Tokyo on Foot, de Florent Chavouet, 2009

O autor designa Tóquio como “a mais bonita das cidades feias”.
Tendo acompanhado a sua mulher, que arranjara um emprego em Tóquio, ao francês não restava muito mais para ocupar os seus dias se não pegar na bicicleta e sair a desenhar a cidade, oferecendo-nos, em consequência, uma visão muito particular e específica de aspectos que não vêm nos guias de viagem. 
O seu traço é muito apelativo. O olhar atento. As histórias cativantes. 
Inesquecível a forma como introduz cada um dos bairros: apresentando o desenho de uma esquadra de polícia, “koban”, onde os funcionários, ou seja, os policias, não parecem ter outro trabalho na mais do que segura capital do Japão a não ser falar com crianças, regar plantas, dar comida aos gatos, encher o pneu da bicicleta à senhora, tirar fotos com turistas ou, simplesmente, posar a rir, bonacheirões, para o desenho de Florent.

Japão – Tóquio – 9.º dia

A manhã deste dia foi dedicada toda ela a viajar – de comboio – para Tóquio. Optámos por seguir via Matsumoto, a outra porta de entrada dos Alpes juntamente com Takayama.

Andar de comboio no Japão é toda uma experiência. Existem linhas para quase todos os locais e os horários são frequentes. Comodidade é a palavra de ordem. Mas a organização japonesa é o que faz tudo funcionar na perfeição. Ter a oportunidade de perder tempo a assistir ao ritual que medeia entre a chegada de um comboio e a partida desse mesmo comboio de volta ao ponto de origem é ficar a conhecer um pouco mais dos japoneses e da sua capacidade de trabalho. O comboio chega e, enquanto os passageiros vão saindo, os funcionários que irão tratar de preparar o comboio para nova viagem aguardam às suas portas, fazendo alguns deles as vénias típicas. Assim que o último cliente deixa a carruagem, eles entram rapidamente e, de uma forma absolutamente treinada e mecânica, recolhem o lixo, substituem os lenços das cadeiras e viram-nas a eito, numa espécie de bailado, para que os próximos clientes possam viajar de frente. Tudo numa rapidez esteticamente perfeita, bem a tempo de permitir que o comboio saia para a sua próxima viagem à hora certa.

Já em Tóquio, depositadas as mochilas no hotel, vimos que este estava estrategicamente (pura sorte) localizado em Nippori, a dois minutos de uma das estações da fantástica linha circular Yamanote, da Japan Railway. Traduzindo, conveniente e coberta pelo nosso passe. Ou seja, enquanto ficámos neste hotel (à excepção dos últimos dois dias da viagem, em que, uma vez mais por pura sorte, o nosso passe já não estava activo) conseguíamos chegar a qualquer sítio à “borla”. De referir que em Tóquio o comboio e o metro são praticamente a mesma coisa, partilhando estações.

 

 

Começámos por uma caminhada até ao Parque de Ueno, passando pela rua Yanaka Ginza, uns quantos templos pequenos e um cemitériocom umas lápides bem diferentes daquelas a que estamos acostumadas. A Yanaka Ginza é uma pequena rua comercial, com mercearias e lojas de chá, que ficaria bem em tempos idos. Às 17:30 metade das lojas já estão fechadas, para que não haja dúvidas de que na mega Tóquio, a cidade que verdadeiramente nunca dorme (estudorecente prova-o),é possível viver-se a outro ritmo.

E, para algo totalmente diferente, seguimos para Ginza, provavelmente a zona de Tóquio mais conhecida e reconhecida mundialmente. Fim de tarde, pretendíamos sentir o ambiente da frenética e cosmopolita Tóquio e fazer horas para o nosso tão ansiado jantar.

Aqui encontramos todas as melhores e maiores marcas do mundo, cada uma delas com direito a um edifício inteiro só para elas. Já que estávamos no Japão, calhou bem iniciarmos o périplo pelas lojas na Muji. A questão é que mesmo ao lado fica a Tokyu Hands, outra mega loja com adereços de todo o género que possamos imaginar. Oferta e possibilidade de escolha é o que não falta.

Logo pasmámos com uma esquina com um edifício branco com recortes (Mikimoto) e vimos que, para além dos objectos de marca, havia que deliciarmo-nos com os próprios edifícios em si. Alguns exemplos, entre muitos mais, são o edifício da Loius Vuitton, da Maison Hermes e da Dior.

Consumo, arquitectura e movimento são as palavras. As ruas são largas e planas e aqui encontramos alguns edifícios ao estilo ocidental, sendo o mais famoso provavelmente o Wako Tower, o do relógio. Ginza serviu, nos finais do século XIX, de modelo de modernização e urbanização para o novo regime Meiji. Hoje vem sendo ultrapassada no ultra consumismo por outras zonas da cidade que foram, entretanto, surgindo, como Omotesando e Daikanyama.

No entanto, no meio de todo este comércio em alta escala encontramos ainda espaço para o teatro Kabuki-za. Infelizmente, desta vez não houve tempo para o kabuki.

Mas era o jantar deste dia que esperávamos vir a ser um dos pontos altos de toda a nossa viagem. O escolhido foi o Kagurazaka Ishikawa e confirmou-se como uma das nossas melhores refeições de sempre. Apesar de possuir três estrelas Michelin, não há nada de pretensioso nele. Ficámos ao balcão (existem ainda quatro salas privadas), duas portuguesas entre cinco chineses – dois casais e uma rapariga sozinha, que não se conheciam entre si. Ou seja, não fora a barreira linguística e tudo convidava à informalidade. O menu muda todos os meses. Reportagem do nosso aqui.A apresentação dos pratos, como não podia deixar de ser, foi lindíssima. A simpatia do chef e seus assistentes encantadora. A curiosidade era partilhada – nós queríamos saber deles e eles de nós, entusiasmados, pareceu-me que sinceramente, por receberem duas portuguesas. Tudo perfeito com esta alimentação por parte de todos os nossos sentidos.

De volta ao hotel, pudemos constatar como é vibrante a vida nas ruas de Tóquio até a noite se aproximar do dia seguinte. De facto, se eles dormem em média 5 horas e 48 minutos (como refere o tal estudo), em todos os bairros temos de os encontrar a pé até tarde, quem sabe a fazer horas para ir para o trabalho no outro dia. Neste dia sentimos isso no bairro de Kagurazaka, mas nos próximos dias senti-lo-íamos em qualquer outro bairro por onde passámos, fosse em Ikebukuru ou Ebisu, como já o havíamos sentido em Shinjuku, nenhum deles lugar específico da moda para se sair à noite.

Japão – Kamikochi – 8.º dia

O forte dos Alpes Japoneses é a paisagem e a natureza. O cenário é tudo. E chega para espalhar felicidade.

Kamikochi, a meia hora de Hirayu, fica no vale do rio Azusa, a 1500 metros de altitude, e daqui avistam-se bem perto montanhas cujos picos passam dos 3000 metros. Para se chegar aqui só de autocarro ou táxi, carro particular não entra nem se aproxima. Isto entre Abril e Novembro, porque no resto do ano não há nada para ninguém, tal deve ser o congelamento.

Daqui partem uma série de trilhos, incluindo escaladas às montanhas – que não fizemos. Optámos por umas belas caminhadas, sempre planas, fáceis, ideais para dedicarmos toda a nossa atenção à beleza que nos rodeia. E o que nos rodeia, já se sabe, são vales, montanhas e muita vegetação, mas também rios e lagos a cada passo. E vulcões. E pontes pitorescas, daquelas que mesmo aparentando firmeza balançam à nossa passagem. E uma fauna e flora que merecem também atenção. Aliás, o barulho intenso dos pássaros é impossível de ser ignorado. Mas não aborrece, antes torna a comunhão com a natureza mais perfeita ainda. No caminho podemos encontrar macacos – e constatar com pavor como eles são mesmo iguais a nós – e ursos. Felizmente destes últimos só tivemos notícia pelos avisos espalhados pelo parque de que haviam aparecido no dia anterior e como proceder caso avistássemos um deles. Não fazer barulho, não correr. O que vale é que existem árvores bem altas ali à mão para podermos subir e escondermo-nos. Não foi preciso.

Começámos por ter sorte com o tempo bom, terminámos com dificuldade em observar o postal na sua plenitude. Maldita chuva, inimiga do viajante. Mas o balanço foi entusiasmante. Este dia calhou a um domingo e pudemos comprovar a união que liga os japoneses à natureza. Não sei donde vieram, uma vez que não haverá muitas povoações ali mesmo perto, mas eles eram aos magotes, sozinhos ou acompanhados, em par ou em família, de tal forma que nos fartámos de gastar o nosso konichiha(wa) de tanto nos cruzarmos com os simpáticos japonocas caminhantes.

Kamikochi foi dada a conhecer pelo tal missionário ocidental que terá cunhado a expressão Alpes Japoneses. Mas Ryunosuke Akutagawa, o autor de Rashomon (que Kurosawa filmou), também contribuiu para a sua divulgação com a sua novela “Kappa”, nome da ponte balançante que é actriz principal na paisagem de Kamikochi.

E já que falamos de escritores japoneses, de volta ao onsen de Hirayu lembrei-me de Kawabata e da sua obra “Terra de Neve”. Não tinha nenhuma geisha, nem o desejava, para me acompanhar. Também não tinha a neve a marcar a paisagem. Mas, ainda assim, senti que vivia parte do que é ser japonês, estar em contacto com a natureza e emergir num ritual que não sendo só seu é aqui observado com todo o requinte que só os japoneses parecem ser capazes de lhe conferir.

Japão – Takayama – Hirayu Onsen – 7.º dia

Outra das atracções de Takayama são os seus animados mercados matutinos a que, efectivamente, vale a pena dedicar uma olhada. Assim o fizemos no começo da manhã. Aqui encontramos tudo o que nos pode garantir uma das muitas refeições especiais que teremos, com certeza, em qualquer canto do Japão.

Em seguida, ida para o Hida-no-sato, um museu ao ar livre que reúne diversas casas tradicionais da zona. O local onde estão instaladas é, como não podia deixar de ser, privilegiado, rodeado de montanhas (mais verde) e com um belo lago no centro. Aqui podemos apreciar vários exemplos da arquitectura do século passado e sentirmos como era a vida rural então. Os telhados típicos estão todos eles preparados para aguentar a forte neve. E dentro das casinhas, que podem ser de habitação ou quintas ou celeiros, testemunhamos como é uma casa de uma divisão imensa que graças às portas de correr sobre o tatami se vai transformando numa casa com as divisões que a cada momento vamos desejando ou precisando, como se tece ou acende o fogo. Estas casas são todas em madeira, reconstruções que foram trazidas para aqui.

De Takayama seguimos em jornada de autocarro de cerca de uma hora até Hirayu. O tempo transformou-se por completo e chovia inclementemente nessa tarde, incapaz, ainda assim, de impedir que apreciássemos toda a pujante beleza do caminho de montanha. Hirayu é um pequeno ponto no mapa, conhecido pelos seus onsen, banhos termais em bom português. Esta foi outra das nossas experiências de um Japão típico.

Os onsen pululam pelo Japão, ou não estivesse o país sempre com uma erupção aqui, um terramoto ali. Quente, quentinho. Há os na montanha, na praia, na cidade.

Aqui na vila / onsen de Hirayu a vida pode ser rapidamente resumida como ir ao banho e comer. Relaxar é o mote. Para o banho há todo um ritual e etiqueta a cumprir. Há que levar a toalha de corpo e uma toalhinha pequenina que ainda hoje não entendo para que serve, senão como adereço para limpar o suor quando se está no calor do banho. Antes de entrar temos de nos banhar intensamente. Sentamo-nos num banquinho e lavamo-nos. A nudez é obrigatória, daí que a maior parte dos onsen sejam separados entre homens e mulheres. O hotel em que ficámos, apesar de um bocado (completamente?) decadente no quarto que nos apresentou, tem zonas comuns fabulosas, nomeadamente os jardins e os onsen. Super bonitos, descansa o corpo, a alma e a vista.

 

Passemos então ao resumo da comida (melhor efectuado, como não podia deixar de ser, aqui e aqui). Outra das experiências que não se deve perder no Japão é viver uma refeição kaiseki. Viver em toda a sua plenitude, sim, porque é disso que se trata, não apenas de ingerirmos algo para nos manter vivos. A apresentação de uma refeição deste tipo obedece à lógica da japonesidade, acompanhada de todo um envolvimento estético e requinte, também visíveis em outras áreas da vida, nomeadamente a arte. Mas a comida é, aqui, uma arte singular e superior. Os pratos vão nos sendo servidos como se de uma obra de arte se tratasse, quer quanto à apresentação dos alimentos e ingredientes, quer quanto à loiça que nos é trazida, de uma beleza e elegância sem igual. Como poderemos voltar a encarar as refeições quando voltarmos para casa? Talvez visitas mais frequentes ao Tomo de Algés ajudem.

Japão – Takayama – 6.º dia

Encontrámos tempo na nossa agenda de viagem apertada e ambiciosa para um lugar para os Alpes Japoneses, designação cunhada por um missionário ocidental que visitou a região no século XIX.


Uma boa ideia é fazer-se primeiro uma paragem numa das suas portas, Takayama, por exemplo. Esta é a região de Hida e o seu nome não mais sairá da minha cabeça e do meu paladar, só de lembrar do delicioso bife, este, o de Hida. E, ah, que paisagem confortante esta, a das montanhas. O verde é soberano, vegetação intensa, árvores enormes. A viagem de comboio desde Kyoto é, pois, deslumbrante à medida que entramos na região dos Alpes. O comboio chega a fazer o seu percurso por entre um vale junto a um rio, acompanhado, claro está, da referida vegetação.

 

Takayama tem um charme tradicional. Era uma cidade castelo na época dos Estados Guerreiros, século XVI. As lutas pelo poder fizeram com que o distrito de Hida ficasse sob o controlo dos Tokugawa e aí quase todos os samurais – fiéis ao seu senhor – abandonaram a cidade. A partir daí Takayama desenvolveu-se como uma cidade de civis.

Duas casas privadas abertas a visita do público testemunham hoje o poder destes civis já nos finais do século XIX, princípios do século XX, era Meiji, portanto.

Propriedade de mercadores que ganharam dinheiro como cambistas, a Kusakabe Mingei-kan foi reconstruída depois de atingida pelo fogo atendendo às características da arquitectura do período Edo. A casa da família Yoshijima, sua vizinha, é outro exemplo da arquitectura que ainda se pode observar em Takayama. Edifícios de dois andares em madeira cipreste, com chão coberto de tatami. Nesta última casa o design da época impera, enquanto que na outra encontramos aqui e ali objectos de cerâmica, mobiliário e outros acessórios antigos da região. O mais encantador quando se percorrem as divisões destas duas casas é vislumbrar aqui e ali, por entre as portas de correr de madeira e papel japonês, o verde do jardim a contrastar com o castanho da madeira.

De entre diversos pequenos museus em Takayama, visitámos o Shishi-Kaikan, um museu de Karakuri, um instrumento mecânico para introduzir movimento em diversas coisas, no caso marionetas. Em exibição constante há aqui um breve show, ao mesmo tempo que se mostram uma série de máscaras de leão. Bom para ocupar o tempo. 

Mas a melhor forma de o fazer é mesmo caminhar por Takayama, quer pelas suas ruas, quer à sua volta, deixando-nos envolver na floresta. Num percurso exterior encontramos uma série de santuários que parecem estar estrategicamente escondidos na montanha, sempre para nos lembrar a intima relação entre os japoneses e a natureza, intermediada pela religião nativa do shinto.

A zona central da cidade é caracterizada por três ruas que correm paralelas, onde estão instalados os edifícios típicos e pitorescos que nos farão lembrar de Takayama. Hoje estão ocupados por lojas e restaurantes, com muito comércio de sake. A uma primeira vista tínhamos achado Takayama uma espécie de cidade fantasma, por não se ver viva alma. O que acontece é que a turistada concentra-se toda nesta área, mostrando que afinal existe.

Nesta cidade tivemos a nossa primeira experiência de pernoitar num ryokan, os alojamentos tradicionais japoneses. Não jantámos, mas pelo pequeno-almoço bom para a vista e para o paladar tivemos um cheirinho do que será a experiência total de ficar numa destas hospedagens típicas. O chão do quarto é em tatami e a mobília é praticamente inexistente. Dormir no chão é, claro, parte obrigatória da experiência.

Japão – Nara – 5.º dia

 


A anunciada chuva chegou neste dia. E fez questão de ficar até ao fim. Uma chatice, esta, a de ter de passear à chuva. É desagradável e a paisagem não tem o mesmo encanto. Nara merecia outra cor, até porque os seus templos de madeira escura contrastam bem é com céu limpo. Seja como for, de pés encharcados o dia todo, lá caminhamos até termos visitado tudo o que nos havíamos proposto.

Nara fica a menos de uma hora de comboio rápido desde Kyoto e as suas maiores atracções podem ser visitadas num dia. Esta era a capital antes de Heian / Kyoto e, tal como esta, inspirou-se na capital chinesa de Chang’an. Planificação urbana no princípio do século VIII era coisa que provavelmente os europeus nem suspeitavam, mas os japoneses sabiam de quem copiar as ideias e adaptá-las de forma magistral, muitas vezes superando até o original. A capital foi transferida de Nara para Kyoto não só pelo antigo costume shintoista de se mudar o local da capital aquando da morte do imperador, mas também porque o budismo, em especial um determinado monge, vinha ganhando uma influência excessiva na corte. Contando o meio da história, há que dizer que mesmo no período Heian o budismo não cessou de florescer. O que é certo é que foi sobretudo no período Nara que quem tinha o poder mais fez para que o budismo, que havia sido introduzido no Japão há cerca de 150 anos, fosse religião da corte.

O que se vê hoje caminhando pela área junto ao Parque de Nara, são templos budistas, sim, mas também muitos santuários shintoistas. Comunhão perfeita. Destaque para um de cada família: o Todai-ji e o Kasuga Taisha.


Menção honrosa para o pitoresco pagode do Kokufu-ji e para os mais de mil gamos, que antigamente se diziam ser os mensageiros dos deuses, que abundam por todo o lado e são senhores da terra de tal forma que até fazem parar os carros à sua passagem.

 

O Todai-ji é um complexo de templos cuja maior atracção é o seu edifício principal, o Daibutsu-den (hall do Grande Buda). Este é o maior edifício de madeira do mundo e só de pensar que foi reconstruído em 1709 e ficou apenas 2/3 do que era originalmente consegue-se compreender a grandeza do sítio. A simetria entre o templo e os jardins que o acompanham é total. Antes esta simetria era ainda maior, com dois pagodes a ladearem-no. De qualquer forma, muita sorte temos nós de todas estas obras de arte terem chegado aos nossos dias.

Ainda parte do complexo de Todai-ji, o encanto do Nigatsu-do está na sua varanda e na vista que ela nos proporciona, com as montanhas como guardiãs da cidade. O mais curioso é que tantos são os templos, mas consegue-se sempre encontrar algo de diferente, surpreendente e encantador no que se visita em seguida.

No caso, em seguida não visitámos um templo, mas um santuário. O Kasuga Taisha é o mais importante em Nara. A relação entre o shinto e a natureza é íntima e o local onde este está instalado é mágico, entre a floresta. Pensando bem, acho que a chuva ajudou a dar ao ambiente por aqui um tom mais misterioso e envolvente. Para se chegar até este santuário percorremos um caminho ladeado por uma série de lanternas. E lá dentro há muitas mais para apreciar. O cenário da lanterna face ao papel japonês é simplesmente inesquecível.

De volta a Kyoto assistimos a uma manifestação de umas centenas de pessoas a favor da paz. No Japão discute-se hoje o abandono constitucional da referência à recusa à guerra. É um assunto delicado que gostava de abordar com algum tino. Mas conhecendo um pouco da história japonesa do século passado, e sobretudo as suas ambições expansionistas, imperialistas e messiânicas, parece-me que este é um tema delicado que deveria ser abordado pela comunidade internacional. Gostei de ver que parte dos kyotenses são sensíveis a este assunto.

Está visto que no século XXI tenho mais medo do Japão do que da China.

Deixando as comparações politicas de parte, certas são as influências chinesas sobre o Japão. E certo é também que a cópia soube fugir do pastiche e alcançar um resultado melhor ainda do que o original. Os templos aqui são belíssimos. Não digo que os do Japão sejam mais encantadores, como defende a mana. O que digo é que em Kyoto e em Nara, cidades que já visitámos até agora, pode-se caminhar e observar com calma, sem os magotes de gente que se via um pouco por toda a Pequim. E ter pelo menos a ilusão de alguma exclusividade do olhar e poder assimilar o que se vê no próprio local faz toda a diferença.

Veredicto: em Kyoto a concorrência turística não é páreo para nós.