Filmes para Sonhar Viajar

Nos últimos meses dois filmes passaram que nos fazem desejar viajar para longe – a muitos km de distância, a uma cultura bem diversa.

À India:


The Darjeeling Limited

Ao Irão:
Persepolis
Neste último, aliás, baseado no livro de BD de Marjane Satrapi, vemos que os iranianos urbanos nossos contemporâneos lêem o mesmo que nós, vêem o mesmo que nós e ouvem o mesmo que nós. Alguns pensam o mesmo que nós.
Hilariante a cena da já adulta Marjane a ter uma epifania sob a imagem de Rocky e o seu “Eye of the Tiger”.

Into The Wild

Não sou rigorosamente nada virada para buscas interiores, daí que duvidasse um pouco se ia gostar do filme Into The Wild.
Acontece que este filme, baseado numa história real da vida de um rapaz americano que acabou por morrer em viagem aos 24 anos, passa longe de qualquer conceito de busca do eu interior. É antes um constante procurar da (sua) verdade e da felicidade, sem conceitos espirituais a isso associados, longe de hipocrisias familiares ou materiais que dominam a nossa sociedade. Christopher McCandless, o retratado no filme, tentou – e talvez conseguiu – viver a vida que pretendia. Eddie Vedder, o líder dos Pearl Jam que ao longo da sua carreira tem procurado – e talvez conseguido – viver a sua música à parte do sistema imposto pela sociedade foi o escolhido para a banda sonora do filme. Sean Penn, o outro inconformado no meio deste projecto, é o realizador de Into The Wild.
Serve isto para dizer que, sim, senti-me tocada pelo filme, emocionada e comovida com a história de quem procurou seguir o seu caminho, deixando para trás família (pais com quem não tinha uma boa relação, mas irmã que era companheira) e, ao longo das paisagens marcantes por onde ia passando, amigos que foi criando. Sempre sem qualquer peso pela ruptura, de um sentimento que nos habituámos a chamar saudade. Todos à sua volta iam sentindo um aperto no coração pela sua debandada rumo ao objectivo supremo – o Alasca junto aos livros e à natureza – sem que deixassem de o aconselhar a ser mais cauteloso, mais atento aos pais, a, enfim, perdoar e amar.
Depois de 3 solitários meses de dura sobrevivência no Alasca veio a revelação final: “a felicidade só é real quando partilhada”. Mas pelo sorriso na morte de Alexander Super Tramp / Chris podemos concluir que a sua felicidade foi efectivamente partilhada com todos nós.
Para mim, depois de assistir a toda aquela intensidade da natureza americana, a mensagem é viajar. Sejamos novos ou velhos, levantar os nossos rabos e subir a pequena ou a grande montanha, ir ao virar da esquina ou ao Alasca, mas sobretudo mostrar para nós próprios que estamos por cá a fazer algo, sermos felizes nos nossos passos.

Fado no Eléctrico

Domingo foi dia de Fado no Eléctrico 28.
O programa, incluído nas Festas de Lisboa, consiste em percorrer de eléctrico o trajecto mais emblemático da cidade ao som da música nacional, interpretada por diversos fadistas (cinco) e dois músicos, que se encontram espalhados pelo transporte.
Enquanto percorremos as colinas e observamos a cidade, somos guiados pelo fado, que alimenta a nossa alma. Assim foi quando se cantou:

No castelo ponho o cotovelo
Em Alfama descanso o olhar
E assim desfaço o novelo
De azul e mar

À Ribeira encosto a cabeça
A almofada da cama do Tejo
Com lençóis bordados à pressa
Na cambraia de um beijo.

Lisboa menina e moça, menina
Da luz que os meus olhos vêem, tão pura
Teus seios sãos as colinas, varina
Pregão que me traz à porta ternura

Cidade a ponto-luz bordada
Toalha à beira-mar estendida
Lisboa menina e moça e amada
Cidade amor da minha vida

No Terreiro eu passo por ti
Mas na Graça eu vejo-te nua
Quando um pombo te olha sorri
És mulher da rua.

E no bairro mais alto do sonho
Ponho o fado que sei inventar
A aguardente de vinho e medronho
Que me faz cantar.

Lisboa do amor deitada
Cidade por minhas mãos despida
Lisboa menina e moça e amada
Cidade mulher da minha vida.
Ontem a razão de se cantar o fado, ao contrário do que a música diz,

Há para o sofrimento
Um bom remédio afinal
É cantar e num momento
Ninguém se lembra do mal
Não custa mesmo nada
Tentem fazer como eu
Uma guitarra afinada
Um voz bem timbrada
E tudo esqueceu

refrão:
Quando a tristeza me invade
Canto o fado
Se me atormenta a saudade
Canto o fado
Haja ciúme á vontade
Canto o fado
Por uma esperança perdida
Não passe na vida
Por um mau bocado
Se acaso a sorte o esqueceu
É fazer como eu
Deixe andar cante o fado
Não é que não me interesse
Por quem a dor não resiste
Mas a gente que parece
Que gosta até de andar triste
Tem sempre um ar fatal
A que ninguém o obriga
E nesta vida afinal
Vendo bem nada vale
Mais do que uma cantiga
não era para espantar os males, mas antes para celebrar a alma da cidade.
Viva Lisboa!

Ciudad del Este

Onte fui ver o Miami Vice ao cinema.
Filme sobre polícias, informadores infiltrados, traficantes.
O demais não vem agora a propósito. Vem, sim, a propósito, o facto de no filme aparecerem imagens aéreas, as vistas de pássaro, das Cataratas de Iguazu. Com água. Água em abundância a acompanhar a exuberância da floresta que envolve aquela falha na terra.
Por estas bandas faz-se a fronteira entre 3 países: Paraguai, Brasil e Argentina, e 3 cidades, respectivamente: Ciudad del Este, Foz de Iguaçu e Puerto de Iguazu.
Destas cidades, apenas a última é encantadora. A argentina Puerto Iguazu é também a mais pequena. A calma constante do chilrear dos pássaros é quebrada apenas pelos visitantes que acorrem ao Parque Nacional (em menor quantidade do que no lado brasileiro, uma vez que apesar das Cataratas ficarem fisicamente em território argentino é no lado brasileiro que fica a vista deslumbrante deste fenómeno da natureza) e aos casinos (que não existem no lado brasileiro). Mesmo assim, as suas ruas de terra batida e a ausência do movimento louco das grandes cidades vizinhas têm tudo a ver com a selva Guarani, tão presente no espírito desta cidade, tão distante do das outras.
Ao invés, Ciudad del Este seria uma cidade para esquecer caso fosse eu da opinião que existem cidades para esquecer. De qualquer forma, de todos os lugares onde já estive, é esta cidade paraguaia (a 2.ª maior do país atrás da capital Assunção) que me fez ficar perto de rever aquela opinião.
O filme Miami Vice mostra-nos, igualmente, imagens de Ciudad del Este. Da sua confusão abarracada, das suas ruas de terra batida, sujas, inundadas de caixotes da mercadoria que por lá se vende. E lá vende-se de tudo. E compra-se de tudo. É a terra, por excelência, da muamba, como diriam os brasileiros. Do contrabando, como dizemos nós, os portugueses.
Ciudad del Este é a 3.ª maior zona de tax free do mundo, só superada por Miami e Hong Kong. Aqui os negociantes fazem, ou julgam fazer, bons negócios, obtendo os produtos, autênticos ou copiados, por uma pechincha. Na curta cena do filme apanha-se bem o espírito da coisa.
Para se chegar à cidade vindo do lado brasileiro, atravessa-se a Ponte da Amizade – de um lado o Brasil, do outro o Paraguai – e a amizade entre os dois é mesmo necessária, pois se de todo o Brasil chegam muambeiros desesperados por arriscar na compra de mercadoria que esperam que lhes garanta a sobrevivência ao poder vir a render muito mais no seu país, pelo lado paraguaio a dependência da economia do vizinho Brasil é quase total.
Atravessar a ponte está mais para experiência de filme do que de vida real. Para evitar o caos absoluto é melhor fazê-lo a pé. Assim, no meio de um caos “apenas” quase absoluto, feito de encontrões e tropeções nas embalagens da mercadoria aberta às pressas e nas muitas personagens que compõem este “outro mundo” do sub-comércio, chega-se ao paraíso do consumo. Nada que ver com o ambiente das grandes feiras de Lisboa e arredores, igualmente feito de empurrões e de pregões que mereciam um roteiro especial. Aqui o cenário é de 3.º mundo mesmo. Antes de poisar por aquelas bandas, não havia visto nada igual e imaginava que semelhante cenário só existia nos filmes. Ontem, ao ver Miami Vice, recordei que, afinal, não existe apenas nos filmes e que estes apenas se limitam a retratar a realidade.

O arrependimento: o deslumbre do caos foi tal que nem houve tempo, coragem, ambição para o documentar em fotos.

Patagónia em filme

Por ocasião da Mostra de Cinema Argentino que passou faz um ano no Cinema King, tivemos o privilégio de assistir ao “Histórias Mínimas”, de Carlos Sorin.
Este filme ternurento mostra-nos a viagem de três personagens em busca das suas ilusões pelos caminhos intermináveis da solitária Patagónia. Ou melhor, por parte da província de Santa Cruz. É a história de Don Justo (um velhote de de 80 anos), de um caixeiro viajante e de uma senhora que vai receber um prémio que ganhou num sorteio de um programa de televisão. A que mais me marcou foi a de Don Justo, que percorre cerca de 400km, a pé e à boleia, em busca do seu cão Malacara por considerar que não foi correcto com ele e que por isso este teria fugido, o que o atormenta. Há em todo o filme o retrato da enorme solidariedade que se vive por aquelas bandas tão desoladas, mas que nem por isso afastam as pessoas de irem em busca dos seus sonhos.
É um filme despretencioso e simples, “mínimo”.