Japão – Kyoto – 2.º dia

A não esquecer. Se se pretende viajar de comboio pelo Japão e se se é estrangeiro, é obrigatório comprar o JR pass. Só Tóquio – Kyoto ida e volta já faz compensar o preço. O site hyperdia.com é fantasticamente útil para se saber com antecedência os horários e preços das viagens.

A viagem entre as duas cidades faz-se em pouco mais de 2:30 no Shinkansen, o famoso comboio-bala. Cansada, ainda a recuperar da longa jornada do dia anterior, acabei por não prestar muita atenção à paisagem, mas a dada altura no lado esquerdo espreita-se o mar e no lado direito o Monte Fuji.

A actual Kyoto era em tempos antigos conhecida como Heian, correspondente ao período de maior pujança da cultura japonesa, sobretudo a cultura refinada e elegante da corte que hoje podemos conhecer, entre outros, por aquele que se diz ser o primeiro romance da história universal, o Genji Monogatari, escrito por lady Murasaki (com tradução portuguesa). Heian sucedeu em 794 à vizinha Nara como capital do Japão. Tal como a anterior, o projecto de construção da cidade foi baseado na então capital chinesa Chang’an, hoje Xi’an. A superstição e a geomancia determinaram a escolha do local para a nova capital, não sendo igualmente de desvalorizar a sua posição estratégica rodeada de montanhas. Mas seria o budismo, que entrara no arquipélago vindo da Coreia no século XVI, quem iria continuar a influenciar a vida dos poderosos. Não admira, pois, que Kyoto seja a cidade dos templos, ainda hoje muito bem conservados, dai a Unesco ter classificado aqui um sem número de sítios.

Kyoto foi a capital imperial até à Restauração Meiji, em 1868, quando se iniciou um processo de modernização forçada, mas ao mesmo tempo bem ponderada e voluntária, do Japão. Depois do fim do período Heian, no século XII, seguiu-se o tempos dos senhores feudais, samurai, daimio e shoguns, e Kyoto, tal como a corte, foi perdendo influência política para outras regiões como Kamakura e Edo, actual Tóquio.

Paz(hei) e tranquilidade (an) é o que ainda hoje se parece viver na antiga Heian, moderna Kyoto, onde se assiste a um revivalismo da elegância cultural que outrora se viveu. Hoje Kyoto é a capital cultural do país. E hoje, também, Kyoto parece ser uma cidade sem a intensidade frenética de vida que associamos à Ásia, talvez não tanto ao Japão, mas seguramente a Tóquio.

As manhãs são vividas de uma forma calma, sem muitos atropelos pelas ruas ou na entrada do metro ou comboio.

Embora em Kyoto esteja uma das estações de comboios mais modernas do mundo, uma arquitectura fantástica de ferro e vidro, e a uma primeira vista esta cidade seja como uma qualquer outra cidade moderna do mundo, com um centro com uma longa avenida cheia de armazéns e lojas de grandes marcas, a sua arquitectura expressa-se sobretudo nos templos (budistas – ji) e santuários (shintoistas – jinja). Quem vem a Kyoto é isso que quer ver. E mais umas machiya, as casas tradicionais. O grande desafio da cidade é, precisamente, preservar o seu rico património cultural, ao mesmo tempo que a mantém na órbita da modernidade e do desenvolvimento económico, cultural e educativo.

Face a tamanha quantidade de templos, é obrigatório ser-se selectivo no que ver. Até porque beleza a mais também pode cansar a vista.

Começámos pelo templo de Sanjusangen-do. O edifício principal deste templo é longo e abriga cerca de 1000 figuras em madeira da deusa budista da misericórdia, Kannon, e seus guardiães. Parece ser uma espécie de exército de terracota. Vale pelas figuras budistas.

Seguimos para o Kiyomizu Dera, cravado entre as montanhas. Aliás, as montanhas dominam a paisagem de Kyoto, cercando-a e protegendo-a. Este é um local popular e, realmente, estava pejado de visitantes, alguns dos quais casalinhos que pediam uma união forte no Santuário do Amor, um bocado para assim para o género de festa de aldeia. Mas o mais entusiasmante deste espaço é o seu edifício principal e sua varanda perfeita para contemplar as montanhas. Este edifício está assente em 139 pilares de madeira de 15 metros. Pena que outros edifícios estivessem cobertos para restauro. Aqui vimos a nossa primeira – e única – geisha, caminhando arduamente para se aguentar naquelas socas de planta disforme. No entanto, pelo à vontade com que passeava, que de discreto nada tinha, lado a lado com um senhor que mais se preocupava em tirar fotos à paisagem, e não se preocupava que os magotes tirassem fotos à sua companhia, fiquei na dúvida se esta seria um autêntica gueisha. Seria provavelmente uma asiática ávida de encarnar uma personagem de gueisha na cidade onde elas serão ainda mais tradicionais e populares.

O caminho que nos levou ao Kiyomizu Dera foi percorrido atravessando um cemitério (aquela paisagem faz dele, seguramente, um dos melhores lugares de descanso). Para baixo seguimos percorrendo uma rua com lojas e mais lojas sem muito encanto. No entanto, tomando uma lateral para norte entrámos na Sansen-zaka e na Ninnen-zaka, duas ruas pedonais com edifícios de madeira restaurados que torna o passeio ainda mais agradável.

Até se chegar ao Parque (koen) Maruyama vai se passando por uma série de templos. No final deste parque, ideal para um descanso no meio do verde e dos lagos, fica o Yasaka-jinja, um santuário super colorido e pitoresco, cheio de movimento.

Daqui saídas, entramos em Gion, o bairro do entretenimento e das gueishas. Em tempos idos este era o local de prazer, onde as míticas gueishas desempenhavam o seu papel de acompanhantes cultas e refinadas de homens de posses. Hoje, alguns dos seus edifícios são ainda locais exclusivos para o entretenimento com as gueishas, mas estas estão cada vez mais em extinção (não serão mais do que 100 em Kyoto e 1000 em todo o Japão), para além de não ser fácil obter o concurso das poucas que restam. Bem tentámos, mas não vimos nenhuma em acção. De qualquer forma, vale muito a pena caminhar por Gion, em especial pelas ruas Shimbashi e Shirakawa-minami, junto a um agradável canal, e conferir nas machiya o que resta da arquitectura urbana tradicional com as suas deliciosas velhas casas de madeira e cortinas de bambu.

Aqui perto fica o Pontocho, o lugar da vida nocturna. É uma rua cheia de casas de madeira, a maioria bares e restaurantes instalados junto ao rio. O que torna especial esta rua é a iluminação que toma à noite graças às lanternas que aqui abundam.

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