Algumas notas soltas da ilha

Sendo São Miguel a maior ilha do arquipélago dos Açores, é natural a sua grande variedade não apenas de paisagens mas também de pontos de interesse.

De lagoas, cascatas, miradouros já aqui se falou. Falta falar do chá, dos ananases, do atum, dos ilhéus, da arquitectura e arte contemporânea, da ruína. Não necessariamente por esta ordem.

No restaurante da Caloura comi o melhor atum da minha vida. Dito isto já não é pouco, mas falta todo o ambiente à beira oceano que se desfruta enquanto se saboreia este naco de peixe. Infelizmente, a vista nublada não deixou ver a ilha de Santa Maria, a vizinha mais próxima que se pode avistar em dias limpos.

A plantação de Chá da Gorreana é a mais antiga da Europa e nos dias de hoje a única. Um negócio familiar iniciado em 1883, a sua fábrica instalada na costa norte, perto da Ribeira Grande, labora ininterruptamente até hoje graças às características ideais do clima da região. Quando nos aproximamos do lugar vamos vendo as riscas na paisagem verde, correspondentes à grande plantação – são 32 hectares. E junto da fábrica podemos embrenhar-nos na plantação, caminhando por entre as plantas enquanto avistamos ali perto o oceano azul. A Gorreana orgulha-se dos seus métodos de cultivo artesanais e de não usar químicos, apresentando assim um produto 100% orgânico. Na fábrica vemos a maquinaria secular ainda utilizada para a produção e podemos provar o chá preto e o chá verde da marca.

Um dos produtos pelos quais os Açores são conhecidos é o ananás, o qual já foi o principal produto de exportação do arquipélago, daí que faça todo o sentido visitar uma plantação de ananases em São Miguel. Também secular, a Plantação de Ananases Augusto Arruda, às portas de Ponta Delgada, permite-nos conhecer as várias fases da produção e crescimento do ananás. Até à II Grande Guerra Mundial, esta plantação chegou a ser uma das maiores exportadoras de ananases do mundo. A plantação instalada na propriedade familiar dos Arruda vai hoje na 3ª geração e dedica-se sobretudo a dar a conhecer os métodos de produção originais, únicos no mundo. O cultivo destes ananases é feito em estufas de vidro caiado, no sentido de recriar as características naturais próprias dos climas húmidos e quentes de onde este fruto é originário. Dentro das estufas, por onde podemos caminhar em algumas delas, vêem-se canteiros separados por caminhos de pedra e cada uma destas estufas apresenta um estágio diferente da produção dos ananases.

A um pulinho de Ponta Delgada pela via rápida fica a segunda cidade da ilha, a Ribeira Grande, lugar do Arquipélago – Centro de Artes. A surpresa é podermos encontrar neste sítio um centro destes, mais do que um museu, um espaço criativo que se pretende constante, com oficinas e residências artísticas multidisciplinares que se propõe a não estar de costas voltadas para a comunidade local. A possível estranheza e o desafio passam precisamente por aqui: o Arquipélago fica no meio do oceano, fora da capital Ponta Delgada, a poucos minutos de Rabo de Peixe, uma das povoações mais carenciadas e problemáticas de Portugal, e o projecto foi desenvolvido e inaugurado em tempo de crise. Aberto desde 2015, talvez mais do que as exposições que possa receber, o seu edifício é ele próprio uma obra de arte, obra dos arquitectos João Mendes Ribeiro, Cristina Guedes e Francisco Vieira de Campos. Construído no lugar de uma antiga fábrica de álcool e tabaco em ruína, foram aproveitadas algumas destas estruturas, incluindo a alta chaminé, e construídos novos edifícios. Podemos entrar quer pela avenida virada para o mar quer pela rua principal que vai dar ao centro da Ribeira Grande, mas em qualquer dos casos damos com caminhos labirínticos que fazem de átrio a céu aberto por entre os edifícios em betão enegrecido pela pedra vulcânica de basalto. O interior do edifício de exposições não é menos labiríntico, salas maiores lado a lado com espaços que parecem pequenas celas, a que se junta o negro e misterioso espaço da cave, espécie de catacumbas. Na sala mais ampla de exposições, muito bonita a solução de romper pequenas janelas que deixam ver para o exterior, em especial o mar.

O ilhéu mais conhecido de São Miguel pode ser o ilhéu de Vila Franca do Campo, mas os esbeltos e formosos ilhéus de Mosteiros são igualmente um regalo para a vista. Levam este nome por se assemelharem a igrejas.

A imaginação não chegou para manter vivo o sonho de um hotel com vista para a grandiosa Lagoa das Sete Cidades, pelo que hoje resta a ruína. Corria o ano de 1989 quando foi inaugurado o Hotel Monte Palace, bem junto à Vista do Rei, o miradouro mais famoso e concorrido da ilha. O hotel acabaria por fechar portas logo um ano e meio depois e até hoje segue encerrado, embora com a sua estrutura em pé. Mas a partir de 2010 ficou sem segurança, pelo que as suas portas, apesar de hoje inexistentes, ficaram escancaradas ao saque e à vandalização. O estado de abandono e ruína é profundo, mas com cuidado vale a pena entrar no edifício e deambular pelos seus espaços hoje abertos para descobrir os graffitis que o inundaram e as vistas para a Lagoa que os antigos quartos proporcionavam. O edifício do antigo hotel já esteve à venda até no Olx e existem projectos para o recuperar. Resta-nos pensar que nem sempre uma localização magnífica traz frutos à ambição.

Ponta Delgada

Aberta ao mar, a maior cidade do arquipélago dos Açores retém ainda a orografia e a marca arquitectónica da época em que as frotas da América e da Índia e do comércio com a Europa aqui faziam escala.

Situada na costa sul de São Miguel, não foi no entanto esta ponta delgada a primeira a ser povoada após o descobrimento da ilha, nem começou por ser o burgo mais importante – esse título pertencia a Vila Franca do Campo. Mas foi ela que logo no século XV começou a ganhar protagonismo e viria a crescer e desenvolver-se até se tornar o principal polo urbano. De tal forma que no fim do século XVI já o historiador Gaspar Frutuoso sobre ela escrevia em “Saudades da Ilha”:

“A nobre e populosa cidade de Ponta Delgada, tão célebre com generosos e poderosos moradores; tão rica, provida e abastada com diversos comércios e grossos tratos de mercadores riquíssimos; tão fortificada com fortaleza, baluartes e cubelos; tão acrescentada com custosos edifícios e casaria; tão religiosa com sumptuosos templos e mosteiros; tão visitadas e acompanhada dos naturais da terra; quase sempre tão frequentada de navios e infinita gente forasteira, em todo o tempo – primeiro foi solitário ermo, saudoso lugar e pobre aldeia, e depois pequena vila, a que agora é grande, rica, forte e tão afamada cidade”.

Nos nossos dias, Ponta Delgada é um contínuo de habitações estendidas pela costa e um pouco pelo interior que percebemos desde os vários miradouros altaneiros.

A marca distintiva de Ponta Delgada é o basalto negro dos vãos das janelas, portas e laterais dos seus edifícios a contrastar com a cor branca das fachadas das suas paredes. E não há maior imagem de marca da cidade do que as Portas da Cidade. De nome oficial Praça Gonçalo Velho (o descobridor da ilha no ano de 1444), a tripla arcada foi aqui colocada nos anos 50, altura em que a praça foi restaurada ao estilo “português suave”. Era aqui que ficava o antigo cais da urbe.

Junto a ela encontramos a Torre da Câmara, com a possibilidade de subirmos até ao seu terraço para grandes vistas da cidade e parte da ilha, e a Igreja Matriz com a sua torre do relógio.

A Igreja Matriz de São Sebastião rouba a nossa atenção pelos portais na sua fachada, um manuelino, outro barroco.

Desde a praça das Portas da Cidade muitas opções se abrem ao visitante.

Ou seguimos pela Avenida Marginal que percorre a cidade de uma ponta à outra, passando pela Marina ou, do lado contrário, pelo Forte de São Brás, único indício bélico nesta pacatez (e, mais para lá ainda na Doca, já junto à pista do aeroporto, pela obra de Vhils).

Ou adentramos pelo interior da cidade. Percorremos uma série de ruas pedonais, cheias de cafés, restaurantes e lojas e uns espaços que são tudo isso ao mesmo tempo, como o obrigatório Louvre Micaelense. E subimos levemente por ruas tão estreitas e de passeios mínimos que temos de nos encolher à passagem dos carros. Este é o centro histórico de Ponta Delgada, recuperado e revitalizado. Em especial, as ruas Carvalho Araújo, Pedro Homem e D’Água tomaram uma nova vida à boleia do projecto Quarteirão. Mais cafés e restaurantes, agora lado a lado com galerias e ateliês onde a cultura e a criatividade são rainhas.

Voltando às Portas da Cidade e ao centro histórico da parte baixa de Ponta Delgada, mais uma rua pedonal transporta-nos até ao Campo de São Francisco. Lá em cima já tínhamos apreciado a fachada super decorada da Igreja do Colégio da Companhia de Jesus e cá em baixo os esplêndidos portais da Igreja Matriz, mas é nesta praça / campo aberto que mais percebemos ser esta uma cidade de igrejas e conventos, sobretudo datados dos séculos XVI e XVII. Com um coreto e uma árvore de enorme porte no centro, aqui ficam a Igreja de São José, parte do antigo convento franciscano, hoje transformado em hospital, e a Igreja e Convento da Esperança. A sua capela é conhecida e local de veneração por conter a imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Cá fora, no muro do Convento, diz que está inscrita palavra “esperança”, a lembrar o local onde Antero de Quental se suicidou (mas perdi a inscrição).

Mais igrejas vão aparecendo no nosso caminho, mas uma delas fica fora dele. No Alto da Mãe de Deus não é a sua ermida que nos faz alargar caminho, antes a sua localização cimeira que nos permite contemplar em sossego parte da cidade e ilha por entre as copas das árvores.

Em Ponta Delgada encontramos ainda alguns pequenos jardins e parques verdes que lhe dão um charme adicional. E até uma ou outra casa solarenga a atestar a riqueza da sua gente abastada de outrora, como é exemplo o Solar Casa de Carlos Bicudo ou Solar das Sereias, com portal e capela na sua fachada do século XVIII.

O antigo e o moderno vão convivendo lado a lado, umas vezes de forma melhor conseguida do que outras.

Não podemos deixar a cidade sem uma passagem pelo Mercado da Graça, nem que seja para apreciar o colorido dos ananases, nem pelos seus dois icónicos espaços culturais, o Coliseu Micaelense e o Teatro Micaelense, pelo menos para conhecer as suas fachadas.

Impossível, ainda, deixar de entrar na Livraria Letras Lavadas, bem em frente à Igreja Matriz, e deixarmo-nos levar por uma ou mais edições dedicadas ao arquipélago, numa descoberta constante e que se quer sem fim.

Furnas

Vindos da costa norte, o miradouro do Salto do Cavalo é a introdução ideal à enorme paisagem do Vale das Furnas.

Daqui seguimos para o Pico do Ferro para mais um miradouro, e que miradouro, desta vez mais próximo, deste vale e da Lagoa das Furnas.

As Furnas é uma povoação conhecida não apenas pela sua paisagem natural, mas sobretudo pelas suas caldeiras e piscinas de água térmica. Muitos elementos de interesse encontraremos aqui, mas começaremos pela sua Lagoa.

Enorme e acompanhada por uma densa vegetação, a Lagoa das Furnas é um belo parque para se caminhar a contemplar a beleza de mais um elemento originado pela cortesia dos vulcões. Mas aqui, como em nenhuma outra lagoa da ilha, a actividade vulcânica marca uma presença incrível e até assustadora. Como escreveu Gaspar Frutuoso, é fenómeno natural mas parece sobrenatural. São as fumarolas – ou caldeiras – das Furnas, que exalam os seus gases deste o interior da terra, numa ebulição constante, deitando fumo acima da terra e deixando a cor amarelada do enxofre um pouco por todo o lado.

Marca identitária das Furnas e da ilha é, claro, o seu Cozido, carne ou bacalhau deixados a cozinhar sob o calor geotérmico nuns buracos abertos debaixo da terra. Há que prová-lo pelo menos uma vez na vida, o que, não sendo dada a cozidos, agradeci agora já o ter feito há uns tempos largos. Se bem que, devo confessar, lembro que nessa época repeti a dose, pelo que o Cozido das Furnas é mesmo bom.

Socorrendo-me novamente de Gaspar Frutuoso, já no século XVI escrevia este sobre as Furnas: “de água tão quente que pelam-se nela leitões, porcos, cabras e cabritos, metendo-os dentro e tirando-os logo, que também os podem cozer nela se os deixarem estar mais tempo; e do peixe que nela se mete não fica senão só a espinha”.

Do outro lado da Lagoa das Furnas, junto à imensa Mata José do Canto, fica a Capela de Nossa Senhora das Vitórias, em exemplar gótico estranho de observar no meio do Atlântico. Esta é uma ermida particular construída em 1886 como acto de amor do casal José do Canto e Maria Guilhermina Canto.

A actividade vulcânica das Furnas faz-se notar igualmente nas suas águas termais, sejam nas nascentes ou nas piscinas. Mas nem todos suportam provar, bebendo, as suas águas minerais, e são sobretudo as piscinas que trazem hoje grande parte dos turistas, e também locais, às Furnas.

A Poça da Dona Beija é imperdível. Tão imperdível que toda a gente já o sabe, pelo que quando vir a notícia de que a entrada é de 2 ou 3 euros, esqueça, isso foi ontem. Hoje a entrada está a 6 euros, se estiver a ler hoje, porque amanhã é provável que o preço já tenha aumentado. No entanto, a experiência vale cada cêntimo. São 5 piscinas / tanques de água a 39° vinda de uma nascente férrea próxima onde relaxamos ao ar livre, seja de dia ou de noite. Optámos pelo fim de tarde, céu nocturno cerrado, infelizmente sem estrelas para contemplar. Mesmo com uns 17° cá fora qualquer hipótese de frio cessa logo à entrada na água natural termal que, aliás, chegamos a pensar não ir aguentar de tão escaldante. Mas não, uma leveza logo se instala no corpo todo e não há mais do que fazer a não ser sentarmo-nos no tanque com os ombros dentro de água e deixarmos o tempo passar devagar. Uma atmosfera fantástica rodeada de uma vegetação exuberante. De acrescentar que o curioso nome da Poça deve-se à telenovela brasileira Dona Beija que passava nas televisões portuguesas em 1988, data da abertura ao público deste espaço, o qual levou um restauro integral e modernizador em 2010.

Outro lugar imperdível é o Parque Terra Nostra.

A sua piscina / tanque de águas barrentas de cor amarela, à semelhança das da Poça da Dona Beija, deve-se à presença de cianobactérias que, em ambientes ricos em ferro, oxidam. No final da década de 1980, era eu nadadora, o meu clube foi fazer um estágio a São Miguel. Detalhe: não havia senão uma piscina de uns 12 metros para nadarmos. Acabámos por fazer uma espécie de estágio turístico e improvisar os lugares de nado. Um deles foi o do tanque em frente à Casa do Parque, onde, depois de nadarmos aos ziguezagues, jogámos polo aquático para vencer a estranheza da imersão em águas barrentas.

O conjunto constituído pelo tanque, escadaria e Casa do Parque Terra Nostra é um dos maiores postais de São Miguel e dormir uma noite no seu hotel um objectivo a alcançar em futuro que se quer próximo. Criado em 1775 e desenvolvido constantemente desde então pelas famílias proprietárias (desde os Viscondes da Praia até à actual Bensaude), o Parque Terra Nostra é riquíssimo no seu património vegetal e paisagístico.

Um jardim botânico que apresenta espécies endémicas e de muitas partes do mundo, constituindo um recanto exuberante de vegetação. E belo. Para lá da Casa do Parque – antiga residência de Verão do fundador do Parque, Thomas Hickling, então cônsul americano na ilha – e sua piscina de água termal, descobrimos o canal por onde corre a agua férrea que alimenta o tanque, grutas, avenidas com arvoredo imponente – a Avenida das Palmeiras é gloriosa -, caminhos delicados, jardins e uma mata generosa. E flores, muitas flores. Destaque para as colecções de camélias, fetos, cycadales e azáleas. E jardins de água onde poisam, tranquilos, os nenúfares.

São Miguel, cascatas

Para além das lagoas, a São Miguel não faltam as cascatas. Salto do Prego, Salto do Cabrito ou Salto da Farinha são algumas das mais fantásticas. Mas as idílicas e até bucólicas cascatas de Porto Formoso e Ribeira dos Caldeirões são igualmente paragens obrigatórias.

Comecemos por Porto Formoso, praia na costa norte onde desagua uma ribeira escondida na densa vegetação. Não se caminha quase nada para se ficar face a face com a sua linda cascata e pequena piscina natural, mas tão belo e tranquilo é o lugar que fazemos por nos demorar. As hortênsias teimavam ainda em manter-se de cores vivas naquele Novembro, dando uma cor que o lugar nem sequer precisa para nos alegrar. Uns trilhos rompendo a natureza pura e imaculada seguem para nos deixar numa parte mais elevada junto à cascata.

O Parque da Ribeira dos Caldeirões é uma parceria do Homem e da Natureza, mas nem por isso deixa de ser mais um momento alto neste passeio pela paisagem interior da ilha. Está instalado num pequeno vale encaixado cortado pela Ribeira dos Caldeirões e outros cursos de água – não é à toa que a vegetação é tão cerrada, com destaque para a Laurissilva e seus fetos enormes, bem como hortênsias e criptomérias. Os antigos moinhos de água e outros edifícios foram recuperados e foram transformado sem pequenos núcleos museológicos, loja de artesanato, cafeteria e até turismo rural.

Mas o grande momento do lugar está à porta do Parque. É a cascata Véu da Noiva que jorra intensamente formando uma espessa torrente de água branca.

Caminhando junto ao curso da ribeira sob a vegetação protetora descobriremos uma outra cascata. E é isso de que é feita esta ilha ainda hoje, de descobertas.

São Miguel, lagoas

A imagem mais icónica de São Miguel é a da Lagoa das Sete Cidades. Sobre ela escreveu Raul Brandão, na sua obra Ilhas Desconhecidas (a que volto sempre), “um pouco de azul, um pouco de verde, ternura e idílio”. Tão arrasadora é esta paisagem natural que levou o grande escritor a escrever que “Pela primeira vez na minha vida não sei descrever o que vejo e o que sinto. […] Existe ou sonhei esta água parada, esta grande cova selvática empolada de roxo, com aquela serenidade a ferros lá no fundo? Esta beleza estranha que não nos larga e nos contempla ao mesmo passo que a contemplamos?”.

A Lagoa das Sete Cidades é o resultado de uma enorme erupção de um vulcão em 1445, tendo-se formado na cratera desse vulcão. Esta caldeira de abatimento comporta lá em baixo, protegida por umas paredes altas e carregadas de vegetação, uma lagoa que parece na verdade duas: a Lagoa Verde e a Lagoa Azul, separaras por uma ponte. Diz a lenda, porque nenhuma paisagem majestática a pode dispensar, que uma princesa de olhos azuis aqui conheceu um pastor de olhos verdes, tendo ambos caído de amores um pelo outro. Mas o rei proibiu este amor da sua filha e na despedida os dois namorados tanto choraram que das lágrimas dos olhos azuis da princesa foi formada a Lagoa Azul e das lágrimas dos olhos verdes do pastor foi formada a Lagoa Verde, unidas para sempre na Lagoa das Sete Cidades. Todavia, a explicação para as duas cores da lagoa, azul e verde, é um pouco mais prosaica, devendo-se à sua profundidade e concentração de algas na água.

Como curiosidade, refira-se que a erupção de 1445 deu-se no ano seguinte ao achamento oficial da ilha de São Miguel. Gaspar Frutuoso, historiador nascido na ilha em 1522, conta-nos na sua extensa obra Saudades da Terra que os descobridores de São Miguel, no seu reconhecimento, apontaram que em cada extremo da ilha havia um pico muito alto. Mas quando esses e outros homens voltaram nos anos seguintes, a mando do Infante D. Henrique, para povoar e atestar da fertilidade da terra, já só lhe viram um pico a oriente. O que aconteceu foi que “nesse meio tempo, enquanto eles foram ao reino e tornaram, aconteceu que se alevantou o fogo, a primeira vez sabida nesta terra, e ardeu aquele alto pico para a banda do noroeste nesta ilha, junto da ponta dos Mosteiros, onde agora se chamam as Sete Cidades às cavidades dele”.

A Lagoa das Sete Cidades é para ser vista de todos os pontos, seja cá em baixo bem junto às suas tranquilas águas desde a Baía do Silêncio;

Ou desde o miradouro mais famoso da ilha, o da Vista do Rei;

Ou do miradouro do Cerrado das Freiras, o mais próximo;

Ou da Cumeeira, o seu ponto mais alto;

Ou desde o miradouro da Boca do Inferno, o mais grandioso. Para se chegar a este último caminhamos por uns 15 minutos com direito a passagem pela idílica Lagoa do Canário com as suas carpas e um arvoredo frondoso a compor o cenário.

Para trás havia ficado a opção de se caminhar até à Lagoa das Empadadas (projecto futuro). E do alto do miradouro da Boca do Inferno, ainda temos direito à vista das Sete Cidades acompanhada da Lagoa de Santiago e da Lagoa Rasa e mais umas lagoas escondidas na Serra Devassa. Enfim, uma infinitude de lagoas numa paisagem infinitamente sublime.

Pese embora toda a beleza e elegância arrebatadoras das Sete Cidades, diz-se que a lagoa preferida dos micaelenses é a Lagoa do Fogo, praticamente no centro da ilha. Percorrer a estrada de montanha que nos leva até ao topo da lagoa é um dos momentos épicos a serem vividos na ilha de São Miguel. Este pedaço de ilha que costuma frequentemente ser tomado pelas nuvens estava totalmente limpo à minha visita, sorte tremenda, pois. Do miradouro da Barrosa a vista alcança os dois lados do oceano e toda a região noroeste da ilha. E do seu alto, claro, assiste-se ao grandioso cenário da forma recortada da Lagoa do Fogo, um vulcão no alto da serra com uma lagoa dentro, a segunda maior da ilha e a mais alta, a 575 metros de altitude. E a mais jovem, resultado de uma erupção vulcânica que se presume ter acontecido há 15000 anos. As suas paredes foram sofrendo alterações ao longo dos séculos, objecto de vários colapsos, e chegam a atingir os 300 metros. À semelhança da Lagoa das Sete Cidades, o coberto vegetal é intenso e frondoso. Para a experiência da vivência da Lagoa ser mais profunda, percursos pedestres levam-nos até junto da sua água azul, na base da caldeira.

São Miguel, a ilha verde

Durante muitos anos preferi a Madeira aos Açores. Hoje não prefiro nada. É a ilha, qualquer uma delas, que me atrai. Dito isto, voltei aos Açores, a São Miguel.

A felicidade de acordar e assomar à janela para observar o mar, sem fim, desde o meio do Atlântico é dificilmente explicável mesmo para quem mora à beira Tejo e facilmente não vê se não água à sua frente. Mas não é a mesma coisa.

Em casa, já tinha percebido que olhar o rio, com sol ou com chuva, é sempre uma delícia. E nos Açores já tinha aprendido que o seu clima é uma inevitabilidade e parte do seu encanto e não há que lamentá-lo. Desta vez já não ia (tão) ansiosa com o clima que me calharia em sorte e, talvez por isso, não foi a euforia que me dominou, antes um leve mas reconfortante sorriso e um agradecimento por sair de uns 14° com chuva para uns 19° de céu quase limpo para a principal ilha do arquipélago dos Açores.

São Miguel é apodada de “ilha verde”. Há muitos anos (décadas, até) que não voltava e depois de ter passado por outras ilhas do arquipélago não entendia o porquê de ser esta a “ilha verde” se todas as outras estão carregadas de tapetes dessa cor. Mas, logo após sair do avião e sentir o cheiro a bosta, o segundo sentido vai por inteiro para a visão carregada do verde dos seus montes, vales e campos. Tudo é incrivelmente verde, até mais do que nas suas ilhas irmãs, aqui cabendo todas as tonalidades dessa cor possíveis e imaginárias.

Situada no grupo oriental na companhia da ilha de Santa Maria (a primeira a ser descoberta), São Miguel é a principal e maior ilha do arquipélago. Depois de achada a ilha de Santa Maria, o Infante Dom Henrique encarregou Gonçalo Velho de descobrir e povoar mais ilhas – crê-se, no entanto, que não só se tivesse conhecimento há muito da ilha de São Miguel como está já fosse povoada. De qualquer forma, oficialmente foi no lugar de Povoação que Gonçalo Velho desembarcou pela primeira vez no dia 29 de Setembro de 1444 (dia consagrado a São Miguel Arcanjo) e aqui se começou a assentar povoamento na ilha. Hoje, a capital da ilha e do arquipélago é Ponta Delgada e em São Miguel vive metade da população dos Açores.

E a ilha é a mais favorecida pelos voos, daí que não surpreenda que seja a mais procurada. Não vou discutir se é a mais bonita, pois esse é tema delicado e sem conclusão possível. Mas é, seguramente, a mais fácil de se visitar após se pisar a ilha, não havendo que calcorrear muito para se admirar os seus principais atrativos. Um conselho, a este propósito: fuja dos meses mais concorridos do Verão, pois é impossível termos a ilha em sossego nesta época.

Como escrevia a Conde Nast Traveler deste último mês – sim, o segredo está nas bocas do mundo -, os Açores são essencialmente vulcões no meio do oceano. E São Miguel está cheia de crateras desses vulcões transformadas em lagoas e lagos, cada um mais emocionalmente cortante do que o outro.

Nesta curta viagem não foi possível ver mais do que as “atracções principais”, deixando com muita pena o Nordeste intocado (a região da ilha de São Miguel que de tão isolada já foi considerada a 10ª ilha). Com isso, e querendo tornar-me repetitiva, fica mais uma desculpa para voltar.

Escaroupim

Escaroupim é uma aldeia piscatória à beira Tejo.

Poderia ser como qualquer outra, mas o que esta tem de diferente para além da localização geográfica fantástica é o facto de aliar a isso a cultura e a gastronomia.

Situada no concelho de Salvaterra de Magos, por entre os campos agrícolas verdejantes e as águas do rio, nos anos 30 do século passado as gentes de Vieira de Leiria começaram a deslocar-se para este pedaço da Lezíria nos meses de Inverno. Era a pesca que os movia e no Verão voltavam para a sua terra. Pesca de rio no Inverno, pesca de Mar no Verão. Eram os “nómadas do rio”, como lhes chamou Alves Redol.

O cais de Escaroupim está ainda assente nas tradicionais palafitas, embora melhoradas e restauradas. O mesmo para as típicas casinhas avieiras, pequenas construções em madeira sobre estacas para se defenderem das cheias do Tejo. São coloridas, o que dá ainda mais alegria ao lugar. Estas casas são hoje exemplos do que era a vida noutros tempos e foram transformadas em espaços museológicos pela Câmara Municipal.

Um pouco mais afastadas do rio ficam umas outras, também pequenas casas de pescadores com características semelhantes, que ainda servem de habitação.

Voltando à beira do rio, até se pode entrar na água para nadar, mas há que ter algum cuidado com os barcos aí atracados ou de passagem. Daqui partem alguns passeios de barco pelo Tejo que vão à descoberta da sua natureza e beleza.

E pode fazer-se um piquenique na pequena mata junto ao Parque de Campismo. Ou optar-se pelo restaurante O Escaroupim. A vista desde aqui já não surpreende, uma vez que antes de entrarmos já tínhamos comprovado toda a beleza e tranquilidade da sua envolvente através de um curto passeio. E a comida, depois de provada, foi mais do que aprovada. Pratos de caça e enguias (e sável, noutra época) são o que nos espera, para além de um sem número de doces caseiros.