Monchique

Por vezes, quando passeamos por uma região saímos frustados. Não por não ter correspondido às nossas expectativas, antes por não a termos aproveitado como deveríamos. O que aconteceu com o passeio de uma tarde em Monchique não foi bem ter superado o que esperávamos visitar – já sabíamos que o “Jardim do Algarve” era lindo (já aqui havíamos estado, embora há mais de uma década). O que acontece é que a região de Monchique necessita de mais tempo. E, já agora, de uma visita fora do Verão para se perceber água nas suas cascatas. Ainda assim, embora muito incompleto, aqui vai o relato do passeio possível por Monchique, com a convicção de que havemos de voltar.

Começámos pela visita à vila termal das Caldas de Monchique. A riqueza das suas águas (naturais e termais) é reconhecida pelas suas propriedades curativas já desde os tempos dos romanos, mas é a sua implantação geográfica que faz as maravilhas de qualquer visitante. Encravada num vale rodeado de vegetação luxuriante, a pequena povoação tem chalets, uma praça acolhedora com edifícios coloridos e um parque de merendas por onde a água escorre tranquilamente em patamares. Região forte em artesanato, vale a pena dar uma olhada às suas lojas.

Esperámos pela vila de Monchique, sede do concelho, para abastecer da famosa aguardente de Medronho. Mas perdemos a Picota, o segundo ponto mais alto da Serra de Monchique e do Algarve, a 774 metros de altitude. A vila de Monchique é também rodeada pela vegetação serrana, o que é bem apreciado desde o Miradouro de São Sebastião.

Desde este ponto alto vê-se a vila desenvolver vale abaixo e vale acima, com o seu centro histórico a ocupar parte da encosta à frente. O casco urbano diante nós, percebemos depois já cá em baixo, é surpreendente, um conjunto homogéneo de casas brancas dispostas numa série de ruas que se cruzam de forma irregular. Pode ser o costumeiro das vilas algarvias, mas não esperávamos que aqui, no interior algarvio esquecido, encontrássemos um núcleo urbano tão grande e tão preservado (embora infelizmente com muito do edificado abandonado). Ou seja, este foi mais um dos motivos que nos fez lamentar não ter perdido mais tempo em Monchique.

A meia encosta numa colina imediatamente acima da vila ergue-se o Convento de Nossa Senhora do Desterro. Mais uma surpresa. Paramos o carro onde der na estrada e seguimos os últimos 300 metros a pé, por um caminho florestal com vistas generosas. Já sabíamos que este Convento estava abandonado e em ruína; o que não sabíamos era o momento kitsch que nos esperava. Mandado construir em 1631 por Pero da Silva, um vice-rei da Índia que patrocinou a obra aos frades franciscanos, é um enorme edifício em estilo manuelino e maneirista cujo brasão da família fundadora ainda persiste na fachada da igreja. O Terramoto de 1755 arruinou-o e a extinção das ordens religiosas em 1834 fez com que fosse parar às mãos de privados. O pior veio depois, vendido em partes a vários proprietários que nunca o restauraram, a Câmara Municipal tem vindo a adquirir o que pode para desenvolver projectos adequados ao espaço, mas a verdade é que este está hoje ocupado com hortas e galinheiros. É isso mesmo: no claustro do antigo Convento passeiam-se galinhas que também podem livremente seguir até ao interior da igreja, completamente esventrada e com um altar pavoroso decorado sabe-se lá por quem. É uma ruína que só a espaços possui ambiente, mas que vale bem a pena visitar – apesar dos avisos de cuidado com o cão (que não vimos), os ocupantes do Convento não se importam de nos permitir a entrada.

Daqui seguimos a caminho da Fóia, tendo passado pela Cascata de Penedo Buraco onde água… nem vê-la. Situada à beira da estrada, por isso fácil de alcançar, nem dá para imaginar por onde a água poderá cair, tal é a seca durante os meses de Verão. Já nem arriscámos desviar para a Cascata do Barbelote, diz que a mais bonita, uma vez que para além do caminho de carro até lá terá de se andar mais um pouco a pé para a ver melhor. E junto a ela valerá a pena conhecer a aldeia de Barbelote, perdida e abandonada na Serra de Monchique. Ou seja, é um lugar que merecerá uma caminhada sem pressas. A outra cascata de Monchique é a Cascata do Chilrão, cuja visita também ficará para outra altura que garanta a possibilidade de a ver jorrar água.

Por sorte, teremos sempre a Fóia. O ponto mais alto de todo o Algarve, a 902 metros de altitude é não apenas simbólico como lugar de uma enorme vista – toda a costa algarvia. O mar, sim, mas também a serra. José Hermano Saraiva descreveu em tempos o cenário que daqui se obtém como sendo um “mar de montanhas”. A ondulação que se estende diante nós até lá longe no Atlântico é belíssima. Vale a pena resistir ao frio e vento e subir ao pequeno penedo de granito ao lado esquerdo do miradouro para a melhor vista.

A estrada que nos transporta à Fóia é bonita e dependendo do clima e hora do dia podemos descobrir para além dela outra silhueta preciosa do tal “mar de montanhas”.

A caminho de Marmelete, a paisagem é ainda mais fantástica e os cabeços verdes quase siameses que se sucedem revelam uma paisagem surpreendente, única no nosso país. A estrada é estreita e com repetidas curvas, difícil de parar o carro para uma fotografia. Antes assim: este cenário puro do “Jardim do Algarve” ficará em exclusivo guardado na memória.

Silves

Silves é a capital histórica do Algarve. Situada no Barrocal Algarvio, entre a serra e o mar, afastada cerca de 15 quilómetros da costa marítima, há registos de ocupação humana desde o Neolítico e entre os séculos X a XII era a maior e melhor povoação do Algarve.

Foi durante o período árabe (século VIII a XIII) que mais floresceu, tornando-se uma cidade civilizada com relevância política e cultural que rivalizava com outras das maiores do mundo árabe. O Rio Arade era então navegável desde o Atlântico até ela, servindo como via de comunicação que permitia manter relações comerciais com os povos do Mediterrâneo (como fenícios, gregos e cartagineses), e foi o grande responsável pela implantação da povoação neste lugar. A ponte medieval sobre o Rio Arade, embora de construção bem mais tardia, lá continua a marcar presença. Mas é o inconfundível castelo vermelho no topo de uma colina que domina por completo a paisagem de Silves.

Após um longo cerco no reinado de D. Sancho I, em 1189 a cidade foi tomada pelos cristãos aos mouros, não sem uma enorme mortandade. Mas essa conquista foi revertida e só viria a tornar-se definitiva em 1248-49, com D. Afonso III. Então, Silves foi elevada a cidade e feita capital do Reino do Algarve. Assim permaneceria, desempenhando papel importante no período inicial da época dos Descobrimentos, até à sua entrada em decadência no século XVI pelo assoreamento do Arade e pelo surgimento de zonas de lodo que tornaram a cidade insalubre. Ou seja, se o Rio Arade foi decisivo na implantação e desenvolvimento da povoação, seria também ele em grande parte o responsável pelo seu declínio, motivado pela seca das suas águas e impossibilidade de navegabilidade. Silves foi gradualmente perdendo importância e Faro começou a tomar o seu lugar. Mas não sem contestação, até porque entretanto havia sido construída na cidade a Sé Catedral (crê-se que no lugar de uma antiga Mesquita), fazendo de Silves não apenas o centro político e cultural do Algarve, mas também o seu centro espiritual. O Terramoto de 1755 deu a machadada final, destruindo grande parte do edificado.

Mas a história continuou e a Silves de hoje surge novamente em grande, com o seu património monumental restaurado e com vida – surpreendeu os muitos turistas que num dia de calor ousaram trocar a praia por um passeio na cidade do interior.

A estrutura urbana de Silves conserva ainda as características muçulmanas. Temos o castelo no alto do Monte da Almedina, seguido do que correspondia à medina numa das suas encostas e logo depois o arrabalde. Este arrabalde é a zona de expansão, a cidade nova extra-muros que foi sendo construída e ocupada ao longo de várias épocas até aos dias de hoje. E para percebermos bem esta transição nada melhor do que o terraço do edifício dos Paços do Concelho. Em baixo fica a Praça do Município com Pelourinho e a meio caminho a Porta da Vila com a torre albarrã, o único dos três acessos à antiga medina que ainda se conserva. Pela Porta da Vila entramos, então, na medina, com as suas ruas estreitas, irregulares e íngremes que dão acesso ao castelo. Seguimos pela antiga Rua Direita, hoje Rua da Sé, onde ficam alguns dos edifícios mais importantes da cidade: a própria (em estilo gótico, manuelino e barroco), a Igreja da Misericórdia (em estilo manuelino e maneirista) e palacetes (um deles com uma deliciosa varanda).

E logo ficamos perante a enorme muralha vermelha do Castelo de Silves. Construído em taipa, usando a rocha grés da região, não se sabe ao certo a data da sua fundação, mas é antiquíssimo. Restaurado, preserva ainda as suas torres e ameias e pelo adarve podemos passear ao longo de toda a muralha, obtendo bonitas vistas para a pacata paisagem rural que rodeia Silves. No interior do Castelo são visíveis os vestígios da alcáçova, nomeadamente dos palácios onde residiam os governadores, militares e administrativos que tinham sobre si o rumo da antiga urbe.

Entre as várias cisternas no interior do Castelo, impressiona o Grande Aljibe, a cisterna construída no século XII, durante o período Almóada, que até aos anos 90 do século XX permitiu o fornecimento de água à cidade. É um enorme reservatório escavado no subsolo, hoje transformado em galeria de exposições.

Saindo do Castelo, voltamos a percorrer as ruas da antiga medina e caminhamos por algumas das que então constituíam o arrabalde. São hoje ruas tipicamente algarvias, com edifícios de um ou dois pisos maioritariamente brancos, alguns com decorações azulejares. As ruas estendem-se sem ordem até ao Rio Arade, fazendo-nos perder. E não há melhor prazer do que este, deixarmo-nos perder por este Algarve menos pisado.

Por Lagos, com paragem na Ponta da Piedade, Luz e Capela do Monte

Este é um passeio por parte do concelho de Lagos que nos permite testemunhar da sua diversidade. Começámos pela sua sede, a cidade de Lagos, uma das mais bonitas e dinâmicas do Algarve.

A presença humana em Lagos é muito antiga, vindo já do Paleolítico. À semelhança de outras cidades costeiras algarvias, por aqui passaram os fenícios, os romanos e os muçulmanos, até os cristãos portugueses a tomarem definitivamente em 1249. Foi Lacóbriga com os romanos e Zawaia com os muçulmanos, até ficar Lagos com os portugueses, talvez designação com origem na água que vinha da Serra de Espinhaço de Cão, nas suas costas.

Na época dos descobrimentos chegou a ser a urbe mais importante do Reino do Algarve, centro da Escola de Sagres, daqui tendo partido as caravelas ao encontro de novos mundos. O Infante Dom Henrique é por isso lembrado, tendo sido levantada uma estátua em sua homenagem na praça que leva o seu nome. Esta praça está aberta para o canal por onde a Ribeira de Bensafrim corre para o Atlântico, Marina e Meia Praia de um lado, Forte da Ponta da Barreira do outro, seguindo ao longo da muito agradável marginal. Ao seu redor fica o Mercado dos Escravos, a Igreja de Santa Maria e, pouco mais adiante, o Castelo dos Governadores.

Construído no século XIV sobre a antiga alcáçova islâmica, este pano de muralha surge imponente – e conservado – de frente para o mar. Entramos pelo Arco de São Gonçalo para o que foi a Viladentro, outrora rodeada pela muralha conhecida pela Cerca Velha. Hoje restam alguns outros panos de muralha e baluartes.

As ruas da Lagos antiga entrecruzam-se e são estreitas, nem sempre planas, com edifícios maioritariamente brancos. Típico da região. Mas o que Lagos têm de diferente é que essas ruas do centro estão cheias de cafés, bares e restaurantes, com esplanadas que se estendem calçada afora. O movimento é intenso. As praças Luís de Camões e Gil Eanes são exemplo do bulício, aqui se juntando as lojas de comércio. Nesta última praça fica a estátua de Dom Sebastião, obra de João Cutileiro que não deixa ninguém indiferente. “O Desejado” foi quem elevou Lagos a cidade e daqui partiu em 1578 para se perder no nevoeiro de Alcácer Quibir e nunca mais voltar.

Mas, dito isto, parece que Lagos é só história. Nada de mais errado. É certo que o Terramoto de 1755 a abalou em demasia e perdeu protagonismo para Tavira e, depois, Faro. Mas não deixa de ser uma cidade moderna onde as artes marcam presença, em especial a arte urbana. O LAC, Laboratório de Actividades Criativas, por exemplo, é uma associação cultural com sede na Antiga Cadeia de Lagos. Este espaço de criação artística, onde hoje os seus inquilinos se movem com total liberdade, possui salas de trabalho e de exposição donde resulta uma criatividade que não se fica entre portas, antes sai para as ruas da cidade, contribuindo para a tal dinâmica que falávamos ao início.

E o turismo é, claro, o grande motor da cidade e da região.

Da Marina de Lagos saem com enorme frequência barcos para um passeio até à Ponta da Piedade (cerca de 15 euros por pessoa por 1 hora). Sem risco de errar, este é um dos pontos mais bonitos da costa portuguesa. As suas falésias douradas têm formas diversas, algumas delas incríveis, permitindo-nos dar largas à imaginação. Será um elefante, um urso, um bolo de noiva? Certo é que os miúdos arranjam maneira de subir a algumas destas falésias para mergulhar nas águas transparentes deste pedaço de Atlântico. Passamos pelo Forte de Lagos, pela Praia do Estudante, pela Praia de Dona Ana e pela Praia do Camilo, das mais fotografadas do Algarve.

Algumas destas formações rochosas são rochedos no meio da água, espécie de ilhas que só terão bivalves e aves como habitantes, e outras erguem-se verticalmente acima do mar. Foi o vento e as marés que as foram esculpindo e dando este ar agreste e crespado, mas incrivelmente bonito. E, ponto alto do passeio de barco, formaram também as inúmeras grutas por onde adentramos pelos arcos desenhados nas falésias. O ambiente é fantástico, com um som que ecoa tranquilamente pelas caves e uma cor irreal, entre o azul e o verde, de uma transparência tocante.

Há que dizer, todavia, que não temos esta maravilha toda só para nós. Entre magotes de outros barcos, kayaks e sups, o congestionamento marítimo é intenso.

Mas a Ponta da Piedade pode e deve ser também apreciada de cima. Junto ao seu Farol saem caminhos, quer para ocidente quer para oriente, pelo topo das falésias. O recorte da costa visto daqui é de uma beleza esmagadora, percebendo-se na perfeição o contraste entre o azul do mar e o dourado da falésia.

Da Ponta da Piedade pode seguir-se a caminhar por trilhos oficiais quer em direcção a Lagos quer à Praia da Luz. Desta vez poupámos as pernas e seguimos até esta última de carro, onde assentámos durante uma semana nas passadas férias de verão.

À primeira vista a Praia da Luz pode não ser uma beleza. Mas é, seguramente, uma das mais interessantes do Algarve, até pela estranheza de cenário que aqui encontramos. A falésia é mais escura e bruta, parecendo que pode cair a todo o momento – e pode, há avisos a dar-nos conta da sua instabilidade e do perigo de derrocada. E do outro lado temos o casario totalmente branco todo juntinho. Dá um ar de costa marroquina, a qual, aliás, não anda muito longe daqui.

A Praia da Luz já foi uma aldeia piscatória, mas hoje está inteiramente voltada para o turismo. É, no entanto, um lugar pacato. Tem uma curta promenade com palmeiras, uma igreja pitoresca e um forte que testemunha os tempos em que havia necessidade de proteger a povoação dos ataques dos piratas. Para lá do Forte da Luz fica a Prainha, fazendo jus ao nome.

Mas a grande atracção da Luz é mesmo o seu belo areal. Não chega a 1 quilómetro, mas é muito agradável caminhar por ele, sobretudo logo de manhã, até ao final da falésia e aí descobrir umas rochas negras que aí parecem ter sido aqui estrategicamente colocadas.

E para algo totalmente diferente neste concelho de Lagos – que não é apenas costa – eis uma capela com assinatura de um Pritzker erguida num discreto monte a meio caminho do mar e da serra. Barão de São João (juntamente com Bensafrim) é pura ruralidade e o arquitecto Álvaro Siza Vieira imaginou para aqui um dos seus projectos mais surpreendentes, pleno de simplicidade.

A Capela do Monte é um edifício com as linhas geométricas com que nos tem habituado, mas desta vez a cor alva foi substituída por um tom pastel. A vizinhança onde a Capela foi implantada é parte do segredo deste projecto ser tão tocante: rodeada de uma paisagem natural feita de arvoredo e vegetação rasteira. Avistamos a Capela ao longe e para lá chegarmos temos de atravessar a pé parte da propriedade privada do Monte da Charneca, um turismo rural que tem vindo a recuperar uma série de casas antigas. O casal suíço seu proprietário encomendou a Capela, parte do seu projecto turístico, a Siza e a sua inauguração em 2018 faz deste o primeiro e até ao momento único trabalho do arquitecto no Algarve.

Não está aberta ao público, mas podemos espreitar de esguelha para o seu interior e perceber uns belos azulejos com o inconfundível traço de Siza. Este é, pois, um lugar perfeito para nos despedirmos de Lagos, de uma tranquilidade superior onde os crentes e não crentes alcançam facilmente um momento espiritual.

Quinta das Conchas e dos Lilases

A Quinta das Conchas e dos Lilases, no Lumiar, é hoje a terceira maior área verde de Lisboa, apenas ultrapassada por Monsanto e pelo Parque da Bela Vista.

A origem destas quintas remonta ao século XVI. Eram então duas propriedades separadas e assim permaneceram até ao final do século XIX quando Francisco Mantero as adquiriu. Comerciante nas colónias ultramarinas e proprietário de roças em São Tomé e Príncipe, quando Mantero tomou a Quinta dos Lilases para si esta era uma típica propriedade agrícola às portas da capital, lugar de veraneio por excelência, composta por palacete (ainda hoje com fachada virada para a Alameda das Linhas de Torres), cavalariça e picadeiro, jardim de inverno e zona agrícola. O roceiro foi recuperando e ampliando a quinta onde se propôs viver – e viveu – grande parte do seu tempo, e entregou ao arquitecto Norte Júnior a missão de projectar uma solução para a união dos dois corpos do edifício de habitação da quinta.

É essa obra, uma galeria em ferro e vidro que rasga a fachada, que ainda hoje podemos admirar desde o jardim. Mas Mantero fez mais do que conferir um ambiente colonial ao edifício principal da quinta. Na Quinta dos Lilases construiu um lago artificial com duas pequenas ilhas em representação de São Tomé e Príncipe. E na mata da Quinta das Conchas construiu um outro palacete.

Em 1968 a família Mantero acabaria por vender ambas as propriedades à Câmara Municipal de Lisboa e desde 2005 a Quinta das Conchas e dos Lilases apresenta-se requalificada e transfigurada de zona de produção agrícola para um imenso jardim com cerca de 25 hectares. Rodeado por prédios, este é um oásis urbano onde se encontra lado a lado tranquilidade, animação e até mistério.

A Quinta dos Lilases, mais discreta e separada pela das Conchas por um muro, parece algo descuidada. Para além do edifício principal e do lago, encontramos aqui uma zona de pomar comunitário.

É a Quinta das Conchas, com o seu extenso e luminoso relvado, que rouba (quase) todas as atenções. O manto de relva com diversos ambientes é quase infinito.

Ao longo dele temos árvores, um grande lago, parque de merendas, parque infantil com tobogãs, cafeteria e restaurante com esplanada e até um palco no meio de todo este espaço. No Verão costuma haver aqui cinema ao ar livre. A água é um elemento com uma presença marcante, não apenas pelo lago, mas também pela espécie de levada que segue ao longo do relvado e pela parede em cascata na parte superior do jardim.

Ao contrário da plana Quinta dos Lilases, o jardim da Quinta das Conchas tem um pequeno declive. Declive esse que se torna ainda mais acentuado na mata da Quinta das Conchas. Este é o terceiro espaço bem definido que, em conjunto, constituem este Parque. Há uma série de caminhos que se cruzam, quase um labirinto, por entre uma mata de cipreste do Buçaco. A vegetação é densa e em nenhum lugar como na mata nos sentimos mais longe da selva de pedra que está ali mesmo ao lado. Todavia, um pouco por todo o Parque encontramos espécies arbóreas e um coberto vegetal rico e variado o que não é, de todo, costume em espaços verdes urbanos.

Já se percebeu onde está a tranquilidade e a animação, mas falta o mistério. Pois bem. Embrenhados pela mata, uns metros caminhados e uns segundos respirados logo dão para sentir um ambiente bem diferente. Onde irão dar aqueles caminhos que quase não deixam entrar os raios de sol? A muitos lados, mas de propósito ou por acaso transportam-nos até um palacete abandonado no meio da mata. O tal construído por Francisco Mantero no princípio do século XX. Hoje uma ruína, a sua elegância é ainda visível, com destaque para as janelas em arco no segundo piso. Histórias e lendas não lhe faltam e conta-se que o lugar está assombrado por uma são-tomense por quem Mantero se apaixonou e que para aqui trouxe cativa. A atmosfera da mata não nos deixa duvidar da lenda.

10 (e + 1) Lugares na Rocha em Portugal

Um dia destes, um amigo romeno comentava comigo que queria um lugar de floresta longo e plano, sem pedras e rochedos a atrapalhar a vista, para poder estender a toalha e fazer um piquenique, como se vê fazer nas florestas do seu país. Mas que em Portugal não o encontrava. Fiquei a pensar e, realmente, tirando breves espaços junto a rios ou longos areais junto à costa, não haverá muitas opções para o fazermos sem declives e rochas pelo caminho. O nosso país é acidentado e pedregoso. E, demorei-me mais um pouco a pensar, as rochas são lindas. Rochas, rochedos, pedras, fragas, penhascos, penedos, são tantas as palavras para significar uma paisagem natural. Eis 10 paisagens de rocha humanizadas cheias de significado e ambiente espalhadas por Portugal.

Sirvozelo, em Montalegre, é uma aldeia instalada no meio de enormes blocos graníticos, alguns deles a fazer de parede das casas. À beira da Albufeira da Paradela, a ruralidade e rusticidade, a par dos penedos, são presenças esmagadoras nesta que é uma das aldeias mais incríveis do Gerês.

– os Abrigos de Pastores são comuns no Gerês e as suas características únicas. São pequenas construções de pedra, dispostas sem preocupações de perfeição, toscas até. Com portas baixas, o homem tem de se curvar à entrada e o gado fica à porta. A cobertura é igualmente simples e o chão ou de terra ou com algum mato para que o pastor possa descansar durante a sua estadia temporária. Este exemplo é delicioso na sua forma e aproveitamento do penedo.

– a Pedra Bolideira, no concelho de Chaves, é o exemplo mais curioso dos muitos blocos graníticos da região. Assente numa outra, esta é uma enorme pedra – 10 metros de comprimento por 3 de altura – que parece ter sido partida ao meio, como se de um pão para partilhar se tratasse. Mais curioso do que a sua forma é o facto de, apesar do seu peso de várias toneladas, ser capaz de ser movida com um empurrão por parte de qualquer pessoa.

– a Casa do Penedo, entre os concelhos de Fafe e Celorico de Basto, é uma das casas mais surreais. É fácil imaginar que os Flintstones teriam vivido nela se tivessem passado por Portugal. Instalada desde 1974 num ponto isolado na Serra de Fafe, está aninhada entre penedos de forma tão brilhante que já não percebemos o que é rocha e o que é casa. Ou seja, uma perfeita integração com a natureza.

– a Capela de Nossa Senhora da Lapa, em Vieira do Minho, é um mimo. Uma capela com chapéu, no caso um enorme bloco granítico a que não falta uma cruz. Conta a lenda que uma imagem de Nossa Senhora da Lapa terá aparecido a uma pastorinha na gruta por debaixo desta rocha. E assim o monte do Penamourinho se tornou lugar de romaria e peregrinação e em 1964 foi construída esta capela, provavelmente das mais surpreendentes no nosso país.

– a Casa de Chá da Boa Nova, em Leça da Palmeira, Matosinhos, é um dos projectos mais acarinhados de Álvaro Siza Vieira. Tirando partido da pujança natural do lugar, junto ao mar da Boa Nova, foi construído este edifício sobre as pedras na década de 60 do século passado. Melhor dizendo, escondido entre as pedras, ora se deixando ver ora se fazendo difícil de descobrir. Hoje já não é uma casa de chá, passou a restaurante com estrela Michelin, mas a esmagadora maioria dos que a procuram é para apreciar esta pequena maravilha da arquitectura em parceira com a natureza.

– o Castelo de Moreira de Rei, em Trancoso, hoje em ruína, está instalado no topo de um afloramento granítico e terá origem muito remota, no tempo dos lusitanos ou dos romanos. Do lugar disse Alexandre Herculano ser uma “espécie de ninho de águias sobre um montão de rochas”. Rochas formosas, é do que se trata, fortalezas naturais que ainda ali andam a ligar alguns panos de muralha. A atmosfera é incrível, incluindo uma vista larga e soberba.

Monsanto, no concelho de Idanha-a-Nova, é unanimemente considerada uma das aldeias mais bonitas de Portugal. Merece todos os elogios. É um deleite caminhar pelas suas ruinhas estreitas e inclinadas. Mas o maior prazer é descobrir a enormidade e variedade das rochas que parecem ali ter sido semeadas. Umas parecem lá estar só para tornar o cenário ainda mais grandioso, mas outras servem mesmo de habitação para as suas gentes.

– as Pedras Irmãs, em Sintra, é um lugar misterioso e cheio de atmosfera, completamente envolvido na vegetação frondosa da serra. Aqui temos um parque de merendas para melhor desfrutarmos de mais um momento alto junto da natureza em estado bruto.

– as Piscinas Naturais do Porto Moniz, na ilha da Madeira, são (mais) um deslumbre à beira do Atlântico. De origem vulcânica, as rochas da lava escura e a água transparente que entra de forma natural desde o mar, rodeando-as, são a imagem de marca da paisagem, entretanto adaptada pelo Homem para servir de complexo balnear. Um pedaço selvagem e tranquilo ao mesmo tempo.

– o Penedo do Guincho, em Santa Cruz, é o único destes exemplos que não foi objecto de qualquer humanização. O que não quer dizer que não tenha sofrido transformações ao longo dos tempos. Esta enorme e belíssima rocha já esteve ligada à arriba, mas a erosão fez com que se libertasse e se mantenha hoje solta e isolada, reclinada sobre o mar.

Tapada da Ajuda

Numa época em que andamos todos ávidos por espaços ao ar livre, eis uma boa notícia para Lisboa: em Janeiro de 2021 a Tapada da Ajuda reabriu com novos percursos pedonais e cicláveis e uma nova ligação a Alcântara e a Monsanto. Este é o resultado da parceria entre a Câmara Municipal de Lisboa e o Instituto Superior de Agronomia (ISA) no âmbito de Lisboa Capital Verde 2020, estando ainda prevista a criação de dois parques hortícolas cujos talhões ficarão à disposição dos munícipes interessados. E assim tudo se torna mais fácil para partirmos à (re)descoberta do património ambiental, histórico e arquitectónico deste parque botânico com 100 hectares numa tapada que já foi real e que hoje é parte integrante de um campus universitário – são inúmeros os caminhos por entre campos agrícolas, hortas, pomares, prados, vinhas, jardins, arboretos, com diversas espécies domésticas e exóticas.

Os solos desta zona da cidade sobranceira ao rio Tejo e a sul da Serra de Monsanto são de origem calcária e basáltica. Bons para agricultura e senhores de um bom clima. Durante a dinastia Filipina, que governou Portugal entre 1580 e 1640, o que hoje conhecemos como Tapada da Ajuda era utilizado como terreno de caça. Aí perto ficava o Paço do Calvário (ou de Alcântara). Após a Restauração, D. João IV murou os terrenos e como que oficializou a Tapada, fazendo dela lugar de caçadas reais e de recreio. Era então a Real Tapada de Alcântara, tornada Real Tapada da Ajuda quando os reis se mudaram para o vizinho Palácio da Ajuda. Foi ainda no tempo da monarquia que a Tapada começou a abrir-se ao público, como lugar de passeios e exposições – o Observatório Astronómico e o Palácio de Exposições são edifícios construídos na segunda metade do século XIX cujo valor arquitectónico perdura até hoje. Em 1917, após a implantação da República, o ISA foi criado e implantado em terrenos da Tapada, que entretanto deixou de ser real, e em 1956 foi instituído o Parque Botânico da Tapada da Ajuda.

Estes dois factores – escola agrícola e parque botânico – foram fundamentais não apenas para a preservação florestal e ambiental da Tapada, mas também para o seu desenvolvimento, com um incremento na sua vertente paisagística e vegetal. Ou seja, desde a instituição do ISA os elementos existentes na Tapada serviram de fonte indispensável ao ensino, mas a par dos autóctones bosques de zambujeiro foram sendo plantadas diversas outras espécies exóticas.

Comecemos, então, a nossa visita pela Tapada da Ajuda. Com quatro entradas à escolha, optámos pela da Rua Jau, subindo directamente para o edifício principal do ISA. À nossa direita, pomar, à nossa esquerda, vinha. Já lá em cima, tomamos a direita para descer pela Rampa da Asneira, designação curiosa que se fica a dever ao facto de aquando da construção do ISA ter havido um engano na orientação da planta do projecto. E a partir daqui logo nos embrenhamos pela luxúria da vegetação da Tapada. Castanheiro, cipreste, carvalho, araucária, zambujeiro e palmeira são apenas alguns dos exemplos de espécies arbóreas pelas quais nos vemos rodeados.

Até que, quase escondido por entre a vegetação, damos com o surpreendente Anfiteatro de Pedra. Construído na década de 1940, a sua acústica era muito gabada, mas as estradas que foram surgindo nas imediações trouxeram o aumento dos níveis de ruído e essa qualidade perdeu-se. Resta, porém, o extraordinário ambiente cénico do lugar.

Para lá do muro paredes meias com o Anfiteatro fica o estádio da Tapadinha, sede do Atlético Clube de Portugal, mais um símbolo local. Continuamos caminho pela longa alameda que acolhe alguns dos edifícios do campus, como o da biblioteca, e que acompanha o enorme prado verde da Terra Grande. Este é um ponto mais elevado e as vistas para o Tejo, com a Ponte 25 de Abril em destaque, são uma beleza.

Após este excelente aperitivo, entramos no Jardim da Rainha e Jardim da Parada. Volta a exuberância vegetal proporcionada por algumas espécies exóticas, mas aqui temos ainda outros atractivos, como uns bancos revestidos com painéis de azulejos, um lago e um bom pedaço de relva para nos estendermos no meio desta tranquilidade.

É para lá destes jardins que encontramos o mais bonito e admirável edifício da Tapada: o Palácio de Exposições. Construído em 1884 para a III Exposição Agrícola de Lisboa, era então rei D. Luís, o seu projecto ficou a cargo do arquitecto Pedro de Ávila. A época era a dos edifícios em ferro e vidro e este projecto pretendia não ficar atrás de exemplos como o do Crystal Palace, no Hyde Park de Londres, o do Trocadero, em Paris, ou o do Palácio de Cristal, no Porto. O lisboeta é de uma elegância tocante, longo e ligeiramente ovalado no seu corpo em vidro com um torreão central e dois laterais, uma imagem romântica perfeita.

À volta deste Palácio vemos alguns edifícios como a abegoaria, a antiga vacaria e o chalet da Rainha D. Amélia e até algumas casinhas de habitação. Mais adiante, o Auditório da Lagoa Branca, diante da lagoa sem água.

Nesta parte da Tapada encontram-se diversos exemplares de minas de água, alguns deles do tempo de D. João V, quando abasteciam os terrenos agrícolas, a real tapada e as quintas vizinhas. A riqueza em água da Tapada deve-se às suas características geológicas, calcários de Lisboa e basalto de Monsanto.

E aqui fica, também, outro dos pontos mais bonitos da Tapada, a Alameda das Oliveiras. É uma estrada, agora ciclável, ladeada em ambas as bermas por dezenas de oliveiras, tendo como resultado uma imagem que esperaríamos encontrar no campo e não numa cidade. Lá vamos, então, sob as oliveiras e com a companhia da vinha, de um lado, e da mata, do outro.

Ao cimo desta Alameda, um pequeno desvio deixa-nos no miradouro da Tapada. A 134 metros de altitude encontramos um dos marcos geodésicos mais antigos do nosso país. O terraço onde assenta a plataforma do miradouro é mais um pequeno encanto, revestido a azulejos de tons azul e branco. A vista, essa, tem tudo para ser magnífica, mas o muito e denso arvoredo não deixam que seja totalmente desafogada.

Já quase no Alvito, para onde há agora uma ligação com a entrada do Portão de Monsanto, seguimos pela mata e eira, onde cavalos pastam livremente. E antes de retornarmos deixámos-nos estar a apreciar as meninas a jogar rugby – não era o Agronomia, mas era o nosso Sporting.

De volta ao coração da Tapada, a vegetação é quase indomável em certos pontos, como aquele onde está o Tanque de Santo António, que apesar de escondido na erva alta ainda hoje fornece água para as hortas vinda de uma mina. Passamos por mais um lago e pelo Banco de Junot, onde se diz que o militar das tropas de Napoleão gostava de vir ver o pôr-do-sol quando se instalou em Lisboa durante as Invasões Francesas.

E chegamos, enfim, ao Observatório Astronómico de Lisboa, outro dos edifícios mais distintos e importantes da Tapada. Em 1850, os astrónomos Faye, francês, e Strave, russo, sugeriram a D. Pedro V a sua construção, uma vez que entendiam ser Lisboa o lugar ideal e único em toda a Europa para a luneta zenital encontrar a estrela Argelander. E assim se construiu o Observatório, em estilo neoclássico, ainda hoje a instituição de referência para o estabelecimento da hora legal de Portugal. Diante si temos um pequeno jardim com canteiros onde descobrimos um belo dragoeiro. Na verdade, percebemos logo depois, há mais dois dragoeiros à entrada da fachada com colunas do Observatório, dando-lhe um enquadramento pitoresco.

Encaminhando-nos para a saída da Tapada, a tal área de vinha que viramos à entrada estende-se agora de forma larga, com diversas castas plantadas. E, para terminar esta visita de forma grandiosa, eis a imagem do casario de Alcântara com a Ponte e o Cristo-Rei de braços abertos a proteger a Tapada da Ajuda.

A Carta de Pero Vaz de Caminha

À semelhança do Roteiro da Primeira Viagem de Vasco da Gama à Índia (1497-1499), atribuído a Álvaro Velho, a Carta de Pero Vaz de Caminha está inscrita na lista da Unesco “Memória do Mundo”. Pero Vaz de Caminha era o escrivão da armada de Pedro Álvares Cabral que em 9 de Março de 1500 saiu do Restelo para aportar em Terras de Vera Cruz em 22 de Abril desse mesmo ano, 44 dias de viagem pelo Atlântico depois.

A Carta é um documento fundador da história do Brasil, a sua certidão de nascimento. Dirigida a El Rei D. Manuel, dando “nova do achamento desta vossa terra nova”, a Carta pode ser considerada literatura de viagem. Este é, na realidade, o primeiro olhar sobre um lugar até então desconhecido e um encontro de culturas tão diferentes, expresso no relato das primeiras impressões e contactos com o outro.

A escrita de Pero Vaz de Caminha começa humilde, notando que escreverá o melhor que puder e que “não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu”. Seguiu a frota pelas Canárias e Cabo Verde, onde se perdeu uma nau para sempre. A umas 660 ou 670 léguas de São Nicolau avistaram finalmente terra, “primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com muitos arvoredos: ao monte alto o capitão pôs nome – o Monte Pascoal e à terra – a Terra da Vera Cruz”, onde ancoraram. Terra de Vera Cruz, isto é, terra da verdadeira cruz, a primeira das muitas referências religiosas da Carta. Uma espécie de aliança da cruz e da espada, à semelhança do que já tínhamos presenciado com o Roteiro da Primeira Viagem de Vasco da Gama à Índia. Mas ao contrário desta, na viagem que deu origem à Carta não havia a mínima ideia do que se iria encontrar, a novidade movia os integrantes da frota de Cabral, daí também a humildade de Caminha.

A Carta é um relato informativo e descritivo da nova terra. Demonstra curiosidade, revela superioridade (eurocentrismo) e é imbuída de um primitivismo, mas também de uma visão paradisíaca das Américas. Ao mesmo tempo que as consideravam sociedades sem cultura, sem uma organização social, havia também a ideia do “bom selvagem”, de paraíso na terra. Uma sociedade sem roupas e sem constrangimento algum, onde o pudor não existe, vivendo-se de acordo com a natureza. Sem propriedade privada, sem hierarquização social, sem proibições, sem religião.

Depois de ancorarem perto da cidade que haveria de se chamar Porto Seguro, no actual Estado da Bahia (mais precisamente na Praia Coroa Vermelha, em Santa Cruz Cabrália), avistaram homens que andavam pela praia. “Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas”. “Nas mãos traziam arcos com suas setas”. “A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem-feitos”, “traziam os beiços de baixo furados, metidos neles seus ossos brancos e verdadeiros, de comprimento de uma mão travessa, da grossura de um fuso de algodão, agudos na ponta como um furador.” Prossegue a descrição, agora das mulheres indígenas: “ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos, compridos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha”, “tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha (que ela não tinha) tão graciosa, que a muitas mulheres da nossa terra, vendo-lhe tais feições, fizera vergonha, por não terem a sua como a dela”. A comparação entre o conhecido e aquilo que se estava a conhecer pela primeira vez não pode faltar, seja nas “vergonhas” das mulheres, seja na fauna (“vimos algumas pombas-seixas e pareceram-me bastante maiores que as de Portugal”), na flora (“não vira lá entre eles senão umas choupaninhas de rama verde e fetos muito grandes, como Entre Douro e Minho”), no clima (“terra de muitos bons ares, assim frios e temperados como os de Entre Douro e Minho”), nos modos de fazer (“eles não têm coisa que de ferro seja, e cortam sua madeira e paus com pedras feitas como cunhas”).

Os primeiros contactos entre “nós” e o “outro” foram estabelecidos mostrando bens, uma vez que a comunicação falada era ainda impossível. Se a impressão da comparação entre o clima da Bahia e do Minho, sabemos hoje, é um engano, também os primeiros contactos resultaram em algumas percepções erróneas. Com efeito, mostrado um colar, o índio “começou de acenar com a mão para terra e depois para o colar, como que nos dizendo que ali havia ouro. Também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal como se lá também houvesse prata”. Mas Pero Vaz de Caminha terá acertado com as impressões dos índios face aos animais apresentados pelos portugueses: reagiram bem ao papagaio, não fizeram caso do carneiro e tiveram medo da galinha. Quanto ao vinho, “mal lhe puseram a boca; não gostaram nada, nem quiseram mais”. Mas no que respeita ao ouro, Caminha é mais uma vez humilde e até cauteloso, acrescentando “isso tomávamos nós assim por o desejarmos”.

O fascínio da terra achada é revelado pela descrição da abundância. Papagaios e aves haverá muitos, o arvoredo “é tanto, tamanho, tão basto e de tantas prumagens, que homens as não podem contar” e a terra “será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas por costa. […] De ponta a ponta, é toda praia parma, que nos parecia muito chá e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande, porque, a estender olhos, não podíamos ver terra senão com arvoredos, que nos parecia muito longa”. E, “as águas são muitas; infindas […] dar-se-á nelas tudo”.

Visitada uma povoação de nove ou dez casas, Caminha descreve-as como sendo “tão compridas, cada uma, como esta nau capitânia. Eram de madeira, e das ilhargas de tábuas, e cobertas de palha, de razoada altura; todas de uma só peça, sem nenhum repartimento, tinham muitos esteios; e, de esteio a esteio, uma rede atada pelos cabos, alta, em que dormiam. Debaixo, para se aquentarem, faziam seus fogos. E tinha cada casa duas portas pequenas, uma num cabo, e a outra no outro”. Os índios não lavraram nem criavam, “não há aqui boi, nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem qualquer outra alimária, que costumada seja ao viver dos homens. Nem comem senão desse inhame, que aqui há muito, e dessa semente e frutos, que a terra e as árvores de si lançam”.

A catequizaçao era um ponto fundamental nas missões da Coroa Portuguesa e a confirmar o messianismo de D. Manuel está o facto de aqui logo ter sido mandada rezar uma missa. “Enquanto cortávamos a lenha, faziam dois carpinteiros uma grande Cruz, dum pau, que ontem para isso se cortou” – a madeira usada para esta construção foi o pau-brasil, nome que inspirou a designação da terra achada, o Brasil. Então, a mando do Capitão, puseram-se todos de joelhos e beijaram a Cruz, “para eles verem o acatamento que lhe tínhamos”. Continua, “parece-me gente de tal inocência que, se homem os entendesse e eles a nós, seriam logo cristãos, porque eles, segundo parece, não têm, nem entendem em nenhuma crença”. Os indígenas, em número de 50 ou 60, assistiram à missa de joelhos, como os portugueses, e Caminha escreve “à qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção”.

“Esta gente é boa e de boa simplicidade”, “a inocência desta gente é tal, que a de Adão não seria maior”, “são muito mais nossos amigos que nós seus”, são elogios do escrivão português, mas realizados com uma clara intenção de superioridade, acreditando na diferença civilizacional de ambos, referindo por diversas vezes ao longo da Carta a vontade de os “amansar”. Este é um denominador comum na literatura de viagens da época, e não exclusivamente portuguesa, a da caracterização do outro, ainda que com fascínio, sempre como alguém selvagem que carece de salvamento, ou seja, pronto a ser dominado. E, por isso, Pero Vaz de Caminha remata a sua Carta a D. Manuel escrevendo que “o melhor fruto, que nela se pode fazer, me parece que será salvar esta gente”.

Encontros em Cidades Únicas

A RTP esteve a transmitir neste mês de Abril o programa “Encontros em Cidades Únicas”. São na sua maioria viagens por lugares onde a vida humana parecia à partida impossível e podemos ver os oito episódios no RTP Play, aqui.

Lugares como La Paz, na Bolívia, a mais alta capital do mundo, instalada a quase 4000 metros de altitude, onde mais do que dois passos deixam os forasteiros a arfar em busca de oxigénio. Ou como Yakutsk, na Sibéria, a cidade mais fria do mundo, onde -45º é até quentinho para os locais. Ou Longyearbyen, em Svalbard, a cidade mais a norte do mundo cujos habitantes não estranham a noite polar, 3 meses de inteira escuridão, um lugar tão inóspito que nenhuma civilização ali se instalou até começar a ser povoada apenas no século XX à conta da descoberta de uma mina de carvão. Ou Chinguetti, na Mauritânia, em pleno deserto do Saara, onde de uma semana para a outra a porta das suas habitações é inundada pela areia insistentemente trazida pelo vento. Ou Ganvié, no Benin, a “Veneza de África” onde as construções em palafita dos seus pescadores balançam tranquilamente no Lago Nokoué – cujas águas servem para tudo: via de transporte e escoamento de dejectos humanos. Mas o meu programa preferido foi o dedicado a Manila, nas Filipinas, a cidade com a maior densidade populacional do mundo.

Estas foram curtíssimas apresentações destes “lugares únicos”. O “encontro” é intermediado pela francesa Alexandra Alevêque que se propõe a, durante 15 dias, ir viver para casa de uma família de cada uma destas cidades. A interacção com os locais é perfeita e, assim, ficamos a saber mais como se vive nestes lugares difíceis e incomuns através dos hábitos e modos de vida das suas gentes. Em Manila, por exemplo, uma família de 10 vive em 12 m2, onde uma simples cortina separa o “quarto” dos pais do dos filhos e há fila de espera para uma ida à casa-de-banho. A espontaneidade da francesa é tal que conseguimos rir das situações que nos aparecem, tão estranhas que são para o citadino comum ocidental. Sabia que em Manila existe um cemitério onde (dada a falta de espaço, mas também a falta de dinheiro) os jazigos foram transformados em casas, lojas ou creches? E sabe como pode (tentar) reagir a uma morte certa no caso de ficar com o carro empanado numa estrada isolada no gelo da Sibéria? Primeiro queime os pneus, a seguir os estofos do carro e depois tudo o mais que lhe ocorrer até fazer uma bela fogueira enquanto espera pela ajuda. Aprender com o insólito.

Montalegre

Montalegre é para mim o concelho mais incrível do nosso país no que a cenários diz respeito. Passava pela ponte do Cabril sobre o rio Cávado na Barragem de Salamonde quando o percebi definitivamente. Olhando à esquerda a paisagem é esmagadora, com algumas das mais altas fragas graníticas do Gerês como pano de fundo. O Pico da Nevosa, o segundo mais alto de Portugal, fica lá para trás.

É sobretudo de paisagem natural de que se trata quando se fala na região de Montalegre. As escarpas da Serra do Gerês, com Pitões de Júnias como destaque cimeiro. As cascatas de Pincães e de Cela Cavalos. As lagoas do Xertelo. As piscinas naturais do Fafião.

Mas o Homem deixou também a sua marca, numa brilhante parceria com a natureza. Veja-se o exemplo do miradouro desta mesma Fafião, uma ponte suspensa que liga dois penedos graníticos sobre o vale e envolvente da Serra do Gerês. Ou a Ponte da Mizarela, pacto com o diabo e cheia de lendas. Ou Sirvozelo, a aldeia que se confunde com os penedos. Ou Vilarinho de Negrões, a aldeia que o enchimento das águas da Barragem do Alto do Rabagão fez transformar numa península estreita extremamente pitoresca.

Aliás, barragens é o que não falta ao concelho de Montalegre. Para além da do Alto do Rabagão encontramos ainda as belas águas das barragens do Alto Cávado, Salamonde, Paradela e Venda Nova. O Cávado é o grande rio dominador e nem precisámos de explorar a Serra do Larouco, onde fica a sua nascente, para nos apaixonarmos por ele e pela região.

Região esta que é mais conhecida por Terras do Barroso. De uma ruralidade intensa, a carne barrosã é uma forte imagem de marca. Assim como o fumeiro e o espírito comunitário que ainda se vive em aldeias como Tourém, lá para o fim do mundo, já juntinho a Espanha. Já não há contrabando, as Minas da Borralha deixaram de explorar o volfrâmio, restando a sua doce ruína, e o Castelo de Montalegre já não guarda ataques espanhóis.

Sonhando com todo este eclético património, do Alto da Corujeira gabamos a nossa sorte por termos Montalegre como vizinha, ainda que distante.

Cascata de Cela Cavalos

À semelhança da Cascata de Pincães, também a Cascata de Cela Cavalos fica no concelho de Montalegre, mas ainda no Parque Nacional Peneda-Gerês. Será uma das menos conhecidas, mas nem por isso menos fantástica do que as suas companheiras. Um pouco antes da povoação de pedra de Sirvozelo, que tanto me tinha deslumbrado quando por lá passei há um par de anos, a Cela Cavalos podemos aceder após estacionarmos o carro na povoação de Cela ou imediatamente antes, num estacionamento de terra batida improvisado bem diante de uma enorme pedra com um portinhola – é esta vida que estas gentes do Barroso dão à natureza, em especial a estes penedos, que tanto me seduz.

O percurso – a pé – até à Cascata faz-se sempre a descer, num estradão sem dificuldade de maior. São cerca de 25 minutos na ida. A volta, está visto, é sempre a subir, qualquer coisa como 40 minutos. Fiz este caminho sob um calor intenso. Não há qualquer sombra a não ser a de um ou dois minúsculos pinheiros, um género de oásis onde aproveita para parar e beber um gole de água do cantil. Ou seja, embora não seja tecnicamente difícil, em dias de calor o trilho é extremamente cansativo e até penoso.

Ainda assim, deu para contemplar a paisagem. Quando passamos a pequena Capela de Santa Luzia, instalada num alto, vamos descendo sempre a admirar o belo vale com um conjunto de belas fragas ao nosso lado esquerdo. E entretanto paramos por momentos para apreciar um lugar onde inúmeras caixinhas de mel estão em exposição, numa forte concorrência à paisagem.

Já cá bem em baixo no vale, passada uma ponte de madeira, a Cascata de Cela Cavalos surge diante de nós. Fantástica, deslumbrante mesmo. E qualquer arrependimento pelo atrevimento de termos descido tanto e, consequentemente, termos de pagar pela corresponde subida, esvai-se.

Mergulhamos, pois claro. Mais uma fresca recompensa pelo esforço. Não contentes, há que subir (não é difícil) até ao topo da cascata para aí descobrir mais uma belíssima poça. O incrível destas lagoas e poças do Gerês é que conseguem atingir profundidades imensas, daí que seja um entretenimento relativamente pouco perigoso a aventura de saltar dos penedos. Mas não fizemos como os moços, antes preferimos limitarmo-nos a boiar nas deliciosas águas de Cela Cavalos.