22 de Setembro – La Paz

Para hoje decidimos contratar um táxi para tentarmos conhecer alguns locais dos arredores de La Paz. O centro da cidade não é muito difícil de percorrer caminhando. No que toca ao resto a música é diferente.
Para El Alto, por exemplo, há que subir bastante e o recorrido a pé ou é feito pela estrada (a levar com razias e a fumarada dos carros) ou pelas escadarias e ruas improvisadas que cercam os prédios dos paçenhos. Ou seja, mesmo que possível, ninguém o faz.
Para a zona sul, distante 6 km do centro, e onde ficam os bairros ricos de Obrajes, Calacoto e Los Piños, só se chega mesmo de carro, uma vez que existem umas vias rápidas ao longo do algo desértico vale (nesta secção), como que marcando claramente a fronteira das classes sociais. Assim, e num resumo talvez demasiado simplista e redutor, mas que não fugirá muito à verdade, temos os pobres em El Alto, os remediados no centro de La Paz e os ricos na zona sul.
E para o monte Chacaltaya, para o qual há que subir e subir, como se La Paz e El Alto já não estivessem suficientemente perto do céu, se não fosse o transporte automóvel nem os 4 dias dedicados a La Paz seriam suficientes para o alcançar.

Começámos a manhã pela subida ao Chacaltaya. Convém sair bem cedo, pois a viagem de táxi faz-se em 1h 30m (isto se o taxista não se armar em parvo como aconteceu connosco – estava a ser pago à hora – e não resolver fazer o ainda que péssimo caminho de terra batida a 10km por hora)
Na primeira metade da viagem tenta-se ultrapassar o caos de El Alto, na segunda metade contempla-se a desordem urbanística de El Alto. Mas não só. Também se contempla o vale com o centro de La Paz que se vai deixando cada vez mais para trás e para o fundo e os picos nevados que nos vão cercando.
Pena que o céu não estava completamente aberto neste dia e, assim, foi impossível ver o Monte Illimani, sempre omnipresente em qualquer canto de La Paz, com o seu pico a 6438m (o segundo pico mais alto de toda a Bolívia, só superado pelos 6542 do Sajama). No entanto, por sorte, no nosso primeiro dia em La Paz havíamos conseguido vê-lo. Hoje apenas o pudemos sentir.
Mas o Huayna Potosi, na mesma direcção do Chacaltaya, esse estava bem visível. Tem 6088m e há quem diga que é a ascensão mais fácil de todos os “picos 6000”. Não o confirmámos (aliás, para além dos espaldares das salas de ginástica da primária, nunca escalamos nada).
Depois destes números, compreende-se que diga que o Chacaltaya, o nosso destino, se queda apenas pelos 5421m. No entanto, o carro pára cerca de 200m abaixo, onde se situam as instalações do “centro de ski mais alto do mundo”.

Chamar pista de ski ao que se vê à volta é ter muito mais do que boa vontade. Hoje tudo está desactivado mas, ainda assim, custa a crer que estas geringonças alguma vez tenham funcionado. Fica, então, o momento João Garcia da vida – a subida a pé dos quase 200m mais difíceis, dolorosos e esgotantes da minha vida. Acontece que, com quase duas semanas a permanecer sempre perto dos 4000m, já sei bem que devo seguir passinho a passinho e parar entre cada 3 ou 4 dezenas deles. Paragens estas que até dão muito jeito para melhor fruirmos da vista fabulosa à nossa volta, ou melhor, da vista que imaginamos fabulosa, que o tempo não foi totalmente simpático para as manas.

Descemos de volta para El Alto. Como referi no post anterior, esta é uma verdadeira cidade que se foi criando junto à capital. E é daqui, precisamente, que se obtêm as melhores vistas de todo o vale onde está implantada La Paz. Com o conhecimento do taxista, depois de furarmos o mar de feiras que se instalam em El Alto todos os dias, e em especial aos sábados, fomos directamente aos miradouros.

O que a vista alcança é inacreditável. O espaço de solo está quase que por completo ocupado por edifícios encavalitados uns nos outros onde não se distingue qualquer espécie de planeamento urbanístico. Tudo foi crescendo da forma mais desordenada que se possa imaginar, sem áreas verdes ou sequer infra-estruturas tão básicas como o são as estradas. As ladeiras dominam a cidade, com a escadaria sem fim fazendo-nos questionar como se pode ter acessos assim às habitações.

Mas isto está longe de ser o pior. Saneamento básico é algo que tomamos como garantido aqui na nossa Europa mas que em La Paz parece ser, na maioria, apenas uma miragem. Muitas das habitações não têm casas de banho. Daí que aquilo que pisei no chão possa não ter nada a ver com os cães, como sempre penso quando tal me acontece no meu país. Finalmente entendo porque se vê “baños públicos” por todo o lado. Mas fico sem entender porque inscrevem nas paredes “phroibido orinar” se as mais das vezes não há outro lugar para o fazer.
O dramático da questão é que muito trabalhinho de engenharia haverá a fazer por aqui para dotar uma zona imensa e grandemente povoada de condições sanitárias que alcancem o básico.
O mais incompreensível é que todo este urbanismo de 3.º mundo pode seduzir. E seduz.
O caos pode ser belo.
À noite, ainda que nem todas as casas tenham luzinhas acesas (suspeito bem que muitas habitações careçam de electricidade), vê-se ainda assim um cenário digno de presépio. O mesmo a que assistimos face às favelas do Rio de Janeiro. Mais uma vez, o caos tornado belo.

Em El Alto, e no meio das casas inacabadas em tijolo ocre, um facto curioso: dominando a paisagem aparecem amiúde umas igrejas com uma arquitectura que não esperaríamos encontrar nesta América Latina. São influência do padre Sebastian Obermaier, um missionário alemão que se instalou em El Alto.

A Zona Sul da cidade é de uma diferença brutal para a La Paz que a maioria dos viajantes na cidade chega a conhecer.
Aqui vêem-se centros comerciais modernos, carros de último modelo (ou pelo menos recente) e moradias modernistas, inspiradas no que os seus ricos proprietários (a maioria empresários e militares) vêem no estrangeiro, com muros de mais de 3 metros de altura, talvez lembrando ao boliviano comum que aquele é um espaço que está longe de ser o dele. Tudo isto deixa adivinhar o bem que se pode viver por aqui, convivendo sem preconceitos com a pobreza e a ausência de equipamentos básicos para o cidadão.
Com isto reforço a ideia de que a cidade é o espaço mais democrático que existe – para ricos, para pobres, para todos; o que não existe é a igualdade de meios para que cada um possa escolher viver a parte da cidade que mais aprecia.

De volta ao centro da cidade, tivemos ainda tempo para 2 roteiros culturais: a exposição World Press Photo no Convento de São Francisco e a visita ao Museu Nacional de Arte.
Este último está instalado num palácio do século XVIII soberbamente restaurado. O seu páteo é lindo e não poderia haver melhor local para acolher a arte boliviana, desde os seus primórdios até hoje. Ou seja, desde o mestre Melchor Perez de Holguin até ao nosso contemporâneo (de século) Cecilio Guzman Rojas. Gostámos muito das pinturas deste último, tal como algumas obras de David Crespo Castelu, Miguel Alandia Patoja e Lorgio Vaca – tudo nomes que nos eram absolutamente estranhos e que, infelizmente, não conseguimos ver reproduzidos os seus trabalhos na internet. Quanto tempo durará a minha péssima memória visual?

A noite terminou com o momento mais turístico da viagem. Podíamos dele fugir mas não tivemos nem temos a pretensão de nos excluir do grupo de turistas para nos integrarmos somente no dos viajantes. Fomos à Peña Huari, um espectáculo de folclore boliviano – música e dança – com jantar incluído no preço algo salgado da coisa.

De volta para o hotel, uma pequena amostra do que pode acontecer numa cidade onde se vão construindo casas por aí acima: se chove, vem tudo por aí abaixo. Num ápice, a forte chuvada que caiu fez com que as ruas parecessem autênticas cascatas e ficámos a imaginar que as frágeis construções empoleiradas mais acima no vale se desmembrariam à mais pequena enxurrada. Por certo, não fugiriamos à verdade.

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