Prosseguindo o nosso percurso pela Rota do Românico no Vale do Sousa, as terras outrora pertença do gasco Múnio Viegas, ascendente do aio de D. Afonso Henriques, seguimos agora para o concelho de Paredes. Na margem direita do rio Sousa, a antiga Castelões foi elevada a vila em 1844 e aí tomou o nome pela qual a conhecemos hoje: Paredes.

Antes, porém, no século XVI, a freguesia de Castelões de Cepeda era a cabeça do antigo e vasto concelho de Aguiar de Sousa, havendo então a notícia da existência de uma aldeia designada Paredes. Progressivamente, em consequência da maior parte das atividades económicas do concelho se terem deslocado para norte, em direcção ao rio Sousa, a capital do concelho foi transferida para aquela aldeia, depois elevada a vila e agora cidade.



Paredes é uma cidade moderna e dinâmica, graças à forte e diversificada economia, assente sobretudo no mobiliário, metalurgia e alimentação. O seu centro histórico pareceu-nos agradável, com uma centralidade desenvolvida ao redor do Jardim Público, com edifício da Câmara Municipal e escola Conde Ferreira, e da igreja matriz e vizinho Palacete da Granja, uma casa de brasileiro entretanto transformada em Casa da Cultura, com esculturas no seu jardim.


A Torre do Castelo de Aguiar de Sousa está implantada numa curva do rio Sousa, num lugar relativamente isolado e rodeado de montes mais altos do que o seu, posição que lhe retirava visibilidade, contribuindo para a sua decadência. Perto fica o Parque das Serras do Porto, com o desfiladeiro da Senhora do Salto, um momento mais agreste do Sousa nos seus últimos passos a caminho do Douro. Hoje em ruína, o que resta do Castelo de Aguiar de Sousa mantém o simbolismo de ter sido cabeça no processo de reorganização do território saído da época da Reconquista, época em que Aguiar de Sousa foi um dos mais poderosos julgados do Entre Douro e Minho, detentora de poder e riqueza e de um vasto território que ia desde o Porto a Penafiel.

Mais a norte do concelho, junto ao rio Ferreira encontramos a Torre dos Alcoforados, também conhecida pela Torre do Lordelo, nome da família que a tradição aponta como sua fundadora. Quando por ela passámos em 2020, não foi de todo fácil chegar junto a esta torre de quase 9 metros que se crê ter sido construída no início do século XIV sobre um leve afloramento granítico. As casas de habitação estão junto a ela e havia muita vegetação. Pudemos, de qualquer forma, comprovar que a sua arquitectura toma o modelo das torres senhoriais inspiradas nas torres de menagem dos castelos da época. No entanto, a componente civil sobrepunha-se à militar, e é por isso que, dada a sua função residencial, vemos a porta de acesso a esta torre ao nível térreo. Percebemos, ainda, umas janelas góticas na sua fachada.

Em Cete, já à beira do rio Sousa, está um dos mais bonitos e interessantes exemplos do românico na região, implantado junto das melhores terras agrícolas. Infelizmente, projecto adiado, não visitámos o interior da sua igreja e claustros, mas percebemos a bela implantação do Mosteiro de São Pedro de Cete e seus pormenores decorativos exteriores. Terá sido fundado por dois mouros, Samora e Mosara, convertidos ao cristianismo no século IX, época em que este território era fronteiro ao Reino de Leão. Documentos de 924 revelam que nessa data já existia mosteiro. Nesse século X, uma investida moura provocou a sua destruição, mas os francos reergueram-no e, mais tarde, o Conde D. Henrique e D. Teresa enriqueceu-o e o seu filho D. Afonso Henriques protegeu-o. Ou seja, a construção original remonta ao século X, mas foi objeto de sucessivas atualizações estruturais e decorativas, fazendo do Mosteiro de Cete um dos melhores nessa sobreposição e respeito de estilos ao longo dos tempos – a igreja, tal como se apresenta hoje, é do final do século XIII, princípios século XIV, época gótica.

Da construção mais antiga restam o portal sul, de acesso ao claustro, e algumas siglas geométricas nas paredes da igreja.


O portal principal revela aspectos do românico, apesar da época de construção ser posterior – o chamado românico tardio e a tal prova da aceitação dos seus padrões. Tem três arquivoltas e é encimado por pedra brasonada e rosácea. No topo, uma Cruz de Cristo. De lado, mais portais.

A torre sineira, ameada, está incorporada na fachada, conferindo-lhe um ar guerreiro. É um símbolo do poder do senhor – recorde-se que, na época medieval, o abade do mosteiro era também nobre e as intenções religiosas e defensivas andavam lado a lado. Veem-se, ainda, gárgulas na fachada, as goteira salientes em forma de animal fantástico donde são escoadas as águas pluviais.

O interior, que não visitámos, guarda o túmulo do guerreiro Gonçalo Oveques, o guerreiro franco impulsionador das suas primeiras reformas, e outros túmulos com estátuas jacentes. Possui ainda vestígios de uma pintura mural com a representação de São Sebastião cravejado de setas. Da história do Mosteiro de Cete, há ainda a registar o facto de o mosteiro beneditino, cujos abades detinham o título de “Senhores de Cete”, ter visto desviada a sua riqueza por D. Joao III, no século XVI, para os novos colégios universitários de Coimbra. Após 1573, data da morte do último beneditino, o Mosteiro de Cete entrou em decadência, acabando por ser reparado já no século XX, data em que parte das suas estruturas serviam de apoio à agricultura e estábulo.



Perto do Mosteiro de São Pedro de Cete, por entre a vegetação cerrada num lugar improvável onde a A4 não passa nada longe, descobrimos o Covão de Cete. É alimentado pela ribeira de Baltar, afluente do rio Sousa, e nele esconde-se uma cascata. Surpreende como a natureza nos oferece estes momentos relaxantes e inspiradores, para os quais basta caminhar uns poucos metros num cenário luxuriante, onde não faltam sequer uns formosos rochedos para lhe conferir um ambiente misterioso.

E de Cete rumamos ao concelho de Penafiel, onde está talvez o mais grandioso exemplar da Rota do Românico no Vale do Sousa. É o Mosteiro do Salvador de Paço de Sousa, com características singulares quer na sua arquitectura quer escultura decorativa, considerado um edifício padrão, onde as tradições locais e as influências do românico de Coimbra e do Porto se mesclaram. Junto ao rio Sousa e várias ribeiras, tem ao redor várzeas verdejantes e quintas discretas. O Mosteiro do Salvador de Paço de Sousa teve origem numa comunidade monástica que remonta ao século X, tendo sido cabeça de couto doado pelo Conde D. Henrique, tornando-se um dos mais importantes mosteiros beneditinos, com ligação à família Ribadouro, de Egas Moniz, o aio – guardando a igreja o seu túmulo, considerada uma obra prima da escultura funerária portuguesa.



À semelhança de outros, é hoje o resultado de várias épocas de construção. Diante do Mosteiro, antecede-o um amplo terreiro. Com uma torre ameada apartada do edifício da igreja, logo se destaca a sua rosácea e o portal com 5 arquivoltas, colunas prismáticas e capitéis esculpidos com padrões vegetalistas talhados a bisel. Aqui testemunha-se um modo muito próprio de decorar, tanto pelos temas como pelas técnicas de escultura usadas. O tímpano é sustentado por mísulas em forma de cabeça de bovídeo, solução experimentada aqui pela primeira vez.


Vemos ainda longos frisos vegetalistas no exterior (e interior) da igreja, uma influência das épocas pré-românicas visigótica e moçarabe. E nos cachorros percebem-se na perfeição cenas decorativas com representação de elementos do quotidiano, como animais e homens com cestas de vinho, assim como outras que procuram chamar a atenção para os pecados e vícios.


O interior da igreja do Mosteiro do Salvador de Paço de Sousa revela-nos uma solução pouco comum nas igrejas portuguesas do Românico: a existência de 3 naves (os outros exemplos são Pombeiro e Travanca). Estas estão separadas por arcadas de volta inteira, suportadas por poderosos pilares, também com capitéis decorados com motivos vegetalistas e zoomórficos. Vemos, igualmente, decoração na base das colunas.

É, porém, junto ao Evangelho que podemos testemunhar um dos momentos mais altos da arte românica portuguesa, o túmulo de Egas Moniz, aio de D. Afonso Henriques, seu fiel mestre da família dos senhores de Ribadouro. O túmulo tem imagens em relevo esculpidas, as quais contam o episódio da sua apresentação diante do rei leonês com cordas ao pescoço, acompanhado da sua mulher e filhos, oferecendo as suas vidas como preço do perjúrio cometido por D. Afonso Henriques ao não ter cumprido a promessa de prestar vassalagem ao rei de Leão caso este levantasse o cerco a Guimarães, em 1127. Neste magnífico túmulo veem-se ainda outras cenas, como a representação do momento da sua morte, com Egas Moniz deitado numa cama, saindo de sua boca a sua alma.


Neste Mosteiro essencial, visitámos ainda o seu claustro, resultado da reforma acontecida nos séculos XVII e XVIII.


Em Penafiel podemos, ainda, conhecer um elemento românico diferente daqueles que havíamos testemunhado até ao momento, o Memorial da Ermida. Há poucos exemplares deste tipo em todo o território nacional, diz-se que apenas 6. Provavelmente do século XIII, é um monumento instalado sobre uma base de pedra retangular, onde no remate superior da estrutura se vê um friso com folhas esculpidas. Permanecem dúvidas sobre a sua função, acreditando-se que deva estar ligada à evocação da memória de alguém ou à passagem de cortejos fúnebres. Nesse sentido, e apesar de estar hoje descontextualizado da antiga rede viária medieval onde estaria originariamente instalado, talvez esteja relacionado com o traslado do corpo da beata Mafalda, filha de D. Sancho, para o mosteiro de Arouca, tendo este memorial estado colocado num determinado ponto dessa passagem, provavelmente num cruzamento de vias.



Embora Penafiel seja uma cidade moderna, o contexto que a envolve permanece sobretudo rural. Não fazendo parte da Rota do Românico, a Honra de Barbosa, em Rans, vale uma espreitadela, embora haja que respeitar a privacidade dos seus proprietários privados. No vale do rio Cavalum, e sob o Monte Mozinho e seu castro, está rodeada de vinhas e é uma residência senhorial, diz-se que fundada no século XII por Mem Moniz de Ribadouro, irmão de Egas Moniz, o aio. Tem uma o torre ameada, reconstruída nos séculos XV e XVI, e uma capela junto à residência.

Penafiel, a última cidade no vale do Sousa desta nossa rota pelo Românico, está instalada numa lomba entre o rio Sousa e o rio Cavalum, seu afluente. Só em 1740 foi elevada a vila, era então a pequena povoação Arrifana do Sousa. O nome actual, esse, derivará de Penafidelis, de significado “roqueiro seguro”. No século XIX foi, no entanto, assolada pelas Invasões Francesas e pela Guerra Civil entre liberais e absolutistas, mas mantém a organização urbana do seu casco histórico, designadamente a velha e íngreme rua Direita e seus edifício mais característicos.





Numa zona de cota mais baixa na cidade vemos, assim, casas brasonadas e com típicas varandas em ferro forjado, uma com a construção de granito deixada à vista e com janelas com moldura manuelina e gárgulas (Casa dos Garcez) e outra com decorações fitomórficas encrustadas na fachada (Casa Soares Barbosa), sinais evidentes de uma burguesia enobrecida. Por aqui fica a Igreja de São Martinho, da época da renascença, com portal com pintura mural. Em honra deste santo, na deliciosa Alvorada Cakes podemos provar o doce típico local São Martinho.





Estamos já no Cimo da Vila, zona mais moderna da cidade, diante do edifício da câmara municipal e da Igreja da Misericórdia, ambas do século XVIII, com um fontanário de granito a marcar esta centralidade urbana. Há ainda o pitoresco Largo da Ajuda e mais igrejas e elementos patrimoniais de destaque nesta cidade movimentada de que gostámos verdadeiramente de conhecer. A longa Avenida Sacadura Cabral, com a sua correnteza de edifícios de comércio no piso térreo, continua a dar a Penafiel o carácter de lugar de passagem e paragem no seu caminho entre o litoral e o interior norte.

É, porém, o lugar do novíssimo Ponto C, espaço de cultura e criatividade dedicado às artes, inaugurado em 2024, que levaremos na memória. Numa encosta sobranceira ao rio Cavalum, a sua envolvente permite perceber na perfeição a paisagem por onde temos andado nos últimos textos, rural mas aberta ao urbanismo. Aproveitando um antigo edifício, pintado de verde, assim como verde é a vegetação que o rodeia, a sua arquitectura dialoga com a envolvente. Foram criados espaços públicos amplos para que melhor possamos absorver o cenário, incluindo um anfiteatro que aproveita de forma natural o desnível do terreno.



Lá em baixo, à beira do rio Cavalum, afluente do Sousa, está o Parque da Cidade, onde nos despedimos tranquilamente do Vale do Sousa.