Cidade do México, o paraíso dos muralistas

O muralismo mexicano teve origem por iniciativa de José Vasconcelos, enquanto reitor da Universidade Nacional e Secretário da Educação Pública. José Vasconcelos (cuja Biblioteca do México, no complexo da Ciudadela, instalada numa antiga fábrica de tabaco do século XVIII, leva o seu nome e possuiu belíssimas salas com espólio de grandes autores mexicanos), defendia que as artes visuais eram parte substancial da revolução cultural e educativa de que a população necessitava para ampliar a sua percepção do mundo. Daí o motivo pelo qual os murais deveriam estar à vista de todos nos edifícios públicos. E, já agora, expressar uma visão comprometida com a cultura e identidade do povo mexicano. Diego Rivera, um dos três grandes muralistas mexicanos, ao lado de David Alfaro Siqueiros e José Clemente Orozco, levou este comprometimento quase aos limites, e a sua ideologia marxista é visível em muitos murais. De tal forma que uma encomenda para o Rockefeller Center, em Nova York, acabou por ficar inacabada por ter sido recusada pela sua crítica directa ao capitalismo e endeusamento do socialismo. Parte deste mural foi mais tarde recriado e está hoje no Palácio das Belas Artes da Cidade do México.

Não é apenas na Cidade do México que se pode observar esta arte mural. Pelas outras cidades onde andámos, nomeadamente Guanajuato e Oaxaca, também encontrámos exemplares desta expressão artística. Mas a Cidade do México é o seu lugar por excelência e onde estão as grandes obras e artistas.

No Palácio Nacional:

Na escadaria principal do Palácio Nacional, Diego Rivera produziu um conjunto magistral de murais entre 1929 e 1935. É um tríptico dividido por três grandes áreas cronológicas sob o signo da “Epopeia do Povo Mexicano”, no qual manifesta a sua interpretação da história do México.

No muro norte, à direita, em “O México Antigo”, de 1929, Quetzalcóatl é representado como tlatoani, adornado com plumas de quetzal. Em cima a serpente emplumada emerge do vulcão para se converter numa estrela e Quetzalcóatl, após ser derrotado pelo Deus, retira-se num barco-serpente até ao Oriente, donde se crê, segundo a mitologia, que regressará um dia.

No muro central fica o mural “Da Conquista a 1931”, onde é explícita a crueldade da conquista espanhola e da cristianização dos indígenas.

No muro sul, à esquerda, “México de hoje e amanhã”, é um trabalho executado entre 1934 e 1935. Neste mural Rivera mostra a ideologia marxista com uma crítica à pós-revolução. Os poderes civis, militares e eclesiásticos, aliados com os grandes capitalistas, sugam o trabalho e o dinheiro do povo. As forças fascistas reprimem os trabalhadores e os camponeses. Na parte superior, a luta de classes e a destruição da igreja dá lugar a um novo amanhecer liderado por Marx que aponta um futuro ideal iluminado por um sol promissor. Neste emaranhado de personagens consegue-se vislumbrar até Frida Khalo.

No piso superior deste Palácio encontramos ainda mais uma série de belos murais também de Rivera, pintados entre 1941 e 1951, com o título de “O México Colonial e Pré-Colonial”. Aqui é representado o dia-a-dia das culturas pré-hispânicas e a Conquista do México por Hernán Cortés. Interessante apreciar a técnica aqui usada, com o mural colorido acima e um friso decorado com materiais mais tradicionais na parte mais baixa. O milho é figura quase constante nos murais de Rivera, como alimento primordial desde sempre. No México há, aliás, um dito eloquente: “Sin maíz, no hay país”.

Na Secretaria de Educação Pública:

Mais uma grandíssima colecção de murais se Rivera, quer em quantidade como em qualidade. São 235 murais que ocupam quase por inteiro as paredes dos dois andares dos dois pátios deste edifício público.

“Visão Política do Povo Mexicano”, executado entre 1923 e 1928, expressa pela primeira vez uma iconografia revolucionária para o México. Está lá uma homenagem à herança índia, representando festas tradicionais, cenas do trabalho no campo, trabalho artesanal e industrial, luta por melhores condições de vida.

Frida, claro, também pode ser encontrada num dos murais, de estrela vermelha ao peito distribuindo armas aos trabalhadores, por baixo da bandeira do Partido Comunista, para que lutem. Num outro mural uma homenagem a grande nomes da cultura internacional, como Tagore.

No Palácio de Belas Artes:

No interior art-deco deste mega palácio das artes estão expostos murais de diversos artistas mexicanos. E é sobretudo para os vermos que aqui vimos, não tanto pelas suas exposições. São 17 murais pintados por 7 artistas mexicanos. Este é o único local onde podemos admirar num só espaço obras dos três grandes muralistas mexicanos: Rivera, Orozco e Siqueiros.

De Diego Rivera, o tal mural reconstruído que havia sido encomenda para os Rockefeller, “O Homem Controla o Universo”, de 1934. Aqui projecta um futuro onde a tecnologia e as máquinas dominarão, sob o olhar de Lenine. E ainda de sua autoria estão aqui os murais de “Carnaval da Vida Mexicana”, de 1936.

“A eterna luta da Humanidade por um mundo melhor”, ou simplesmente “Katharsis”, de Orozco, de 1934-1935, é uma crítica à sociedade de massas e aos perigos do desenvolvimento tecnológico. Vêem-se cenas de caos e violência.

Mas as imagens mais brutais e expressivas vêm da arte de Siqueiros. São cinco os seus murais aqui presentes, mas recordo mais vivamente a mulher ruiva que se liberta das correntes como representação da vitória da democracia sobre o jugo alemão no final da II Grande Guerra Mundial. Este mural tem o título “Nova Democracia” e a seu lado estão os também poderosos “Vítimas da Guerra” e “Vítimas do Fascismo”, todos realizados em 1945.

De Jorge González Camarena é o mural “Libertação da Humanidade que se liberta da miséria”, de 1963. Representa a opressão aos camponeses e a violência e a sua luta para derrubar os símbolos dessa opressão.

No Palácio das Belas Artes estão ainda presentes murais de Rufino Tamayo, Manuel Rodríguez Lozano e Roberto Montenegro.

No Museu Mural Diego Rivera:

Realizado originalmente para o átrio de entrada do Hotel del Prado, “Sonho de uma tarde de domingo na Alameda Central”, de 1947, é uma representação da história do México a desfilar pelo cenário da Alameda Central, zona de passeio e lazer do centro histórico da capital mexicana. Em 15 metros parecem caber todas as personagens que construíram a história do México. O próprio Rivera representa-se a si mesmo por duas vezes, em miúdo, de mão dada com a Caveira Catrina, e em mais velho. Frida está uma vez mais presente, precisamente entre o miúdo e a caveira, com o símbolo yin-yang numa das suas mãos.

Na Suprema Corte de Justiça (sem fotos) está o mural mais impressionante que pudemos conhecer em toda a nossa viagem pelo México: “História da Justiça no México”, de Rafael Cauduro, realizado entre 2006 e 2009.

Tudo nele surpreende, começando logo pelo local onde está exposto. A sede de um poder do Estado acolher uma denúncia a esse mesmo poder só nos pode fazer gostar mais do México e dos mexicanos. O mural de Cauduro está disposto em três níveis da escadaria de uma ala desta Corte e na sua crítica ao sistema judicial mostra-nos a luta pela dignidade humana no que respeita à força ilegítima do Estado. Não é fácil confrontarmo-nos com algumas destas imagens extremamente violentas e realistas com as quais o autor pretendeu retratar os “Sete Crimes Maiores”, a tortura, o homicídio, a repressão, o sequestro, a violação, os processos viciados e a prisão. Ao vê-las, é como se estivéssemos presentes no momento e lugar dessas arbitrariedades e, dito isto, cumpre-se na perfeição certamente o objectivo da arte: sermos seus cúmplices e suas testemunhas.

[De Rafael Cauduro podem ser vistos outros murais na cidade: a obra “O Condomínio”, de 2014, na fachada do prédio no número 62 da Calle Veracruz, em Condesa, igualmente realista mas menos violenta e até divertida na forma certeira como retrata alguns detalhes da vizinhança num condomínio; e as obras nas estações de metro Insurgentes e Auditorio]

Ainda na Suprema Corte de Justiça, na sala dos Passos Perdidos encontramos os quatro painéis murais de Orozco. Embora não realisticamente violento, o seu trabalho é também um crítica à justiça e na época da sua criação, 1941, ainda se pensou vetá-los. Mas não, seguem aqui para serem vistos por todos nós.

Mais apologético da justiça é o trabalho de Luis Nishizawa, de 2008, com a representação de uma justiça determinada e sem venda e uns cavalos focados em vencer em nome do povo mexicano.

(para esta nossa colecção, ficou a faltar a visita a um cromo importante, o Antigo Colégio de Santo Ildefonso)

Museus de Berlim – Arte Contemporânea

No que respeita à arte contemporânea, duas sugestões em dois espaços improváveis.

O primeiro, o Hamburger Bahnhof, Museum für Gegenwart. Arte contemporânea internacional apresentada numa antiga estação de comboios.

Esta estação foi construída em meados do século XIX e ligava Berlim a Hamburgo. Tornou-se obsoleta para as suas funções originais logo em 1884, foi transformada em museu do transporte, mas a separação de Berlim no pós-guerra acabou por deixá-la em terra de ninguém e foi sendo abandonada. Na tentativa de manter um uso a este edifício de fachada neoclássica que serviu de modelo para as estações alemãs que se lhe seguiram, em 1996 abriu com a sua nova face, um dos maiores e mais importantes centros de arte contemporânea do mundo. O seu hall histórico de entrada foi preservado e adaptado para receber instalações temporárias de grande porte. Os armazéns nas traseiras do edifício principal da estação foram renovados pelo arquitecto Josef Paul Kleihues e ligados a este por uma passagem moderna por fora, mas que remete para um design retro no seu interior.

A colecção permanente deste museu inclui obras de artistas como Joseph Beuys, Robert Rauschenberg e Andy Warhol. A obra Mao de Warhol faz parte da colecção deste museu, mas infelizmente para mim não estava em apresentação por altura da minha visita. Estavam outras, daquele género de arte moderna e contemporânea que me faz abrir um largo sorriso.

O segundo, o Sammlung Boros, arte ultra-contemporânea instalada num bunker da II Grande Guerra Mundial. As visitas a esta colecção privada são obrigatoriamente guiadas e em grupos de apenas 15 pessoas, pelo que se impõe uma marcação prévia e com antecedência. Este edifício é também conhecido como M2000 (M de menschen, que significa pessoas), pois foi construído para permitir o acolhimento de 2000 pessoas. No final da Guerra a sua localização caiu no sector soviético e o Exército Vermelho chegou a utilizar o bunker como prisão. No entanto, logo se transformou num armazém de frutas e vegetais e as bananas da América Latina eram muito procuradas. O espaço tornou-se conhecido como o “Banana Bunker” e na fachada podemos ver hoje um graffiti a atestar essa sua antiga faceta.

A versatilidade do bunker continuou após a reunificação alemã e os anos 90 trouxeram também para aqui a desbunda total. Mais de uma vintena de festas chegaram a decorrer ao mesmo tempo nas inúmeras salas do bunker, maioritariamente festas de techno e de sexo, o que levou este espaço a ser conhecido como o “clube mais pesado do mundo”. A loucura terminou com a decisão das autoridades de encerrar o edifício pela sua manifesta falta de condições de salubridade. Até que o novo milénio chegou e a enésima vida do bunker aí está. Em 2003 Christian Boros comprou o edifício e renovou-o, abrindo as portas para a primeira exposição em 2008. Cada exposição fica patente por apenas 3 ou 4 anos e a actual é a terceira em exibição no novo Sammlung Boros.

O bunker é um verdadeiro labirinto e, por isso, à entrada é nos oferecido um cartão de visita com um género de mapa do edifício para o caso de nos perdermos. O que não acontecerá, uma vez que andamos sempre no grupo. Pelas várias divisões do bunker vamos vendo desfilar a arte de artistas contemporâneos consagrados e novos. A arte “estranha”, como caixas de ovos douradas ou asfalto espalhado em montinhos a fazer lembrar outra coisa que também é negra e também costuma ser deixada imprevistamente pelo chão, é o que nos espera. Depois de conhecer o Sammlung Boros dificilmente terei a experiência de apreciar este género de arte num local tão certeiro. As salas do bunker não eram extremamente pequenas e algumas foram abertas quer na horizontal quer na vertical, criando-se mezanines que permitem ver as obras de um ponto de vista elevado. Mas também interessante é perceber as fendas e as marcas intemporais de pastilha elástica no chão, testemunho das vibrantes festas dos anos 90. As paredes do bunker são espessas e de betão puro e duro, certamente inexpugnáveis.

Museus de Berlim – a Ilha dos Museus

Quem gosta de visitar museus e aprender tem em Berlim uma das cidades mais perfeitas para tal. Se pensarmos que até 1990 Berlim era duas cidades de dois países rivais, então é fácil de perceber a quantidade de instituições à nossa disposição. Não é apenas museus a dobrar, é muito mais do que isso.

A selecção apresentada em seguida (dividida em três posts) tem a ver com o gosto pessoal, claro. Gosto esse que passa sobretudo pela arte das diversas épocas e pela história política.

Iniciaremos este percurso pela inevitável Ilha dos Museus, o maior complexo de museus no mundo. Classificada pela Unesco como Património da Humanidade desde 1999, a Ilha dos Museus acolhe 5 edifícios museológicos e apesar de pequeno este coração de Berlim tem ainda espaço para a majestosa Catedral. Estes constituem hoje parte do acervo dos Museus Nacionais de Berlim.

Foi no princípio do século XIX que o rei Friedrich Wilhelm III da Prússia resolveu decretar que fosse estabelecida uma colecção de arte para o público. Com a II Grande Guerra Mundial a Ilha foi atingida e os seus edifícios danificados. O fim da guerra trouxe a divisão da cidade de Berlim e, em consequência, a divisão da colecção de arte presente na Ilha. Como a Ilha dos Museus ficava situada no sector soviético, na parte ocidental foram criadas outras instituições para acolher a parte da colecção atribuída aos demais sectores. Com a reunificação das Alemanhas reuniram-se, finalmente, as colecções então divididas. Hoje, no seu conjunto, estas representam mais de 6000 anos de história artística e cultural, desde a pré-história até ao século XIX.

Actualmente a Ilha dos Museus está transformada em grande parte num estaleiro, com a renovação do Pergamon e a construção de um novo edifício, o futuro James Simon Galerie, para servir de centro de acolhimento aos visitantes, uma entrada comum a todos os espaços museológicos no sentido de melhor integrar os edifícios e colecções. Ou seja, a Ilha transforma-se, cresce, move-se.

Um aviso prévio à visita à Ilha dos Museus: não podemos ter a ilusão de tudo querer conhecer nestes 5 edifícios. Uma vida não seria suficiente, quanto mais um dia. Por isso, o mais sensato é fazer uma selecção das maiores obras-primas a ver em cada um destes museus e deambular por eles para perceber a integração destas obras nestes espaços.

O primeiro edifício a ser construído na Ilha dos Museus para o cumprimento do tal desígnio do rei de disponibilizar ao seu povo uma colecção de arte pública foi o Altes Museum. Karl Friedrich Schinkel, o mais reconhecido arquiteto da época prussiana, ficou encarregue do projecto e o primeiro museu público da Prússia abriu as suas portas em 1830. Altes significa Antigo. Antes de conhecermos a arte que acolhe, a primeira imagem que o Altes Museum nos oferece é o de um exemplo maior da arquitectura classicista. Passadas as enormes colunas na sua fachada que dão para o Lustgarten da Catedral descobrimos então a arte e cultura dos gregos, dos etruscos e dos romanos.

No Altes Museum não se deve perder a escultura com o sorriso encantador do “Menino a Rezar” e dar uma espreitadela aos bustos de Júlio César e Cleópatra, lado a lado.

E confirmar o quão belo era Antinous (Antínoo), o amante favorito do Imperador Adriano.

Mas, sobretudo, admirar a rotunda interior com belíssimas decorações de frescos no seu tecto, enquanto cá em baixo se perfilam as estátuas dos deuses antigos, incluindo um central Vishnu.

Segue-se o Neues Museum, ou o Novo Museu. Construído entre 1843-1855, foi também destruído durante a II Grande Guerra Mundial e restaurado pelo arquitecto David Chipperfield. Desde 2009 voltou em grande e, é incontornável referi-lo, esta é a casa da divina Nefertiti. Se com Antinous já me vinha apercebendo de que é possível apaixonarmo-nos por um rosto que apenas vive em forma de escultura, com Nefertiti confirmo-o. As cores do seu busto são intensas e belíssimas, incrivelmente ainda preservadas e mantidas numa redoma de vidro (para isso, sem fotos, sff). É carisma puro o que esta linda rainha egípcia que terá vivido por volta de 1340 a.C. nos transmite até aos nossos dias.

No mais (haverá mais?), o Neues Museum integra o Museu Egípcio e a Colecção de Papiros, bem como o Museu da Pré- História e da Antiguidade, e a arquitectura interior deste edifício é uma justaposição do antigo com o novo, bem visível na escadaria branca rodeada de parede de tijolo.

O edifício da Alte Nationalgalerie, ou Galeria Nacional Antiga, foi modelado na Acrópole de Atenas. Visto do exterior parece um verdadeiro templo. Construído entre 1867-1876, a sua colecção de arte abrange escultura e pintura do neoclássico, do romantismo e de impressionistas dos primeiros tempos modernos.

O interior do edifício, nomeadamente o seu hall de entrada, escadaria e hall do piso superior são muito bonitos. E as suas salas as ideais para mostrar as pinturas de Caspar David Friedrich com as suas paisagens de natureza românticas. Esta senhora tentou esconder o pequeníssimo monge de Caspar, mas não o conseguiu.

Também está aqui Schinkel na versão pintor e muita arte europeia do século XIX, incluindo os maiores artistas franceses, como Degas, Renoir, Monet, Cezanne e esculturas de Rodin.

Voltando à temática hall de entrada, provavelmente nenhum será tão imponente como o do Bode Museum com a monumental estátua equestre de Friedrich Wilhelm. Este edifício possui a grandeza de um palácio, com a sua distinta escadaria e uso do mármore. Acabei por não ir a tempo de passar do foyer, mas este é o lugar para se visitar obras de várias épocas, desde escultura da Idade Média até ao fim do século XVIII, arte bizantina e uma colecção de moedas.

Mas o mais emblemático e mais visitado de todos os museus da Ilha dos Museus é sem dúvida o Pergamon. Não o visitei desta vez. As filas para a sua entrada eram intermináveis e o tempo um bem escasso quando em viagem. Para além disso, a visita aos 36 metros do seu mais-que-tudo Altar de Pergamon está encerrada até 2023 até total renovação do museu (em alternativa temos uma exibição em 360º da antiga metrópole no Panorama). Mas é possível aqui visitar a Porta de Ishtar da Babilónia, um dos ex-libris de toda a Ilha dos Museus, a par do Altar de Pergamon e do busto de Nefertiti. Este museu acolhe ainda uma colecção de antiguidades do Museu do antigo Próximo Oriente e Museu de Arte Islâmica.

Fora da Ilha dos Museus, mas imediatamente à sua entrada, fica o Museu de História da Alemanha. Em termos de museu, o qual percorre dois milénios de história desde o século I até à reunificação alemã, achei-o algo confuso na sua distribuição, mas muito interessante na forma como integra a cada passo a história alemã no contexto europeu. Em termos arquitectónicos, este Museu são hoje na verdade dois edifícios com um amplo hall coberto com uma bonita estrutura em vidro a ligá-los.

O original, o edifício barroco da Zeughaus, que serviu como arsenal e é datado de 1730 (o que faz dele o mais antigo edifício da Unter den Linden a chegar aos nossos tempos), com um átrio cheio de esculturas, incluindo uma de Lenine.

E o novo IM Pei Exhibition Hall, onde se apresentam exposições temporárias, com a sua já característica espiral em vidro que permite ao interior do edifício receber luz, muita luz, e é cheio de formas e ângulos. Este espaço recebeu o nome do arquitecto que projectou esta pequena maravilha em 2003.

Anish Kapoor no Parque de Serralves

A desculpa para voltarmos a Serralves foi a ocupação dos seus jardins por Anish Kapoor. À boleia aproveitámos ainda para ver a exposição “A Colecção Sonnabend: meio século de arte europeia e americana. Parte II” e as Fotografias de Robert Mapplethorpe. Sobre a polémica destas últimas direi apenas que a fotografia de Jeff Koons com a sua (ex) Cicciolina, parte da exposição da Colecção Sonnabend, é tão forte e explícita como as de Mapplethorpe.

Prosseguindo com Kapoor, a exposição do artista indo-britânico é um excelente pretexto para um passeio pelo Parque de Serralves. Certo que uma das salas do Museu está também ocupada com maquetas das suas obras, daí que a designação da exposição seja “Anish Kapoor: Obras, Pensamentos, Experiências”. Mas é pelos 18 hectares dos jardins do parque que estão espalhadas quatro das suas obras escultóricas.

Logo à entrada de Serralves apresenta-se-nos a obra “Corpo seccional preparando-se para uma singularidade monádica”. Seja lá o que isso for. E observando o enorme cubo vermelho e preto com um buraco no meio não se fica a perceber muito mais (será uma vagina? De assexuada é que a Fundação não pode ser acusada). Mas a estética e o contraste das sua cores vivas com o verde da relva do jardim e o branco do museu está muito bem conseguida. Aliás, Kapoor assume mesmo que a localização desta obra foi propositada para haver um diálogo com o edifício projectado por Álvaro Siza Vieira.

Seguimos pela Alameda dos Liquidâmbares, passando pela Colher de Jardineiro que se tornou uma das imagem de marca de Serralves, obra de nome “Plantoir” de Claes Oldenburg e Coosje van Bruggen. Mas esta é apenas uma das várias esculturas com casa no Parque.

E em breve chegamos à Casa de Serralves, um dos melhores exemplos de arquitectura art déco no nosso país. Obra do arquitecto José Marques da Silva, foi concluída em 1940 a mando do 2º Conde de Vizela que mais tarde alienou a propriedade ao Conde de Riba de Ave. Daí que os vizinhos de Serralves ainda a conheçam como a Casa do Conde. Esta era, pois, uma propriedade privada e burguesa. O 2º Conde de Vizela havia herdado a Quinta do Lordelo e ficado com a Quinta do Mata Sete por permuta, as quais juntamente com os jardins da Casa de Serralves e o Museu de Arte Contemporânea (1996) formam hoje a totalidade do Parque. A história da Fundação de Serralves entra por aqui adentro quando após 1974 a cidade do Porto começa a sentir imprescindível a criação de um espaço onde se expusesse a arte da época e desse voz à cena artística local. O Estado português adquiriu assim em 1986 a Casa de Serralves e jardins – elementos inequivocamente modernistas no Porto de então – e quintas envolventes e em 1989 é criada a Fundação. Era no edifício rosa da Casa de Serralves que tinham lugar as exposições da Fundação até à construção do edifício branco de Siza, hoje Museu de Arte Contemporânea, inaugurado em 1999.

Ou seja, o que temos hoje em Serralves, parque e museu, é no fundo um compromisso do Estado com a sociedade e da paisagem com o património.

Voltando ao passeio pelo Parque, o belíssimo jardim formal que se estende pela Casa abaixo é um projecto do arquitecto Jacques Gréber. Em patamares, rematado por uma fonte, tudo aqui é perfeito e bem cuidado. Mais um exemplo da harmonia do Parque.

Mais abaixo, ligado por uma escadaria, surgem os jardins românticos, um lago, bosques e uma extensa quinta com um prado que acolhe uma horta pedagógica. A diversidade arbórea e arbustiva é enorme, com cerca de 8000 espécies presentes, entre autóctones e exóticas.

É nesta zona mais baixa do Parque, por entre o lago, a vegetação cerrada e o prado, que descobrimos outra obra de Kapoor. “Linguagem das Aves”, feita este ano especialmente para Serralves, quase que passava despercebida. Tirando partido da também variedade de espécies de aves, esta escultura é como que um pedestal que serve de posto para chamar e falar com os pássaros. Esta forma escultórica foi inspirada no minarete da Grande Mesquita de Samarra, no Iraque – Anish Kapoor é filho de mãe judia iraquiana e de pai hindu – e a ideia de chamamento de pássaros nas memórias de um chamador de corvos na sua Índia natal.

Percorrendo mais uma parte de densa vegetação vamos ter ao edifício do Museu. Mais uma brilhante integração de património edificado com a paisagem natural da autoria de Siza. Nestes mantos verdes ajardinados espreitamos para as salas de exposição, abertas deliberadamente ao exterior pelos largos cortes das janelas.

E aqui perto fica o belo Roseiral e a sua elegante Pérgola. Pela sua colunata somos transportados até ao Jardim do Relógio Sol.

É aqui que encontramos a nossa terceira obra de Kapoor, “Espelho do Céu”. É um espelho côncavo em aço inoxidável que reflecte tudo à sua volta. O tudo à sua volta é maioritariamente a natureza, as árvores e o céu, um passarinho que por ali voe. Ou um avião. Ou as pessoas que por aqui deambulem ou se sentem num dos bancos deste jardim.

Kapoor quis expor esta obra num espaço mais intimista e agradou-lhe que este espaço estivesse rodeado de árvores e, assim, o espelho como que pudesse ser visto como uma pintura. Ou até como se funcionasse como o lago no centro de um jardim que tudo reflecte.

Depois deste momento de simplicidade de ideias, gestos e recursos, faltava-nos descobrir a quarta e última obra de Kapoor. Seria aquela que mais deu que falar nas notícias, por um visitante nela ter caído. “Descida para o Limbo”, de 1992, é um pequeno pavilhão instalado na Clareira das Azinheiras, paredes meias com parque de estacionamento interior do edifício do Museu. Temos de mostrar a nossa identificação à entrada e assinar um termo de responsabilidade para entrar no dito pavilhão. Kapoor propõe-se aqui a falar sobre o nada. E nada, a não ser um buraco, é o que nos espera no interior deste pavilhão. Um buraco assustador que não dá vontade de espreitar de perto. Dá vontade, sim, de tentar perceber a uma certa distância se este buraco é mesmo um buraco ou apenas um círculo pintado no chão. O tal visitante das notícias provou que é mesmo um buraco. E então outro desafio se coloca: este buraco está pintado de preto? Ou é um azul tão intenso que parece preto? A ideia aqui é discutir-se as várias percepções e o vazio e a possibilidade de um vazio ser ao mesmo tempo um não-espaço e um espaço infinito.

Ai, a arte contemporânea. Fosse tudo tão simples como as flores, os cabedais e as pilas do Mapplethorpe. Ainda bem que as suas fotografias também estavam mesmo ali ao lado em exposição.

Do Vitra Campus à Fundação Beyeler

Do Vitra Campus à Fundação Beyeler ou de Weil am Rhein a Riehen ou da Alemanha à Suiça.

Sempre a pé.

Basileia é uma meca arquitectónica e um parque de diversões para os apaixonados em arquitectura. Um dos pontos altos de uma visita à cidade suiça é a visita ao Vitra Campus, na cidade de Weil am Rhein, já na Alemanha. Confuso?

O Vitra Campus fica a meros 5 kms de Basileia, alcançáveis por transportes públicos como o autocarro (que pára à porta) ou o comboio (com paragem no centro de Weil am Rhein). Fácil, por isso, de lá chegar.

A Vitra é uma marca de mobiliário de design. Embora seja uma marca suiça, criada por suíços, tem a sua fábrica e Museu – o Campus – para lá da fronteira (qual fronteira?), já em território alemão.

Instalado numa zona rural, este Campus reúne um conjunto inacreditável de grandes arquitectos. É como se fosse a Legolândia dos amantes da arquitectura contemporânea, quer pela quantidade de projectos incríveis quer pela forma dos seus edifícios.

O Vitra Design Museum, aberto em 1989, apresenta exposições temporárias ligadas ao design num sentido amplo. Actualmente está patente “Night Fever. Designing club culture 1960 – Today”, dedicada aos clubes nocturnos e discotecas como epicentros da cultura pop, relacionando esta cultura com o design, desde o passado até aos dias de hoje, cultura esta que criou toda uma nova dinâmica urbana em algumas cidades. Numa instalação interactiva criada para esta exposição podemos envolver-nos no som e nas luzes de uma disco, através de quatro épocas e quatro estilos de música – pre-disco, disco, house e tecno.

Este edifício não engana. É de Frank Gehry.

O primeiro edifício do americano na Europa, esta justaposição de módulos de várias formas parece quase uma casinha de brincar. O branco da fachada dá-lhe luz e o interior é também inundado por uma luz natural que entra pelas suas aberturas.

Ao lado deste edifício dedicado ao museu do design a arquitectura de Gehry continua, agora materializada num outro edifício destinado a fábrica da marca Vitra.

Junto aos de Gehry, e num contraste bem vincado, encontramos um discreto edifício em concreto, estreito mas alongado, de Tadao Ando. É o Conference Pavilion, de 1993, e foi o primeiro projecto do japonês fora do seu país natal.

Entre Gehry e Ando, no meio de um bonito relvado fica a obra Balancing Tools, de Claes Oldenburg & Coosje van Bruggen. Esta escultura, de 1984, representa em grande escala as ferramentas de trabalho dos que se dedicam à criação do mobiliário, como o martelo, o alicate e a chave de fendas.

A criatividade segue solta.

O Airstream Kiosk é um atrelado a lembrar as carrinhas pão de forma. O original data de 1968 e a Vitra, depois de o adquirir, restaurou-o em 2011 e hoje mantém-no no seu Campus para que no Verão seja usado como restaurante. Não havendo Verão, antes uma Primavera chuvosa, fica ainda assim a sua esplanada cheia de cor.

O Vitra Haus é a flagship store da Vitra.

Vem descrito como um espaço de inspiração para a nossa própria casa e é-o mesmo. Aqui encontramos os objectos belíssimos que a marca tem vindo a criar, alguns dos quais se tornaram icónicos.

Este edifício é um projecto da dupla suiça Herzog & de Meuron construído em 2010 e é também ele uma inspiração e um hino à criatividade. Este é o centro da Legolândia de Weil am Rhein – este edifício convence-nos de que é possível desmontá-lo peça por peça para voltar a ser montado de uma outra forma, da forma que a nossa imaginação permitir.

Mesmo o interior, preenchido por objectos da Vitra, já se disse, é um espaço que nos faz sonhar, pelos cortes e grandes aberturas das janelas que deixam ver a contrastante realidade paisagística exterior.

Do último piso conseguimos ter uma perspectiva global do Vitra Campus.

Da Vitra Haus seguimos pela Promenade projectada por Álvaro Siza até ao seu edifício, passando pela Vitra Slide Tower. Com uma altura de 30 metros, este posto de observação criado por Carsten Höller apenas está acessível em dias de bom tempo, o que infelizmente não era o caso. É uma torre, um miradouro e também uma obra de arte. Quase que até um parque de diversões, pois quem caiba dentro da sua espécie de tobogã vai-se divertir a valer a descer esta instalação.

O edifício de Siza é o Factory Building, construído em 1994. As suas linhas rectas estão cá, mas ao invés do branco que lhe costumamos observar, desta vez é o tijolo que marca presença. Simples e equilibrado este edifício é bonito e como que um fiel da balança para a maioria das formas que tínhamos visto até aí aos seus colegas arquitectos. Ainda assim, tem um elemento que se propõe a quebrar esta simplicidade, como o é a ponte branca curvada que sai do seu telhado.

A Promenade de Siza, construída em 2014, é uma passagem pedonal que permite a qualquer um de nós caminhar pelo exterior do Campus e, assim, ter acesso cómodo aos seus edifícios (ainda que não ao espaço exclusivo das suas fábricas).

Bem distribuída, termina deixando-nos face a face com a Fire Station de Zaha Hadid. Construída em 1993, esta foi a primeira grande obra da malograda arquitecta iraquiano-inglesa, uma das minhas preferidas, já o sabe quem lê este blogue. É um conjunto de volumes de concreto que chegam a parecer estar dispostos de forma aleatória. Mais uma vez vem à ideia as peças de Lego. É quase como que uma escultura. Originalmente o propósito deste edifício era o de ser a casa dos bombeiros, daí o seu nome, mas hoje destina-se a eventos e exposições.

Ao lado da Fire Station de Zaha Hadid, que já estava ao lado de Álvaro Siza, está o Vitra Schaudepot de Herzog & de Meuron.

No Schaudepot está depositada a colecção que a Vitra foi acumulando ao longo dos tempos. São cerca de 7000 objectos de mobiliário, 1000 objectos de iluminação e o espólio de alguns designers. Alguns destes em apresentação. Destaque para as várias cadeiras expostas e para a reconstrução do escritório original de Charles Eames.

Este edifício de Herzog & de Meuron é muito simples e todo em tijolo, mas ao contrário do tijolo de Siza este é bem mais vivo. Linhas direitas, a sua forma é aquela geometria quadrada que a maioria das crianças se habitua a desenhar desde pequena para as casinhas, incluindo um comum telhado, mas sem janelas. É precisamente este despojamento da arquitectura espectáculo que o torna brilhante e, ainda assim, plenamente integrado com todos os outros edifícios deste Campus.

Visitado este Vitra Campus em Weil am Rhein, Alemanha, eis que chega então a altura de seguir até à Fundação Beyeler em Riehen, Suiça.

São 5 deliciosos quilómetros a pé que ligam os dois países e as duas instituições culturais através de um caminho rural pontilhado de obras de arte. A natureza como cultura como natureza.

Esta ideia transformada realidade em 2016 leva o nome de “24 Stops Rehberger-Weg”. Tobias Rehberger criou 24 marcas de sinalização que nos indicam o trilho correcto, impedindo-nos de perder em desvios. O que até não seria mau de todo. Se há turismo fora dos caminhos mais batidos é este. Passamos por campos de cultivo, pequenos anexos rurais de apoio, galinhas, um miradouro para o Vitra Campus, mais animais, outro miradouro para Basileia com a torre da Roche a evidenciar-se na paisagem, plantações de vinhas, o rio Reno que serve de fronteira entre a Alemanha e a Suiça, um parque verde imenso e, finalmente, a Fundação Beyeler.

Algumas fotos destas mimosas sinalizações:

A Fundação Beyeler, situada a cerca de 5 quilómetros do centro de Basileia, é um projecto de Renzo Piano. A sua arquitectura, à semelhança do que já tínhamos visto no Zentrum Paul Klee, em Berna, também da autoria de Piano, propõe-se a ser uma síntese da arte, da arquitectura e da natureza. E consegue-o. A integração entre estes três elementos é total.

Instalado no Parque Berower, ali perto das águas do Reno que correm tranquilas, as linhas deste edifício são companheiras do terreno. De forma elegante, o edifício está ligeiramente afundado e tem numa das suas frentes um lago. As enormes janelas e o seu tecto em vidro deixam entrar a luz natural de uma forma intensa e brilhante.

A arte exposta no interior deixa-se ver de fora e a paisagem exterior segue o mesmo caminho quando nos encontramos dentro da Fundação.

Este é o museu de arte mais visitado de toda a Suiça e a sua colecção de arte moderna e contemporânea inclui obras de Picasso e de Giacometti.

Por altura da minha visita a exposição temporária era dedicada a George Baselitz, uma retrospectiva das suas pinturas e esculturas a marcar os seus 80 anos.

Ernest Beyeler foi um coleccionador de arte que nos anos 80 decidiu criar um lugar para acomodar a sua vasta e rica colecção. Entusiasmado com a arquitectura do Pompidou decidiu escolher o mesmo arquitecto, Renzo Piano, para autor do projecto do seu novo museu. O local escolhido foi a sua terra natal, descobrindo terrenos livres no Parque Berower. Aqui existia já a Villa Berower, hoje administração da Fundação e restaurante. Entre este edifício barroco e o de Piano temos um bonito jardim com árvores, caminhos de água, esculturas de Alexander Calder e Ellsworth Kelly e lugares para se deixar estar. Ao seu largo redor a tranquilidade é total.

À entrada do autocarro que nos fará regressar a Basileia um sorriso enche-nos, recordando como foi acertada a escolha do caminho único para aqui chegar.

Zentrum Paul Klee

O Zentrum Paul Klee fica nos arredores de Berna, a uma curta viagem de autocarro desde o centro. Não que Berna seja uma megapolis, mas surpreende, ao mesmo tempo, que a meros 10 minutos de distância da capital suiça possamos encontrar uma paisagem rural. Mais surpreende que no meio dessa paisagem rural possa estar um museu dedicado a um artista ligado a movimentos como o expressionismo ou o surrealismo.

Paul Klee nasceu no cantão de Berna e o Zentrum que leva o seu nome é uma extraordinária obra de arquitectura de Renzo Piano. Piano consegue enquadrar o seu edifício na paisagem de forma magistral. Neste pedaço de campo puro, com terrenos agrícolas cultivados, cheiro a vaca, som dos meeés das ovelhas, perdido num imenso relvado com vista para as montanhas nevadas dos Alpes, vemos surgir três ondas.

Optando por sair na penúltima paragem do autocarros, percebemos imediatamente que essa ditas três ondas que formam discretas colinas estão plenamente integradas na natureza. À medida que nos aproximamos vamos percebendo os seus contornos mais claramente e a simplicidade e subtilezas arquitectónicas são desarmantes. Vale a pena caminhar à volta de todo o terreno onde este Zentrum está implantado. De um lado um cemitério, do outro um parque de esculturas, a tranquilidade e harmonia são totais. Como vemos escrito a dado passo do caminho, a sua integração topográfica é como uma escultura da paisagem. Diz-nos Piano que “A forma do edifício já estava, de facto, presente na paisagem. E então nós com vamos a cuidar dos campos como se fossemos agricultores e não arquitectos – até que a paisagem se transformou num edifício”.

Estas três colinas de aço tomadas pelo verde da relva, com muito vidro no interior, permitindo não só um bom aproveitamento da luz natural mas também a presença da paisagem exterior, correspondem aos espaços expositivos, a uma sala de concertos, um centro de conferências e a uma centro de investigação, estudo e promoção das obras de Paul Klee.

Este projecto, completado em 2005, foi financiado por Maurice E. Müller, cirurgião ortopédico, empreendedor social com projectos nos campos das ciências e medicina que, através da sua fundação financiou a criação do Zentrum Paul Klee, uma ideia sua e dos herdeiros de Klee, e escolheu ele próprio o arquitecto Renzo Piano para o projecto de arquitectura.

Como no dia da minha visita Müller faria 100 anos a entrada foi gratuita como celebração.

Em exibição, duas exposições. Uma dedicada, como não podia deixar de ser, a Paul Klee – aqui fica a maior colecção de obras deste artista -, “Klee em Tempos de Guerra”. Já sabíamos que Paul Klee havia nascido nos arredores de Berna (e está enterrado no cemitério junto à este Zentrum), que tinha ido viver para Munique, onde integrou o grupo avant-garde Der Blaue Reiter, passou por Paris, onde descobriu o cubismo, e viajou para a Tunísia, onde derivou para o abstraccionismo. Com esta exposição ficamos a saber como Klee atravessou a I Grande Guerra Mundial. Desde logo, não sentindo entusiasmo e perdendo dois companheiros como Franz Marc e August Macke. Teve a sorte de não ter sido destacado para a frente de batalha, não vivendo, assim, os horrores da guerra no terreno e pode continuar a pintar. Acabou por se inspirar na guerra para criar algumas pinturas.

Uma outra exposição, “Touchdown”, feita com e sobre pessoas com Síndrome de Down, mostrando as suas vidas sob diversos pontos de vista, incluindo o artístico. A atestar, também, os interesses do mentor do projecto deste Zentrum, que é não apenas um lugar dedicado à arte, mas também à investigação da ciência e educação.