Encravado entre a França, Bélgica e Alemanha, o Luxemburgo é um pequeno país, o único grão-ducado do mundo, e passa discreto nos holofotes do turismo mundial pela sua pequena dimensão. Apesar dos seus escassos 600.000 habitantes é, no entanto, um país diversificado, graças à maioria de estrangeiros, metade deles portugueses. Assim como diversificados são os seus recursos, paisagem, povoações e arquitectura, revelando-se um país com passado e aberto ao futuro, onde tanto admiramos castelos medievais como edifícios modernos. Depois de conhecer a cidade do Luxemburgo, saímos agora em busca das outras 5 regiões deste país encantador, um verdadeiro microcosmos da Europa. Apesar dos transportes públicos no Luxemburgo serem gratuitos, optámos por alugar um carro para percorremos estas regiões, todas elas a menos de 1 hora de distância entre si.

A sul da cidade do Luxemburgo está a industrial região de Minett, a “terra da rocha vermelha”, cortesia das suas inúmeras minas de ferro. É onde o passado industrial do país é mais evidente e Esch-Sur-Alzette, a segunda maior cidade, é a capital desta região. Junto a ela fica Belval, imperdível para quem gosta de património industrial, arquitectura e urbanismo. Os Altos Fornos de Belval laboraram até 1997 e hoje podemos visitá-los, percorrendo salas da maquinaria e subindo pelas sucessivas escadarias da sua estrutura até alcançarmos o topo para largas panorâmicas. Aí, vemos a cidade, o sul do Luxemburgo e França, que não anda longe.






Em baixo, todo um novo mundo moderno, futurista até. Alguns antigos edifícios e outros entretanto construídos sob uma traça contemporânea são parte dos serviços da Universidade, incluindo edifícios residenciais e outros dedicados à ciência, o que veio dar um outro dinamismo ao lugar. É um ambicioso projecto de reconversão urbanística onde, no meio, se conservam os Altos Fornos e a sua arquitectura industrial, conferindo-lhe um ambiente incrível. Sobretudo, consegue manter na perfeição a memória do passado recente do Luxemburgo, lembrando que, antes da sua economia ser baseada nos serviços financeiros, a sua riqueza baseou-se na indústria do ferro fundido – o aço luxemburguês chegou a ser exportado para Nova Iorque (e utilizado na construção do One World Trade Center) e Dubai.



Diante dos Altos Fornos de Belval está o Rockhall, a maior sala de concertos do Luxemburgo. E, não muito distante, está o Parque Minett Fond-de-Gras (que não chegámos a visitar), onde os antigos carris das minas foram transformados numa rede trilhos pedestres que inclui as estações históricas e armazéns, diz que num ambiente agora bucólico, longe da rudeza da indústria de outrora.




Esch sur Alzette foi capital europeia da cultura em 2022. Percebem-se, lado a lado, as mansões e edifícios dos trabalhadores, uma marca evidente no urbanismo da antiga cidade de industriais e operários. Hoje, a cidade que se soube reinventar é vibrante. Para além do seu centro urbano agradável, largamente pedonal, podemos visitar o Musée National de la Résistance e des Droits Humains, mostra da resistência dos luxemburgueses aos intentos nazis, o Konschthal Esch, dedicado à arte contemporânea, e a Kulturfabrik, instalada no lugar de um antigo matadouro, agora um centro cultural que encoraja a criação artística.





Moselle é a região conhecida pelo vale do rio do mesmo nome, pejado de vinhas e vilas pitorescas por elas rodeadas. Uma delas é a famosa Schengen, a vila histórica onde a Europa sem fronteiras foi forjada, ela própria na fronteira entre o Luxemburgo, França e Alemanha. Um marco na integração europeia e sinónimo da Europa sem amarras, aquela Europa moderna onde nos deslocamos livremente sem mostrar documentos. Em Schengen foi assinado em 1985 o Tratado que tanto prezamos, a bordo do barco Prinzessin Marie-Astrid Europa. À beira do rio Moselle estão umas colunas cravadas com mini-esculturas de símbolos de cada um dos estados membros da União Europeia, os Pilares da Nação, que tentámos identificar um a um. Ao lado está o novo Museu Schengen, uma experiência interactiva por esta história de sucesso europeia. Junto a ele, acomodado entre o rio e o curto casario da povoação, está o castelo onde em tempos Victor Hugo pernoitou.





Região de vinho, a época em que percorremos o Vale de Moselle – Março – não oferece as melhores cores. A serenidade do rio, porém, estava toda lá. Afluente do Reno, a beleza paisagística do Moselle é marcante na parte alemã, e aqui, no Luxemburgo, temos uma pequeníssima amostra do seu poder. Um centro de biodiversidade (Biodiversum, na reserva natural de Haff Réimech), adegas para provas de vinho, vinhas em socalcos, piqueniques à beira-rio e sucessivas povoações típicas. Após Schengen seguem-se, sempre junto ao Moselle, Remich, Wormeldange e Grevenmacher, entre outras. Remich é a “capital” da única região do Luxemburgo onde se produz vinho, graças a um solo rico em calcário e barro, uma cultura iniciada pelos romanos que hoje alia métodos tradicionais e modernos na sua produção. Os mais apreciados são o vinho espumante Crémant e a casta Riesling. Remich é, ainda, lugar de grandes paisagens, de onde partem os barcos que nos oferecem passeios cénicos pelo rio.



Mais adiante, para uma enorme panorâmica, subimos à Koeppchen, uma capela rodeada de vinhas debruçada sobre a vila de Wormeldange e o rio Moselle. É uma imagem única. A inclinação pronunciada destes terrenos vinícolas, o solo calcário e a orientação certa para receber os raios de sol fazem com que aqui existam as melhores condições para o Riesling se desenvolver. Atente-se, ainda, à decoração dos varadins que cercam a capela, com folhas de uvas esculpidas em ferro forjado.


A norte do Moselle está a região de Mullerthal, conhecida como a “Pequena Suíça”, imperdível para os amantes de caminhadas e castelos. Nela fica Echternach, a cidade mais antiga do Luxemburgo, construída ao redor da Abadia de Echternach, fundada em 698 pelo monge beneditino Santo Willibrord, santo padroeiro do Luxemburgo. O seu centro histórico é delicioso, em especial a Praça do Mercado, um bonito conjunto de edifícios onde se sente um ambiente medieval. Destaque para o Denzelt (Palácio da Justiça), do século XIV, um excelente exemplo arquitectónico de transição do gótico para o renascimento, com o mais recente acrescento de esculturas da Virgem Maria, do Rei Salomão e das 4 virtudes. Ao centro da Praça está a Coluna da Justiça, representativa do poder dos abades na cidade, enquadrando os edifícios coloridos. Nesta manhã fresca, mas por sorte soalheira, deixámo-nos estar a contemplar a beleza da Praça do Mercado. O tom das conversas de um pequeno grupo de homens que por ali parava parecia-nos familiar. Eram residentes portugueses, a conviver como se estivessem no seu próprio país. É um facto que quase metade dos habitantes do Luxemburgo são portugueses, mas não deixa de espantar que não deixem de falar a sua língua mãe e não deixem de inscrever os nomes portugueses dos seus negócios nas tabuletas e montras. Ao contrário do que acontece com os emigrantes em França, explicaram-nos, no Luxemburgo não só não deixam de falar português como fazem questão que os seus filhos também o falem. E, assim, velhos e novos, em cada canto do Luxemburgo ouviremos falar a nossa língua.






Da Praça do Mercado saem ruas estreitas e labirínticas, que nos continuam a transportar por uma viagem no tempo e que, em breve, nos deixarão junto ao rio Sûre. Nas suas margens, destaca-se um elegante Pavilhão rococó com vista para a Alemanha. Em 1814, no Congresso de Viena, foi decidido criar uma fronteira entre o Luxemburgo e a Prússia. Em consequência, os territórios do outro lado do rio Sûre que pertenciam ao Luxemburgo foram tomados pela Prússia. Esta fronteira acabaria por tornar-se importante para a cidade em 1867, quando o Luxemburgo se juntou à União Alemã Aduaneira e a fronteira recém criada trouxe os primeiros oficiais aduaneiros a Echternach. O edifício neobarroco da Alfândega permanece junto à ponte que, uma vez atravessada, em poucos metros nos deixa do outro lado do rio e, assim, na Alemanha. Até ao Acordo de Schengen entrar em vigor em 1995, o lugar serviu de fronteira oficial entre os dois países.




Daqui – e de quase todo o lado – veem-se as torres da Basílica colada à Abadia. O Museu da Abadia é famoso por acolher os manuscritos ilustrados da vida e obra de Santo Willibrord. Mas a devoção a este santo fundador não termina aqui: na terça-feira de Pentecostes acontece a tradicional Lechternacher Sprangprëssessioun, uma procissão onde ao som de polca os participantes saem vestidos de calças pretas e camisas brancas e vão rejubilando pelas ruas da cidade.




À saída de Echternach, demos uma espreitadela à vila romana descoberta em 1975, enquanto se construía o lago artificial que hoje está junto a ela. Apenas parcialmente escavada, terá sido fundada entre os séculos I a V e uma plataforma elevada permite-nos ver o seu pequeno perímetro envolvido numa bonita paisagem. Esta vila romana ficaria no caminho de Trèveris, a Augusta Treverorum do Império Romano, a maior cidade romana a norte dos Alpes e a mais antiga cidade alemã, situada à beira do Moselle não muito longe de Echternach.