A Conversa

– Where are you from?
– (silêncio)
– France, Italian?
– (silêncio)
– Spain?
– Não, Portugal!
– Oh! Figo! Cristiano Ronaldo!

9 em cada 10 conversas pelas ruas da Turquia mais ocidentalizada (porque não tive oportunidade ainda de conhecer outra) começam desta forma.
São uns chatos, estes turcos. Não nos largam até conseguirem satistazer a curiosidade de saber de onde vimos. Talvez para escolherem mais acertadamente a táctica para nos convidarem a entrar na sua loja, beber um chá, ver uns tapetes e uns kilims.
Não, nada chatos estes turcos. Se não quisermos comprar, não compramos, é o aviso prévio que nos fazem saber. Temos pelo menos é de dar uma olhada pela sua mercadoria e, mais importante, dar dois dedos de conversa.
Afinal, uns queridos, estes turcos.
Numas das conversas travadas com os turcos – sempre homens, porque os negócios por aqui são coisa deles – o rapaz começou por confessar não aguentar mais a curiosidade de nos ver passar para lá e para cá pela sua rua sem que lhe deitassemos um olhar (à sua loja, entenda-se) ou lhe respondessemos à sua pergunta (where are you from?). Satisfeita a sua curiosidade da proveniência das portuguesas, ficou encantando por obter réplica à afirmação de que a sua cidade natal era Van. Perguntámos-lhe: Van, a do Lago Van? Respondeu-nos: mas conhecem-na, sabem pelo menos onde fica? Sim, apenas sabemos onde fica no mapa, com esperança de em algum momento nesta vida nos aventurarmos Médio Oriente afora. Falou-nos então dos gatos de Van, de pêlo branquinho, com um olho de cada cor (um amarelo, um azul) e de quem se diz que adoram nadar no Lago. Mas Van, tal como a maioria do sudeste da Anatólia, é território Curdo e o rapazinho migrado para a Costa do Egeu, do outro lado do país, não perdeu a oportunidade de “passar a palavra”. Que os Curdos são discriminados no seu próprio país e que, ao contrário do que se diz, não querem a independência da Turquia. Apenas desejam que a esta minoria de cerca de 20 milhões (!) de cidadãos lhes seja concedida a possibilidade de ler jornais e de ver canais de televisão na sua própria linguagem. Que mude a mentalidade dos restantes turcos em relação aos curdos e que mude também a imagem que o resto do mundo deles tem. Quanto a mim, se já não levava preconceitos à partida (e os dias que antecederam a minha viagem foram dominados com notícias de novos atentados em alguns pontos da Turquia), depois de conhecer este simpático comerciante lembrar-me-ei de não permitir que eles possam vir a ser criados. Longe de ficar apoiante da causa, fiquei, sim, ainda mais apoiante de um mundo multicultural.

Tumbas no Castelo de Algodão

Para o fim da viagem ficou a visita a outro dos sítios na Turquia considerado património mundial pela UNESCO: Pamukkale – Hierapolis.
A cerca de 3 horas de Selçuk / Éfeso, e já com poucos dias disponíveis na contagem decrescente do regresso a casa, colocava-se o problema dos meios de transporte para o local. Existem autocarros para Denizli, a cidade mais próxima, a 30 minutos, o que implicaria ter de mudar de transporte. Ou seja, com a viagem de ida e volta num só dia, mais o tempo para se passear entre as ruínas, para além de cansativa a jornada previa-se apertada.
Optámos, assim, por aderir a uma excursão com início em Selçuk. Afinal de contas, ainda não havíamos enfiado o barrete da ordem nestas férias e havia que arriscar. Logo à partida deparámo-nos com o entusiasmo do operador turístico em anunciar-nos que antes de chegarmos propriamente a Pamukkale teríamos um tempo reservado para tomar banho numa piscina de um hotel de 5 estrelas. A que se seguiria um almoço bufete no dito hotel de 5 estrelas.
Uau! É mesmo o meu sonho de consumo.
Enfim, tempo morto de 1 hora gasto apressadamente num mergulho aqui, barrando-nos com “lama”, e um mergulho ali, numa água quentinha.
Pamukkale esperava-nos.
As imagens que havíamos visto indiciavam um lugar fantástico, surreal mesmo, daqueles que parecem não existir num planeta como o nosso.
O fenómeno a que se assiste neste local deve-se a uma formação geológica única, em que as águas ricas em cálcio caiem em cascata pela encosta criando as “travertines” brancas que hoje são cartão postal da Turquia.
A acompanhar a criação destas “travertines” temos ainda diversas formas que tomaram as rochas – prateleiras, piscinas, estalactites – que tornavam ainda mais prazerosa a utilização destas águas que possuem propriedades termais.
E digo “tornavam” porque o acesso às ditas “travertines” está hoje vedado. O boom do turismo nos anos 80 e 90 fez com que se construíssem dezenas de hotéis no topo deste sítio, destruindo não só alguns dos vestígios das ruínas de Hierapolis, como também desviando a água que corria em cascata para as suas próprias piscinas e necessidades. Outros abusos cometidos passaram igualmente pelo uso que as pessoas (os visitantes) faziam do local – aproveitar as águas para se lavarem, andar calçadas pelas “travertines” e, mesmo, de bicicleta ou mota.
Há uns anos, e na tentativa de reverter a situação, os hotéis foram demolidos mas, infelizmente, continua a correr pouca água em cascata, o que leva a crer que o problema estará também nos equipamentos que se situam abaixo de Pamukkale. Ou seja, o mal está feito e, dizendo em bom português, o que não tem remédio remediado está!
A impossibilidade de passear sobre as “travertines” e o facto da pouca água que corre hoje tornar menos exuberante o local não nos faz perder a viagem. Pelo contrário, o cenário continua deslumbrante e podemos, ainda assim, caminhar uns bons 2 km sobre este “Castelo de Algodão”, o significado de Pamukkale em turco, com os sapatos na mão, tentando não escorregar no chão branco carregado de cálcio.
Nunca um nome terá sido atribuído com tanta propriedade.

Aproveitando estas condições minerais dadas pela Natureza e a fama dos poderes curativos das suas águas, os romanos construíram aqui uma cidade, um imenso “spa”, à qual acorriam pessoas vindas de todos os cantos. Hierapolis é o nome da cidade que foi fundada no século II A.c.
Aqui podem ser encontradas as ruínas de uma igreja bizantina e as fundações do Templo de Apolo, entre outros monumentos comuns às cidades romanas, como a Agora e os banhos, e, como não podia deixar de ser, o Teatro.
O Teatro romano está implantado logo acima das “travertines” (ainda que não se consiga ter uma vista especial delas) e comportava cerca de 12000 espectadores.

Mas o ponto alto da visita a Hierapolis é a imensa necrópole que por aqui existe. Pois, nem todos os que ali acorriam terão ficado curados, daí que faça todo o sentido a construção de um cemitério para que não perdessem de todo a viagem. Existem, assim, inúmeros túmulos, sarcófagos, tumbas, alguns deles enormes e de todas as formas e feitios imagináveis.

Para turista ver, entre o Teatro romano de Hierapolis e as “travertines” de Pamukkale, existe ainda uma piscina com fragmentos de mármore submersos onde, diz a lenda (ou serão os prospectos turísticos?), Cleópatra se terá banhado. Na impossibilidade de se banhar nas águas do Castelo de Algodão ou nas águas das piscinas dos hotéis de 5 estrelas, resta então ao turista este banho “histórico”.

Pelas Ruínas

Sabia que a Turquia tem mais ruínas gregas e romanas do que a Grécia ou a Itália?
Não?
Então onde ficam Tróia, Pérgamo, Éfeso, Hierapolis, Afrodisias, Priene, Miletos e Didyma ou Xanthos-Letoon? À beira do Mar Egeu ou do Mar Mediterrâneo, mas todas em território turco.
De Tróia todos nós já ouvimos falar, quer seja pela Ilíada de Homero quer seja, mais recentemente, pelo filme.
De Pérgamo, mesmo que não tenhamos visitado o local na Turquia, se tivermos estado em Berlim temos grandes hipóteses de ter visitado o seu “Grande Altar” em solo alemão. Pelos museus do mundo afora, Alemanha, Inglaterra, Itália, Rússia, não é difícil encontrarmos objectos ou até edifícios inteiros levados destas antigas cidades que, na sua maioria, foram estudadas e escavadas por arqueólogos estrangeiros.
De todas as referidas, apenas visitei Éfeso e Hierapólis, ainda que Afrodisias seja, a par de Éfeso, uma das mais recomendadas para este périplo das pedras.

Uma visita a Éfeso seria, à partida, o ponto alto de qualquer viagem. E não desilude, pese embora a quantidade astronómica de turistas com quem temos que dividir o espaço.
É considerada uma das mais bem conservadas cidades clássicas e uma das quais onde é possível sentir uma atmosfera próxima do que era a vida numa cidade romana daqueles tempos.
Antes da chegada de Lysimachus, um dos generais de Alexandre o Grande, já havia uma cidade onde hoje se encontra Éfeso (estudos dizem-nos que já era ocupada em 1000 A.c. pelos Jónios), mas esta havia sido inundada pela subida do mar. Então, no século III A.c. o general reconstruiu a cidade, trazendo pessoas de cidades anteriormente por si arrasadas e fixando-as na nova Éfeso para que a pudessem povoar.
A cidade foi crescendo a tal ponto que no século I A.c. chegou a ser considerada a capital da Ásia Menor, para o que muito contribuiu o facto de se encontrar situada num local perto do mar, favorável às actividades ligadas ao comércio, e de ter o Templo de Ártemis mesmo à mão, lugar santo dedicado ao culto da deusa Ártemis para os gregos, Diana para os romanos. Éfeso terá mesmo chegado a atingir os 400.000 habitantes, o que a tornou a maior cidade da Ásia Romana e uma das maiores cidades dos seus tempos.


Éfeso é facilmente reconhecida pelo seu “Teatro Grande”, capaz de acolher 25000 espectadores (ainda hoje se celebram aí espectáculos), com uma vista soberba do topo das suas filas para o que em tempos foi o porto da cidade. Com esforço consegue-se hoje imaginar que se avista o mar que os tempos afastaram da cidade e levaram, em parte, ao seu declínio. Para se imaginar a grandeza da cidade, acrescente-se que dispunha ainda de um outro teatro, o “Odeon”, capaz de servir cerca de 1400 pessoas. Digamos que mesmo a lotação deste pequenito podia perfeitamente servir para entreter os habitantes de uma cidade média dos tempos modernos.

A “Via Curetes” é deslumbrante, cerca de 500 metros de comprimento tentando afastar do caminho algo estreito os turistas vindos de um dos muitos cruzeiros que passam por ali perto e que aproveitam para visitar as ruínas. Aqui ficam alguns dos edifícios que melhor representam a magnificência da antiga cidade cujas reminiscências ainda hoje nos permitem entender a sua disposição e utilidade.
A “Porta de Hércules”, onde todos se amontoam para tirar uma fotografia;
O “Templo de Adriano”, com a cabeça de Medusa no topo de um dos arcos para manter os maus espíritos afastados;
Os “Banhos de Varius”, embora existissem outros complexos deste tipo, uma vez que a cidade tinha um dos mais avançados sistemas de transporte de água (aqueduto) dos tempos antigos;
A “Latrina”, ou seja, as casas de banho públicas, o que mostra bem a preocupação com a higiene que os antigos efesianos possuíam;
A “Fonte de Trajano”;
As casas dos ricos.
Para se visitar estas últimas, no entanto, ter-se-á de adquirir um bilhete à parte, não incluído na entrada geral para o sítio de Éfeso. Com isso afasta-se a esmagadora maioria dos turistas da possibilidade de confirmar os excelentes trabalhos dos técnicos que no local ainda vão pondo a descoberto mais e mais vestígios e recriando as casas antigas. Diz-se que a seguir a Pompeia este é o melhor local para se poder admirar o luxo em que os romanos ricos viviam, com as paredes das suas casas abundantemente decoradas com frescos e o chão com mosaicos. A não perder, uma vez que apesar da longa jornada e do muito que há para visitar e aprender em Éfeso não se encontra nada semelhante a este local.

No final da “Via Curetes” fica a “Biblioteca de Celsus” que divide com o “Grande Teatro” o título do mais reconhecido edifício de Éfeso, os dois grandes postais da cidade antiga. No entanto, o título de mais fotogénico vai direitinho para a Biblioteca. O monumental edifício foi mandado erigir pelo Cônsul Julius Aquila em honra do seu pai Cônsul Julius Celsus e serviria para sua tumba. Mais tarde viria a ser utilizada como biblioteca e chegou a acolher cerca de 12000 títulos, naquele tempo só superada pela Biblioteca de Alexandria. A sua fachada, após a subida de uns degraus, é suportada por umas colunas e capiteis cuja dimensão não se consegue perceber em fotografias. Por trás de cada par de colunas encontram-se estátuas representando as virtudes: sabedoria (Sophia), pensamento (Ennoia), conhecimento (Episteme) e bondade (Arete).

Concluindo o passeio, fácil é perceber que esta cidade poderia bem competir com as dos tempos modernos, quer em organização quer em riqueza. E a sua riqueza passa não só pelo seu poder a nível monetário mas também a nível social e cultural. A preocupação na construção de banhos para os seus habitantes e, principalmente, a existência de teatros, biblioteca e templos dedicados ao culto dos vários deuses revelam a ambição dos seus líderes e população em cuidar do intelecto e atingir o conhecimento.

Entre Éfeso e Selçuk, fica o Templo de Ártemis (Diana, para os gregos), deusa grega. Este Templo foi considerado uma das 7 maravilhas do mundo e, à semelhança de todos os outros (com excepção das Pirâmides de Gize), hoje já nada resta dele (daí que nos tenha passado completamente ao lado). Ou praticamente nada, já que os poucos destroços que chegaram até aos nossos dias não são suficientes para nos dar a mais pequena ideia do que foi em tempos. E com “esses tempos” quer-se dizer o século VI A.c., quando foi construído. Era o maior templo da antiguidade, maior até que o Partenon, em Atenas. No século IV A.c. foi destruído pelo fogo e reconstruído na época em que Alexandre o Grande passava por estas terras. Diz a história que, impressionado com o templo, o nosso herói ofereceu-se para pagar a sua reconstrução em troca de o novo templo ser-lhe dedicado, proposta esta que viria a ser recusada pelas “autoridades locais”, mantendo-se firmes em continuar a dedicar o templo a Ártemis, a deusa da caça.

Outro dos monumentos carregados de história que chegaram até aos nossos dias é a Basílica de São João, em Selçuk, bem defronte do hotel por nós escolhido, o Hotel Bella, acolhedor e com um magnífico terraço com vista larga e plena para a Basílica.
Mais uma vez, diz a história que São João terá vindo para Éfeso no fim da sua vida, onde escreveu o seu Evangelho. No século VI o Imperador Justiniano decidiu construir uma Basílica no lugar onde se acreditava encontrar-se os restos mortais de São João e onde no século IV já havia sido construído, primeiro, um monumento e, depois, uma igreja. Tudo o que vemos hoje foi reconstruído (e encontra-se ainda a sê-lo) graças, especialmente, aos inúmeros terramotos.
Um lugar de peregrinação, não só para os cristãos mas também para os muçulmanos, é a “Casa da Virgem Maria”, a cerca de 9 km de Éfeso. Acredita-se que a Virgem Maria tenha vindo para aqui, após a morte de Jesus Cristo, acompanhada por São João. No fim do século XIX, após a visão da Virgem em Éfeso por parte de uma freira alemã, e guiados pelas suas descrições, um grupo de clérigos descobriu as ruínas de uma casa, tendo chegado à conclusão de que nesta teria passado Maria o fim dos seus dias. O Papa Paulo VI autenticou este local na sua visita em 1967 e, depois disso, o Papa João Paulo II e, agora, o Papa Bento XVI também por lá passaram. Hoje existe no topo do monte uma capela para assinalar a história e todo o 15 de Agosto é celebrada uma missa em honra da Virgem Maria, em que acorrem peregrinos vindos de todo o mundo.
Nós é que decidimos não acorrer lá, com muita pena da minha mãezinha, especialmente depois de ver na televisão o actual Papa neste santuário.

Em Izmir, em Trânsito

As costas do Mar Egeu e do Mar Mediterrâneo são muito procuradas pelos turistas em busca de sol e praia.
Com vista para o primeiro fica Izmir, a terceira maior cidade turca, com cerca de 2 milhões de habitantes. Os seus arredores parecem tirados de uma qualquer metrópole da América Latina: aproveitamento praticamente total dos morros para os ocupar com casas feitas à pressa e com os materiais que se encontrem mais à mão. O cenário que fica é de caos urbanístico e o trânsito é, uma vez mais, uma loucura. Mas o centro de Izmir é moderno e a avenida que se espraia pela baia por cerca de 4 km cumpre alguns dos preceitos do urbanismo da moda: o lugar para o passeio público, possibilitando a utilização da frente ribeirinha por todos os cidadãos e para quase todas as actividades que pretendam, desde passear o cão a andar de bicicleta ou, tão só, sentar a ver os barcos passar.
Estes km de jornada são, por isso, bem agradáveis num percurso que vai desde a zona do ascensor, na parte sudoeste da cidade, a fazer lembrar algo de Lisboa pelo desnível acentuado das suas ruas, no topo do qual se alcança uma boa panorâmica de parte de Izmir, até à zona de Alsancak no outro extremo do centro da cidade, onde ficam as lojas mais caras e da moda.
Pelo meio, e afastando-nos uns metros do mar, fica a zona do Bazar, um cheirinho da enorme confusão que se encontra em Istambul.
Aí perto, na Konak Meydani, uma praça pedestre de grandes dimensões, que acolhe um centro comercial, sente-se o vai e vem das pessoas a meio caminho entre o seu emprego ou o seu almoço. Nesta praça fica um dos mais famosos postais da cidade, a Torre do Relógio, e existe ainda uma pequena mesquita para uma paragem rápida para uma das inúmeras rezas obrigatórias do dia.
Muitas das vezes, nos pacotes de viagens para a Turquia, encontramos Izmir como uma das possibilidades de destino. Na verdade, a maior parte dos turistas apenas utiliza a cidade como ponto de passagem para qualquer outro destino nas redondezas ou, quanto muito, para base de uma noite.
A nós serviu-nos para fazer uma pausa vindas da Capadócia em trânsito para as ruínas de Éfeso, tendo optado por Selçuk como local de poiso.

Selçuk, com cerca de 20000 habitantes, vive quase em exclusivo do facto de Éfeso estar a 2km, do Templo de Artemisa nem isso distar e da Basílica de São João estar praticamente no seu centro. Tudo ruínas com muita história e milénios de vida. À conta disso, as suas ruas têm uma série de restaurantes e lojinhas que servem de apoio para os magotes de turistas, ainda que as camionetas de excursões que por lá passam deixem os passageiros directamente à porta dos monumentos a visitar, sem pouco espaço para deambularem pelas imediações.

À distância de uma curta viagem de Dolmus (o nome indígena dos mini autocarros) pela serra adentro fica Sirince, aldeia com menos de 1000 habitantes que mantém ainda muitas das casas típicas do estilo greco-otomano. Conta-se que os gregos ocuparam a área por volta do século XV e decidiram dar-lhe o nome de “Çirkince”, que na sua língua quer dizer qualquer coisa como “feiosa”, no sentido de evitar que outros pudessem ter também a ideia de para lá se dirigir. Foi apenas no século passado que as autoridades locais decidiram mudar o nome para o actual “Sirince”, algo como “agradável”, mais condizente com a realidade. E, assim, hoje é conhecida como uma das “aldeias mais turcas da Turquia”, epíteto análogo aos casos das nossas Monsanto ou Alte, as “aldeias mais portuguesas de Portugal”. O certo é que a aldeiazinha turca recebe imensos turistas, a maioria vindos de um dos muitos cruzeiros que atracam aqui por estas bandas e não se cansam de picar o ponto em todos estes recantos recomendados.

Kusadasi é a cidade que recebe os tais cruzeiros com turistas em trânsito para Éfeso, Selçuk (Basílica de São João), Sirince e, menos frequentemente, Priene, Miletos e Dydima e Pamukkale.
Como caracterizar Kusadasi sem ser injusta? Talvez começar por dizer que na temporada alta parece constituir uma preparação ou uma continuação daquilo que nos (os) espera no cruzeiro. São lojas e mais lojas que vendem produtos supostamente originais a 30% do seu preço de mercado. Não consigo dizer mais nada a respeito a não ser que, repito, na temporada alta, é uma cidade que tem um porto para cruzeiros. Ou melhor. Consigo acrescentar que nas suas redondezas dizem que ficam algumas praias que se poderão considerar interessantes. Como para nós o objectivo desta viagem não era fazer sequer um pouco de praia, passávamos bem sem este episódio. Mas acabámos por decidir ir relaxar umas horinhas durante uma tarde numa dessas praias. Levávamos a indicação de que Pamucak seria “a” praia, mas um “inquérito” no dia anterior levou-nos a optar pela Ladies Beach. Bom… a praia do Barbas na Costa da Caparica não anda muito longe do ambiente desta… Sem mais comentários. O que valeu foi que acabámos por visualizar Pamucak de cima e não pareceu ser assim tão deslumbrante como a queriam fazer passar, ainda que parecesse andar a léguas do “Barbas de saias”. Como consolo fica a ideia que já levava da minha terrinha: tirando uma viagem à Polinésia ou outros locais ditos idílicos em que a civilização e o betão ainda não chegaram, praia é mesmo para ser feita no nosso país.
Uma sugestão então: se o objectivo não for ver passar o pessoal dos cruzeiros, nem fazer compras de produtos (bem) falsificados, talvez seja de arriscar optar por um passeio até à Península de Dilek, a alternativa que no nosso caso não vingou e que, por isso, não se poderá avaliar.

Em resumo, tirando o passeio até Éfeso e Pamukkale, esta primeira visita à costa do Egeu soube a pouco.

O mergulho no Mar Egeu deu-se aqui, na Ladies Beach, bem democrática, como se pode ver.

A Sobrevoar a Capadócia

Pois é, a Capadócia não pára de surpreender. Depois de a percorrermos pelo solo e por baixo, agora chegou a vez de a sobrevoarmos.
Há opções para todos os gostos. Mas a sugestão é experimentar todas as opções.
Observar as paisagens únicas da Capadócia por cima dá uma magia maior a todo aquele cenário já de si mágico e maravilhoso.
E o que dizer se essa observação for feita através de uma viagem de balão? Perfeito.
Uma viagem de balão na Capadócia é um momento imperdível, recomendado em todos os guias turísticos. Apesar de não ser uma experiência barata, somos recompensados por um cenário fantástico.
Há diversas empresas que efectuam passeios de balão. A responsável pelo nosso voo foi a Sultan Balloons.
A jornada começa antes do sol raiar, pelas 6h00 da manhã, com a preparação do balão.

Depois de todos os preparativos e já depois de o sol ter levantado um pouco inicia-se a viagem. A palavra para descrever o passeio de balão é serenidade. Lá em cima tudo é calmo, tranquilo.

Flutuamos serenamente sobre aquela atmosfera que, efeito dos processos erosivos ao longo dos anos, se apresenta de uma forma agreste mas absurdamente impressionante.
Temos cerca de uma hora para desfrutar deste visual único, para estudar toda a morfologia do terreno, para sentir o ar fresco da manhã misturado com o calor que o balão emana, para quase tocarmos o chão e logo no momento seguinte calmamente voltarmos a subir, para percebermos como o nosso Planeta está em plena mutação há biliões de anos, para sentirmos a força da natureza, para concluirmos como somos privilegiados por podermos estar ali, naquela terra mágica.

Depois da aterragem, no local onde as condições do vento permitirem, resta-nos apenas fazer um brinde, com champagne, a estes momentos que fazem com que a vida seja bela.

Debaixo da Capadócia

Existem diversas cidades subterrâneas na Capadócia (estima-se que rondem as 36, ainda que nem todas tenham sido escavadas).
Não se sabe ao certo em que época estes pontos de refúgio foram criados mas crê-se que, pelo menos, os Hittites já faziam uso deles, cerca de 4000 a.C. Certo é que durante o período bizantino estas cidades se desenvolveram. Entre os séculos VII e XII, esta região, que constituía uma importante passagem do ocidente para o oriente, era habitualmente assolada por inúmeras invasões estrangeiras. Para se poderem proteger dos ataques, os seus habitantes criaram estas extensas cidades subterrâneas que hoje podemos visitar.
As mais conhecidas são as de Kaymakli e Derinkuyu, descobertas por acaso na década de 60 do século passado.
Depois de alguma leitura e de conversações com colegas de viagem conhecidos no dia anterior e no próprio dia, optamos por visitar Derinkuyu. (um aparte: a Capadócia não é muito extensa, serão uns 80 por 80 km, daí que os turistas teimem em reencontrar-se ao virar da esquina). A melhor forma de nos deslocarmos entre os vários pontos de interesse, excluindo a “última solução” viagem organizada, é através de transportes públicos, nem sempre muito certos, no entanto. A ideia era visitar a cidade subterrânea por nós. À entrada encontramos uma série de guias locais que tentam de tudo para nos afastar aquela ideia. Um deles conseguiu. Juntando um grupo de 3 portuguesas, 2 francesas, 1 neozelandês e 1 irlandesa, lá nos safamos com as explicações a preço de saldo.
E são bem úteis, estas interpretações in loco do labirinto misterioso que nos espera.
Derinkuyu tem cerca de 18 pisos subterrâneos, ainda que só possam ser visitados os 8 superiores e cerca de 10% da sua totalidade. Estima-se que pudessem refugiar-se ali cerca de 20000 pessoas. Nestas caves subterrâneas existiam lugares reservados não só para dormitórios, cozinhas e refeitórios, como também igrejas e até uma escola missionária. Existiam igualmente lagares, celeiros e estábulos. Pois é, guardava-se tudo, não só as pessoas como também os animais e comida suficiente para abastecer todos por cerca de 6 meses. Vê-se ainda um túnel vertical de cerca de 55m que era utilizado para ventilar o espaço e também para espreitar e, se preciso fosse, atacar (em resposta) os invasores em cima do solo.
Existe ainda um outro túnel, escavado com o propósito de ligar a cidade subterrânea de Kaymakli, com cerca de 8 km de comprimento.
A Capadócia não pára de surpreender. Ao lado da sua mítica e inigualável paisagem que a natureza nos proporciona, quem diria que os nossos antepassados nos proporcionariam milénios mais tarde uma aula prática de história cultural acerca dos costumes e vivências dos trogloditas?

A Pé pela Capadócia

Para além das “chaminés de fadas”, existem muitas mais formas esquisitas e irreais de rochas, umas parecem cogumelos ou castelos, outras não têm pura e simplesmente representação possível. O certo é que este conjunto nos faz transportar para paisagens que parecem copiadas da lua (pelo menos segundo o nosso imaginário). A par destas inúmeras formas, a erosão deixou-nos também diferentes cores.
Existem pelo menos duas maneiras soberbas para se apreciar as várias formas das rochas da Capadócia na sua plenitude: andando por entre elas ou sobrevoando-as. Deixando esta segunda para mais tarde, foquemo-nos agora nas caminhadas.

A Capadócia, e em especial a área à volta de Goreme, é um paraíso para aqueles que gostam de longas caminhadas em terrenos praticamente intactos pela acção do Homem – se excluirmos a ocupação natural das rochas que lhes foi dada pelos nossos antepassados.
Partindo de Goreme temos inúmeros vales para percorrer. Uns mais curtos, como o Zemi Valley, em português qualquer coisa como o “Vale do Amor”. A escolha do nome terá certamente algo que ver com as formas que por aqui se encontram.

Outro relativamente fácil de percorrer, não fora o sol abrasador, é o Kilçlar (Vale das Espadas), um dos mais acessíveis, já que fica situado junto à estrada que vai de Goreme para o seu “Museu ao Ar Livre”.

Ainda que não o tenha feito, cheguei depois à conclusão de que não será assim tão difícil ou complicado ir de Goreme a Uçhisar a pé, atravessando o Guvercinlik (Vale dos Pombos). Optei por ir e vir de autocarro mas na volta quase que desisti de o esperar, não fora a noite que já tinha acabado de cair. Não deverá levar mais de 1h30m / 2h de caminhada, passando pelos trechos da Capadócia onde, provavelmente, melhor se observa a acção das bicadas dos pombinhos na rochas. Alguns dos buracos por eles feitos mais parecem escavados pelo Homem, de tão grandes que são.
De Uçhisar, outro bom ponto de assentamento para os turistas, e especialmente do seu castelo a vista é fabulosa e alcança tudo o que os nossos olhos abarcam. Todos os vales, toda a geografia da região. O castelo, em si, visto de baixo para cima, é uma montanha de rocha absolutamente esquisita mas, ao mesmo tempo, absolutamente esmagadora e encantadora. Subi-lo até ao topo constitui outra boa caminhada.

Outros percursos, um pouco mais afastados de Goreme, podem ser feitos através do Gulludere (Vale Rosa), do Kizik (Vale Encarnado) e do Devrent (Vale da Imaginação). Não os percorri por inteiro a pé mas foi por aqui que o balão de ar quente sobrevoou grande parte da sua viagem e onde “aterrou”. Como o nome do último indica, aqui podemos observar formas ainda mais diferentes daquelas que havíamos presenciado anteriormente e tentar imaginar o que representarão.



Um último poiso, em Pasabagi onde se pode caminhar por entre “chaminés de fadas” com 3 “cabeças” com os campos de vinhas por vizinhos. Provavelmente o ponto mais fotogénico da Capadócia.

Bem mais longe de Goreme, a cerca de 80 km, fica o Vale de Ihlara (outra opção muito recomendada, também algo distante de Goreme, é percorrer os Vales de Soganli mas, afinal, o tempo não chega para tudo). Aqui a paisagem não tem nada que ver com as anteriormente descritas. É um canyon (garganta), onde o verde abunda e a caminhada desenrola-se lá em baixo, a cerca de 100 metros, no vale criado pela fissura feita na terra, com um rio a ladear o nosso caminho. O percurso total chega a cerca de 14 km, mas nós fizemos apenas metade. Percurso agradável, sem dificuldades de maior, a não ser nas subidas até às igrejas escavadas nas rochas, lá bem em cima. Também este local sofreu uma forte influência bizantina e aqui voltamos a encontrar diversas igrejas com frescos muito bem conservados.