Luxemburgo – Cidade, Parte 2

Construída sobre um antigo complexo de fortalezas, a cidade do Luxemburgo avança acompanhada da história. O desenvolvimento urbanístico foi e continua a ser feito tendo em conta o respeito pelo seu passado, daí resultando novos marcos arquitectónicos e culturais. E, nesse caminho, a sua muito característica implantação natural não foi esquecida, sendo a topografia da cidade o elemento decisivo para que também nós não a esqueçamos. Comecemos a visita pelas Casamatas do Bock, que nos mostram na exactidão o caráter único da cidade do Luxemburgo.

Em 1644, os espanhóis deram início à construção de um sistema defensivo subterrâneo, uma rede de túneis sob a cidade velha, com quilómetros de corredores, mais tarde alargado pelos franceses e pelos austríacos. Foi pelas Casamatas do Bock que o Luxemburgo ganhou o apelido de “Gibraltar do Norte”, sendo hoje uma das maiores atracções da cidade: pela sua história e pelas panorâmicas que oferece. Mas é também o lugar onde trabalhos arqueológicos mostraram vestígios do primeiro castelo fundado pelo Conde Siegfried, considerado o elemento fundador da cidade, no século X.

Casamatas do Bock
Casamatas do Bock
Casamatas do Bock
Casamatas do Bock

A larga rede de galerias subterrâneas das Casamatas do Bock, dividida em vários andares, acolheu, nos seus tempos áureos, cerca de 50 canhões e 1200 soldados. Era, ao mesmo tempo, lugar de refúgio, de defesa e de ataque. Das seteiras, entretanto alargadas após o desmantelamento das fortificações do Luxemburgo, eram disparados os canhões. Hoje, transformadas em janelas e varandas, são miradouros privilegiados, oferecendo grandes vistas. Para um lado, destaca-se Pfaffenthal, instalado junto ao rio no fundo do vale, com a Ponte da Grande Duquesa Carlota sobre este bairro, ligando o centro da cidade à moderna Kirchberg. Para o outro lado, vemos o Grund, zona baixa da cidade, e o planalto do Rham. Para além do Bock, também as Casamatas de Petrusse podem ser visitadas.

Chemin de la Corniche
Chemin de la Corniche
Chemin de la Corniche

O Chemin de la Corniche é considerada “a mais bela varanda da Europa”. Ao longo das muralhas construídas no século XVII pelos espanhóis e franceses sobre o vale do rio Alzette, este caminho transporta-nos desde o rochedo do Bock até ao plateau do Saint-Esprit. E, assim, permite-nos admirar o desfiladeiro que divide a cidade do Luxemburgo em duas: parte alta e parte baixa, falésias verticais e vales profundos, proporcionando-nos, à semelhança do Bock, grandes panorâmicas. Desta vez, porém, não precisamos de espreitar à varanda, basta seguirmos caminho, desfrutando de toda a beleza natural do vale do Alzette e do emaranhado de telhados do Grund.

Grund
Grund
Grund
Grund
Grund

O bairro do Grund, na parte baixa, é um dos mais antigos da cidade. Instalado na curva do rio Alzette, é um lugar pitoresco e idílico, onde a tranquilidade é evidente. Desde a ponte que serve de entrada no bairro, obtemos a foto perfeita, uma daquelas onde os reflexos do casario estão espelhados na água do rio, fazendo as delícias do viajante.

Alzette

Prosseguindo caminho junto ao sereno Alzette, com as paredes rochosas do Bock logo ali ao lado, passamos pela Abadia Neumünster, antigo mosteiro beneditino que já foi hospital militar e prisão e é hoje um centro cultural e de conferências – mantém-se a Igreja de São João Baptista. Na outra margem do rio está a estátua da sereia Melusina. Conta a lenda que o Conde Siegfried se encantou por Melusina, que vira junto ao rio Alzette. Pedida em casamento, Melusina aceitou, na condição do Conde a deixar livre todos os sábados. Porém, curioso e ciumento, este seguiu-a num desses sábados até às Casamatas do Bock, onde, espreitando por um buraco de uma fechadura, percebeu que os membros inferiores de Melusina eram na verdade uma cauda de peixe. Dando conta da quebra da promessa, a sereia atirou-se do Bock para o Alzette e desapareceu para sempre nas águas do rio e o Conde nunca mais a voltou a ver.

Stierchen
Stierchen

Mais adiante está a encantadora ponte pedonal de Stierchen, com dois arcos de pedra. Fazia parte do sistema defensivo da cidade medieval e ainda percebemos restos das torres a ela adossadas – situada imediatamente abaixo da falésia do Bock, já a havíamos espreitado do alto, mas agora confirmamos ser este mais um grande momento paisagístico do Luxemburgo.

Skatepark Petrusse
Skatepark Petrusse

O Grund é ainda o lugar onde o rio Petrusse desagua no Alzette, não sem antes ter cravado na paisagem mais um vale profundo. Quando o visitámos, o parque verde deste vale estava em remodelação. No entanto, pudemos conhecer o seu skatepark, debaixo da Ponte do Viaduto, um dos maiores e mais bonitos da Europa, cortesia da sua implantação privilegiada, mas, sobretudo, do seu desenho – o que bate certo, ou não fosse o skate uma modalidade que preza a estética.

Luxemburgo
Luxemburgo

Subimos então à cidade alta. Do Grund, um elevador deixa-nos no Plateau do Saint-Esprit e, assim, às portas do centro histórico. Instalado no topo das falésias e das muralhas da antiga fortificação, graças à topografia da cidade estava naturalmente protegido de ataques invasores.

Luxemburgo
Luxemburgo
Parque Edouard André
Parque Edmond J. Klein
Praça Guilherme II
Praça Guilherme II

Hoje, largas avenidas, parques verdes bem desenhados e pontes e viadutos envolvem o centro histórico, pequeno e compacto. Em termos urbanos, este começou a ser traçado no século XVI. A Praça Guilherme II é a maior da cidade, o lugar onde encontramos a estátua homónima a cavalo e o Hotel de Ville (correspondente à câmara municipal). Nela descobrem-se as torres da Catedral de Notre-Dame, contígua à praça principal.

Luxemburgo
Luxemburgo
Luxemburgo

Para além desta, diversos outros pequenos largos surgem como bons lugares para nos deixarmos estar, ligando uma série de ruas pedonais neste centro que é, por excelência, administrativo e comercial. Algumas das ruas mantém o carácter antigo, sendo estreitas e com calçada de pedra, e os edifícios guardam alguns pormenores, como figuras e inscrições esculpidas nas suas fachadas (no edifício Grande Loge de Luxemburgo, a janela destacada da fachada tem a divisa nacional inscrita: “queremos continuar a ser o que somos”).

Palácio Grão Ducal
Palácio Grão Ducal

Entre os edifícios que merecem destaque, o Palácio Grão Ducal surge em primeiro. Residência oficial da família do grão duque, está aberto a visitas apenas nos meses de Verão, pelo que não nos restou mais do que admirar a sua bonita fachada, obra do século XVI, da época da renascença flamenga.

Catedral de Notre-Dame
Catedral de Notre-Dame

A Catedral de Notre-Dame, única catedral no país, era originalmente uma igreja jesuíta. Construída entre 1613 e 1621, é um exemplo do gótico tardio, ainda que com elementos e ornamentação no estilo renascentista. O interior é sóbrio e equilibrado, mas encanta nas colunas decoradas com arabescos e na luz conferida pelos vitrais. Vários membros da família do Grão Duque estão enterrados nesta catedral.

Luxemburgo
Igreja de São Miguel
Igreja de São Miguel

Mas a igreja mais antiga da cidade é a Igreja de São Miguel, construída no mesmo lugar da antiga capela erigida em 987 junto ao Castelo do Conde Siegfried. Destruída e reconstruída diversas vezes ao longo dos tempos, a actual data de 1688, numa mistura de estilo românico, gótico e barroco, e a sua torre destaca-se inconfundível na paisagem.

Pfaffenthal
Pfaffenthal

Durante a época medieval, o comércio na cidade estava concentrado sobretudo na produção de tecidos e em profissões como sapateiros e curtidores, os quais ocupavam as margens do rio Alzette nos subúrbios do Grund e Pfaffenthal, ambos dos bairros mais antigos da capital. A ocupação do vale de Pfaffenthal remonta à época romana, em que há testemunho de uma ponte sobre o rio Alzette e troço de uma via romana que ligaria Reims a Trèves. Historicamente, os seus habitantes eram artesãos, pescadores, moleiros e padeiros, no fundo, trabalhadores que faziam uso do rio – o moinho Muerbelsmillen, do século XI, tem a sua tecnologia preservada enquanto memória histórica do lugar. Outrora, a água era a grande riqueza do subúrbio de Pfaffenthal. Na cidade alta, de difícil acesso a este bem, a água era armazenada em cisternas, mas mesmo na cidade baixa, ocupada maioritariamente pelas estruturas militares, o acesso ao rio não estava facilitado. Porém, Pfaffenthal era excepção, existindo água em abundância, incluindo para ser usada nos lavadouros públicos (hoje transformados numa espécie de piscina para ser usada pelos miúdos nos meses de Verão).

Elevador panorâmico de Pfaffenthal

Habitado pela gente trabalhadora, já foi um dos bairros mais pobres da cidade. Nos últimos anos, porém, a percepção sobre o bairro mudou por completo, sendo hoje um bom lugar para se viver. A sua nova vida e a actual visibilidade de Pfaffenthal não é alheia à construção do incrível elevador panorâmico com cabine totalmente em vidro que passou a ligar esta parte baixa à parte alta da cidade (centro), aproximando dois mundos que até há pouco tempo estavam tão distantes.

Pfaffenthal
Pfaffenthal

De qualquer forma, o ambiente pacato e tranquilo resiste. O mesmo para as marcas do património histórico. Com efeito, 2 torres / portas, integradas no sistema defensivo de Vauban, marcam o lugar. São a Porta Eich e a Porta des Bons-Malades (Bons Doentes), uma de cada lado do caminho sobre o rio com vista para a idílica ponte sobre o Alzette. Servindo de defesa e posto de portagem, na Idade Média eram cobrados direitos de passagem e a Porta de Eich era a entrada na cidade, enquanto a Porta des Bons-Malades era por onde passavam os doentes leprosos e de outras doenças infecciosas no seu caminho de internamento fora da vila, no caso no asilo de Sichenhaff, que não distava muito daqui. Hoje, é a enorme e vermelha Ponte Grande-Duchesse Charlotte, sobre Pfaffenthal, o elemento arquitectónico que mais marca a paisagem deste “vale dos monges”, o significado literal do nome deste bairro maioritariamente residencial e com um ou outro restaurante – à saída do elevador, encontramos de imediato um restaurante madeirense.

Quarteirão Europeu
Ponte Grande Duquesa Charlotte
Quarteirão Europeu – Coque
Quarteirão Europeu

Seguindo a referida Ponte Grande-Duchesse Charlotte, chegamos ao moderno Kirchberg, o chamado quarteirão europeu. Este bairro acolhe diversas instituições da União Europeia (entre elas o Tribunal Europeu de Justiça), tendo por isso desempenhado um papel importante no desenvolvimento urbanístico da cidade a partir da década de 1960. Não surpreende, pois, que este seja um lugar de excelência para projectos de arquitectura contemporânea, aqui se observando diversos exemplos de qualidade não apenas na arquitectura, mas também no espaço público, de que são exemplos o Centro Nacional de Desportos e Cultura (o “Coque”), os salões da LUXEXPO, o Museu Drai Eechelen, o Museu de Arte Moderna (MUDAM) e a Filarmónica.

Filarmónica
Filarmónica
Filarmónica
Filarmónica

A Filarmónica é a icónica sala de concertos da cidade, inaugurada em 2005, um projecto do arquitecto Christian de Portzamparc. Edifício elegante, sobressaem as suas 823 colunas em aço branco e a sua forma curva, dinâmica como o som da música que toca nas suas salas. Apesar de existirem visitas guiadas ao seu espectacular interior, não o visitámos. Limitámo-nos a admirar a sua magnetizante fachada, seguindo primeiro pelo percurso arquitectónico que nos permite deambular por entre as referidas colunas e, depois, rodeando-o, procurando captar os seus pormenores.

Museu Drai Eechelen
MUDAM
MUDAM

Não muito distante, outro espanto arquitectónico, desta vez o MUDAM, do arquitecto I.M. Pei. Foi construído sobre o Forte Thungen, obra do século XVIII, e é exemplo maior de um museu contemporâneo instalado numa paisagem histórica, num muito impressionante diálogo entre modernidade e património. Desta parceria resultou uma harmoniosa integração dos elementos, antigos e novos, numa magistral transformação do espaço. Não poupamos nos elogios, pois ficámos maravilhadas com este edifício.

MUDAM
MUDAM
Vista do MUDAM

O exterior do MUDAM convida a usufruir do espaço público, jardins e paisagem. Ao fundo, avista-se o centro da cidade, com as torres das igrejas a sobressaírem não muito longe. E o interior, graças aos grandes vidros e à luz natural, permite uma interacção com o exterior, criando uma atmosfera única neste espaço. Viemos ao MUDAM para ver exposições e acabámos por conhecer uma obra de arte total.

Rotondes

Para o final, sem sair do tópico adaptação de edifícios históricos à cultura, junto à Gare do Luxemburgo está o Rotondes. Os antigos hangares gémeos onde em tempos eram reparadas as locomotivas a vapor são agora um lugar de encontro de culturas e de criatividade, com concertos, conferências, dança, artes visuais, com uma programação activa. No fundo, uma demonstração de que a cidade do Luxemburgo é feita de muitas camadas e a sua oferta histórico-cultural é variada.

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