Pela EN2, na companhia de um castelo e de um mergulho: 6ª etapa – Castro Verde – Faro (638 km – 738 km)

“Passado o Caldeirão, é como se me tirassem uma carga dos ombros. Sinto-me livre, aliviado e contente, eu que sou a tristeza em pessoa! […] A terra não hostiliza os pés, o mar não cansa os ouvidos, o frio não entorpece os membros, e os frutos são doces e sempre à altura da mão.” – Miguel Torga, in O Algarve

Eis a última etapa da nossa viagem pela EN2, aquela que nos transporta do Alentejo até ao Algarve, atravessando a Serra do Caldeirão.

Em Castro Verde, vila alentejana, já se vêem as chaminés típicas tão omnipresentes no vizinho Algarve. Mas aqui o elemento arquitectónico de destaque é a sua enorme Basílica Real, tão imponente que se avista ao longe. A caminho do Miradouro de São Pedro das Cabeças vemos passar uma biblioteca itinerante e realizamos o quão afastados estamos do bulício das grandes urbes.

Lá de cima do monte essa realidade é ainda mais presente, uma enorme planície pontuada por uma elevação aqui e ali, como aquela onde Castro Verde está instalada. Diz-se que o Cerro de São Pedro das Cabeças foi o lugar da Batalha de Ourique, mas outros municípios reclamam para si o título. A nós não nos interessa muito essas disputas históricas, o poder real da paisagem chega-nos.

De Castro Verde a Almodôvar temos mais umas rectas generosas. Em Almodôvar, a última das vilas alentejanas, começámos por visitar a ponte medieval da Ribeira de Cobres e, depois, o Convento de Nossa Senhora da Conceição e o Mercado Municipal. Mas a surpresa está no Mesa, o Museu da Escrita do Sudoeste.

Escrita do Sudoeste? O que é isso? No Mesa aprendemos que há uma escrita misteriosa, a primeira forma de escrita da Península Ibérica. Criada há cerca de 2500 anos, este sistema assente em signos desenvolveu-se no Algarve, Alentejo e Andaluzia muito por força da continuada presença dos comerciantes fenícios que para aqui vinham. Daí as suas origens no alfabeto fenício, tendo as populações locais desenvolvido uma escrita própria que resultou da adaptação daquele alfabeto à sua língua. As inscrições desta escrita foram descobertas em estelas (a maior parte delas no concelho de Loulé), elementos funerários onde se crê que eram inscritos epitáfios, breves textos de homenagem à vida de certos indivíduos. Não se sabe ainda muito sobre esta escrita, e talvez não se venha a saber nunca, mas a cerca de uma centena de estelas descobertas permite perceber que era efectuada de baixo para cima e da direita para a esquerda.

Felizes por esta descoberta linguística – que desconhecíamos em absoluto -, começámos por nem perceber que à saída de Almodôvar as rectas iam ficando mais curtas e que as primeiras curvas apareciam. Embora estas curvas, para os padrões da Beira, não sejam nada. Digamos que deixámos de as poder fazer em 5ª mas ainda dá para virar ligeiramente o volante em 4ª. Mas à medida que a Ribeira do Vascão se aproxima – a fronteira entre o Alentejo e o Algarve – as curvas tornam-se, então, uma companhia cerrada. Diz que são 365 as curvas da Serra do Caldeirão, mas contámos pelo menos 366, uma por cada ano bissexto.

A Serra do Caldeirão traz uma diferença abissal relativamente à paisagem de planície alentejana que nos vinha acompanhando ao longo das centenas de quilómetros anteriores. Um relevo agora muito acidentado, com cumes que ondulam a toda a vista, apesar de o mais alto atingir apenas 589m de altitude. Este relevo acidentado deve-se à densa rede hidrográfica, constituída por pequenos ribeiros que ao longo dos séculos foram esculpindo a rocha. A paisagem é avermelhada e carregada sobretudo de sobreiros. Desviámos cerca de 2 kms no Ameixial até ao Azinhal dos Mouros só para sentir um pouco o ambiente do Caldeirão fora da EN2. E é mais ou menos isso, parece que estamos dentro de um caldeirão, em pura ebulição serrana.

O Miradouro do Caldeirão é uma paragem oficial, mas não é o ponto mais bonito da Estrada. A Serra do Caldeirão faz a transição entre o Baixo Alentejo e o Barrocal e o Litoral algarvios. A Fonte Benémola, junto a Querença, está precisamente nesta zona de transição. É uma boa hipótese de desvio da EN2 desde Barranco Velho, mas preferimos deixá-la para o dia seguinte para, sem pressas, podermos caminhar pelo seu percurso pedestre de pouco mais de uma hora.

Para chegar a São Brás de Alportel começamos a descer em direcção ao mar. O Miradouro do Alto da Arroteia prova a sua exacta localização, “entre a serra e o mar”.

Já as suas ruas e o seu casario dá-nos a certeza: estas chaminés não enganam, estamos definitivamente no Algarve. E é curioso constatar como esta primeira povoação algarvia onde nos tocou parar é labiríntica e feita de ruas estreitas e já não geométrica e feita de ruas paralelas umas às outras, como as alentejanas.

O nosso último curtíssimo desvio fez-se para relembrar Estoi e o seu Palácio e Jardim, um dos maiores exemplos do romantismo no Algarve, hoje integrado na rede das Pousadas de Portugal. Construído entre 1840 e 1850, o que vemos aqui é uma mistura de estilos, entre o Neoclássico, o Neorococó e a Arte Nova, e uns belos jardins com lagos, fontes e esculturas. O interior do palácio, adaptado a unidade hoteleira, como se referiu, mostra igual nobreza nos seus salões, não faltando sequer a capela no interior da torre sineira. Ainda em Estoi, vale a pena visitar as Ruínas Romanas de Milreu, a Vila Romana antigamente conhecida como Ossonoba, a qual visitámos há uns bons anos aqui.

A chegada a Faro faz-se sem graça. Os últimos quilómetros da Estrada são ladeados por edifícios industriais e de lojas típicas dos arredores das grandes cidades. Pior, o marco do quilómetro 738, o derradeiro, está instalado numa rotunda sem graça. Merecíamos uma melhor recepção e uma forma cómoda de alcançar o tabuleiro central da rotunda, para os devidos festejos de final desta longa jornada. Mas não, não deu sequer para chegar junto ao marco e tirar a foto da praxe, tal era o intenso tráfego que não cessava de rodar a rotunda.

Mas se a chegada a Faro não tem muita graça, o centro histórico da capital do Algarve tem-na de sobra (e disso daremos conta em futuro post exclusivamente dedicado à cidade). Incluindo umas muralhas junto à Ria Formosa que se crê ser anteriores à chegada dos romanos à região, as quais vieram mais tarde a proteger os mouros, tendo no século XIII acabado por ser reconstruídas pelo rei de Portugal vigente. São o nosso castelo do dia.

E para terminar esta epopeia pela EN2, iniciada em Chaves a longínquos 739 kms do mar, nada melhor do que um mergulho nas águas do Atlântico.

A Praia da Ilha de Faro, mar de um lado e ria do outro, foi a escolhida para o momento. Um lamento apenas. Depois de tantos dias sozinhos pela Estrada tão desertificada como o interior que percorre, imaginámos imergir no oceano com poucas testemunhas. Tal não aconteceu. Sabendo o que sabemos hoje, desta novela apenas mudaríamos o seu final: consultaríamos previamente os horários do barco e trocaríamos o mergulho na Ilha de Faro pela vizinha Ilha Deserta (Barreta). Um mero adorno que não altera o encanto da história.

Pela EN2, na companhia de um castelo e um mergulho: 5ª etapa – Sardoal – Castro Verde (386 km – 638 km)

“Há quem se canse de percorrer as estradas intermináveis e lisas desse latifúndio sem relevos. Há quem adormeça de tédio a olhar a uniformidade da sua paisagem […] Amedronta-os a solidão de uma natureza que não se esconde por detrás de nenhum acidente, corajosa da sua nudez limpa e total. Eu, porém, não navego nas águas desses desiludidos.” – Miguel Torga, in O Alentejo

Esta é a etapa mais longa da nossa jornada pela EN2, aproveitando as várias rectas que as planícies do Alentejo nos oferecem, algumas delas intermináveis.

A saída do Sardoal em direcção a Abrantes é feita na companhia de intensa vegetação. E parece que os pinheiros e eucaliptos que vinham a dominar a paisagem da Beira desapareceram. A EN2 passa em baixo da cidade de Abrantes, instalada numa colina, vendo-se o castelo ao alto e o Tejo no lado esquerdo. E passamos a ponte rumo a além Tejo. Várias povoações de beira de estrada desfilam, umas atrás das outras, mas logo dão lugar a uma zona industrial e a alguns campos cultivados, onde se vêem os pivots de rega, aquelas estrutura mecânicas típicas da paisagem ribatejana e alentejana. Acabaram as subidas e as descidas, as serras já não nos fazem companhia e Ponte de Sor é sempre a direito, não tem nada que enganar. No entanto, não temos a certeza se a cidade é ribatejana ou alentejana. Talvez se veja a si mesma como as duas.

Ponte de Sor é simpática e aqui a arte urbana convive lado a lado com o casario branco e amarelo e a zona ribeirinha ao longo da Ribeira de Sor presta-se a um passeio demorado. A visitar também sem pressas o Centro de Artes e Cultura, instalado na antiga Fábrica de Moagem de Cereais e Descasque de Arroz, hoje com a fachada azulíssima. É isso, Ponte de Sor, cor por todo o lado.

Deixamos a cidade e, novamente sempre a direito, só resta pisar um pouco mais no acelerador e ir apreciando os túneis formados pelas copas das árvores que aparecem amiúde e ver desfilar os marcos, alguns instalado à sombra dos sobreiros. Daqui a pouco, Alentejo profundo adentro, talvez possam descansar à sombra de um chaparro.

Antes, porém, vem a barragem de Montargil e a EN2 faz-nos seguir com as suas águas mesmo ao nosso lado esquerdo. Há por aqui várias vilas e resorts e oferta de actividades náuticas em abundância. Mas há também uma pequena praia fluvial imediatamente antes da povoação de mesmo nome, estando a vila, curiosamente, instalada num monte. A paisagem não engana, chegámos ao Alentejo.

Antes de chegarmos a Mora vale a pena um desvio até ao Fluviário e Parque Ecológico do Gameiro. O Parque possui uma praia fluvial onde demos o nosso mergulho do dia após a bela caminhada nos seus passadiços ao longo da ribeira de Raia. São apenas 1,3 kms lineares, cerca de 20 minutos para cada lado a fazer ranger a madeira. A vegetação é abundante e diversos painéis informativos dão-nos conta da diversidade da flora e fauna locais. Este é um lugar a voltar, uma vez que é possível continuar a caminhar no final dos passadiços por uma zona de montado alentejano, num percurso circular de 5,5 kms que, por falta de tempo, não fizemos neste dia.

Assim como não explorámos Mora nem Brotas a pé, como merecem. Apenas deu para perceber que Mora veste de amarelo e Brotas de azul e amarelo. O verde fica para as oliveiras que compõem a vizinhança destas povoações.

E chegamos a uma mítica marca ou, neste caso, marco: o km 500 à passagem da aldeia do Ciborro. Ao longo do último século a povoação viu a estrada passar de terra batida a empedrada e, depois, a asfaltada e orgulha-se de ter crescido à medida que a Estrada se ia desenvolvendo.

Em Montemor-o-Novo é obrigatória uma paragem. Aqui está o nosso castelo do dia. Foi lá no alto do monte, com vista da EN2, que a antiga vila conquistada por D. Afonso Henriques aos mouros começou por se instalar e desenvolver. Hoje o recinto já não está todo muralhado, mas o que resta proporciona um ambiente fantástico. Entramos pela Porta da Vila com a Torre do Relógio ao seu lado e caminhamos por entre o mato passando pelas ruínas de antigas igrejas, do Paço dos Alcaides e do Convento da Saudação, num espaço largo que nos faz imaginar como seria grande a arquitetura e intenso o dia-a-dia da urbe há séculos.

Foi a partir do século XVI que se deu o abandono do castelo e a passagem dos habitantes para o arrabalde. Cá em baixo, a actual Montemor-o-Novo é igualmente digna de um passeio. As ruas estreitas do centro histórico deixam espreitar o castelo, sinal da sua dependência ainda, mas muitos outros elementos há para apreciar. Desde logo, as suas fontes monumentais, como a Fonte de Nossa Senhora da Conceição e a Fonte Nova (Chafariz do Besugo), ambas junto aos Paços dos Concelho. Mas também algumas casas senhoriais, igrejas e conventos e o jardim público com coreto.

Saímos de Montemor-o-Novo rumo ainda mais a sul. As rectas tornam-se mais frequentes e são cada vez mais longas. Por vezes aparece uma “curva” e sem arriscar muito podemos até atravessá-la em 5ª. Subidas? São mais ou menos isto.

Há quem ache a paisagem do Alentejo monótona e dificilmente alguém elegerá uma das suas estradas como uma das melhores para se conduzir. Não há curvas, não há desafios, não há surpresas. Precisamente por isso é que amo conduzir sobre elas. Porque posso dedicar-me em exclusivo à sua paisagem, descobrir uma fonte à beira da estrada, confirmar que há água nos charcos, rever umas vacas a pastar, perceber que há mais árvores para além dos chaparros, avistar ao longe um monte, ver desfilar os marcos – os mais bonitos de toda a EN2 estão no Alentejo. E nunca me canso das estradas, incluindo a N2, transformadas em túneis de árvores por centenas de metros.

Logo a seguir a Santiago do Escoural, onde se pode visitar a sua Gruta (agora exclusivamente por marcação prévia), um desvio de menos de 5 kms por uma estrada onde mal cabe um carro leva-nos até à Anta-Capela de Nossa Senhora do Livramento, um exemplar de arquitectura popular edificada no meio de uma paisagem pura.

De volta à EN2, da Casa Branca às Alcáçovas surge a terceira mais longa recta da Estrada: 5,5 kms em que nos prepararmos para uma das paragens mais históricas de toda a viagem. Alcáçovas é a vila onde em 1479 foi assinado o Tratado das Alcáçovas. Com a Paz de Alcáçovas, para além de se pôr termo a disputas sobre a sucessão dos reinos de Castela e de Portugal, os dois reinos acordaram na divisão dos territórios do Atlântico entre si.

Crê-se que o Paço dos Henriques tenha sido o local exacto da assinatura deste decisivo documento. A visita ao edifício restaurado recentemente permite-nos ainda conhecer sobre a arte dos chocalhos, importante e antiquíssima tradição da vila. Mas o ponto alto da visita é o horto e capela do solar, construção do século XVII conhecida como Jardim e Capela das Conchas. O interior da capela está totalmente decorado com embrechados e no jardim vêem-se igualmente diversas estruturas, como a fonte, com a mesma execução técnica decorativa, uma surpresa e uma raridade na região. E Alcáçovas é ainda uma vila de fortes tradições e tipicamente alentejana nas suas ruas e edifícios, sempre agradáveis de percorrer.

Prosseguimos na condução recta, mas à chegada ao Torrão tudo muda: há curvas (verdadeiras) até se atravessar o rio Xarrama e depois subimos até chegar à vila. É aqui que pela primeira vez vemos um dos típicos postais da EN2, o da publicidade ao Nitrato de Chile nas paredes alvas do Alentejo. Mas, passado o Torrão, logo voltam as rectas. As albufeiras são várias por aqui, não espreitámos a de Vale do Gaio, junto ao Torrão, mas fizemo-lo na de Odivelas, lugar onde há uma zona de lazer com parque de merendas e possibilidade de um mergulho.

Segue-se Ferreira do Alentejo, recebendo-nos com os seus silos industriais à entrada. A Capela do Calvário é o emblema desta vila, bem diferente do que estamos habituados a conhecer, com umas pedrinhas como decoração na sua fachada. Mas Ferreira é bem bonita, com as ruas brancas e amarelas, desertas à hora da sesta. É numa delas que encontramos a Casa do Vinho e do Cante, na antiga Taberna Zé Lélito, um espaço museológico que pretende preservar e divulgar as tradições locais.

De Ferreira a Ervidel apanhamos a segunda recta mais comprida, 8 kms de pura evasão, amendoeiras de um lado e girassóis do outro, qualquer uma delas plantações até acabar a vista.

A entrada em Aljustrel faz-se, à semelhança de Ferreira, com a companhia de silos industriais. Mas nesta vila, encaixada entre dois montes, ambos miradouros naturais de onde se percebe a sua topografia traçada a regra e esquadro com uma série de ruas paralelas umas às outras, a grande atracção é o seu histórico passado mineiro. O Parque Mineiro de Aljustrel proporciona-nos diversos percursos turísticos, através dos quais conhecemos a maquinaria e estruturas associadas a esta industria, bem como os bairros dos operários.

E, por fim, de Carregueiro a Castro Verde cai-nos nas rodas a mais comprida recta da EN2: 12 kms bem medidos. Se tivéssemos tentado percorrê-la no dia anterior não o teríamos conseguido, uma vez que um fogo havia cortado o trânsito na Estrada. Neste dia fizemo-lo com a paisagem à beira da Estrada negra e com os bombeiros ainda em acções de rescaldo. O Centro de Educação Ambiental do Vale Gonçalinho, uma opção de visita aqui perto, esse, viu pelo menos as suas aves mais novas em perigo de vida. Triste.

Desfrutámos do fim de tarde na piscina, a recuperar dos 40° do dia, e deixámos o passeio pelas ruas de Castro Verde para o dia seguinte, não sem antes enchermos a barriga de carne de porto preto num dos seus óptimos restaurantes.

Évora Monte

Habituamo-nos a passar na A6 a caminho de Elvas e, um pouco depois de Évora e antes de Estremoz, ali está à esquerda um castelo num monte sobranceiro à via rápida com uma torre diferente daquelas que costumamos observar na paisagem portuguesa. Sempre dizíamos, um dia desviamos e vamos até lá cima. Mas não foi preciso chegar o dia do desvio. Antes disso, veio o dia em que de forma intencional lá fomos de propósito só para explorar a colina que em tantas viagens nos compôs o cenário na paisagem alentejana.

Évora Monte é mais do que um simples castelo instalado num lugar estratégico e privilegiado. É também uma povoação pitoresca, certamente despovoada como muitas no nosso país, mas que conserva ainda as marcas de um passado de orgulho e, sobretudo, as marcas identitárias das aldeias alentejanas.

Desde logo, a planície a perder de vista. Esta é uma aldeia miradouro. Do alto dos 481 metros da garbosa colina tudo se avista, clima o permita. Mas mesmo em dia fechado, como nos tocou, o “pouco” que se vê é tanto que chega bem para nos convencer do privilégio.

Depois, o castelo. São 4 as portas da antiga povoação, ligadas por uma muralha que se percorre fácil e prazerosamente, com vista ora para a planície extra-muralha ora para o casario intra-muralha. Não se sabe ao certo as origens da povoação de Évora Monte. Pensa-se que tenha sido conquistada aos mouros por D. Afonso Henriques em 1166. Certo é que em 1248 D. Afonso III lhe concedeu foral e em 1306 D. Dinis mandou construir as muralhas, fortificando o povoado. Em 1531 um forte terramoto destruiu grande parte das construções da povoação que era então propriedade da Casa de Bragança. E foram estes que a reconstruíram e mandaram levantar a torre que ainda hoje distinguimos mesmo ao longe e consideramos única na sua arquitectura no panorama nacional. Esta torre era então o paço ducal da família, servindo como residência de caça dos duques de Bragança. Como se não bastasse a sua implantação geográfica, no alto de uma colina na planície alentejana, também na fachada desta torre podemos perceber a influência e poderio da Casa de Bragança. Na época (século XVI), era a segunda mais importante do reino, tendo como divisa “Depois de Vós [rei], Nós [Casa de Bragança]”. Esses “nós” eram parte da heráldica bragantina e vêem-se materializados na fachada da torre / paço ducal de Évora Monte.

E, por fim mas não menos importante, o casario. Povoação feita de praticamente uma só rua estreita, casas com os típicos frisos de uma cor a contrastar com o branco alentejano, igreja matriz acompanhada de cemitério, roupa estendida ao vento junto à muralha e mais uma dose de pormenores surpreendentes, tão pequena que é a povoação muralhada. Numa das suas casas, a de Joaquim António Sarmago, foi assinada em 28 de Maio de 1834 a Convenção de Évora Monte que restabeleceu a paz em Portugal após anos de guerra civil entre liberais e absolutistas. Um pouco mais acima, em duas casas, uma de cada lado, aprecia-se as suas portadas em ogiva.

E um pouco por todos os cantos, a calçada oferece-nos umas casas pintadas. A arte na rua, surgindo assim de supetão sem pedir licença, faz com que este breve passeio por Évora Monte seja ainda mais memorável. Como se o Alentejo coubesse todo aqui.

Alentejo road trip

Vamos mudando. Até há uns anos não gostava de andar de carro, ser conduzida ou conduzir. Hoje tudo é diferente.

O carro permite-nos ir acrescentando sempre algo mais à nossa viagem, parando quando se quer, seguindo a direito quando assim o desejamos. Uma liberdade. Numa road trip é a jornada que conta, não o destino.

E poucas regiões haverá melhores do que o Alentejo para seguir de carro, mão de fora na janela aberta, como se quiséssemos agarrar o vento. Pouco trânsito, boas estradas, paisagens diversas. Sem tédio, mas com melancolia quanto baste, com a ajuda da banda sonora escolhida.

Algumas das estradas mais bonitas do nosso país estão aqui. Como aquela quase recta que liga Nisa ao Crato e depois Alter, amiúde protegida pelas árvores. Ou a sempre recta de Mourão a Monsaraz, com a imagem dos seus castelos e as águas do Alqueva como companhia. Ou as costumeiras rectas da Amareleja a Barrancos que, de repente, se transformam em curvas e mais curvas. Ou ainda qualquer estrada pela Serra de São Mamede, as mais altas a sul do Tejo.

Prego não muito a fundo por estas estradas, para melhor se apreciar o cenário, vamos vendo desfilar a fauna local – gado, cavalos, porcos, cabras, cegonhas e tudo o mais que resolver aparecer -, um charco aqui e outro ali com ares de lago, arvoredo que parece ter sido ali depositado de propósito para embelezar as margens do asfalto. Até um pôr-do-sol memorável.

Um passeio pelas vilas à volta da Albufeira do Alvito

A Albufeira do Alvito está aqui como pretexto para juntar num mesmo texto várias paragens de distritos diferentes, Évora e Beja. Iniciámos o passeio em Portel e terminámo-lo em Viana do Alentejo, mas pelo meio não resistimos nem a molhar os pés na Albufeira nem a admirá-la como os pássaros.

Portel está instalada numa encosta e é o seu castelo com torre e cerca urbana que domina a vila e a paisagem que a rodeia. Com foral concedido no século XIII, ainda hoje o castelo da vila é propriedade da Casa de Bragança. Foi daqui do alto que a “Vila Velha” se desenvolveu, preservando não apenas o castelo como também o edifício dos Paços do Concelho e umas casinhas brancas bem junto às muralhas.

De Portel seguimos para a Vidigueira, transição do Alto para o Baixo Alentejo, mas dela apenas trazemos na memória a Torre do Relógio e o que resta da sua antiga Torre de Menagem. Esta é uma zona de planície, pontuada aqui e ali por alguns alguns relevos, sem perturbar a tranquilidade característica do Alentejo.

Vila Alva pode ser vila de nome, mas é pequenina como uma aldeia. A designação alva, porém, não engana. É um aglomerado de casinhas brancas, onde apenas o azul da torre do relógio e o verde dos campos à sua volta contrariam a sua brancura. Depois de apreciar a sua alegre praça principal, vale a pena seguir pela sua longa rua até ao miradouro que nos apresenta uma imagem de pura ruralidade, com olival e pastagens a perder de vista e também algumas vinhas.

Alvito é a vila que se segue. O seu nome deriva de “olivetto”, por influência dos tais olivais que continuam a marcar presença na paisagem. Alvito foi a primeira baronia instituída em Portugal, corria o ano de 1475. Eram então tempos de crescimento e desenvolvimento que, apesar da decadência dos últimos dois séculos, deixaram marcas no património monumental do lugar até hoje, como a Igreja Matriz, a Igreja da Misericórdia e o Castelo. A vila não têm nada a ver com traçados medievais, daí que se encontrem amplos terreiros, como o Rossio de São Sebastião ou o Jardim da Praça da República.

O Castelo do Alvito, hoje Pousada de Portugal, tem uma arquitectura diferente daquela a que estamos acostumados no nosso território. Construído entre o fim do século XV e princípio do século XVI, esta estrutura originalmente de carácter militar e residencial apresenta uma mescla dos estilos gótico, manuelino e mudéjar. Era, no fundo, um paço senhorial fortificado do qual podemos ainda hoje apreciar o seu belo pátio central quadrado.

Ao deparar com este lugar, o “Canto do Cante”, não podemos deixar o Alvito sem recordar que o Cante Alentejano, elevado a Património da Humanidade, é a música tradicional do Baixo Alentejo.

Subimos (no mapa) em direcção a Viana do Alentejo, mas desviamos primeiro até Oriola por uma estrada não muito bem conservada mas muito bonita. Oriola, aldeia típica de casas brancas cá em baixo junto à Alfubeira de Alvito, e São Bartolomeu do Outeiro, aldeia miradouro lá em cima na Serra de Portel, autodenominam-se ambas como “aldeias de Abril”. Há que recordar outra das tradições arreigadas neste Alentejo, a do orgulho abrilista. Mas aqui para este passeio contam mais as vistas. E a curiosidade de saber de onde virá o topónimo “Oriola”: diz que deriva de auréola ou aurea ora, ou seja, zona de minas de ouro.

Esta jornada termina em Viana do Alentejo. Esta Viana do sul tem, enquanto concelho, diversos pontos de interesse, como a vila de Alcáçovas – onde em 1479 foi assinado o Tratado de mesmo nome – e o Santuário de Nossa Senhora de Aires – lugar onde foram encontrados vestígios de ocupação antiga por parte dos celtas ou dos romanos. Centremo-nos, porém, no centro da vila a quem foi concedida primeiro foral em 1180 e que, mais tarde, em 1313 D. Dinis mandou construir cerca urbana. Mas nem cerca nem castelo se fizeram então. Embora sem total certeza, acredita-se que o castelo que hoje podemos admirar seja uma construção do final do século XV ou princípio do século XVI. Tardio, portanto, e isso talvez explique a sua arquitectura pouco familiar no contexto português.

De forma pentagonal, são cinco torres cilíndricas encimadas por cones ao longo das muralhas que guardam no interior aquele que é considerado um dos mais belos exemplos do manuelino no sul de Portugal, a Igreja Matriz com o seu fabuloso portal. Há ainda espaço para uma outra igreja no interior do castelo e destaque para o cruzeiro manuelino no centro do pátio. Mas, à semelhança do Castelo de Alvito, de quem é contemporâneo (aliás, a este respeito diga-se que antes de ser Viana do Alentejo a povoação tinha o nome de “Viana a par d’Alvito”), são também evidentes as influências mudéjares nos merlões e pináculos no castelo de Viana, o qual é ainda “estranho” pelos materiais utilizados na sua construção, em alvenaria de tijolo.

Junto ao castelo foram entretanto construídas as casas típicas alentejanas, de um ou dois pisos, brancas e quase sempre com riscas amarelas. Mas Viana têm ainda outra curiosidade e motivo de interesse, as suas (muitas) fontes e chafarizes. Foram as fontes e as águas naturais que escorrem da serra próxima que ajudaram o Homem a instalar-se na região e hoje algumas delas são parte do património monumental da vila, como é exemplo esta Fonte dos Escudeiros.

De Elvas a Olivença com passagem pela Ponte da Ajuda

Elvas é das cidades alentejanas mais interessantes e magnificentes. É sempre um prazer rever as imagens dos seus Aqueduto da Amoreira e Forte de Nossa Senhora da Graça.

Há muito tempo já tínhamos escrito sobre esta cidade da raia aqui, mas merece novas palavras.

A sua implantação geográfica, na fronteira com Espanha, fez com que a vila medieval que conserva ainda a topografia característica dessa época, bem como o castelo, se tornasse numa praça de guerra. O crescimento e desenvolvimento da cidade fez com que à cerca do núcleo urbano primitivo fossem acrescentadas mais duas cinturas de muralhas, tendo cada uma delas produzido uma malha urbana diferente. É, pois, impossível não dar com um troço de muralha, um muro de fortaleza, um baluarte, uma porta. Aliás, várias portas e todas elas únicas.

Um bom exemplo deste “palimpsesto” é o Arco do Dr. Santa Clara, construído no século XIX sobre uma antiga porta muçulmana. Em estilo romântico, este é um dos símbolos de Elvas que mais aprecio. Daqui até ao castelo, a Elvas do século XII é feita de ruas estreitas e labirínticas, bem ao estilo mouro, com casas caiadas com riscas amarelas e decorações com plantas e flores à porta.

Mas do Arco do Dr. Santa Clara para baixo o espaço é maior, com a ampla Praça da República, rasgada no século XVI, a acomodar, entre muitos outros edifícios, a Igreja Matriz e os antigos Paços do Concelho (hoje Casa da Cultura), pitoresco na sua varanda quinhentista com arcos. Para lá da Rua da Cadeia, uma outra Elvas, agora com ruas um pouco mais direitas, numa busca imperfeita da ortogonalidade ou numa intencional quebra da melancolia. Mas sempre com o branco e amarelo presentes nos seus edifícios.

E, a rodear tudo isto, um sistema fortificado de 10 kms, incluindo os Fortes da Graça e de Santa Luzia, fazendo de Elvas uma autêntica cidade fortaleza abaluartada.

Saímos de Elvas em direcção a Olivença, 25 kms praticamente em linha recta atravessando a nova Ponte da Ajuda sobre o Rio Guadiana. No entanto, é obrigatória uma paragem no lugar onde jaz a velha Ponte de Nossa Senhora da Ajuda.

A ruína desta ponte é incrível. E ter as águas tranquilas do Guadiana como cenário ajuda. Esta era uma ponte fortificada – ainda lá está a antiga torre em ruína – de que restam 8 arcadas na margem direita e 5 na esquerda. Construída no século XVI, foi logo nesse século que começou a desabar em consequência de ventos e cheias. Foi reconstruída, mas no século XVIII acabou novamente destruída, desta vez pelo exército espanhol. Há que contextualizar historicamente. A construção da velha Ponte da Ajuda aconteceu numa época em que Elvas e Olivença pertenciam a um mesmo país. [já oiço alguns a questionar, então mas ainda não são ambas Portugal?] E foi no contexto da fortificação e defesa de Olivença que a ponte foi construída, também no sentido de ligar as duas margens do Guadiana, permitindo um intercâmbio de pessoas e bens. A verdade é que o rio é uma fronteira natural e durante séculos a Ponte da Ajuda ali esteve, interrompida no seu tabuleiro original de 453 metros de comprimento. Assim como há dois séculos dura a disputa de território entre Portugal e Espanha. No ano de 2000 foi inaugurada a nova Ponte da Ajuda, a 400 metros da antiga, obra totalmente financiada pelo governo português, não fosse a aceitação de contribuição dos usurpadores espanhóis significar algo mais do que isso, a construção de uma ligação entre as margens portuguesas do Guadiana.

Mas, dizia, o lugar natural onde foi construída a original Ponte da Ajuda é de uma inspiração sem limites. Descemos pela Capela instalada num ponto alto relativamente ao rio e caminhamos até onde podemos pelo que resta do tabuleiro da ponte. Na outra margem, desligada, percebemos que alguém faz o mesmo que nós, cá deste lado. Meia volta e, ainda que com atenção para evitar os buracos, espreitamos e percebemos que uma criança brinca lá em baixo na água do Guadiana. Também queremos explorar o lugar por inteiro e descemos até à beira do rio. As pedras irregulares em ambas as margens são perfeitas para compor este postal de fim do mundo, onde não há dúvida de que é a natureza e o correr dos tempos quem mais ordena.

Olivença, então. Não recordo alguma vez aqui ter estado. A relação que a maioria dos portugueses terá com a “Questão de Olivença” será não a da disputa territorial, mas antes a curiosidade de aqui encontrar, ou não, elementos portugueses. Quanto à língua, basta caminhar uns segundos pelas ruas para que se torne evidente de que aqui não se fala português.

Uma montra da Caixa Geral, na Av. de Portugal, suscita a atenção, mas logo ela é desviada para os estores debruçados para lá dos varandins das janelas. Assim como para as janelas e portadas ao nível do chão protegidas de alto a baixo pelas grades verticais em ferro forjado.

A Plaza de España tem calçada portuguesa e uns bancos de jardim com decoração em azulejos que contam em imagens e palavras a história da cidade e região. As ruas com edifícios brancos e árvores com laranjas em flor também nos confundem, de tão familiares.

A Plaza de Santa Maria é o coração do centro histórico de Olivença. Passada umas das suas portas, aqui fica o Alcázar del Castillo, a Torre del Homenaje e a Parroquia de Santa María del Castillo. Alcázar é fortaleza, torre de homenaje é torre de menagem e parroquia é igreja matriz. Os nomes das ruas, anunciados em placas em azulejo azul e branco também comportam duas versões: a espanhola actual e a correspondente portuguesa original. Simpática a lembrança. Nas ruas de Olivenza só quase se veem turistas portugueses a passear, assim como nas de Elvas são os espanhóis a maioria. Mas pelo menos Elvas é Elvas, em português ou espanhol.

Continuemos na busca de elementos “nossos” na povoação portuguesa anexada pelos espanhóis em 1801. Foram os Templários quem, no século XIII, começaram por erguer castelo e igreja no novo burgo que se queria povoar. Pouco mais tarde, à semelhança do que fizera com muitas outras vilas do reino, D. Dinis mandou ampliar as primitivas linhas defensivas dos Templários e o seu sucessor, D. Afonso IV, construiu a alcáçova. Depois, no século XV D. João II mandou levantar a Torre de Menagem. A tal que hoje é conhecida como Torre del Homenaje, mas que continua a carregar as armas nacionais na fachada. Diz que esta torre com 36 metros de altura era das mais altas de todo o reino.

Não podemos, ainda, deixar de reparar na familiar exuberância decorativa com Esfera Armilar e Cruz de Cristo do portal manuelino do antigo Palácio dos Duques do Cadaval, hoje edifício do Ayuntamiento. Mais um superior exemplo do manuelino é a Igreja de Santa Maria da Madalena, única em Espanha. Ops. Baralhei-me novamente. De qualquer forma, espanhola ou portuguesa, Olivença merece repetidas visitas.

Alegrete

Alegrete. Só o nome já é todo um programa.

Alegrete, vila alentejana em pleno Parque Natural da Serra de São Mamede, fica a apenas 16 kms de Portalegre mas dificilmente damos com ela a não ser que nos envolvamos pelas estradas secundárias. Uma pena, mas com uma solução. Há que ir até lá de propósito e começar por avistar desde o asfalto parte do casario branco, muralha e castelo. E há que, logo de seguida, subir por esse mesmo asfalto até à povoação instalada numa colina com encostas pejadas de sobreiros e carvalhos a 450 metros de altitude (e o castelo a 475 metros).

Alegrete é uma espécie de mini Monsaraz, com a povoação primitiva dentro da cerca urbana muralhada. São quatro ruinhas com umas poucas casas, com entrada pela praça com coreto. Logo aí temos a torre do relógio e a igreja matriz, ambas com as fachadas com as típicas listas amarelas sobre o branco. Poucos metros percorridos pela rua de calçada em pedra com edifícios de um lado e do outro e chegamos à porta do castelo, a Porta da Vila.

O lugar de Alegrete tem ocupação humana desde a pré-história e, embora não se saiba com certeza o seu passado, acredita-se que por aqui terão passado os romanos, os vandalos, os alanos e os mouros até D. Afonso Henriques o tomar em 1160. A partir da Reconquista Cristã sabe-se com certeza com base em documentação que em 1267 foi definitivamente incorporada no território português pelo Tratado de Badajoz e, mais tarde, em 1319 D. Dinis promoveu a reedificação do seu castelo (ou talvez a sua construção, não se sabe ao certo) no contexto da defesa e consolidação da soberania portuguesa na raia com Castela e concedeu-lhe foral. Ao longo dos séculos Alegrete foi participando em diversos episódios em diferentes momentos da história do nosso país no que respeita às guerras com Castela, ou não fosse o seu um território situado na primeira linha de defesa.

O castelo, em estilo gótico militar, possui muralhas ameadas com cubelos e torre de menagem em ruína. O ponto alto da visita é, no entanto, a vista fantástica para o horizonte, permitindo-nos apreciar a topografia local de passagem de uma zona de serra para outra de planície.

Este é um castelo-miradouro.

Saindo pela Porta da Traição, também conhecida como Porta do Sol, a imagem da paisagem continua a dominar a atenção, mas agora percebemos ainda melhor o afloramento rochoso em que foi implantado o castelo, cheio de pedra irregular ao seu redor.

Desconheço o significado do topónimo “alegrete”. Há quem diga que deriva do latim “Ad Septem Aras”, de significado “aquele que se encontra numa alegre situação”. O que é certo é que Alegrete está acompanhada da ideia de felicidade.

As vilas amarelas do Alto Alentejo

É típico da paisagem alentejana o casario caiado de branco, quase sempre com riscas coloridas nos rodapés e a envolver as portas e janelas. Há-as de todas as cores, dando uma alegria singular e marcante à passagem por qualquer aldeia ou vila do Alentejo.

Mas em três vilas que destacaremos em seguida, Nisa, Crato e Alter do Chão, é o amarelo a cor que quase sempre sobressai no branco das casas e edifícios públicos. Daí o epíteto que agora lhes damos, o das “vilas amarelas”.

Nisa está instalada entre serras, a Serra de São Miguel, onde fica o ponto mais alto do concelho a 463 metros, e a Serra de São Mamede, a mais alta do distrito de Portalegre a 1025 metros (e a mais alta a sul do Tejo). Antes de passearmos pelo seu casario, um nota histórica curiosa. Foi D. Sancho I quem em 1199 doou à Ordem dos Templários a Herdade da Açafa, que incluía os territórios que hoje conhecemos como Nisa, Castelo de Vide e Marvão. O objectivo desta doação era o de povoar e defender este território até aí despovoado e desde aí perto da raia onde reinavam os “infiéis”. A partir de então foram chegando colonos do sul de França que trouxeram consigo as ideias de morfologia urbana das regiões de sua origem, a “bastide”, uma cidade medieval fortificada instalada junto a uma fortaleza. Assim foi criada Nisa junto à fortaleza erguida pelos Templários. A origem do seu nome vem da cidade francesa de Nice. Assim como as povoações vizinhas de Arêz (Arles), Montalvão (Montauban) e Tolosa (Toulouse) se inspiraram em outras cidades do sul de França.

Da fortaleza Templária e das muralhas do antigo burgo não resta praticamente nada. Excepção para uns poucos panos de muralha a que foram adossadas habitações e duas portas da antiga Nisa. A Porta da Vila é a mais monumental delas, com duas torres com ameias em cada lado e a apresentação de dois escudos a encimar o arco de entrada, um correspondente às armas de Portugal antigo e outro à Cruz de Cristo, uma espécie de eles e nós.

A pitoresca Torre do Relógio fica mesmo junto à Porta da Vila, bem como a Igreja Matriz. Ambas pontuadas a amarelo, como convém para este texto. Subindo alguns degraus da Torre do Relógio o amarelo deixa de dominar e o ocre dos telhados substitui-o. É uma confusão de casas que parece que mal deixa espaço para as ruas. E ao fundo a Serra de São Miguel com a sua forma pouco comum de terminar com o ponto mais elevado.

Descemos e confirmamos que, sim, as ruas são super estreitas criando uma intimidade entre os edifícios. A esmagadora maioria deles tem as tais listas amarelas e alguns preocupam-se em possuir portas e janelas de cor verde. Aqui e ali encontramos ainda detalhes decorativos nas cantarias das porta.

O compacto centro histórico de Nisa percorre-se facilmente até à outra porta que sobreviveu até aos nossos dias, a Porta de Montalvão, virada, precisamente, para a povoação vizinha de mesmo nome. Pelo meio, eis a pequena Praça do Município, onde fica o jardim com Pelourinho, a Câmara Municipal, a Capela da Santa Casa da Misericórdia e o palacete Lopes Tavares. Disse pequena praça, mas pelos vistos cabe muito nela. E para além de pitoresca, aqui ficamos a tentar perceber onde será a entrada principal da Câmara. E antes de atravessarmos o túnel que rasga o edifício em direcção à já referida Porta de Montalvão, apreciamos mais um momento da história, desta vez nossa contemporânea, que nos conta que o último proprietário do palacete Lopes Tavares tendo ficado viúvo deu ainda em vida cumprimento ao desejo de sua mulher de ajudar os pobres e aqui fundou um asilo, sendo hoje esta casa propriedade da Santa Casa da Misericórdia.

Nisa continua para lá do seu centro histórico, procurando ir ao encontro do que se espera das urbes do nosso tempo, de que é exemplo a sua ampla Praça da República. Mas não é isso que procuramos nestas vilas, pelo que seguimos para o Crato.

A caminho, porém, é obrigatória uma paragem para rever a sua aldeia de Flor da Rosa, lugar de mais casinhas pitorescas e do monumental Mosteiro de mesmo nome.

Se Nisa foi doada à Ordem dos Templários, já o Crato foi doado à Ordem dos Hospitalários. Mais tarde, a construção do dito Mosteiro de Santa Maria de Flor da Rosa em 1356 fez do Crato a sede desta Ordem em Portugal. E, claro, conta-nos a História que ao Crato está desde aí ligado o nome de D. Álvaro Gonçalves Pereira, o primeiro Prior do Crato e pai de Nuno Álvares Pereira, o Santo Condestável, que aqui nasceu. Sobre este mosteiro que parece uma fortaleza e é hoje uma Pousada de Portugal, adaptada de forma magnífica para o efeito pelo arquitecto Manuel Graça Dias, já tínhamos escrito em tempos aqui.

Do passado glorioso do Crato restam alguns elementos para além do Mosteiro. Desde logo, ainda hoje é na vila que se realizam as cerimónias de investidura dos novos Cavaleiros da Ordem de Malta. Do antigo castelo medieval mais tarde adaptado a fortim abaluartado, implantado numa cota mais alta, não restam mais do que ruínas e um baluarte. Mais abaixo, no centro da vila encontramos o seu símbolo mais bonito e elegante, a Varanda do Grão-Prior sustentada por três arcos de volta perfeita, o que resta do antigo palácio do século XVI. Nesta Praça do Município ficam ainda os serenos edifícios dos Paços do Concelho e o Palácio Sa Nogueira, para além do Pelourinho. Junto a ela, um antigo palácio barroco, hoje transformado em museu municipal onde se pode conhecer a história do concelho do Crato desde a pré-história até ao século XX.

No mais, caminhando pelas ruas estreitas e empedradas, com edifícios revestidos pelos “nossos” frisos amarelos, encontramos as costumeiras Torre do Relógio e Igreja Matriz, ambas bem bonitas. Umas janelas com cantaria decorada, muitas cruzes (de Cristo, que da Ordem de Malta não cheguei a perceber) e até apontamentos contemporâneos.

Esta é uma região de presença pré-histórica, como o atestam as diversas antas espalhadas pelo campo. Não desviámos para as visitar e seguimos adiante pela estrada que é uma das mais bonitas do Alentejo.

Alter do Chão é famosa pela sua Coudelaria Real, cujos edifícios, por sinal, têm as cores típicas deste post. À semelhança, claro, do centro histórico da vila, para onde rumamos agora. Apesar da ocupação da região desde os tempos dos romanos, Alter cresceu sobretudo a partir de 1359, data da construção do castelo por iniciativa de D. Pedro I. Inicialmente, este castelo em granito começou por desempenhar funções residenciais, sendo utilizado pelos monarcas da dinastia de Bragança aquando das suas deslocações à região. Mais tarde foi alcaidaria, prisão, loja de ferrador, oficina de carpintaria, celeiro, cavalariças, lagar de azeite e até lixeira. Restaurado no século passado, hoje está aberto a visitas por onde podemos apreciar a sua arquitectura e história.

Não há melhor lugar para perceber a sua implantação geográfica do que uma subida às muralhas e torre de menagem. Erguido num sítio plano, o casario branco e amarelo estende-se aos seus pés. Mais distante na paisagem vemos ao fundo no alto de um pequeno afloramento rochoso o Castelo de Alter Pedroso que, diz a lenda, chegou a estar ligado ao Castelo de Alter do Chão por um túnel. Outra estória dá-nos conta da existência nas proximidades de uma “cova da moura encantada” onde todo o homem que se aproximasse ficaria preso aos encantos da moura, enquanto que as mulheres teriam de saltar o buraco – se não caíssem, a felicidade amorosa estaria assegurada, se caíssem, seriam infelizes.

De volta à realidade e à actualidade, a Praça da República para onde dá o castelo é um espaço tranquilo com um coreto e bancos de jardim. Ao seu redor destaca-se o Palácio do Álamo, um solar barroco do século XVII que é hoje museu municipal. O seu jardim, diz que igualmente digno de nota, estava fechado para restauro aquando a minha visita.

O coração da vila estende-se para as traseiras do chafariz renascentista em mármore de Estremoz na Praça da República. As ruas, mais uma vez, são estreitas e sinuosas. Passamos por diversas casas brasonadas e igrejas e atentamos na decoração das entradas dos edifícios com esculturas de cavalos.

Uma última palavra para o Convento de Santo António, exemplo do barroco alentejano, hoje parte igreja e parte hotel. Ideal para uma noite bem dormida e um acordar relaxado na serenidade da planície do Alentejo.

Passadiços do Alamal

Os Passadiços do Alamal já cá andam há muitos anos, mas desde os incêndios de Agosto de 2017 que assolaram a região ganharam uma nova cara, nomeadamente no que à acessibilidade para todos diz respeito, incluindo aqueles com mobilidade reduzida.

Obra premiada do gabinete de arquitectura Proap, encomendada pela Câmara Municipal do Gavião, o Parque Fluvial da Quinta do Alamal é uma pequena maravilha no Tejo.

Para lá chegar descemos um vale encaixado nas colinas graníticas onde à natureza se juntou uma barragem que fez inundar um pouco mais o Tejo. Estamos na margem esquerda do rio e na praia fluvial, onde encontramos o Alamal River Club, a unidade de alojamento que ocupa, precisamente, a antiga quinta.

Da praia fluvial, onde não falta sequer uma língua de areia branca, parte um percurso sobre passadiços de madeira de cerca de 1800 metros de comprimento, até à ponte de Belver, com o seu característico tabuleiro metálico verde. Este percurso, que a câmara pretende ver prolongado, é parte do PR1, “Arribas do Tejo”, mais longo, circular e com passagem por ambas as margens do rio. Mas nos passadiços caminhamos sempre pela margem esquerda do Tejo. E quase sempre com a companhia da imagem fabulosa do belo castelo de Belver na margem contrária.

O passadiço, encostado muitas vezes à rocha de granito que faz parte da paisagem juntamente com o rio, vai ganhando forma, curvando onde tem de curvar e estendendo-se livremente onde pode. A vegetação sobre ele vai variando, com árvores, flores ou canas, zonas mais protegidas ou mais abertas. Encontramos até um pequeno e discreto curso de água a rolar sobre umas pedras com musgo verde.

Mas é, no entanto, a água do grande Tejo que vai dominado a paisagem. E o castelo, claro. Uma beleza natural (bem) moldada pelo homem.

Uns castelos pelo Tejo

O rio Tejo em território de Portugal é pontuado pela presença de uns castelos aqui e ali. Um bem óbvio para quem mora na capital, como é o caso do Castelo de São Jorge, outro uma visita de sonho para quase todos nós, como é o caso do Castelo de Almourol plantado numa ilhota. Pelo meio temos ainda o Castelo de Santarém e as suas vistas maravilhosas para a lezíria.

Porém, desta vez passearemos pelos outros castelos sobranceiros ao Tejo, os de Abrantes, de Belver e da Amieira, deixando o de Vila Velha de Ródão para uma próxima viagem, fiéis ao princípio de deixar sempre algo para ver como desculpa para voltar.

A situação geográfica do rio Tejo e a sua acessibilidade e navegabilidade não foram, claro, alheios à decisão de se implantar estas estruturas defensivas em cada um destes lugares. No entanto, cada uma destas estruturas da Linha Defensiva do Tejo acabou por desempenhar diferentes papéis na história do nosso país.

Comecemos pelo Castelo de Abrantes. Depois de tomada Abrantes aos mouros, D. Afonso Henriques mandou construir nesse mesmo século XII o castelo para defesa da linha do Tejo. Estávamos então no contexto da Reconquista Cristã e o castelo que no século XVIII acabou por tomar a forma de fortaleza foi, antes disso, palco de diversas batalhas entre mouros e cristãos. As muralhas exteriores não são muito imponentes e este século trouxe-lhe um quê de infantilidade com a instalação de um parque de jogos à sua entrada.

Mas um passeio pelo seu interior permite-nos ainda perceber a sua configuração e papel histórico. Aqui temos a Igreja de Santa Maria. A primitiva igreja era contemporânea da construção do castelo, mas no século XV acabou por ser remodelada e passar a panteão dos Almeida, cujos membros da família eram condes de Abrantes. O interior do castelo possui ainda o Palácio dos Governadores, muito alterado ao longo dos séculos, e a Torre de Menagem. Esta Torre de origem medieval, do século XII, também foi objecto de reconstruções várias ao longo dos tempos, mas no seu caso por força do terramoto de 1531 que a deixou em ruína até ao século XIX, século este que viu ainda passar pela vila e castelo as tropas napoleónicas.

Não precisávamos de subir à Torre para vistas enormes, uma vez que da muralha do castelo já as tínhamos, mas não resistimos a mais um ponto de vista. E que vista.

Uns 30 kms Tejo adentro, ainda na sua margem direita, a norte, surge no caminho um dos mais fantásticos castelos portugueses. Depois da apresentação quase burocrática do Castelo de Abrantes, este início de boas-vindas ao Castelo de Belver faz com que as expectativas se elevem. Mas não há que temer pela felicidade numa visita a este Belver. Esta é garantida.

Instalado no topo mais elevado de um monte granítico junto ao rio, o Castelo de Belver tem o cognome, à semelhança do de Almourol, de “sentinela do Tejo”. Vivia-se a época da Reconquista Cristã quando por volta de 1194 D. Sancho I doou à Ordem dos Hospitalários (hoje Ordem de Malta) um território que incluía, entre outras, as terras que logo passariam a ser a povoação e castelo de Belver – o Tejo era então um espaço de fronteira e havia que fazer face a ambas as necessidades de povoamento e militares. Até aqui a Ordem dos Hospitalários tinha uma função assistencial e com a construção desta estrutura defensiva assumirá a sua vocação militar. O castelo terá ficado construído em 1212 e figuras históricas passaram por lá. O Condestável D. Nuno Álvares Pereira mandou reconstruir as primitivas defesas, a princesa Santa Joana fez daqui sua residência após a peste de Aveiro em 1476 e fala-se, ainda, de um eventual exílio de Camões em Belver. O castelo sofreu com os terramotos de 1531 e de 1755 que deixaram a sua Torre de Menagem em ruína, mas o século XX veio dar um novo rumo no seu estado de conservação com os trabalhos de restauro por parte das autoridades do Estado.

Feito o contexto histórico, adentramos neste reduto de muralhas medievais e descobrimos a pitoresca ermida de São Brás aninhada junto à Torre de Menagem. O espaço interior do castelo é pequeno e subimos ao alto da Torre. As vistas para lá das muralhas não podiam ser mais sublimes. As águas azuis do Tejo serpenteiam rasgando a terra coberta do verde da relva rasteira e das oliveiras. Uma tranquilidade imensa é o que se sente do alto da torre do castelo de Belver.

Um pouco mais ainda adentro pelo Tejo, mas mais longe por estrada, há de surgir o Castelo da Amieira, a meio caminho do Gavião e Nisa. Não está mesmo junto ao Tejo nem este se avista do castelo, mas sente-se. Amieira do Tejo era uma das doze vilas da Ordem de Malta. Neste território, que hoje faz a transição entre a Beira e o Alentejo, mandou construir em 1359 D. Álvaro Gonçalves Pereira (prior da ordem de Malta e pai do Condestável D. Nuno Álvares Pereira) um castelo integrado na linha defensiva da margem sul do Tejo. Três anos antes a sede da Ordem tinha sido transferida para a Flor da Rosa, ali perto, e tendo o Tejo boas condições de navegabilidade e, no caso específico da Amieira, um bom porto fluvial, foi então escolhido o lugar para se implantar novo castelo. Como curiosidade, o castelo não está num ponto cimeiro, pelo contrário, como que se desce na aldeia para se ir ter com o castelo, avistando-se a Capela do Calvário mais acima.

O Castelo da Amieira foi um dos primeiros exemplares de castelo gótico em Portugal, tendo-lhe sido construída uma barbacã inovadora com características modernas. Com planta quadrangular e quatro torres em cada um dos cantos ligadas por muralhas, a maior dessas torres teria a função de torre de menagem mas acabou sobretudo por ser a residência do fundador do castelo, D. Álvaro Gonçalves Pereira. Uma volta pelo exterior do castelo saindo pela Porta da Traição e uma vista do alto das suas muralhas deixa-nos face a face com mais um pedaço de tranquilidade, feita de contornos suaves da serra e mais uma série de oliveiras.

Entre muitas outras, duas curiosidades deste castelo que foi residência de alcaides, prisão e cemitério. Primeiro, a sua cisterna possui ainda e desde sempre água, facto que não é assim tão comum. Segundo, a Capela de São João Baptista, construção do século XVI, apresenta pinturas no seu tecto efectuadas com a técnica decorativa do esgrafito. A temática destas pinturas é profana, com a justaposição de motivos grotescos e vegetalistas, reflectindo talvez a decadência das funções defensivas do castelo e a especial devoção a este santo por parte dos hospitalários. Também nas torres podemos ver vestígios de pinturas, o que é invulgar nas fortificações medievais portuguesas.