Golfinhos e bioluminiscência

Para além do surf, em Puerto Escondido há pelo menos mais duas actividades imperdíveis: sair para o mar para ver golfinhos e tartarugas e sair para assistir ao fenómeno natural da bioluminiscência. Cada um destes tours é realizado por diversas companhias, mas foi-nos aconselhado o de Omar para os golfinhos e o de Lalo para a bioluminiscência e não só não nos arrependemos como os recomendamos.

Para ver os golfinhos saímos bem cedo, 7:30, da praia de Puerto Angelito. Primeiro, o barquinho com 8 pessoas a bordo sai contornando as praias junto ao centro de Puerto Escondido, com uma passagem especial por trás da bela e poderosa onda de Zicatela. Depois segue mar alto afora em busca das tartarugas e dos golfinhos.

Tivemos a sorte de ver logo duas tartarugas em pleno momento de acasalamento. Depois, mais uma tartaruga aqui e outra ali. Talvez um golfinho ao fundo. E mais nada. Andámos assim por muito tempo no barco, de um lado para o outro. Mas depois percebemos a diferença entre se escolher um ou outro tour. Em contacto via rádio com os seus informantes, o nosso “marinheiro” foi incansável e não parou enquanto não nos descobriu uma série de golfinhos. Entusiasmado, ao fim de um tempo largo passou a anunciar-nos que o que veríamos em breve iria “bloquear a nossa mente”.

Pode não ter bloqueado, mas que a nossa mente ficou mais leve e alegre com o contágio das brincadeiras e da felicidade que as dezenas de golfinhos mostravam naquela imensidão de mar, ai isso ficou. Eram saltos e mais saltos, alguns com piruetas no ar, uma maravilha. Este é um turismo responsável, pelo que não há aqui aquela coisa de tocar e fazer festas nos golfinhos. Limitámo-nos a mergulhar no mar quente e, debaixo de água, a escutar a chiadeira que os golfinhos soltam quando dialogam uns com os outros.

O anúncio do tour da bioluminiscência parecia uma treta daquelas “venha ver luzinhas dentro de água”. Ainda assim, sem grandes expectativas, juntámo-nos a ele. Lá pelas 18:00 seguimos de carro até à Laguna Manialtepec, onde passámos para um barco.

O guia era um conhecedor do lugar e estudioso da avifauna. Começámos por descobrir as diversas aves, cada uma mais bonita do que a outra, umas a sobrevoar a laguna, outras poisadas nos ramos da flora do manguezal, tudo isto num ambiente de fim de tarde de uma tranquilidade ímpar.

O barco lá ia seguindo molengão pela laguna e, depois, pelo canal que a liga até ao mar. Aqui chegados, saímos para a areia, acendendo uma fogueira e assando uns marshmallows, o docinho favorito do Snoopy, aguardando que a noite chegasse.

Foi então que, noite cerrada, apenas percebendo o som da rica fauna local, voltámos pelo canal e laguna e nos foi sendo explicado o fenómeno da bioluminiscência, melhor apreciado sem lua e após grandes chuvadas – condições óptimas que tivemos a sorte de ter. Este fenómeno natural ocorre pela presença de microrganismos que provém do mar e se reproduzem em águas tranquilas como as desta laguna. É o designado plancton marinho, que só acontece sob algumas condições naturais. O efeito? Umas cores luminosas e fosforescentes entre o azul e o branco quando colocamos a mão na água escurecida pela noite. Parece magia, mas é pura natureza. Lá mergulhámos na escuridão e os gestos do nosso corpo em contacto com a água foram recebendo essas cores sob a forma de uns feixes e umas bolinhas assaltaram a nossa pele e escorreram por ela.

Este é um espectáculo grandioso que nos é oferecido pela natureza e faz de Puerto Escondido um lugar ainda mais inesquecível.

As praias para lá de Puerto Escondido

Alugar um carro e partir para uma jornada de um dia para conhecer algumas das praias mais afastadas de Puerto Escondido é uma boa ideia. A estrada em direcção a Huatulco, onde ficam alguns dos maiores resorts da região, é fácil de dirigir, sempre recta, e acompanhada de uma bela paisagem feita de rios que correm para o mar e vegetação tropical.

Mas não chegámos a Huatulco e ficámo-nos apenas por Puerto Ángel, a uns 75kms de Puerto Escondido.

Eis algumas das praias deste passeio:

Puerto Ángel, a melhor para se ver a dinâmica de pesca

Zipolite, com a belíssima Playa del Amor escondida no seu final

San Agustinillo, a melhor para banhos

Mazunte, a melhor para uma paragem ao almoço e assistir aos banhistas a serem enrolados nas ondas – só aqui a mana fez dois salvamentos 💪😂

Puerto Escondido

O desvio até Puerto Escondido, na costa de Oaxaca, tinha uma justificação oficial, a de descansarmos uns dias antes de retornarmos ao país e ao trabalho. Mas a verdade esteve mais na justificação oficiosa da escolha, a da mana poder surfar naquela que é uma das ondas mais famosas do México e do mundo. Há que ser honesta, no entanto, e assumir que ver os surfistas a descer a onda de Zicatela e a entrar nos seus constantes tubos foi um espectáculo que só por si mereceu atravessar o Atlântico e mais além, parando neste ponto da costa já virado para o Pacífico. Foi um passatempo muito prazeroso deixarmo-nos estar na areia e vê-los ali bem junto a nós a aparecer e a desaparecer nas ondas enormes.

Puerto Escondido é uma povoação pacata onde não se faz mais do que surfar de manhã, dar um mergulho na praia, apanhar sol, comer ceviche, apanhar sol, dar um mergulho na praia, surfar de tarde, sair para bailar.

A povoação em si é famosa pela praia de Zicatela, onde fica a tal onda tubular famosa. Por curiosidade diga-se que esta onda funciona grande parte do ano e sobretudo pela manhã e ao final da tarde. Pelo meio, não são fáceis os banhos em Zicatela, porque as ondas rebentam muito fortes mesmo à beira da areia.

Se não se vai surfar, ou se se vai surfar ondas mais pequenas e para principiantes, a escolha é a Ponta, no final dos 4kms de Zicatela.

Mas há mais praias em Puerto Escondido.

Como a Playa Principal e a Playa Marinero, no centro da povoação, onde se partilha a areia e a água com os barquinhos de pescadores e o prémio do dia.

O Andador Turístico, que liga este centro a outras praias, estava interdito aquando da nossa visita, destruído em muitos pontos pela força do mar, daí que não tivéssemos percorrido mais do que uma centena de metros.

Mas utilizando os táxis sempre baratos chegamos até uma pequena enseada protegida pelas rochas que acolhe a Playa Manzanillo e Puerto Angelito.

Mais adiante fica a Playa Carrizalillio, talvez a mais bonita, acessível depois de se descer uns quantos degraus.

A costa é longa, pelo que opções de praias não faltam e em post seguinte veremos que vale a pena sair de Puerto Escondido e explorar os seus arredores.

Pelas redondezas de Oaxaca

Na maior parte das vezes não achamos muita piada aos tours, pela pouca margem de tempo que costumam dedicar a cada visita e pelos lugares adereço que impingem aos turistas.

Mas nas viagens sempre em trânsito, constantemente de um lado para o outro, de vez em quando sabe bem descansar a cabeça e vale a pena arriscar a ser guiado, sobretudo quando o tempo não abunda. Foi assim que decidimos por um tour pela região mais próxima da capital de Oaxaca, desde aí até Hierve el Agua, a 70 kms, passando por Mitla e Santa Maria del Tule, com paragens numa loja de têxteis e numa fábrica de mezcal. E não só não nos arrependemos como recomendamos este tour.

A primeira paragem foi em Mitla, povoação famosa pelo sítio arqueológico que ganhou importância após a queda de Monte Albán. De nome original em língua zapoteca “lyobaa”, com o significado de “lugar de descanso”, as ruínas deste sítio comportam um conjunto de edifícios que no seu apogeu entre os séculos XIII e XIV acolhia as entidades religiosas e os palácios das mais altas personalidades da época zapoteca. Mas o elemento mais distintivo deste sítio são as designadas “grecas”, os seus mosaicos característicos com decorações geométricas várias que dão aos muros dos edifícios um efeito especial de movimento e luz.

De Mitla seguimos até Hierve el Agua e pelo caminho fomos apreciando a paisagem montanhosa. “Ferve a agua” é um lugar que tem tudo para ser um daqueles panoramas incríveis que se guardam na memória até ao final da vida – uma piscina de água azul debruçada num desfiladeiro acompanhado pelo recorte da montanha. Acontece que em época de Guelaguetza não é só a cidade de Oaxaca que está cheia de visitantes. É também toda a região. Ou seja, à nossa passagem o panorama incrível estava transformado num cenário preenchido por uma multidão de corpos e cabeças que quase não deixava perceber que ali havia uma piscina com água. Este é, pois, um lugar popular.

Mas se nos deixarmos levar pelo caminho de terra que está para lá desta piscina vamos ver um outro panorama igualmente incrível, feito de penhascos altos cujas rochas têm umas formas raras, resultado dos minerais que sobre elas actuam. Tudo isto num ponto altaneiro para um vale que se estende longe de forma soberba.

Após um almoço buffet tradicional esquecível, parámos em Teotitlán del Valle, a terra por excelência onde são confeccionados os têxteis, mais especificamente numa loja onde pudemos conhecer, através de uma demonstração, o modo do seu fabrico ao tear. Mais interessante ainda foi saber como se chegam às diversas cores que inundam os têxteis que são uma das imagens de marca de Oaxaca. Por exemplo, o vermelho vêm de um parasita de um insecto que costuma aborrecer os espinhos dos cactos. Mas não são só os bichos que resultam em cor, também a manipulação de outros elementos da natureza como frutas, minerais e flores nos fazem chegar às cores mais incríveis para, depois, preencherem a diversidade de desenhos e temas das várias peças de têxteis.

Se com esta demonstração por um casal de velhotes ficámos com a impressão de não haver neste tour pressão para os seus integrantes comprarem os produtos locais, com a visita à fábrica de mezcal ficámos com essa certeza. Na Fábrica de Mezcal Artesanal El Rey de Matatlán vimos o processo que leva até à forma final em que se serve esta bebida espirituosa, desde a planta do agave até à destilaria, com muitas curiosidades à mistura, e foram-nos dados a provar vários tipos de mezcal, sempre seguindo um ritual bem disposto. Se o mezcal é parte da identidade de Oaxaca – na região dos vales centrais é fabricado 60% de todo o mezcal do México -, há que, então, seguir todos os preceitos associados à toma desta bebida que se bebe maioritariamente num convívio de amigos. No nosso grupo não éramos todos amigos, nem sequer conhecidos, mas neste momento do tour já vínhamos trocando conversas e aqui, na prova de mezcal, pudemos trocar experiências e perceber que quase todos eram mexicanos, vindos de todo o lado do país, Chihuahua, Puebla, Baja California. Antes de beber o mezcal há que soltar sempre em conjunto alguma poesia, como a muito conhecida “para todo o mal, mezcal; para todo o bem, também.” E foi para o bem que provámos várias levas deste líquido num copinho pequenino – fraquinha, eu fiquei-me pela primeira prova desta aguardente que mais me pareceu saber a tabaco e só voltei às lides quando foi oferecida a prova de mezcal mais licoroso.

Esta jornada terminou em Santa Maria del Tule, um pueblo tranquilo cuja maior atracção é uma sua árvore, a Árbol del Tule, uma das maiores do mundo no que ao diâmetro de tronco diz respeito. São 14,5m e conta-se que serão necessárias 30 pessoas para a abraçar. Impressionou-me mais saber que terá 2000 anos e, principalmente, a pacatez do parque da povoação, com igreja e jardim bem cuidados, e que, esse sim, ficará na memória como fecho deste longo dia.

Monte Albán

Monte Albán é a maior cidade pré-hispânica da região de Oaxaca. Está situada sobre um conjunto de maciços montanhosos onde confluem os três vales de Oaxaca, a 1900m sobre o mar e a 300m sobre o vale. É uma daquelas implantações extraordinárias, sobranceira a todo o território, que nos faz apreciar ainda mais o engenho das antigas civilizações.

Para se chegar a Monte Albán a melhor forma é ir de táxi, uma jornada de uns vinte minutos desde o centro de Oaxaca sempre a subir. E é muito boa ideia vir cedo, pois por volta da hora do almoço o sítio começa a encher e perde a piada da sua pacatez.

O sítio arqueológico de Monte Albán é um dos mais importantes do México e o mais importante da região de Oaxaca. Com ocupação humana permanente durante cerca de 13 séculos, entre 500 a.C. e 850, foi no século XIX que se iniciaram os primeiros trabalhos de escavação do local. A zona arqueológica estende-se por 20 km2 e abarca um conjunto de três grandes montes no vale de Oaxaca: Monte Albán, Atzompa e Gallo. Este era o centro da cultura zapoteca e desde Monte Albán os zapotecas governaram os vales centrais de Oaxaca. Após o seu abandono progressivo até ao século X, não se sabendo ao certo o seu porquê, a cidade continuou sagrada para os zapotecas e os mixtecas que lhes sucederam. Seguiram-se os aztecas e, depois destes, os espanhóis, os quais fundaram Oaxaca em 1529.

A construção de Monte Albán passou por várias fases, mas desde os seus primeiros anos que esta foi uma cidade planeada, diz-se que a primeira do continente americano (embora tenhamos visto o mesmo anúncio em Teotihuacán). É um complexo de pirâmides, mercados, palácios e templos construído pelos zapotecas. Estava distribuída urbanísticamente de forma a que em cada topo – norte e sul – se erguesse uma plataforma. E sobre cada uma destas plataformas construíram-se os edifícios monumentais, incluindo pirâmides que se propunham a copiar a forma dos montes. Já as residências dos habitantes da cidade estavam distribuídas nas ladeiras, sobre a forma de terraços. Em baixo e ao centro, a Grande Praça, hoje um espaço largo sobre um manto de relva verdíssimo, 300m por 200m que correspondiam ao coração do centro cerimonial da cidade de Monte Albán.

Em cada uma das plataformas, os panoramas que se obtém são soberbos. Panoramas quer para o próprio complexo da cidade antiga de Monte Albán, com a belíssima Grande Praça em grande plano, como para os vales vizinhos, com vistas amplas de 360°. Esta implantação não foi certamente um acaso. Pelo contrário, os zapotecas privilegiavam na construção da sua cidade uma interacção com o meio ambiente e a paisagem natural que a rodeia.

Esta era uma sociedade altamente organizada que adoptou o estado como sistema de governo, dirigido pela classe sacerdotal. A economia era baseada no tributo prestado pelas demais comunidades do vale e na produção agrícola de milho e outros bens. A região era rica em recursos naturais como plantas medicinais, frutos e sementes de plantas silvestres, insectos comestíveis, animais de caça, bem como pedra, cal e adobe para a construção dos edifícios e barro para a cerâmica.

Os edifícios estavam construídos com uma disposição de forma a poder calcular-se os ciclos da agricultura. Aliás, em Monte Albán usavam já os zapotecas um sistema de calendários. Mais, terá sido das primeiras civilizações do México a usar um sistema de escrita.

O seu auge aconteceu entre os séculos IV e VII, quando a sua população chegou a atingiu 25 mil pessoas. No sítio arqueológico de Monte Albán existe um pequeno museu. E no Museu de Antropologia da Cidade do México podemos conhecer ainda mais sobre ele, vendo-se, nomeadamente, tumbas com uns frescos de cores vivas – o que não se vê in loco na própria Monte Albán. Aqui, para além das ruínas dos edifícios, apenas vemos umas poucas colunas de pedra com figuras dos Dançantes. E se em Monte Albán é visível, bem conservado, um interessante espaço feito de terraços de pedra com a forma de um campo de jogos, é no Museu de Antropologia que aprendemos melhor sobre esta ideia comum a várias civilizações pré-hispânicas.

Os terraços do Juego de Pelota não seriam lugares para os espectadores, mas antes espaços para se jogar este desporto ritual que tinha como finalidade determinar os perigos que o sol enfrentava na sua jornada diária pelo plano celeste e, assim, conjurar a sua possível destruição. Soa místico? Os zapotecas davam ainda grande importância à astronomia. Quanto a eventuais sacrifícios praticados na cidade, o nosso guia assegurou que não, ali não se fizeram nunca sacrifícios. Pois. Deve ser difícil admitir que num sítio com um ambiente tão inspirador se tivesse realizado alguma vez algo tão incompreensível para a nossa época.

As cores da Guelaguetza

Oaxaca é famosa pelos seus festivais tradicionais. Para um não mexicano talvez o mais famoso deles seja o do Dia dos Mortos, em Novembro. Mas para um oaxaquenho e para os mexicanos em geral, o Guelaguetza é aquele em que todos querem participar.

Também conhecido como “Los Lunes del Cerro” (segundas-feiras do Monte), o Guelaguetza tem lugar nas duas segundas-feiras a seguir ao dia 16 de Julho. Em 2019 calhou, por isso, nos dias 22 e 29 de Julho, mas toda a semana é de festa.

As suas raízes vêm de há muito e é uma tradição indígena que pretende honrar Centeotl, a Deusa do milho, de forma a assegurar boas colheitas (recordar o dito popular: “sin maíz, no hay país”). Quando os espanhóis chegaram, os missionários que os acompanharam tentaram acabar com este género de rituais pagãos e para isso promoveram a Festa da Virgen del Carmen, celebrada a 16 de Julho. Sem sucesso. A Guelaguetza sucede-a no calendário, mas não encontra ainda hoje rival nas festividades.

Celebrado oficialmente desde 1974, gente de todo o México, e mesmo estrangeiros, vem até Oaxaxa durante estes dias para assistir a um colorido e alegria diferentes proporcionado pelos participantes das oito regiões do estado de Oaxaca, a região mexicana com mais diversidade étnica. As várias comunidades dançam e cantam com orgulho e desfilam pelas ruas nas suas vestes típicas, hiper coloridas e hiper decoradas. É uma autêntica mostra étnico-cultural das tradições indígenas, a que não falta a gastronomia – e o mezcal – que, aliás, é um dos pontos altos de qualquer visita à cidade de Oaxaca.

Guelaguetza é uma palavra zapoteca (o grupo indígena dominante na região) que significa “oferecer”, enquanto acto de troca, de reciprocidade, daí que no final dos espectáculos de dança folclórica tradicionais que ocorrem nas praças e ruas da cidade estes terminem sempre com os participantes a atirar presentes para o público, sobretudo fruta e flores.

As cerimónias oficiais têm lugar no auditório no Cerro del Fortín e os lugares mais próximos do palco – pagos – esgotam rapidamente. Para os demais lugares – gratuitos – formam-se filas enormes para ambas as sessões – de manhã e de tarde – de ambas as segundas-feiras.

Tentámos comparar bilhete, não tentámos esperar na fila. Mas nem por isso se perde pitada do ambiente festivo. No Zócalo está montado um écran gigante que vai passando as imagens da televisão com o grande espectáculo do auditório, igualmente transmitido na rádio. E no Jardín del Pañuelito acontecem espectáculos em ponto mais pequeno de dança e música. Pelas ruas, para além das bancas de artesanato e do corrupio constante das mulheres em belos trajes tradicionais e com tranças coloridas, vamos vendo diversas paradas com muita música, cor e alegria.

Dito isto, não se pense que é apenas na cidade de Oaxaca que se sente a Guelaguetza. Não. Um pouco por todo o estado se percebe estas celebrações. Na estrada cruzamo-nos com carrinhas de caixa aberta a transportar os participantes nas suas vestes tradicionais e nas aldeias e vilas escutamos o rufar dos tambores ou um lançar de fogo de artifício e vemos as suas ruas decoradas para a festa que torna a região de Oaxaca ainda mais viva e colorida.

Oaxaca

Oaxaca é o nome do estado mais indígena do México e aquele que mais preserva as suas tradições ancestrais. E é também o nome da sua capital, provavelmente uma das cidades mais carismáticas e turísticas do país e distinguida pela Unesco como património mundial.

A diversidade do estado de Oaxaca manifesta-se na sua cultura, com uma série de etnias, mas também na sua geografia. Chegando de avião percebemos melhor os seus vales cercados de montanhas verdes. Mas mesmo caminhando pela cidade vemos que as montanhas nos rodeiam. Quando pretendemos sair dela por carro, então, nem se fala. Ou seja, Oaxaca está implantada num desses vales.

O seu nome deriva do nahuatl huaxyácac que significa “no nariz da abóbora”. Quando os espanhóis aqui chegaram e fundaram a sua cidade em 1529 chamaram-lhe Nova Antequera, mas após a independência do México o seu nome passou para Oaxaca. Em 1872, morto Benito Juaréz, um indígena nascido num pueblo local que veio a ser presidente da República por 14 anos e se tornou num dos mais considerados e amados políticos da nação, a cidade passou à actual Oaxaca de Juaréz. Curiosamente, Porfirio Díaz, outro oaxaquenho, ocuparia o mesmo cargo pouco depois e tornar-se-ia o ditador que por mais de três décadas governou o país. O porfiriato gerou tal descontentamento por parte da população que desencadeou as lutas pela Revolução Mexicana, cujo líder mais popular para nosotros, gringos será Emiliano Zapata – que não era de Oaxaca, mas entra na nossa história para gritar Viva Zapata!, relembrando John Steinbeck, Elia Kazan e Marlon Brando.

Planeámos a nossa estadia em Oaxaca há uns meses largos e só mais tarde – talvez quando tentámos perceber o porquê do preço do alojamento ser estupidamente caro – reparámos que iria coincidir com o Guelaguetza, um dos maiores festivais do México, conhecido por ser um país de fiesta permanente. A tal ponto que Octávio Paz, o seu Nobel da Literatura, dizia que “a arte da festa pode ter-se degradado em todo o lugar, mas não no México”. Ou seja, o entusiasmo tomou conta de nós.

O primeiro dia pelas ruas de Oaxaca foi fantástico, colorido, animado. Ao segundo pensámos que seria giro se conseguíssemos apreciar um pouco mais sossegadamente o ambiente colonial das ruas e edifícios. Ao terceiro dia lamentámos, definitivamente, não podermos levar uma imagem do Zócalo com menos de mil pessoas ali entulhadas.

De qualquer forma, poder partilhar a cidade com os diversos oaxaquenhos que para aqui vêm no Guelaguetza (ver post seguinte) mostrar a sua cultura e tradições foi uma oportunidade única e muito bonita.

Comecemos este périplo por Oaxaca pela Igreja de Santo Domingo, o mais belo e rico templo dominicano que alguma vez vi. A sua fachada barroca é até equilibrada e esconde o deslumbre que é o interior hiper decorado, não apenas os altares, mas toda a igreja, incluindo paredes e tectos, cortesia dos melhores artistas da época da sua construção, no século XVI.

Esta era a igreja do antigo Convento de Santo Domingo, hoje transformado em Museu das Culturas de Oaxaca. Há que demorar-nos a conhecer as múltiplas salas deste museu, instaladas nas antigas celas dos dominicanos, e, assim, a história da cidade e da região.

Ainda no Convento, os claustros e as vistas que as suas varandas proporcionam são uma beleza à parte. Sobretudo esta última, com um cenário de cortar o fôlego para as montanhas que cercam a cidade, com as suas formas poderosas mas ternas ao mesmo tempo.

E lá em baixo fica o Jardim Etnobotânico, antiga horta do Convento. A visita a este jardim é apenas efectuada em determinados horários e com um guia (prevê-se que em breve possa vir a ser de visita livre, embora igualmente paga). Os poucos horários disponíveis para a visita não devem deter-nos, uma vez que este é um dos mais fantásticos locais que a cidade tem para oferecer. A ideia do jardim tem vindo a ser posta em prática a partir de 1998, quando se começaram a plantar plantas de todo o estado, neste que é o estado do México com mais espécies. E porque as plantas escolhidas para aqui serem representadas possuem também um significado cultural, eis o nome do jardim: etnobotânico. Vemos muitas espécies diferentes, incluindo os omnipresentes cactos, sempre num ambiente exótico, incluindo o pequeno lago com os reflexos irreais das plantas.

A Calle Macedonio Alcalá segue do Convento de Santo Domingo à Catedral no Zócalo. Rua pedonal, de um lado e do outro desfilam os edifícios coloridos coloniais que fazem também a fama de Oaxaca. Igualmente, nas ruas que lhe são paralelas e perpendiculares descobrimos muitos pormenores de encantar, seja uma cor diferente, uma janela decorada com flores ou uma janela que de tão longa mais parece uma porta, até um grafitti perdido numa parede.

A arte é uma constante na cidade. Existem inúmeras lojas de artesanato – cerâmica e têxteis como elementos fortíssimos -, galerias e espaços culturais e museus. Exemplos? O Instituto de Artes Gráficas com o seu mimoso pátio, o Museu Arte Contemporâneo, o Museu dos Pintores Oaxaquenhos e o Centro Cultural San Pablo (primitivo Convento Dominicano).

O Zócalo, já se disse a começar, ficou-nos marcado pelos magotes que o Guelaguetza traz a Oaxaca e que optam por se concentrar maioritariamente na praça central da cidade. Ainda assim, deu para sentir que é uma praça bem bonita, Catedral de um lado, Palácio do Governo do outro, jardim com árvores pelo meio, edifícios com arcadas nas laterais.

A gastronomia de Oaxaca é um atractivo por si só. Experimentámos a comida de rua e a comida dos seus restaurantes da moda, que mesclam os modos de fazer tradicionais com uma re-interpretação mais moderna, mas utilizando os ingredientes de sempre. Os chapulines, espécie de gafanhotos, são um exemplo disso, vendidos quer nos mercados e nas ruas quer servidos à mesa pelos chefs.

Oaxaca é a “terra dos sete moles”. São sete as variedades de mole, cada um com a sua cor, o molho que, conta-se, é feito da mistura de 28 ingredientes, entre os quais o chocolate e o chili.

O mole pode ser o que distingue a comida de Oaxaca, mas nomes e sabores como os dos tamale, quesadilla e tlayuda não passam despercebidos. Quanto a bebidas, para os que não bebem álcool, o tejate é uma opção ao incontornável mezcal, parte da identidade de Oaxaca que se guia pelo dito: “para todo o mal, mezcal; para todo o bem, também”.

O Mercado 20 Novembro, igualmente conhecido como “mercado da comida”, ao lado da confusão esperada e desejada do Mercado Benito Juaréz, é o lugar para se experimentar o tasajo, bife na grelha do qual só sentimos a intensa fumarada, e as águas de sabores da intemporal Casilda.

Já nas ruas, há que provar uma nieve, o gelado local, antes de subir à esplanada de um rooftop. Apesar de nos ter tocado chuva inclemente com hora marcada, sempre ao final da tarde, ainda conseguimos sentir o ambiente altaneiro de terraços como o do Pitiona, Los Amantes e Casa Oaxaca, todos eles escolhas acertadas para nos despedirmos de Oaxaca.