São Nicolau é, a par da Brava, a ilha do arquipélago de Cabo Verde menos visitada. De costa escarpada, muito montanhosa e com vales profundos, acolhe fenómenos geológicos surpreendentes e a sua geografia e paisagem são exuberantes, nada ficando a dever às demais ilhas. Lugar de uma das mais interessantes cidades coloniais de Cabo Verde, a ilha de Chiquinho é também a ilha da morna Sodade. Não é, pois, pela sua beleza e cultura que não é muito visitada, antes pela escassez de ligações aéreas e muito longas ligações fluviais, assim como pela falta de infraestruturas. Visite-se, então, São Nicolau, um dos poucos lugares do mundo ainda inexplorados e sem turismo.

Em forma em T, a ilha de São Nicolau corresponderia, na verdade, a duas ilhas que se terão juntado, a parte ocidental mais larga, montanhosa e verde e a parte oriental mais aplanada e árida. A sua população concentra-se na zona ocidental, onde estão os vales férteis da Fajã e da Ribeira Brava, dominados pelo Monte Gordo, e a acessível costa do Tarrafal, sendo a restante ilha de povoamento disperso. Historicamente, o seu povoamento não foi fácil. Descoberta em 1461, poucos anos depois Pedro Álvares Cabral e a sua armada aportaram na costa de São Nicolau antes de seguirem caminho para o que veio a ser o achamento do Brasil, em 1500. Fizeram-no na Preguiça, aldeia costeira pouco abaixo do aeródromo, e um monumento no Forte do Príncipe Real assinala o feito. Diz-se que o navegador terá perdido aqui a nau São Jorge, e até hoje a baía da Preguiça é conhecida por esse nome. Nunca explorada directamente pela Coroa portuguesa, a ilha foi inicialmente entregue a casas senhoriais de Portugal que não vieram a mostrar-se presentes no território. Com efeito, até ao final do século XVII não foram criadas estruturas de poder na ilha de São Nicolau, sendo então a criação de gado a sua principal actividade económica. Só a partir da segunda década do século XVIII é que a Coroa nomeou um capitão para administrar a ilha e criou o município da Ribeira Brava, distribuindo as terras em sesmarias e, assim, apostando no desenvolvimento agrícola. Em 1731 eram 260 os habitantes no vale da Ribeira Brava, número esse que viria a aumentar ao longo das décadas, para tal tendo contribuindo o facto de D. Frei Cristóvão de São Boaventura, bispo de Cabo Verde, ter habitado na ilha durante o seu bispado, aqui tendo morrido e sido sepultado.




De qualquer forma, e apesar da preponderância que a Ribeira Brava viria a desempenhar no quadro do arquipélago, como veremos noutro texto, a ilha sempre foi marcada por um grande isolamento, agravado pela difícil missão de povoamento num território tão montanhoso e por maus anos agrícolas, que levaram à fome e doenças e, muitas das vezes, à necessidade de partir em busca de uma vida melhor. Não obstante, ou talvez por isso, São Nicolau foi forjando uma forte identidade cultural, distinta das demais ilhas. Esta é a terra da Sodade, sodade des nha térra Saniklau.

Na Praia Branca, a Casa da Morna conta a história deste género musical, distinguido como património imaterial da humanidade pela Unesco, essencial para compreender a identidade do cabo-verdiano. Com origem na ilha da Boavista, a morna mais antiga é “Brada Maria”, ouvida primeiro na ilha da Brava, e a mais cantada é “Sodade”, tornada famosa por uma tal Cesária Évora, natural da ilha de São Vicente, que colocou na boca de meio mundo a saudade de uma terra chamada São Nicolau. Terá surgido no final do século XVIII, com as cantadeiras nas zonas portuárias e comerciais a cantarem de improviso motivos do quotidiano de forma alegre, irónica e trocista, tornando-se, depois, mais melodiosa, sentimental e romântica, cantando temas como o amor, o apego à terra e a saudade. Expressando o que o cabo-verdiano carrega na alma, é uma forma de ligar as ilhas do arquipélago à diáspora espalhada no mundo. A emigração é, com efeito, o grande tema de Cabo Verde e a música Sodade está aí para o provar. O cabo-verdiano é marcado pela insularidade e pelos elementos, como o mar, a aridez e as secas recorrentes, que levaram à fome e à emigração. A última grande fome, em 1947, fez muitos partirem, em especial, para São Tomé, usando o mar que lhes é vizinho como ponto de partida para uma nova vida. E a saudade, tanto dos que foram como dos que ficaram, à espera de notícias, de uma carta, é um sentimento transversal a todos eles. A morna Sodade expressa tudo isso.

A Praia Branca desempenhou um papel decisivo na criação da morna Sodade. Havia a letra, que João de Tereza cantou para a sua namorada Mariana ao partir para São Tomé. Mas não havia música, ou havia várias, mas nenhuma delas adequada, sendo antes uma espécie de serenata mal cantada. Então, na que é hoje a Casa da Morna, Armando Zeferino, que aqui juntava os amigos para cantar e tocar, compôs a melodia, daí resultando este perfeito e intemporal lamento. Na sua viagem pela história da morna, este imperdível núcleo museológico conta-nos ainda que esta é cantada quotidianamente, seja em ambiente informal ou mais formal, estando presente em todas as fases da vida do cabo-verdiano, desde o nascimento do bebé, passando pelo baptizado, casamento e outras celebrações, até à morte, com o acompanhamento do cortejo fúnebre até ao cemitério.




A vila da Praia Branca, terra do músico Paulino Vieira, tem a curiosidade de ter “praia” no nome, mas distar cerca de 3 kms da costa. Com origem na Praia Grande, ali perto, os seus habitantes tiveram de se deslocar para o interior, onde havia uma ribeira que lhes permitia irrigar os terrenos cultivados com os seus legumes e frutos. E é também terra de pastagens. Com as majestosas montanhas do Monte Verde nas costas a enquadrarem o seu casario, a Praia Branca é uma povoação muito pitoresca.









Perto está o Carbeirinho, designado uma das 7 maravilhas naturais de Cabo Verde. À beira do mar, esta falésia é uma formação rochosa pouco vista, um daqueles fenómenos que se dúvida que possam ser deste mundo, mais parecendo obra da superior imaginação de um artista. A acção do vento e da água do mar ao longo dos milénios foi esculpindo a rocha vulcânica, resultando na perfeita e irreal forma ondulada que agora podemos observar. Mais, a rocha tomou uma surpreendente paleta de cores, com riscas que vão do amarelo ao preto, passando pelo castanho e cinzento, tudo isto graças aos sedimentos acumulados. O poder cénico do Carbeirinho é evidente, mas este é ainda acompanhado por falésias onde se formaram grutas e piscinas naturais na sua base, acessíveis nos momentos de mar tranquilo, o que não foi o caso no momento da nossa visita. Estas grutas, que são ao mesmo tempo pequenas baías, são antecedidas de areia negra que, diz-se, tem propriedades medicinais, e dentro delas existem nascentes de água, o que faz com que irrompam pontos verdes de breve vegetação. Mínima, é certo, mas motivo de espanto num lugar que é inequivocamente seco, árido e castanho.







Do Carbeirinho caminhámos por esta espécie de deserto até à Baía de Angola, num terreno marcado pelos sulcos criados pelos longínquos (no tempo) cursos fluviais que aqui terão existido e que formaram múltiplos mini-canyons. As montanhas do Monte Verde continuam a marcar presença à distância, oferecendo um cenário dramático, enquanto uma meia-dúzia de vacas pastam alheias a tamanha beleza. No conjunto, há ainda o elegante Pico da Praia Branca, lindo na sua forma e com mais uma diversidade de tonalidades a acrescentar ao lugar. Totalmente rendidas a esta paisagem, chegámos então à Baía de Angola, junto a um vulcão extinto com uma imponente parede negra a cair de súbito para o azul do mar. De uma majestade absoluta.






A costa ocidental, em especial a noroeste, é aquela de mais fácil acesso ao mar na ilha de São Nicolau. Numa sucessão de praias desertas e inexploradas, todas elas de areia negra vulcânica e ricas em titânio e iodo, possuindo, assim, poderes terapêuticos, nesta faixa estão a Praia Grande, a Praia do Barril, a Praia da Luz, a Praia do Francês e o Tarrafal.






Uma das três povoações com este nome no arquipélago (as outras estão em Santo Antão e a mais famosa em Santiago), o Tarrafal de São Nicolau é a segunda mais importante da ilha. Instalada junto ao mar, numa bonita baía protegida por colinas castanhas, esta vila piscatória é um lugar tranquilo e soalheiro, onde podemos assistir à chegada dos barcos com o peixe diário. É também o lugar para se estar ao por do sol, vendo as cores no horizonte a transformarem-se gradualmente.


Entre as ilhas cabo-verdianas, São Nicolau foi pioneira na baleação, ainda no século XVIII, e o Tarrafal acabou por se desenvolver e ver a sua população crescer à boleia desta actividade – os baleeiros americanos de New Bedford procuravam estas águas, onde havia várias espécies de baleias, e acabaram por recrutar muitos cabo-verdianos para a sua tribulação, considerados valentes. Estas e outras histórias ligadas à pesca são-nos contadas no Museu da Pesca, onde estão expostos artefactos de trabalho, informação sobre os peixes aqui pescados (sobretudo tunídeos e afins, como atum, serra e esmoregal, e espécies pelágicas, como cavala e chicharro, mas também garoupa, sargos, pargos e lagosta. E ficamos a saber que por volta de 1720 a carne de tartaruga verde seca era vendida para França. Este museu está instalado na antiga residência do proprietário da fábrica de conservas Sucla, um distinto edifício com escadaria e varanda de estilo colonial em frente à baía que hoje também funciona como restaurante. Ao lado está a fábrica de conservas de atum, que ainda opera, fundada por um português natural de Salvaterra de Magos, Antonio Assis Cadório de seu nome, que na década de 1930 veio ao Tarrafal de Monte Trigo, na ilha de Santo Antão, para cobrança de maquinaria vendida a uma fábrica de conservas aí situada, igualmente propriedade de um português. Acabou por adquirir essa fábrica e fundou a SUCLA (Sociedade Ultramarina de Conservas) tendo-a, posteriormente, transferido para o Tarrafal da ilha de São Nicolau.




História pouco conhecida, o Tarrafal de São Nicolau foi ainda pioneiro no mau sentido, pois aqui, em 1931, foi criado o antecessor do campo de concentração do Tarrafal da ilha de Santiago, sendo por isso considerada a primeira experiência portuguesa de encarceramento prisional em regime fechado para deportados políticos durante o Estado Novo. Restam poucos vestígios deste espaço hoje abandonado, não tendo sido preservada a sua memória, tão pouco em arquivos, destruídos há muito, mas há projectos de musealização que a câmara local espera levar a efeito.






A sul do Tarrafal está aquela que é considerada a praia mais bonita da ilha, a Praia de Botche Rocha. A esta baía de água azul chega-se após uma caminhada de 6 quilómetros deste o Tarrafal ou, então, de veículo 4×4 (para visitar a ilha de São Nicolau, é totalmente aconselhável alugar um veículo 4×4, de outra forma, apenas a pé e durante muitos quilómetros se alçará os seus fantásticos pontos). Ou de veleiro, como fizeram os 3 que pousavam nas tranquilas águas da baía do Botche Rocha – que experiência incrível terão tido ao amanhecer naquele lugar deserto e idílico. Após uma caminhada pela areia branca, única na ilha, percebemos umas espectaculares colunas de basalto nas falésias junto ao mar, mais umas formas irreais, tão perfeitas e fascinantes que são. E, claro, não resistimos a mergulhar naquele mar tão apelativo, tendo tido direito até a nadar com umas tartarugas locais que, pouco acostumadas a humanos, se terão sentido amedrontadas à nossa presença. É um sinal inequívoco da placidez e encanto da ilha de São Nicolau, um lugar cheio de paisagens e experiências enormes onde se vem apenas para estar e sentir.
