Museus em Bruxelas, Bruges e Antuérpia

Opção é o que não falta. 
Como o meu interesse recai sobretudo na pintura e na arquitectura, a selecção estava feita à partida.
Por falta de tempo não visitei o Museu Horta, em Bruxelas, como desejava.
Mas visitei o Bozar (também conhecido como Palácio das Belas Artes) e os Museus Reais de Belas Artes de Bruxelas (que actualmente incluem o Musée Magritte, o Musée Old Masters e o Musée fin-de-siècle).
Em Bruges visitei o Groeningemuseum e o Arentshuis. 
Em Antuérpia o MAS, num edifício de arquitectura fantástica, e a Casa Plantin-Moretus, único museu do mundo distinguido com a classificação como património da humanidade pela Unesco.
Em Gent era segunda-feira, logo, dia de descanso cultural.
Seguindo uma fórmula inspirada em Lourenco Mutarelli no seu “A Arte de Produzir Efeito sem Causa”, o qual classificava as mulheres com quem se cruzava no dia a dia segundo o tipo de relacionamento que com essas desejava ter em “comia”, “casava” ou “mandava para a forca”, e na impossibilidade de comer ou casar com um quadro e não o desejando mandar para a forca para evitar problemas que me impeçam futuras viagens, classificarei o meu gosto pelas obras que vi em “vendia”, “comprava” ou “pedia emprestado”.
Os Rubens e os Van Eyck vendia-os todos para arranjar € para as outras operações.
A Casa Plantin-Moretus pedia emprestada para aí estabelecer a minha biblioteca.

O MAS pedia igualmente emprestado para aí colocar as obras que compraria, designadamente todos os Brughels e o “Império das Luzes” de René Magritte.

Já que estamos no domínio da Bélgica, compraria ainda a “Vue de Bruxelles”, de Jan Baptist Bonnecroy, “Les émigrants”, de Eugène Laermans, e “Les affligés”, de Frank Brangwyn.
Um aparte: neste momento Ai Weiwei, considerado o maior artista chinês, vê ser-lhe dedicada uma grande exposição em Londres. Em Bruxelas o Bozar tinha até ao final de Agosto uma exposição dedicada a uma série de artistas chineses contemporâneos, a “Chinese Utopia Revisited”. Em Bruges, a sua bienal trouxe para as ruas mais uma série de novos artistas do império do meio. Não é só economicamente que os chineses se mostram ao velho continente. A sua cultura sempre foi forte e cativou o resto do mundo, mas agora volta a fascinar de uma outra forma, igualmente surpreendente.

Antuérpia

As minhas viagens são previamente planeadas. Não digo que tudo está predefinido, mas normalmente sei o que pretendo ver e o que irei encontrar. Existe, porém, espaço para o improviso e para a surpresa.
Em Antuérpia não houve improviso. 
Desejava visitar a zona do porto, objecto de uma regeneração profunda na última década, e para isso tinha de seguir a pé do centro histórico da cidade até lá, numa curta caminhada.
Mas houve surpresa. 
Nunca tinha ouvido falar do bairro da “luz vermelha” e apesar de não estarmos assim tão longe de Amesterdão, quer geograficamente quer culturalmente, não pensei que fosse dar ao mesmo espectáculo que nos é permitido assistir em montras de determinadas ruas da capital holandesa.
Entrar numa rua banal e começar a ver mulheres semi-nuas nas montras dos edifícios e ficar com um estremecimento dentro de mim não é sinal nem de puritanismo nem de feminismo. A cena é, para mim, degradante. Mas teve muita piada assistir ao embasbacamento de um moço que por lá passava na direcção contrária à minha, igualmente embasbacada, e ser convidado a entrar com um piscar de olho por uma senhora assim não tão moça e com falta de dentes. As mulheres das montras de Antuérpia não são todas velhas, mas também não são todas bonitas, longe disso. Uma profissão como outra qualquer?  
O porto de Antuérpia fica perto desta “luz vermelha”, como é óbvio. 
Antuérpia é a segunda maior cidade da Bélgica e o seu porto o maior do país e ainda hoje um dos maiores da Europa. 
A história do porto de Antuérpia é indissociável da da cidade. No século XVI foi uma das cidades mais importantes da Europa, tendo alcançado cerca de 100 000 habitantes em 1560, e o papel do rio Schelde e do seu porto foram decisivos para que isso acontecesse.
Houve várias reviravoltas na história do porto de Antuérpia, no que à sua relevância e centralidade diz respeito. Depois de Bruges ter ficado sem acesso ao mar, os comerciantes viraram-se para Antuérpia. Todavia, em 1648 o Tratado de Vestfália fechou os portos da cidade a todos os barcos estrangeiros. O ocaso durou quase 150 anos até Napoleão chegar e dar nova força à região e seus portos. No século XIX era já o terceiro maior porto do mundo atrás de Londres e Nova Iorque. Verificou-se um grande desenvolvimento e as novas tecnologias levaram a que fosse possível às embarcações transportar mais carga com menos tripulantes. Antuérpia era então um grande porto de trânsito de mercadorias e uma plataforma de várias rotas de comércio. Conseguiu atrair várias companhias de comércio e o porto desempenhou um papel decisivo no desenvolvimento industrial da Bélgica. No pós-guerra a cidade soube superar a destruição e os traumas da ocupação alemã (que fez com que a população de judeus da cidade quase desaparecesse) e o porto continuou o seu desenvolvimento e expansão num tal volume que atingiu a fronteira com a Holanda. 
Nos dias de hoje continua a assistir-se a um porto de Antuérpia revitalizado e pujante e a requalificação urbanística e arquitectónica desta zona da cidade é evidente. Como evidente é a sua qualidade, ao contrário do que pude testemunhar em Bruxelas, capital do país. 
As docas da cidade, cuja zona é conhecida como ‘t Eilandje, tem uma marina nova, rodeada de apartamentos modernos e restaurantes. 

Mas o grande símbolo da regeneração não só do porto mas de toda a cidade é a torre do MAS – Museum aan de Stroom, cujo significado é “museu no rio”. O rio é o Schelde e o edifício foi inaugurado em 2011, 10 andares cercados de água, como se de uma ilha se tratasse, tendo sido desenhado pela dupla holandesa de arquitectos Neutelings e Riedijk. 

A sua arquitectura é distinta, na forma e nos materiais utilizados, e o seu interior é tão apelativo como a sua fachada. Esta é vermelha ocre e vai sendo cortada aqui e ali por painéis de vidro em curvinhas. Este vidro é que nos permite que do seu interior possamos ter quase sempre acesso visual ao exterior. Entrando no primeiro piso somos transportados em escadas rolantes para os pisos sequentes, estando a cada um deles atribuído um tema, como Metropolis, Poder, Vida e Morte, entre outros. A história da cidade e do seu porto não podia faltar, numa clara demonstração do sentido público e informativo da instituição. Comovente ver que há aqui lugar também para a exposição das vidas dos emigrantes turcos e marroquinos que desde 1964 não param de chegar à cidade para trabalhar na indústria vidreira, metalúrgica e minas e que nos dias de hoje os seus filhos e netos são cidadãos belgas por inteiro (ou quase, uma vez que as raízes culturais são mantidas: das suas terras trazem carpetes, incenso e canções e poemas, da Bélgica levam nutela).
A vista do último andar do MAS, do alto dos seus 60 metros, é soberba, alcançando os olhos tudo à sua volta – desde a extensão enorme do porto até ao centro histórico medieval da cidade. 
O centro histórico fica perto da estação de comboios e esta é, por si só, uma obra arquitectónica belíssima. Na zona da estação grande parte das lojas dedicam-se a um comércio curioso, o dos diamantes. Seguindo sempre adiante entramos nas ruas pedonais Meir e Leystraad, cujos edifícios elegantes, alguns em estilo rococo, acolhem as maiores marcas da moda do mundo.
Aqui ficam alguns palácios, como o Palais op de Meier, e à sua direita a Rubenhuis, a casa onde o pintor Rubens viveu e que hoje expõe algumas das suas obras. Praticamente ao lado desta encontramos mais um exemplo da recente arquitectura vibrante na cidade de Antuérpia, no caso o edifício do teatro.

O coração da cidade medieval é composto pela Groenplaats (com a estátua de Rubens no meio), pelos 123 metros de altura da Onze-Lieve-Vrouwekathedraal (decorria missa quando a visitei, pelo que não pude por ela deambular) e pela Grote Markt.

Esta praça é local mais bonito da cidade, quer pelo magnífico edifício da Câmara Municipal quer pelos edifícios típicos da Flandres que a acompanham no cenário. 
Não dispensa, no entanto, que se percorra as ruas vizinhas que por vezes nos levam a minúsculos e surpreendentes pátios, como a Vlaeykensgang.
A cidade é agradável, bem cuidada, com jardins e edifícios suficientes para nos fazer sentir feliz. No entanto, chovia e a cor não era a melhor. 
Independentemente da chuvada forte que se abateu de repente, a Casa-Museu Plantin-Moretus é imperdível. Um aparte histórico, porém, antes de nos debruçarmos sobre esta maravilha da humanidade (está classificada(o) pela Unesco como património da humanidade, provavelmente o único ou um dos únicos museus a merecer esta distinção).
No fim do século XVI a cidade de Antuérpia foi alvo da “fúria espanhola” do ultra-católico Filipe II de Espanha, que governava também a região, e as disputas religiosas entre católicos e calvinistas arrasaram a população, que caiu para metade. No entanto, o comércio e as artes não cessaram de florescer e Antuérpia era um ponto de encontro para artistas e intelectuais europeus. 
O primeiro jornal foi criado em Antuérpia em 1606 e a tradição das casas de impressão de livros era forte aqui.  
Esta Casa-Museu Plantin-Moretus era, precisamente, uma dessas casas onde se imprimiam os livros desde o século XVI por iniciativa primeiro de Christophe Plantin e depois, após a sua morte, por Jan Moretus, seu genro. 

O seu edifício medieval, tornado museu em 1876, possui um pátio belíssimo, mas para os amantes dos livros tudo aqui deslumbra. Nos dois andares visitáveis da Casa somos transportados de sala em sala, paredes forradas a couro, pinturas de Rubens à disposição, com o piso de madeira a ranger, para o ambiente de muitos séculos atrás, observando uma fantástica colecção de material tipográfico. A Casa era composta por escritórios e loja, onde se vendiam apenas as obras que passavam pela censura. Entre os vários objectos de impressão impressiona ver a quantidade quase infinita de modelos de letras que eram utilizados na impressão destes livros históricos. Como não podia deixar de ser, existe também aqui uma biblioteca encantadora com livros antiquíssimos e raros no seu espólio. Sem dúvida, um dos locais mais inspiradores que tive a oportunidade de visitar.  
Antes de deixar a cidade vale a pena uma olhadela a mais uns quantos edifícios.
O Castelo Het Steen, junto ao rio.
A Arte Nova da Help U Zelve.
A ‘t Bootje, casa barco com aspectos mouriscos.

Bruges

Gent é a “pérola da Flandres”, Bruges a “Veneza do norte”.
Gent é a terceira cidade da Bélgica, Bruges uma pequena cidade.
Gent é um recanto ainda não repleto de turistas. Bruges é cidade hiper-turística que parece viver só para o turismo.
Um aviso: estas duas cidades são de visita obrigatória, mas deve-se visitar primeiro Gent porque Bruges é Bruges e não qualquer Veneza e as comparações são inevitáveis.
Historicamente Bruges foi uma cidade central e próspera nos tempos medievais. No século XIV era membro da Liga Hanseática, a associação de cidades comerciais do norte da Europa.
Conflitos e rivalidades várias e, sobretudo, o assoreamento do rio Zwin deixou a cidade sem acesso ao mar. Com isso Bruges esteve adormecida centenas de anos e foi o turismo no século XIX a acordá-la. 
Até hoje o turismo é o motor económico da cidade. 
Com efeito, entre Bruxelas, Gent e Antuérpia, Bruges foi aquela onde encontrei mais ajuntamentos de turistas. No seu elegante campanário, então, houve mesmo que esperar um bom bocado para iniciar a sua subida. 

A estação de comboios de Bruges fica a uma curtíssima e mais do que agradável caminhada do centro da cidade. A receber-nos tínhamos no princípio de Setembro a Trienal de Bruges 2015 e a sua The Passage Room, de Daniel Dewaele, interpelando-nos “How to Became a Citizen of Bruges”. A instalação que procura conjugar arte e sociedade coloca em hipótese que os cinco milhões anuais de visitantes de Bruges se tornariam cidadãos da cidade e questiona-os acerca das suas esperanças e sonhos como potenciais residentes.
Aqui e ali, espalhadas pela cidade, várias são as instalações que podemos ver dialogar com a cidade até meados de Outubro.

As que mais apreciei foram a espécie de bonsai gigante feito de janelas trazidas de edifícios chineses entretanto destruídos. O seu autor é Song Dong e esta recriação encontramo-la junto à Catedral de St Salvator e procura expressar o conceito Taoista de “Wu Wei” cujo significado é “inacção”.
Também a relação entre o património e a natureza num contexto urbano é focada na instalação Imaginary Cities presente no edifício da Câmara Municipal. São maquetas de cidades imaginárias realizadas por quatro artistas, todas elas invenções e fantasias únicas de indivíduos marcados pelas suas culturas distintas. 
Voltando ao princípio, saindo da estação de comboios optei por não seguir directamente para o centro histórico da cidade pelo idílico Parque Minnewater, deixando este percurso para o fim, como despedida de Bruges.

Ao invés, segui por outro parque também bonito até ao edifício de arquitectura moderna que acolhe espectáculos culturais, passando por uma pequena beguinaria, até entrar na rua mais comercial de Bruges que vai directa à Grote Markt. Todavia, há que entrar pelas ruas perpendiculares que nos levam a recantos onde nos apetece deixar estar.

Bruges é uma cidade pequena e daqui até à Grote Markt é um pulinho, sempre a vislumbrar de longe o Campanário do alto da elegância dos seus 83 metros, o qual é presença assídua, escondendo-se atrás dos edifícios vizinhos.

O Markt é a praça principal da cidade, lugar de um mercado que, insisto, não nos deixa sentir a praça em toda a sua plenitude, livre de ruído. Aqui ficam os edifícios medievais típicos da Flandres, com telhado triangular em escadinha, coloridos e com restaurantes e cafés nos pisos térreos. 

O Campanário, construído no século XIII, fica também aqui. Em tempos idos, era o lugar onde se guardavam os tecidos e outros bens; hoje é lugar turístico e de organização de eventos vários. Os campanários são edifícios típicos da Flandres, Valónia e norte de França, com um conjunto numeroso classificado como património da humanidade, num reconhecimento desta distinta arquitectura em tempos de prosperidade destas cidades. 

A subida dos seus 366 degraus merece todo o esforço, assim como a espera para o podermos fazer. Como a escadaria é estreita, as entradas estão limitadas pelo que se tem de aguardar pelo nosso espaço. Lá de cima ganhamos uma vista estupenda de Bruges, seu casario, suas praças, seus canais. Ainda para mais tive a sorte de no momento da visita os carrilhões estarem a tocar, num conjunto de sons belíssimos. O toque dos carrilhões é feito manualmente e à medida que subimos os degraus para além de escutar a sua música podemos observar os artistas a tocar.

Junto ao Markt fica o Burg, outra praça rodeada de edifícios bem elegantes. Não só o edifício da Câmara Municipal, em estilo gótico e com os brasões dos condados da Flandres, mas também a Basílica do Sagrado Sangue, de arquitectura surpreendente na sua fantasia gótica que mistura os tons negros com os dourados.

Até aqui não tínhamos ainda chegado perto dos canais. Saindo do Burg ficamos face a face com o canal junto à Vismarkt. Dizem-nos que um passeio turístico de barco é algo turístico, sim, mas que não se pode perder. Decido evitá-lo e percorro exaustivamente a cidade ladeando a água. Bruges é, definitivamente, um encanto. O cenário de sonho está ali para nós e basta-nos captá-lo, seja o cãozinho à janela, as casas de telhados triangulares com torres em forma de agulha, as casas cobertas de plantas, as cores das casas e da vegetação, as pontes tão pequenas que parecem de brincar, as árvores debruçadas para o canal.

Normalmente o passeio de barco segue desta zona central até ao bairro da Liga Hanseática e volta. Este quarteirão era onde nos séculos XIV e XV a maior parte das casas dos mercadores estrangeiros e consulados estavam instalados. 

Há que seguir adiante, no entanto. Percorrendo ruas praticamente vazias de gente, ainda que se sinta que são vividas, quer pelas suas casas com jardins e suas igrejas e parques. Até chegarmos a um pitoresco conjunto de moinhos no alto de um monte verdejante vizinho a um canal desta vez mais largo. 
Daqui, numa volta maior para que mais possamos apreender a cidade, regressamos ao centro medieval de Bruges para visitar o seu aclamado museu Groeningemuseum. O edifício e sua envolvente são bem bonitos, como tudo em Bruges, mas é a sua colecção que nos atraí. Aqui estão representados os ditos “flamengos primitivos” com obras de pintura do tempo em que a Flandres era uma região próspera e poderosa não só economicamente mas também culturalmente. 
Ao lado do Groeningemuseum, com um encantador pequeno jardim a dividi-los, fica a Arenthuis, outro espaço de exposições que merece uma visita. 
Daqui até à estação de comboios, onde o curto passeio de um dia em Bruges haveria de terminar, o encanto não esmorece. Antes de entrarmos no Parque Minnewater, pura natureza misturada com beleza e ambiente inspirador, a que não falta um castelo reflectido no espelho da água do lago, não podemos deixar de visitar a maior Beginhof (beguinaria) de Bruges, a Ten Wijngaerde. A entrada nesta área, que parece muralhada por um lago a que chamam “lago do amor”, faz-se por uma de duas pontes pequeninas. As casas de tijolo com janelas que deixam ver os cortinados marcam um forte contraste com o branco e verde que veríamos a seguir. Silêncio é a palavra de ordem que se vê inscrita quando se adentra no espaço circular onde encontramos casas brancas e uma igreja à volta de um parque verde pejado de árvores. 
No século XIII havia aqui um convento beneditino de freiras. Este é ainda hoje um lugar absolutamente tranquilo e as freiras ainda são vistas por aqui, velhinhas, com os seus hábitos azul-claro e branco. Todavia, nem só de freiras é feito o lugar, uma vez que as beguinarias tradicionalmente eram espaços habitados pelas beguinas – mulheres leigas católicas, muitas das vezes viúvas, que decidiam viver uma vida independente mas ascética e em comum fora das ordens religiosas e dos seus votos de fidelidade e pobreza. A sua organização nestas “cidades da paz”, de arquitectura única e particular, é hoje reconhecida pela Unesco como património da humanidade.
Não pode haver melhor forma de deixar Bruges. A sua beleza medieval e tranquilidade são marcas que perduram até hoje.

Gent

Na época medieval Gent chegou a ser a maior cidade da Europa depois de Paris e Constantinopla. Os têxteis eram o motor da sua maior indústria.
A sua importância revela-se ainda por ser o lugar de nascimento de Charles V, o homem que no século XVI tornou-se imperador do Sagrado Império Romano (e reinou como Carlos I em Espanha). Já no século XIX, Gent foi a primeira cidade da Flandres a abraçar a revolução industrial. 

Hoje é a capital da província da Flandres Oriental e a terceira maior cidade belga, atrás de Bruxelas e Antuérpia. É a maior cidade universitária da Flandres e isso percebe-se quando se chega à sua estação Saint Pieters de comboio. São milhares e milhares de bicicletas amontoadas nas suas imediações, o meio de transporte privilegiado dos estudantes (e não só) flamengos. 
As minhas memórias foram logo despertadas face a este cenário, recordando-me quando na Maastricht dos anos 80 não queria acreditar nos parques para bicicletas maiores do que os parques para automóveis que nós tínhamos na nossa Lisboa.
Existem duas estações em Gent, mas à Saint Pieters chegam os comboios rápidos vindos de Bruxelas. Esta estação fica a cerca de três quilómetros do centro da cidade, os quais podem ser percorridos num tram que segue sempre recto até à principal praça de Gent. Como gosto de caminhar optei por ir a pé e ainda tive a sorte de me perder, pelo que fui parar a uma zona da cidade que de outra forma não chegaria a conhecer. Canais tranquilos, zonas residenciais pacatas, blocos universitários de igual tranquilidade e pacatez. 

Cheguei onde queria e iniciei o meu passeio em Gent pela sua beguinaria mais central, perto do castelo Gravensteen (construção do século XII a que não falta sequer um fosso de água. A Oude Begijnhof tem uma pracinha central com um relvado verde em perfeita comunhão com a igreja de tiras de tijolo ocre e torre em tons vermelhos e violeta. As suas ruas estreitas têm, como é típico, os edifícios de baixa altura (normalmente um piso) num branco intenso.
As cores são, está visto, um dos pontos altos da cidade. Um dia em Gent chega para se conhecer o centro histórico da cidade e as suas maiores atracções, uma vez que a cidade, apesar da terceira maior do seu país, não é grande. Fiquei apenas parte de um dia, deixando Gent a meio da tarde sob uma chuvada inclemente a que nem as livrarias serviram de alternativa (os livros estão todos em holandês), e com isso perdi a hipótese de a ver, seus canais e seus edifícios, a mudar de tom.

A zona do canal entre as pontes St-Michielshelling e Grasburg é a mais bonita pelo conjunto da água e da arquitectura dos seus edifícios de topo triangular que nos dão a ilusão de lá podermos chegar subindo aquilo que parecem ser pequenos degraus. Curiosamente, estes edifícios são quase todos eles do século XX, o que não retira nenhum pó da alegria que sentimos por aqui estar.

Seguindo o canal, à sua direita fica o bairro de Patershol. Chão empedrado, edifícios coloridos e bem decorados, caminho por aqui em sossego e sozinha. Aqui percebo que Gent, na primeira segunda-feira de Setembro, é tudo menos turística. Ainda bem. Continuo a caminhar pelas ruas estreitas de Patershol e admiro com gosto as fachadas dos seus edifícios cobertas com jardins verticais. Já junto ao canal, as fachadas do bairro são mais ricas e têm pormenores deliciosos, obras de arte até. 
Atravessando a pequena ponte, sempre tudo tão bonito em redor, janelas abertas, floreiras em cada canto, chego à imensa Praça Vrijdagmarkt (mercado da sexta-feira). 

Depois de atravessar uma ruela coberta de graffitis, a lembrar que esta é uma cidade jovem, é a vez de ir ao encontro de mais praças: são três praças contínuas onde ficam a igreja, o campanário, a catedral e o edifício da câmara municipal.
A St Baafskathedraal é imperdível quer pela sua beleza interior quer por acolher obras de Rubens e de Van Eyck. Infelizmente a “A Adoração do Cordeiro Místico” deste último estava de férias noutro lugar que não naquela que é a sua residência oficial. 

Subi depois ao vizinho Campanário, edifício do século XIV, para ver as vistas de Gent como só os passarinhos a conseguem ter. A subida é fácil, praticamente toda de elevador, daí que cheguei ao topo folgada física e mentalmente. Mas este ânimo mudou repentinamente quando começou a chover de uma forma tal que perdi qualquer expectativa de poder sentar na relva de um qualquer jardim a relaxar e deixar-me estar a contemplar e sentir o ambiente de Gent no fim da tarde. 

Foi assim que deixei a cidade (tinha visto na meteorologia que a tarde iria continuar com chuva forte), seguindo a pé novamente até à estação dos comboios, mas desta vez pela rua Veldstraat, a rua do comércio de Gent e das livrarias em holandês, a língua da Flandres.

Flandres

Até aqui já sabemos que a Bélgica é hoje claramente dividida entre a Valónia, a sul, e a Flandres, a norte.
Nada conheço do sul. A norte, escolhi visitar as cidades de Gent, Bruges e Antuérpia, todas a uma curta e frequente distância de comboio de Bruxelas. 
A região da Flandres está definida autonomamente quer política quer administrativamente há muitos séculos. As três cidades citadas foram das mais ricas e urbanizadas cidades da Europa durante os séculos XIII, XIV e XV. Pontos de referência do comércio, dedicavam-se sobretudo à tecelagem da lã e sua transformação em pano. A razão da sua prosperidade era, pois, o comércio e a manufactura de têxteis. Também em termos culturais a força da Flandres era evidente, nomeadamente na pintura, excelentemente representada pelos “Primitivos Flamengos”, termo enganador, uma vez que a pintura flamenga era bem moderna e inventiva.
O curioso da história é que por motivos vários estas cidades da Flandres foram perdendo influência e no século XIX a Flandres, ao contrário da Valónia, estava parcamente industrializada. Hoje a história deu nova cambalhota e é a Flandres a ter uma economia moderna e mais próspera do que a sua vizinha do sul.

Antes de me dedicar a um tour por cada uma destas cidades, referir alguns pontos que lhes são comuns. Gent, Bruges e Antuérpia possuem todas elas centros históricos medievais superiormente conservados e belíssimos. Em todas encontramos campanários de arquitectura distinta, de tal forma que estão incluídos na lista do Património da Humanidade da Unesco. Em todas é possível apreciar o ambiente de tranquilidade que até hoje se vive nas beguinarias tradicionais da Bélgica. Por fim, a água é outra referência comum, com os canais em Gent e Bruges e o rio em Antuérpia, elemento decisivo para a sua prosperidade de outros tempos.

Bruxelas

Não é fácil para uma portuguesa, cujo país tem praticamente 900 anos de nacionalidade independente quase ininterrupta, traçar a história de outros países sem se sentir confusa. 
A Bélgica, por exemplo, ganhou a sua independência apenas em 1830 de forma algo inesperada. No que é hoje o seu território exerceram historicamente a sua influência franceses, holandeses e austríacos. No século XVI Bruxelas chegou a ser a capital do império Habsburgo sob o reinado de Carlos V. Já no século XIX, depois de ganha a independência, a revolução industrial na Valónia e a pilhagem do Congo pelo rei Leopold II trouxeram prosperidade e pujança económica. 
Nos dias de hoje, a divisão entre flamengos (na Flandres, a norte) e francófonos (na Valónia, a sul) é evidente e não serão só as questões linguísticas a separá-los. 

A capital da Bélgica é Bruxelas e esta é também a capital da Europa (depois da NATO e da União Europeia terem aqui assentado arraiais), pelo que parece bater tudo certo na mistura de nacionalidades, línguas e vidas que se observa numa curta estadia na cidade.
Junto à estação do Midi, que escolhi para meu poiso, os belgas (sejam flamengos ou francófonos) (a)parecem em clara minoria: há ruas inteiras de portugueses, brasileiros, italianos, africanos, marroquinos e árabes. Tudo isto a quinze minutos a pé da Grand Place.
Questões práticas: não se precisa de saber falar neerlandês ou francês para se sobreviver em Bruxelas e pode-se assistir ao Académica – Sporting na televisão de um café português rodeada de portugueses que apesar de estarem uma rua atrás da rua Lemonniers não fazem ideia do que isso seja.
Na cidade há de tudo e de tudo se vê. Coisas boas e coisas más.
Vamos às coisas boas: a multiculturalidade que se sente pelas ruas, gerando contrastes interessantes, sempre com um sentimento de segurança (flamengos e francófonos, emigrantes em busca de melhores condições económicas e eurocratas); edifícios com fachadas lindamente ornamentadas e bem conservados; praças e jardins acolhedores; a Grand Place, provavelmente a praça mais bonita do mundo.

Agora as coisas más: na cidade de ricas fachadas em Arte Nova e outros estilos não menos agradáveis à vista convivem uns quantos arranha-céus pavorosos – repisando o meu post anterior, como é possível destruir um dos maiores exemplos de Arte Nova, como o era a Maison du Peuple, para construir a sem graça Torre du Sablon?; os edifícios do quarteirão Europa (em resumo, vidro a mais, bom gosto a menos); o lixo acumulado nas ruas (numa rua junto ao meu hotel estiveram os mesmos sacos do lixo encostados à parede durante seis dias ininterruptos); excesso de gente nas ruas a pedir esmola.
O que mais me impressionou negativamente foi, precisamente a conjugação Europa e mendigos. 
Percorrendo a Rue du Luxembourg, passando por uns pacatos jardins, avista-se por detrás da fachada da antiga estação, encimada por um relógio, o edifício horroroso do Parlamento Europeu (também conhecido localmente como “capricho dos deuses”). A sua forma e o excesso de vidro não foram o pior da coisa; o pior foi constatar a quantidade de gente que dorme na rua enrolada em papelão na pequena praça à sua frente (perguntaram-me se era gente protestando, mas não vi qualquer sinal de protesto, apenas pobreza).

Neste bairro Europeu, que ganhou terrenos ao bairro Leopold, estão instaladas mais uma série de instituições europeias, entre as quais a Comissão Europeia, no não menos pavoroso edifício Berlaymont. Tudo por aqui está em obras, com mais edifícios de mesmo nível a juntarem-se brevemente à trupe do mau gosto arquitectónico, numa manifestação ostentatória de uma burocracia que não se entende muito bem por que cidadãos foi legitimada e quais representa.

Agora que já escrevi tudo o que pretendia escrever de mal de Bruxelas, vamos aos elogios.
Permanecendo no bairro Europeu e no bairro Leopold, o que safa a coisa má é que por aqui existem sobejos parques mais do que agradáveis para se deixar estar rodeado por edifícios bem bonitos. A área das praças Marie-Louise e Ambiorix são paragens obrigatórias. Do outro lado, depois de se percorrer o Parque do Cinquentenário, numa demonstração de ostentação de outra época mais pujante, fica o Parc Leopold. Se quisermos evitar a vista da fachada do edifício do Parlamento Europeu é só debruçar os nossos olhos no verde da relva e na água do lago.

Mas o mais impressionante de Bruxelas é mesmo a sua praça principal: a Grand Place
Para lá entrar podemos escolher uma das suas sete entradas, mas à partida nenhuma nos prepara para o cenário grandioso desta praça medieval escondida no centro da cidade. As fachadas barrocas e super ornamentadas dos edifícios que rodeiam a praça, com os dourados a dominarem, são uma delícia. A maioria dos edifícios foram construídos entre 1697 e 1705 e eram a morada das várias associações de comerciantes – as guildas – com representação na cidade, como a dos padeiros, dos arqueiros, dos açougueiros, dos cervejeiros, dos costureiros, entre outras, daí os símbolos do universo dessas associações que até hoje vemos nas fachadas, bem como inúmeras estátuas. De lembrar que Bruxelas foi no século XV uma cidade comercial que acolhia mercados prósperos, daí as guildas dos mercadores de sucesso.

Existem aqui também algumas casas que pertenceram a nobres da época. Quase todos os edifícios estão hoje transformados em cafés nos seus pisos térreos. E depois, depois existem aqui, imperiais, outros dois edifícios que quase roubam a atenção: o Hotel de Ville, do século XV, com a sua torre de 96 metros encimada por Saint-Michel, o patrono de Bruxelas, e as suas gárgulas góticas, símbolos da nobreza; e a Maison du Roi, hoje Museu da Cidade, mais novo cerca de 200 anos do que os edifícios vizinhos, na sua característica cor preta e com os seus arcos neo-góticos.

Tive a sorte de ver a Grand Place vazia de instalações de feira, ainda que cheia de gente. Todavia, as fotografias não conseguem captar toda a sua beleza e grandiosidade, sendo vãos os esforços de captar todos os edifícios, quer horizontalmente quer verticalmente. Não havendo ginástica fotográfica possível, que fique então na minha memória a Grand Place por inteiro.

Grandiosas na sua beleza e harmonia são também as Galerias Saint Hubert, três passagens em arcada de estilo neo-clássico (Galeria da Rainha, Galeria do Rei e Galeria dos Príncipes), cujos arcos em vidro deslumbram, as primeiras galerias comerciais da Europa criadas em 1847 pelo Rei Leopold I.
Dois dos maiores flops de Bruxelas são a Rua des Bouchers, junto às Galeria Hubert, um corredor colorido cheio de restaurantes hiper-turísticos, e o Manneken Pis ou “menino pilinhas”, perto da Grand Place, coisa pavorosa onde se juntam e acotovelam dezenas de pessoas para fotografar a estátua minúscula e totalmente desprovida de graça. Melhor olhar antes para a empena que lhe foi livremente dedicada a umas quantas ruas dali.

A zona da Grand Place e vizinha Bourse (a Bolsa, edifício de fachada neoclássica com colunas e estátuas, incluindo alguns trabalhos de Rodin), a uma curta caminhada até St-Géry e Ste-Catherine, com o seu Quai aux Briques, são o coração da cidade, cheio de cafés, sendo um dos  locais para se sair para jantar e seguir pela noite dentro. A Praça de Ste Catherine, onde havia um mercado de peixe quando o rio Senne se deixava ver, é uma excelente opção para se provar as incontornáveis moules et frites, ou seja, os tradicionais mexilhões com batatas fritas.

Quando se caminha por estes bairros, é incrível imaginar que o rio Senne passa por aqui debaixo dos nossos pés, hoje longe da nossa vista, enterrado quer por questões de salubridade quer por questões de expansão urbanística.  

Mudando de direcção, obrigatório é também um passeio pelo bairro de Marolles. Antigo bairro da classe operária, gente afirmativa, a Place du Jeu-de-Balle, principalmente aos sábados de manhã com a sua feira onde tudo se vende, ainda mostra algum do seu carácter antigo. Hoje, porém, o bairro é feito de contrastes. No seu extremo que dá para a Porta de Hall encontramos um interessante projecto de habitação social construído por volta de 1915, o primeiro na cidade. A Cité Hellemans é um conjunto de habitações distribuídas por sete filas muito semelhantes, paralelas entre si, em prédios de tijolo e pedra, com elementos de ferro a lembrar a Arte Nova, e terraços não muito espaçosos. Cada uma das ruas toma nomes das profissões antes exercidas no bairro, como marceneiros, borradores, ourives e outras. Nestas ruas brincam crianças de todas as nacionalidades, pois não só a Cité Hellemans mas todo o bairro de Marolles é hoje lugar de muitos emigrantes. 

As ruas Haute e Blaes, agradáveis e com lojas bonitas e coloridas, levam-nos até ao outro extremo de Marolles. Primeiro passamos pela praça que acolhe hoje um elevador prático mas feio que liga a parte baixa da cidade à alta, onde fica o mega Palácio da Justiça (construído entre 1866 e 1883 este edifício é ainda maior do que a Catedral de São Pedro em Roma), donde se têm uma bonita perspectiva da cidade; e depois chegamos ao Sablon. 

Lugar chique de Bruxelas, onde encontramos lojas de antiguidades e galerias de arte, assim como cafés e todas as melhores lojas de chocolates (a minha preferida é a Pierre Marcolini: pelos bolos, pelos gelados, pelos chocolates, enfim, por toda a sua belíssima apresentação), à Praça do Grand Sablon (onde existe um deslocado parque de estacionamento no flanco dianteiro à sua Igreja) segue-se a Praça do Petit Sablon com o seu delicioso jardim cheio de estátuas. 

Jardins é o que não falta por aqui. Ou continuamos para os Jardins de Egmont, passando pelos seus muros preenchidos com citações da local Marguerite Yourcenar, ou vamos directamente para a Praça e Palácio Real, com o Parque de Bruxelas à espreita. 

O Sablon é, pois, uma boa antecâmara para o ambiente artístico que se lhe segue no território. O Monte das Artes, como é conhecida esta zona mais elevada da cidade, para além do Palácio Real (aberto a visitas e residência oficial da realeza belga, apesar de na verdade a família real hoje em dia habitar em Laeken) é o lugar dos Museus Reais de Belas Artes (inclui o Musee Old Masters, o Musee Fin-de-Sècle e Musee Magritte) e do Bozar (anteriormente designado Palácio das Artes, complexo a caminho da Arte Déco desenhado por Victor Horta no sentido de acolher todas as artes, como o cinema, a arte e a dança), para além de diversos outros museus. 
E para algo completamente diferente, há que não sair de Bruxelas sem tomar o metro até Heysel e depois de nos emocionarmos em frente do seu Estádio (como amante de futebol e sensível a tragédias) seguir até ao Atomium. 

O Atomium é inequivocamente um símbolo de Bruxelas.
Construído como estrutura temporária para a Exposição Internacional de 1958 que então teve lugar na cidade, estas nove bolas metálicas gigantescas unidas por braços tubulares de aço, representando átomos de ferro, pretendiam configurar o progresso que se vivia no pós-guerra e a força, modernidade e futuro de um país, com uma indústria poderosa partilhada com o Luxemburgo (não esquecer que nos anos 50 havia sido criada na Europa a Comunidade do Carvão e Aço, e o ferro e o aço faziam parte da visão de desenvolvimento económico da época). No entanto, o tipo de aço aqui usado foi uma espécie de aço inoxidável, o alumínio, daí o nome Atomium, mistura de átomo com aluminium. 
Foi tão forte a sua presença, arquitectura e simbolismo que permaneceu intacta e perdura até hoje, do alto dos seus 120 metros de altura, depois de ter sido objecto de uma intervenção de restauro em 2006. 

É possível – e concorrida – a visita ao seu interior, onde foi criado um museu que não considero ter muito interesse. Está bem que procura ter uma função educativa na área da energia, mas o espaço expositivo podia ser muito mais evoluído, moderno e interactivo. Passa ainda em revista a sua criação, na tal Exposição Internacional. Valerá a pena pela experiência de estarmos dentro daqueles átomos imensos e tubos que os ligam e pelas vistas fantásticas da cidade, mas por 11 euros?

A Arte Nova em Bruxelas

Outro pretexto para se conhecer Bruxelas e caminhar pelas suas ruas para além da arte mural da banda desenhada é o de ir em busca de exemplos de Arte Nova.

A arte surgida nos finais do século XIX foi breve e não durou para além da primeira década do século XX. Em Portugal, e como já havia escrito em post sobre Aveiro, é sobretudo nesta cidade banhada pela ria que encontramos um bom naipe de exemplos desta arte.
Na Bélgica a Arte Nova entrou em força em Bruxelas. Naquela época vivia-se alguma euforia e o rei Leopoldo II promovia a construção de novos bairros. É percorrendo as ruas dos bairros de Ixelles, Schaerbeek ou Saint-Gilles que ficamos com uma ideia do que esta arte representou para o edificado da cidade. Antes periféricos, hoje estes bairros são parte do coração da cidade e aqui sente-se um ambiente de gentrificação, sendo bairros vividos por diversas comunidades. 
Historicamente a Arte Nova ficou ligada à pujança da burguesia endinheirada que pretendia construir as suas moradias num estilo da época que se queria moderno, numa ruptura com os estilos do passado, ainda que respeitando alguns elementos antigos. Até pela sua brevidade, a Arte Nova pode pois ser encarada como um estilo de transição, à qual se seguiu a Arte Deco.
Toda uma experiência estética, progressista e afirmativa para uma nova burguesia que fizera fortuna recente com o desenvolvimento dos seus empreendimentos industriais e comerciais e tinha poder para encomendar o desenho das suas moradias a arquitectos de talento.
Em Bruxelas, a partir de 1893, dois arquitectos foram decisivos para tornar este movimento da Arte Nova central: Victor Horta e Paul Hankar. Victor Horta tem mesmo um museu que lhe é dedicado, instalado naquela que foi a sua moradia pessoal e atelier em Saint-Gilles.
O que caracteriza então este movimento? É, desde logo, um movimento transversal, não se limitando à arquitectura, mas manifestando-se igualmente nas artes decorativas, na criação de cartazes, na cerâmica, entre outros.
Atendo-nos à sua arquitectura, de sensibilidade humanista e com preocupações de harmonia com a natureza, a Arte Nova caracteriza-se pelo uso de materiais como ferro forjado, vidro, madeiras preciosas e mármore. Nas fachadas é visível a utilização de estruturas metálicas na sua decoração. A atenção posta nos pormenores é evidente e não só nas fachadas, mas também nas portas e seus puxadores, nas rampas de escadas, balaustradas e no interior no mobiliário, lâmpadas e demais objectos. Há um excesso de ornamentação e as linhas e formas denotam alguma sinuosidade, sendo as cores e a luminosidade que se pretende que flua nos interiores de todas as divisões outro aspecto a merecer relevância.
Alguns dos motivos dominantes da Arte Nova são os temas arabescos, a figura da mulher e elementos naturalistas como plantas e animais.
Em Bruxelas a associação urbanística ARAU (http://www.arau.org/en/t/1-brussels-1900-art-nouveau/1) promove visitas temáticas no sentido de se entender as origens, técnicas e características da Arte Nova na cidade.
Alguns exemplos de edifícios em Arte Nova em Bruxelas.

Edifício Old England, hoje Museu dos Instrumentos Musicais, projecto de Paul Saintenoy, construído entre 1898-99.
Este exemplo é incontornável e quase impossível de escapar a qualquer visitante de Bruxelas, tal é a sua localização, bem junto ao Palácio e Museus Reais de Belas Artes.
De seis andares, originalmente dedicados a lojas, a sua fachada frontal cheia de fantasia cativa. É toda envidraçada, num complexo de ferro fundido e aço, em cor preta. Num dos lados do topo tem uma torre feita de ferros entrelaçados.

Maison Cauchie, projecto de Paul Cauchie, construída em 1906, com morada no número 5 da Rue des Francs, para lá do Parque do Cinquentenário. 
Aqui a decoração por meio de esgrafitos na fachada surpreende, com a pintura de diversas figuras femininas no topo e uma só no segundo piso numa pose aparentemente reivindicativa anunciando “Par Nous, Por Nous”.
(sem foto)
Casa Victor Horta, projecto de Victor Horta, construída entre 1898-1901, nos números 23 e 25 da Rue Americaine, em Ixelles.
Aqui ficava o antigo atelier e casa deste arquitecto, agora tornado museu. Não tive oportunidade de visitar o seu interior, que é a maior riqueza desta casa, em especial o uso que o arquitecto faz da luz natural e os pormenores nos corrimãos e mobiliário. 
As fachadas dos dois edifícios contíguos (casa e atelier) são em pedra, mas também é aqui visível o uso do ferro fundido na coluna que suporta o primeiro andar e o uso do vidro no segundo andar.
As janelas em curva são outra marca distintiva.

Loja de têxteis Waucquez, hoje Centro Belga de Banda Desenhada, projecto de Victor Horta, construído entre 1903-06 bem no centro de Bruxelas.
Edifício de dois andares, o estilo em Arte Nova da sua fachada talvez não seja muito óbvio, com recurso ao uso da pedra e vidro e não do metal. O interior deste edifício, o único sobrevivente dos seis edifícios para grandes lojas que Victor Horta projectou, é um claro exemplo de um uso superior da luz nos espaços interiores. São ainda visíveis os elementos em ferro plenos de curvas nas escadas e corrimãos.
 

Maison Saint-Cyr, projecto de Gustave Strauven, construída em 1900 na Praça Ambiorix, no bairro Leopold.
Edifício estreito e alto, este é um exemplo da exuberância que a Arte Nova pode tomar. A sua fachada está profusamente ocupada com um trabalho intrincado de ferro nas varandas com uma loggia redonda no topo. O tom verde claro do ferro contrasta com as linhas quase alaranjadas das janelas em vidro, dando ainda mais alegria e fantasia a este edifício.

Maison Autrique, um dos primeiros projectos de Victor Horta, construída em 1893, no número 226 da Chaussée de Haecht, em Schaerbeek.
Aqui estávamos nos primórdios da arte nova. A fachada é discreta, em pedra branca com as juntas definidas por linhas a vermelho.

Aqui perto, na Avenida Louis Bertrand, encontramos outro exemplo de Arte Nova, com a entrada de um edifício cheia de ferros entrelaçados. 
Numa sua perpendicular, na Rue Josaphat, damos de caras com um Ginásio assinado por Henri Jacobs, topo arredondado com pequenas colunas a sustentá-lo.
Por fim, a Maison du Peuple, obra prima de Victor Horta. A esta poucos de nós lhe pôs a vista em cima, uma vez que foi destruída em 1965 para ser substituída pela incaracterística Torre Sablon. Diz-se da Casa do Povo que era um hino à liberdade de pensamento e criação, denotando as preocupações morais e até humanistas subjacentes à Arte Nova. Criada em 1895 por Victor Horta, a pedido do Partido Operário Belga, este edifício acolhia escritórios, salas de reunião e de espectáculos, em plena comunhão com a vizinha Igreja Notre-Dame-de-la-Chapelle. 
Os protestos contra a sua destruição foram em vão.