Pedalando a Bolivia

Muitas viagens e muitos meses na Bolivia seriam necessários para que pudessemos pedalar à nossa vontade.
Ficámo-nos pela “Estrada Mais Perigosa do Mundo” de La Cumbre, arredores de La Paz, até Coroico, na floresta dos Yungas.
Mas um bom resumo de parte do que visitámos pode ser feito recorrendo às fotos de outros pelas paisagens bolivianas.


As auto-estradas pelos desertos de terra;


Os salares feitos avenidas;


Rolando pelas lagoas;


As montanhas sempre por perto.

24 de Setembro – La Paz – Lisboa

Bolivia Cumpre!

Em viagem, de férias, se tudo corre bem e se nos sentimos em casa em país estrangeiro, muito pouca vontade há em voltar. Foi o caso. Duas semanas passam num instante em qualquer local e momento, mais ainda se for num país como a Bolívia e se à volta nos espera o trabalho logo no dia seguinte.
À chegada ao aeroporto reparei que trazia a chave do hotel no bolso do blusão. Nunca tal me havia sucedido – devia ser um aviso. Na fila para o check-in a funcionária da Lan Chile fez-nos uma proposta verdadeiramente indecente – dava-nos 300 dólares para seguirmos viagem só daí a dois dias (dinheiro suficiente para 2 pessoas passaram aqui 1 semana em grande). Muito a custo me contive, para o que muito contribuiu o facto de, ao fim de largos anos, no princípio do mês de Setembro ter iniciado a minha vida como assalariada com contrato sem termo. Uma frustração incrível para quem há tantas viagens sonhava com o momento em que seria paga para aceitar ficar overbooking.

O itinerário da volta foi tão curioso como o da vinda: La Paz – Iquique – Santiago – Madrid – Lisboa.
Aliás, só à chegada ao aeroporto de El Alto é que nos apercebemos que não iríamos directamente para Santiago mas faríamos antes uma paragem em Iquique.
Tanto melhor.
A viagem La Paz – Iquique é curta e, por isso, o avião voa a baixa altitude. Melhor dizendo, a diferença entre o avião e o solo é curta, o que acontece é que este último toma altitudes tão elevadas que quase parece querer alcançar o avião. Assim, assistimos de um lugar privilegiado a mais um desfilar de paisagens de tirar o fôlego – salares, montanhas, vulcões e, à medida que nos íamos aproximando de Iquique, uma novidade… um cheirinho a deserto de Atacama. Uma peculiar formação geográfica por aqui faz com que as elevações passem a ser estreitíssimas e acabem abruptamente a poucos metros das águas do mar. Como que uma barreira dividindo os Andes do Pacifico.

De Iquique a Santiago a viagem é um pouco mais longa. No entanto, a aproximação à capital do Chile é outro momento inesquecível. Em 1998 havíamos aterrado e levantado voo algumas vezes em Santiago e então pela primeira vez pudemos assistir e sentir o panorama de parte da extensa Cordilheira dos Andes desde cá de cima. Desta vez voltámos a ter sorte com o visual das montanhas nevadas que marcam a paisagem da grande cidade.

De volta a Madrid e, depois, a Lisboa, o cansaço era total. Mas o deslumbre não tinha ainda terminado.
O cenário da aproximação à nossa cidade, esse, sempre maravilhoso, faz com que qualquer olhar se torne milagrosamente vivo e atento no jogo do reconhecimento das imagens dos locais que nos acompanham no nosso dia a dia.
Enfim… a eterna contradição – não querer deixar o lugar de onde se volta mas querer sempre voltar.

23 de Setembro – La Cumbre – Coroico, a “Estrada Mais Perigosa do Mundo”

Levávamos já reservada e destinada para o dia de hoje – domingo – uma jornada de bicicleta pela “Estrada Mais Perigosa do Mundo”.
Esta designação assustou-me e muito. Apesar de termos por hábito fazer passeios largos por Lisboa e arredores aos domingos, não tinha muita vontade em ficar maltratada fora do meu país. Quem anda de bicicleta sabe-o, uma queda pode sempre acontecer e se íamos para a “Estrada Mais Perigosa do Mundo” então as possibilidades teóricas de isso acontecer aumentariam.
Mas a isso nos propusemos, ansiosas.
Aqui chegadas já nos tínhamos apercebido que esta aventura era bem mais comum do que à partida se poderia imaginar. São às mãos cheias as agências em La Paz que vendem o passeio de bicicleta entre La Cumbre e Coroico pela dita estrada. Ou seja, esta é uma opção bem popular para os turistas ocuparem um dos seus dias nos arredores de La Paz ou, até, para chegarem à floresta dos Yungas – a região que faz a transição dos Andes para a Amazónia – e aí permanecerem uns quantos dias no meio da intensa vegetação em intermináveis caminhadas. Muito há a explorar por aqui e, acredite-se, há mesmo quem troque uma caminhada até Machu Picchu por uma estadia nos Yungas. E, não duvido, não se arrependem.

Voltando à viagem de bicicleta pela “Estrada Mais Perigosa do Mundo”, esta começa em La Cumbre, a uma hora de autocarro de La Paz e a 4700m de altitude. São 64km praticamente sempre a descer até perto de Coroico, mais precisamente no refúgio La Senda Verde Animal, em Yolosa, a 1100m de altitude.
É fazer as contas: são 3600 metros de diferença de altitude.
Com início em picos nevados (o dia amanheceu com muita neve aqui em cima), céu limpo e muito frio, passagem por zonas intermédias algo nubladas e com alguma chuva, até à chegada ao destino com céu fechado, muita humidade e tempo quente. Todas as estações do ano condensadas num só dia em pouco mais de meia centena de km de distância. Da montanha à floresta.

Quanto ao título de “Estrada Mais Perigosa do Mundo”, esta infra-estrutura boliviana ganhou-o em 1995 do Banco Inter-Americano de Desenvolvimento (BID).
E porquê este “prémio”?
Pela estrada de terra, em terreno chuvoso e muitas vezes com nevoeiro, fraca visibilidade, falta de guarda-rails e, principalmente, pelo terror dos precipícios à beira da estreita estrada onde só com muita imaginação se poderá pensar que 2 veículos serão capazes de se cruzar.
Esta estrada foi construída nos anos 30 do século passado aproveitando o trabalho dos prisioneiros paraguaios da Guerra do Chaco que opôs a Bolívia ao Paraguai. Até princípios deste ano, quando foi aberta uma estrada nova quase paralela à antiga (ainda que falte a abertura da totalidade dos troços, numa obra que tem perdurado no tempo e cujo desvio orçamental também deverá ser digno de um título dos mais mais), estima-se que por ano 200 a 300 pessoas ali tenham morrido e que uma média de 25 veículos ali tenha desaparecido em quedas pelos penhascos abaixo. Pela estrada vão-se vendo diversas cruzes marcando os locais onde ocorreram os acidentes, os quais não conseguem ser evitados nem pela regra de circulação especial que aqui vigora: quem desce não segue pela direita mas antes pelo lado de fora da estrada, seja qual for a mão, enquanto que quem sobe fá-lo pelo interior da estrada, para que o condutor possa ter sempre a melhor visibilidade, mantendo a ravina sempre do seu lado.

E isso será bom, ter a ravina bem ali junto a nós? Confesso que quase me recusei a cumprir esta regra de circular por fora, mas afinal, com a abertura da nova estrada, acabámos por não nos cruzar com mais de uma mão cheia de veículos. Alguns ainda preferem utilizá-la, pois sabem que terá escasso trânsito, quase exclusivo das bicicletas nos dias de hoje.

Em relação à dificuldade do passeio, direi que além de nós o nosso grupo era composto por 2 alemães sozinhos na casa dos 30 anos, 2 casais espanhóis na casa dos 40-50 anos, 1 casal suíço na casa dos 20 anos e 2 casais brasileiros na casa dos 20 anos abrangendo uma garota que nunca tinha andado de bicicleta na vida. Claro que por mais que nos digam que este passeio pode ser realizado por qualquer pessoa, manda o mínimo de inteligência que nos consigamos por em cima da bicicleta não por 1 mas antes por 64km. Foi a única e esperada desistência da turminha.

À partida de La Cumbre, junto a uma lagoa a servir de espelho (um primeiro indício das paisagens fantásticas que atravessaríamos), segue-se uma louca e rápida descida por um troço da estrada asfaltada e em boas condições.

Foram cerca de 20km em asfalto a descer, com excepção de cerca de 1km de uma dura subida, ainda que a inclinação não fosse nada por aí além. Metade do grupo (na qual não nos incluímos) meteu a viola no saco, que é como quem diz, a bicicleta no autocarro, e seguiu viagem na batota. Há que não esquecer que qualquer esforço físico realizado acima dos 4000m de altitude é inclemente e arrasador.

Depois destes primeiros 20km entrámos pela estrada velha para fazer os muitos kms restantes em terra batida. Aqui, sim, o grau de dificuldade aumenta à medida que o cenário de aventura no limite também aumenta. Há que dividir a atenção pela paisagem soberba pela atenção que se tem de dedicar ao controlo da bicicleta, pois existe algum perigo de uma pedra qualquer nos desviar do caminho e nos fazer cair. Benditas paragens que se iam fazendo a cada 8–10 km, não só para se descansar o corpo, em especial as mãos, doridas de tanta trepidação, como também para se observar toda a luxúria da natureza e irreflectitude do Homem na construção de uma via fracamente assente na montanha.

A chegada ao refúgio La Senda Verde Animal, umas 6-7 horas após o inicio das pedaladas, surpreende mais uma vez. À beira de um pequeno curso de rio, um hotel que mais parece um jardim zoológico, tantas e tão variadas são as espécies animais que aqui encontramos ao virar de cada galho. Macaquinhos, papagaios, galinhas de Angola, coelhos e até um pequeno lince.

A volta a La Paz fizemo-la pela estrada nova, já de noite, e duvido que esta passasse no teste de garantia de segurança mesmo para os padrões portugueses. Continua estreita mas é asfaltada. Tem mais alguns km mas é mais rápida. Curioso observar que um ramo de árvore aqui desempenha também as funções de triângulo para uma camioneta avariada na estrada.
A aproximação ao presépio de La Paz foi uma excelente forma de acabar este dia que era, também, o acabar de uma jornada de 2 semanas pela Bolívia. Em beleza.

22 de Setembro – La Paz

Para hoje decidimos contratar um táxi para tentarmos conhecer alguns locais dos arredores de La Paz. O centro da cidade não é muito difícil de percorrer caminhando. No que toca ao resto a música é diferente.
Para El Alto, por exemplo, há que subir bastante e o recorrido a pé ou é feito pela estrada (a levar com razias e a fumarada dos carros) ou pelas escadarias e ruas improvisadas que cercam os prédios dos paçenhos. Ou seja, mesmo que possível, ninguém o faz.
Para a zona sul, distante 6 km do centro, e onde ficam os bairros ricos de Obrajes, Calacoto e Los Piños, só se chega mesmo de carro, uma vez que existem umas vias rápidas ao longo do algo desértico vale (nesta secção), como que marcando claramente a fronteira das classes sociais. Assim, e num resumo talvez demasiado simplista e redutor, mas que não fugirá muito à verdade, temos os pobres em El Alto, os remediados no centro de La Paz e os ricos na zona sul.
E para o monte Chacaltaya, para o qual há que subir e subir, como se La Paz e El Alto já não estivessem suficientemente perto do céu, se não fosse o transporte automóvel nem os 4 dias dedicados a La Paz seriam suficientes para o alcançar.

Começámos a manhã pela subida ao Chacaltaya. Convém sair bem cedo, pois a viagem de táxi faz-se em 1h 30m (isto se o taxista não se armar em parvo como aconteceu connosco – estava a ser pago à hora – e não resolver fazer o ainda que péssimo caminho de terra batida a 10km por hora)
Na primeira metade da viagem tenta-se ultrapassar o caos de El Alto, na segunda metade contempla-se a desordem urbanística de El Alto. Mas não só. Também se contempla o vale com o centro de La Paz que se vai deixando cada vez mais para trás e para o fundo e os picos nevados que nos vão cercando.
Pena que o céu não estava completamente aberto neste dia e, assim, foi impossível ver o Monte Illimani, sempre omnipresente em qualquer canto de La Paz, com o seu pico a 6438m (o segundo pico mais alto de toda a Bolívia, só superado pelos 6542 do Sajama). No entanto, por sorte, no nosso primeiro dia em La Paz havíamos conseguido vê-lo. Hoje apenas o pudemos sentir.
Mas o Huayna Potosi, na mesma direcção do Chacaltaya, esse estava bem visível. Tem 6088m e há quem diga que é a ascensão mais fácil de todos os “picos 6000”. Não o confirmámos (aliás, para além dos espaldares das salas de ginástica da primária, nunca escalamos nada).
Depois destes números, compreende-se que diga que o Chacaltaya, o nosso destino, se queda apenas pelos 5421m. No entanto, o carro pára cerca de 200m abaixo, onde se situam as instalações do “centro de ski mais alto do mundo”.

Chamar pista de ski ao que se vê à volta é ter muito mais do que boa vontade. Hoje tudo está desactivado mas, ainda assim, custa a crer que estas geringonças alguma vez tenham funcionado. Fica, então, o momento João Garcia da vida – a subida a pé dos quase 200m mais difíceis, dolorosos e esgotantes da minha vida. Acontece que, com quase duas semanas a permanecer sempre perto dos 4000m, já sei bem que devo seguir passinho a passinho e parar entre cada 3 ou 4 dezenas deles. Paragens estas que até dão muito jeito para melhor fruirmos da vista fabulosa à nossa volta, ou melhor, da vista que imaginamos fabulosa, que o tempo não foi totalmente simpático para as manas.

Descemos de volta para El Alto. Como referi no post anterior, esta é uma verdadeira cidade que se foi criando junto à capital. E é daqui, precisamente, que se obtêm as melhores vistas de todo o vale onde está implantada La Paz. Com o conhecimento do taxista, depois de furarmos o mar de feiras que se instalam em El Alto todos os dias, e em especial aos sábados, fomos directamente aos miradouros.

O que a vista alcança é inacreditável. O espaço de solo está quase que por completo ocupado por edifícios encavalitados uns nos outros onde não se distingue qualquer espécie de planeamento urbanístico. Tudo foi crescendo da forma mais desordenada que se possa imaginar, sem áreas verdes ou sequer infra-estruturas tão básicas como o são as estradas. As ladeiras dominam a cidade, com a escadaria sem fim fazendo-nos questionar como se pode ter acessos assim às habitações.

Mas isto está longe de ser o pior. Saneamento básico é algo que tomamos como garantido aqui na nossa Europa mas que em La Paz parece ser, na maioria, apenas uma miragem. Muitas das habitações não têm casas de banho. Daí que aquilo que pisei no chão possa não ter nada a ver com os cães, como sempre penso quando tal me acontece no meu país. Finalmente entendo porque se vê “baños públicos” por todo o lado. Mas fico sem entender porque inscrevem nas paredes “phroibido orinar” se as mais das vezes não há outro lugar para o fazer.
O dramático da questão é que muito trabalhinho de engenharia haverá a fazer por aqui para dotar uma zona imensa e grandemente povoada de condições sanitárias que alcancem o básico.
O mais incompreensível é que todo este urbanismo de 3.º mundo pode seduzir. E seduz.
O caos pode ser belo.
À noite, ainda que nem todas as casas tenham luzinhas acesas (suspeito bem que muitas habitações careçam de electricidade), vê-se ainda assim um cenário digno de presépio. O mesmo a que assistimos face às favelas do Rio de Janeiro. Mais uma vez, o caos tornado belo.

Em El Alto, e no meio das casas inacabadas em tijolo ocre, um facto curioso: dominando a paisagem aparecem amiúde umas igrejas com uma arquitectura que não esperaríamos encontrar nesta América Latina. São influência do padre Sebastian Obermaier, um missionário alemão que se instalou em El Alto.

A Zona Sul da cidade é de uma diferença brutal para a La Paz que a maioria dos viajantes na cidade chega a conhecer.
Aqui vêem-se centros comerciais modernos, carros de último modelo (ou pelo menos recente) e moradias modernistas, inspiradas no que os seus ricos proprietários (a maioria empresários e militares) vêem no estrangeiro, com muros de mais de 3 metros de altura, talvez lembrando ao boliviano comum que aquele é um espaço que está longe de ser o dele. Tudo isto deixa adivinhar o bem que se pode viver por aqui, convivendo sem preconceitos com a pobreza e a ausência de equipamentos básicos para o cidadão.
Com isto reforço a ideia de que a cidade é o espaço mais democrático que existe – para ricos, para pobres, para todos; o que não existe é a igualdade de meios para que cada um possa escolher viver a parte da cidade que mais aprecia.

De volta ao centro da cidade, tivemos ainda tempo para 2 roteiros culturais: a exposição World Press Photo no Convento de São Francisco e a visita ao Museu Nacional de Arte.
Este último está instalado num palácio do século XVIII soberbamente restaurado. O seu páteo é lindo e não poderia haver melhor local para acolher a arte boliviana, desde os seus primórdios até hoje. Ou seja, desde o mestre Melchor Perez de Holguin até ao nosso contemporâneo (de século) Cecilio Guzman Rojas. Gostámos muito das pinturas deste último, tal como algumas obras de David Crespo Castelu, Miguel Alandia Patoja e Lorgio Vaca – tudo nomes que nos eram absolutamente estranhos e que, infelizmente, não conseguimos ver reproduzidos os seus trabalhos na internet. Quanto tempo durará a minha péssima memória visual?

A noite terminou com o momento mais turístico da viagem. Podíamos dele fugir mas não tivemos nem temos a pretensão de nos excluir do grupo de turistas para nos integrarmos somente no dos viajantes. Fomos à Peña Huari, um espectáculo de folclore boliviano – música e dança – com jantar incluído no preço algo salgado da coisa.

De volta para o hotel, uma pequena amostra do que pode acontecer numa cidade onde se vão construindo casas por aí acima: se chove, vem tudo por aí abaixo. Num ápice, a forte chuvada que caiu fez com que as ruas parecessem autênticas cascatas e ficámos a imaginar que as frágeis construções empoleiradas mais acima no vale se desmembrariam à mais pequena enxurrada. Por certo, não fugiriamos à verdade.

21 de Setembro – Puno – Copacabana – La Paz

Hoje começo o relato do dia pelo seu fim.
Chegámos a La Paz quase ao fim da tarde mas ainda a tempo de um passeio pelo Mercado Negro (onde se vende de tudo o que se possa imaginar, desde roupa, electrodomésticos, brinquedos, peças de carro, tintas, tudo muito bem dividido por zonas especificas numa área enorme situada numas ruas acima do nosso hotel – novamente o Rosário (http://www.hotelrosario.com/la-paz/) e por uma visita mais às lojas onde que queríamos comprar mais uns “recuerdos”.
Depois fomos calmamente pelo El Prado fora até para os lados da Plaza Avaroa, no bairro classe média-alta de Sopocachi, onde se encontram os melhores restaurantes da cidade (para o lado do nosso hotel é tudo demasiado turístico). Foram cerca de 40 minutos de uma caminhada branda, sentindo o ambiente e a agitação da grande cidade, especialmente fazendo horas para o jantar. Tentámos o primeiro restaurante (indicado como o melhor – os nossos euros sobre avaliados assim o permitem em La Paz) e … só com reserva. Tentámos outro e mais outro e … a mesma cantilena. Eram cerca das 19:15, os restaurantes encontravam-se vazios e a fome e o cansaço não me permitiram outra apreciação senão a péssima imagem de pretensiosismo destes rapazes dos restaurantes, qualquer coisa do género “para quê reserva numa cidade onde certamente poucos jantam fora?”. Depois de voltas e mais voltas não tivemos outro remédio a não ser empreender o caminho de volta e tentar jantar qualquer coisa que aparecesse pela frente. Infelizmente apareceu o Burger King e, para não variar, não nos safámos de recorrer a este tipo de casas “tradicionais”.
As ruas estavam cheias de gente, uma multidão para lá e para cá, quase impossível de caminhar. Até que, enfim, lá veio uma explicação satisfatória para todo este folclore (recusa de mesa em restaurantes incluída): este é um dia de festa por aqui – entrada na Primavera, dia dos namorados, dos médicos, dos estudantes, em resumo, tudo o que há para comemorar nesta vida parece que vem parar a este dia. Um dia especial, portanto. O dia em que todos saem para a rua a jantar. Pelo sim, pelo não, acabámos o dia de hoje a reservar o jantar e show para uma Peña para o dia de amanhã.

Voltando ao início do dia, a viagem desde Puno começou bem cedo pela manhã, com uma paragem de uma hora para almoço em Copacabana, até à retomada da jornada em outro autocarro para La Paz. Deu para sentir as diferenças nas estradas do Peru (pelo menos as da zona do Titicaca) em relação às da Bolívia, estas últimas muito piores mesmo quando asfaltadas. E os próprios autocarros também são aqui bem piores. Chamar mais uma vez turístico ao calhambeque que nos tocou desde Copacabana só mesmo tendo na ideia aquele que sai na rifa ao comum do boliviano quando tem de recorrer ao transporte público. O que é praticamente sempre. Quase ninguém tem, obviamente, carro particular e pelas ruas de La Paz, para além dos táxis, o que se vêem são centenas de vans que vão fazendo o transporte dos passageiros de uns bairros e zonas da cidade para as outras. Vai um motorista e, ao seu lado, um fulano apregoando o destino e cobrando a entrada de quem for entrando. Isto faz com que a banda sonora oficial das calles de La Paz seja qualquer coisa como a conjugação de uns gritos estridentes de “Miraflores, Estádio, Villa Pavon, Avaroa, Obrajes, Calacoto, Los Pinos, El Alto”.

El Alto, precisamente. A chegada à cidade de La Paz faz-se por El Alto, a outra cidade que foi crescendo à volta e no topo do vale onde fica a capital, cerca de 500 metros acima dela, o que faz deste subúrbio uma das cidades mais altas do mundo, a cerca de 4000m de altitude. Os migrantes das zonas rurais e interiores instalaram-se aqui quando demandaram à grande cidade e hoje terá uns 800 mil habitantes – e os números não param de crescer. Maioritariamente, a sua população é aymara e se antes utilizavam este poiso como dormitório, hoje o seu crescimento e desenvolvimento, quer a nível industrial quer comercial (é aqui também que fica o aeroporto internacional), faz de El Alto uma cidade inteira. Pobre e desordenada, ou não estivéssemos na América Latina pura e dura.
O impacto da nossa vista neste território é brutal. As casas inacabadas à beira da estrada (onde se observam as tentativas de asfaltar algumas delas), as barracas montadas onde se vende sempre qualquer coisa, o trânsito caótico, as ruas confusas onde não se sabe muito bem onde vão dar ou sequer se têm saída.
Voltaremos ao assunto, pois amanhã subiremos até El Alto e ainda mais.

20 de Setembro – Puno

De manhã saímos para as ilhas flutuantes de Uros com Guterres. Quem? O nosso ex-primeiro-ministro? Não, um cão que um casal de argentinos encontrou recém-nascido à beira do Lago Gutierrez, no sul do seu país. Desde aí que viajam sempre acompanhados do novo elemento da família e o incrível é que o cão, que não é assim tão pequenote, segue-os sem problemas, seja na camioneta ou no barco da excursão, seja nas ilhas de totora que visitámos neste dia.

As ilhas flutuantes de Uros, tal como prevíamos, são extremamente turísticas. A tal ponto que existem mesmo alguns viajantes que se negam a visitar aquilo que entendem que não é autêntico mas extremamente comercial, assim como afirmam que Machu Picchu não é a tal, que existem outras cidades incas mais bonitas e importantes e ainda não estragadas pelo turismo. Quanto a Machu Picchu, apenas poderei confirmar se assim será numa futura viagem (a este propósito, tem piada poder dizer que as duas manas são originais na sua viagem – éramos as únicas estrangeiras por Puno e Copacabana que não iriam até Cusco e Machu Picchu).
Quanto às ilhas flutuantes de Uros, direi que se não tivesse estado cá teria deixado de ver algo singular e único no mundo e, sim, ainda autêntico.

É verdade, no entanto, que do porto de Puno saem várias mãos cheias de barcos com uma vintena de turistas (a viagem, que dura cerca de 30 minutos, é organizada – única forma de visitar as ilhas) e cada um dos grupos pára na ilha que o seu guia previamente acordou com os locais. Estes recebem os turistas que desembarcam na sua ilha com sorrisos expressivos e vestidos coloridamente a rigor, com saias, chapéus e o cabelo com pompons. Faz lembrar um daqueles filmes do Elvis no Hawaii onde os nativos esperavam os aholes para lhes colocar os colares típicos.

Os Uros, diz a lenda, são anteriores à criação do sol, quando a terra ainda era escura e fria. Não se consideravam da raça humana mas simplesmente Uros. Até que com o passar do tempo a miscigenação com os Aymaras foi levando a uma progressiva perda da sua identidade e costumes. A sua língua, nos dias de hoje, é falada apenas por uma escassa minoria.
Serão umas 40 ilhas no total (o seu número poderá variar consoante os interesses das famílias Uros) e não visitamos mais do que duas, geralmente a principal, onde tem escola, igreja e outros equipamentos básicos, e mais uma ou outra mais pequena.
Turismo massificado à parte, é efectivamente uma experiência fantástica navegar pelo Titicaca e aportar numa pequena superfície construída com as raízes de totora e totora seca.
Quando saímos do barco não temos outra solução senão encarar as ditas totoras, uma espécie de junco que abunda no Titicaca, e pisá-las decididamente. E, surpresa, o chão das ilhas flutuantes não se move e nem sai dos nossos pés, ainda que nos dê a sensação de planarmos, talvez algo assim parecido com o andar nas nuvens.
A totora, que inunda a nossa visão, serve para quase tudo. Não só para estabelecer um “chão”, como também para construir as casas deste povo, os seus barcos e, até, como alimento. Que não sabe nada mal, aliás. Depois, claro, somos inundados de solicitações para comprarmos o produto do trabalho dos Uros, artesanato local (feito de totora, é claro) e têxteis (os homens dedicam-se também à pesca, tradicionalmente o principal meio de subsistência desta tribo). E somos, também, convidadas a visitar as suas casas e descobrir que no meio de todo aquele cenário primitivo não falta a televisão – obra dos geradores – para que as senhoras possam assistir ás suas telenovelas.

As ilhas flutuantes de Uros estão ligadas umas às outras por uma corda subaquática, com a ajuda de pedras a 20 de profundidade, para que cada uma não fique à deriva pelo Lago afora (técnica que dava jeito nos tempos em que os Uros queriam manter o isolamento das tribos mais poderosa e numerosas). No entanto, tal não evita de todo que em dias de tempestade as ilhas amanheçam num local diferente daquele que deixaram o dia anterior.
A cada 15 dias vão sendo acrescentadas novas camadas de totora ao piso, substituindo as inferiores que vão ficando danificadas pela água. Em cada umas ilhas vivem cerca de 20 a 40 pessoas e para se deslocarem entre as ilhas, os seus habitantes têm, obrigatoriamente, de usar o barco. O barco de totora, hoje, como é muito lento e requer o esforço de um remador, é quase que exclusivo para os passeios com os turistas, deixando os barcos a motor para as frequentes deslocações dos Uros. No entanto, ainda se vêem uns quantos pelo lago.
Resumindo e concluindo, é certo que este é um local em que uma visita se torna incontornável, quer sejamos turistas ou viajantes.

À tarde visitámos Sillustani, um sítio de interesse arqueológico onde os Kollas (pré-incas) depositavam os seus mortos nobres (por vezes famílias inteiras com todos os seus pertences e até a sua comida) numas torres funerárias construídas em pedra que chegam a atingir os 13 metros de altura – as monumentais chulpas. O local onde os mortos haveriam de ficar para sempre dificilmente poderia ter sido melhor escolhido – numa planície elevada à beira do Lago Umayo. A conjugação da arquitectura destas torres com a paisagem que as rodeia confere a este cénico local um misticismo indescritível.

De volta a Puno parámos num dos povoados que vamos vendo no caminho. Um género de quinta murada com cerca de 4 pequenas casas, com um arco na entrada e pátios consecutivos. Tudo muito simples e humilde, funcionando como uma comunidade de pequenas famílias. Aí pudemos observar – e provar – a forma de confecção e aproveitamento de alguns alimentos (batatas, favas, quinoa, queijos, pão frito e outros cereais), bem como a produção de têxteis, principalmente de tapetes.

No entanto, o ponto de maior divertimento foram as lamas e, especialmente, uma alpaca com uns pompons azuis na cabeça que se encontravam à entrada deste pequeno povoado, parece que prontas para nos receber. Estes animais são verdadeiramente bonitos e pitorescos para qualquer não andino e, neste caso, deram um show à parte enquanto devoravam a palha que lhes oferecíamos à boca.

Outro show foi a nossa guia. Há que ter sorte com quem calhamos quando seguimos num passeio organizado e desta vez não nos podemos queixar. Pelo contrário, Marita, para além de muito informada e clara sobre os assuntos que nos guiou, era bastante divertida. Como ela não se cansava de dizer, “Marita a presidente”, do Peru, é claro. Toledo que se cuide.

Um apontamento mais.
Chegadas a este ponto já havíamos viajado algumas centenas de km pela Bolívia e agora alguns poucos km pelo Peru. Ainda assim, é manifesta a diferença em quantidade de povoados num e noutro país. Muito menos na Bolívia, com muito maior frequência no Peru, onde as aldeolas se vão sucedendo umas às outras.
Igualmente, as casas em Puno e arredores encontram-se inacabadas as mais das vezes. Diz-se que só se pagam as taxas quando a sua construção tiver chegado ao final e, assim, vão adiando o seu pagamento. Por outro lado, na Bolívia, ainda que os edifícios tenham um ar mais finalizado, praticamente ninguém os pinta, permanecendo para sempre o tijolo como material a servir de capa.