Évora Monte

Habituamo-nos a passar na A6 a caminho de Elvas e, um pouco depois de Évora e antes de Estremoz, ali está à esquerda um castelo num monte sobranceiro à via rápida com uma torre diferente daquelas que costumamos observar na paisagem portuguesa. Sempre dizíamos, um dia desviamos e vamos até lá cima. Mas não foi preciso chegar o dia do desvio. Antes disso, veio o dia em que de forma intencional lá fomos de propósito só para explorar a colina que em tantas viagens nos compôs o cenário na paisagem alentejana.

Évora Monte é mais do que um simples castelo instalado num lugar estratégico e privilegiado. É também uma povoação pitoresca, certamente despovoada como muitas no nosso país, mas que conserva ainda as marcas de um passado de orgulho e, sobretudo, as marcas identitárias das aldeias alentejanas.

Desde logo, a planície a perder de vista. Esta é uma aldeia miradouro. Do alto dos 481 metros da garbosa colina tudo se avista, clima o permita. Mas mesmo em dia fechado, como nos tocou, o “pouco” que se vê é tanto que chega bem para nos convencer do privilégio.

Depois, o castelo. São 4 as portas da antiga povoação, ligadas por uma muralha que se percorre fácil e prazerosamente, com vista ora para a planície extra-muralha ora para o casario intra-muralha. Não se sabe ao certo as origens da povoação de Évora Monte. Pensa-se que tenha sido conquistada aos mouros por D. Afonso Henriques em 1166. Certo é que em 1248 D. Afonso III lhe concedeu foral e em 1306 D. Dinis mandou construir as muralhas, fortificando o povoado. Em 1531 um forte terramoto destruiu grande parte das construções da povoação que era então propriedade da Casa de Bragança. E foram estes que a reconstruíram e mandaram levantar a torre que ainda hoje distinguimos mesmo ao longe e consideramos única na sua arquitectura no panorama nacional. Esta torre era então o paço ducal da família, servindo como residência de caça dos duques de Bragança. Como se não bastasse a sua implantação geográfica, no alto de uma colina na planície alentejana, também na fachada desta torre podemos perceber a influência e poderio da Casa de Bragança. Na época (século XVI), era a segunda mais importante do reino, tendo como divisa “Depois de Vós [rei], Nós [Casa de Bragança]”. Esses “nós” eram parte da heráldica bragantina e vêem-se materializados na fachada da torre / paço ducal de Évora Monte.

E, por fim mas não menos importante, o casario. Povoação feita de praticamente uma só rua estreita, casas com os típicos frisos de uma cor a contrastar com o branco alentejano, igreja matriz acompanhada de cemitério, roupa estendida ao vento junto à muralha e mais uma dose de pormenores surpreendentes, tão pequena que é a povoação muralhada. Numa das suas casas, a de Joaquim António Sarmago, foi assinada em 28 de Maio de 1834 a Convenção de Évora Monte que restabeleceu a paz em Portugal após anos de guerra civil entre liberais e absolutistas. Um pouco mais acima, em duas casas, uma de cada lado, aprecia-se as suas portadas em ogiva.

E um pouco por todos os cantos, a calçada oferece-nos umas casas pintadas. A arte na rua, surgindo assim de supetão sem pedir licença, faz com que este breve passeio por Évora Monte seja ainda mais memorável. Como se o Alentejo coubesse todo aqui.

Alentejo road trip

Vamos mudando. Até há uns anos não gostava de andar de carro, ser conduzida ou conduzir. Hoje tudo é diferente.

O carro permite-nos ir acrescentando sempre algo mais à nossa viagem, parando quando se quer, seguindo a direito quando assim o desejamos. Uma liberdade. Numa road trip é a jornada que conta, não o destino.

E poucas regiões haverá melhores do que o Alentejo para seguir de carro, mão de fora na janela aberta, como se quiséssemos agarrar o vento. Pouco trânsito, boas estradas, paisagens diversas. Sem tédio, mas com melancolia quanto baste, com a ajuda da banda sonora escolhida.

Algumas das estradas mais bonitas do nosso país estão aqui. Como aquela quase recta que liga Nisa ao Crato e depois Alter, amiúde protegida pelas árvores. Ou a sempre recta de Mourão a Monsaraz, com a imagem dos seus castelos e as águas do Alqueva como companhia. Ou as costumeiras rectas da Amareleja a Barrancos que, de repente, se transformam em curvas e mais curvas. Ou ainda qualquer estrada pela Serra de São Mamede, as mais altas a sul do Tejo.

Prego não muito a fundo por estas estradas, para melhor se apreciar o cenário, vamos vendo desfilar a fauna local – gado, cavalos, porcos, cabras, cegonhas e tudo o mais que resolver aparecer -, um charco aqui e outro ali com ares de lago, arvoredo que parece ter sido ali depositado de propósito para embelezar as margens do asfalto. Até um pôr-do-sol memorável.

Um passeio pelas vilas à volta da Albufeira do Alvito

A Albufeira do Alvito está aqui como pretexto para juntar num mesmo texto várias paragens de distritos diferentes, Évora e Beja. Iniciámos o passeio em Portel e terminámo-lo em Viana do Alentejo, mas pelo meio não resistimos nem a molhar os pés na Albufeira nem a admirá-la como os pássaros.

Portel está instalada numa encosta e é o seu castelo com torre e cerca urbana que domina a vila e a paisagem que a rodeia. Com foral concedido no século XIII, ainda hoje o castelo da vila é propriedade da Casa de Bragança. Foi daqui do alto que a “Vila Velha” se desenvolveu, preservando não apenas o castelo como também o edifício dos Paços do Concelho e umas casinhas brancas bem junto às muralhas.

De Portel seguimos para a Vidigueira, transição do Alto para o Baixo Alentejo, mas dela apenas trazemos na memória a Torre do Relógio e o que resta da sua antiga Torre de Menagem. Esta é uma zona de planície, pontuada aqui e ali por alguns alguns relevos, sem perturbar a tranquilidade característica do Alentejo.

Vila Alva pode ser vila de nome, mas é pequenina como uma aldeia. A designação alva, porém, não engana. É um aglomerado de casinhas brancas, onde apenas o azul da torre do relógio e o verde dos campos à sua volta contrariam a sua brancura. Depois de apreciar a sua alegre praça principal, vale a pena seguir pela sua longa rua até ao miradouro que nos apresenta uma imagem de pura ruralidade, com olival e pastagens a perder de vista e também algumas vinhas.

Alvito é a vila que se segue. O seu nome deriva de “olivetto”, por influência dos tais olivais que continuam a marcar presença na paisagem. Alvito foi a primeira baronia instituída em Portugal, corria o ano de 1475. Eram então tempos de crescimento e desenvolvimento que, apesar da decadência dos últimos dois séculos, deixaram marcas no património monumental do lugar até hoje, como a Igreja Matriz, a Igreja da Misericórdia e o Castelo. A vila não têm nada a ver com traçados medievais, daí que se encontrem amplos terreiros, como o Rossio de São Sebastião ou o Jardim da Praça da República.

O Castelo do Alvito, hoje Pousada de Portugal, tem uma arquitectura diferente daquela a que estamos acostumados no nosso território. Construído entre o fim do século XV e princípio do século XVI, esta estrutura originalmente de carácter militar e residencial apresenta uma mescla dos estilos gótico, manuelino e mudéjar. Era, no fundo, um paço senhorial fortificado do qual podemos ainda hoje apreciar o seu belo pátio central quadrado.

Ao deparar com este lugar, o “Canto do Cante”, não podemos deixar o Alvito sem recordar que o Cante Alentejano, elevado a Património da Humanidade, é a música tradicional do Baixo Alentejo.

Subimos (no mapa) em direcção a Viana do Alentejo, mas desviamos primeiro até Oriola por uma estrada não muito bem conservada mas muito bonita. Oriola, aldeia típica de casas brancas cá em baixo junto à Alfubeira de Alvito, e São Bartolomeu do Outeiro, aldeia miradouro lá em cima na Serra de Portel, autodenominam-se ambas como “aldeias de Abril”. Há que recordar outra das tradições arreigadas neste Alentejo, a do orgulho abrilista. Mas aqui para este passeio contam mais as vistas. E a curiosidade de saber de onde virá o topónimo “Oriola”: diz que deriva de auréola ou aurea ora, ou seja, zona de minas de ouro.

Esta jornada termina em Viana do Alentejo. Esta Viana do sul tem, enquanto concelho, diversos pontos de interesse, como a vila de Alcáçovas – onde em 1479 foi assinado o Tratado de mesmo nome – e o Santuário de Nossa Senhora de Aires – lugar onde foram encontrados vestígios de ocupação antiga por parte dos celtas ou dos romanos. Centremo-nos, porém, no centro da vila a quem foi concedida primeiro foral em 1180 e que, mais tarde, em 1313 D. Dinis mandou construir cerca urbana. Mas nem cerca nem castelo se fizeram então. Embora sem total certeza, acredita-se que o castelo que hoje podemos admirar seja uma construção do final do século XV ou princípio do século XVI. Tardio, portanto, e isso talvez explique a sua arquitectura pouco familiar no contexto português.

De forma pentagonal, são cinco torres cilíndricas encimadas por cones ao longo das muralhas que guardam no interior aquele que é considerado um dos mais belos exemplos do manuelino no sul de Portugal, a Igreja Matriz com o seu fabuloso portal. Há ainda espaço para uma outra igreja no interior do castelo e destaque para o cruzeiro manuelino no centro do pátio. Mas, à semelhança do Castelo de Alvito, de quem é contemporâneo (aliás, a este respeito diga-se que antes de ser Viana do Alentejo a povoação tinha o nome de “Viana a par d’Alvito”), são também evidentes as influências mudéjares nos merlões e pináculos no castelo de Viana, o qual é ainda “estranho” pelos materiais utilizados na sua construção, em alvenaria de tijolo.

Junto ao castelo foram entretanto construídas as casas típicas alentejanas, de um ou dois pisos, brancas e quase sempre com riscas amarelas. Mas Viana têm ainda outra curiosidade e motivo de interesse, as suas (muitas) fontes e chafarizes. Foram as fontes e as águas naturais que escorrem da serra próxima que ajudaram o Homem a instalar-se na região e hoje algumas delas são parte do património monumental da vila, como é exemplo esta Fonte dos Escudeiros.

De Elvas a Olivença com passagem pela Ponte da Ajuda

Elvas é das cidades alentejanas mais interessantes e magnificentes. É sempre um prazer rever as imagens dos seus Aqueduto da Amoreira e Forte de Nossa Senhora da Graça.

Há muito tempo já tínhamos escrito sobre esta cidade da raia aqui, mas merece novas palavras.

A sua implantação geográfica, na fronteira com Espanha, fez com que a vila medieval que conserva ainda a topografia característica dessa época, bem como o castelo, se tornasse numa praça de guerra. O crescimento e desenvolvimento da cidade fez com que à cerca do núcleo urbano primitivo fossem acrescentadas mais duas cinturas de muralhas, tendo cada uma delas produzido uma malha urbana diferente. É, pois, impossível não dar com um troço de muralha, um muro de fortaleza, um baluarte, uma porta. Aliás, várias portas e todas elas únicas.

Um bom exemplo deste “palimpsesto” é o Arco do Dr. Santa Clara, construído no século XIX sobre uma antiga porta muçulmana. Em estilo romântico, este é um dos símbolos de Elvas que mais aprecio. Daqui até ao castelo, a Elvas do século XII é feita de ruas estreitas e labirínticas, bem ao estilo mouro, com casas caiadas com riscas amarelas e decorações com plantas e flores à porta.

Mas do Arco do Dr. Santa Clara para baixo o espaço é maior, com a ampla Praça da República, rasgada no século XVI, a acomodar, entre muitos outros edifícios, a Igreja Matriz e os antigos Paços do Concelho (hoje Casa da Cultura), pitoresco na sua varanda quinhentista com arcos. Para lá da Rua da Cadeia, uma outra Elvas, agora com ruas um pouco mais direitas, numa busca imperfeita da ortogonalidade ou numa intencional quebra da melancolia. Mas sempre com o branco e amarelo presentes nos seus edifícios.

E, a rodear tudo isto, um sistema fortificado de 10 kms, incluindo os Fortes da Graça e de Santa Luzia, fazendo de Elvas uma autêntica cidade fortaleza abaluartada.

Saímos de Elvas em direcção a Olivença, 25 kms praticamente em linha recta atravessando a nova Ponte da Ajuda sobre o Rio Guadiana. No entanto, é obrigatória uma paragem no lugar onde jaz a velha Ponte de Nossa Senhora da Ajuda.

A ruína desta ponte é incrível. E ter as águas tranquilas do Guadiana como cenário ajuda. Esta era uma ponte fortificada – ainda lá está a antiga torre em ruína – de que restam 8 arcadas na margem direita e 5 na esquerda. Construída no século XVI, foi logo nesse século que começou a desabar em consequência de ventos e cheias. Foi reconstruída, mas no século XVIII acabou novamente destruída, desta vez pelo exército espanhol. Há que contextualizar historicamente. A construção da velha Ponte da Ajuda aconteceu numa época em que Elvas e Olivença pertenciam a um mesmo país. [já oiço alguns a questionar, então mas ainda não são ambas Portugal?] E foi no contexto da fortificação e defesa de Olivença que a ponte foi construída, também no sentido de ligar as duas margens do Guadiana, permitindo um intercâmbio de pessoas e bens. A verdade é que o rio é uma fronteira natural e durante séculos a Ponte da Ajuda ali esteve, interrompida no seu tabuleiro original de 453 metros de comprimento. Assim como há dois séculos dura a disputa de território entre Portugal e Espanha. No ano de 2000 foi inaugurada a nova Ponte da Ajuda, a 400 metros da antiga, obra totalmente financiada pelo governo português, não fosse a aceitação de contribuição dos usurpadores espanhóis significar algo mais do que isso, a construção de uma ligação entre as margens portuguesas do Guadiana.

Mas, dizia, o lugar natural onde foi construída a original Ponte da Ajuda é de uma inspiração sem limites. Descemos pela Capela instalada num ponto alto relativamente ao rio e caminhamos até onde podemos pelo que resta do tabuleiro da ponte. Na outra margem, desligada, percebemos que alguém faz o mesmo que nós, cá deste lado. Meia volta e, ainda que com atenção para evitar os buracos, espreitamos e percebemos que uma criança brinca lá em baixo na água do Guadiana. Também queremos explorar o lugar por inteiro e descemos até à beira do rio. As pedras irregulares em ambas as margens são perfeitas para compor este postal de fim do mundo, onde não há dúvida de que é a natureza e o correr dos tempos quem mais ordena.

Olivença, então. Não recordo alguma vez aqui ter estado. A relação que a maioria dos portugueses terá com a “Questão de Olivença” será não a da disputa territorial, mas antes a curiosidade de aqui encontrar, ou não, elementos portugueses. Quanto à língua, basta caminhar uns segundos pelas ruas para que se torne evidente de que aqui não se fala português.

Uma montra da Caixa Geral, na Av. de Portugal, suscita a atenção, mas logo ela é desviada para os estores debruçados para lá dos varandins das janelas. Assim como para as janelas e portadas ao nível do chão protegidas de alto a baixo pelas grades verticais em ferro forjado.

A Plaza de España tem calçada portuguesa e uns bancos de jardim com decoração em azulejos que contam em imagens e palavras a história da cidade e região. As ruas com edifícios brancos e árvores com laranjas em flor também nos confundem, de tão familiares.

A Plaza de Santa Maria é o coração do centro histórico de Olivença. Passada umas das suas portas, aqui fica o Alcázar del Castillo, a Torre del Homenaje e a Parroquia de Santa María del Castillo. Alcázar é fortaleza, torre de homenaje é torre de menagem e parroquia é igreja matriz. Os nomes das ruas, anunciados em placas em azulejo azul e branco também comportam duas versões: a espanhola actual e a correspondente portuguesa original. Simpática a lembrança. Nas ruas de Olivenza só quase se veem turistas portugueses a passear, assim como nas de Elvas são os espanhóis a maioria. Mas pelo menos Elvas é Elvas, em português ou espanhol.

Continuemos na busca de elementos “nossos” na povoação portuguesa anexada pelos espanhóis em 1801. Foram os Templários quem, no século XIII, começaram por erguer castelo e igreja no novo burgo que se queria povoar. Pouco mais tarde, à semelhança do que fizera com muitas outras vilas do reino, D. Dinis mandou ampliar as primitivas linhas defensivas dos Templários e o seu sucessor, D. Afonso IV, construiu a alcáçova. Depois, no século XV D. João II mandou levantar a Torre de Menagem. A tal que hoje é conhecida como Torre del Homenaje, mas que continua a carregar as armas nacionais na fachada. Diz que esta torre com 36 metros de altura era das mais altas de todo o reino.

Não podemos, ainda, deixar de reparar na familiar exuberância decorativa com Esfera Armilar e Cruz de Cristo do portal manuelino do antigo Palácio dos Duques do Cadaval, hoje edifício do Ayuntamiento. Mais um superior exemplo do manuelino é a Igreja de Santa Maria da Madalena, única em Espanha. Ops. Baralhei-me novamente. De qualquer forma, espanhola ou portuguesa, Olivença merece repetidas visitas.

Alegrete

Alegrete. Só o nome já é todo um programa.

Alegrete, vila alentejana em pleno Parque Natural da Serra de São Mamede, fica a apenas 16 kms de Portalegre mas dificilmente damos com ela a não ser que nos envolvamos pelas estradas secundárias. Uma pena, mas com uma solução. Há que ir até lá de propósito e começar por avistar desde o asfalto parte do casario branco, muralha e castelo. E há que, logo de seguida, subir por esse mesmo asfalto até à povoação instalada numa colina com encostas pejadas de sobreiros e carvalhos a 450 metros de altitude (e o castelo a 475 metros).

Alegrete é uma espécie de mini Monsaraz, com a povoação primitiva dentro da cerca urbana muralhada. São quatro ruinhas com umas poucas casas, com entrada pela praça com coreto. Logo aí temos a torre do relógio e a igreja matriz, ambas com as fachadas com as típicas listas amarelas sobre o branco. Poucos metros percorridos pela rua de calçada em pedra com edifícios de um lado e do outro e chegamos à porta do castelo, a Porta da Vila.

O lugar de Alegrete tem ocupação humana desde a pré-história e, embora não se saiba com certeza o seu passado, acredita-se que por aqui terão passado os romanos, os vandalos, os alanos e os mouros até D. Afonso Henriques o tomar em 1160. A partir da Reconquista Cristã sabe-se com certeza com base em documentação que em 1267 foi definitivamente incorporada no território português pelo Tratado de Badajoz e, mais tarde, em 1319 D. Dinis promoveu a reedificação do seu castelo (ou talvez a sua construção, não se sabe ao certo) no contexto da defesa e consolidação da soberania portuguesa na raia com Castela e concedeu-lhe foral. Ao longo dos séculos Alegrete foi participando em diversos episódios em diferentes momentos da história do nosso país no que respeita às guerras com Castela, ou não fosse o seu um território situado na primeira linha de defesa.

O castelo, em estilo gótico militar, possui muralhas ameadas com cubelos e torre de menagem em ruína. O ponto alto da visita é, no entanto, a vista fantástica para o horizonte, permitindo-nos apreciar a topografia local de passagem de uma zona de serra para outra de planície.

Este é um castelo-miradouro.

Saindo pela Porta da Traição, também conhecida como Porta do Sol, a imagem da paisagem continua a dominar a atenção, mas agora percebemos ainda melhor o afloramento rochoso em que foi implantado o castelo, cheio de pedra irregular ao seu redor.

Desconheço o significado do topónimo “alegrete”. Há quem diga que deriva do latim “Ad Septem Aras”, de significado “aquele que se encontra numa alegre situação”. O que é certo é que Alegrete está acompanhada da ideia de felicidade.

As vilas amarelas do Alto Alentejo

É típico da paisagem alentejana o casario caiado de branco, quase sempre com riscas coloridas nos rodapés e a envolver as portas e janelas. Há-as de todas as cores, dando uma alegria singular e marcante à passagem por qualquer aldeia ou vila do Alentejo.

Mas em três vilas que destacaremos em seguida, Nisa, Crato e Alter do Chão, é o amarelo a cor que quase sempre sobressai no branco das casas e edifícios públicos. Daí o epíteto que agora lhes damos, o das “vilas amarelas”.

Nisa está instalada entre serras, a Serra de São Miguel, onde fica o ponto mais alto do concelho a 463 metros, e a Serra de São Mamede, a mais alta do distrito de Portalegre a 1025 metros (e a mais alta a sul do Tejo). Antes de passearmos pelo seu casario, um nota histórica curiosa. Foi D. Sancho I quem em 1199 doou à Ordem dos Templários a Herdade da Açafa, que incluía os territórios que hoje conhecemos como Nisa, Castelo de Vide e Marvão. O objectivo desta doação era o de povoar e defender este território até aí despovoado e desde aí perto da raia onde reinavam os “infiéis”. A partir de então foram chegando colonos do sul de França que trouxeram consigo as ideias de morfologia urbana das regiões de sua origem, a “bastide”, uma cidade medieval fortificada instalada junto a uma fortaleza. Assim foi criada Nisa junto à fortaleza erguida pelos Templários. A origem do seu nome vem da cidade francesa de Nice. Assim como as povoações vizinhas de Arêz (Arles), Montalvão (Montauban) e Tolosa (Toulouse) se inspiraram em outras cidades do sul de França.

Da fortaleza Templária e das muralhas do antigo burgo não resta praticamente nada. Excepção para uns poucos panos de muralha a que foram adossadas habitações e duas portas da antiga Nisa. A Porta da Vila é a mais monumental delas, com duas torres com ameias em cada lado e a apresentação de dois escudos a encimar o arco de entrada, um correspondente às armas de Portugal antigo e outro à Cruz de Cristo, uma espécie de eles e nós.

A pitoresca Torre do Relógio fica mesmo junto à Porta da Vila, bem como a Igreja Matriz. Ambas pontuadas a amarelo, como convém para este texto. Subindo alguns degraus da Torre do Relógio o amarelo deixa de dominar e o ocre dos telhados substitui-o. É uma confusão de casas que parece que mal deixa espaço para as ruas. E ao fundo a Serra de São Miguel com a sua forma pouco comum de terminar com o ponto mais elevado.

Descemos e confirmamos que, sim, as ruas são super estreitas criando uma intimidade entre os edifícios. A esmagadora maioria deles tem as tais listas amarelas e alguns preocupam-se em possuir portas e janelas de cor verde. Aqui e ali encontramos ainda detalhes decorativos nas cantarias das porta.

O compacto centro histórico de Nisa percorre-se facilmente até à outra porta que sobreviveu até aos nossos dias, a Porta de Montalvão, virada, precisamente, para a povoação vizinha de mesmo nome. Pelo meio, eis a pequena Praça do Município, onde fica o jardim com Pelourinho, a Câmara Municipal, a Capela da Santa Casa da Misericórdia e o palacete Lopes Tavares. Disse pequena praça, mas pelos vistos cabe muito nela. E para além de pitoresca, aqui ficamos a tentar perceber onde será a entrada principal da Câmara. E antes de atravessarmos o túnel que rasga o edifício em direcção à já referida Porta de Montalvão, apreciamos mais um momento da história, desta vez nossa contemporânea, que nos conta que o último proprietário do palacete Lopes Tavares tendo ficado viúvo deu ainda em vida cumprimento ao desejo de sua mulher de ajudar os pobres e aqui fundou um asilo, sendo hoje esta casa propriedade da Santa Casa da Misericórdia.

Nisa continua para lá do seu centro histórico, procurando ir ao encontro do que se espera das urbes do nosso tempo, de que é exemplo a sua ampla Praça da República. Mas não é isso que procuramos nestas vilas, pelo que seguimos para o Crato.

A caminho, porém, é obrigatória uma paragem para rever a sua aldeia de Flor da Rosa, lugar de mais casinhas pitorescas e do monumental Mosteiro de mesmo nome.

Se Nisa foi doada à Ordem dos Templários, já o Crato foi doado à Ordem dos Hospitalários. Mais tarde, a construção do dito Mosteiro de Santa Maria de Flor da Rosa em 1356 fez do Crato a sede desta Ordem em Portugal. E, claro, conta-nos a História que ao Crato está desde aí ligado o nome de D. Álvaro Gonçalves Pereira, o primeiro Prior do Crato e pai de Nuno Álvares Pereira, o Santo Condestável, que aqui nasceu. Sobre este mosteiro que parece uma fortaleza e é hoje uma Pousada de Portugal, adaptada de forma magnífica para o efeito pelo arquitecto Manuel Graça Dias, já tínhamos escrito em tempos aqui.

Do passado glorioso do Crato restam alguns elementos para além do Mosteiro. Desde logo, ainda hoje é na vila que se realizam as cerimónias de investidura dos novos Cavaleiros da Ordem de Malta. Do antigo castelo medieval mais tarde adaptado a fortim abaluartado, implantado numa cota mais alta, não restam mais do que ruínas e um baluarte. Mais abaixo, no centro da vila encontramos o seu símbolo mais bonito e elegante, a Varanda do Grão-Prior sustentada por três arcos de volta perfeita, o que resta do antigo palácio do século XVI. Nesta Praça do Município ficam ainda os serenos edifícios dos Paços do Concelho e o Palácio Sa Nogueira, para além do Pelourinho. Junto a ela, um antigo palácio barroco, hoje transformado em museu municipal onde se pode conhecer a história do concelho do Crato desde a pré-história até ao século XX.

No mais, caminhando pelas ruas estreitas e empedradas, com edifícios revestidos pelos “nossos” frisos amarelos, encontramos as costumeiras Torre do Relógio e Igreja Matriz, ambas bem bonitas. Umas janelas com cantaria decorada, muitas cruzes (de Cristo, que da Ordem de Malta não cheguei a perceber) e até apontamentos contemporâneos.

Esta é uma região de presença pré-histórica, como o atestam as diversas antas espalhadas pelo campo. Não desviámos para as visitar e seguimos adiante pela estrada que é uma das mais bonitas do Alentejo.

Alter do Chão é famosa pela sua Coudelaria Real, cujos edifícios, por sinal, têm as cores típicas deste post. À semelhança, claro, do centro histórico da vila, para onde rumamos agora. Apesar da ocupação da região desde os tempos dos romanos, Alter cresceu sobretudo a partir de 1359, data da construção do castelo por iniciativa de D. Pedro I. Inicialmente, este castelo em granito começou por desempenhar funções residenciais, sendo utilizado pelos monarcas da dinastia de Bragança aquando das suas deslocações à região. Mais tarde foi alcaidaria, prisão, loja de ferrador, oficina de carpintaria, celeiro, cavalariças, lagar de azeite e até lixeira. Restaurado no século passado, hoje está aberto a visitas por onde podemos apreciar a sua arquitectura e história.

Não há melhor lugar para perceber a sua implantação geográfica do que uma subida às muralhas e torre de menagem. Erguido num sítio plano, o casario branco e amarelo estende-se aos seus pés. Mais distante na paisagem vemos ao fundo no alto de um pequeno afloramento rochoso o Castelo de Alter Pedroso que, diz a lenda, chegou a estar ligado ao Castelo de Alter do Chão por um túnel. Outra estória dá-nos conta da existência nas proximidades de uma “cova da moura encantada” onde todo o homem que se aproximasse ficaria preso aos encantos da moura, enquanto que as mulheres teriam de saltar o buraco – se não caíssem, a felicidade amorosa estaria assegurada, se caíssem, seriam infelizes.

De volta à realidade e à actualidade, a Praça da República para onde dá o castelo é um espaço tranquilo com um coreto e bancos de jardim. Ao seu redor destaca-se o Palácio do Álamo, um solar barroco do século XVII que é hoje museu municipal. O seu jardim, diz que igualmente digno de nota, estava fechado para restauro aquando a minha visita.

O coração da vila estende-se para as traseiras do chafariz renascentista em mármore de Estremoz na Praça da República. As ruas, mais uma vez, são estreitas e sinuosas. Passamos por diversas casas brasonadas e igrejas e atentamos na decoração das entradas dos edifícios com esculturas de cavalos.

Uma última palavra para o Convento de Santo António, exemplo do barroco alentejano, hoje parte igreja e parte hotel. Ideal para uma noite bem dormida e um acordar relaxado na serenidade da planície do Alentejo.

Passadiços do Alamal

Os Passadiços do Alamal já cá andam há muitos anos, mas desde os incêndios de Agosto de 2017 que assolaram a região ganharam uma nova cara, nomeadamente no que à acessibilidade para todos diz respeito, incluindo aqueles com mobilidade reduzida.

Obra premiada do gabinete de arquitectura Proap, encomendada pela Câmara Municipal do Gavião, o Parque Fluvial da Quinta do Alamal é uma pequena maravilha no Tejo.

Para lá chegar descemos um vale encaixado nas colinas graníticas onde à natureza se juntou uma barragem que fez inundar um pouco mais o Tejo. Estamos na margem esquerda do rio e na praia fluvial, onde encontramos o Alamal River Club, a unidade de alojamento que ocupa, precisamente, a antiga quinta.

Da praia fluvial, onde não falta sequer uma língua de areia branca, parte um percurso sobre passadiços de madeira de cerca de 1800 metros de comprimento, até à ponte de Belver, com o seu característico tabuleiro metálico verde. Este percurso, que a câmara pretende ver prolongado, é parte do PR1, “Arribas do Tejo”, mais longo, circular e com passagem por ambas as margens do rio. Mas nos passadiços caminhamos sempre pela margem esquerda do Tejo. E quase sempre com a companhia da imagem fabulosa do belo castelo de Belver na margem contrária.

O passadiço, encostado muitas vezes à rocha de granito que faz parte da paisagem juntamente com o rio, vai ganhando forma, curvando onde tem de curvar e estendendo-se livremente onde pode. A vegetação sobre ele vai variando, com árvores, flores ou canas, zonas mais protegidas ou mais abertas. Encontramos até um pequeno e discreto curso de água a rolar sobre umas pedras com musgo verde.

Mas é, no entanto, a água do grande Tejo que vai dominado a paisagem. E o castelo, claro. Uma beleza natural (bem) moldada pelo homem.

Uns castelos pelo Tejo

O rio Tejo em território de Portugal é pontuado pela presença de uns castelos aqui e ali. Um bem óbvio para quem mora na capital, como é o caso do Castelo de São Jorge, outro uma visita de sonho para quase todos nós, como é o caso do Castelo de Almourol plantado numa ilhota. Pelo meio temos ainda o Castelo de Santarém e as suas vistas maravilhosas para a lezíria.

Porém, desta vez passearemos pelos outros castelos sobranceiros ao Tejo, os de Abrantes, de Belver e da Amieira, deixando o de Vila Velha de Ródão para uma próxima viagem, fiéis ao princípio de deixar sempre algo para ver como desculpa para voltar.

A situação geográfica do rio Tejo e a sua acessibilidade e navegabilidade não foram, claro, alheios à decisão de se implantar estas estruturas defensivas em cada um destes lugares. No entanto, cada uma destas estruturas da Linha Defensiva do Tejo acabou por desempenhar diferentes papéis na história do nosso país.

Comecemos pelo Castelo de Abrantes. Depois de tomada Abrantes aos mouros, D. Afonso Henriques mandou construir nesse mesmo século XII o castelo para defesa da linha do Tejo. Estávamos então no contexto da Reconquista Cristã e o castelo que no século XVIII acabou por tomar a forma de fortaleza foi, antes disso, palco de diversas batalhas entre mouros e cristãos. As muralhas exteriores não são muito imponentes e este século trouxe-lhe um quê de infantilidade com a instalação de um parque de jogos à sua entrada.

Mas um passeio pelo seu interior permite-nos ainda perceber a sua configuração e papel histórico. Aqui temos a Igreja de Santa Maria. A primitiva igreja era contemporânea da construção do castelo, mas no século XV acabou por ser remodelada e passar a panteão dos Almeida, cujos membros da família eram condes de Abrantes. O interior do castelo possui ainda o Palácio dos Governadores, muito alterado ao longo dos séculos, e a Torre de Menagem. Esta Torre de origem medieval, do século XII, também foi objecto de reconstruções várias ao longo dos tempos, mas no seu caso por força do terramoto de 1531 que a deixou em ruína até ao século XIX, século este que viu ainda passar pela vila e castelo as tropas napoleónicas.

Não precisávamos de subir à Torre para vistas enormes, uma vez que da muralha do castelo já as tínhamos, mas não resistimos a mais um ponto de vista. E que vista.

Uns 30 kms Tejo adentro, ainda na sua margem direita, a norte, surge no caminho um dos mais fantásticos castelos portugueses. Depois da apresentação quase burocrática do Castelo de Abrantes, este início de boas-vindas ao Castelo de Belver faz com que as expectativas se elevem. Mas não há que temer pela felicidade numa visita a este Belver. Esta é garantida.

Instalado no topo mais elevado de um monte granítico junto ao rio, o Castelo de Belver tem o cognome, à semelhança do de Almourol, de “sentinela do Tejo”. Vivia-se a época da Reconquista Cristã quando por volta de 1194 D. Sancho I doou à Ordem dos Hospitalários (hoje Ordem de Malta) um território que incluía, entre outras, as terras que logo passariam a ser a povoação e castelo de Belver – o Tejo era então um espaço de fronteira e havia que fazer face a ambas as necessidades de povoamento e militares. Até aqui a Ordem dos Hospitalários tinha uma função assistencial e com a construção desta estrutura defensiva assumirá a sua vocação militar. O castelo terá ficado construído em 1212 e figuras históricas passaram por lá. O Condestável D. Nuno Álvares Pereira mandou reconstruir as primitivas defesas, a princesa Santa Joana fez daqui sua residência após a peste de Aveiro em 1476 e fala-se, ainda, de um eventual exílio de Camões em Belver. O castelo sofreu com os terramotos de 1531 e de 1755 que deixaram a sua Torre de Menagem em ruína, mas o século XX veio dar um novo rumo no seu estado de conservação com os trabalhos de restauro por parte das autoridades do Estado.

Feito o contexto histórico, adentramos neste reduto de muralhas medievais e descobrimos a pitoresca ermida de São Brás aninhada junto à Torre de Menagem. O espaço interior do castelo é pequeno e subimos ao alto da Torre. As vistas para lá das muralhas não podiam ser mais sublimes. As águas azuis do Tejo serpenteiam rasgando a terra coberta do verde da relva rasteira e das oliveiras. Uma tranquilidade imensa é o que se sente do alto da torre do castelo de Belver.

Um pouco mais ainda adentro pelo Tejo, mas mais longe por estrada, há de surgir o Castelo da Amieira, a meio caminho do Gavião e Nisa. Não está mesmo junto ao Tejo nem este se avista do castelo, mas sente-se. Amieira do Tejo era uma das doze vilas da Ordem de Malta. Neste território, que hoje faz a transição entre a Beira e o Alentejo, mandou construir em 1359 D. Álvaro Gonçalves Pereira (prior da ordem de Malta e pai do Condestável D. Nuno Álvares Pereira) um castelo integrado na linha defensiva da margem sul do Tejo. Três anos antes a sede da Ordem tinha sido transferida para a Flor da Rosa, ali perto, e tendo o Tejo boas condições de navegabilidade e, no caso específico da Amieira, um bom porto fluvial, foi então escolhido o lugar para se implantar novo castelo. Como curiosidade, o castelo não está num ponto cimeiro, pelo contrário, como que se desce na aldeia para se ir ter com o castelo, avistando-se a Capela do Calvário mais acima.

O Castelo da Amieira foi um dos primeiros exemplares de castelo gótico em Portugal, tendo-lhe sido construída uma barbacã inovadora com características modernas. Com planta quadrangular e quatro torres em cada um dos cantos ligadas por muralhas, a maior dessas torres teria a função de torre de menagem mas acabou sobretudo por ser a residência do fundador do castelo, D. Álvaro Gonçalves Pereira. Uma volta pelo exterior do castelo saindo pela Porta da Traição e uma vista do alto das suas muralhas deixa-nos face a face com mais um pedaço de tranquilidade, feita de contornos suaves da serra e mais uma série de oliveiras.

Entre muitas outras, duas curiosidades deste castelo que foi residência de alcaides, prisão e cemitério. Primeiro, a sua cisterna possui ainda e desde sempre água, facto que não é assim tão comum. Segundo, a Capela de São João Baptista, construção do século XVI, apresenta pinturas no seu tecto efectuadas com a técnica decorativa do esgrafito. A temática destas pinturas é profana, com a justaposição de motivos grotescos e vegetalistas, reflectindo talvez a decadência das funções defensivas do castelo e a especial devoção a este santo por parte dos hospitalários. Também nas torres podemos ver vestígios de pinturas, o que é invulgar nas fortificações medievais portuguesas.

Um dia pela Comporta

Comporta, o paraíso perdido às portas de Lisboa”, diz-se amiúde.

Na verdade, nem o paraíso está perdido nem está assim tão às portas de Lisboa.

Para chegar à Comporta vindos da capital temos duas opções: ou seguir para Setúbal e apanhar o ferry para Tróia ou seguir pela auto-estrada até Alcácer do Sal ou Grândola. Ambas distantes, ambas caras. Quer isso dizer que se deve abandonar a ideia de uma visita de um dia à Comporta? Nada disso. O paraíso pode não ser perdido, mas é real, ainda que escondido. E esta é mais uma razão para partimos à descoberta.

A viagem de ferry que atravessa o Sado é bonita e nem é preciso muita sorte para se dar com os golfinhos a brincar neste rio que em breve se tornará mar. Mas a opção recaiu na passagem por Alcácer do Sal, um bom pretexto para se admirar o seu castelo altaneiro ao mesmíssimo Sado.

De Alcácer do Sal seguimos por quase 30 melancólicos quilómetros de estrada até à Carrasqueira. Rectas enormes bordejadas por pinheiros convidam à evasão. Não o vemos, mas sentimos o Sado mesmo ao nosso lado. Irresistível desviar do asfalto e meter num dos poucos estradões de terra batida que surgem no caminho para o espreitar. Aqui estamos em plena Reserva Natural do Estuário do Sado. Natureza bruta e pura que todos têm sabido preservar.

O Estuário do Sado, o segundo maior do país, é uma extensa área protegida que vai desde os estaleiros navais de Mitrena e do Moinho da Maré da Mourisca (onde fica hoje o Ecomuseu – Centro de Educação Ambiental), ambos no concelho de Setúbal, até à outra margem do rio, já nos concelhos de Alcácer do Sal e Grândola. Este estuário inclui não apenas o rio, mas também zonas de sapal, salinas, arrozais, dunas e pinhal. Neste ecossistema desenvolvem-se espécies endémicas, como as mais de 200 espécies de aves que para aqui vêm invernar e nidificar, diversos peixes e o singular golfinho roaz.

Referi que são quase 30 os quilómetros de estrada sem curvas que ligam Alcácer do Sal à Carrasqueira, mas está visto que apesar da liberdade de se carregar no acelerador a viagem não é breve. Os convites para paragens são muitos, seja o simples cheirar o ambiente de pinhal ou apreciar os ninhos das cegonhas no cimo dos postes de electricidade, confirmar as cores do casario alentejano em lugares como Montevil ou espreitar uma das muitas herdades turísticas como Montalvo – até onde as cancelas das propriedades privadas o permitem. A região da Comporta não é um lugar que se deixa descobrir facilmente, há que insistir e não hesitar em ir mais além sempre que o podemos. Por vezes parece que as estradas de terra batida não vão dar a lado nenhum, mas a verdade é que levam sempre, pelo menos, ao recato, à tranquilidade e, com sorte, a um pedaço de Sado ou de Atlântico.

A primeira paragem “oficial” deste dia por terras da Comporta foi a aldeia da Carrasqueira.

As margens do Estuário do Sado foram sendo ocupadas desde há séculos pelos humanos que aí buscavam os seus recursos marinhos, a pesca e o sal. Há, aliás, registos de ocupação da Península de Tróia desde o Neolítico e da Idade do Bronze e os romanos no século II fizeram desta um centro de salga de peixe.

A Carrasqueira é uma das povoações que melhor testemunham essas tradições seculares. Os seus habitantes dedicam-se às actividades agrícolas (sobretudo à cultura do arroz, mas também da batata doce) ou à pesca e o património construído do povoado é feito das típicas casas alentejanas caiadas de branco com riscas azul e ainda de cabanas de colmo e portos palafitas.

O Cais Palafítico da Carrasqueira é um dos pontos mais emblemáticos de toda a região. Testemunho intemporal de uma das actividades económicas mais presentes na Comporta – a faina do mar -, este pequeno embarcadouro que vem já das décadas de 50 e 60 do século passado é feito de um conjunto de passadiços de madeira que se entrecruzam e estão assentes no lodo do sapal, os quais nos levam até aos barquinhos que ai são embalados pelo Sado. Na maré baixa deixam-se enterrar no lodo, enquanto que na maré alta baloiçam à tona da água. A imagem deste cais é humilde e frágil e caminhando pelas suas tábuas de madeira muitas das vezes duvidamos da sua segurança. Espreitamos as pequenas casinhas de apoio à pesca e vemos a confusão dos materiais empilhados por ali, enquanto arriscamos chegar bem pertinho do rio.

Entre a Carrasqueira e a Comporta ficam alguns daqueles segredos da Herdade da Comporta envolvidos pela areia que já não são segredo para ninguém. Pelo menos já todos os interessados no bom gosto da arquitectura na natureza viram as fotografias. Já para experimentar passar uma noite numa destas casinhas ainda vai uma distância enorme 💶💰. Falo, claro, das super premiadas Casas da Areia da dupla de arquitectos Aires Mateus, cujo projecto que eleva à estratosfera a rusticidade acompanhada de requinte com respeito pelo ambiente tem vindo a merecer destaque nas revistas de arquitectura e de viagem. A inspiração destes edifícios vem das cabanas dos pescadores que serviam de sua habitação e guardavam – e guardam ainda – as alfaias agrícolas.

Normalmente instaladas em locais arenosos, é possível ver uma recriação dessa tradição de arquitectura popular materializada num outro projecto, o Cabanas no Rio, dos mesmos arquitectos. Encaixado nas dunas e com acesso directo ao rio, a envolvente natural do lugar é belíssima e o recolhimento total.

A aldeia da Comporta é o epicentro de toda a região. Bons e afamados restaurantes (que vão buscar os seus recursos ali mesmo), lojas da moda, o hippie-chip versão comércio em todo o seu esplendor. A beautiful people de todo o mundo vem até aqui para desligar do dia a dia e encontrar refúgio num ambiente natural e protegido mas com todas as comodidades. O azul e branco voltam a ser as cores dominantes, sinónimos da elegância que abunda por estas paragens. E as cegonhas nos seus ninhos altaneiros não podiam faltar a este cenário de postal.

Nos últimos anos, com a queda do Grupo Espírito Santo, muito se tem falado da venda da Herdade da Comporta e dos negócios imobiliários e turísticos que tal poderá vir a proporcionar aos seus futuros donos e, logo, dos receios que eventuais impactes ao nível ambiental e paisagístico possam trazer à região. Enquanto percorremos as estradas, pinhais, dunas e arrozais da Comporta não conseguimos perceber os limites da Herdade. O que percebemos, sim, é que este é um lugar que só pode ser desejado, mas que dificilmente será para todos.

Um pouco de história: a Herdade da Comporta tem cerca de 12500 hectares encravados entre o Estuário do Sado e o mar e acolhe sete povoações – Carrasqueira, Comporta, Possanco, Torre, Brejos, Carvalhal e Pêgo. Criada no século XIX e integrada no património da Coroa Portuguesa, a Herdade foi sucessivamente vendida a britânicos, depois à família Espírito Santo, nacionalizada e novamente devolvida àquela família – e hoje, para além de decorrer a venda da Herdade, a propriedade de parte da região é alvo de discussão, sobretudo pela falta de delimitação do Domínio Público Marítimo. Antes, porém, no século XVI este território foi ocupado por africanos, crentes de que estes, mais resistentes ao paludismo, se adaptavam melhor às terras pantanosas e pejadas de mosquitos do Estuário do Sado. Foi no século XIX que a Comporta começou a receber migrantes de várias zonas do nosso país para trabalhar nos arrozais. Até aí esta era praticamente uma terra de ninguém. Hoje, já se sabe, é uma das mais procuradas e apetecíveis.

Assim como o sapal domina a zona do Estuário junto à Carrasqueira, é o arrozal que domina a paisagem à volta da aldeia da Comporta. Esta é a principal actividade agrícola da região.

Sapal, arrozal e, faltam agora, as dunas. A zona dunar está presente em muito deste território, muitas vezes envolvendo os pinheiros, mas é na costa ocidental, já virada para o Atlântico que ela se torna mais evidente.

As praias, enfim.

Apesar dos 65 quilómetros de areal que vão desde a Península de Tróia até Sines, não são muitas as praias com acesso público rasgado às dunas, daí que a maior parte deste areal permaneça deserto e virgem.

A Praia da Comporta é uma das praias oficiais. Com um restaurante de madeira de cada lado construído sobre as dunas, o que sobressai nesta praia é, no entanto, a casinha azul clara que os medeia. Azul mais bonito só o conseguimos buscar na cor irreal do mar, o qual contrasta na perfeição com a areia branquíssima.

De volta ao asfalto passamos pela povoação da Torre e pelos Brejos. Nos Brejos da Carregueira, assim como quem não quer a coisa, ficam uma série de propriedades embrenhadas nas dunas e escondidas do olhar forasteiro. Os acessos fazem-se por terra batida e o fim do caminho pode chegar abrupto ou pelo termo da estrada ou por um aviso de “propriedade privada”. Ainda assim, foi possível descobrir mais um belo conjunto de edifícios que se confunde com a paisagem.

A praia oficial que se segue é a do Carvalhal, a cerca de 11 quilómetros de distância da praia da Comporta. Entre estas, lá está, o extenso areal da costa ocidental é apenas acessível por alguma propriedade privada com acesso ao mar ou percorrendo o areal junto a esse mar de lés a lés, a pé ou até a cavalo. Mais, os arrozais servem também como que de barreira natural entre o pinhal (e a estrada) e o mar.

O Carvalhal é uma povoação mais crescida e cheia de habitações escancaradas à beira da estrada. Pequenas delícias entram-nos pela vista.

A Praia do Carvalhal é famosa por ser a praia dos surfistas e do restaurante Dinis. As cores do areal e da água desta praia, uma continuação das anteriores, continuam esplendorosas.

A última paragem aconteceu na Praia do Pêgo. Esta será a mais exclusiva das praias da Comporta. É por aqui que o clã Salgado tem a sua casa rodeada de dunas e da chatice dos mosquitos e das melgas. E é no Pêgo que fica outra das instituições da região, o restaurante Sal, encravado nas dunas.

Apos este breve mas tranquilo passeio pela Comporta, cujo nome deriva da comporta que impede a entrada de água do Estuário do Sado para os campos de arroz, confirmamos que o paraíso mantém a sua alma original e a sua natureza segue intocada.

Castelo de Vide

A primeira impressão à aproximação de Castelo de Vide, que vamos vendo instalada no alto de uma colina a 469 metros de altitude, é a de que é uma povoação extensa de casas brancas protegidas por um castelo no meio da Serra de São Mamede.

Castelo de Vide recebeu carta régia em 1180 e o primeiro foral em 1310 por D. Dinis, o qual construiu o castelo que lhe dá o nome e as muralhas que perduram até hoje. Não é, no entanto, deste rei a estátua com que nos deparamos à entrada do centro histórico. Na larga Praça D. Pedro V é este esbelto rei que nos dá as boas-vindas e logo percebemos que é uma vila bem conservada a que nos recebe. Não que seja monumental, nada disso. São antes as suas ruas e o seu casario e apontamentos arquitectónicos e decorativos discretos mas abundantes o que nos seduz. Ou seja, há que caminhar e palmilhar as ruas estreitas e íngremes de Castelo de Vide para melhor a sentirmos e ganharmos.

Na Praça D. Pedro V ficam os antigos Paços do Concelho, um edifício com arcos quebrados e portais góticos, uma construção nobre do século XVIII que ostenta um brasão com as armas de Portugal e a cruz de Avis. E aqui ficam ainda mais uns quantos edifícios interessantes.

Uns interessantes pela sua arquitectura surpreendente, com pequenos torreões acastelados, uma, e com trabalhos de estuque e cores vivas, a outra. Outros ainda interessantes pelo facto de neles terem nascido personagens históricas, como Mouzinho da Silveira, por exemplo. Ao lado da Igreja Matriz da Devesa fica um pequeno largo que leva o nome de outra figura que desempenhou um papel decisivo no nosso Portugal contemporâneo: Castelo de Vide é a terra que viu nascer Salgueiro Maia.

Tamanhos vultos só podem significar ser esta uma terra grande e mais adiante nomearemos ainda um outro, só para tirar qualquer dúvida que ainda pudesse existir.

Antes, porém, subamos até ao castelo. Pelas tais ruas estreitas e íngremes. Sempre preenchidas com o casario branco com frisos amarelos, tão típico dos povoados alentejanos. Mas aqui as ruas de traçado medieval estão todas floridas. E as portas ogivais e manuelinas sucedem-se sem que nos cansemos de as observar.

A entrada no Castelo e a descoberta de um novo burgo permite-nos perceber que Castelo de Vide são como que duas povoações, mas ambas unidas pelo mesmo carácter e atmosfera. No entanto, o enorme trabalho de conservação e restauro da vila não chegará para tudo e aqui dentro do castelo veem-se alguns espaços abandonados.

Mas a maioria segue inteira e mimosa aos olhares forasteiros. Uma placa de uma das ruas anuncia ter sido esta, em tempos, a vencedora de um prémio de rua mais florida e uma velhinha à sua porta dedica-se ao artesanato e à venda dos seus produtos.

No burgo intra Castelo destaca-se o pequeno largo onde fica a igreja de Nossa Senhora da Alegria, conhecida pelos seus azulejos.

É possível caminhar um pouco pelas muralhas e até descê-las e voltar ao centro histórico da vila pela encosta contrária à entrada principal do castelo.

Não o fizemos e optamos apenas pela a imprescindível subida à Torre de Menagem. Daqui se aprecia os contornos da serra que envolve a vila de Castelo de Vide que se espraia aos nossos pés.

E se subimos até ao Castelo, agora toca-nos descer.

A Judiaria, o bairro judeu medieval, é o conjunto de casas e ruelas instaladas numa encosta que vai da porta do castelo até à fonte da vila. No século XV um édito dos Reis Católicos de Espanha levou a que inúmeras famílias judias fugissem do outro lado da fronteira e aqui procurassem refúgio. Foi assim que aqui se foi instalando uma comunidade judaica que muito viria a contribuir para o desenvolvimento da vila. No edifício do que se pensa (sem muita certeza) ter sido a sinagoga fica hoje um espaço museológico que nos conta a história e tradições desta comunidade que se dedicou sobretudo a artes e ofícios como a sapataria, tecelagem e cardação. Ficamos a saber, por exemplo, que as tradições pascais da vila (comuns, aliás, a muitas regiões do país) terão ainda hoje influência de ritos judaicos. E que Garcia da Orta pode ter escapado em vida à fogueira, o que não aconteceu com a sua irmã, mas os restos do seu corpo já no túmulo não tiveram a mesma sorte, vítimas da Inquisição. É isso mesmo, Garcia da Orta, o mais histórico dos botânicos portugueses, é também um dos filhos ilustres de Castelo de Vide.

Saídos da sinagoga descemos a bem descer até à Fonte da Vila, construção do século XVI em forma quadrangular e com uma cobertura piramidal suportada por colunas de mármore. Despedindo-nos desta fonte singular, subimos mais uma rua e já cá estamos novamente diante dos antigos Paços do Concelho. Diversas ruas irradiam daqui para cima, até lugares que nos oferecem uma panorâmica irresistível do castelo e da Serra de São Mamede e mais além.

Na outra ponta da Castelo de Vide fortificada há até mais um forte para além do castelo, o forte de São Roque, e pelo meio diversos baluartes. Haja fôlego para repetir as subidas. Cá em baixo, porém, vários jardins e igrejas nos aguardam. E bons restaurantes. E doçaria típica, como a boleima, mais uma tradição da comunidade judaica.

Não é fácil deixar o encanto de Castelo de Vide, mas saímos convencidos do bom trabalho na conservação de uma vila pitoresca no interior de Portugal.

Não podemos, no entanto, deixar de vaguear pelos seus arredores. Região onde a ocupação humana é muito antiga, vários exemplares do megalitismo estão por aqui presentes, como antas e menires. Junto a Marvão, ali perto, temos até a cidade romana de Ammaia para conhecer.

Mas a melhor forma de nos despedirmos de Castelo de Vide é subir até à Capela Nossa Senhora da Penha, um miradouro incrível donde tudo se alcança, e avistá-la de longe por entre o arvoredo e as rochas agrestes.

Para pernoitar, uma sugestão à medida da pacatez que a interioridade do Alentejo nos oferece. Existem várias opções de alojamento, mas talvez nenhuma tão surpreendente como a Pensão Destino, instalada na antiga estação de comboios de Castelo de Vide, a 4 kms do seu centro histórico. Aqui pudemos desfrutar do sossego absoluto da serra, apenas entrecortado pelo latido dos cães ou o cacarejar das galinhas, enquanto nos deixamos estar na sua esplanada com a companhia dos belíssimos azulejos e relógio da antiga estação e da desactivada linha do comboio ali mesmo ao lado.