Anish Kapoor no Parque de Serralves

A desculpa para voltarmos a Serralves foi a ocupação dos seus jardins por Anish Kapoor. À boleia aproveitámos ainda para ver a exposição “A Colecção Sonnabend: meio século de arte europeia e americana. Parte II” e as Fotografias de Robert Mapplethorpe. Sobre a polémica destas últimas direi apenas que a fotografia de Jeff Koons com a sua (ex) Cicciolina, parte da exposição da Colecção Sonnabend, é tão forte e explícita como as de Mapplethorpe.

Prosseguindo com Kapoor, a exposição do artista indo-britânico é um excelente pretexto para um passeio pelo Parque de Serralves. Certo que uma das salas do Museu está também ocupada com maquetas das suas obras, daí que a designação da exposição seja “Anish Kapoor: Obras, Pensamentos, Experiências”. Mas é pelos 18 hectares dos jardins do parque que estão espalhadas quatro das suas obras escultóricas.

Logo à entrada de Serralves apresenta-se-nos a obra “Corpo seccional preparando-se para uma singularidade monádica”. Seja lá o que isso for. E observando o enorme cubo vermelho e preto com um buraco no meio não se fica a perceber muito mais (será uma vagina? De assexuada é que a Fundação não pode ser acusada). Mas a estética e o contraste das sua cores vivas com o verde da relva do jardim e o branco do museu está muito bem conseguida. Aliás, Kapoor assume mesmo que a localização desta obra foi propositada para haver um diálogo com o edifício projectado por Álvaro Siza Vieira.

Seguimos pela Alameda dos Liquidâmbares, passando pela Colher de Jardineiro que se tornou uma das imagem de marca de Serralves, obra de nome “Plantoir” de Claes Oldenburg e Coosje van Bruggen. Mas esta é apenas uma das várias esculturas com casa no Parque.

E em breve chegamos à Casa de Serralves, um dos melhores exemplos de arquitectura art déco no nosso país. Obra do arquitecto José Marques da Silva, foi concluída em 1940 a mando do 2º Conde de Vizela que mais tarde alienou a propriedade ao Conde de Riba de Ave. Daí que os vizinhos de Serralves ainda a conheçam como a Casa do Conde. Esta era, pois, uma propriedade privada e burguesa. O 2º Conde de Vizela havia herdado a Quinta do Lordelo e ficado com a Quinta do Mata Sete por permuta, as quais juntamente com os jardins da Casa de Serralves e o Museu de Arte Contemporânea (1996) formam hoje a totalidade do Parque. A história da Fundação de Serralves entra por aqui adentro quando após 1974 a cidade do Porto começa a sentir imprescindível a criação de um espaço onde se expusesse a arte da época e desse voz à cena artística local. O Estado português adquiriu assim em 1986 a Casa de Serralves e jardins – elementos inequivocamente modernistas no Porto de então – e quintas envolventes e em 1989 é criada a Fundação. Era no edifício rosa da Casa de Serralves que tinham lugar as exposições da Fundação até à construção do edifício branco de Siza, hoje Museu de Arte Contemporânea, inaugurado em 1999.

Ou seja, o que temos hoje em Serralves, parque e museu, é no fundo um compromisso do Estado com a sociedade e da paisagem com o património.

Voltando ao passeio pelo Parque, o belíssimo jardim formal que se estende pela Casa abaixo é um projecto do arquitecto Jacques Gréber. Em patamares, rematado por uma fonte, tudo aqui é perfeito e bem cuidado. Mais um exemplo da harmonia do Parque.

Mais abaixo, ligado por uma escadaria, surgem os jardins românticos, um lago, bosques e uma extensa quinta com um prado que acolhe uma horta pedagógica. A diversidade arbórea e arbustiva é enorme, com cerca de 8000 espécies presentes, entre autóctones e exóticas.

É nesta zona mais baixa do Parque, por entre o lago, a vegetação cerrada e o prado, que descobrimos outra obra de Kapoor. “Linguagem das Aves”, feita este ano especialmente para Serralves, quase que passava despercebida. Tirando partido da também variedade de espécies de aves, esta escultura é como que um pedestal que serve de posto para chamar e falar com os pássaros. Esta forma escultórica foi inspirada no minarete da Grande Mesquita de Samarra, no Iraque – Anish Kapoor é filho de mãe judia iraquiana e de pai hindu – e a ideia de chamamento de pássaros nas memórias de um chamador de corvos na sua Índia natal.

Percorrendo mais uma parte de densa vegetação vamos ter ao edifício do Museu. Mais uma brilhante integração de património edificado com a paisagem natural da autoria de Siza. Nestes mantos verdes ajardinados espreitamos para as salas de exposição, abertas deliberadamente ao exterior pelos largos cortes das janelas.

E aqui perto fica o belo Roseiral e a sua elegante Pérgola. Pela sua colunata somos transportados até ao Jardim do Relógio Sol.

É aqui que encontramos a nossa terceira obra de Kapoor, “Espelho do Céu”. É um espelho côncavo em aço inoxidável que reflecte tudo à sua volta. O tudo à sua volta é maioritariamente a natureza, as árvores e o céu, um passarinho que por ali voe. Ou um avião. Ou as pessoas que por aqui deambulem ou se sentem num dos bancos deste jardim.

Kapoor quis expor esta obra num espaço mais intimista e agradou-lhe que este espaço estivesse rodeado de árvores e, assim, o espelho como que pudesse ser visto como uma pintura. Ou até como se funcionasse como o lago no centro de um jardim que tudo reflecte.

Depois deste momento de simplicidade de ideias, gestos e recursos, faltava-nos descobrir a quarta e última obra de Kapoor. Seria aquela que mais deu que falar nas notícias, por um visitante nela ter caído. “Descida para o Limbo”, de 1992, é um pequeno pavilhão instalado na Clareira das Azinheiras, paredes meias com parque de estacionamento interior do edifício do Museu. Temos de mostrar a nossa identificação à entrada e assinar um termo de responsabilidade para entrar no dito pavilhão. Kapoor propõe-se aqui a falar sobre o nada. E nada, a não ser um buraco, é o que nos espera no interior deste pavilhão. Um buraco assustador que não dá vontade de espreitar de perto. Dá vontade, sim, de tentar perceber a uma certa distância se este buraco é mesmo um buraco ou apenas um círculo pintado no chão. O tal visitante das notícias provou que é mesmo um buraco. E então outro desafio se coloca: este buraco está pintado de preto? Ou é um azul tão intenso que parece preto? A ideia aqui é discutir-se as várias percepções e o vazio e a possibilidade de um vazio ser ao mesmo tempo um não-espaço e um espaço infinito.

Ai, a arte contemporânea. Fosse tudo tão simples como as flores, os cabedais e as pilas do Mapplethorpe. Ainda bem que as suas fotografias também estavam mesmo ali ao lado em exposição.

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