A minha Aldeia das Dez

Aldeia das Dez é e será sempre a terra da minha avó. 
Desde sempre me habituei a ouvir falar do Rato, dos Caganeiras, do Galo, dos Catitas, do Zarolho. Tudo apodos, uns levados com ofensa, outros já parte assumida da personalidade das famílias. 
O Tóino Marques subia a rua para ir tocar o sino, a Maria do Bento descia a Tapada para regressar a casa e a avó Quitas lá vinha velhinha com o seu marido Augusto Belo. A peixeira parava em frente à nossa casa e apregoava “Mariazinha, ó menina Mariazinha, quer cá peixe?”.
Ir lá baixo à Lurdes fazer recados significava ir comprar qualquer coisa ao mini-mercado; ir “lá lém” significava ir a casa das tias.
Aos domingos de manhã não podíamos sair de casa para brincar porque era a altura em que todos se dirigiam ao adro para a missa na igreja da Aldeia e nós morávamos no adro. Pior, sem contemplações a avó obrigava-nos a vestir os vestidos brancos de renda e folhos, mesmo que não saíssemos de casa, no estrito cumprimento das ordens da mãe. De tarde, mesmo com o calor no topo, lá a convencíamos a ir andar de bicicleta em consecutivas voltas à igreja, pedalando o mais rápido possível quando passávamos a porta do cemitério velho.
Daqui do adro deixávamos-nos estar a ver os foguetes disparados rumo ao céu durante as festas, não só em Aldeia mas em todas as terras vizinhas. E daqui do adro víamos aterrorizadas o fogo que demasiadas vezes consumia as terras da serra.
Muitos domingos à tarde íamos ainda ao campo de futebol e sentadas nas pedras da floresta, bancadas improvisadas, puxávamos e aplaudíamos os nossos “coxos” que tentavam jogar à bola no pelado lá em baixo.
Nas tapadas íamos buscar o material que nos permitia fazer os arcos e as flechas e as penas dos índios. Todos queríamos ser índios, nenhum cowboy.
Mas uma das maiores lembranças que trago de Aldeia das Dez está lá ainda para ser apreciada e sentida por qualquer um de nós, local ou forasteiro, visitante de sempre ou de primeira viagem: as badaladas saídas do sino a chamar para a missa, as badaladas saídas do sino a dar conta de que alguém morreu. Pura melodia.
Voltando ao início, se a minha família tem apodo, não o sei. A mim ainda hoje basta dizer que sou da Mariazinhha e antes que acrescente … do adro, já todos sabem de quem estou a falar. Pode uma senhora de 97 anos ainda carregar o cognome de Mariazinha? Pode. Bem vindo a Aldeia das Dez.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s