perto, principalmente na Takeshita-dori. Esta estreita rua acolhe lojas estranhíssimas, desde roupa e acessórios esquisitos até gelados em formato de pizza que são depois enrolados de forma a fazerem um cone. À entrada, anunciando os produtos, estão indivíduos (nem sempre dá para entender qual o género dos ditos) vestidos e produzidos das formas mais bizarras. Tóquio é reconhecida também pela excentricidade das suas gentes, as quais se orgulham de sair para a rua tal e qual os seus personagens preferidos. Toda uma cultura à parte para quem não está minimamente por dentro do universo manga e anime.

Deixando a Takeshita-dori e atravessando a Rua Takeshita fica todo um mundo de lojas trendy por descobrir e, sobretudo, o Design Festa. Este é um edifício absolutamente esquisito (mais um), cheio de tubos no seu exterior, uma espécie de aranha, nada mais do que o cartão de visita para a criatividade que se experimenta dentro das suas portas. São diversas salas que podem ser reservadas pelos artistas para expor as suas obras e ao meio, num pátio, existe um café com comida ligeira.

Ainda em Harajuku fica o Museu Ukiyo-e Ota Memorial Art. O Ukiyo-e é uma arte de pintura japonesa em blocos de madeira e as suas obras ficaram conhecidas como pinturas do mundo flutuante. Esta arte é lindíssima e sou uma apaixonada por ela (mais textos sobre o assunto aqui). Retrata imagens da vida do dia a dia, de personagens do kabuki, samurais, dos distritos do prazer, paisagens como as celebradas pinturas da onda e do monte Fuji do mais do que celebrado Hokusai, em exibição num qualquer museu ocidental perto de si (pois é, se se quer apreciar de perto estas obras japonesas o melhor é ir ao British em Londres ou ao Met em Nova Iorque). Voltando ao Museu Ota, este consegue exibir de três em três meses apenas uma ínfima parte da sua colecção. Nós tivemos a oportunidade de assistir a uma exposição dedicada ao tema “Espectros, fantasmas e feiticeiros“.Teria preferido uma coisa mais delicada, mas toda aquela panóplia de monstros também  não caiu nada mal.

E, para algo totalmente diferente, temos a Omote-sando. Edifícios com as marcas mais inacessíveis ao comum dos mortais, desenhados pelos deuses da arquitectura. Desde logo o Omote-sando Hills, um centro comercial obra de Tadao Ando. Depois, do outro lado da rua, o Louis Vuitton de Aoki Jun, tendo por vizinha uma igreja – os extremos juntos. E o Tod’s de Ito Toyo. Mais abaixo o Comme dês Garçons de Kawakubo Rei e, cereja no topo do bolo, a Prada de Herzog & de Meuron. Pelo meio destes, muito edifício e loja para os quais os nossos sentidos têm de estar muito atentos.

Subindo de volta a Omote-sando, seguimos depois pela Meiji-dori rumo a Shibuya. A Meiji-dori continua com lojas e mais lojas, mas agora um pouco mais populares, como de surf, street wear e montanha. Não é má ideia deixarmo-nos perder pelas suas ruas interiores, mas acabámos sem tempo para o fazer.

Shibuya é mais um distrito louco de Tóquio. Muita confusão, muita juventude, muita loja estranha, muita confusão. A Shibuya Crossing, uma intersecção de ruas desenhada a zebra das listas brancas da passadeira, é um exemplo vivo do pulsar da cidade. Por mais que já se tivesse visto em filme, é uma experiência única e arrebatadora. O melhor é atravessar a rua na diagonal como os tokyoites e depois subir ao Starbucks e ficar a ver o cenário junto a uma das suas janelas como os estrangeiros. A qualquer hora do dia, são milhares de pessoas constantemente para lá e para cá, um movimento belíssimo num cenário de neons.

Saídas de Shibuya o destino era Daykanyama e Ebisu. Até lá caminhámos pelo bairro dos hotéis do amor, mais uma vez cada um mais estranho do que outro, não só pelo conceito, mas também pelos edifícios em si. Rico, muito rico.

Passámos por ruas absolutamente calmas, estreitas, quase uma aldeia dentro da grande metrópole.

Daykanyama não é tão pop assim. Chegámos já de noite, má hora para as fotografias. Terá que ficar guardado na mente. Uma loja da Saturdays Surf NYC, onde provavelmente vimos o mais  bonito shortjohn de sempre, com um terraço com uma vista de um fim de tarde a fazer lembrar Amã – que associação estranha, seria do cansaço de um dia todo na rua a caminhar?
 

Mas Daykanyama ficará para sempre na minha memória pelo T-site, uma mega loja de livros (e também música e vídeo) com uma (mais uma) arquitectura fabulosa. São três edifícios “caixa” ligados entre si, todo um conceito melhor explicado aqui. Estilo é a palavra de ordem.

Daqui a Ebisu é só seguir em frente. Com tantos restaurantes na rua a dificuldade é escolher um. Deu para perceber que alguns não estão para receber estrangeiros. Quando entrámos na izakaya que tinha meros dois lugares ao balcão entendemos o porquê. Simplesmente não há menu sem ser em japonês, e dá trabalho entender o que o estrangeiro quer. Na verdade, também dá trabalho ao estrangeiro fazer-se entender nos seus desejos, mas o lost in translation continua a ser uma experiência das melhores para lembrar. Ficámos uns minutos à toa, a decidir se era melhor olhar para os pratos dos vizinhos ou tentar decifrar as letras, já que eu tenho a mania de que até leio hiragana e katakana. Logo um senhor japonês veio em nosso socorro oferecendo ajuda. Disse-nos que este era bom, aquele também e aquele-outro idem. Resultado: salmão grelhado (que eu me recuso a comer em casa), feijão verde seco (único verde com o qual não posso) e o sashimi da ordem (por mim amado em qualquer lado do globo). A mana não conseguiu deixar de galar os pratos dos vizinhos. Como conclusão, obrigado pela ajuda, mas tínhamo-nos safado melhor com a velha técnica do olhar para o lado e apontar.

A noite acabou com a visita à Torre do Ebisu Garden Place para ver as vistas da Tóquio nocturna.