Drave, a Escondida

Tinha prometido a mim própria que voltaria à Serra da Freita para conhecer a Drave, aquela a que chamam a “Aldeia Mágica”. Os caminhos por vales e montanhas da Freita, em Arouca, são cenários impressionantes, mas também o secretismo e misticismo da povoação da Drave me impressionou. Em tempos tinha tentado percorrer de carro as estradas de asfalto pelas montanhas que lhe são próximas, mas nada de a conseguir vislumbrar.

Parte da atracção da Drave é precisamente esta, a de não se deixar ver nem pisar a não ser caminhando directamente até ela. Encaixada num vale e protegida por montanhas, a este lugar encantado apenas se chega depois de percorrer a pé os 4 quilómetros que a separaram da aldeia de Regoufe (bem marcados pelo PR14 – “Aldeia Mágica”).

Regoufe, a visigótica “rei dos lobos”, é também um lugar que merece ser visitado e explorado. Ao descer de carro até à aldeia percebemos logo a ocupação do vale com terras de cultivo. Um desvio à direita (onde estacionámos) sinaliza as Minas de Regoufe, hoje uma impressionante ruína cheia de ambiente desta antiga indústria de extracção de volfrâmio explorada pelos alemães durante a época da II Grande Guerra Mundial.

Descemos mais um pouco, agora a pé, e a entrada na aldeia permite-nos conhecer um exemplo singular de autêntica ruralidade bem no centro do nosso país. Casas de granito onde o piso térreo ainda é efectivamente usado para guardar os animais são uma realidade. Assim como o é a partilha das suas ruinhas entre os homens e as vacas, cabras e galinhas.

O percurso pedestre que nos leva até à Drave tem início à entrada do casario de Regoufe. São 4 quilómetros para cada lado, cerca de 1h 15m de caminho em cada sentido. É um percurso relativamente fácil, onde na ida a única parte cansativa é precisamente a primeira, aquela que após atravessar a ribeira da aldeia de Regoufe nos leva a enfrentar uma subida inclinada com muita pedra no terreno. Acontece que, na subida somos tentados a olhar para trás, para espreitar a implantação geográfica de Regoufe no vale, e de tão bela que é temos a desculpa perfeita para não apenas caminharmos lentamente como também forçarmos as paragens para descanso ver as vistas.

A chegada ao cimo desta subida dá-nos ainda um cenário maior, a junção das Serras da Freita e da Arada, e mais à frente ainda de São Macário, aquilo que há séculos era designado como o Monte Fuste. E a partir daqui o caminho é quase sempre relativamente plano e em bom piso, com excepção da aproximação a Drave, em que teremos que descer um empedrado.

A vista é fabulosa. As montanhas verdes com rasgões fazem lembrar as do Cáucaso. É impossível deixar de contemplar as enormes paredes montanhosas que se erguem desde abaixo no vale até tocarem no céu. E elas, camaradas, vão nos acompanhando pela nossa caminhada afora.

Começamos a avistar a Drave ao longe quase ao mesmo tempo que percebemos uma ribeira no fundo do vale em curva. Iniciamos a descida e em breve chegamos à Aldeia Mágica.

As casinhas escuras construídas em xisto e lousa confundem-se com as paredes rochosas. Esta é uma zona de transição de granito e xisto, mas o casario de Drave é todo em xisto, à excepção de um ponto branco correspondente à capela caiada. Impressiona como uma povoação implantada a 600 metros de altitude pode estar numa cova, rodeada de montanhas mais altas do que ela.

Esta primeira visão frontal e mais próxima de Drave impressiona ainda porque aqui percebemos de forma esmagadora o seu isolamento. A povoação da Drave tem como referência mais antiga uma dos tempos de D. Dinis, no século XIV, e em 1527 aparecia registada no Cadastro da População do Reino como contando com dois vizinhos e oito pessoas (por comparação, Regoufe tinha oito vizinhos e trinta e duas pessoas). Foi no ano 2000, depois de a linha telefónica ter chegado apenas 7 anos antes e de a electricidade não ter chegado nunca, que o último habitante deixou a aldeia. Era um Martins, descendente da família mais antiga e representativa do lugar, dona do Solar dos Martins, o maior edifício de Drave. Os habitantes de Drave dedicavam-se em exclusivo à agricultura, em especial à cultura do milho e batata, e possuíam algum gado e cabras. Foi a fertilidade do vale, pela confluência de algumas linhas de água, que aqui fez estabelecer as pessoas, mas nas últimas décadas o tempo, “esse grande escultor”, foi afastando os habitantes mais novos, em busca de melhores condições de vida ou tão somente de escolaridade – nunca houve escola na aldeia.

Hoje praticamente tudo está em ruína e não fossem os escuteiros esta seria uma aldeia fantasma. São eles que têm vindo a reabilitar alguma das casas, tendo feito da Drave a Base Nacional da IV Secção do Corpo Nacional de Escutas e é por sua responsabilidade que a Drave ainda não morreu, preservando não apenas o edificado mas também as memórias do lugar com as suas iniciativas.

Um dos prazeres desta caminhada é deambular pelo casario de Drave. Assim o fizemos, primeiro do lado de cá da Ribeira de Palhais e, atravessada a pequena ponte, depois do lado de lá. É uma atmosfera incrível, espreitar pelas portas ou janelas já idas, ou até pelos pedaços de pedra que faltam nas fachadas, e ver a montanha diante nós.

Não se pense que são meia dúzia de casas. Não, a Drave era uma povoação grande e com muitas habitações. Implantadas em pequenas plataformas adaptadas ao terreno, quase como se de socalcos se tratassem, estão construídas em xisto e com telhados em lousa e possuem anexos de apoio à agricultura, como palheiros, currais, azenhas e espigueiros. Podemos ver um espigueiro maior abaixo da Capela, um espigueiro que servia toda a comunidade, exemplo do espírito comunitário destas povoações isoladas.

Um lamento, porém. Ao deixarmo-nos perder por entre as ruinhas e casinhas, percebemos que nem toda a gente que se propõe vir até Drave compreende este legado que mais uma parceria brilhante entre Homem e Natureza nos deixou. Inúmeras casinhas escancaradas pela falta da cobertura e partes da fachada estão repletas de lixo e, sobretudo, de papel higiénico. Está bem que temos de fazer as nossas necessidades fisiológicas, mas como se explica que haja gente que se abale a caminhar esforçadamente durante algum tempo para não respeitar o lugar de destino, por sinal incrível e único? Não desejo que optem pelo depósito deste tipo de resíduos na ribeira – há alternativas – até porque depois do passeio pelo casario de Drave ainda há que mergulhar na Ribeira de Palhais.

Este é outro dos pontos altos desta caminhada. As inúmeras poças e cascatas que se vão formando ao longo do vale. O Verão não é o melhor momento para as ver na sua máxima ou média força, daí que Maio ou Junho sejam os meses mais aconselhados para quem quer caminhar e mergulhar. Não nos tocou essa pujança ribeirinha, pelo contrário, a ribeira estava bem vazia e até dava para caminhar por ela.

Ainda assim, arranjámos um poço sem ninguém e com uma água transparente bem apelativa, para além de um recanto para um piquenique.

Depois de um merecido momento de descanso e reflexão por esta dádiva, iniciámos o caminho de volta. Mais custoso, uma vez que se na vinda havíamos descido, agora haveria que subir. Nada que os momentos relaxantes e de felicidade vividos anteriormente não nos tenham preparado para encarar.

Esta caminhada foi, em conclusão, uma das mais fantásticas que tive oportunidade de percorrer. Trilho com cenas grandiosas de montanha, povoação de construção vernácula em ruína, curso de água com poços cristalinos para tomar banho, tudo reunido, faz deste o passeio perfeito.

Se quiser saber mais sobre Drave pode assistir ao filme “Uma Montanha do Tamanho do Homem”, de João Nuno Brochado, lançado em 2014 e disponível em RTP Play aqui.

Trilho no Wikiloc

Jardim Gulbenkian

O Jardim Gulbenkian é uma obra-prima do paisagismo moderno. Não é segredo para nenhum lisboeta, mas os seus cantos e recantos continuam a surpreender pela diversidade de ambientes que permitem vivenciar.

As suas origens remontam ao século XVIII, à quinta conhecida como Quinta do Provedor dos Armazéns, propriedade de Fernando Larre, no lugar de Palhavã, então uma das portas da cidade de Lisboa. Era uma quinta de recreio típica da época, com edifício senhorial, jardim, pomar, horta, vinhas e campos de cereal. Na segunda metade do século XIX, o palácio e a quinta foram adquiridos pelo conselheiro de Estado José Maria Eugénio de Almeida e aí começaram as transformações da quinta, com a criação do Parque de Santa Gertrudes, sob a influência do desenho de jardins da escola francesa, com lago e vegetação autóctone e exótica. Em 1883, com a morte do conselheiro, o parque foi cedido para a instalação do Jardim Zoológico de Lisboa que por aí ficou por uma década. Depois disso, foi lugar de velódromo, hipódromo e feira popular, parte da vida social lisboeta.

Até que chegamos a 1957, ano em que a Fundação Calouste Gulbenkian decide adquirir parte do Parque de Santa Gertrudes para aí instalar a sua sede, conforme desejo do seu fundador. Os arquitectos Alberto Pessoa, Pedro Cid e Ruy d’Athouguia ficaram responsáveis pelo projecto dos edifícios da sede e museu e os arquitectos paisagistas Gonçalo Ribeiro Telles e António Viana Barreto pelo projecto de concepção dos jardins, todos trabalhando de forma interdisciplinar para que o resultado fosse o que se vê hoje, o de uma brilhante integração e fruição de todos os elementos do conjunto. Em 1969 as obras ficaram concluídas e a Fundação e respectivo Jardim abriram as suas portas. Desde aí o espaço foi objecto de algumas transformações, umas radicais, como a construção do edifício do Centro de Arte Moderna (1983, arquitecto John Leslie Martin), outras de continuidade, como a remodelação do jardim (2003, arquitecto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles). O melhor que se pode dizer é que a Gulbenkian pode ir mudando, mas não perde o seu carácter, o que, acredita-se, possa continuar a acontecer com a ampliação do jardim – e edifício da colecção moderna – prevista para 2021, sob projecto do arquiteto Kengo Kuma e do paisagista Vladimir Djurovic, vencedores do concurso internacional para a remodelação dos jardins da Gulbenkian.

“Gostaria que se tornasse um grande amigo da natureza porque a criação de uma relação íntima com a natureza é motivo de profunda satisfação na vida”, Calouste Gulbenkian

A Fundação Calouste Gulbenkian decidiu, por vontade do seu fundador, ter a sede em Lisboa e todos nós só o podemos agradecer ao magnata do petróleo. Com fins caritativos, artísticos, educacionais e científicos é, igualmente, senhora deste espaço que temos vindo a apresentar historicamente e que hoje é não apenas central geograficamente na cidade como também na vivência dos seus habitantes. Para aqui vimos admirar arte, escutar música, pesquisar documentos e participar em actividades educativas várias. Em todas estas viagens não prescindimos, nem por uma única vez, de um passeio pelo seu Jardim.

Jardim modernista, os elementos vegetais jogam de forma magistral ao redor dos edifícios e, mesmo sem lhes virar as costas, é possível sermos tomados apenas pela natureza.

O espaço de jardim não é um mero complemento, antes um companheiro inseparável, sendo prova maior disso a forma soberba como quando dentro do museu nos distraímos das obras de arte para admirar o jardim que é delas uma extensão. Já tínhamos avisado, o Jardim Gulbenkian é ele próprio uma obra-prima.

São caminhos, uns em clareira e outros em túnel, que se vão cruzando, criando espaços intimistas e micropaisagens, reproduzindo os momentos de descoberta e de felicidade. O contraste da luz e da sombra é perfeito, com muitos lugares onde o sol parece pedir licença para filtrar entre as folhas.

O coberto vegetal é variado e vemos até bambus. A água é uma presença constante, com o riacho a correr em grande parte dos caminhos, criando pequenas cascatas em diversos pontos. E a avi-fauna do jardim uma companhia prazerosa, fazendo-se sentir quer pela sua melodia quer pela sua figura. O mobiliário – bancos, caixas de luz ou caixotes de lixo – é todo em betão, mas nem por um momento endurece a paisagem. Sentar-mo-nos num dos bancos cinzentos de desenho simples num dos recantos do jardim, sem quase perceber se faz sol ou chuva, apenas escutando o chilrear de um pássaro ou a água a correr, é uma experiência comum no Jardim da Gulbenkian. Um convite à evasão ou à meditação, não sendo por isso de estranhar ver um praticante de ioga num qualquer ponto do jardim. Porque todo e cada espaço do jardim é ideal para alguma actividade: meditar, ler, namorar, trabalhar, piquenicar, apanhar sol. O extenso relvado junto ao lago e ao edifício sede é o mais concorrido para banhos de sol com toalha estendida e biquini vestido e tudo.

O jardim tem ainda espaço para um belo anfiteatro ao ar-livre e, depois, espalhados de forma precisa ao longo do jardim vamos tendo vários elementos escultóricos contemporâneos, mais um testemunho da ligação entre paisagismo e cultura, as duas marcas da sede da Fundação.

Talvez a mais famosa das esculturas do jardim seja aquela que todos podemos ver quando passamos na Praça de Espanha, Calouste Gulbenkian sentado de forma majestática, da autoria de Leopoldo de Almeida – a imagem foi reproduzida a partir de uma fotografia tirada durante a sua visita ao Egipto, com Gulbenkian junto à estátua do deus Hórus, no templo de Edfu.

A outra escultura, igualmente icónica, é o Monumento a Azeredo Perdigão, primeiro presidente da Fundação, obra de Pedro Cabrita Reis. Uma construção em betão com três patamares com ligação por escadas. Não há portas nem janelas, a construção prossegue e a Fundação quer-se como o betão: sólida e perene.

O Castelo de Lisboa

Numa colina sobre o Tejo ergue-se o Castelo. Lisboa é cidade antiga. Antes de sermos lisboetas, habituámo-nos a receber a visita dos fenícios, dos romanos, dos visigodos e dos muçulmanos, até que chegou D. Afonso Henriques e os seus amigos cruzados e a Alis Ubba (dos fenícios), a Olissipo (dos romanos), a Ulixbuna (dos visigodos) e a Al-Ushbuna (dos muçulmanos) tornou-se a Lisboa que hoje nomeamos.

As colinas, e em especial esta a que agora dedicamos a nossa atenção, já lá estavam todas no século VII a.C., quando o lugar começou a ser povoado. Foram, no entanto, os romanos quem no século I a.C. primeiro começaram a construir uma cidade estado murada, com uma construção primitiva no topo do que hoje conhecemos como colina do Castelo, muralhas essas que acabariam por ser aproveitadas pelos muçulmanos para, a partir do século X ou XI, erguerem a sua Cerca Moura. Da Cerca Moura, ou Cerca Velha, pouco resta hoje de visível para além do troço junto ao terraço das Portas do Sol (escadaria da Rua Norberto Araújo), donde se avista o que era então o arrabalde de Alfama encosta abaixo até desaguar no Tejo. Eram, então, cerca de 1250 metros de muralha e mais de 20 torres (são visíveis, ainda, troços de muralha dentro de vários edifícios como os da Fundação Ricardo Espírito Santo e da Casa dos Bicos) e, hoje, um circuito pedonal circular entre a Rua Chão da Feira e a Rua Milagres de Santo António, com 16 totens informativos espalhados pelo caminho, permite-nos conhecer este sistema defensivo medieval que perdurou até à construção da Muralha Fernandina, ou Cerca Nova, no século XIV, sete vezes maior do que a anterior.

Se destas muralhas que acabaram por ser aglutinadas pelos espaços urbanos pouco vemos, a muralha da Alcáçova, essa, ainda lá está para recriarmos uma imagem do nosso passado medieval. Da actual Rua Chão da Feira entramos para a parte mais alta da medina de outrora, a qual era protegida, precisamente, pela Alcáçova. Era aqui, no topo da colina, que ficavam os bairros residenciais da elite administrativa, religiosa e militar e o castelo. E para sul desenvolvia-se o núcleo urbano da cidade – a medina -, com comerciantes, artesãos, banhos públicos, mercados e mesquita, tudo isso ainda no interior da cerca urbana. Só depois vinham os arrabaldes.

Em 1147 D. Afonso Henriques e o seu exército de cruzados levaram 17 semanas de cerco a Al-Ushbuna até a tomarem. A construção muçulmana não era fácil de penetrar. Para além de estar localizada no alto de uma escarpa, a cada porta seguiam-se estreitos corredores em cotovelo, o que tornava difícil a entrada mesmo depois da porta derrubada, encurralando o invasor. Aliás, quando entramos pela Rua do Chão da Feira percebemos isso mesmo, uma entrada logo seguida de uma curva apertada.

A partir daqui estende-se o castelo e o bairro do Castelo.

São 4 ruas e 1 beco, mais coisa menos coisa. Ruas sempre estreitas, como já o eram aquelas que rodeiam o bairro e a Alcáçova (é obrigatório iniciar este périplo pelo Castelo por um passeio pela Rua da Costa do Castelo e/ou pela Calçada do Menino de Deus, onde os bairros da Mouraria e de Alfama se confundem com o bairro do Castelo).

E 2 praças separadas por um pano de muralhas e 11 torres.

Na primeira praça, a Esplanada, apesar da estátua de D. Afonso Henriques marcar o momento histórico da conquista da cidade, a história é completamente ultrapassada pelo miradouro em que se transforma o Castelo. A paisagem que daqui se avista é épica, tudo se registando aos nossos pés, 360° graus de ícones lisboetas.

A segunda praça é vivida já no interior do castelo, ultrapassado o fosso e a barbacã. Subimos à muralha, por ela caminhamos, subimos a uma torre, descemos, caminhamos mais um pouco pela muralha, subimos a outra torre, e assim vamos continuando. Por cada torre que passamos acrescentamos mais uma vista fantástica para um ponto cardeal da nossa Lisboa. É o Tejo, é a Baixa, é a Graça, é São Vicente, tudo, tudinho. Como curiosidade, destaque para duas destas torres. Uma, a Torre do Tombo, foi o lugar do inicial arquivo documental do reino. Outra, a Torre de São Lourenço, a única construída num lugar baixo, ao fim de uma longa escada que nos leva quase até à actual Praça do Martim Moniz – era lá abaixo que os antigos habitantes iam buscar água em segurança, com a Torre a servir de garantia de acesso seguro a um poço situado fora do castelo.

O Castelo de São Jorge, nome pelo qual o conhecemos desde o reinado de D. João I, no século XIV, não terá sido usualmente residência de reis. Talvez D. Sebastião tenha usado o lugar como paço, mas terá sido o último a fazê-lo e com a dinastia Filipina o paço real passou definitivamente para o Paço da Ribeira, no Terreiro do Paço, tendo o Castelo a partir daí tido sobretudo uma função militar, de defesa de quem vivia na Alcáçova e suas imediações.

Foi já no decorrer do século XX que se redescobriu o Castelo de São Jorge. Nos anos 1938-40 foi objecto de obras de restauro, à semelhança de muitos castelos país fora, numa recriação nacionalista do Estado Novo (daí que se afirme que o Castelo de São Jorge é uma criação do Estado Novo). A essa época já o Castelo tinha chegado em muito mau estado, ruína mesmo, em consequência dos terramotos de 1530 e de 1755 e do descaso dos Homens que o tinham maltratado com o uso de um conjunto de quartéis. Se foram essas obras de há apenas escassos 80 anos lhe deram a imagem de fortificação com torres e ameias que vemos hoje, foi também desde aí que se tem vindo a perceber os vestígios do antigo paço real e da alcáçova islâmica e as vivências de outrora. Trabalhos arqueológicos que continuam o seu curso permitem-nos traçar 3 épocas de presença humana na colina do castelo: idade do ferro (com vestígios de estruturas habitacionais que remontam ao século VII a.C.), bairro islâmico (século XI – XII, ligado à fundação do castelo e área residencial das elites do governo da cidade) e época cristã (século XV a XVIII, com antigo paço episcopal e palácio dos Condes de Santiago, o último dos palácios da antiga alcáçova medieval que se manteve habitado até ter ruído com o terramoto). Marcas do conjunto destes vestígios podemos encontrá-los no “sítio arqueológico” que testemunham estes três períodos significativos da história de Lisboa. E na exposição permanente instalada no espaço daquele que se acredita ter sido o antigo paço real podemos ainda ver uma colecção de objectos encontrados na área arqueológica, os quais permitem traçar a evolução do povoamento desta colina que permaneceu o centro da cidade de Lisboa até ao século XVI.

No sítio arqueológico vemos a igreja da Alcáçova, a igreja Santa Cruz do Castelo, a qual já existiria quando os muçulmanos chegaram à cidade.

Invenção do Estado Novo ou não, o que é certo é que o Castelo de São Jorge é o monumento mais visitado do país e o miradouro número um da cidade de Lisboa. Assim como já o tinha sido na cidade de Alis Ubba, de Olissipo, de Ulixbuna e de Al-Ushbuna.

Quinta da Regaleira

A um vírus oportunista, uma resposta cheia de oportunidade. Não há turistas estrangeiros no nosso país e a maioria dos locais ainda se coíbe de passear? Então, toca de rumar a Sintra para aproveitar para ver a vila sem enchentes e, com sorte, ter um dos seus belos monumentos só para nós.

Foi isso que aconteceu na minha mais recente visita à Quinta da Regaleira, em Junho. Chegada logo à hora de abertura num dia de semana, andei pelos seus 4 hectares durante quase três horas cruzando-me apenas com meia dúzia de pessoas bem contadas. A beleza, o encanto e o misticismo da Regaleira só para mim foi um sonho tornado realidade.

A uma distância facilmente percorrida a pé desde o centro histórico de Sintra, é mesmo de sonho que se trata quando se menciona a palavra Regaleira. Quando em 1840 D. Ermelinda Allen Monteiro de Almeida, primeira Viscondessa da Regaleira, comprou os terrenos da quinta que existia já desde os finais do século XVII esta era conhecida como Quinta da Torre (pela torre hoje adossada à actual Casa da Renascença). Foi apenas no princípio do século XX que o lugar se transformou no Palácio e Quinta da Regaleira que hoje conhecemos. Tudo graças ao sonho do seu novo proprietário, António Augusto Carvalho Monteiro, o Monteiro Milhões, nascido no Brasil e com estudos em Coimbra, que com Luigi Manini, cenógrafo do Teatro São Carlos e arquitecto do Palácio do Buçaco, deram a Sintra uma obra-prima. A Regaleira conjuga natureza e arquitectura e condensa em si tudo o que Sintra é: romântica e artística, misteriosa e requintada. E daqui, imersos na vegetação intensa e luxuriante da Serra de Sintra, não faltam pontos de vista de excelência para os outros ex-libris de Sintra, o Castelo dos Mouros, o Palácio da Pena e o Palácio da Vila.

A entrada na Quinta da Regaleira é efectuada mais acima na estrada que nos há-de deixar no Palácio de Seteais. Até lá passamos por pormenores deliciosos no caminho, como uma fonte, uma estatueta em cima do muro e os contornos da Regaleira cheia de pináculos e merlões ao nosso lado esquerdo, claro.

Entramos pelo edifício que outrora serviu de Cocheiras e sem demora subimos em direcção ao Portal dos Guardiães, a primeira paragem numa viagem por jardins, grutas, lagos e edifícios majestosos. No amplo Terraço dos Mundos Celestes, as torres do Zigurate ganham destaque, apenas um dos muitos miradouros da Quinta. Ao elegante semi-circular Portal dos Guardiões não faltam igualmente as torres, mas nele há ainda os elementos decorativos da fonte na sua base central a chamar a atenção.

Ao lado fica o Poço Imperfeito, mas a nossa mente só tem espaço para pensar em chegar ao Poço Iniciático. Sem pressas, porém, adentrando pela floresta que nos cobre totalmente com a sua vegetação, um ambiente escuro e fresco, uma espécie de preparação para o que nos aguarda no Poço. A Regaleira está cheia de simbologia, diz-se que mitológica, alquímica, maçónica, esotérica, templária, enfim, tudo o que seja dado ao oculto encontrará aqui uma explicação. O Monteiro Milhões, para além de milionário, era um homem curioso e de vasta cultura e sensibilidade, atreito às questões científicas e filosóficas. No entanto, a simbologia que pretendeu expressar com a ajuda de Manini (relembremos, para além de arquitecto também cenógrafo) não é acessível a todos – a mim, por exemplo -, não sendo fácil perceber aqui uma visão cosmológica, referências ao binómio paraíso / inferno ou viagens iniciáticas. O que é fácil perceber, sim, é a aura de magia e mistério ao nosso redor.

E talvez em nenhum lugar da Regaleira como no Poço Iniciático se sinta esse poder. As rochas dispostas de forma quase artística não fazem prever o cenário que está para lá delas. Ou, melhor, abaixo delas. É um poço fundo, em espiral, com diversos patamares cénicamente preenchidos com janelas em arco. Este mundo é verde, estamos nas entranhas da terra, apenas uma nesga de luz natural acima de nós que se vai tornando cada vez mais ténue à medida que descemos. O silêncio apenas é perturbado pelas gotículas que teimam em cair num ritmo lento e cadenciado. Embora as muitas interpretações (ou até nenhuma), é aqui que melhor percebemos a presença de três mundos que se complementam: o céu, a terra e o mundo subterrâneo. Do Poço sai um percurso subterrâneo (encerrado) que o liga quer ao Portal dos Guardiões quer à Cascata (antes de deixarmos o Poço Iniciático há que referir que não existe qualquer prova de que este ou qualquer outro espaço da Regaleira tenha sido utilizado para práticas rituais).

Saindo desta viagem subterrânea quase transcendente, continuamos a subir, agora já na superfície a céu aberto, mas com a vegetação como protectora. Passamos pela Gruta da Virgem, uma de muitas, mas todas especiais. Seguimos junto ao muro, com o Castelo dos Mouros a deixar-se ver, sem mistério, no cimo da Serra.

O Lago da Cascata, o tal com ligação subterrânea ao Poço Iniciático, bem como ao Poço Imperfeito e a diversas grutas, é um dos momentos altos da decoração natural da Regaleira. Desenvolve-se por vários níveis ligados por escadas, permitindo-nos uma vez mais uma imersão na abundante vegetação. E faz-nos recordar como a água sempre foi importante deste os primórdios da Quinta, ainda ela não levava o nome actual. A água entrava aqui a partir dos aquedutos dos Anjos e da Serra e o actual sistema hidráulico é distribuído por uma série de minas, depósitos e diferentes espaços de água, como lagos, cascatas, fontes e charcas, para além de uma cisterna.

A água é, sabe-mo-lo, um elemento que confere romantismo ao cenário. E as fontes adensam-no. A Fonte da Abundância, por exemplo, está decorada com embrechados e figuras escultóricas. Igualmente, no espaço de recato que a envolve, com um banco e mesa, vêem-se elementos decorativos como uns vasos com a figura de veados. Mais uma vez, deste espaço pode retirar-se uma série de interpretações da simbologia que apresenta, como as letras inscritas, o altar e a figura da concha e do peixe. Não o querendo interpretar, aprecie-mo-lo, que já enche bem as medidas.

Também a Gruta da Leda, abaixo da Torre da Regaleira e sua varanda-galeria miradouro, tem um ambiente único. Este espaço interior com uma acústica e ambiente incríveis (parece que ainda estou a ouvir e sentir a água a cair) não é bem uma fonte, antes um tanque para onde cai uma cascata adornada pela figura de uma dama com cisne ao lado e pomba na mão – mais uma dose de simbologia para ser interpretada.

Aproximamo-nos cada vez mais do coração da Regaleira. Passamos a estufa com o painel de azulejos azul e branco na sua fachada e eis-nos logo acima da Capela da Santíssima Trindade e do Palácio da Regaleira.

É aqui, com estes dois edifícios, que o estilos manuelino e romântico revivalista atingem o seu apogeu, mas também os estilos gótico e renascentista. Ambos foram construídos com o recurso a materiais nobres, como o calcário, ao contrário dos demais edifícios da Quinta que empregam o granito local, incluindo a vizinha Casa da Renascença, sede da Fundação CulturSintra (a Câmara Municipal de Sintra é a proprietária da Quinta da Regaleira, que após obras de restauro abriu as portas aos visitantes em 1997).

A Capela da Santíssima Trindade é exuberante na sua fachada. As portas e janelas são super decoradas e os merlões e pináculos inundam a cobertura, incluindo a torre alta e esguia. Mas o espaço do seu “adro” é tão exíguo que não cabe na minha foto. Segue este banco como exemplo da sua hiper-decoração.

Estes elementos decoram igualmente a cobertura do Palácio. E aqui vemos a profusão dos estilos arquitectónicos referidos anteriormente – neo-românico, neo-manuelino, neo-renascentista e neo-gótico – em alegre comunhão, num equilíbrio perfeito. O que António Augusto Carvalho Monteiro pretendeu e Luigi Manini e sua equipa executaram foi uma mescla dos mais representativos estilos em território nacional, uma homenagem à história e à epopeia vivida pelos portugueses, daí o revivalismo arquitectónico. No interior do palácio visitamos diversas das suas salas. Bem decoradas, o que mais impressiona, todavia, são os estratégicos pontos de vista para desde o interior se contemplar as panorâmicas majestáticas da Serra de Sintra no exterior, incluindo o Castelo dos Mouros e o Palácio da Pena.

Ao redor da Capela e do Palácio apreciamos um jardim formal carregado de deliciosas espécies arbóreas, sendo que na altura da minha visita eram as hortênsias que tomavam todo o protagonismo.

Não deixamos a Regaleira sem conhecer mais umas grutas e lago, sendo que a Gruta do Labirinto é os dois na mesma medida. Tempo ainda para visitar a Loggia dos Pisões, a qual se vê da estrada que passa junto aos muros da Regaleira. Mas agora, cá dentro, podemos apreciar em detalhe os seus painéis de azulejo ao longo e ao fundo da escada que dá para o pequeno portão lateral da Quinta.

Em direcção à saída da Quinta percorremos, então, o Patamar dos Deuses, uma longa alameda ladeada por espécies exóticas e nove estátuas representando deuses mitológicos que desembocam no jardim e Palácio da Regaleira.

Nesta visita não houve nevoeiro que adensasse o ambiente de mistério da Regaleira e de Sintra. Não foi necessário para que o percebêssemos, e o céu azul e os jardins floridos realçaram ainda mais o esplendor de todos os elementos da Quinta.

Cinco Voltas na Bahia e Um Beijo para Caetano Veloso, de Alexandra Lucas Coelho

O livro “Cinco Voltas na Bahia e Um Beijo para Caetano Veloso”, de Alexandra Lucas Coelho, editado em 2019, foi escrito em consequência de um comentário de Caetano Veloso a propósito de um seu outro livro, “Deus-dará”. Lucas havia editado “Deus-dará” em 2016 e “Vai, Brasil” em 2013 e com eles pensava ter fechado o ciclo de livros brasileiros, após ter vivido no Brasil durante uns anos no início da década passada.

Mas o tal comentário de Caetano, “falta Bahia no seu livro”, fê-la voltar à carga e criar uma trilogia brasileira na sua obra literária.

A Bahia é a protagonista deste novo livro, mas Caetano é central e a ele se volta sempre durante todo o texto. Dividido em 5 voltas, a última por fazer, a autora, “filha de Oxum”, discorre pelos imensos símbolos deste estado brasileiro sem nunca recorrer ao clichê, sempre com a inteligência de aí se partir para outros motivos, outras personagens, outras histórias, como se fosse tirando as baianas umas de dentro das outras. Palavras e imagem sua, claro.

“Assim do céu é que pela primeira vez vi o recorte daquela costa onde ao poente de 23 de Abril de 1500 um homem branco, de pé num batel, se achou diante de indígenas com água pelo peito. Ou vice-versa: indígenas com água pelo peito se acharam diante de um homem branco, de pé num batel. Porque se a novidade era mútua, para o branco não foi inesperada.”.

Através das suas frases vamos viajando pelas paisagens e povoações, com início em Porto Seguro, onde para nós, portugueses, tudo começou. Nomes como Belmonte e Trancoso, denunciadoras da vizinhança original de Pedro Álvares Cabral, o descobridor (ou achador) do Brasil. Os descobrimentos e a escravatura, temas caros à autora, não passam isentos de abordagem insatisfeita com a doutrina oficial.

“A Bahia é assim o único lugar do mundo onde desde criança convivo com toda a família de um artista só de o escutar, de cantar com ele seus ascendentes, descendentes, parentes, heróicos e genéticos, sua casa, sua porta, sua Ítaca: Santo Amaro da Purificação, de onde tudo irradia”.

Para além das paisagens e povoações, este “Cinco Voltas Pela Bahia e Um Beijo para Caetano Veloso” está cheio de referências culturais. Caetano e toda a sua família, com Maria Bethânia à cabeça acompanhada de Santo Amaro da Purificação e Recôncavo, sim. Mas também Dorival Caymmi, Gil, João Gilberto, Tropicalistas, terreiros de candomblé, mães de santo, orixás. Jorge Amado e seu iniciático “Capitães da Areia”, com Pedro Bala e seu lanho na cara, que a autora confessa ter sido “um dos meus primeiros amores de papel”. Não esquecendo Gabriela.

As inúmeras igrejas de Salvador, tantas igrejas que “uma vida não chega” para as conhecer todas. E o Pelourinho, lugar onde anteriormente se castigavam os escravizados, hoje simplesmente Pelô, o bairro mítico de Salvador e do Brasil. Não faltam referências ao Olodum e às fitinhas de Nossa Senhora do Bonfim. Nem à comida: acarajé não é um mero bolinho ou pastel; é “1) uma religião 2) uma cultura 3) uma economia”.

Ao longo deste livro damos por nós a cantarolar Caetano, ajudados pelos trechos de letras lá incluídos. Confirmamos a ideia do poderoso sincretismo da Bahia – “se há cidade misturada que mais se vista de branco do que São Salvador da Bahia de Todos-os-Santos (também conhecida apenas como Bahia), não conheço”. E somos levados a olhar o Atlântico de forma diferente quando nos sentamos, livro na mão, junto de Alexandra para os lados da praia Buracão, no Rio Vermelho: “Aí, ao longo das semanas seguintes, é que entrei na intimidade do mar de Salvador, e ele na minha, até às profundezas do último sono. O Atlântico explodia na minha frente sem metáfora, desfazia-se em espuma contra as rochas, dias e noites sempre juntos, lembrando a temeridade que é qualquer humano fazer-se a ele. Impossível não pensar que do outro lado estava Angola, e que dessa costa para cima tinha vindo gente viva, acorrentada entre ratos, em navios de nomes como Feliz Dia a Pobrezinhos, Brinquedo dos Meninos, Amável Donzela ou Caridade. Ancestrais de quem me acolhia ali, na cidade mais africana da América do Sul.”

A cidade mais africana da América do Sul, “reino de vários reinos”, lugar de todos os encontros.

Mas, Alexandra, falta Ubaldo no seu livro.

Jardim Botânico Tropical

O Jardim Botânico Tropical, também conhecido como Jardim do Ultramar, em Belém, é um dos mais bonitos de Lisboa. Já sei que digo isso de quase todos, mas este é mesmo um verdadeiro amor. E um daqueles amores que é para sempre, uma vez que depois de encerrado para restauro durante praticamente todo o ano de 2019 reabriu em Janeiro de 2020 mais bonito do que nunca, embora ainda com diversos trabalhos de reabilitação em curso e edifícios encerrados.

Paredes meias com o Palácio Nacional de Belém, em conjunto com quem se encontra classificado como Monumento Nacional, ao longo dos seus cerca de 6,7 ha encontramos uma colecção botânica notável, em muitos momentos exuberante e monumental, composta por mais de 600 espécies de origem tropical e subtropical.

Foi D. João V quem, em 1726, comprou as quintas dos Condes da Calheta e dos Condes de Aveiras para aí criar o Regis Hortus Suburbanus. Anos depois, a elas se juntou os jardins do Palácio dos Duques de Aveiro, formando todo o conjunto a Real Quinta e Palácio de Belém, este último hoje residência oficial do Presidente da República Portuguesa. E em 1912 o espaço passou a acolher o Museu e Jardim Colonial, que havia sido criado 6 anos antes pelo rei D. Carlos. Durante o século XX foram-lhe acrescentados diversos edifícios e estatutária que haviam sido construídos para a Exposição do Mundo Português em 1940, uma nova imagem na sua faceta científica de estudo, história e memória da flora das colónias portuguesas. Hoje é propriedade da Universidade de Lisboa, à semelhança dos outros dois jardins botânicos da cidade, o da Ajuda e o do Príncipe Real, e a sua função é não apenas científica mas também didática e de lazer.

Ao iniciar o passeio pelo Jardim Tropical é tentador seguir logo pela majestosa alameda das Washingtonias, rodeada de palmeiras altíssimas, mas resistimos e seguimos antes a direito em direcção ao Jardim Oriental.

O Jardim Oriental, com entrada pela porta de Macau – uma réplica da entrada no Pagode da Barra, em Macau, construída em 1940 para a Exposição do Mundo Português -, é um exemplo da fusão de influências chinesa e portuguesa na arte dos jardins. Com uma densa vegetação, cobrindo-nos quase na totalidade, e uma forte presença da água, vemos pontes com estrutura de madeira pintada a vermelho, a lembrar o Oriente, mas também com ferro, elemento mais português. O exotismo do edificado neste jardim vê-se ainda no Pavilhão de Jardim Chinês e na Porta da Lua.

O Palácio dos Condes da Calheta fica no final desta alameda que ladeia o Jardim Oriental. Construído no século XVII, como nota histórica diga-se que aqui decorreram alguns dos interrogatórios daquele que ficou conhecido como o Processo dos Távoras, na sequência da tentativa de assassinato (?) do rei D. José. À semelhança da Casa de Chá, da Casa dos Jardineiros e da Estufa Principal, o acesso ao Palácio dos Condes da Calheta encontra-se vedado, decorrendo ainda as obras de restauro nestes edifícios. Podemos, no entanto, apreciar a estrutura em ferro e vidro da Estufa Principal, datada de 1914, com destaque para o seu portão rodeado de vegetação.

Aqui chegados já reparámos em alguns dos bustos africanos espalhados nesta zona do jardim, parte da antiga “Galeria dos Povos do Império”, os quais pretendiam representar a diversidade de etnias presentes na Exposição de 1940, ou seja, este é mais um dos elementos adicionados nessa época. Penso conviver bem com o passado histórico português da Expansão, mas é estranho apreciar estas esculturas.

No Lago das Serpentes encontramos um painel de mesma temática, mas aqui a nossa atenção é desviada para os repuxos de água e os azulejos com cenas de animais, incluindo nos frisos do revestimento do chão. Este Lago fica junto à Casa da Direcção, antiga casa com pátio, alterada para constituir um exemplo de Casa Colonial que integrou a Exposição de 1940. Não a visitei (fechada) e pouco percebi do Pátio do Ourives (igualmente fechado na altura da minha visita).

Mas graças à renovação recente do Jardim Tropical, podemos agora aceder e conhecer o Jardim dos Cactos. Um espaço surpreendente com um ambiente incrível. Não tanto pelas espécies em si, mas antes pelo que a acção descontrolada da natureza é capaz de produzir. As copas das árvores foram crescendo e o número das espécies de cactos e outras suculentas foi reduzindo, apenas tendo sobrevivido as espécies tolerantes à sombra. O resultado é um cenário brutal na verdadeira acepção do termo, com as ruínas dos edifícios das antigas estufas tomadas pelos cactos expansionistas resistentes. Uma espécie de Angkor em ponto pequeno.

Uns passos mais e esta “selvajaria” dá lugar a um recanto delicado, uma estátua clássica de uma dama diante de um pequeno plano de agua. É o Jardim da Ninfa, por cima do qual temos o Tanque dos Leões, o antigo tanque de rega das hortas reais. Nesta zona ficam ainda dois dos mais antigos edifícios do jardim, a Casa do Veado e a Casa de São João, ambas encerrados para requalificação.

Até aqui, tudo perfeito. Não faltam sequer uns pavões fêmea a passear com as suas crias e uns pavões macho com a plumagem colorida e esplendorosa aberta ao nosso deleite. Entre os residentes do jardim encontramos ainda patos, gansos e até galinhas.

Seguimos agora pelo Arboreto do Mundo, diversos caminhos que saem de uma rotunda central cobertos com diversas espécies das quais lamento não reconhecer nem saber o nome, embora a maioria esteja etiquetada. Só guardo, e não é pouco, a imagem da beleza exuberante e altaneira de algumas delas.

O Lago Pequeno e Gruta, com uma pérgula a encimá-los, é um dos elementos românticos introduzidos na segunda metade do século XIX. O que esta última renovação do Jardim Tropical fez foi aperfeiçoar o sistema de circulação de água no jardim. Um canal, espécie de riacho, liga este Lago Pequeno ao Lago Principal, bem mais adiante. É, então, o momento de percorrermos a soberba alameda das Washingtonias, onde até o Mosteiro dos Jerónimos faz questão de aparecer na cena ao fundo. Este é um pedaço de barroco no Jardim. A sua execução foi inspirada no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, obra de D. João VI, bisneto de D. João V, o criador deste nosso Jardim Botânico Tropical de Belém.

Muitos caminhos há ainda para percorrer e muito para admirar, estátuas da época de D. João V espalhadas pelo jardim, araucárias, um dragoeiro, raízes intemporais de árvores, mas chegamos, enfim, ao Lago Principal. Os patos nadam ao redor da Ilha das Fruteiras, plantada com árvores de fruto de origem tropical e subtropical, como anoneiras, abacateiros ou pitangueiras, permitindo-nos aqui descansar, literalmente, à sombra da bananeira. Mas o melhor deste lago é o cenário que o envolve, mais um daqueles que irá permanecer na nossa memória e acompanhar-nos durante muito tempo.

Tavira

Tavira é uma das mais bonitas cidades algarvias. Cortada ao meio pelo rio Gilão, que em breve desaguará na Ria Formosa para logo depois se espremer entre as ilhas de Tavira e de Cabanas até se perder no mar, é na sua margem direita que podemos passear pelo centro histórico.

Talvez em nenhuma urbe como Tavira as marcas islâmicas sejam tão presentes. Desde logo, no nome. Tabira derivará do verbo árabe “tabara”, de significado esconder. Ou seja, Tavira como “a escondida”, por não ser visível nem do mar (graças às ilhas barreira) nem da terra (graças à serra algarvia).

Não surpreende, pois, que aqui possamos visitar o Museu Islâmico, onde se expõe o espólio arqueológico da época islâmica encontrado na cidade. O “Vaso de Tavira” é a estrela do museu e uma belíssima e inesquecível peça cónica de argila datada da segunda metade do século XI, com bonecos moldados à mão representando guerreiros, cavaleiros, músicos e animais.

O castelo e as muralhas de Tavira são outro exemplo da ocupação islâmica. A cidade que há séculos havia estado sob domínio dos fenícios, que terão construído a sua muralha, viu os muçulmanos chegarem no século XI e aqui fixarem-se, tendo construído o castelo no topo da colina de Santa Maria. O objectivo seria a protecção da entrada no rio Gilão e mesmo com a posterior conquista cristã, no século XIII, o lugar manteve a sua importância, bem atestada pelas novas obras no castelo e pelo facto de o perímetro amuralhado ter chegado aos cinco hectares. Mais, com a conquista dos portugueses Tavira passou a ser uma das sedes da Reconquista. Hoje o castelo não possui já estruturas no seu interior, servindo antes como jardim e miradouro.

É a partir desta vista privilegiada – com destaque para três elementos que ela nos oferece: rio, igrejas e telhados – que desde o castelo partimos a descobrir o centro histórico de Tavira.

A primeira igreja que visitamos é a Igreja de Santa Maria do Castelo. À sua frente temos a Igreja de Santiago e ao lado o Convento da Graça. Não é à toa que Tavira é conhecida pela “cidade das igrejas”. Diz que são 37 as igrejas e 6 os conventos espalhados pela cidade, pelo que não ficamos muito tempo sem ver uma torre com uma cruz e um sino. A Igreja de Santa Maria do Castelo é a mais típica e reconhecível, com a torre do relógio de um lado e portal gótico do outro.

No Castelo caminhamos pelo seu belo jardim e do alto das suas muralhas apreciamos outro dos elementos que fazem de Tavira singular. Os telhados tesoura (ou de tesouro), que já tínhamos visto em Faro, parecem ser aqui a solução primeira e mais abundante no que respeita à cobertura dos edifícios. Em forma de pirâmide, com 4 águas muito inclinadas, foram trazidos para Tavira pelos comerciantes e navegadores que viajavam para paragens distantes na época dos descobrimentos, replicando na sua cidade o que viam lá fora. Mas foram usados sobretudo em edifícios pertencentes à nobreza e ao clero e, ao contrário do que se possa à partida pensar, não servem para melhor escoar a água da chuva, uma vez que no Algarve ela não é abundante, mas mais ao facto de esta estrutura permitir um melhor controlo da temperatura no interior das habitações, tornando-as mais frescas.

Descemos do castelo até ao centro da cidade. Espreitamos a Porta de D. Manuel I, voltamos a subir um pouco para descobrir o portal renascentista da Igreja da Misericórdia e ruinhas que a circundam, e descemos finalmente até à Praça da República, espaço amplo virado para o rio Gilão.

Atravessamos a sua ponte assente em sucessivos arcos, construída no século XVII e que se crê ter substituído uma outra mais antiga de origem romana. Da outra margem a vista sobre Tavira é belíssima, com a presença de todos os elementos que a tornam um lugar encantador: rio, igrejas e telhados tesoura.

Mas é o caminhar sem propósito pelas ruas que nos faz gostar ainda mais de Tavira. Paramos numa pastelaria para comprar uma mão cheia de doces típicos do Algarve, provamo-los no Jardim do Coreto e atravessamos o Mercado da Ribeira – que não é, de todo, o que esperávamos, antes uma espécie de centro comercial virado para os turistas.

E voltamos, uma vez mais, a debruçar-nos sobre o rio Gilão enquanto ele não se transforma em rio Séquia. Esta é uma das muitas curiosidades de Tavira. O Rio Séquia nasce na Serra do Caldeirão e desce até Tavira, mas quando chega à antiga ponte da cidade muda de nome, passando a correr sob a designação de Gilão nos seus últimos cerca de 3 kms até à foz. A que se deverá tão raro facto? Provavelmente só as lendas o explicarão e não é difícil de imaginar que esta lenda mete histórias de amor impossível entre princesas mouras e cavaleiros cristãos. Felizmente que a nossa história de amor com Tavira é bem real e está aí para acontecer.

Olhão e Culatra

Olhão está localizada entre Faro e Tavira, mas não é apenas mais uma cidade algarvia. Igualmente plantada à beira da Ria Formosa e igualmente com um passado romano e mouro (embora este último já não visível), tem um carisma genuíno e muito próprio. Como nos dizia um olhanense, pode não ser tão bonita como Tavira, mas depois de dois dias os turistas cansam-se da beleza da vizinha e fogem para Olhão em busca do castiço e autêntico.

Dizíamos que nos dias de hoje não se vêem vestígios deixados pelos mouros, mas curiosamente são as cidades do norte de África que nos vêm à lembrança quando percorrermos as ruas de Olhão – Raul Brandão escreveu que só lhe faltavam os “esguios minaretes”. O seu traçado confuso, feito de ruas que não se sabe muito bem para onde confluem, becos que surgem de surpresa e, sobretudo, edifícios cúbicos com açoteias (terraços-miradouro) fazem-nos crer que estamos numa cidade com influência moura. Na verdade, este desenho da urbe é muito posterior à ocupação muçulmana e foi projectado já por nós, portugueses-olhanenses, no século XIX, influenciados pelas muitas viagens comerciais a Marrocos.

O nome “olhão” vem de um grande olho de água que se encontrava algures no que é hoje território olhanense. Apesar da ocupação humana desde há muitos séculos, terá sido no século XVI que aqui se instalou uma comunidade de pescadores vindos da vizinha Faro, atraídos pela abundante pesca desta parte da Ria. Na origem da povoação esteve, desde o início, gente humilde e as suas habitações eram cabanas de madeira e palha. Os de Faro recusaram até quando puderam construções de alvenaria na vizinha Olhão, e a primeira construção destas apenas foi autorizada em 1715. Esta gente humilde do mar, apartada do poder político, nem por isso deixou de pugnar pelos seus e pela sua terra, e em 1771 ganhou a construção do Compromisso Marítimo, edifício onde puderam passar a tratar de diversos serviços sem necessidade de se deslocarem a Faro. Ainda hoje se lê na fachada do entretanto tornado Museu Municipal de Olhão: “Esta obra foi feita à custa dos mareantes da Nobre Casa do Corpo Santo deste lugar de Olhão, em tempo do Felicíssimo Reinado do Fidelíssimo Rei Senhor D. José, o Primeiro, que Deus guarde, sendo Juiz da mesma Casa, António de Gouveia, no ano de 1771″.

A fibra dos seus cidadãos viu-se ainda num outro episódio da história de Portugal. Aquando das Invasões Francesas fizeram frente aos invasores e conseguiram expulsá-los do Algarve. Um grupo de destemidos olhanenses resolveu, então, meter-se ao mar numa pequena embarcação atravessando o Atlântico com o objectivo de dar a boa nova ao rei D. João VI (que havia fugido para o Brasil). O rei, grato, elevou o lugar de aldeia a vila e atribuiu-lhe uma nova designação, a de Vila da Restauração de Olhão. Uma réplica do caíque Bom Sucesso aí está na frente ribeirinha da hoje cidade para atestar o feito.

É por aqui que encontramos um dos lugares obrigatórios de Olhão, o seu Mercado Municipal, na verdade dois inconfundíveis edifícios lado a lado que se acredita terem sido projectados por discípulo de Gustave Eiffel. No interior a azáfama dos vendedores é vibrante e as bancas de produtos um espectáculo à parte. O peixe, sempre ele, é a estrela da companhia. Bom para se olhar e bom para se saborear. São inúmeros os restaurantes e tascas – na avenida marginal ou num dos tais becos – onde se pode comer um peixe inesquecível, como aquele atum braseado que pude provar e aprovar. E Olhão é ainda conhecida pela sua indústria conserveira – em 1919 eram cerca de 80 as fábricas -, entrada em decadência no final do século XX. Não é, pois, de estranhar que existam tantos edifícios em ruína. No entanto, também aqui se vê a raça do olhanense. Muitos vêm sendo restaurados para dar lugar a alojamentos turísticos recuperados e decorados com bom gosto; outros foram tomados pelos artistas de rua, dando-lhes um novo rosto através da pintura irrequieta.

Ou seja, a popular Olhão a todos acolhe e talvez por isso seja um dos lugares do Algarve que mais atenção e procura têm tido por parte de turistas inconformados e esclarecidos. Não surpreende, pois, que um festival como o FICLO — Festival Internacional de Cinema e Literatura de Olhão tenha lugar na cidade. E claro que aproveitámos para voltar ao cinema nesta era Covid-19, assistindo a uma das sessões ao ar livre no República 14, um dos espaços culturais de Olhão.

E porque estamos no Algarve, a praia não pode faltar. No Porto de Recreio várias opções de passeios de barco pela Ria Formosa nos tentam. Mas nenhuma é mais típica da alma olhanense do que apanhar o barco público até à ilha da Culatra ou da Armona. Escolhemos a Culatra, uma das 5 ilhas (mais duas penínsulas) barreira que separam o mar da ria. A viagem dura cerca de tranquila meia-hora onde nos dedicamos em exclusivo a apreciar Olhão a ficar para trás emoldurada pela Serra do Caldeirão e, depois, a assistir aos barquinhos a passarem por entre canais que contornam os bancos de areia e as áreas de sapal. Descobrimos até um olhanense aqui e ali a trabalhar numa destas pequeníssimas ilhas naturais.

A chegada à Culatra é movimentada, com muitos barcos estacionados no seu porto. Descemos e logo vemos as casas assentes na areia, até uma capelinha. Esta ilha é ainda hoje lugar de pescadores, embora muitos outros se lhes tenham entretanto juntado. São cerca de 1000 os seus habitantes com infra-estrutras à sua disposição como escola, centro social e correios. E muitos e afamados restaurantes onde se come o bom do peixe da Ria e arredores. O ambiente parece, no entanto, um de férias infinitas.

Os caminhos já não são exclusivamente de areia, muitos foram traçados com lajes de cimento, mas as casas simples com terraços e até pequenos jardins dão uma imagem de veraneio. Entramos pela ria e depois de atravessarmos a povoação seguimos por um passadiço de madeira por cerca de 500m totalmente envolvidos por um cordão dunar e, zás, estamos no mar. Esta é uma zona de Parque Natural e há que respeitar as regras para que a biodiversidade dos ecossistemas não seja colocada em causa nem perturbada. Por exemplo, não caminhar nas dunas e respeitar os sinais de não passagem, uma vez que muitos dos lugares podem ser de nidificação de aves e corremos o risco de pisar e destruir os ninhos mesmo sem o perceber.

Após o final do passadiço e com o Atlântico completamente aberto diante de nós, duas opções se colocam: tomar a esquerda em direcção à Praia da Culatra ou tomar a direita em direcção à Praia do Farol. Optámos por esta última e caminhámos pela areia por cerca de 3 kms completamente desertos de gente, apenas com a companhia de muitas aves que se divertiam entre a areia e a água do mar.

O Farol é o farol do Cabo de Santa Maria, mas é também uma (outra) povoação piscatória num dos extremos da ilha da Culatra. Igualmente castiça e popular, indisfarçavelmente Algarve, não lhe faltando sequer as típicas chaminés. Pelo meio da ilha há ainda outra povoação, Hangares, mas essa já só a percebemos ao longe, na volta da viagem de barco para Olhão, completamente saciados de tanta ria e mar.

Faro

Faro é a maior cidade do Algarve e não tem parado de crescer nos últimos anos. Ou seja, muito há para visitar. No entanto, esta nossa visita apenas passou rapidamente pelo Bairro Ribeirinho e demorou-se na Vila Adentro, deixando de fora instituições que mereciam certamente uma visita, como o Mercado Municipal, o Teatro Lethes e a Igreja do Carmo. Estes são dois dos três centros históricos da cidade, separados pela Marina e pelo Jardim Manuel Bívar – onde para trás do Banco de Portugal se estende o Bairro da Mouraria, o terceiro centro histórico de Faro.

O Bairro Ribeirinho é um centro com uma série de ruas estreitas, algumas delas pedonais, quase todas carregadas de graffitis. Tem habitação, restaurantes, comércio, mas deu para perceber que apesar de alguns edifícios reabilitados e outros com reabilitação em curso, muito mais há para fazer.

A Marina de Faro está voltada para a Ria Formosa, tal como o centro histórico de Faro. No século IV a.C. a então Ossonoba era um dos mais importantes centros urbanos do sul do que é hoje Portugal, com os fenícios a dominarem o comércio. Mais tarde vieram os romanos, os visigodos e os mouros. No século IX, era então Santa Maria, foi muralhada pelos mouros e ao seu nome foi acrescentado de Harune. Com a conquista da cidade aos mouros, em 1259, D. Afonso III muda o nome para Santa Maria de Faaron ou Santa Maria de Faaram, dando mais tarde origem ao topónimo Faro que hoje conhecemos.

A sua localização geográfica sempre foi estratégica, com a Ria Formosa como protectora natural de ataques de corsários, e durante séculos o comércio de sal e produtos agrícolas vindos do interior do Algarve fizeram com que Faro se desenvolvesse ainda mais. Elevada a cidade em 1540, foi no século seguinte que se construiu uma nova cintura de muralhas que envolvia a urbe e ia até junto à água da Ria Formosa. É por aqui que se percebe ainda esta antiga estrutura defensiva e do castelo subsistem torres e baluartes.

Pelo Arco da Vila entramos, então, pela Vila Adentro. É um belíssimo portal monumental inaugurado em 1812. Nas suas costas permanece a Porta Árabe, a entrada na cidade muçulmana de Santa Maria. Após um ligeiro cotovelo, subimos levemente pelo empedrado da calçada numa rua estreita rodeada de edifícios brancos.

É uma bela recepção, a qual uns metros depois nos deixa no Largo da Sé. Aqui fica a Câmara Municipal, o Paço Episcopal, o Seminário Episcopal e a Sé Catedral, um espaço amplo digno de uma capital regional. A Catedral, construída sobre as ruínas de um templo romano e tornada mesquita na era moura, é uma mescla de estilos, bem visível pelo corpo central constituído por torre quadrangular gótica do século XV, sendo o restante corpo construção posterior.

O interior da Sé é monumental, com abundante decoração barroca. E no pátio interior vemos um pequena capela decorada com ossos. Do alto da Torre da Catedral percebe-se de forma perfeita a implantação geográfica de Faro e toda a beleza e detalhes deste Largo. Destaque imediato para a tranquilidade da Ria Formosa e para a elegância dos telhados tesoura do Paço Episcopal. A vista é fantástica.

Vamos espreitar a Ria Formosa mais de perto, passando pelo pequeno Arco da Porta Nova, e seguimos junto à muralha e à ria, com o carril do comboio de permeio. Logo se percebem algumas construções industriais ao fundo e, sobretudo, aquela com que, com pouca demora, ficamos face a face. Nas décadas de 1930-40 foi destruída parte da muralha para abrir a Rua Nova do Castelo e sobre o castelo cresceu a Fábrica da Cerveja Portugália, um dos primeiros edifícios em betão armado na cidade, mas que nunca chegou a funcionar como fábrica.

Contornamos a Vila Adentro por fora junto à muralha e ao espaço ajardinado a ela colado. E entramos novamente na Cidade Velha, mas agora pelo Arco do Repouso, assim chamado por D. Afonso III aí ter repousado. E é a estátua deste rei que vamos encontrar no largo defronte do Convento de Nossa Senhora da Assunção, hoje transformado em Museu Municipal de Faro, de que vale a pena apreciar os claustros.

E a partir daqui é caminhar livremente pelas curtas e escassas ruinhas da Vila Adentro, percebendo que os seus edifícios têm vindo a ser reabilitados e que uma nova vida lhes está a ser dada, com restaurantes e espaços culturais para entreter os visitantes do Algarve para além da praia.

O Barrocal Algarvio – 5° desvio à EN2

Esta proposta é uma curta incursão pelo extenso Barrocal Algarvio, a região que de forma natural faz a transição entre a serra e o mar. O mar do Algarve todos conhecem: de Sagres a Vila Real de Santo António é uma faixa de Atlântico com quase 200 kms. Quanto à serra, são na verdade duas as serras algarvias: Monchique e Caldeirão.

É uma longa faixa esta que se espreme entre estes dois elementos, com localidades como Silves, Paderne, Loulé e São Brás de Alportel como atracção. No entanto, neste desvio final da nossa jornada pela EN2 começámos por espreitar o ambiente do Barrocal desde o Miradouro do Alto da Arroteia, em São Brás de Alportel, e vagueamos depois pelo coração de Loulé.

A Fonte Benémola é uma Área de Paisagem Protegida entre Querença e Tôr, duas aldeias algarvias. Para lá chegar percorremos estradas completamente envolvidas na natureza e este lugar ainda o está mais. Por um percurso pedestre com 4 kms bem definidos, cerca de uma hora de caminhada, passeamos por trilhos de terra batida que aliam uma paisagem natural a alguns elementos rurais hoje abandonados ao longo de um vale atravessado por uma linha ribeirinha. A fertilidade dos terrenos agrícolas da várzea fez com que chegassem a ser 30 as pessoas a viverem neste lugar, abandonado na década de 70 e 80 do século passado. Plantava-se milho, batata, couve, melancia e melões e vinha gente de fora tratar das hortas. Hoje restam algumas casas de apoio, fornos de cal, lagar de azeite e infra-estruturas hidráulicas para aproveitamento da água (como levada, moinho de água e nora). A vegetação, agora que o vale deixou de ser cultivado, é abundante e típica do Barrocal, com sobreiros e azinheiras. Junto à ribeira o ambiente é também tipicamente ripícola, com salgueiros, freixos e loendros. Mas nesta paisagem é a água o elemento mais importante.

A Ribeira da Benémola é uma das poucas do Algarve que mantém água durante todo o ano, sendo abastecida por nascentes como O Olho e a Fonte Benémola. Caminhamos durante um bom bocado ao lado dela e vemos açudes que retêm a água e criam espelhos de água. É um lugar tranquilo. Pena que a sua água, que em tempos era reconhecida pelas suas propriedades medicinais, esteja hoje contaminada e imprópria para consumo humano.

Na zona da Fonte Benémola existe um parque de merendas e aqui regressamos ao ponto inicial mas agora pela outra margem. Por momentos o caminho segue numa espécie de túnel, com a vegetação ribeirinha a cobrir-nos, e deixa de se sentir o calor. Diz que este é um espaço privilegiado para observação de aves, mas infelizmente não as avistamos, apenas as ouvimos.

Após a caminhada pela Fonte Bénemola passámos por Querença, aldeia de casario alvo envolvido no verde da paisagem, e seguimos para Salir. Salir tem uma situação geográfica fantástica, instalada no alto de um monte por onde se espraia de forma alongada o seu casario branco. A toda a volta, tudo verde. Habitada desde há muitos séculos, os mouros construíram aqui um castelo que hoje se encontra em ruínas.

Esta é uma zona agrícola, conhecida pelas amendoeiras, figueiras, alfarrobeiras, oliveiras e medronheiros. Estes pomares mistos são possíveis graças às terras argilosas e férteis do Barrocal.

Aqui perto fica a Rocha da Pena, Área de Paisagem Protegida, à semelhança da Benémola. É um belíssimo afloramento rochoso que se avista desde longe, uma espécie de parede calcária. Da aldeia da Penina tem início um percurso pedestre circular de 6,7 kms. Embora a vontade fosse muita, o enorme calor que se fazia sentir aquando do nosso passeio tornou insensato que o percorrêssemos na sua totalidade. Assim, a conselho de um simpático local, invertemos a direcção sugerida pelo percurso pedestre oficial e subimos aldeia afora apenas até ao miradouro sul, a pouco mais de 1,2 kms de distância.

A aldeia é pitoresca, mais uma vez instalada na encosta. O caminho não é difícil se for percorrido com atenção – muita pedra solta – e com calma – sobe bem. A paisagem, pontuada por azinheiros e zimbro, vai ficando melhor e melhor.

O Talefe é o ponto mais alto da Rocha da Pena, a 479m. Daqui a nossa vista tudo alcança, Serra do Caldeirão nas costas, mar em frente, Salir à esquerda, Benafim abaixo, Serra de Monchique à direita. É quase todo o Barrocal de Loulé debaixo de olho. Cenário grandioso à parte, a própria Rocha da Pena é de uma singularidade estonteante, uma parede calcária verdadeiramente elegante. Ficámos com pena de não continuarmos o percurso.

Daqui seguimos para Alte, a aldeia que faz parte de qualquer lista de aldeias mais bonitas de Portugal. Aliás, já foi mesmo oficialmente considerada a mais típica do nosso país e é talvez a aldeia mais referida do Barrocal e uma das mais queridas de todo o Algarve. Entre a Serra e o Barrocal, apesar do relativo isolamento geográfico mantém a sua aura e tradições. As casas caiadas com as suas janelas e platibandas com cor e as chaminés típicas fazem com que um passeio pelas suas ruas seja um momento de beleza.

Já houve aqui água em abundância, nos dias de hoje menos mas ainda presente, e as fontes de Alte e a Queda do Vigário são imperdíveis. O acesso à última estava vedado em consequência da Covid-19, para evitar ajuntamentos, mas não deixamos de relembrar o seu ar de há dois anos (esperemos que ainda mantenha a água).

A Fonte Pequena continuava bonita com os seus arranjos decorativos em homenagem ao poeta altense Cândido Guerreiro, mas a Fonte Grande estava também com restrições pela maldita pandemia, tendo a Junta de Freguesia optado por não abrir as comportas que a enchem de água.

Ou seja, a ideia de um mergulho no interior algarvio ficou gorada. Salvou-se a visita ao castelo de Loulé, a sede de concelho deste Algarve diferente e uma cidade que merece visita antes ou após as férias na praia.