Subida ao Monte do Colcurinho

O Monte do Colcurinho é o ponto mais elevado do concelho de Oliveira do Hospital, erguendo-se a 1242 metros de altitude. 
 
Parte integrante da freguesia de Aldeia das Dez, por aqui habituamo-nos a referir-se-lhe apenas por “o Cabeço”.
 
O Cabeço funciona quase como um guardião. De quase qualquer canto do concelho de Oliveira do Hospital ou de Arganil o vimos ou, pelo menos, sentimos.
 
Subi-lo é uma experiência arrebatadora.
 
Podemos fazê-lo de carro ou a pé. 
 
De carro, a viagem é assustadora, numa estrada absolutamente inclinada e estreitíssima cheia de curvas. Não a faço há décadas, mas tenho o medo marcado até hoje.
 
A pé, a viagem assemelha-se mais à Via Sacra em sentido literal, que não no sentido figurado que nos é apresentada no Vale de Maceira, onde começa o percurso que agora proponho de caminhada até ao Monte do Colcurinho.
 
Vale de Maceira é o lugar do Santuário de Nossa Senhora das Preces, um conjunto de 13 capelas. A 13ª capela, a de Santa Eufémia, fica um pouco mais afastada das demais e é depois dela, junto à antiga casa do guarda florestal, que se inicia o percurso pedestre de subida para o Colcurinho. 
 
Daqui até ao Cabeço são cerca 4 ou 5 quilómetros numa penitência de uma hora e meia sempre a subir. Soa terrível mas a paisagem é redentora. 
 
 
O início deste caminho aberto no pinhal é um bom exemplo do que nos espera durante todo o percurso, subidas muito inclinadas. Mas aqui temos sombra, o que deixará de acontecer em breve.
 
 
Quando ficamos acima dos pinheiros começamos a perceber, enfim, o cenário que nos espera mais acima no Cabeço: uma paisagem ampla e totalmente aberta em todas as frentes. 
 
 
Num só olhar conseguimos abarcar Aldeia das Dez, Cimo da Ribeira, Goulinho e Vale de Maceira; 
 
 
num outro olhar Chão Sobral e Alvôco; 
 
 
num outro olhar ainda Gramaça, Porto Silvado e Vale do Torno.
 
 
 
O Colcurinho faz parte da Serra do Açor e embora não seja o seu ponto mais elevado é talvez o seu cerro mais mítico e celebrado. No seu alto se construiu uma capela dedicada a Nossa Senhora das Necessidades. Conta-se que aqui apareceu a Virgem no ano de 1371 e até hoje este é local de peregrinação. 
 
 
 
Na região qualquer comemoração ou festa serve de pretexto para se subir ao Cabeço e lembro que há décadas até para cá viemos em romaria de madrugada à anunciação de uma passagem de um cometa ou chuva de estrelas. Não recordo o evento, mas recordo a noite gelada de verão que passámos enroladas em cobertores. E provavelmente também ventosa. Não é à toa que a paisagem é polvilhada por antenas eólicas. Por isso que à medida que vamos subindo a vegetação torna-se mais rasteira e vai escasseando e a aridez toma conta do lugar. 
 
 
 
 
 
 
 
Região de xisto, a urze e o medronheiro fazem-lhe companhia.
 
 
 
A aproximação ao Cabeço é um momento de alegria e a chegada ao topo uma verdadeira conquista. Feito com esforço, distinguido com um panorama superior. 
 
 
Para além das vistas que já vínhamos alcançando ganhamos agora a vista para a encosta onde está localizado o Piodão e o círculo fica completo.
 
Aqui já não interessa o que é o quê. Tudo se mistura num abraço infinito. Serra do Açor, Serra da Estrela, Serra de Montemuro, Serra do Caramulo. Ainda para mais, desta vez estou sozinha a 1242 metros de altitude e não vejo ninguém a quilómetros de distância. O mundo é o que eu quiser que seja. 
 
Contemplo a paisagem imensa e descanso no topo do meu mundo.
 
A descida é fácil. Se na subida vim pela frente debruçada para o Chão Sobral, na descida aproveito para me debruçar sobre a Gramaça, ambas também povoações distantes da freguesia de Aldeia das Dez.
 
 

(antes d)O Fogo

Os próximos 4 posts dedicam-se a passeios pelos concelhos de Oliveira do Hospital e de Arganil efectuados durante os meses de Junho e Setembro e foram escritos antes dos arrasadores fogos de 15 de Outubro. A paisagem de todos estes locais encontrava-se luxuriante, uma vegetação que desde 2005, data dos últimos grandes fogos na região, crescia livre e sem amarras. Não obstante, o tom das gentes que por aqui habitam era premonitório: não havia quem não temesse e não suspeitasse que o fogo estava para vir. 

Aldeia das Dez – Avelar – Alvôco – Aldeia das Dez

Avelar é aquela povoação que fica para lá do campo da bola, mas que em tantos verões passados em Aldeia das Dez nunca tinha tido curiosidade de espreitar.

Desta vez cheguei a Aldeia, calor tórrido a pedir um mergulho no rio, mas decidi adiar o refresco. O plano era caminhar até ao Avelar a pé, pela estrada, e depois daí até Alvôco, cair no rio e voltar por caminhos para cima até Aldeia das Dez.
Assim o fiz. 

Passei a fonte do Cabo Lugar e, como é da praxe, dei as boas tardes ao casal que aí se abastecia de água. Passei o que era a Casa do Povo e o Cemitério, já não vi o campo da bola onde há décadas ia fazer claque para o pinhal para que os coxos da nossa aldeia metessem golos, e reparei então que por esta estrada podemos não só sair para Alvôco como até chegar ao Chão Sobral. 



Afinal parece que o Avelar não é o fim do mundo. Durante anos pensei que a estrada para lá era de terra batida e que não havia saída. Nada mais errado. A estrada é de asfalto e como todas por aqui: a uma curva segue-se outra ainda mais apertada; se a ida é sempre a descer a vinda é sempre a subir; a vegetação é carregada de pinhal; a paisagem é fabulosa. 

Eis mais um pedaço da Serra do Açor.

O Avelar é um conjunto de pouco mais de uma dezena de casas, terá igualmente pouco mais de uma dezena de habitantes e faz parte de Aldeia das Dez. 


A sua localização encravada num vale é surpreendente. A serenidade é tanta que deixando o povoado para trás, já a uma certa distância do Avelar e a caminho de Alvôco, podemos ver e ouvir o chocalhar dos rebanhos que pastam lá em baixo.
Voltemos, porém, um pouco atrás na história, mas não no caminho. De Aldeia das Dez ao Avelar são cerca de 3 ou 4 kms por estrada (não sei se haverá caminhos melhores). A natureza envolve-nos de uma forma esmagadora e é difícil não nos deliciarmos com a paisagem, mas o calor já tornava a caminhada estafante quando a cerca de um quilómetro do destino o dito casal da fonte passou de carro e me ofereceu boleia, pelo que a aceitei.

Cumpre aqui referir porque apenas neste ano de 2017 se terá feito um clique na minha vontade de visitar o Avelar. Meses antes tinha lido várias cartas entre o meu avô – que não cheguei a conhecer – e um seu tio emigrado na América em que tema recorrente era as perguntas sobre a Aldeia e o Avelar. A família paterna do meu avô era do Avelar. E, mundo pequeno, claro que fiquei a saber que o condutor da minha boleia (que afinal não era um casal) era casado com uma das primas do Avelar do meu avô. O mergulho no rio ficou adiado por mais uma hora e o passeio transformou-se em conversa e troca de (escassas) memórias.


O Avelar é apenas um ponto de passagem. Embora possua uma igreja, à semelhança do Chão Sobral são as badaladas do sino de Aldeia das Dez que se fazem sentir. As poucas pessoas que aqui vivem fazem-no num completo isolamento. Passei por aqui no dia 15 de Junho, dois dias antes do fatídico dia 17 do fogo de Pedrogão Grande, mas já pensava como seria possível viver aqui com o terror de imaginar o fogo a avançar sobre nós, tão carregada é a vegetação. Aliás, curiosa e inequívoca foi a expressão de um primo (aqui todos devem ser ainda primos) quando após se ter espantado por eu andar sozinha lhe perguntei se havia algum perigo nisso. Respondeu-me que o único perigo por aqueles lados era o “homem negro”. O fogo, pois claro. E deve ser mesmo o único perigo, porque até a chave de casa ainda fica na porta, pelo menos durante o dia.




O caminho de Avelar até Alvôco são também uns 3 ou 4 kms, mas agora numa descida mais pronunciada. A paisagem continua agradável, pura floresta.

Alvôco das Várzeas fica à beira do rio Alvôco, afluente do Alva, num vale com vista para a Serra da Estrela. Vale a pena conferir a vista da estrada nacional que segue da Ponte das Três Entradas para a Vide, do lado contrário à que entrámos agora, só para compreender a sua localização absolutamente soberba. 


A estrada que vem do Avelar vai ter precisamente à ponte medieval de Alvôco, destaque total desta aldeia. Datada do século XVI, é pura elegância do alto dos seus dois arcos. Bastante inclinada, do seu topo obtém-se mais uma vista privilegiada. 






Lá em baixo fica a praia fluvial de Alvôco, diz-se que aquela que possui das águas mais limpas do país. A notar pela transparência das suas águas, não duvido. E fica então cumprido objectivo do tão desejado mergulho, ainda para mais sob uma ponte medieval. Cenário mais inspirador era difícil de encontrar. 



A subida de volta para Aldeia das Dez começa plana, nas margens do rio num vale junto à Moenda. A designação Moenda vem dos vários moinhos que por aqui existiam, alguns ainda em laboração pela região. Passamos por um rebanho e por uma tímida ribeira  devidamente acompanhada pelo tranquilo som da sua água a correr e o descanso termina. 





A partir daqui é sempre a subir. Menos de meia hora e eis que se avista formosa a igreja da nossa Aldeia miradouro.

Adeus


No sábado fomos às castanhas na Tapada. 
Guardados na memória os caminhos que a avó ensinara há tantos, tantos anos, sem perceber logo que lhe prestavam uma última homenagem os netos seguiram juntos e foram por aí acima rapando os frutos nas árvores dos vizinhos ausentes. Já ninguém passa a noite aqui, só uma pessoa cá passa os dias e os outros só passam nas férias.
As cores e os cheiros deste Novembro não nos eram assim tão familiares, mais acostumados que estávamos aos intermináveis verões da juventude.  
Ainda fomos a tempo, porém, de sentir aquela cor de laranja ofuscante dos dióspiros e aquele aroma intenso dos limões da tia da avó. 
Mais para cima, já perto dos novos marcos que nos informam serem aquelas terras nossas, uma piscina. Sim. Uma piscina com vista para a Serra. 
Não é nossa, é dos ingleses, mas afinal sempre se cumpriu a promessa da avó: temos uma piscina junto ao nosso quintal.

Aldeia das Dez – Ponte das Três Entradas – São Sebastião da Feira

Este é um percurso pedestre que se faz em cerca de 3 horas.
Saímos de Aldeia pelo caminho que tantas décadas antes percorremos, seguindo por baixo do Soito Marinho, lado a lado com a casa do vale dos primos (o percurso sugerido pela Câmara Municipal de Oliveira do Hospital é no sentido contrário, com início por cima do Soito Marinho, pelas casas novas dos holandeses, mas fazendo jus ao cognome de “Aldeia das Flores” a placa a indicar o percurso pedestre por aqui está totalmente encoberta pelas ditas flores).
Desta vez não íamos com destino à Ponte carregadas nem de lençóis para lavar nem da geleira para um piquenique depois de um mergulho no rio; nem parámos a meio para dizer olá à tia enquanto cuidava das cabras no Vale Pascoal.
 

 

Não. Hoje estes caminhos já são pouco usados e isso vê-se pelo terreno não totalmente desprovido de silvas e demais vegetação. 
Mas, como sempre, a caminhada até à Ponte é agradável, apesar de os últimos metros serem percorridos por estrada.
 
 
A pequena povoação da Ponte das Três Entradas não é mais do que um lugar. Mas dada a sua localização central – e o facto de ser parte de três freguesias (Aldeia das Dez, São Sebastião da Feira e Santa Ovaia) – aqui encontramos a escola para onde todos os alunos das redondezas vêm, bem como restaurantes, um hotel acabadinho de estrear (em substituição do velhinho Italva) e um parque de campismo. 
A praia fluvial é a maior atracção da Ponte. Pudera. As suas águas são lindas.
E a Ponte, obviamente. A sua arquitectura é original, três arcos, três entradas, duas delas mais perceptíveis, a deixar caminhar sob si os rios Alva e Alvoco, afluentes do Mondego.
 
Alva
 
Alvoco
 
Alva + Alvoco = ALVA
 
 
 
Das traseiras do hotel e sempre junto ao rio Alva é menos de meia-hora de feliz caminhada até São Sebastião da Feira. Outra praia fluvial, desta vez com uma distinta nora como coadjuvante no engrandecimento da paisagem.
 

 

 
 
De volta à Ponte das Três Entradas subimos até Aldeia por outro caminho, mais distante, aquele que segue em direcção a Avô, avista-a e vira-lhe as costas para abraçar a antiga calçada romana. Desde aqui, é sempre a subir até chegarmos às ditas casas dos holandeses e começarmos a sentir a nossa Aldeia das Dez.
 
 

Vale de Maceira

Perto de Aldeia das Dez, e parte da sua freguesia, fica o lugar de Vale de Maceira com o seu Santuário de Nossa Senhora das Preces. Este é um lugar surpreendente pelo que de bonito, interessante e bucólico pode condensar num espaço tão pequeno.
Diz-se que no século XIV Nossa Senhora das Preces terá aparecido a uns jovens no Monte do Colcurinho, não muito distante daqui, e desde aí o culto foi em crescendo e o monte tornou-se local de peregrinação. Aqui foi erguida a Capela de Nossa Senhora das Necessidades, a 1242 metros de altitude, num local ermo mas donde se abarca uma paisagem esmagadora de todas as serras à volta, incluindo a do Açor, está claro, mas também a da Estrela.
(O Colcurinho é um lugar imperdível. Poucas vezes se pode obter a sensação de se tocar no céu e ser companheiro de brincadeira das estrelas como estando no alto do Colcurinho. Há muito anos que não vou lá. As memórias impedem-me. Ok, tem a paisagem. Mas só me consigo lembrar do frio e da estrada de susto que temos de ultrapassar para lá chegar.)
Voltando ao Vale de Maceira e ao seu Santuário, o espaço de peregrinação foi para aqui transferido, uns 600 metros de altitude abaixo e pouco mais de 10 kms de distância, não se sabe muito bem quando. Talvez no século XVIII. 

Envolvido pela intensa vegetação, depois de passarmos as poucas habitações do Vale de Maceira, entramos no Santuário e temos ao nosso dispor a igreja de Nossa Senhora das Preces, a maior capela. Seguem-se nas proximidades mais 12 capelas e uma 13.ª, a Capela de Santa Eufémia, mais distante e já a caminho do Piodão. Todas elas representam episódios da vida de Cristo numa caminhada aprazível para nós (as capelas foram restauradas há pouco tempo, não sem alguma polémica no que respeita à autoria dos trabalhos de restauro). Mais distante ainda fica a anteriormente referida Capela de Nossa Senhora das Necessidades, no alto do Monte do Colcurinho (a qual não é mais a original, tendo sido reconstruída diversas vezes, a última das quais não há muito tempo em consequência da sua destruição pelo fogo).
Ao redor da igreja de Vale de Maceira temos mais para nos deliciar para além das questões da fé. A vegetação e o arvoredo são esmagadores. Na pequena mata abaixo da igreja podemos apreciar uma pequena maravilha da botânica num espaço absolutamente recolhido e acolhedor. Diz-se que serão cerca de 38 as espécies botânicas passíveis de ser encontradas por aqui, para além de pequenos lagos e uma gruta em granito.

Cá em cima, junto à igreja, destaca-se o edifício da Albergaria (com possibilidade de acolher alguns peregrinos na dormida) e um belo coreto, para além de mais um lago com repuxo e um chafariz monumental.

Aldeia das Dez em fotos

Eis um passeio fotográfico por Aldeia das Dez:

Depois de passarmos o casarão dos Hall, temos logo à nossa disposição o primeiro miradouro, aquele que nos mostra a Ponte das Três Entradas e o Rio Alva lá bem em baixo 

O casarão do vale fica logo a seguir

E o palacete da tia Amélia (será sempre da tia Amélia) fica lado a lado com a capela 

 A Capela de Nossa Senhora das Dores e os seus azulejos simples

A vista fabulosa para a Serra da Estrela do Hotel Rural Quinta da Geia

As casinhas em granito sempre alindadas

É hora de subir a Rua do Forno e olhar para a ruína da Casa da Obra (ou Solar Pina Ferraz)

Ou então, avançar até à praça principal e escolher entre a esquerda e mais um miradouro ou a direita e o pelourinho e a fonte

Parece que o marco e o telefone que usávamos para enviar cartas e telefonar à mãe é agora o maior postal da Aldeia

Subindo as escadinhas encontramos a já centenária Fonte do Marmeleiro, onde a avó ia buscar água com o cantâro (muito bem) equilibrado na sua cabeça 

“Bom para limpar os sapatos”, diria a avó 

Chegamos ao adro, visitamos a igreja, ouvimos o sino, olhamos a Serra da Estrela e o Chão Sobral e descemos novamente

Olha a casa da velhinha Diná tão arranjadinha e cheia de florinhas 

Mais flores à janela

Fartas de olhar a Serra da Estrela, que tal olhar antes para a Serra do Açor?

Aldeia das Dez, das Flores, dos Miradouros

A viagem de Lisboa a Aldeia das Dez nos anos 80 era ainda um tormento. A partir de Coimbra, curvas e mais curvas. A melhor companhia não eram os pais, era antes um saquinho para as consequências do enjoo. Nos anos 90 o Ip3 atenuou parte do sofrimento e hoje cada vez mais lanços de estradas novas se vão vendo na paisagem para tornar a viagem mais rápida e confortável. Todavia, das Vendas de Galizes até Aldeia das Dez as curvas continuam. E ainda bem que continuam, são património histórico elas próprias. 

Queixas de quem já não é do tempo do quase isolamento da Aldeia, do tempo em que não havia estradas e tudo era percorrido a pé.
Começando por aqui. 
Histórias de quem ligava a pé Aldeia das Dez a Santa Ovaia, a Avó, ao Chão Sobral e a tantas outras, sempre as ouvi e até vivi algumas. Nas nossas saudosas e saudáveis intermináveis férias de Verão, a avô e as netas tinham de ir na carreira até ao Vale de Maceira e, depois, desde aí até ao Chão Sobral a pé; para um mergulho no rio íamos a pé até à Ponte das Três Entradas, lancheiras e geleiras a tira colo (a mãe até hoje se lamenta sem saudade da pouca saúde que era o programa de férias de ir lavar os lençóis ao rio – de carro, valha ao menos).

Hoje, décadas volvidas e após 10 anos sem estar / ficar em Aldeia, as distâncias parecem coisa pouca. Afinal, as coisas têm a dimensão que lhe queremos ou sabemos dar.
Aldeia das Dez é sede de freguesia, no concelho de Olivera do Hospital, e tem pouco mais de 500 habitantes.
A sua história remonta com certeza ao período da ocupação romana na Península Ibérica. Talvez antes mesmo dos romanos aqui houvesse um povoado, ainda que escassamente habitado. Mas com os romanos, a estrada militar imperial Salamanca – Conimbriga obrigava à sua guarda e conservação, exigindo a presença de alguns indivíduos em permanência nestas terras. Ainda hoje, ligando a pé Avô a Aldeia das Dez podemos encontrar vestígios da calçada romana. E no princípio do século passado foram achadas algumas moedas romanas por aqui, o que torna inequívoca a ocupação romana, tendo estes destronado os lusitanos no século II a.C. Seguiram-se os bárbaros do norte, os muçulmanos e, por fim, os cristãos.

No início a aldeia não teria o nome de Aldeia das Dez. 
Mas há registo de que já em 1527 D. João III teria mandado proceder ao numeramento da população das Beiras e aí se mencionava o lugar de Aldeia das Dez (Aldeia das Dez tinha então 49 habitantes, Avô 59, Piodão 2, Soveral – hoje Chão Sobral – 8 e Vale de Maceira 5).
O nome será, talvez, a curiosidade maior desta aldeia, sendo rara a pessoa que não indague um forte “das Dez?” como reacção à sua designação.
Várias hipóteses existem; nenhuma certeza porém.
Uma hipótese de partida é que a palavra “aldeia” é um termo árabe composto do artigo al e do substantivo diâr – há muitos séculos que se chama Aldeia a toda a parte leste de Avô. 
Depois, podemos recorrer à lenda que nos diz que durante a Reconquista cristã dez mulheres terão encontrado um tesouro numa caverna situada na encosta do Monte do Colcurinho e terão repartido esse tesouro entre si e, num pacto entre elas, passaram as suas peças de geração em geração, até hoje (o segredo deve ter sido muito bem guardado e nenhuma das minhas ascendentes me legou nada ou então a minha geração não descende de nenhuma dessas dez senhoras).
Outro dos palpites é que a aldeia antiga se terá repartido pelos povoadores em dez courelas, conforme nos dizia Diamantino Antunes do Amaral, na Voz do Santuário, em 1969.
Certo é que para além de Aldeia das Dez encontramos tradicionalmente ao seu redor mais seis casais, como Avelar, Vale de Maceira, Goulinho, Chão Sobral, Colcorinho (o ponto mais alto da freguesia, a 1240 metros de altitude e com a capela de Nossa Senhora das Necessidades no seu topo) e Gramaça. Hoje também o Cimo da Ribeira ganhou individualidade.
Fora estes, em Aldeia há diversos lugares com nome próprio como o Secolinho, Cabo Lugar, Outeiro da Cruz, Soito Meirinho e muitos mais. 
Nomes é o que não falta por aqui e fico com uma imensa pena por já não saber chegar à Regada, à Retorta, ao Samaldo, à Moenda e ao Vale Pascoal, fora todas as Tapadas que ainda são nossas.

Nos dias de hoje Aldeia das Dez está com uma forte dinâmica, sobretudo à boleia de dois factores: a construção do boutique hotel Quinta da Geia, a qual começou em 1998, e a integração da aldeia no roteiro das Aldeias do Xisto, em 2011, apesar de aqui ser o granito o rei.

Estará ainda muito bem gerida, de que são exemplos as abundantes decorações florais – esta é também conhecida como “Aldeia das Flores” – e a reutilização do edifício desde sempre conhecido como Casa da Obra, antigo Solar Pina Ferraz, para eventos cénicos, musicais e outros.

As casas da Aldeia estão bem cuidadas no geral e vemos algumas bem antigas ainda de pé e recuperadas.

As fontes são várias e bem bonitas.

Existem duas capelas e uma igreja. A igreja matriz, devotada a São Bartolomeu, é um exemplo muito interessante quer no seu exterior quer no seu interior, com destaque para o belo trabalho artístico em madeira da tribuna lateral, realizado por artesãos e técnicas locais, e para o retábulo em talha dourada.

Aqui, em Aldeia, até o cemitério velho está arranjado e é bonito, já sem as campas que nos faziam inventar cenários.
Aldeia das Dez tem ainda outro epíteto, o de “Aldeia Miradouro”. Eis porquê:

A minha Aldeia das Dez

Aldeia das Dez é e será sempre a terra da minha avó. 
Desde sempre me habituei a ouvir falar do Rato, dos Caganeiras, do Galo, dos Catitas, do Zarolho. Tudo apodos, uns levados com ofensa, outros já parte assumida da personalidade das famílias. 
O Tóino Marques subia a rua para ir tocar o sino, a Maria do Bento descia a Tapada para regressar a casa e a avó Quitas lá vinha velhinha com o seu marido Augusto Belo. A peixeira parava em frente à nossa casa e apregoava “Mariazinha, ó menina Mariazinha, quer cá peixe?”.
Ir lá baixo à Lurdes fazer recados significava ir comprar qualquer coisa ao mini-mercado; ir “lá lém” significava ir a casa das tias.
Aos domingos de manhã não podíamos sair de casa para brincar porque era a altura em que todos se dirigiam ao adro para a missa na igreja da Aldeia e nós morávamos no adro. Pior, sem contemplações a avó obrigava-nos a vestir os vestidos brancos de renda e folhos, mesmo que não saíssemos de casa, no estrito cumprimento das ordens da mãe. De tarde, mesmo com o calor no topo, lá a convencíamos a ir andar de bicicleta em consecutivas voltas à igreja, pedalando o mais rápido possível quando passávamos a porta do cemitério velho.
Daqui do adro deixávamos-nos estar a ver os foguetes disparados rumo ao céu durante as festas, não só em Aldeia mas em todas as terras vizinhas. E daqui do adro víamos aterrorizadas o fogo que demasiadas vezes consumia as terras da serra.
Muitos domingos à tarde íamos ainda ao campo de futebol e sentadas nas pedras da floresta, bancadas improvisadas, puxávamos e aplaudíamos os nossos “coxos” que tentavam jogar à bola no pelado lá em baixo.
Nas tapadas íamos buscar o material que nos permitia fazer os arcos e as flechas e as penas dos índios. Todos queríamos ser índios, nenhum cowboy.
Mas uma das maiores lembranças que trago de Aldeia das Dez está lá ainda para ser apreciada e sentida por qualquer um de nós, local ou forasteiro, visitante de sempre ou de primeira viagem: as badaladas saídas do sino a chamar para a missa, as badaladas saídas do sino a dar conta de que alguém morreu. Pura melodia.
Voltando ao início, se a minha família tem apodo, não o sei. A mim ainda hoje basta dizer que sou da Mariazinhha e antes que acrescente … do adro, já todos sabem de quem estou a falar. Pode uma senhora de 97 anos ainda carregar o cognome de Mariazinha? Pode. Bem vindo a Aldeia das Dez.

Aldeia das Dez

Alcandorada na encosta Norte do Monte do Colcurinho, Serra do Açor, e sobranceira ao Rio Alvôco. É aí que se situa esta aldeia.
É uma aldeia que, como muitas outras, tem uma igreja, cujo sino toca de hora a hora, e um adro.

Tem uma banda filarmónica que toca nos dias de festa que, quando são religiosas, têm sempre uma procissão, a maior das quais no dia do padroeiro S. Bartolomeu (24 de Agosto).

É uma aldeia em que, como todas as outras por este país, nas festas as mulheres dançam com as mulheres porque os homens preferem o tintol.
É uma aldeia onde é possível ter uma aula de astronomia a céu aberto porque o ar é impoluto.
Uma aldeia rodeada por pinhal e com vistas desafogadas, serenas e bonitas. Uma aldeia que funciona como miradouro, pois é possível avistar o topo do Colcurinho, a Serra da Estrela e outras aldeias serranas.

Uma aldeia onde se fazem e se come cavacas e tijelada.
Esta aldeia podia ser como muitas outras espalhadas por aí. Mas não. Esta é especial. É aqui que estão as minhas origens familiares paternas. Onde passava, quando era miúda, Verões intermináveis e despreocupados. Dias que começavam com o despertar ao som único do sino da igreja. Que eram passados a andar de bicicleta à volta do adro da igreja. A tentar jogar à bola também no adro da igreja. Embora esta missão fosse quase impossível porque havia, para algumas mentes, um conflito entre o sagrado e o profano (!!??). A brincar aos índios e cowboys nos pinhais, onde todos queriamos ser índios para podermos usar os arcos e flechas feitos por nós. A atazanar as galinhas, coelhos e gatos. Dias a tentar convencer, sem efeito, a avó que brincar a seguir ao almoço com 40º dá saúde e faz crescer.
Por todas estas memórias também eu canto a marcha da Aldeia das Dez (1945):

Nossa aldeia terra airosa
Linda alegre e singular
Cada pedra é uma rosa
Enfeitando o lindo altar

(…)
Cantemos à nossa terra
Nosso abençoado lar
Os encantos que ela encerra
São tais que não têm par

Terra que é nosso amor
Outra não vemos melhor
Nem por certo deve haver
De tanta gente lhe querer
Não cansemos de a louvar