Trakai

Uma visita a Trakai é um passeio de meio dia ou dia inteiro que não se pode perder desde Vilnius.
À distância de cerca de 40 minutos de comboio ou de autocarro, por entre montes e florestas fica um conjunto de lagos e ilhas com castelos e casas de madeira. Soa atractivo e é mesmo.
Trakai é um destino que todos os lituanos parecem amar, e uma vez na Lituânia, sê lituano. 

Lá fomos nós. Saímos da estação de autocarros e percorremos aquela que parece ser a estrada principal desta pequena vila em direcção ao castelo que é um dos maiores postais do país. 
Passamos por uma igreja ortodoxa, depois por uma igreja católica, segue-se o pitoresco edifício em madeira que foi em tempos o posto de correios da Rússia imperial. 


E a partir daqui é só mimos a registar. 




Água dos lagos de um lado e do outro, mais casas de madeira se seguirmos em frente. Todas as casinhas estão restauradas e cada uma parece esforçar-se por ostentar uma cor diferente da do vizinho.


Eis que chegamos, enfim mas sem esforço, ao final desta península donde se avista claramente uma ponte que liga a uma pequena ilha e dai mais uma ponte que liga à ilha onde todos queremos chegar: a ilha onde está implantado o Castelo de Trakai, único castelo numa ilha no norte da Europa.


Avistado a meia distância, o local é fantástico mesmo num dia de pouca luz. São 3 lagos que rodeiam as 21 ilhas e, cereja no topo do bolo, o dito castelo vermelho. 




Mais uma vez, à semelhança do que acontecia no Castelo de Turaida, na Letónia, não são os espaços expositivos no interior do castelo que nos movem. É mesmo a sua implantação, rodeado de um pedaço de natureza belíssima, e o ambiente de mistério e aventura em que nos vemos envolvidos quando percorrermos os cantos deste castelo. Portões, pontes, fossos, torres, canhões e somos de novo crianças. Não foi à toa que o grão-duque Gediminas fez de Trakai a sua capital no século XIV e, diz-se, adorava passar por aqui os seus dias. 




Os lagos são ideais para se alugar um barquinho e sair a explorar as ilhas que bóiam nas suas águas, algumas dessas ilhas minúsculas. Em terra encontramos ainda as ruínas de um outro castelo.


Outra das particularidades de Trakai é ser território da minoria Caraita, uma etnia turcomana, da qual subsistem cerca de 700 indivíduos que fazem questão de preservar a sua cultura, em particular uma língua própria e os pastéis kybinlar, impossíveis de evitar por Trakai.

Vilnius

A Lituânia possui algumas semelhanças históricas e culturais com a Letónia, desde logo quando, juntas com a Estónia, vêm referenciadas como países do Báltico cujas capitais mantém centros históricos pitorescos. Outras semelhanças óbvias são o facto de os dois países, os três países, terem pertencido à União Soviética. A sua história, feita de independências e dependências ao longo dos séculos é outro paralelo que pode ser traçado. A Lituânia foi independente, os russos, os alemães e os soviéticos, à vez, exerceram por lá o seu domínio; até a vizinha Polónia o fez, tendo nos séculos XVI a XVIII com elas mantido uma união. Apesar da comida, do encanto pela natureza (floresta e lagos) e dos rituais pagãos serem muito similares na Letónia e na Lituânia, uma enorme diferença encontra-se na religião: a Letónia é maioritariamente evangélica luterana e a Lituânia católica. Como a Polónia. 


Riga antiga é uma cidade escura e gótica, Vilnius antiga uma cidade clara e barroca. Só a imagem das incontáveis torres de igrejas a dominar a paisagem não muda, talvez se reforce. De qualquer ponto da cidade se avista uma cruz.


Vilnius foi fundada em 1320 pelo grão-duque Gediminas, embora o local fosse já habitado há pelo menos um milénio. O nome Gediminas impõe-se um pouco por todo o lado. O Monte Gediminas, uma das elevações da cidade, foi o local exacto da fundação de Vilnius. Devido a trabalhos de restauro e reparação, o acesso ao monte e castelo estava encerrado por altura da nossa visita. Lamento e não posso deixar de imaginar a vista fabulosa que daqui se terá para toda a Vilnius, em particular para o centro histórico que se estende aos seus pés. Um dos maiores centros históricos barrocos da Europa, distinguido pela Unesco como Património da Humanidade. 

Começando pelo que vimos e vivemos.
A cidade velha de Vilnius é compacta, mas não fechada. Podemos adentra-la por um infindável número de caminhos, mas há certamente dois deles imperdíveis: pela Porta da Aurora (ou da Madrugada ou do Amanhecer) ou pela Praça da Catedral.


Vindas da Cidade Nova, optamos por esta última hipótese. A Praça da Catedral, no sopé do Monte Gediminas, é um local central e amplo. O único elemento de tempos idos que aqui resta é o Campanário, uma torre esbelta de 57 metros. A subida ao seu topo é não só possível como obrigatória. Por entre sinos, daqui se avista de forma privilegiada toda a cidade. 




A Catedral, em si, não é muito antiga. Em estilo clássico, para variar do barroco, data do fim do século XVIII. O interior não deslumbra. 





O contíguo Palácio do Grão-Ducado sofreu diversas alterações ao longo dos tempos e o que hoje visitamos é praticamente uma réplica do palácio barroco do século XVII. Depois de uma observação mais delicada ao relógio simples mas bonito na fachada da sua entrada, o pátio oferece-nos uma equilibrada e pacata arcaria. O interior do palácio vale a sua visita não tanto para se conhecer salões e objectos grandiosos, mas mais pela história do país que os vários momentos expositivos traçam.

Da Praça da Catedral a entrada na Cidade Velha deve ser feita pela rua (gatve) Pilies. Continuando sempre a direito, à Pilies segue-se a Didzioji e, depois, a Ausros Vartu e, no seu final, a referida Porta da Aurora. Parece simples e é simples. Três ruas sucedendo-se num continuo rasgam a maior cidade velha da Europa de Leste de uma ponta à outra. Pelo meio, muitas ruas perpendiculares para meter o nariz, muitas igrejas para recolher, muitas lojas de âmbar para visitar (passa!).


Ponto alto, porém, é o desvio para a Universidade de Vilnius. Dizer desvio é, talvez, incorrecto, uma vez que a Universidade se confunde com a cidade. Se andarmos pelas ruas movidos a curiosidade o mais certo é dar-mos connosco dentro de uma igreja ou de um pátio pertença da Universidade. Diz que são treze os pátios deste centro de ensino fundado por jesuítas polacos em 1579 e que rapidamente se tornou um centro incontornável do conhecimento na região. Adam Mickiewicz, o grande herói da literatura polaca que cresceu perto de Vilnius, é um dos nomes imortalizados numa placa no Grande Pátio, ao lado de homenagens a outros vultos da Universidade. 



O Grande Pátio da Universidade de Vilnius é um daqueles lugares mágicos. Tinha tudo para ser austero, mas naquele fim de dia transmitia, ao invés, uma tranquilidade e evasão imensas. Dentro da Igreja dos São Joãos um grupo de mulheres preparava os ramos de flores da época Pascal. A Igreja de São João Baptista e São João O Apóstolo e Evangelista é belíssima e rica, parceira perfeita do ambiente elevado que se espera de uma Universidade. O seu campanário, o edifício mais alto da cidade velha, contém um pêndulo de Foucault.




Já tínhamos dito que a curiosidade leva-nos longe, mas a falta de receio de abrir portas e ir passando entre os edifícios da Universidade leva-nos a descobertas. Não é segredo nenhum, mas o Pátio do Observatório Astronómico não possui uma entrada óbvia. A surpresa é descobrir um recanto colorido no meio de tanto tom pastel, um rasgo de génio criativo pleno de alegria numa cidade de arquitectura morna. 



Continuando a caminhada pelas ruas da cidade velha, um ponto diferente dos demais, pela sua amplitude e sensação de espaço, é a Praça da Câmara Municipal. Aqui não parece ter havido receio em romper com os modelos arquitectónicos do passado. De um lado a Igreja de São Casimiro, o mais antigo templo barroco da capital, mais um exemplo de magnificência religiosa; do outro lado, o Centro de Arte Contemporânea e a sua arquitectura moderna, feita de blocos em betão.



Mais um pouco e chegamos à Porta da Aurora, entrada ou saída da cidade. Pensávamos ter deixado as igrejas e capelas para trás, mas afinal falta ainda a Capela de Maria Mãe Misericordiosa, com a sua muito admirada Madona de Vilnius, uma imagem de Nossa Senhora que, diz-se, atende aos pedidos dos crentes.


E, por falar em igrejas, para algo diferente, há que não perder ainda a Igreja de Santa Ana, em estilo gótico e avermelhada, para variar. Nas suas traseiras fica um pacato jardim apartado do centro da cidade, embora não estejamos assim tão longe. 




Este é um bom lançamento para a coisa mais estranha que nos espera em Vilnius, o Bairro Uzupis. Este bairro de artistas declarou a sua independência de Vilnius em 1997 e na Rua Paupio para além da sua bandeira podemos ler a Constituição desta República, inscrita em várias línguas, mas não o português. São 41 os seus pontos e entre as garantias que mais aprecio está aquela que nos diz que “temos direito a ser felizes, ou infelizes”. Passada esta irreverência, impõe-se dizer que este bairro possui um ar algo decadente e os seus edifícios precisam de um restauro. A vida parece ter parado no tempo, sobretudo junto ao rio Vilnia.


Deixada a cidade velha para trás, tempo houve ainda para uma breve caminhada pela Avenida Gediminas, parte da cidade nova. O enorme edifício de arquitectura em cascata da Ópera e Ballet Nacional da Lituânia rouba a cena. 



Nas suas traseiras, o mais discreto Museu Vytauto Kasiulio é um bom ponto de partida para se conhecer a pintura viva e colorida deste artista local.

Vilnius foi, no século XIX, um importante centro judaico, daí que tivesse sido conhecida como a Jerusalém do Norte. A II Grande Guerra Mundial arrasou a população judaica e trouxe outros habitantes a Vilnius, como lituanos vindos de outras partes do país e russos e bielorussos.

O Museu das Vítimas do Genocídio não trata desta questão, porém. Instalado no antigo edifício da Gestapo e, depois, do KGB, este museu retrata a ocupação soviética da Lituânia que provocou a deportação de muitos seus cidadãos para lugares distantes do império. A perda da independência após a Guerra trouxe inconformismo por parte de muitos, homens e mulheres, jovens e não tão jovens, e entre 1944 e meados de 1960 foram anos de repressão e luta pela independência os que se viveram por aqui. Para além de nos contar as histórias das pessoas envolvidas nesta época conturbada, neste museu é ainda possível visitar as celas de detenção e de execução dos indivíduos que aqui foram presentes. Na fachada do edifício veem-se placas de homenagem a alguns dos muitos mortos. É um museu duro, mas que não se deve perder caso se queira conhecer mais sobre a história (recente) do país que se está a visitar.


País este que é hoje parte da União Europeia, tal como o meu. Foram 7 dias de chuva e frio numa semana de Primavera de Abril, algo pouco habitual nesta época no meu país. À semelhança da minha cidade, Vilnius é banhada por um rio (na verdade, dois, o Neri e o Vilnia). Mas este não se sentiu, apesar de da janela do meu hotel ver o estreito rio Neri e poder confirmar que a cidade se vai estendendo e crescendo para a outra margem. Da janela da minha casa em Lisboa não vejo o rio Tejo, mas todos os dias o sinto e caminho à sua beira, ele que é tão largo que chega a parecer um mar; não o é, mas desagua num imenso oceano a ínfimos quilómetros da cidade. Mar é elemento estranho a Vilnius e a Lituânia apenas pode dar-se satisfeita por ter o Mar Báltico por perto. 
Sol e mar não são sonhos portugueses por concretizar, que os têm de sobra. 
Mas o mar emociona sempre, mesmo a milhares de quilómetros de casa. 
Numa loja em Vilnius, o dono pergunta-me de onde sou. Ao responder Portugal, conta-me que o filho esteve há dois anos a fazer Erasmus em Lisboa e acrescenta apenas isto: “o meu filho realizou o sonho dos pais: ver, algum dia, o Oceano Atlântico”.

Está provado que o centro da Europa fica na Lituânia, a precisamente 16 kms de Vilnius. E esta é, sem dúvida, pelos edifícios que suporta, pela gentes que acolhe, pelo ambiente que se vive, uma capital europeia. Uma capital europeia a sonhar com o Atlântico.