Bruxelas

Não é fácil para uma portuguesa, cujo país tem praticamente 900 anos de nacionalidade independente quase ininterrupta, traçar a história de outros países sem se sentir confusa. 
A Bélgica, por exemplo, ganhou a sua independência apenas em 1830 de forma algo inesperada. No que é hoje o seu território exerceram historicamente a sua influência franceses, holandeses e austríacos. No século XVI Bruxelas chegou a ser a capital do império Habsburgo sob o reinado de Carlos V. Já no século XIX, depois de ganha a independência, a revolução industrial na Valónia e a pilhagem do Congo pelo rei Leopold II trouxeram prosperidade e pujança económica. 
Nos dias de hoje, a divisão entre flamengos (na Flandres, a norte) e francófonos (na Valónia, a sul) é evidente e não serão só as questões linguísticas a separá-los. 

A capital da Bélgica é Bruxelas e esta é também a capital da Europa (depois da NATO e da União Europeia terem aqui assentado arraiais), pelo que parece bater tudo certo na mistura de nacionalidades, línguas e vidas que se observa numa curta estadia na cidade.
Junto à estação do Midi, que escolhi para meu poiso, os belgas (sejam flamengos ou francófonos) (a)parecem em clara minoria: há ruas inteiras de portugueses, brasileiros, italianos, africanos, marroquinos e árabes. Tudo isto a quinze minutos a pé da Grand Place.
Questões práticas: não se precisa de saber falar neerlandês ou francês para se sobreviver em Bruxelas e pode-se assistir ao Académica – Sporting na televisão de um café português rodeada de portugueses que apesar de estarem uma rua atrás da rua Lemonniers não fazem ideia do que isso seja.
Na cidade há de tudo e de tudo se vê. Coisas boas e coisas más.
Vamos às coisas boas: a multiculturalidade que se sente pelas ruas, gerando contrastes interessantes, sempre com um sentimento de segurança (flamengos e francófonos, emigrantes em busca de melhores condições económicas e eurocratas); edifícios com fachadas lindamente ornamentadas e bem conservados; praças e jardins acolhedores; a Grand Place, provavelmente a praça mais bonita do mundo.

Agora as coisas más: na cidade de ricas fachadas em Arte Nova e outros estilos não menos agradáveis à vista convivem uns quantos arranha-céus pavorosos – repisando o meu post anterior, como é possível destruir um dos maiores exemplos de Arte Nova, como o era a Maison du Peuple, para construir a sem graça Torre du Sablon?; os edifícios do quarteirão Europa (em resumo, vidro a mais, bom gosto a menos); o lixo acumulado nas ruas (numa rua junto ao meu hotel estiveram os mesmos sacos do lixo encostados à parede durante seis dias ininterruptos); excesso de gente nas ruas a pedir esmola.
O que mais me impressionou negativamente foi, precisamente a conjugação Europa e mendigos. 
Percorrendo a Rue du Luxembourg, passando por uns pacatos jardins, avista-se por detrás da fachada da antiga estação, encimada por um relógio, o edifício horroroso do Parlamento Europeu (também conhecido localmente como “capricho dos deuses”). A sua forma e o excesso de vidro não foram o pior da coisa; o pior foi constatar a quantidade de gente que dorme na rua enrolada em papelão na pequena praça à sua frente (perguntaram-me se era gente protestando, mas não vi qualquer sinal de protesto, apenas pobreza).

Neste bairro Europeu, que ganhou terrenos ao bairro Leopold, estão instaladas mais uma série de instituições europeias, entre as quais a Comissão Europeia, no não menos pavoroso edifício Berlaymont. Tudo por aqui está em obras, com mais edifícios de mesmo nível a juntarem-se brevemente à trupe do mau gosto arquitectónico, numa manifestação ostentatória de uma burocracia que não se entende muito bem por que cidadãos foi legitimada e quais representa.

Agora que já escrevi tudo o que pretendia escrever de mal de Bruxelas, vamos aos elogios.
Permanecendo no bairro Europeu e no bairro Leopold, o que safa a coisa má é que por aqui existem sobejos parques mais do que agradáveis para se deixar estar rodeado por edifícios bem bonitos. A área das praças Marie-Louise e Ambiorix são paragens obrigatórias. Do outro lado, depois de se percorrer o Parque do Cinquentenário, numa demonstração de ostentação de outra época mais pujante, fica o Parc Leopold. Se quisermos evitar a vista da fachada do edifício do Parlamento Europeu é só debruçar os nossos olhos no verde da relva e na água do lago.

Mas o mais impressionante de Bruxelas é mesmo a sua praça principal: a Grand Place
Para lá entrar podemos escolher uma das suas sete entradas, mas à partida nenhuma nos prepara para o cenário grandioso desta praça medieval escondida no centro da cidade. As fachadas barrocas e super ornamentadas dos edifícios que rodeiam a praça, com os dourados a dominarem, são uma delícia. A maioria dos edifícios foram construídos entre 1697 e 1705 e eram a morada das várias associações de comerciantes – as guildas – com representação na cidade, como a dos padeiros, dos arqueiros, dos açougueiros, dos cervejeiros, dos costureiros, entre outras, daí os símbolos do universo dessas associações que até hoje vemos nas fachadas, bem como inúmeras estátuas. De lembrar que Bruxelas foi no século XV uma cidade comercial que acolhia mercados prósperos, daí as guildas dos mercadores de sucesso.

Existem aqui também algumas casas que pertenceram a nobres da época. Quase todos os edifícios estão hoje transformados em cafés nos seus pisos térreos. E depois, depois existem aqui, imperiais, outros dois edifícios que quase roubam a atenção: o Hotel de Ville, do século XV, com a sua torre de 96 metros encimada por Saint-Michel, o patrono de Bruxelas, e as suas gárgulas góticas, símbolos da nobreza; e a Maison du Roi, hoje Museu da Cidade, mais novo cerca de 200 anos do que os edifícios vizinhos, na sua característica cor preta e com os seus arcos neo-góticos.

Tive a sorte de ver a Grand Place vazia de instalações de feira, ainda que cheia de gente. Todavia, as fotografias não conseguem captar toda a sua beleza e grandiosidade, sendo vãos os esforços de captar todos os edifícios, quer horizontalmente quer verticalmente. Não havendo ginástica fotográfica possível, que fique então na minha memória a Grand Place por inteiro.

Grandiosas na sua beleza e harmonia são também as Galerias Saint Hubert, três passagens em arcada de estilo neo-clássico (Galeria da Rainha, Galeria do Rei e Galeria dos Príncipes), cujos arcos em vidro deslumbram, as primeiras galerias comerciais da Europa criadas em 1847 pelo Rei Leopold I.
Dois dos maiores flops de Bruxelas são a Rua des Bouchers, junto às Galeria Hubert, um corredor colorido cheio de restaurantes hiper-turísticos, e o Manneken Pis ou “menino pilinhas”, perto da Grand Place, coisa pavorosa onde se juntam e acotovelam dezenas de pessoas para fotografar a estátua minúscula e totalmente desprovida de graça. Melhor olhar antes para a empena que lhe foi livremente dedicada a umas quantas ruas dali.

A zona da Grand Place e vizinha Bourse (a Bolsa, edifício de fachada neoclássica com colunas e estátuas, incluindo alguns trabalhos de Rodin), a uma curta caminhada até St-Géry e Ste-Catherine, com o seu Quai aux Briques, são o coração da cidade, cheio de cafés, sendo um dos  locais para se sair para jantar e seguir pela noite dentro. A Praça de Ste Catherine, onde havia um mercado de peixe quando o rio Senne se deixava ver, é uma excelente opção para se provar as incontornáveis moules et frites, ou seja, os tradicionais mexilhões com batatas fritas.

Quando se caminha por estes bairros, é incrível imaginar que o rio Senne passa por aqui debaixo dos nossos pés, hoje longe da nossa vista, enterrado quer por questões de salubridade quer por questões de expansão urbanística.  

Mudando de direcção, obrigatório é também um passeio pelo bairro de Marolles. Antigo bairro da classe operária, gente afirmativa, a Place du Jeu-de-Balle, principalmente aos sábados de manhã com a sua feira onde tudo se vende, ainda mostra algum do seu carácter antigo. Hoje, porém, o bairro é feito de contrastes. No seu extremo que dá para a Porta de Hall encontramos um interessante projecto de habitação social construído por volta de 1915, o primeiro na cidade. A Cité Hellemans é um conjunto de habitações distribuídas por sete filas muito semelhantes, paralelas entre si, em prédios de tijolo e pedra, com elementos de ferro a lembrar a Arte Nova, e terraços não muito espaçosos. Cada uma das ruas toma nomes das profissões antes exercidas no bairro, como marceneiros, borradores, ourives e outras. Nestas ruas brincam crianças de todas as nacionalidades, pois não só a Cité Hellemans mas todo o bairro de Marolles é hoje lugar de muitos emigrantes. 

As ruas Haute e Blaes, agradáveis e com lojas bonitas e coloridas, levam-nos até ao outro extremo de Marolles. Primeiro passamos pela praça que acolhe hoje um elevador prático mas feio que liga a parte baixa da cidade à alta, onde fica o mega Palácio da Justiça (construído entre 1866 e 1883 este edifício é ainda maior do que a Catedral de São Pedro em Roma), donde se têm uma bonita perspectiva da cidade; e depois chegamos ao Sablon. 

Lugar chique de Bruxelas, onde encontramos lojas de antiguidades e galerias de arte, assim como cafés e todas as melhores lojas de chocolates (a minha preferida é a Pierre Marcolini: pelos bolos, pelos gelados, pelos chocolates, enfim, por toda a sua belíssima apresentação), à Praça do Grand Sablon (onde existe um deslocado parque de estacionamento no flanco dianteiro à sua Igreja) segue-se a Praça do Petit Sablon com o seu delicioso jardim cheio de estátuas. 

Jardins é o que não falta por aqui. Ou continuamos para os Jardins de Egmont, passando pelos seus muros preenchidos com citações da local Marguerite Yourcenar, ou vamos directamente para a Praça e Palácio Real, com o Parque de Bruxelas à espreita. 

O Sablon é, pois, uma boa antecâmara para o ambiente artístico que se lhe segue no território. O Monte das Artes, como é conhecida esta zona mais elevada da cidade, para além do Palácio Real (aberto a visitas e residência oficial da realeza belga, apesar de na verdade a família real hoje em dia habitar em Laeken) é o lugar dos Museus Reais de Belas Artes (inclui o Musee Old Masters, o Musee Fin-de-Sècle e Musee Magritte) e do Bozar (anteriormente designado Palácio das Artes, complexo a caminho da Arte Déco desenhado por Victor Horta no sentido de acolher todas as artes, como o cinema, a arte e a dança), para além de diversos outros museus. 
E para algo completamente diferente, há que não sair de Bruxelas sem tomar o metro até Heysel e depois de nos emocionarmos em frente do seu Estádio (como amante de futebol e sensível a tragédias) seguir até ao Atomium. 

O Atomium é inequivocamente um símbolo de Bruxelas.
Construído como estrutura temporária para a Exposição Internacional de 1958 que então teve lugar na cidade, estas nove bolas metálicas gigantescas unidas por braços tubulares de aço, representando átomos de ferro, pretendiam configurar o progresso que se vivia no pós-guerra e a força, modernidade e futuro de um país, com uma indústria poderosa partilhada com o Luxemburgo (não esquecer que nos anos 50 havia sido criada na Europa a Comunidade do Carvão e Aço, e o ferro e o aço faziam parte da visão de desenvolvimento económico da época). No entanto, o tipo de aço aqui usado foi uma espécie de aço inoxidável, o alumínio, daí o nome Atomium, mistura de átomo com aluminium. 
Foi tão forte a sua presença, arquitectura e simbolismo que permaneceu intacta e perdura até hoje, do alto dos seus 120 metros de altura, depois de ter sido objecto de uma intervenção de restauro em 2006. 

É possível – e concorrida – a visita ao seu interior, onde foi criado um museu que não considero ter muito interesse. Está bem que procura ter uma função educativa na área da energia, mas o espaço expositivo podia ser muito mais evoluído, moderno e interactivo. Passa ainda em revista a sua criação, na tal Exposição Internacional. Valerá a pena pela experiência de estarmos dentro daqueles átomos imensos e tubos que os ligam e pelas vistas fantásticas da cidade, mas por 11 euros?

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