Cais do Ginjal, varanda de Lisboa

É inevitável. Um passeio pelo Cais do Ginjal, em Almada, leva-nos a não tirar os olhos da vizinha Lisboa no outro lado do rio.

É sobretudo de vistas de que se trata esta viagem. Mas também de história de um pedaço de terra que até há pouco tempo foi um ponto estratégico em termos industriais e comerciais. A sua decadência e ruína são hoje evidentes e custa a crer que algo com esta localização tão fabulosa possa estar tão marginalizado.

Mas vamos à história. Espremida entre a falésia e o rio Tejo, com o Cristo-Rei à espreita, o Cais do Ginjal é uma língua de terreno que tem nas suas costas uma arriba que sobe alto e com pressa.

Sabe-se que a ocupação humana de Almada vem desde a Pré-Historia e é provável que estas terras junto ao rio também tenham sido pisadas pelo Homem desde essa época. Este porto habituou-se desde há muito a ser lugar de pesca e de embarcação de diversos produtos para além do peixe, como frutas, vinha e até ouro. A capital do reino estava mesmo diante si e o transporte fluvial era então rei.

Os tempos áureos do Cais do Ginjal aconteceram sobretudo no século XIX. Em 1845 a família de comerciantes de João Teotónio Pereira instalou-se ali e dinamizou toda a zona, criando uma indústria ligada ao abastecimento da frota pesqueira e à tanoaria e ao armazenamento de vinho, azeite e vinagre. Para além disso, construiu uma quinta de veraneio junto aos vários edifícios de armazéns ribeirinhos.

O que contribuiu decisivamente para o declínio de todas estas indústrias que empregavam uma série de trabalhadores que davam vida e alegria a esta nesga de território foi a inauguração, em 1966, da Ponte Oliveira Salazar. A ponte sobre o Tejo, hoje Ponte 25 de Abril, veio acabar definitivamente com a era em que muito do transporte de mercadorias ainda era efectuado por via fluvial. Hoje, em sua substituição, assiste-se antes à passagem dos Cacilheiros e dos veleiros e até dos grandes navios de cruzeiro. As águas do Tejo foram substituídas pelo asfalto da ponte para o transporte das mercadorias das várias indústrias que laboravam no Cais do Ginjal.

Sobram os seus edifícios decadentes, acostados na arriba também ela aos caídos. As fachadas da maior parte dos antigos armazéns foram tomadas pelos grafittis e as suas portas e janelas esventradas deixam ver a confusão de entulho lá dentro. Os avisos de “perigo de derrocada” sucedem-se, mas os caminhantes seguem no seu passo de lazer, a maior parte das vezes, já se disse inevitável, entretidos com a vista para Lisboa.

Esta pode não ser já uma localização estratégica em termos comerciais, mas continua belíssima e muito disputada. As terras do Cais do Ginjal são propriedade privada e discute-se há anos a apresentação e posterior discussão e aprovação por parte da autarquia de um plano para esta zona que prevê a sua reconversão com a construção de casas de habitação, indústrias criativas, espaços culturais, lojas, praças e passeios. E, tão importante quanto isto, um plano que garanta a estabilização da arriba.

A melhor forma de chegar ao Cais do Ginjal continua a ser por via fluvial. Aportamos no Cacilheiro laranja, símbolo do Tejo partilhado entre Lisboa e Almada, e contornamos a pitoresca Cacilhas pela sua frente ribeirinha. Os pescadores estão por todo o lado, e não sei se a vista para Lisboa os chega a distrair das mordidelas no anzol por parte das suas presas.

Vemos ao fundo o Panteão, com o já habitual barco de cruzeiro estacionado à sua porta, depois a Praça do Comércio, as torres das Amoreiras, o porto de Alcântara, a Ponte 25 de Abril e a Torre de Belém debaixo das suas asas. Esta é uma vista soberba e não cansa olhar para Lisboa, exposta por inteiro e recostada só para nós.

Os pontões enferrujados e que parecem mal se suster são pontos de vista ainda mais privilegiados suspensos no rio. Algumas praias de areia com um ar não menos desmazelado não convidam ao repouso. E a imagem graffitada do ciganito Quaresma disputa as paredes com a imagem de uns pescadores de outros tempos e com o ET. Até com Jesus Cristo. Ao Cais do Ginjal não falta uma pitada de cultura popular deste século.

Não arrisco entrar nos edifícios, levando muito a sério os avisos de perigo de derrocada. Da porta escancarada de um deles vê-se um carro em ruína, como as paredes e o tecto que (não) o abrigam.

Mas, pensando bem, talvez não estejamos todos os que aqui passamos a levar muito a sério estes avisos de perigo de derrocada, pois o passeio é tão estreito que esta caminhada não parece totalmente segura. Mas seguimos adiante.

E chegamos a uma das partes mais bonitas do Cais do Ginjal, onde ficam umas praias mais convidativas, a vista livre e total para a Ponte 25 de Abril e umas antigas casas de pasto hoje transformadas nos super concorridos restaurantes Ponto Final e Atira-te ao Rio. É difícil imaginar uma refeição mais idílica e cénica com Lisboa como panorama.

Destes restaurantes umas escadinhas sobem até Almada Velha. Mas continuando um pouco mais podemos fazê-lo igualmente através de uma viagem no Elevador da Boca do Vento. O seu jardim está muito bem cuidado e aqui, sim, temos um convite irresistível para nos deixarmos estar, sentados na relva a contemplar o Tejo e Lisboa.

Não subimos, ainda, até Almada. Em bom rigor, o solo que agora pisamos já não é mais o do Cais do Ginjal. Continuando um pouco mais junto ao rio estamos agora na Fonte da Pipa e no Olho de Boi, onde encontramos o Museu da Indústria Naval. Foi no sítio do Olho de Boi que no século XIX se instalou a Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense, edifício este ocupado no século seguinte pela Companhia Portuguesa de Pescas. Hoje, os seus escritórios estão, à semelhança de quase tudo por aqui, abandonados. No seu cais restam os muitos pescadores ocasionais.

Mais à frente, logo a seguir a mais uma praia, há de vir o lugar da Arealva com a sua quinta apalaçada que em tempos serviu de armazenamento de vinhos. A Ponte 25 de Abril está cada vez mais perto, mas o caminho até lá torna-se mais e mais perigoso pela possibilidade de derrocadas quer das arribas quer dos edifícios, pelo que optei por não seguir adiante.

Meia volta volver e subindo pela estrada do Olho de Boi havemos de ganhar novas vistas fantásticas no caminho. A melhor destas vistas aguarda-nos no miradouro da Boca do Vento donde se aprecia toda esta faixa ribeirinha. Os telhados destelhados e outros edifícios com a cobertura já perdida confundem-se e deixam-se perder no verde da vegetação que cobre a arriba. Daqui, o Tejo ganha outro encanto e torna-se ainda maior.

Para rematar em mais beleza a jornada, de Almada Velha levamos ainda a vista da Casa da Cerca, o Centro de Arte Contemporânea de Almada. O seu jardim é belíssimo, um daqueles lugares ao qual se faz questão de voltar sempre e que não se esquece.

A vista brutal que daqui se alcança, essa, ainda menos se esquece. E, mesmo ao longe, aqui confirmamos o dito: “quem não viu Lisboa, não viu coisa boa”.

Um passeio até ao campo da bola de Loures

Não sei quando fui a primeira vez ao futebol. Não posso sabê-lo, tão pequena era. Sportinguista ferrenha, não consigo dizer sequer se fui primeiro a Alvalade ou à Luz. Ou ao pelado de Aldeia das Dez. Uma coisa é certa, nunca tinha ido ao Faria, o campo da bola do centenário Grupo Sportivo Loures, concelho onde vivi grande parte da minha vida e onde ainda hoje trabalho.

Fui lá há uns meses, nesta época desportiva de 2018/19 que entretanto findou, a um GS Loures – FC Oliveira do Hospital, a contar para o Campeonato de Portugal, Série C, vulgo 3ª Divisão Sénior.

O campo fica logo à entrada de Loures, para quem vem de Lisboa, e os seus muros estão totalmente graffitados com mensagens de Abril, a lembrar que em Loures, terra ainda comunista, a palavra é quem mais ordena.

A entrada fica do outro lado da estrada principal, e as antigas bilheteiras perdem-se no meio dos bonecos.

Preço do bilhete? 4 euros para sócios, 7 para não sócios. Ora toma, quem pensou que vir ao futebol de terceira é mais barato que um bilhete de cinema? À entrada não há é cachecóis nem bandeiras para venda e lá dentro, verei logo a seguir, não há queijadas. Mas há o bar do clube já para lá da porta de entrada. Lembro então que nos verões da Loures dos anos 90 era impossível uma refeição ao almoço que não fosse na sede do clube local. Isso melhorou, mas pouco mais.

Já no campo da bola, o primeiro comentário ouvido foi logo um “até o Santa Iria já está à nossa frente”. O Santa Iria disputa o mesmo campeonato e série e é o clube da freguesia mais a sudeste do concelho. Rival da sede, portanto.

Sento-me na bancada central, coberta, para adeptos locais. A ruidosa claque está do mesmo lado da bancada, única, mas um pouco mais separada. Só há mais umas poucas bancadas de trás uma das balizas. Tudo muito junto ao relvado. Tão junto, tão junto, aliás, que estava sentada há poucos minutos atrás do banco de um dos clube, onde os jogadores aqueciam, quando logo ouvi um deles gritar: “olha a bola”. Era para mim, mas não me acertou. Ainda me desviei umas quantas vezes mais. Os meus parceiros iam fazendo de apanha-bolas.

Os jogadores recolhem aos balneários para se equiparem e logo depois, de lá de dentro, vai-se ouvindo o grito de cada uma das equipas, à vez. Estavam prontos para subir de novo ao relvado e uma voz chama-os “bora, malta”.

A claque do Loures, com uma grande bandeira desfraldada, mostra-se incansável no apoio ao seu clube, com cânticos familiares a quem frequenta os estádios de futebol. Os seus cânticos falam também em “curva”, mas neste campo não há cá curva nenhuma.

São poucos os espectadores, cerca de centena e meia. Mais homens do que mulheres, mais velhos do que novos, mas sente-se um ambiente familiar. Apesar dos prédios que se debruçam para um dos topos do campo, apenas numa janela parece haver um espectador interessado. Já o jogo tinha começado e chegam dois chineses, a estes é que não lhes escapa nada.

10 minutos de jogo e o desânimo parece começar a instalar-se nas bancadas, que soltam um “lá estão eles a jogar outra vez a bola para trás”. A claque, não, essa continua – e continuará até ao final – a puxar pela equipa. É o Loures, no entanto, que tem a iniciativa do jogo e joga ao ataque. O seu número 14 está endiabrado. Mas é o Oliveira que marca à meia-hora, um auto-golo, e os seus jogadores vão comemorar perto da claque do Loures, talvez porque não tenham visto ninguém dos seus, apesar de eu estar de azul, embora escondida no outro lado da bancada entre os restantes adeptos do clube da casa. Pois é, Loures é o meu concelho, mas Oliveira do Hospital é o concelho da freguesia de Aldeia das Dez. Força, azuis.

Esta comemoração deu confusão e resultou nuns quantos cartões amarelos para os de Oliveira e um bocado de tempo do jogo parado. Logo na jogada seguinte, vermelho directo para o capitão do Loures, após uma entrada louca. Não ouve sequer contestação à decisão do árbitro, antes aplausos e incentivos para os jogadores locais, que agora ficariam com menos um e a perder. Apenas se ouviu um “estás-te a rir mas no fim vais chorar, não digas que não te avisei” para um calmeirão do Oliveira. Era optimismo cego, a coisa parecia difícil.

Não levei eu com uma bolada, levou um velhote num grupo de velhotes coxos no topo à entrada do campo. Foi na cabeça, mas ao de leve, o suficiente para o por a cambalear. Isto estava mesmo mau para os da casa.

E aí vai uma bola para fora do campo, para lá dos muros, para a estrada principal da cidade, pode ser que tenha caído num dos seus muitos buracos sem apanhar um carro que lá passasse.

Já sobre o intervalo pede-se pénalti para os da casa e chegam os primeiros nomes ao árbitro, os homens gritam “cabrão”, as mulheres gritam “estúpido”. Os jogadores do Loures saem para descanso sob os aplausos da sua claque e esta também deixa as bancadas para ir beber umas no bar.

Para a segunda parte do jogo as equipas mudam de lado do campo e eu também. Na esperança de ver mais um golo do Oliveira vou para a mini-bancada atrás da baliza onde se instala o guarda-redes do Loures. Rezo para que as redes da baliza não estejam rotas e que a pontaria dos de Oliveira esteja afinada.

Mais um azar para os de Loures, outro vermelho directo, estranhamente designado por “encarnado” por estes lados. Mais aplausos à saída do jogador expulso. Durante o jogo só deu para aplaudir cenas destas, mas a cantoria continuou até final.

E o Oliveira fez o segundo golo e percebo, então, que estou entre os meus. Afinal há cá mais adeptos da equipa visitante. E veio ainda o terceiro golo.

Resultado final: 0x3. Os da claque do Loures aplaudiram entusiasticamente a sua equipa no final. Acto incompreendido até pelos seus co-adeptos, que só tinham palavras para, ironicamente, dizer “aplaudam, aplaudam, que fartaram-se de jogar”. “O treinador não fica cá para além desta semana”. Viu-se até um lenço branco. Tudo muito familiar.

Nota final: o Santa Iria acabou a época com a despromoção do Campeonato de Portugal e o Loures aguentou-se.

Alguma gastronomia açoriana

Nesta jornada pelas ilhas do grupo central do arquipélago dos Açores (com excepção da Graciosa) fui tendo oportunidade de saborear várias das suas especialidades gastronómicas.

Parece que nos Açores há de tudo. O mar dá-lhe o pescado e crustáceos e as inúmeras pastagens a carne feliz e os lacticínios. Até da lava consegue fazer nascer vinho. E, depois, há ainda os doces típicos.

Não sendo apreciadora nem de vinho nem de queijo, e sendo mais de carne do que de peixe, logo depois de experimentar uns suculentos pedaços de touros pretos açorianos no Príncipe Gastro Bar, na Horta, tive de me render ao peixe veja da Casa Âncora, em São Roque do Pico. Estes dois restaurantes de bom gosto e cozinha moderna são do mesmo dono e “apenas” estão separados pelo Canal.

Mais caseiro e tradicional, no Clube Naval de Velas, em São Jorge, dei uma hipótese ao enchareu. Tão tradicional que o prato parecia ter sido posto na mesa pela minha mãe: peixinho grelhado, acompanhado de verduras e de batata (felizmente, batata doce). Ao contrário de outros, no que respeita ao peixe a comida da mamã não me traz grandes recordações.

Na Terceira, já com companhia para partilhar as iguarias à mesa, incluindo a da dita mamã, foi a alcatra que roubou todos os paladares. Alcatra é de carne, certo? Não se estivermos na Terceira. Aqui podemos escolher entre a alcatra de carne e a de peixe ou, então, ficar com as duas. Em comum, ambas são servidas em tacho de barro, cozinhadas com especiarias várias e acompanhadas de pão. E ambas são uma bomba deliciosa.

A mais surpreendente alcatra de peixe pode ser apreciada no restaurante Boca-Negra, em Porto Judeu, numa variedade de três peixes que para nós incluiu o boca-negra, o congro e o goraz.

A época da Páscoa não é de cracas, mas pudemos experimentar umas lapas que não desiludiram.

E quanto à doçaria, os fãs da massa sovada também não ficam desiludidos numa passagem pelas ilhas do grupo central açoriano. Mas não é isso que irão relembrar. Trarão antes o gosto das “espécies” de São Jorge e das “Dona Amélia” da Terceira. Na Pastelaria O Forno, em Angra, muitas são as opções, mas a curiosidade recai nestas queijadas (também servidas na forma de bolo) de nome curioso, assim apodado após a visita do Rei D. Carlos e da Rainha D. Amélia à ilha em 1901. Este doce mistura mel de cana, canela, noz moscada e cidras. Uma delícia entre delícias açorianas.

Pelo interior da Terceira

Na Ilha Terceira confirmei uma vez mais que o que me enche as medidas é mesmo o centro das ilhas. As povoações são pitorescas e a costa bonita, mas o centro das ilhas açorianas é fabuloso – montes e vales, prados e vegetação luxuriante, vulcões e furnas. E até porque do centro tudo se contempla, incluindo as pitorescas povoações e a bonita costa.

A Terra Chã está a poucos minutos da cidade de Angra e aqui logo adentramos a ruralidade da Terceira. Uns miradouros permitem-nos admirar as diversas facetas da ilha. Embora a Serra de Santa Bárbara costume estar acompanhada de nuvens – e elas viam-se à distância – teimámos em tentar chegar aos 1021 metros de altitude, o ponto mais alto da ilha Terceira. Conseguimos, mas nada se via do topo, óbvio. O caminho até lá, porém, é daqueles que vale a pena enfrentar seja que clima teimar em marcar presença.

Passamos a Lagoa das Patas, pequena mata de recreio, seguimos pela estrada ladeada de criptomérias, com alguns troncos de árvores muito curiosos, as vistas vão-se abrindo para o mar, com o Monte do Brasil e os ilhéus das Cabras ao fundo, enquanto as vacas pastam no manto verde dividido pelos cerrados. Tranquilidade pura.

O cimo da Serra de Santa Bárbara é constituído pelo que foi outrora um vulcão. As nuvens cerradas não o deixam perceber, mas depois de descermos e voltarmos no caminho em direcção ao centro da ilha, em grande parte ocupado pela caldeira de Guilherme Moniz, temos oportunidade de perceber a quantidade de picos correspondentes a antigos vulcões que pululam por aqui. Curiosamente, nesta ilha relativamente pequena, a parte ocidental é acidentada, cheia de montes, enquanto que a parte oriental é quase toda ela plana, ocupada pelas famosas mantas de retalhos.

A Caldeira de Guilherme Moniz não se chega a perceber. A sua dimensão é enorme e é atravessada por estradas, por vezes a vegetação é intensa e vêem-se uma série de cabeços e campos de lava. Não há um ponto mais elevado donde se possa apreciar os seus exactos contornos. O que há, sim, são vários elementos naturais que nos deixam absolutamente surpreendidos.

O primeiro deles é uma das maiores atracções da ilha: o Algar do Carvão. Quando me indicaram o que ver e fazer na Terceira, falaram-me na descida a uma gruta. Logo disse que detestava grutas. Mas que não, que esta não poderia perder. E é verdade, não a poderia ter perdido por nada deste mundo. Até porque esta é uma das poucas, senão única, oportunidade no mundo de se entrar num vulcão. Esta é, literalmente, uma viagem ao centro da terra.

Os algares são buracos verticais e profundos de origem vulcânica, autênticas cavernas que se formam pela erosão e dissolução da água, daí que muitas vezes se possam encontrar neles pequenas lagoas que vão guardando a água das chuvas. Não são raros no arquipélago dos Açores. Mas nem todos são visitáveis. O Algar do Carvão pode ser visitado durante todo o ano.

Um cabeço revestido de uma intensa vegetação recebe-nos mas à partida não lhe descobrimos nada de diferente. Mas após uma portinhola a servir de entrada seguimos por um túnel e entramos num mundo novo. Uma galeria no interior do dito cabeço fica diante nós. Descemos uma longa escadaria e o ambiente torna-se mais frio e húmido, com as gotas da água a escorrer pelas paredes rochosas. Estamos, então, dentro do vulcão e olhando para cima vemos a sua chaminé aberta ao céu. No negrume, um toque de verde dado pelas diversas espécies vegetais.

Voltando os sentidos para dentro do cone vulcânico, para além das algas e bolores, são diversos os minerais que se encontram nesta cavidade, estalactites e estalagmites junto com outros palavrões do género. A lagoa fica numa vertente mais abaixo e a escuridão não nos deixa apreciá-la na plenitude, mas sabemos que chega a ter uma superfície de 400 m2 e uma profundidade de 15 metros, sendo alimentada por infiltrações pluviais e pequenas nascentes aqui imersas.

João de Melo referiu-se a este Algar do Carvão como uma “ferida profunda aberta na terra”. Mas o que parece igualmente uma ferida é um lugar aqui perto, as Furnas do Enxofre, donde brotam umas fumarolas vulcânicas.

Através de um percurso pedonal instituído somos transportados por mais uma paisagem irreal. Um sistema de fissura vulcânica leva a que uns gases – as fumarolas – sejam libertados para a superfície. A cor amarelo-alaranjada que se vê no meio da vegetação corresponde a depósitos de enxofre, sendo ainda, fenómeno mais raro, formados cristais de enxofre.

Perto do Algar do Carvão fica a Gruta do Natal, outro daqueles sítios cuja visita é única. À sua porta temos a Lagoa do Negro com um arvoredo intenso na sua traseira a fazer de palco.

Mas o espectáculo faz-se novamente nas “entranhas da terra”. Num percurso de cerca de 700 metros por um tubo de lava onde podemos observar diversas estruturas geológicas ficamos, ao mesmo tempo, com uma maior percepção de como foram formadas as ilhas de origem vulcânica. O caminho não é difícil, mas por vezes o chão apresenta alguns desníveis e algumas partes são muito baixas. É o nosso momento Indiana Jones. O nome desta gruta, “do Natal”, deve-se ao facto de aqui ter sido celebrada uma missa de Natal em 1969.

Junto à Gruta do Natal tem início um dos trilhos pelo interior da ilha: o dos Mistérios Negros. Com muita pena, não houve tempo para o percorrer. A nossa escolha recaiu, ao invés, no trilho que tem o seu início do outro lado da estrada do Caminho dos Biscoitos, ali perto.

O trilho da Rocha do Chambre é circular e tem cerca de 10 kms, coisa para épicas 2h 30m. Deixamos o carro na beira da estrada e iniciamos o percurso pelo caminho de bagacina vermelha, um dos muitos pisos que iremos experimentar.

As vistas logo ao início, com o recorte exacto dos montes, são soberbas, graças também à sorte com o dia de céu quase limpo. Por entre muito verde e céu azul, passamos por caminhos de pastagens, sempre com o aviso de deixar as cancelas como as encontrámos, e logo entramos num caminho de lava mais invulgar. A lava que derramou sobre estes terrenos fez que, com o tempo, se originassem diversas pequenas pedras que agora vamos pisando com cuidado para não nos desequilibrarmos.

Uma das partes mais bonitas deste percurso aparece com pouca demora: uma floresta de cryptomeria japonica. Os troncos destas árvores são fantásticos, alguns deles tomando a forma de bengalas invertidas. Outros, com formas mais comuns, dão-nos na mesma uma imagem belíssima, todos próximos uns dos outros e bem altos. Nesta zona passa um ribeiro e existem algumas partes mais encharcadas, pelo que há que ter atenção onde colocar os pés para não escorregar. Vêem-se umas pontes nesta mata, o que aumenta a fantasia do cenário.

E daqui começamos a subir durante um tempo protegidos pelas copas das árvores. Um corda grossa onde nos devemos apoiar ajuda a vencer uns degraus rústicos e escorregadios numa subida a pique. Nesta subida que nos vai tirando o fôlego fisicamente vamo-nos preparando através de algumas abertas na folhagem das árvores para o cenário que nos aguarda no alto. É o Biscoito da Ferraria e o Pico Alto com o Atlântico ao fundo. E a Rocha do Chambre.

Atingido o ponto mais elevado do percurso, a 704 metros de altitude, é hora de descer. Esta é uma zona de pastagens naturais e daqui avista-se o Pico do Fogo, o Pico Gaspar com o seu cone achatado e a Serra de Santa Bárbara. A paisagem natural só é perturbada por algumas construções de apoio à actividade agrícola. Não vemos gado bravo, mas incomodamos o repouso de umas cabras. E em breve a estrada torna-se familiar e voltamos ao piso vermelho que anuncia o fim (e anteriormente o começo) deste trilho circular.

No final, a certeza: só caminhando pelo seu interior se fica com uma ideia mais próxima da beleza indomável das ilhas.

Uma volta pela Terceira

Há quem diga que a Terceira é a ilha do arquipélago dos Açores com mais diversidade. Com uma cidade distinguida como Património da Humanidade, pejada de igrejas, conventos e palacetes, rica em tradições e festividades e com uma gastronomia muito própria, o seu património construído e a sua cultura encontram um fortíssimo rival na paisagem natural. Montes e planícies, crateras de vulcões e grutas, praias e piscinas naturais, aqui tudo se encontra.

Iniciaremos este percurso circular pela ilha Terceira no Monte do Brasil, o guardião natural de Angra. Esta península é o que resulta de um antigo vulcão, hoje extinto, mas que nos deixou uma caldeira e vários picos. Em quase todo o Monte do Brasil se podem encontrar as muralhas e baluartes ou pelo menos vestígios da grandiosa fortaleza de São João Baptista. Mas à parte a vertente militar, este é também um espaço recreativo e de lazer, com o Relvão e parques de merendas. Em post anterior já tínhamos percebido como a vista do Pico das Cruzinhas para a baía de Angra é fabulosa, mas dirigindo o olhar para ocidente temos uma vista igualmente superior da costa sul, onde se destaca a povoação de São Mateus da Calheta.

Já na estrada, cá em baixo, rapidamente chegamos a São Mateus. Esta vila piscatória, outrora um centro baleeiro, tem uma baía bem pitoresca com um porto de pesca muito movimentado. Não é de estranhar, pois, que aqui fique um dos mais afamados restaurantes da ilha, o Beira-Mar.

Seguindo pela costa damos com a igreja velha da povoação, descascada no final do século XIX por um forte ciclone, e chegamos à Ponta das Cinco, lugar de umas piscinas naturais.

Esta zona costeira das Cinco Ribeiras é de uma ruralidade comovedora. Com o mar azul de um lado e montes verdejantes do outro, tomamos as estreitas canadas e deambulamos pelo meio das pastagens divididas por pequenos muros de pedra – os cerrados – e ocupadas pelas vacas.

Pela costa ocidental da ilha vão aparecendo alguns pontos de vista de excelência, como o miradouro da Ponta do Queimado ou Ponta da Serreta. Antigo lugar de vigia da baleia, este é um promontório bem alto numa costa agreste e dura. Surpreende, pois, que logo ali junto ao mar rochoso se desenvolva uma mata cerrada. Não desviamos quase nada para o interior e logo damos com a Reserva Florestal da Serreta, um bosque de recreio e lazer muito rico em espécies arbóreas.

De volta à costa, mais um miradouro, o da Ponta do Raminho.

Nesta jornada já havíamos passado por uns quantos “impérios” e igrejas e agora segue-se Altares e uma paragem para almoçar uma alcatra de carne no restaurante Caneta.

De volta à estrada de barriga cheia, a vista do Pico Matias Simão é como que a sobremesa bónus. Ao nosso redor, tudo o que vemos é a planície recortada em rectângulos verdejantes que repousam junto ao mar.

Segue-se Biscoitos. Não outra sobremesa, mas antes a zona de veraneio por excelência da Terceira, graças ao seu microclima especial que faz com que aqui esteja quase sempre bom tempo para um mergulho nas suas piscinas naturais, as mais fantásticas da ilha. Biscoitos é o nome que se dá no arquipélago aos terrenos formados pelas lavas que resultam das erupções vulcânicas. Nesta povoação à beira mar a terra parece queimada, cortesia da dita lava que se transformou em rochas de basalto preto. E essas rochas tomaram aqui formas deliciosas que deram origem a recantos por onde o mar vai entrando.

Imediatamente a seguir às piscinas naturais, ainda na costa, vemos outro cenário também surpreendente na rocha escura: uma série de trincheiras que fizeram parte do sistema defensivo militar da ilha construído e usado na II Grande Guerra Mundial. Crê-se, no entanto, que sistema semelhante tenha sido igualmente usado numa época anterior, nos séculos XVI e XVII, para fazer face aos ataques dos piratas e corsários.

E os Biscoitos são ainda famosos pela sua tradição vinícola, sendo a única região de vinhos demarcada na ilha Terceira. O referido microclima e o engenho do Homem na adaptação do terreno à sua subsistência fez com que as pedras de basalto fossem utilizadas para a construção das curraletas que protegem as vinhas dos ventos. À semelhança do que víramos na ilha do Pico, também o verdelho vinga neste terreno e faz as delícias dos apreciadores de vinho.

Prosseguindo pela costa norte da ilha, duas praias aparecem para alegria dos entusiastas das paisagens costeiras. A Alagoa da Fajãzinha é uma pequena delícia. Junto à Ponta do Mistério, nas Quatro Ribeiras, a costa é escarpada e o mar chega a rebentar violento contra a rocha. Pequenas baías e promontórios dominam a paisagem, mas eis que por aquele cenário de lavas recentes surge um pedaço de terra que se estende ilha adentro, parecendo ter vencido a batalha da costa escarpada. É a dita Fajãzinha, uma pequena praia não de areia mas de pequenas pedras junto à beira mar, os detritos que os deslizamentos dos montes foram acumulando ao longo dos séculos. É muito curioso ver como no meio da lava vão-se já sobrepondo pedaços de vegetação.

As Escaleiras é outra praia surpreendente. Descemos do parque de estacionamento e vamos sentindo o mar barulhento a quebrar na rocha lá em baixo. Mas lá em baixo, no entanto, abre-se uma baía e, apesar de uns quantos surfistas na água, o mar parece mais tranquilo, protegido pelos morros altos que o recebem.

A costa norte da Terceira, a tornar-se nordeste, é onde fica a Base Aérea das Lages, utilizada quer pela Força Aérea Portuguesa, quer pela Força Aérea dos Estados Unidos da América, servindo igualmente como o aeroporto da ilha.

A Praia da Vitória é a segunda maior povoação da Terceira e uma das primeiras escolhidas pelos povoadores da ilha para se estabelecerem logo à sua chegada no século XV. O nome “da Vitória” foi-lhe acrescentado já no século XIX, por carta régia de D. Maria II, em reconhecimento do seu papel na Guerra Civil Portuguesa, quando a então vila se opôs ao desembarque das tropas miguelistas. O apoio aos liberais valeu-lhe os títulos de “Mui Notável” e “da Vitória”.

E para a história esta será, para sempre, a terra natal de Vitorino Nemésio. A casa onde nasceu foi transformada em Casa-Museu Vitorino Nemésio e muitos outros lugares por onde passou estão devidamente assinalados, como a Casa das Tias. As cores da hoje cidade da Praia da Vitória dão-lhe, por si só, um encanto muito próprio. Mas, depois, temos ainda os belos edifícios da Igreja Matriz e dos Paços do Concelho. E temos, ainda, a dita praia, reconhecida como o mais extenso areal de todo o arquipélago dos Açores, com uma promenade bem cuidada e uma pequena marina. O fim de tarde escuro e a areia igualmente escura e em dragagens acabaram por não me parecer o convite ideal a um momento de contemplação do Atlântico, mas acredito que com outras cores este possa ser um postal para mais tarde recordar.

A Praia acaba por ser uma baía e a Serra do Facho protege-a. Do seu alto um miradouro serve-nos de ponto de vista para toda esta região da ilha, com as costas da Serra do Cume ao fundo. E da Serra do Cume, claro, avista-se a Praia da Vitória.

A imagem do vale verdejante da Serra do Cume é, talvez, a mais repetida de toda a ilha Terceira. A maior cratera do arquipélago transformou-se num quadriculado de pastagens e terras de cultivo, conhecida localmente por “manta de retalhos”. E é isso mesmo que esta imensa planície rodeada por pequenos montes nos faz lembrar.

Do miradouro da Serra do Cume avistam-se ao longe os Ilhéus das Cabras. Antes de os termos mais perto de nós, porém, há que passar pelas povoações de Porto Martins, pela bela aldeia de São Sebastião e por Porto Judeu (perdendo, no caminho, uma ida até à Ponta das Contendas – lá está, há que deixar sempre algo para uma próxima visita às ilhas), estas duas últimas com umas igrejas bem bonitas. Porto Judeu é imperdível, pois é lá que fica o restaurante Boca Negra, afamado pela sua alcatra de peixe.

Daqui até Angra é um tirinho, passando por muitos “impérios” na beira da estrada junto à Feteira, e quase sempre com os Ilhéus das Cabras por companhia, repousando tranquilamente sobre as águas do Atlântico.

Estas duas fotogénicas ilhotas são o resultado de um vulcão, partido ao meio pela erosão marinha e pelas movimentações tectónicas ao longo dos tempos. Sobre estes cones verdes escreveu repetidamente Nemésio, primeiro, em Mau Tempo no Canal, referindo-se a eles como tendo “o aspecto de um pão a que se esgaça um bocado” e, depois, em Corsário das Ilhas como, como “a estátua da nossa solidão”. E é com esta imagem, da solidão do ilhéu, que chegamos de volta a Angra, cidade para onde historicamente confluíram todos os solitários que cruzavam os mares.

Os “Impérios” da Terceira

“A alma do ilhéu é cândida e tenaz; quer um Deus vivo e alegre; chama-o à intimidade do seu pai e das suas ervas húmidas.”

Assim escreveu Vitorino Nemésio na sua obra maior, Mau Tempo no Canal, a propósito das Festas do Espírito Santo.

Terra de tradições e festas, como a “corrida à corda” (touros) e as “sanjoaninas”, uma das singularidades da paisagem da ilha Terceira são os “impérios”. Vêmo-los um pouco por todas as ilhas do arquipélago dos Açores, mas na Terceira eles florescem e multiplicam-se. Estão em qualquer esquina, algumas vezes até vários exemplares numa mesma rua. Serão cerca de 68, espalhados um pouco por toda a ilha, e cada localidade tem o seu.

Estes “impérios” são a expressão arquitectónica do culto do Divino Espírito Santo, a mais importante manifestação cultural da ilha Terceira. As suas festas começam no domingo a seguir à Páscoa e seguem até ao dia de Pentecostes (50 dias depois da Páscoa) ou ao domingo da Trindade (primeiro domingo seguinte ao Pentecostes). Mas na Terceira não é raro que estes “impérios” prossigam as suas festividades pelo Verão fora.

O culto do Espírito Santo na Terceira vem já do século XV, tendo sido introduzido na ilha pela Ordem de Cristo. Durante as festas, estes pequenos edifícios, espécie de capelas em versão exuberante e multicolorida com uma panóplia de elementos decorativos onde quase sempre está presente uma coroa a encimar a fachada, abrem as suas portas para seguirem a tradicional e secular distribuição do bodo. Lá dentro, junto ao pequeno altar, com a mesa posta distribui-se pão, carne e vinho. E durante os dias das festas sucedem-se as procissões e desfiles de cortejos. Sagrado e profano lado a lado. Sempre popular. Esta ilha é uma animação.

O mais antigo destes “impérios” é o de São Pedro, datado de 1795, o qual terá escapado ao nosso olhar. Mas grande parte dos “impérios” está junto às estradas, muitos deles até junto a igrejas, pelo que não é difícil vê-los desfilar diante nós. Eis alguns exemplos destes pequenos templos.