Toilet

 

Ver um filme de Bollywood é toda uma experiência. Positiva ou negativa, aí dependerá do gosto de cada um. 

Como fã da Índia, proponho-me a vê-los mais por questões culturais do que estéticas.

Fixe-se este filme: Toilet: Ek Prem Katha (Toilet: Uma História de Amor).

Tem cor, ritmo, música, melodrama e “humor” como todos em Bollywood. Mas tem algo de novo: uma preocupação social e uma mensagem e vontade de mudar consciências. Recorde-se que o cinema na Índia, em especial Bollywood, é um meio poderoso de comunicação, lançando modas, unindo comunidades e famílias.

Como o título do filme indica, a temática gira à volta do problema das casas de banho na Índia ou, melhor dizendo, da ausência delas. Estima-se que cerca de 60% dos indianos não tenham acesso a casa de banho. Mas o que parece apenas um problema de higiene e salubridade – e é-o também, com péssimo saneamento, contaminação de águas, propagação de doenças e muitos mais problemas públicos – traz consequências para a segurança e privacidade sobretudo das mulheres, sujeitas a assaltos e violações quando vão fazer as suas necessidades em espaços abertos. E problemas de saúde para ambos, homens e mulheres, por aguentarem as suas necessidades por tantas horas, aguardando que a noite caia para poder fazer dos campos a sua casa de banho.

Este filme retrata a história de uma mulher que se casa, por amor, mas que se decide divorciar logo em seguida porque a casa do seu marido não possui casa de banho (estando ela habituada a esta facilidade em casa de seus pais). Aí se percebe que o ponto não é apenas a casa de banho, a mulher, a defecação. Mais do que tudo, é uma questão cultural.

Muitos associam ainda a ideia de defecação a sujidade no sentido de impureza. A este propósito recorde-se a estratificação social indiana baseada nas castas. Assim, possuir uma casa de banho dentro de casa, onde se cozinha, reza e lava, é sujo e conspurcável.

Ou seja, há que mudar consciências e neste filme vê-se a luta de um casal num constante desafio às superstições e mentalidades que estão em todo um povo, começando pela própria aldeia e até família.

Não é um grande filme, mas é um entretenimento típico de Bollywood que nos oferece uma visão de um aspecto cultural sério do dia-a-dia da Índia que a nós, ocidentais, nos escapa em todos os sentidos. Enriquecedor, pois então.

Taiwan – 3 filmes

Reduzir a cinematografia de Taiwan a três filmes não é tarefa fácil.
Porém, utilizando o critério “relações” como temática comum deixo a indicação destas três obras, de três dos mais consagrados autores de Taiwan, realizadas em três décadas diferentes. 


“Tempo para viver e tempo para morrer”, de Hou Hsiao-Hsien, de 1985, filme autobiográfico, sobre a memória, sem pressa de ser contado. História comum a tantos taiwaneses que partiram da sua China continental e estabeleceram-se numa outra terra, sempre com o retorno no pensamento.


“Comer Beber Homem Mulher”, de Ang Lee, de 1994, sobre as coisas mais importantes da vida: comer, beber, sexo, homens e mulheres. História de um chef viúvo e suas três filhas, relacionamentos entre eles e entre estes e outros. E comida, muita comida.


“Yi Yi”, de Edward Yang, de 2000. Várias histórias na história, este filme sobre a família, o trabalho, o dever e o estatuto, mostra-se por vezes desencantado, por vezes cândido.

Um filme – Chungking Express

Wong Kar-wai é um cineasta admirado um pouco por todo o mundo, embora seja visível uma clara diferenciação da sua obra antes do ano de 2000 e depois desse ano.
“In The Mood for Love” (Disponível para Amar), precisamente do ano 2000, é um filme melancólico  e de uma elegância superior, mas que marca um corte com os filmes anteriores de WKW.


Chungking Express (Chung Hing sam lam), de 1994, por exemplo, é um filme frenético, quase caótico. O ritmo aqui é intenso, por contraposição ao tempo que vai passando lento ao som do Quizás espanhol de Nat King Cole e dos jogos de fumo de cigarro em Disponível para Amar.
A música, elemento essencial no cinema de WKW, tem um papel marcante na (ainda) maior vivacidade que acrescenta a Chungking Express. A sua cena inicial, em slow-motion mas com a câmara sempre irrequieta, é acompanhada com um som que lá encaixa na perfeição: imperdível. Filmado em Hong Kong, cidade onde o realizador cresceu, este é um dos filmes indispensáveis quando se pensa na dupla cinema – Hong Kong. Hong Kong é mesmo uma personagem principal e o ritmo louco da cidade é transposto para a tela de uma forma magistral. Filmado maioritariamente à noite, são nos mostradas duas histórias separadas dentro do mesmo filme. Dois polícias de turno, cada um deles a viver o fim de uma relação, logo se deixam encantar por mulheres também elas loucas e frenéticas como a cidade. Uma misteriosa, sempre de óculos escuros, outra esfuziante, ouvindo música em altos berros. As duas em fuga, reforçando a ideia de constante movimento de Chungking Express. 
Filmado três anos antes da prevista transição de Hong Kong do Reino Unido para a China, em 1997, WKW poderia ter pensado em oferecer este presente aos britânicos ou aos chineses. Mas não, ofereceu-o a todos nós.

Um realizador – Jia Zhang-ke

Jia Zhang-ke é um dos mais estimulantes e aclamados realizadores da actualidade. Nascido em 1970, em Fenyang, província de Shanxi, China, a sua filmografia não é fácil de qualificar. Documentário ou ficção? O que é certo, porém, é que todos os seus filmes partem da realidade actual para se focarem numa análise critica da China contemporânea, interligando histórias acerca do passado e do futuro, velho e novo, tempo e espaço e mobilidade e imobilidade. São estas contradições e as tensões entre elas que nos mostram a China de hoje pelos olhos de Jia Zhang-ke, uma China distante, desconhecida e nem sempre compreendida pelo mundo ocidental. No entanto, Jia Zhang-ke é mais admirado e respeitado no ocidente do que na própria China, onde também nem sempre é compreendido e aceite. A propósito de uma comparação entre a China e a Europa e da forma como é cá recebido, o realizador diz-nos que na Europa valorizamos o seu trabalho a nível estético e que na China apreciam apenas a história e a qualidade do drama.


As atenções voltaram-se para Jia sobretudo com filme “Sanxia haoren” (Natureza Morta), premiado com o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2006. O filme trata da questão – real – da construção da Barragem das Três Gargantas, uma barragem hidroeléctrica no rio Yangtze cuja construção implicou a inundação e correspondente desaparecimento de inúmeras vilas e aldeias. Foi necessário o deslocamento e realojamento de mais de um milhão de habitantes. Junto com este drama colectivo, Jia foca-se na história de um indivíduo que volta para procurar a sua ex-mulher e filha, que não vê há anos. Mas o ponto essencial e a mensagem que nos é transmitida é esta ideia chinesa de hoje de que há que caminhar para um lugar melhor, mesmo que isso signifique o sacrifício do presente. Este é um cinema meditativo, o retrato de uma nação a caminho acelerado para o capitalismo, mas com hábitos comunistas, e que não tem pudor em mandar à urtigas séculos de história.


Antes deste filme, Jia havia já filmado “Xiao Wu“, em 1998, a sua primeira obra. Conta a história de um ladrão de carteiras habilidoso, mas que vai perdendo a consideração dos amigos e da família. Interessante nestes filmes é a presença da música, uma constante, seja no rádio, seja na televisão, a música popular faz-se ouvir. 


Do ano 2000 é “Zhantai” (Plataforma), o filme de Jia que menos gostei, para além de longo demais. Trata de uma trupe teatral instalada na China profunda e onde dominam ainda os preceitos maoistas, vivia-se então o comunismo nos anos 80.


Shijie” (O Mundo), de 2004, é um filme mais vivo e é passado no Parque Mundial de Pequim, um lugar verdadeiro, mas que mais parece (apenas) coisa de filme. Neste lugar perto de Pequim encontramos a Torre Eiffel lado a lado com o Big Ben, a Torre de Pisa, as Pirâmides do Egipto ou o Taj Mahal. O ponto deste filme é a cultura da cópia que rodeia a China adepta de uma arquitectura da duplicação. Questões como a identidade, a autenticidade, o urbanismo e a globalização são aqui abordadas, bem como o poder desta nova China. O mote deste Parque real é qualquer coisa como “dê-nos um dia e nós dar-lhe-emos o mundo”. A China, o Império do Meio, como centro do mundo no século XXI. Economicamente poderosa, a competição com o ocidente faz com que esta China tome o objecto e até o símbolo ocidental para si e o faça seu. Neste filme a questão da mobilidade, designadamente as migrações, é também focada. Mostra-nos a vida dos trabalhadores deste Parque, quase todos eles migrantes de algum canto da China, e suas relações e conflitos num mundo de imitação.

“Er shi si cheng ji” (24 City), de 2008, foi o único filme de Jia Zhang-ke que não vi.


Tian zhu ding” (China – Um Toque de Pecado), de 2013, teve estreia nos cinemas portugueses e colocou definitivamente Jia Zhang-ke no centro das atenções cinematográficas (não pela estreia em Portugal, claro). São quatro histórias baseadas em factos reais e passadas em diferentes províncias da China que se entrecruzam. A temática comum a todas elas é a tradição do passado e a chegada do progresso e do capitalismo. Apesar de ao início vermos a deslocação em massa dos chineses de volta às suas terras natais e famílias para a passagem do Ano Novo Chinês e, em especial, de um homem deslocado e amargurado, Jia pergunta-se porque é que as pessoas estão a ficar cada vez mais distantes umas das outras. O país acelera rumo ao desenvolvimento, mudando drasticamente, a modernidade chega (vêem-se telemóveis e internet e adolescentes a fazerem de tudo para os ter), mas ao mesmo tempo está longe da maioria dos chineses. O deslocamento é constante, com os personagens sempre em busca de algo, seja trabalho, dinheiro, justiça ou amor. A violência marca presença e faz Jia questionar-se o que crescerá efectivamente na China, a economia ou a violência?


Shan he gu ren” (Se as Montanhas se Afastam), de 2015, percorre 25 anos de vida na China, iniciados na passagem para este milénio. Ou seja, quinze anos de um passado real mais dez anos de um futuro imaginado. O filme vem dividido em três partes, cada uma delas correspondendo aos anos de 1999, 2014 e 2025. Montanha, Rio, Amizade. Três conceitos que foram resumidos por Jia numa frase: “velhos amigos são como as montanhas e os rios”. Neste filme procura-se declaradamente uma interligação entre passado, presente e futuro. Este é um melodrama e uma obra bem diferente das anteriores, embora a temática de Jia, já se vê, seja a mesma: o rumo que a sociedade chinesa contemporânea toma. A música Go West, dos Pet Shop Boys, uma presença constante ao longo de todo o filme, é utilizada de uma forma irónica e parece querer indicar o caminho, pelo menos para alguns. Comunismo ou capitalismo? 
Três amigos formam um triângulo amoroso. A ela guia-a o amor, a um a honra, a outro o dinheiro – visível no nome que dá ao seu filho, “Dollar”.
A final, e porque este é um melodrama, ela não cumpre o que sonhou, um sofre a degradação física de anos de trabalho duro, outro o desenraizamento na (aparente) vida de sucesso na Austrália. O desencanto é a tónica comum. Bem como o deslocamento (o afastamento do título, “Se as Montanhas se Afastam”), seja espacial, materializado nos carros, comboios, helicópteros e aviões que vamos vendo desfilar, seja temporal, os tais 25 anos que medeiam o início e o fim do filme. A passagem do tempo. Go West. 
Mas Go West não está sozinho como música marcante aqui. Como em todas as obras de Jia Zhang-ke, a música desempenha um papel essencial e inesquecível ficará também a música de Sally Yeh, 珍重 (Take Care).

Para se entender mais acerca de Jia Zhang-ke, realizador irreverente destes filmes politicamente e socialmente comprometidos onde o questionamento da contemporaneidade chinesa é uma constante, assistir ao filme do brasileiro Walter Salles, “Jia Zhang-ke, um homem de Fenyang”, pode ser um bom ponto de partida ou complemento.

Filmes chineses

Alguns filmes chineses, divididos por três temáticas clássicas: wuxia, históricos, gangsters.

Artes Marciais – Wuxia
A cinematografia chinesa de artes marciais tem tido (bom) acolhimento e reconhecimento no ocidente. Artes marciais é sinónimo de kung fu, com Bruce Lee e Jackie Chan como cabeças de cartaz, mas também de wuxia.
Não falarei dos filmes de Bruce Lee e de Jackie Chan, de que não sou conhecedora, e apontarei alguns filmes de wuxia a que vale a pena assistir.
O wuxia é um estilo clássico de filmes chineses, com influência da literatura, onde se mistura artes marciais e luta de espadas num mundo de fantasia. Sim, precisamente, falo daqueles filmes onde se veem os artistas a voar ou a caminhar sobre os ramos e as folhas das árvores.



Começando por alguns dos mais recentes, se “Herói“, de Zhang Yimou, de 2002, é já um clássico, acrescento-lhe, naquela base do “se gostas disto também gostarás daquilo”, o “A Assassina“, de Hou Hsiao-Hsien, de 2015. Em ambos, os confrontos entre os personagens são puro bailado, numa junção de dois elementos essenciais da cultura chinesa, a espada e a caligrafia. No caso do “A Assassina”, a rapariga justiceira fria e implacável enche o écran e mostra, por uma vez, alguma compaixão. A história não interessa tanto; o que fica é um filme esteticamente belíssimo, uma obra-prima da fotografia e da pintura, não estivéssemos nós diante de um filme.


Não falarei dos filmes de Bruce Lee, mas falarei de Ip Man, o mestre de kung-fu seu mentor. Dois filmes sobre este personagem real. O primeiro filme, “Ip-Man“, de Wilson Yip, de 2008, a par das cenas de luta tem um enquadramento histórico precioso. Ip Man nasceu ainda no século XIX, época em que os manchus governavam a China. Passou pela guerra civil entre nacionalistas e comunistas e assistiu à cruel invasão dos japoneses na década de 30. Bem nascido, passou fome, mas neste filme mostra que não se rendeu ao domínio japonês. Depois acabaria por rumar a Hong Kong, onde terminou a sua vida. O segundo filme, “O Grande Mestre“, de Wong Kar-Wai, de 2013, apesar de na época muito aguardado, foi uma desilusão. A estética wongkariana está lá toda, as lutas são de uma beleza suprema, com os pingos da chuva a desempenharem um papel de actor principal. Mas onde falha é precisamente no enquadramento histórico, onde o realizador claramente não quis entrar, apenas passando pela rama. 

Outros filmes dignos de registo são o mítico “A Tocuh ou Zen”, de King Hu, de 1971, o “The Blade”, de Tsui Hark, de XXX, e os mais recentes “O Tigre e o Dragão”, de Ang Lee, de 2000, e o “Segredo dos punhais voadores”, de Zhang Yimou, de 2004.


Históricos
Os filmes históricos / épicos chineses que indicarei em seguida dão a conhecer a China do século XX, quer de um ponto de vista social quer político, sendo, assim, uma boa forma para se entender melhor o país de hoje, ainda que esse país esteja muito diferente.




Imprescindíveis são o “Viver“, de Zhang Yimou, de 1994, e o “Papagaio Azul“, de Tian Zhuangzhuang, de 1993. Ambos se debruçam sobre as vidas das gentes comuns no período maoista (anos 40 aos anos 70), nomeadamente as consequências (hoje) irreais do Grande Salto em Frente e da Revolução Cultural. Outro filme que atravessa quase todo o século XX, detendo-se na luta nacionalista e comunista e posteriores ilusões e desilusões é o “The Golden Era“, de Ann Hui, de 2014, longo filme sobre a escritora Xiao Hong que, saída da sua Manchúria, parte para a China central em busca da sua liberdade amorosa e artística em tempos duros.


Atravessado igualmente a mesma época, “Adeus Minha Concubina“, de Chen Kaige, de 1993, mostra-nos a vida de uma trupe da Ópera de Pequim, com destaque para a sofrida vida da sua estrela. 


Esposas e Concubinas“, de Zhang Yimou, de 1991, dá-nos a conhecer a realidade de uma China tradicional, as várias mulheres de um só homem, todas elas vivendo no mesmo espaço e competindo entre si pela atenção do seu senhor e pelo maior favorecimento do filho de cada uma delas. 


Por último, um épico de grande sucesso internacional, tanto de público como de crítica: “Red Cliff“, de John Woo, de 2008. O século XX era ainda uma longínqua miragem nesta história verdadeira da batalha de Red Cliff, que aconteceu no fim do domínio Han na China, por volta do século III a.C. Mostra-nos cenários e paisagens fabulosas, e encantamo-nos pelas estratégias utilizadas por Zhuge Liang para vencer o reino do norte.


Gangsters
No nosso imaginário, Hong Kong é ainda sinónimo de tríades, sociedade secretas, gangsters.


Não faltam, pois, filmes sobre esta temática. Um clássico é o “A Better Tomorrow” (em Portugal, “Crime em Hong Kong”), de John Woo, de 1986. Num filme de acção que mostra a violência que atravessa o sub-mundo do crime, os valores da amizade e a prioridade à família sobrepõe-se a tudo o mais. A lealdade é rainha. 

Johnnie To explora os mesmos temas em quase todos os seus filmes. “Election 2“, de 2006, no entanto, mostra como por vezes essas lealdades são flutuantes e dúbias e que, uma vez no mundo do crime, sempre no mundo do crime. 
Este realizador de Hong Kong é o meu preferido num género de filme – acção com armas e algumas artes marciais – que, à partida, não faz o meu género. Os seus filmes decorrem maioritariamente em Hong Kong, em especial Kowloon, e também Macau – no “Exiled” (2006) vemos carros com matrícula portuguesa. São um hino à amizade. Em quase todos o grupo surge como herói. Não há um herói individualizado, antes um conjunto de homens – sempre homens – que se encontra em crise face a um dilema entre dois deveres: o da fidelidade ao seu grupo que muitas vezes já vem de infância e o da fidelidade ao chefe da máfia. Há violência, mas esta violência é esteticamente bela, uma espécie de ópera com acrobacias, um ballet. Não é necessário disparar muitos tiros, basta a forma como as personagens se mexem, a forma como vão aparecendo duplicadas por entre os espelhos, para ser tudo muito apelativo. O uso contínuo do slow-motion faz as cenas durarem mais e vemos os corpos suspensos no tempo, numa coreografia que, de todo, não é muito comum em filmes de acção. 



Para além dos já citados Election 2 e Exiled, de Johnnie To destaco ainda “The Mission” (1999) e “Sparrow” (2008). Este último é o meu preferido, por sinal aquele que menos pode ser identificado como filme de acção puro e duro. É sobre um grupo de carteiristas simpáticos e tão discretos que o roubo das carteiras não devia dar direito a uma pena mas antes a um bilhete para se assistir a um espectáculo, tão belos que são os seus gestos.


E porque o mundo cinematográfico do sub-mundo de Hong Kong vai para além de Johnnie To, eis ainda “Infernal Affairs” (em Portugal, Infiltrados), de Andrew Lau, de 2002, o qual no mostra a estreita e promíscua ligação entre membros da polícia e membros das tríades. Este filme inspirou Martin Scorcese para o seu “Entre Inimigos”.

Colômbia em livros, filmes e canções

A preparação de uma viagem já é em si uma verdadeira viagem. 
E uma daquelas viagens bem diversas, instrutivas e prazerosas.
A maior parte das vezes o caminho inicia-se com um guia da Lonely Planet.
Com o planeamento da visita à Colômbia não foi diferente.
Início e fim na sua capital, Bogota, e eis que o Andes Sem Parar voltará, enfim, aos Andes que lhe dá nome.
Depois é só traçar um itinerário, a descobrir em futuros posts aqui neste blogue.
Parte essencial da viagem são as leituras dos escritores do país que se pretende visitar. No caso da Colômbia a coisa está facilitada: alguém há nesse mundo que nunca tenha lido um só livro que seja de Gabriel Garcia Marquez? O meu eleito é O Amor em Tempos de Cólera. 
Mas muito mais há para descobrir nos seus autores, ainda que a recente história de luta de cartéis da droga e guerrilha urbana seja um tema quase comum e transversal nas obras dos últimos anos. Algumas sugestões são Hector Abad Faciolince (Somos o Esquecimento do que Seremos), Juan Gabriel Vasquez (O Barulho das Coisas Ao Cair) e o essencial Delírio, de Laura Restrepo.



Quanto a cinema, a ideia que fica é a de que o realismo mágico não está presente apenas na literatura. O filme a Estratégia do Caracol (1993) é um bom exemplo da imaginação sem limites dos colombianos. Depois temos uma vez mais a presença do negócio da droga no filme Maria Cheia de Graça (2004). E para algo totalmente diferente O Abraço da Serpente (2015), retrato das relações do homem branco cientista com um xaman de uma tribo da Amazônia profunda.
E fica a faltar a música para embalar a viagem. Eis uma playlist com os incontornáveis Shakira e Juanes, sim, mas com notas bem para além deles.

Filmes Indianos


Como escreve Suketu Mehta, no seu Maximum City, para os indianos, ir ao cinema é um projecto para toda a família.

Na Índia o cinema é entretenimento, sim, mas é também um momento para se estar com a família, com os amigos, com a comunidade até. À falta de ter vivido esta experiência de forma directa, é fácil a qualquer um de nós ver amiúde os filmes indianos a retratarem o cinema como um momento em que a aldeia se junta, o mais certo ao ar livre, em volta de um qualquer écran. É, pois, uma arte para o povo em geral. E reúnem-se para assistir não são só a um filme de Bollywood, mas a qualquer outro dos muitos cinemas regionais que pululam pela Índia – mais uma marca da sua imensa diversidade. 
Ou seja, o cinema da Índia não é só Bollywood, mas é esta indústria que mais fama dá ao sub-continente. Aqui são produzidos mais de 1000 filmes todos os anos, a eles acrescendo as várias indústrias locais, representando os filmes estrangeiros menos de 10% daqueles que são apresentados em sala. Bollywood diz respeito aos filmes falados em hindi, apesar de muitos dos seus actores serem acusados de falar mal esta língua. Independentemente disso, eles são verdadeiras estrelas e a sua popularidade atesta-se pelos inúmeros reclames que usam a sua imagem. 



Em geral, a forma de ver cinema na Índia não é muito diferente da do Ocidente – as míticas salas de cinema têm vindo a dar lugar a outras mais modernas, normalmente em espaços comerciais. Em Mumbai, no entanto, restam ainda alguns desses outros cinemas, como o Regal e o Eros, a fazer jus à colecção de edifícios em art deco de que a cidade é portadora.

Em seguida indicarei alguns filmes indianos a que assisti e que considero que por uma razão ou por outra valem a pena serem vistos. 

O primeiro deles não é uma obra prima, não é o maior sucesso, é uma quase grande banhada, mas serve na perfeição para representar o que é a paixão do cinema nos tempos de hoje não só na Índia, mas também no vizinho Paquistão. O nome deste filme não podia ser mais certeiro: Filmistaan (2012).


Dos filmes que retratam a Bombaim de ontem podemos começar por um murro no estômago e assistir a Salaam Bombay! (1988) e depois seguir com várias histórias dentro de um mesmo filme na Mumbai mais moderna quer com o Dhobi Ghat (2010) quer com o Live in a… Metro (2007). Pelo meio, A Wednesday (2008), um thriller também rodado na cidade, e A Lancheira (2013), relação por carta entre cozinheira anónima e senhor trabalhador a quem é distribuído o seu almoço diário – uma imagem de marca de Mumbai.


Um clássico de qualidade é o Bombay (1995), o qual retrata as tensões religiosas na cidade dessa época. Destaque total para a lindíssima banda sonora do filme, em especial a preciosa “Kehna Hi Kya”. 
Para tensões religiosas noutra latitude, em Delhi, Amu (2005) é também um bom filme.


Mr and Mrs Iyer (2002) é um belo filme e imperdível pelo que mostra da relação entre mulheres e homens, ela hindu, ele muçulmano.


Filmes históricos também os há: Jodhaa Akbar (2008), retrato do imperador mogol Akbar, e Lagaan (2001), sobre como o cricket pode aproximar e afastar colonizador e colonizado.


Alguns filmes bem populares, mas sensíveis a espaços como o Taare Zameen Par (2007), acerca do encontro entre um miúdo diferente e um professor também ele diferente, e 3 Idiots (2009), um nome de filme absolutamente parvo mas que não deve servir para afugentar os espectadores. Ainda, Ghajini (2008), um thriller de muita qualidade, e Zindagi Na Milegi Dobara (2011), banhada de uns amigos que partem de viagem para Espanha – e o filme foi mesmo realizado em Espanha e o seu sucesso levou a que montanhas de indianos quisessem seguir os passos dos seus heróis.


Nesta lista não podem faltar as xaropadas com Shahrukh Khan, aqueles filmes indianos intermináveis, em que a história é quase sempre a mesma, o amor (quase) impossível entre um rapaz e uma rapariga, um pobre e um rico, à vez, com muitos interlúdios feitos de música e dança. Dois exemplos deste Bollywood puro: a versão mais recente de Devdas (2002) e o sempre citado Dilwale dulhania le jayenge (1995) – ainda hoje em cena em pelo menos um cinema de Mumbai, vinte anos depois. Deste último, para além do xarope que não fez efeito e me levou a querer assistir a mais e mais filmes indianos, retenho a sua bela canção “Tujhe Dekha To”.


Do cinema indiano clássico, é incontornável para um europeu citar Satyajit Ray, nomeadamente Pather Panchali (1955) e Charulata (1964), o grande cineasta bengali, talvez mais aclamado e amado no ocidente do que propriamente na generalidade do seu país. 
E, depois, Mother India (1957), de Mehboob Khan, o épico que retrata a dura vida da mulher indiana.


Por fim, alguns filmes realizados por não indianos ou indianos radicados fora da Índia. 
Destaque para Slumdog millionaire (ganhou o Oscar em 2008).
Deleitar-se com a ironia de Wes Anderson em The Darjeeling Limited (2007).
Fazer de conta que se acredita que ainda há tipos bons e ingénuos como Amal (2007).