Faial, no mais novo pedaço de terra portuguesa

Chegada manhã cedo à ilha do Faial, tinha pressa em pegar logo no carro e seguir para o Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos, onde tinha visita guiada marcada para as 11:00. Tinha uma hora para lá chegar, mas, conhecendo-me bem, seria difícil não me distrair pela paisagem no caminho e guarda-la para mais tarde. Contra todas as probabilidades, lá consegui.

Mal me lembrava da zona dos Capelinhos e quando lá estive, há muitos anos, ainda nem sequer tinha sido criado o Centro de Interpretação, inaugurado em 2008 por ocasião dos 50 anos da histórica erupção. Mas sempre tive mais sorte do que Raul Brandão: quando o escritor passou pela ilha no primeiro quartel do século passado não havia sequer o vulcão dos Capelinhos e não pôde sequer testemunhar – e disso dar-nos conta no seu livro As Ilhas Desconhecidas – o ambiente lunar do mais novo pedaço de terra portuguesa.

Foi em 27 de Setembro de 1957 que um novo vulcão nasceu no mar e, com isso, mudou a ilha não apenas em termos morfológicos mas também socialmente. Recentemente, em Março deste ano, o Vulcão dos Capelinhos foi classificado como Monumento Nacional, pelos “valores naturais, cénicos, culturais e históricos de relevância incontestável, cuja integridade deve ser preservada”. O Centro de Interpretação explica-nos isso e muito mais, sendo, pois, de visita obrigatória.

Até chegarmos aos Capelinhos o verde domina a paisagem. Mas nesta ponta da ilha a terra passa a ser escura, realçando ainda mais as formas dos novos montes criados pelo vulcão, num contraste perfeito com o azul do mar e do céu. Enterrado na terra, a entrada para o Centro de Interpretação, projecto do arquitecto Nuno Ribeiro Lopes, foi pensada propositadamente para parecer que estamos a entrar dentro do vulcão. Aí – no Centro de Interpretação, não no vulcão – um enorme foyer nos espera, bem como a interpretação in loco de um ponto de vista informativo e científico do que e como aconteceu naqueles 13 meses que durou a erupção do vulcão e do impacto produzido por este fenómeno que mudou para sempre a paisagem e a demografia do arquipélago. Um filme em 3d sobre a formação do planeta e do arquipélago dos Açores, uma exposição sobre o vulcanismo no mundo e nas várias ilhas do arquipélago, em especial, na ilha do Faial, mais outro filme belíssimo com a recriação da erupção do vulcão e, ainda, uma mostra fotográfica dos diversos faróis dos Açores, a lembrar a importância que o farol dos Capelinhos teve como testemunha privilegiada da erupção e do nascimento desta região. Por fim, esta viagem termina com a subida a este farol para contemplar a paisagem fantástica ao seu redor.

Foram o faroleiro e os baleeiros das vigias do noroeste do Faial os primeiros a perceber movimentações estranhas a cerca de 1 km ao largo da ilha. Era uma erupção marítima, a primeira passível de ser observada por todo o mundo. Na verdade, para aqui vieram cientistas de todos os cantos desse mesmo mundo e esta foi a primeira erupção vulcânica a ser completamente documentada e estudada. Também muitos curiosos locais, depois do susto inicial, fizeram questão de presenciar este espectáculo ao mesmo tempo belo e assustador feito de grandes explosões com a emissão de jactos de cinzas negras para o ar. Durante os 13 meses que durou a erupção, a ilha do Faial chegou a aumentar 2,4 km2, tendo primeiro visto formar um pequeno ilhéu, depois um segundo, tendo ambos acabado por submergir; um terceiro ilhéu veio a crescer e acabou por se ligar ao Faial por um istmo. Ou seja, a terra foi rompendo o mar, alargando, encolhendo, desaparecendo, unindo, como se de um jogo se tratasse. Mas não, é apenas a beleza da formação do nosso planeta, privilégio que os nossos compatriotas contemporâneos puderam observar.

Ao fim de 13 meses, a actividade do vulcão foi diminuindo até que terminou em 24 de Outubro de 1958. O cone principal do vulcão chegou a atingir uma altura de 160 metros e dos 2,4 km2 de aumento que a ilha do Faial chegou a ter, restam hoje apenas 0,6 km2, por força da intensa erosão, sobretudo do mar, mas também do vento e da chuva, de que o vulcão dos Capelinhos continua a ser alvo – aliás, a este propósito, já não é possível percorrer o trilho que nos levava ao topo do vulcão.

Pelo meio, para além da beleza do nascimento de um pedaço de terra e da importância científica do fenómeno, apesar de não terem sido registadas vítimas mortais ficou para sempre o êxodo em massa dos açorianos. As cinzas da erupção do vulcão levaram a que milhares de casas ficassem soterradas e à destruição dos campos agrícolas e das pastagens. Os habitantes do Faial viram o seu presente e futuro comprometido. Graças aos esforços do então governador civil António de Freitas Pimentel, foi conseguido que o Congresso dos Estados Unidos da América aprovasse uma legislação extraordinária que alterou a quota de emigração até aí existente. Com isso, e mesmo se a política de ditadura do Estado Novo de Salazar não via com bons olhos a emigração, mais de metade dos habitantes do Faial deixaram a ilha. Mais, aproveitando o sonho americano que muitos ilhéus tinham, estima-se que durante as décadas seguintes cerca de 30% da população açoriana tenha abandonado o arquipélago.

Hoje, não se pode dizer que a população tenha voltado. Mas assiste-se a uma nova dinâmica à boleia do ainda pouco mas crescente turismo.

E a paisagem, essa, feita de lava e de cinza, segue atrativamente desolada, terra negra que vai vendo querer crescer um arbusto aqui e ali, até mesmo umas árvores inteiras. Perto dos Capelinhos até se vai vendo plantações de vinha, na esperança de que o carisma do vulcão dê um sabor também distinto ao néctar dos deuses.

O farol construído em 1903, o primeiro do Faial e o terceiro do arquipélago, continua de pé, embora em ruínas e com o seu primeiro andar soterrado. A sua elegância no meio da paisagem árida é tocante. O topo deste sobrevivente é hoje um miradouro excepcional. Lá em cima percebemos os contornos incríveis do vulcão e do lugar na perfeição, curva sobre curva, ondas a bater na rocha preenchida de areia umas vezes castanha, outras preta, às vezes até vermelha, mas sempre escura. Cabeços negros junto ao mar com vista para cabeços verdes ilha adentro. E cá em baixo, discretamente e solidariamente soterrado, o edifício circular do Centro de Interpretação, parceiro já indispensável deste lugar mágico.

Havia referido que o trilho que nos permitia subir até ao vulcão está interdito, mas muito mais terra resta para vaguear e admirar, caminhando para cima, em direcção a um dos cabeços na nova montanha, ou para baixo, em direcção à Casa dos Botes Baleeiros e à pequena praia do Porto Comprido. E uma dúvida quase certeza nos toma: da próxima vez que voltarmos, esta terra estará diferente, como se de um work in progress se tratasse.

Açores, que ilha(s) escolher

Vê-se aquela foto de página dupla numa revista e não se acredita: aquela paisagem enorme é Portugal. Não interessa qual é a foto. Qualquer foto dos Açores mostra sempre uma paisagem grandiosa, um vulcão rodeado de verde e azul, o verde da paisagem, o azul do mar.

O arquipélago dos Açores é feito de 9 ilhas. Os últimos anos têm levado até aos Açores cada vez mais visitantes. A maioria deles, até à ilha de São Miguel, o lugar da capital, a mais famosa, a mais bonita. Mas será assim?

Para mim, a dificuldade de uma visita aos Açores surge bem antes de marcar o avião: que ilha(s) escolher? E quanto mais penso e pondero e oiço e leio conselhos, mais dúvidas se instalam. Cada um de nós terá uma ilha diferente como preferida, aquela que defende ser a mais bonita ou, tão só, a que mais momentos especiais lhe permitiu e permite viver.

Ler as “Ilhas Desconhecidas”, de Raul Brandão, ou “Açores, o Segredo das Ilhas”, de João de Melo, não ajuda à decisão. Antes instala o desejo de todas querer descobrir e ser por elas tocado e inspirado. Hei-de lá chegar, de a todas as 9 ilhas visitar. Por enquanto, repeti o Faial e o Pico e estreei-me em São Jorge e na Terceira (deste grupo central deixei, a custo, cair a Graciosa). É por aqui, por este Canal tornado intemporal por Vitorino Nemésio, que temos a percepção absoluta do que é um arquipélago. Escreveu Raul Brandão que “o que as ilhas têm de mais belo e as completa é a ilha que está em frente”. A montanha do Pico, a mais alta de Portugal com os seus 2351 metros, parece emergir directamente do mar e é presença constante, mais ao perto ou mais ao longe, na paisagem do Canal. Apenas não a consegui ver da ilha Terceira, mais distante, e… da própria ilha do Pico. E essa é também a magia dos Açores, o mau tempo no arquipélago, cortesia de um dos anticiclones mais famosos do mundo, que nos deixa descobrir paisagens majestosas para logo as cobrir de chuva e nevoeiro, levantando ondas no Canal que nos impedem de abandonar as suas ilhas. Não era necessário, guardaremos sempre na memória e na alma o esplendor dos Açores.

Um dia pela Comporta

Comporta, o paraíso perdido às portas de Lisboa”, diz-se amiúde.

Na verdade, nem o paraíso está perdido nem está assim tão às portas de Lisboa.

Para chegar à Comporta vindos da capital temos duas opções: ou seguir para Setúbal e apanhar o ferry para Tróia ou seguir pela auto-estrada até Alcácer do Sal ou Grândola. Ambas distantes, ambas caras. Quer isso dizer que se deve abandonar a ideia de uma visita de um dia à Comporta? Nada disso. O paraíso pode não ser perdido, mas é real, ainda que escondido. E esta é mais uma razão para partimos à descoberta.

A viagem de ferry que atravessa o Sado é bonita e nem é preciso muita sorte para se dar com os golfinhos a brincar neste rio que em breve se tornará mar. Mas a opção recaiu na passagem por Alcácer do Sal, um bom pretexto para se admirar o seu castelo altaneiro ao mesmíssimo Sado.

De Alcácer do Sal seguimos por quase 30 melancólicos quilómetros de estrada até à Carrasqueira. Rectas enormes bordejadas por pinheiros convidam à evasão. Não o vemos, mas sentimos o Sado mesmo ao nosso lado. Irresistível desviar do asfalto e meter num dos poucos estradões de terra batida que surgem no caminho para o espreitar. Aqui estamos em plena Reserva Natural do Estuário do Sado. Natureza bruta e pura que todos têm sabido preservar.

O Estuário do Sado, o segundo maior do país, é uma extensa área protegida que vai desde os estaleiros navais de Mitrena e do Moinho da Maré da Mourisca (onde fica hoje o Ecomuseu – Centro de Educação Ambiental), ambos no concelho de Setúbal, até à outra margem do rio, já nos concelhos de Alcácer do Sal e Grândola. Este estuário inclui não apenas o rio, mas também zonas de sapal, salinas, arrozais, dunas e pinhal. Neste ecossistema desenvolvem-se espécies endémicas, como as mais de 200 espécies de aves que para aqui vêm invernar e nidificar, diversos peixes e o singular golfinho roaz.

Referi que são quase 30 os quilómetros de estrada sem curvas que ligam Alcácer do Sal à Carrasqueira, mas está visto que apesar da liberdade de se carregar no acelerador a viagem não é breve. Os convites para paragens são muitos, seja o simples cheirar o ambiente de pinhal ou apreciar os ninhos das cegonhas no cimo dos postes de electricidade, confirmar as cores do casario alentejano em lugares como Montevil ou espreitar uma das muitas herdades turísticas como Montalvo – até onde as cancelas das propriedades privadas o permitem. A região da Comporta não é um lugar que se deixa descobrir facilmente, há que insistir e não hesitar em ir mais além sempre que o podemos. Por vezes parece que as estradas de terra batida não vão dar a lado nenhum, mas a verdade é que levam sempre, pelo menos, ao recato, à tranquilidade e, com sorte, a um pedaço de Sado ou de Atlântico.

A primeira paragem “oficial” deste dia por terras da Comporta foi a aldeia da Carrasqueira.

As margens do Estuário do Sado foram sendo ocupadas desde há séculos pelos humanos que aí buscavam os seus recursos marinhos, a pesca e o sal. Há, aliás, registos de ocupação da Península de Tróia desde o Neolítico e da Idade do Bronze e os romanos no século II fizeram desta um centro de salga de peixe.

A Carrasqueira é uma das povoações que melhor testemunham essas tradições seculares. Os seus habitantes dedicam-se às actividades agrícolas (sobretudo à cultura do arroz, mas também da batata doce) ou à pesca e o património construído do povoado é feito das típicas casas alentejanas caiadas de branco com riscas azul e ainda de cabanas de colmo e portos palafitas.

O Cais Palafítico da Carrasqueira é um dos pontos mais emblemáticos de toda a região. Testemunho intemporal de uma das actividades económicas mais presentes na Comporta – a faina do mar -, este pequeno embarcadouro que vem já das décadas de 50 e 60 do século passado é feito de um conjunto de passadiços de madeira que se entrecruzam e estão assentes no lodo do sapal, os quais nos levam até aos barquinhos que ai são embalados pelo Sado. Na maré baixa deixam-se enterrar no lodo, enquanto que na maré alta baloiçam à tona da água. A imagem deste cais é humilde e frágil e caminhando pelas suas tábuas de madeira muitas das vezes duvidamos da sua segurança. Espreitamos as pequenas casinhas de apoio à pesca e vemos a confusão dos materiais empilhados por ali, enquanto arriscamos chegar bem pertinho do rio.

Entre a Carrasqueira e a Comporta ficam alguns daqueles segredos da Herdade da Comporta envolvidos pela areia que já não são segredo para ninguém. Pelo menos já todos os interessados no bom gosto da arquitectura na natureza viram as fotografias. Já para experimentar passar uma noite numa destas casinhas ainda vai uma distância enorme 💶💰. Falo, claro, das super premiadas Casas da Areia da dupla de arquitectos Aires Mateus, cujo projecto que eleva à estratosfera a rusticidade acompanhada de requinte com respeito pelo ambiente tem vindo a merecer destaque nas revistas de arquitectura e de viagem. A inspiração destes edifícios vem das cabanas dos pescadores que serviam de sua habitação e guardavam – e guardam ainda – as alfaias agrícolas.

Normalmente instaladas em locais arenosos, é possível ver uma recriação dessa tradição de arquitectura popular materializada num outro projecto, o Cabanas no Rio, dos mesmos arquitectos. Encaixado nas dunas e com acesso directo ao rio, a envolvente natural do lugar é belíssima e o recolhimento total.

A aldeia da Comporta é o epicentro de toda a região. Bons e afamados restaurantes (que vão buscar os seus recursos ali mesmo), lojas da moda, o hippie-chip versão comércio em todo o seu esplendor. A beautiful people de todo o mundo vem até aqui para desligar do dia a dia e encontrar refúgio num ambiente natural e protegido mas com todas as comodidades. O azul e branco voltam a ser as cores dominantes, sinónimos da elegância que abunda por estas paragens. E as cegonhas nos seus ninhos altaneiros não podiam faltar a este cenário de postal.

Nos últimos anos, com a queda do Grupo Espírito Santo, muito se tem falado da venda da Herdade da Comporta e dos negócios imobiliários e turísticos que tal poderá vir a proporcionar aos seus futuros donos e, logo, dos receios que eventuais impactes ao nível ambiental e paisagístico possam trazer à região. Enquanto percorremos as estradas, pinhais, dunas e arrozais da Comporta não conseguimos perceber os limites da Herdade. O que percebemos, sim, é que este é um lugar que só pode ser desejado, mas que dificilmente será para todos.

Um pouco de história: a Herdade da Comporta tem cerca de 12500 hectares encravados entre o Estuário do Sado e o mar e acolhe sete povoações – Carrasqueira, Comporta, Possanco, Torre, Brejos, Carvalhal e Pêgo. Criada no século XIX e integrada no património da Coroa Portuguesa, a Herdade foi sucessivamente vendida a britânicos, depois à família Espírito Santo, nacionalizada e novamente devolvida àquela família – e hoje, para além de decorrer a venda da Herdade, a propriedade de parte da região é alvo de discussão, sobretudo pela falta de delimitação do Domínio Público Marítimo. Antes, porém, no século XVI este território foi ocupado por africanos, crentes de que estes, mais resistentes ao paludismo, se adaptavam melhor às terras pantanosas e pejadas de mosquitos do Estuário do Sado. Foi no século XIX que a Comporta começou a receber migrantes de várias zonas do nosso país para trabalhar nos arrozais. Até aí esta era praticamente uma terra de ninguém. Hoje, já se sabe, é uma das mais procuradas e apetecíveis.

Assim como o sapal domina a zona do Estuário junto à Carrasqueira, é o arrozal que domina a paisagem à volta da aldeia da Comporta. Esta é a principal actividade agrícola da região.

Sapal, arrozal e, faltam agora, as dunas. A zona dunar está presente em muito deste território, muitas vezes envolvendo os pinheiros, mas é na costa ocidental, já virada para o Atlântico que ela se torna mais evidente.

As praias, enfim.

Apesar dos 65 quilómetros de areal que vão desde a Península de Tróia até Sines, não são muitas as praias com acesso público rasgado às dunas, daí que a maior parte deste areal permaneça deserto e virgem.

A Praia da Comporta é uma das praias oficiais. Com um restaurante de madeira de cada lado construído sobre as dunas, o que sobressai nesta praia é, no entanto, a casinha azul clara que os medeia. Azul mais bonito só o conseguimos buscar na cor irreal do mar, o qual contrasta na perfeição com a areia branquíssima.

De volta ao asfalto passamos pela povoação da Torre e pelos Brejos. Nos Brejos da Carregueira, assim como quem não quer a coisa, ficam uma série de propriedades embrenhadas nas dunas e escondidas do olhar forasteiro. Os acessos fazem-se por terra batida e o fim do caminho pode chegar abrupto ou pelo termo da estrada ou por um aviso de “propriedade privada”. Ainda assim, foi possível descobrir mais um belo conjunto de edifícios que se confunde com a paisagem.

A praia oficial que se segue é a do Carvalhal, a cerca de 11 quilómetros de distância da praia da Comporta. Entre estas, lá está, o extenso areal da costa ocidental é apenas acessível por alguma propriedade privada com acesso ao mar ou percorrendo o areal junto a esse mar de lés a lés, a pé ou até a cavalo. Mais, os arrozais servem também como que de barreira natural entre o pinhal (e a estrada) e o mar.

O Carvalhal é uma povoação mais crescida e cheia de habitações escancaradas à beira da estrada. Pequenas delícias entram-nos pela vista.

A Praia do Carvalhal é famosa por ser a praia dos surfistas e do restaurante Dinis. As cores do areal e da água desta praia, uma continuação das anteriores, continuam esplendorosas.

A última paragem aconteceu na Praia do Pêgo. Esta será a mais exclusiva das praias da Comporta. É por aqui que o clã Salgado tem a sua casa rodeada de dunas e da chatice dos mosquitos e das melgas. E é no Pêgo que fica outra das instituições da região, o restaurante Sal, encravado nas dunas.

Apos este breve mas tranquilo passeio pela Comporta, cujo nome deriva da comporta que impede a entrada de água do Estuário do Sado para os campos de arroz, confirmamos que o paraíso mantém a sua alma original e a sua natureza segue intocada.

Revistas de Viagem

Há aquelas revistas tradicionais de viagens, como a Volta ao Mundo, em Portugal, ou a Lonely Planet, Condé Nast Traveller, Wanderlust e muitas mais, lá fora.

E, depois, há aquelas revistas independentes que mais parecem livros, aquelas com capas que ficam sempre bem numa mesa da sala de estar mas, melhor ainda, aquelas cujos textos e fotografias nos fazem sonhar e nos inspiram a viajar. E, sobretudo, nos dão a conhecer destinos remotos, ou não tanto, na sua plenitude.

Revistas lindíssimas cujas edições, as mais das vezes, têm um tema que lhes servirá de guião para explorar paisagens, comunidades, modos de ser e fazer. Vidas que desconhecíamos que alguma vez tivessem existido ou que ainda possam existir, como aquela do “Último Fazedor de Sapatos de Neve”, no norte da América do Norte, ou da adolescente que, apesar dos modernos veículos de neve, ainda insiste ser transportada nas suas deslocações de centenas de quilómetros por um trenó puxado pelos cães da Groenlândia. Estas são apenas algumas das histórias que se podem conhecer no último número da revista Another Escape, “The Frozen Volume” (o seu décimo primeiro número), que diz ao que vem: “O volume congelado sai à rua e abraça o frio. Descobre como as condições extremas podem promover a comunidade, unidade e união, e como a nossa paixão pelas actividades ao ar livre podem nos empoderar a enfrentar os elementos.”

Expressões e ideias como nostalgia, resiliência, ingenuidade, comunidade, remoto, isolamento, ambiente e alterações climáticas estão muito presentes. Mas sem proselitismos. Um artigo sobre a Groenlândia na edição acima citada, em especial no que respeita à questão das alterações climáticas, por exemplo, faz nos pensar que o que é mau para o resto do mundo pode não ser, ironicamente, um mal absoluto para esta região, pela maior proximidade e novas oportunidades que, eventualmente, o degelo pode trazer.

A Another Escape diz-se inspirada pela natureza de forma a ser criativa e levar a um estilo de vida considerado. Fá-lo, desde logo procurando ser uma publicação sustentável, com preocupações ao nível do uso e impressão do seu papel.

O mesmo com a Rucksack Magazine. Também uma revista bianual que se debruça sobre um estilo de vida ao ar livre, tem vindo a apresentar-se-nos sob um tema: The Winter Issue, The Journey Issue e The Island Issue, ou seja, edições dedicadas ao Inverno, à jornada e às ilhas. A sua paixão é a aventura e o contar histórias. Com ela descobri que as fotografias de dias sem sol, aqueles onde do céu só se vê uma enorme massa branca ou cinzenta, também podem ser deslumbrantes. E que lugares inóspitos e desolados, seja pelo clima que sobre eles se abate o ano quase inteiro ou pelo seu isolamento, podem produzir em nós um desejo imenso de viajar até eles. Com esta revista passei a desejar visitar a Islândia, as Ilhas Faroe ou a Ilha de Skye mesmo em meses de Inverno. Porque apesar de os seus artigos nos contarem o desconforto que pode ser pisar estas lonjuras, ainda assim as suas fotografias e textos têm o poder imenso de nos atrair até lá e aventurarmo-nos.

Mais luminosa, seguindo por caminhos mais batidos mas ainda longe das massas e sempre com artigos sobre territórios e ambientes e actividades surpreendentes, a Lodestars Anthology é provavelmente a revista mais bonita. Pega num país por edição e vai esmiuçando-o de lés a lés, com textos, fotografias e ilustrações. A curiosidade é o que a move e que no caminho a leva a conhecer personagens que resultam em textos intimistas sobre as paisagens e a cultura de cada um desses países.

A sua última edição, a décima primeira, por exemplo, é dedicada a Portugal (antes viajou pela Índia, França, Canadá, Nova Zelândia, Japão, Escócia e Inglaterra) e nela podemos viajar pelo granito da Peneda-Gerês, descer pelo Centro do país, saborear doces conventuais, explorar Peniche e a Comporta, deixarmo-nos seduzir pela arte dos azulejos, procurar a felicidade em São Lourenço do Barrocal, percorrer a Costa Algarvia e descobrir o verde dos Açores e o charme da Madeira.

A Fare Magazine tem um conceito um pouco diferente, mas o seu sentido passa igualmente por nos dar a conhecer a cultura de um local. Partindo de um foco na comida, cada edição bianual guiada por locais parte de uma cidade para explorar as suas particularidades culturais. A sua quarta e última edição é dedicada a Seoul (depois de edições sobre Istambul, Helsínquia e Charleston) e à boleia da comida desenvolvem-se artigos pela história da Coreia, pelo milagre do super desenvolvimento tecnológico da sua capital, a tradição de partilha à mesa, a cidade com mais mulheres solteiras no mundo desenvolvido. A comida (e cultura) coreana está na moda e depois de percorrer esta revista dedicada a Seoul fico ainda com mais dificuldade em perceber porque não existem restaurantes coreanos em Lisboa (excepção de um banca no Mercado Oriental e um restaurante achinesado em Odivelas).

A Suitcase Magazine autodenomina-se como “a cultura da viagem” e propõe-se, nada mais nada menos, a mudar a forma como viajamos – “esqueça os clichês turísticos e aproveite o apetite aventureiro da próxima geração”. Com 4 edições por ano, a Suitcase é mestre no escapismo moderno e as suas edições são inundadas por artigos de inúmeros lugares bonitos, com dicas de locais a visitar, dormir e comer, sem deixar de piscar o olho à moda e às novas tendências de viagem.

De todas as aqui referidas, a Suitcase é provavelmente a revista mais popular e mais lida e, consequentemente, aquela que mais vai ao encontro de um viajante independente mas que não prescinde de paragens acolhedoras e confortáveis.

Uma última menção para a extinta Boat Magazine. Nada a ver com barcos, atenção. Criada em 2014, esta muito elogiada revista independente propunha-se a não ser apenas uma revista de viagens, daquelas com dicas de restaurantes e hotéis. Pelo contrário, pretendia ir mais a fundo e, através da escolha de uma cidade, a sua edição deslocalizava o seu estúdio para lá e deixava-se imergir pelas suas dinâmicas, colaborando com fotógrafos, escritores e criativos locais para daí extrair histórias únicas, sob diversas perspectivas, dessas cidades e seus habitantes. Há cinco anos, numa entrevista, perguntava-se ao seu editor onde se veria daí a cinco anos, precisamente agora, em 2019. Ele respondia que talvez Islamabad. Não sei dele. A Boat parou no número 12, sem chegar ao Paquistão, mas passando por, entre outras, Sarajevo, Detroit, Lima, Banguecoque, Havana e Telavive. Entre quase todas as edições esgotadas fui ainda a tempo de ter direito a esta última e confirmar que a Boat mereceu mesmo todos os elogios que lhe foram feitos e que deixa saudades.

Em resumo de jornada, estas revistas de viagem são elas próprias lugares de escape. Revistas para se deixar soltas e à vista nas diversas divisões da casa e às quais é sempre um prazer voltar.

Para folhear algumas destas revistas, bem como muitas outras que em comum têm a sua estética belíssima, é possível fazê-lo sem a intermediação de um écran na livraria Under the Cover, em Lisboa.

Sirvozelo, o elogio da pedra

Nem me lembro mais porque achei que Sirvozelo devia ser uma paragem a visitar depois de deixar Pitões das Júnias a caminho de Vilarinho de Negrões. Há que fazer um desvio, mas no meu plano inicial achei que tinha de o fazer. E em boa hora o fiz.

Sirvozelo fica a sudoeste da Albufeira da Paradela, na bacia hidrográfica do rio Cávado, no concelho de Montalegre, limites do Parque Nacional Peneda Gerês. Estas são as Terras do Barroso, fortes em tradição e zelosas da sua identidade.

Sirvozelo é uma aldeia típica de Portugal. Para o bem, mas também para o mal. Está deserta. Os Censos de 2011 contabilizaram apenas 3 habitantes no povoado. Mas apesar da ausência de humanos, não sendo difícil arriscar que os animais estarão aqui em maior número, o interesse e a beleza deste povoado está na parceria Natureza-Homem que aqui deixou a sua marca.

O topónimo Sirvozelo derivará de “terra silvosa”, mas são as pedras que aqui fazem toda a diferença na paisagem. Terra de penedos e de poderosos e gigantescos monólitos de granito, as suas casas foram construídas de forma a aproveitar estes abrigos naturais. É vê-las encostadinhas aos pedregulhos. Parece até que os estão a sustentar. Alguns destes blocos têm formas magníficas e é incrível constatar como se equilibram. O Largo principal da povoação, onde fica a Capela, toma o nome de “Largo do Arrebatadouro”, e é isso mesmo que Sirvozelo faz em nós: arrebata-nos.

A volta à povoação faz-se num pulinho. As casas, de construção tradicional, são todas em pedra, excepção para os telhados em telha ocre, substitutos do já pouco usado colmo. Vemos os clássicos canastros. E vemos uns pedaços de terra verde, divididos e talvez prontos para o cultivo. Tudo isto guardado por formosos penedos.

Pitões das Júnias

Pitões das Júnias é dos lugares mais incríveis que já conheci. Por sorte, fica no meu país.

Um lugar que cabe numa road trip, um lugar para se caminhar por cenários dramáticos ímpares, um lugar de montanhas afiadas, um lugar com uma cascata com uma altura de 30 metros e um mosteiro com quase 1000 anos, um lugar com história e tradição, um lugar longínquo, isolado e desolado. Pitões das Júnias reúne tudo isto, um lugar de natureza e cultura, mas é sobretudo um lugar vivo.

Já havia estado nas Júnias anteriormente, mas essa visita entranhou-se de tal forma no meu imaginário que sempre pretendi repetí-la.

Desta vez entrei por Espanha e à aproximação dos seus inconfundíveis cumes afiados comecei de imediato a ficar ansiosa. Uma ansiedade saborosa, como a que sente a criança que sabe que está prestes a receber um doce.

Pitões das Júnias fica situada no concelho de Montalegre, literalmente para Trás-os-Montes. Este território é habitado desde o megalítico, daí as mamoas, antas e dolmens que se vêem na região.

A paisagem deste pedaço da Terra Fria transmontana, a tal que o dito sentencia “9 meses de inverno e 3 de inferno”, é fabulosa. Entre barragens – a Albufeira do Rio Salas, em Espanha, e a Albufeira da Paradela, em Portugal -, também à conta dos diversos ribeiros que descem da montanha nunca se está muito longe da água. Mas são os seus penedos que trazem o carisma à região e, em particular, a Pitões das Júnias.

A povoação ergue-se abaixo de umas montanhas escarpadas, como a Fraga da Espinheira, a 1337 metros de altitude na Serra do Gerês. Inconfundível e inesquecível na sua forma. E sob a sua protecção foi, então, instalada a aldeia de Pitões das Júnias, a 1100 metros de altitude. Embora agreste, este lugar está protegido dos ventos frios do norte e os tais cursos de água fazem com que as terras de cultivo sejam boas. O rei na terra é, no entanto, o gado, em especial o boi barrosão. Ele caminha livre por esta terra selvagem.

O gado é o centro da vida e da economia de Pitões – o presunto e o fumeiro local são de qualidade superior – e a ele está ligada uma das figuras mais emblemáticas do espírito comunitário da povoação, a vezeira. O pastoreio é aqui efectuado sob regras democráticas próprias, juntando-se todo o gado sob a vigilância de um ou dois pastores e, com isso, possibilitando a disponibilidade de mais braços para os restantes trabalhos colectivos como as segadas (ceifa) e as malhadas (debulha). O boi do povo é, assim, representativo da coesão social de Pitões das Júnias (mas não exclusivo dela, uma vez que Trás-os-Montes, na generalidade, é ainda hoje conhecida por esta sua faceta comunitária).

Não estranha, pois, que os edifícios da aldeia tenham quase todos eles lugares para guardar o gado.

Vale a pena percorrer as suas ruas sem demoras. As casas são representativas da arquitectura barrosã, em granito local e com cobertura de telha e já não tanto de colmo, e com rés-do-chão e primeiro andar. No rés-do-chão são guardados os animais e por vezes aí fica a cozinha, lugar não só de refeição mas também de convívio. O primeiro andar é reservado aos sobrados e à sala.

São muitas as casas desta aldeia que não é pequena, mas a maioria não está inteira. A sua população, segundo os últimos Censos de 2011, é de apenas 161 habitantes, tendo vindo a diminuir drasticamente desde há 70 anos. Claro que nas férias este número multiplica-se pela visita dos muitos emigrantes que daqui, em tempos, partiram para outras zonas do país e, sobretudo, para França e Brasil.

As casas estão dispostas à volta da igreja e os terrenos agrícolas rodeiam a povoação. A horta, essa, fica ali mais próxima das habitações.

Outro dos encantos de Pitões das Júnias é o seu Mosteiro de Santa Maria das Júnias. A princípio poderá causar surpresa o facto de este mosteiro estar afastado da povoação e situado num pequeno vale encaixado onde corre um ribeiro, quase como se pretendesse passar despercebido. Mas quando ficamos a conhecer que a sua função original era a de eremitério tudo tem mais lógica. Se bem que num lugar destes, de paisagem selvagem e bruta, a lógica não tem de ser chamada à razão.

Construído no século XII no lugar de um eremitério do século IX, este antigo mosteiro cisterciense (que começou por ser beneditino), com igreja românica, está praticamente todo ele em ruínas. Mantém-se erguida, precisamente, a igreja, e o seu campanário (mais tardio) e portal em arco com a cruz de malta são excelentes testemunhos do que foi a sua grandeza até ao século XVIII e à sua extinção definitiva por volta de 1834. Apesar da ruína, podemos perceber como era o mosteiro pelo que sobeja dos seus corpos.

O espaço tomado hoje pela relva, por exemplo, correspondia aos claustros e destes resta a parte da sua arcada gótica, três arcos de volta perfeita. Crê-se que a comunidade monástica de Pitões das Júnias tenha sido relativamente modesta, quer em número de monges quer em poder económico. Os monges dedicavam-se à pastorícia e ao apoio dos peregrinos em direcção a Santiago de Compostela.

Deste Mosteiro, subindo um pouco a encosta, saí um trilho que nos leva à Cascata de Pitões das Júnias. Mato rasteiro e blocos de granito é o que pisamos no caminho. Diz que por aqui, entre fauna diversa, podemos encontrar cobras de dois metros, mas inofensivas. Felizmente não o pude confirmar. A silhueta das fragas ao fundo tomou toda a minha atenção.

Seguimos junto a uma levada de água e a determinado passo temos de optar por desviar à esquerda e dar uma espreitada na Cascata desde cima – o barulho da água é ensurdecedor – ou tomar a direita para a ver desde frente. Podemos tomar as duas opções, esquerda primeiro, voltar, direita depois.

Poucas centenas de metros mais à frente chegamos aos infindáveis degraus da escadaria de madeira (atenção à descida, que os degraus confundem-se) que nos deixarão no miradouro face a face com a Cascata.

Graças a um desnível granítico, a água jorra desde uma altura de mais de 30 metros. Em baixo, no vale que se abre diante nós fica o Carvalhal do Beredo, guardado pelo recorte da Serra do Gerês. Um cenário imenso.

Por Castro Laboreiro

Castro Laboreiro, situado bem a norte, no concelho de Melgaço, é longe, longe de tudo.

Até há menos de um século, nem uma estrada a ligava à civilização. Apenas caminhos de cabras. Isolamento, é do que se trata. Hoje tudo é diferente, mas para alguém da cidade esta continua a ser uma região perdida no meio da montanha. E a montanha aqui não é qualquer uma, é a Serra da Peneda. Os montes e pedregulhos típicos da Peneda só fazem com que o ambiente de desolação, rigor e mistério se adense. Aqui não vamos encontrar formas e recantos verdejantes como nos lugares mais frequentados do Gerês. Aqui só existem penedos rugosos e pedregosos. O caos de pedra da Peneda.

Ainda assim, tudo na região me atraí.

Cheguei noite caída a Castro Laboreiro, 5 estranhos graus. No dia seguinte, para aproveitar o dia, ainda antes do pequeno almoço tardiamente servido pelas 8:30, saí manhã cedo rumo ao Castelo.

Uns cães uivavam – eram cães mas soavam como lobos -, num contraste perfeito com o som encantatório de embalo que saia das colunas municipais como música de fundo na vila. É um retrato exacto do sentimento perante a região: receio e fascínio em doses iguais.

Iniciei, assim, a subida até ao Castelo hesitante, a medo até, pensando na imagem intimidante do cão raça Castro Laboreiro – porque os lobos há muito desapareceram. Se me aparece um pela frente aqui neste meio do nada não chego ao Castelo, pensei. É o fim, pura e simplesmente, conclui. Continuo caminho, olho adiante, para o lado direito, para o lado esquerdo, para trás. A paisagem fantástica tudo faz esquecer e o facto de estar sozinha nela só faz crescer a adrenalina. O tal caos de pedra faz com que queiramos conhecer a forma da pedra seguinte, do que está para além dela, os contornos dos vales e dos montes que nos enchem a alma. A Peneda é linda.

O Castelo está implantado num castro, o Castram Laborarum dos romanos, com o significado de “acampamento de trabalhadores”, numa colina escarpada a 1033 metros de altitude. Foram, no entanto, os mouros os que ergueram o primeiro castelo no lugar, o qual viria a ser conquistado por D. Afonso Henriques e reconstruído pelo seu sucessor, D. Sancho I. Se ainda hoje o acesso até lá cima é difícil, não consigo imaginar como fariam os nossos antepassados para lá chegar. Fácil de imaginar é, sim, a inexpugnabilidade do castelo face aos inimigos invasores.

No topo do Castro, depois de ultrapassada uma das suas duas portas de madeira, encontramos as ruínas dos dois antigos recintos, o castelo e a cerca da antiga povoação. Esta povoação intramuros terá sido abandonada logo na Idade Média, tendo os seus habitantes mudado para a vila cá em baixo, a actual Castro Laboreiro. Com o avançar dos séculos o Castelo foi perdendo a sua importância e provavelmente já na época das Guerras da Restauração apresentaria estruturas apenas rudimentares e não terá desempenhado um papel decisivo. Para piorar, no século XIX foram utilizadas pedras do Castelo para a construção de edifícios na mais recente vila.

O que temos hoje é, pois, a ruína de um castelo. Mas uma ruína perceptível e, sobretudo, uma ruína num espaço fabuloso. Para lá das pequenas muralhas altaneiras o cenário de montanha é de cortar a respiração. Avistamos até uma cascata a despenhar-se pelas fragas rochosas antes de cair no rio Laboreiro.

O percurso até ao topo do Castro e Castelo é circular. Na descida, mais uma vista especial, a da vila cá em baixo no planalto encaixada nos montes. Castro Laboreiro é pequena, e o seu centro histórico resume-se a uma reduzida praça com pelourinho e igreja matriz e umas casas típicas de granito por companhia.

Mas Castro Laboreiro fascina ainda pela sua cultura castreja. São três os tipos de ocupação na região: os povoados de ocupação permanente situados nas zonas mais abrigadas do vale abaixo do planalto, as brandas e as inverneiras. Estes dois últimos não são de ocupação permanente. Tudo depende do clima que a natureza oferece numa determinada época do ano. As brandas são a opção para as épocas do ano mais quentes, situando-se a maior altitude e em zonas mais frescas e de pastagens mais verdes e mais propícias às sementeiras, enquanto que as inverneiras ficam para o Inverno, protegidas que estão do vento a mais baixa altitude e nas encostas mais abrigadas da Peneda. O que acontece de especial em Castro Laboreiro é que esta situação, que seria típica das zonas de alta montanha, acaba por não se verificar bem assim. Na verdade, nos dias de hoje muitos dos habitantes da região acabam por fazer das brandas a sua primeira habitação, muito graças ao cada vez menor rigor dos Invernos.

O Trilho Castrejo, com cerca de 17 kms, transporta-nos por muitas destas penedias recônditas, pelos antigos caminhos que ligam as brandas às inverneiras. Segui, ao invés, de carro e, embora sem a mesma proximidade e sem chegar às brandas de outrora, pude perceber um pouco mais da ocupação da região nas duas margens do rio Laboreiro.

Para sul do castelo segue uma estrada estreita que corta o vale e apresenta paisagens mais convidativas, com algum verde e arvoredo. As paredes rugosas das montanhas estão, no entanto, logo ali perto. Pela estrada fora vão surgindo alguns desvios para povoações. Para se atestar do quão apartadas e perdidas estão, as caixas do correio dos seus habitantes ficam à entrada, precisamente no lugar do desvio da estrada que já é ela própria uma estrada secundaríssima.

Esta estrada é ainda encantadora pelas pontes que aparecem à sua beira.

A primeira, a Ponte da Assureira fica à entrada da povoação inverneira de mesmo nome. Construída na época medieval, veio substituir uma outra da época romana, e é uma pequena ponte de pedra sobre um ribeiro afluente do rio Laboreiro. Tem um único arco e o seu tabuleiro é em cavalete suave. A vegetação é aqui intensa e junto à ponte encontramos um moinho. Um pouco mais afastada fica a Capela de São Brás, nome pelo qual é também conhecida esta ponte.

A Ponte Nova ou da Cava Velha fica uns 200 metros mais à frente na estrada. Porém, para darmos com ela temos de desviar e seguir por um pequeno trilho. Provavelmente construída no século I, na época romana, terá sido reformada na época medieval. O nome “Ponte Nova” faz presumir que não seria a única nas redondezas, talvez acompanhada da Ponte da Assureira ou de uma outra. Com dois arcos de volta perfeita mas não de mesmo tamanho, julga-se que esta ponte poderá ter tido em tempos mais um arco. O tabuleiro em cavalete e inclinado é feito de laje.

Sobre o rio Laboreiro, esta é a mais imponente e surpreendente das pontes da Peneda. A pedra domina toda a sua envolvente, marcando presença na ponte, nas paredes da serra e até no caminho da água. O lugar é lindo e selvagem, como todos na Peneda, e aqui não se vê vivalma, só natureza bruta.

A última ponte desta jornada volta a estar escancarada na estrada, sendo fácil, por isso, dar com ela. É a mais recente Ponte de Dorna, construída no século XIX. Também em arco e tabuleiro em cavalete, a sua forma e materiais não diferem das anteriores. O lugar é aqui o mais bucólico possível, com direito a arvoredo com folhagem de vários tons e belos reflexos na água do ribeiro.

Todas estas pontes estavam integradas na rede de comunicações vicinais de Castro Laboreiro, ligando até a via romana que seguia para Espanha.

Na volta o percurso segue pela outra margem do rio Laboreiro, com muitas mais inverneiras no caminho e os maciços da serra a conferirem ao cenário um típico ambiente de montanha. A branda do Curral do Gonçalo fica para lá do sol posto, não sei se se avista daqui nem sei como lá chegar. Sei é que é o lugar de mais altitude da freguesia, a 1166 metros, o que faz dele o segundo lugar habitado em Portugal com mais elevada altitude. Tudo em grande por Castro Laboreiro, está visto.