Tapada da Ajuda

Numa época em que andamos todos ávidos por espaços ao ar livre, eis uma boa notícia para Lisboa: em Janeiro de 2021 a Tapada da Ajuda reabriu com novos percursos pedonais e cicláveis e uma nova ligação a Alcântara e a Monsanto. Este é o resultado da parceria entre a Câmara Municipal de Lisboa e o Instituto Superior de Agronomia (ISA) no âmbito de Lisboa Capital Verde 2020, estando ainda prevista a criação de dois parques hortícolas cujos talhões ficarão à disposição dos munícipes interessados. E assim tudo se torna mais fácil para partirmos à (re)descoberta do património ambiental, histórico e arquitectónico deste parque botânico com 100 hectares numa tapada que já foi real e que hoje é parte integrante de um campus universitário – são inúmeros os caminhos por entre campos agrícolas, hortas, pomares, prados, vinhas, jardins, arboretos, com diversas espécies domésticas e exóticas.

Os solos desta zona da cidade sobranceira ao rio Tejo e a sul da Serra de Monsanto são de origem calcária e basáltica. Bons para agricultura e senhores de um bom clima. Durante a dinastia Filipina, que governou Portugal entre 1580 e 1640, o que hoje conhecemos como Tapada da Ajuda era utilizado como terreno de caça. Aí perto ficava o Paço do Calvário (ou de Alcântara). Após a Restauração, D. João IV murou os terrenos e como que oficializou a Tapada, fazendo dela lugar de caçadas reais e de recreio. Era então a Real Tapada de Alcântara, tornada Real Tapada da Ajuda quando os reis se mudaram para o vizinho Palácio da Ajuda. Foi ainda no tempo da monarquia que a Tapada começou a abrir-se ao público, como lugar de passeios e exposições – o Observatório Astronómico e o Palácio de Exposições são edifícios construídos na segunda metade do século XIX cujo valor arquitectónico perdura até hoje. Em 1917, após a implantação da República, o ISA foi criado e implantado em terrenos da Tapada, que entretanto deixou de ser real, e em 1956 foi instituído o Parque Botânico da Tapada da Ajuda.

Estes dois factores – escola agrícola e parque botânico – foram fundamentais não apenas para a preservação florestal e ambiental da Tapada, mas também para o seu desenvolvimento, com um incremento na sua vertente paisagística e vegetal. Ou seja, desde a instituição do ISA os elementos existentes na Tapada serviram de fonte indispensável ao ensino, mas a par dos autóctones bosques de zambujeiro foram sendo plantadas diversas outras espécies exóticas.

Comecemos, então, a nossa visita pela Tapada da Ajuda. Com quatro entradas à escolha, optámos pela da Rua Jau, subindo directamente para o edifício principal do ISA. À nossa direita, pomar, à nossa esquerda, vinha. Já lá em cima, tomamos a direita para descer pela Rampa da Asneira, designação curiosa que se fica a dever ao facto de aquando da construção do ISA ter havido um engano na orientação da planta do projecto. E a partir daqui logo nos embrenhamos pela luxúria da vegetação da Tapada. Castanheiro, cipreste, carvalho, araucária, zambujeiro e palmeira são apenas alguns dos exemplos de espécies arbóreas pelas quais nos vemos rodeados.

Até que, quase escondido por entre a vegetação, damos com o surpreendente Anfiteatro de Pedra. Construído na década de 1940, a sua acústica era muito gabada, mas as estradas que foram surgindo nas imediações trouxeram o aumento dos níveis de ruído e essa qualidade perdeu-se. Resta, porém, o extraordinário ambiente cénico do lugar.

Para lá do muro paredes meias com o Anfiteatro fica o estádio da Tapadinha, sede do Atlético Clube de Portugal, mais um símbolo local. Continuamos caminho pela longa alameda que acolhe alguns dos edifícios do campus, como o da biblioteca, e que acompanha o enorme prado verde da Terra Grande. Este é um ponto mais elevado e as vistas para o Tejo, com a Ponte 25 de Abril em destaque, são uma beleza.

Após este excelente aperitivo, entramos no Jardim da Rainha e Jardim da Parada. Volta a exuberância vegetal proporcionada por algumas espécies exóticas, mas aqui temos ainda outros atractivos, como uns bancos revestidos com painéis de azulejos, um lago e um bom pedaço de relva para nos estendermos no meio desta tranquilidade.

É para lá destes jardins que encontramos o mais bonito e admirável edifício da Tapada: o Palácio de Exposições. Construído em 1884 para a III Exposição Agrícola de Lisboa, era então rei D. Luís, o seu projecto ficou a cargo do arquitecto Pedro de Ávila. A época era a dos edifícios em ferro e vidro e este projecto pretendia não ficar atrás de exemplos como o do Crystal Palace, no Hyde Park de Londres, o do Trocadero, em Paris, ou o do Palácio de Cristal, no Porto. O lisboeta é de uma elegância tocante, longo e ligeiramente ovalado no seu corpo em vidro com um torreão central e dois laterais, uma imagem romântica perfeita.

À volta deste Palácio vemos alguns edifícios como a abegoaria, a antiga vacaria e o chalet da Rainha D. Amélia e até algumas casinhas de habitação. Mais adiante, o Auditório da Lagoa Branca, diante da lagoa sem água.

Nesta parte da Tapada encontram-se diversos exemplares de minas de água, alguns deles do tempo de D. João V, quando abasteciam os terrenos agrícolas, a real tapada e as quintas vizinhas. A riqueza em água da Tapada deve-se às suas características geológicas, calcários de Lisboa e basalto de Monsanto.

E aqui fica, também, outro dos pontos mais bonitos da Tapada, a Alameda das Oliveiras. É uma estrada, agora ciclável, ladeada em ambas as bermas por dezenas de oliveiras, tendo como resultado uma imagem que esperaríamos encontrar no campo e não numa cidade. Lá vamos, então, sob as oliveiras e com a companhia da vinha, de um lado, e da mata, do outro.

Ao cimo desta Alameda, um pequeno desvio deixa-nos no miradouro da Tapada. A 134 metros de altitude encontramos um dos marcos geodésicos mais antigos do nosso país. O terraço onde assenta a plataforma do miradouro é mais um pequeno encanto, revestido a azulejos de tons azul e branco. A vista, essa, tem tudo para ser magnífica, mas o muito e denso arvoredo não deixam que seja totalmente desafogada.

Já quase no Alvito, para onde há agora uma ligação com a entrada do Portão de Monsanto, seguimos pela mata e eira, onde cavalos pastam livremente. E antes de retornarmos deixámos-nos estar a apreciar as meninas a jogar rugby – não era o Agronomia, mas era o nosso Sporting.

De volta ao coração da Tapada, a vegetação é quase indomável em certos pontos, como aquele onde está o Tanque de Santo António, que apesar de escondido na erva alta ainda hoje fornece água para as hortas vinda de uma mina. Passamos por mais um lago e pelo Banco de Junot, onde se diz que o militar das tropas de Napoleão gostava de vir ver o pôr-do-sol quando se instalou em Lisboa durante as Invasões Francesas.

E chegamos, enfim, ao Observatório Astronómico de Lisboa, outro dos edifícios mais distintos e importantes da Tapada. Em 1850, os astrónomos Faye, francês, e Strave, russo, sugeriram a D. Pedro V a sua construção, uma vez que entendiam ser Lisboa o lugar ideal e único em toda a Europa para a luneta zenital encontrar a estrela Argelander. E assim se construiu o Observatório, em estilo neoclássico, ainda hoje a instituição de referência para o estabelecimento da hora legal de Portugal. Diante si temos um pequeno jardim com canteiros onde descobrimos um belo dragoeiro. Na verdade, percebemos logo depois, há mais dois dragoeiros à entrada da fachada com colunas do Observatório, dando-lhe um enquadramento pitoresco.

Encaminhando-nos para a saída da Tapada, a tal área de vinha que viramos à entrada estende-se agora de forma larga, com diversas castas plantadas. E, para terminar esta visita de forma grandiosa, eis a imagem do casario de Alcântara com a Ponte e o Cristo-Rei de braços abertos a proteger a Tapada da Ajuda.

Cascata de Cela Cavalos

À semelhança da Cascata de Pincães, também a Cascata de Cela Cavalos fica no concelho de Montalegre, mas ainda no Parque Nacional Peneda-Gerês. Será uma das menos conhecidas, mas nem por isso menos fantástica do que as suas companheiras. Um pouco antes da povoação de pedra de Sirvozelo, que tanto me tinha deslumbrado quando por lá passei há um par de anos, a Cela Cavalos podemos aceder após estacionarmos o carro na povoação de Cela ou imediatamente antes, num estacionamento de terra batida improvisado bem diante de uma enorme pedra com um portinhola – é esta vida que estas gentes do Barroso dão à natureza, em especial a estes penedos, que tanto me seduz.

O percurso – a pé – até à Cascata faz-se sempre a descer, num estradão sem dificuldade de maior. São cerca de 25 minutos na ida. A volta, está visto, é sempre a subir, qualquer coisa como 40 minutos. Fiz este caminho sob um calor intenso. Não há qualquer sombra a não ser a de um ou dois minúsculos pinheiros, um género de oásis onde aproveita para parar e beber um gole de água do cantil. Ou seja, embora não seja tecnicamente difícil, em dias de calor o trilho é extremamente cansativo e até penoso.

Ainda assim, deu para contemplar a paisagem. Quando passamos a pequena Capela de Santa Luzia, instalada num alto, vamos descendo sempre a admirar o belo vale com um conjunto de belas fragas ao nosso lado esquerdo. E entretanto paramos por momentos para apreciar um lugar onde inúmeras caixinhas de mel estão em exposição, numa forte concorrência à paisagem.

Já cá bem em baixo no vale, passada uma ponte de madeira, a Cascata de Cela Cavalos surge diante de nós. Fantástica, deslumbrante mesmo. E qualquer arrependimento pelo atrevimento de termos descido tanto e, consequentemente, termos de pagar pela corresponde subida, esvai-se.

Mergulhamos, pois claro. Mais uma fresca recompensa pelo esforço. Não contentes, há que subir (não é difícil) até ao topo da cascata para aí descobrir mais uma belíssima poça. O incrível destas lagoas e poças do Gerês é que conseguem atingir profundidades imensas, daí que seja um entretenimento relativamente pouco perigoso a aventura de saltar dos penedos. Mas não fizemos como os moços, antes preferimos limitarmo-nos a boiar nas deliciosas águas de Cela Cavalos.

7 Lagoas do Xertelo (Poços Verdes do Sobroso)

Na estrondosa freguesia do Cabril, em Montalegre, fica a povoação do Xertelo, a mais de 700 metros de altitude. Esta é uma região montanhosa, com penedos e fragas de granito de um cinzento cintilante. O caminho até à aldeia é, pois, fantástico.

Xertelo tem um topónimo esquisito, mas facilmente explicável. Deriva de “desertelo”, diminutivo de deserto. E, bom, não abundando a população por aqui e dado o clima adverso de montanha é mais ou menos disso que se trata, de um deserto de pedra. Um daqueles que vale a pena visitar pelo cenário grandioso. Especialmente em dias de calor, vale ainda mais a pena ir em busca de umas lagoas e se elas forem surpreendentes, tanto melhor. As 7 Lagoas do Xertelo, também conhecidas como Poços Verdes do Sobroso, são-no e a caminhada até lá é-o igualmente.

Saindo da aldeia do Xertelo são cerca de 10 quilómetros de caminhada, cerca de 1h e 10m para cada lado. Há um (mau) caminho de terra batida que os jipes da Protecção Civil ou da GNR podem percorrer, estando a estrada vedada aos veículos civis. E há um trilho praticamente plano, seguindo a meia encosta, que nos transporta até ao topo das lagoas. Mas graças à dica do blogue Vagamundos – uma excelente fonte de informação que nos tem dado grandes momentos – não seguimos sempre pela esquerda à saída do cruzeiro do Xertelo e tomámos antes a direita para fazer deste um trilho circular. Ou seja, na ida subimos para pouco depois apanharmos o tal estradão de terra batida e na volta, então, optámos pelo trilho. Com isto tivemos direito a uma paisagem mais diversa e abrangente.

Apesar de o caminho pelo estradão ser mais maçudo e cansativo, com subidas e descidas, a paisagem é brutal. Dominam ao fundo os montes pedregosos da Serra do Gerês, dos mais altos do nosso território, e mesmo ao nosso lado uma série de rochas empilhadas de forma artística provoca a nossa admiração. Adoro cenários rochosos, pelo que este encheu-me as medidas. Para a nossa direita vemos até a Barragem da Paradela e imagino com um imenso sorriso de felicidade que a minha adorada Pitões das Júnias anda para aqueles lados, não muito longe, portanto.

Toda caminhada até às 7 Lagoas é feita a céu aberto, sem qualquer sombra. Tirando o calor não há, porém, dificuldade de maior no percurso.

Ao fim de quase 1 hora percebemos uma lagoa junto a uma ponte e embora esta já seja bem bonita é apenas um aperitivo para o que está para vir. Começamos uma descida e passada uma dezena de minutos vemos, enfim, uma sucessão de lagoas a escorregar pelo vale do rio Cabril abaixo.

A imagem é irreal, uma surpresa absoluta. Vista de cima a cor da água destas piscinas naturais é extremamente apelativa e de uma transparência incrível. Não as contei, para confirmar se seriam mesmo 7, mas já cá em baixo tínhamos praticamente uma em exclusivo para cada grupo de visitantes. Nem o avistar de uma cobrinha de água nos fez demover de um saboroso e refrescante mergulho. Apenas uma dificuldade a apontar: o chão de pedra escorregadio à entrada e saída destas lagoas.

No topo destas lagoas existe um complexo hídrico que abastece várias freguesias de Montalegre e distribui a água para a Barragem da Paradela, para um lado, e para a Barragem de Salamonde, para o outro. Esta estrutura é constituída por mais de 12 quilómetros de túneis que atravessam os maciços graníticos da Serra do Gerês, mas felizmente não estão visíveis, numa boa integração da obra humana com a natureza. Apenas a estrutura imediatamente acima das lagoas desfeia um pouco o ambiente. Mas nada que um novo mergulho na transparência não faça esquecer. Dá para saltar de alguma altura e nadar umas quantas braçadas, uma vez que algumas das lagoas são não apenas fundas como largas.

Na volta, como já se disse, seguimos pelo trilho à quota da meia encosta. O caminho aproveita as pedras para ser bem perceptível e é agora mais divertido. A vista desta vez cai para o vale, mas ainda assim segue também junto a algumas rochas formosas. O cenário continua imenso. E a conclusão definitiva: este é um dos percursos pedestres mais incríveis do Gerês.

Da Cascata do Arado ao Poço Azul

O Poço Azul fica para lá da Cascata do Arado, um dos pontos altos de uma visita ao Gerês. Antes, porém, impõe-se uma paragem no Miradouro das Rocas, por onde se sobre por entre rochas até ao topo de um monte de granito em que chegamos a suspeitar que lá possamos encontrar uma fortaleza. O sítio seria ideal para isso, mas não, é apenas um lugar privilegiado para se perceber a vista larga do vale do rio Arado e da ondulação da Serra do Gerês.

Uma estrada de terra batida leva-nos até à Ponte do Rio Arado, onde à nossa esquerda podemos encontrar a cascata de mesmo nome. Toda esta zona envolvente ao rio, seja para cima da ponte ou para baixo, esconde segredos como lagoas cristalinas que apenas os mais aventureiros descobrem, ainda que por vezes com custos para a sua integridade física.

O trilho que aqui propomos, da Cascata do Arado ao Poço Azul, apesar de não estar oficialmente marcado não é difícil nem perigoso, são cerca de 8 quilómetros (ida e volta) agradavelmente percorridos em 1h 30m para cada lado, com início no parque de estacionamento para lá da Cascata do Arado (mais 2 quilómetros se optarmos por deixar o carro no Miradouro das Rocas). Desde logo a vista é fantástica e antecipa o que iremos viver nas próximas horas.

O cheiro a borrego é intenso e de imediato percebemos o porquê. Por sorte, um rebanho de cabras-monteses vagueava por aqui. Eram mais de 200 exemplares desta raça típica do Gerês, pertencentes a vários proprietários, mais um indício do espírito de comunidade que é ainda uma marca da região.

O caminho segue aberto, custoso em dias de mais calor, mas depois fica mais protegido pela vegetação. A primeira paragem obrigatória é no Curral da Malhadoura. É um lugar recatado, com uma fonte (repare-se a folhinha estrategicamente colocada para a água cair de forma ainda mais idílica) e uma enorme pedra com uma abertura, ideal para um piquenique à sombra. E tem uma casinha, de pedra – pois claro -, abrigo de pastores. Estas casas aninhadas nos penedos, com eles se confundindo, são um mimo e mais uma imagem pitoresca do Gerês.

Seguimos adiante e agora com a companhia de lindas borboletas de diversas cores. A primeira parte do percurso é muito fácil, por um estradão recto com um ou outro cruzamento que pouco engana. Passamos por uma edificação com um prado de cultivo murado, depois por uma moradia escondida na floresta e pouco depois iremos começar a descer até uma ponte sobre o rio do Conho. Aqui já há espaço para uma banhoca, mas não paramos. Nem a descida nem a posterior subida que nos faz atravessar o rio são especialmente difíceis ou cansativas. E mesmo que as pernas tremam um pouco após a subida, é bom guardar uma boa porção de ar para suspirar pela enorme paisagem do alto do vale. São belíssimas vistas para os penedos e fragas da Serra do Gerês, umas infinitas e outras mais próximas.

Tomamos a esquerda no trilho ao aviso de umas mariolas e agora seguiremos sempre a direito num caminho ora de terra ora de pedras, que continua sem ser difícil quer técnica quer fisicamente, bastando atenção para não tropeçar. Continuamos protegidos pelo arvoredo e vamos em direcção a um penhasco imenso. Começam a aparecer umas rochas enormes, deixando-nos curiosos pelo que poderão esconder. E começam a aparecer umas poças pequenas.

O Poço Azul está um pouco mais adiante.

Lindo. Bem encaixado na paisagem, a sua água é transparente e cristalina. Talvez mais para o verde, mas sem dúvida colorido.

Neste momento já só apetece mergulhar, e nem precisa de ser do alto da pedra onde por vezes (com mais água no rio) escorre uma pequena cascata. Mergulhamos, enfim. Mesmo sem estar à sombra, a água do Poço é gelada. Cai mesmo bem e é retemperadora. Deixamo-nos ficar, espraiados na natureza bruta. Só não se pense que o faremos sozinhos, afinal de contas é difícil guardar os bons segredos. Ainda assim, demoramo-nos e só depois empreendemos o mesmo delicioso caminho de volta.

Mata da Albergaria – Portela do Homem

Este é um percurso pedestre circular com início e fim no parque de estacionamento da Portela do Homem, junto à fronteira com Espanha. Para entrar de carro na Mata da Albergaria, um dos bosques mais fantásticos do Gerês, repositório da fauna e flora do Parque, há que pagar 1,5 euros, mas vale bem a pena. Melhor do que isso só mesmo embrenharmo-nos pela Mata a pé.

São cerca de 4,3 quilómetros desde o estacionamento, passando por frondosa vegetação ao longo do rio Homem, lagoas e cascatas, incluindo a célebre Portela do Homem, pontes e até uma antiga estrada romana, menos de duas horas de passeio, incluindo paragem e mergulho nas lagoas.

Apesar de não estar marcado, é fácil perceber o trilho. Um aviso, porém. Este é um dos lugares mais pressionados pelo excesso de visitantes, por isso há que respeitar as regras do Parque e em especial da Mata se queremos preservar o seu ecossistema e voltar a visitá-lo repetidas vezes.

Começámos por nos deixar envolver no bosque de carvalhal secular. Mesmo nos dias de sol e calor intenso não damos por eles, tal é a protecção das exuberantes copas das árvores. Este caminho coincide em parte com o que era a Geira, a antiga estrada romana que ligava Braga a Astorga. Diversos marcos miliários bem preservados testemunham-no. Imaginar que os exércitos romanos passaram por aqui há mais de 2 milénios e puderam ter esta beleza montanhosa cheia de piscinas naturais só para eles.

A verdade é que com sorte também nos pode tocar essa felicidade. Por exemplo, passei por um ribeiro com uma lagoa e perguntei-me porque estaria vazia. Mais adiante, após uma ponte robusta, um género de fenda com outra lagoa encostada a uma parede rochosa tinha apenas um par de indivíduos. E aqui com o bónus de um enquadramento paisagístico fabuloso feito dos penedos da montanhosa Gerês como pano de fundo.

Mais adiante ainda, após um breve desvio para outra ponte, o cenário aquático é ainda mais fantástico e uma concorrência à altura da protagonista Portela do Homem. É uma sucessão de lagoas cristalinas, conhecidas como Lagoas da Mata da Albergaria, cada uma mais bonita do que a outra. Aqui já tinha mais gente mas, imagine-se, dias depois, quando a mana aqui passou, apanhou-as completamente vazias durante largas dezenas de minutos, tal como imaginei que apenas os soldados romanos o pudessem ter feito.

Logo a seguir invertemos caminho e passamos a seguir pela estrada de asfalto. Não há que lamentar, porém, não apenas porque o trânsito não é muito, mas também porque a estrada é lindíssima e igualmente protegida pela mesmíssima vegetação frondosa.

A Cascata da Portela do Homem, avistada desde a ponte, está cheia de gente. O acesso à lagoa e base da cascata, exclusivamente pelo lado esquerdo (pelo direito estava vedado), não é fácil e ainda estou para saber como é que pessoas mais velhas e outras com filhos de colo chegam lá abaixo. Talvez sejam essas que vêm nas notícias do dia seguinte, relatando os costumeiros acidentes nas cascatas do Gerês. Também não é fácil, já com os pés na água, percorrer as pedras escorregadias que nos fazem mergulhar na lagoa para onde jorra aquela que é das cascatas mais cénicas do Parque. Está compreendido o porquê do risco.

Parque Ecológico do Gameiro

Na freguesia de Cabeção, em Mora, junto ao seu Fluviário, fica um dos lugares mais recolhidos e tranquilos para se fazer uma caminhada fácil e acessível para toda a família. E caso nem todos os membros da família queiram ou possam caminhar por cerca de 2 horas podem sempre aguardar os demais descansando no areal da praia fluvial do Gameiro, mergulhando nas águas da ribeira de Raia ou desfrutando de uma das várias infra-estruturas do Parque Ecológico do Gameiro.

No verão passado experimentámos a relaxante água da ribeira e escondemos-nos do sol debaixo de uma das idílicas sombrinhas mesmo à sua beira. O sol forte do Alentejo não era então propício a esta caminhada de cerca de 5,5 quilómetros (mais 1 quilómetro com desvio até à torre de observação) pela zona ribeirinha e pela zona do montado do Gameiro. Voltámos agora e, mesmo sem novo mergulho, o passeio encheu-nos as medidas.

O Parque Ecológico do Gameiro foi inaugurado em 2012 e, Fluviário de Mora à parte, a sua grande atracção são os 1,5 quilómetros de passadiços de madeira ao longo da ribeira de Raia. No entanto, podemos continuar por mais um bom bocado junto ao rio, ora envolvidos pelo bosque ripícola ora a céu aberto, antes de empreendermos o caminho de volta mas dessa vez pela zona do montado. Chamam-lhe “Percurso da Natureza” e é disso mesmo que se trata, de um ambiente absolutamente natural onde a acção do Homem é discreta e consegue acrescentar ainda mais beleza ao lugar.

Começámos, então, este nosso passeio por uma jogatana de pingue-pongue com os pés descalços na areia, imaginado que melhor só mesmo tê-los de molho na ribeira. As águas estavam barrentas, mas os reflexos da vegetação na Raia estavam, ainda assim, absurdamente incríveis.

O percurso pelos passadiços é um prazer delicioso, um daqueles em que o mínimo de esforço nos oferece um retorno máximo. A paisagem é serena, com a água e a vegetação numa parceria de sucesso. Pelo caminho vamos encontrando painéis informativos com indicação dos peixes (barbo-comum, perca sol, boga, bordalo) e das aves (garça-branca, garça-real, corvo-marinho, corvo-real, guarda-rios) autóctones, mas também da flora (sobretudo salgueiros e choupos, mas também pinheiros).

O açude do Gameiro vai ficando para trás, mas as cores e os reflexos mantém-se grandes.

A dado momento podemos desviar até à torre de observação, cerca de 400 metros para cada lado, numa das duas únicas subidas dignas desse nome de todo o percurso. Mas vale a pena pelo panorama diferente, altaneiro e por isso mais abrangente, da paisagem alentejana quase a perder de vista.

Há quem não aprecie passadiços, por os considerar intrusivos do meio ambiente natural, mas estes parecem muitíssimo bem integrados, corredores longos que não perturbam a natureza nem nos distraem do essencial.

No final dos passadiços continuamos o caminho por um trilho junto ao rio, desta vez por um curto bosque que nos vai dando umas abertas para as águas castanhas da Raia onde até uns cactos de tamanho generoso têm lugar.

A paisagem abre-se por altura do que é considerada a Pista de Pesca, vêem-se efectivamente uma série de pescadores, e uns metros adiante abandonamos as margens da ribeira para subir (a segunda e última do percurso) em direcção à zona do montado.

A paisagem não é menos bonita. E é sobretudo típica. Estamos verdadeiramente no Alentejo e aqui sentimo-lo bem. O montado é um ecossistema florestal que permite a coexistência de áreas de cultivo e pastoreio juntamente com a preservação dos habitats. Este é um montado de sobro e de azinho, sendo o sobreiro e a azinheira espécies de carvalhos. A cortiça do sobreiro é um símbolo de Portugal e a madeira rija e resistente da azinheira é muito procurada para diversas construções, desde vigas a embarcações ou até barris para envelhecimento de vinhos. Ambas dão como fruto a bolota, servindo esta de alimento para o porco de montanheira, também conhecido como porco preto alentejano – não encontramos porcos mas vimos muito gado bovino. Para além disso, estes montados são dos habitats mais ricos em biodiversidade, acolhendo centenas de espécies de aves que aqui vêm para nidificar.

E, claro, não nos livramos dos clichés pelo que temos de rematar dizendo que descansar à sombra de um chaparro é uma actividade a não perder. Alentejo puro.

Trilho no wikiloc

Duna da Cresmina, Guincho

A Duna da Cresmina é parte do sistema dunar Guincho-Oitavos, em pleno Parque Natural de Sintra-Cascais. Um passadiço circular com menos de 2 kms, meia-hora a andar sobre madeira a espaços invadida pela areia, sai desde o Núcleo de Interpretação da Duna da Cresmina, no alto da Praia do Guincho. Já sabemos que o Guincho é uma bela praia de areia branca que tinha tudo para ser o lugar indicado para estender a toalha na areia e nos deixarmos ficar por ali a apanhar sol. Mas daí vem o vento, e ele vem grande parte do tempo, e a praia transforma-se no lugar ideal para o windsurf, uma caminhada na areia, uma refeição num dos seus restaurantes ou… um passeio ao longo da duna, sem sair do trilho previamente definido para o efeito.

O que este sistema dunar tem de curioso é precisamente a condição climatérica adversa de vento forte carregado de sal. As areias das praias da Cresmina e do Guincho são por ele empurradas e retornam ao mar mais a sul, entre os Oitavos e a Guia, depois de migrarem sobre a plataforma rochosa aplanada do Cabo Raso.

Este é um sistema dinâmico, acreditando-se que a Duna da Cresmina esteja a avançar cerca de 10 metros por ano. Ou seja, embora a duna desempenhe um papel muito importante na protecção do terreno em caso de subida do nível do mar, ao mesmo tempo teme-se que a longo prazo este avanço possa vir a representar a perda de solos aráveis, infraestruturas e habitações.

Ao longo do trilho podemos observar o habitat diverso que nos rodeia, quer na sua flora quer fauna. As areias permitem alguma vegetação, embora rasteira, como o feno e o estorno da areia e pinheiro bravo. Surpreende que algumas flores consigam romper a areia. E vemos borboletas, melros e, sobretudo, lagartixas.

Mas a grande atracção são as dunas e as formas que são capazes de tomar. Num lugar de paisagem superior, Serra de Sintra nas costas e Oceano Atlântico por diante, é um agradável passatempo tentar observá-los num enquadramento especial dado pelas dunas.

Pelo Trilho Castrejo

Os Montes Laboreiro, hoje mais conhecidos pela Serra da Peneda, são um dos lugares de Portugal que mais encanto produzem em mim. Sobretudo pela paisagem, sim, mas também pela cultura secular da qual chegaram testemunhos até aos dias de hoje. Em tempos andei por Castro Laboreiro e disso dei conta aqui.

Com a pandemia novos horizontes se abriram e o que me habituei a circundar de carro hoje adentro a pé, alcançando lugares, paisagens e ambientes que de outra forma não seriam possíveis perceber. Foi assim que surgiu a ideia da caminhada pelo Trilho Castrejo, percurso oficial de Melgaço (MLG – PR3), com 17 quilómetros pelos caminhos de transumância que outrora ligavam as brandas às inverneiras, um sistema de povoamento usado pelos povos castrejos que vale muito a pena conhecer e descobrir.

Antes de iniciarmos o Trilho Castrejo tal como está definido fizemos um desvio e subimos ao Castelo de Castro Laboreiro. O caminho até lá é fácil, cerca de 15 a 20 minutos para cada lado, indo por uma vertente do penedo e voltando pela outra, entrando e saindo por cada uma das portas do Castelo. Implantado num monte a 1033 metros de altitude (a vila de Castro Laboreiro está a 945 metros), neste miradouro natural para todo o planalto de Castro Laboreiro e montes escarpados que o rodeiam a vista é, está bom de ver-se, soberba.

Construído no século XII ou XIII sobre uma estrutura pré-existente, a muralha envolve dois espaços bem definidos. Um deles correspondia à povoação intramuros, a qual ainda na Idade Média abandonou o castelo altaneiro para se estabelecer mais abaixo, na vila que hoje conhecemos como Castro Laboreiro e que espreita para lá da muralha. Com o tempo o Castelo foi perdendo a sua importância estratégica, embora ainda tenha desempenhado um papel importante na Guerra da Restauração e na Guerra Peninsular. Realce-se, no entanto, que a ocupação humana do lugar do monte do Castelo é muito antiga, remontando ao Paleolítico e ao período castrejo, eram então os seus povos nómadas. Aliás, veremos adiante que uma espécie de nomadismo continua a ser prática na região.

Descemos do Castelo rumo à vila e desviámos breve até à face da Cascata de Castro Laboreiro, alimentada pelas águas do rio de mesmo nome. Chovia bem, mas não o suficiente para que pudéssemos confundir a água caída do céu com a torrente que cai em diversos patamares nesta falha nas rochas e que proporciona (mais) um belo espectáculo da natureza.

Atravessámos então a vila, conquistada por D. Afonso Henriques e logo integrada nos domínios do reino de Portugal, tendo recebido foral e sido elevada a sede de concelho em 1271, extinto em 1855 e hoje parte do concelho de Melgaço. O seu coração é a pequena praça onde encontramos a Igreja Matriz, o Pelourinho e o antigo edifício da Casa da Câmara. Instalada no planalto, o topónimo Castro Laboreiro deriva de “castrum” – povoação fortificada – e “lepporeiro” ou “lepus” (ou leporis, leporem, leporarium, lepporeiro, leboreiro) – palavra latina que significa lebre. Seria então a “fortificação das lebres”, talvez por existirem aqui muitos destes animais. Ou, palpitam ainda outros, derivará do “Castram Laborarum” dos romanos, de significado “acampamento de trabalhadores”. O que espanta na região é que desde sempre celtas, romanos, mouros e por fim os cristãos do reino de Portugal aqui tenham teimado em tomar assento, sobrevivendo às agruras do clima e da infertilidade do solo – daí a alusão aos trabalhadores. Ainda assim, têm demonstrado que é possível viver em comunhão com a natureza, adaptando-se e fazendo das previsíveis fraquezas a sua força.

Iniciámos oficialmente o Trilho Castrejo virando costas ao centro da vila de Castro Laboreiro e seguindo planalto afora. As fragas graníticas e os rochedos com formas cativantes marcam a paisagem típica da Peneda. A vegetação é rasteira, feita de tojo, carqueja, urze, com cores variadas que só o Outono sabe como fazer sobressair na perfeição. Este mato que aqui encontramos possui uma dupla função, servindo de alimento para o gado e mantendo alguma fertilidade do solo. Estamos no planalto, recordemos, e nas terras mais altas, as brandas, a fertilidade dos solos é ainda menor, pouco se produzindo, servindo as terras sobretudo para pastoreio e pastagens que aqui encontram alimento precisamente na vegetação rasteira referida.

À medida que abandonamos o planalto e descemos o vale do rio Laboreiro, com o monte do Castelo dominador à nossa esquerda, a paisagem e características do solo vão mudando. Somos transportados para um outro mundo, com um ambiente totalmente diferente. Primeiro aproximamo-nos de uma pequena lagoa com ponte (são às dezenas as pontes por estes caminhos), um lugar incrível, quase como se de um oásis na penedia se tratasse.

Depois continuamos a descer mas agora já não a céu aberto, antes totalmente imersos por um não menos incrível bosque. É o bosque de carvalhal do Barreiro e as palavras para o descrever nunca serão suficientes. Delicioso nas suas cores e tranquilo no seu recato, a dado passo os muros aparecem inteiramente cobertos de turfeira, de um verde tão intenso que parece irreal. É este musgo que faz reter a água e que juntamente com os rios e ribeiros que por aqui correm faz da zona baixa da região de Castro Laboreiro um mundo à parte em termos de fertilidade, num clima menos frio e numa terra menos pobre.

A piada e o interesse deste Trilho Castrejo está, precisamente nesta diversidade de paisagens que tem gerado ao longo dos séculos diferentes povoamentos. Ou melhor, um sistema de povoamento triplo: no planalto, nas brandas e nas inverneiras. Explique-se: este trilho segue pelos caminhos que ligavam as brandas às inverneiras, hoje ligadas por estradas asfaltadas mas há nem sequer um século apenas por caminhos medievais de calçada em pedra como este que percorremos agora (a estrada que liga Melgaço a Castro Laboreiro foi construída apenas na década de 1940). Os povos castrejos possuíam duas casas, uma nas brandas e outra nas inverneiras. Hoje, com as alterações climáticas e com o clima menos inclemente conseguem viver maioritariamente no planalto ou até nas brandas. Mas até há pouco tempo grande parte das famílias passavam os meses mais quentes nas encostas (brandas) e os meses mais frios nos vales (inverneiras). Nas brandas, situadas a maior altitude, faziam as sementeiras, como centeio e batata. Nas inverneiras, a mais baixa altitude e mais abrigadas, cultivavam-se os cereais e as frutas. Ou seja, o povoamento e exploração do solo varia conforme a época e o clima de modo a que o homem possa fazer o melhor uso da terra, trabalhando-a sempre que isso seja possível. Isto acontece um pouco por toda a Peneda, mas é aqui, em Castro Laboreiro, que assistimos a este sistema singular com maior evidência. Nos dias de hoje, porém, as pessoas têm vindo a fixar-se em permanência na vila de Castro Laboreiro, daí que, como alguém já se lhe referiu, esta seja a mais alta das inverneiras e a mais baixa das brandas.

Prosseguindo a nossa caminhada, aproveitámos para um lanche no inspirador bosque do Barreiro e atravessámos as inverneiras do Barreiro, Podre e Assureira. É à saída desta última aldeia que encontramos um belo postal que resulta do conjunto de um moinho junto à ponte. Até nos esquecemos que também a Capela de São Brás está ali. Em uso até há pouco tempo, alguns dos moinhos de água estão ainda bem conservados na sua fachada em granito e são uma expressão da arquitectura tradicional local.

Estamos já no ponto mais baixo do nosso trilho, a cerca de 750 metros de altitude. É nele que fica uma das pontes mais importantes e pitorescas da região e até de todo o Parque Nacional Peneda-Gerês. Classificada como Monumento Nacional, a Ponte da Cava Velha foi construída na época romana, embora tenha sido restaurada na época medieval. O facto de ser também designada por Ponte Nova faz crer que por aqui tenha existido uma outra ainda mais antiga. À semelhança de outras, o seu tabuleiro é em arco, mas maior. Na verdade, são dois os arcos que nos transportam até à outra margem do rio Castro Laboreiro.

E depois disso, atravessada a Ponte da Cava Velha o caminho brinda-nos com uma longa subida. A beleza agreste do lugar, mesmo com chuva e tempo nublado, reconforta no esforço. Os penedos e rochas não param de surpreender mas a forma de uma delas, em especial, supera tudo. O Bico do Patelo é irreal, como se um pássaro tivesse pousado à beira de um penedo e ali se tivesse quedado petrificado.

Vamos vendo o Bico ao longe, atravessamos a inverneira de Curveira já a preparar a lenha para os dias frios que aí virão, continuamos a subir por entre as pedras e ficamos mesmo debaixo da magistral formação rochosa. Aqui não podemos deixar de soltar um lamento pelo céu nublado não nos permitir registar na perfeição o fantástico enquadramento da aldeia com o Bico. Como pode um cenário ser tão grandioso mesmo com uma visibilidade tão má? E como pode a natureza moldar uma pedra de forma tão formosa?

Depois desta subida encontramos um terreno fácil e relativamente plano em terra batida. Um pouco para lá do ponto mais alto da nossa jornada (1090 metros de altitude) ficam algumas das brandas, como Padrosouro, junto à qual passámos sem entrar (e ainda mais escondidas nas montanhas ficam Seara, Eiras, Portos e Curral do Gonçalo).

Daqui iniciámos uma descida por mais um caminho de calçada de pedra, no que podia muito bem ser um rio com um fio de água. Avistam-se alguns pequenos prados verdejantes. Mas a melhor vista é para a inverneira de Cainheiras, um pequeno conjunto de casinhas de granito rodeadas de um manto verde entrecortado por uma fina e ondulante risca de asfalto, enquanto os penedos assistem a este espectáculo na fila de trás.

Antes de chegar a Castro Laboreiro ainda passámos pela ponte e povoação de Cainheiras e pela povoação e ponte de Varziela. Nesta última, junto ao ribeiro Corga das Lapas uma minúscula cabine está instalada num terraço verde com uma frente ribeirinha privativa. Um luxo. Mas voltam a ser as cores a ganhar protagonismo, fazendo questão de se sobrepor ao cinzento da paisagem.

À chegada a Castro Laboreiro temos a vista que nos faltava da sua cascata, agora no lugar cimeiro dos seus vários patamares e igualmente impressionante.

E podemos, finalmente, repousar desta enorme caminhada pela paisagem e cultura das aldeias de montanha dos Montes Laboreiro.

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Trilho da Peneda

Às vezes é bom visitar os lugares em dias de chuva. Visitada a Peneda no Verão, perceber-se-á a cascata que jorra água pelo penedo abaixo que serve de encosto ao seu Santuário?

Foi precisamente essa a imagem que nos tocou ver no início desta caminhada de 11 quilómetros designada por Trilho da Peneda, já no concelho de Arcos de Valdevez. O que acontece é que a chuva miudinha não nos largou durante toda a manhã e, pior, a nebulosidade era muita. Mas mesmo com pouca visibilidade seguimos adiante no nosso propósito e subimos os últimos patamares da escadaria do Santuário de Nossa Senhora da Peneda.

O culto mariano neste lugar tem 800 anos, quando, diz a lenda da Peneda, Nossa Senhora aqui terá aparecido a uma criança que pastoreava cabras e, após curar uma mulher de um caso já dado como perdido, lhe terá dito para pedir aos habitantes da Gavieira (sede da actual freguesia da Peneda) para erigirem uma ermida. O Santuário é, todavia, mais recente, tendo sido construído nos séculos XVIII e XIX. A escadaria das virtudes é a grande atracção cénica e formal, com estatutária representando a Fé, a Esperança, a Caridade e a Glória.

Nas costas do Santuário fica a carismática Fraga da Meadinha. A parede da Meadinha tem vindo a ser escalada por portugueses e sobretudo galegos desde a década de 1940 e é hoje a única onde se pode escalar legalmente no Parque Nacional da Peneda-Gerês. São 59 as vias de escalada desta fraga. Mas nós, apesar de a termos subido também, não o fizemos através de uma ascensão vertical, antes pelo bosque que a atalha mais suavemente. Apesar da nebulosidade intensa, as cores do bosque fizeram questão de se exibir. O penedo, esse, como é cinzento como a cor daquele dia, é que foi mais difícil de perceber em toda a perfeição. Ainda assim, conseguimos ver a água a rolar por entre as frechas da rocha, a tal que se transforma em cascata quando a queda surge mais abrupta nas costas do Santuário.

A subida é algo cansativa, indo dos 665 metros aos 1095 metros em apenas 3,7 quilómetros. Mas a quase 1000 metros temos um lago com uns reflexos incríveis, uma espécie de resistência à desfeita do clima. Conhecido como “pântano”, no lugar de Chã do Monte havia uma represa que servia uma mini-hídrica que fornecia energia eléctrica à povoação da Peneda. Hoje resta a água, com um belo rochedo no meio, circundada pelo granito que permite que uma vegetação rasteira verdíssima dele se apodere nas margens do lago.

O caminho prossegue por um campo de pedras com formas diversas. É basicamente um trilho sobre pedras, em que podemos saltitar de umas para as outras. Os afloramentos rochosos são fantásticos.

E vemos árvores negras despidas, outras inclinadas. O clima não perdoa. Indiferentes a ele, as vacas barrosãs e os cavalos garranos seguem nas suas vidas. Surpreende ver uma vaca descobrindo alimento mesmo em cima de um penedo. Outras passeiam juntas e assustam-se à nossa passagem, talvez não esperando que uns malucos caminheiros ali aparecessem com um tempo destes.

Os últimos 4 quilómetros do trilho são sempre a descer e o último segue pela estrada. À aproximação da aldeia da Peneda vemos uns prados com um tapete de um verde intenso, apenas perturbado pelos muros de granito que dividem as pequenas propriedades.

A cor é garantida pela chuva, sim, mas também por se situar na margem do rio da Peneda. Neste ponto o rio não parece correr muito tranquilo, encontrando no seu caminho uma série de pedras que tem de ultrapassar por vezes com alguma fúria. Na terra da pedra, não podia faltar um imenso monólito que servirá de arrumos – é ver a porta de madeira que lhe foi adossada.

Neste trilho da Peneda estão praticamente todos os elementos característicos do Parque Nacional da Peneda-Gerês: cascata, lagoa, rio, penedos, bosques, fauna, aldeias, espigueiros e socalcos. Na vizinha freguesia do Sistelo podem estar os socalcos mais conhecidos do Parque, mas estes da Peneda possuem um encanto muito próprio. E, junto ao Santuário, são uma bela forma de terminar este passeio pela natureza e modos de vida da serra, com mais um grande exemplo de como o Homem soube aproveitar as dificuldades dos terrenos para os transformar, vencendo engenhosamente os desníveis de forma a obter para si a maior área de terra possível para a agricultura, garantindo a sua subsistência e sobrevivência.

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Pela Penedia de Lamas de Mouro

Lamas de Mouro é uma aldeia no concelho de Melgaço e uma das portas oficiais do Parque Nacional Peneda-Gerês. Do centro recepção, que é também um lugar de recreio com um bosque de uma qualidade cénica incrível, parte um trilho circular de cerca 14 kms de dificuldade moderada pelos penedos graníticos da serra.

Logo nos primeiros metros, ainda antes de iniciarmos a subida serra adentro, uma pequena cascata aguarda-nos, lembrando-nos que nestas paragens nunca estamos muito longe de um rio ou ribeiro. A água, em especial o seu correr tranquilo e o som que transporta, é uma presença reconfortante.

A subida, embora um pouco longa, não é difícil. Começámos por nos distrair apreciando Lamas de Mouro ao fundo na encosta. Por enquanto está à distância de um olhar distante, mas havemos de a atravessar no regresso à Porta mais a norte do nosso único parque nacional, distante dela quase 2 quilómetros.

A distracção prossegue tentando imaginar o que nos sugere a forma dos inúmeros blocos graníticos da serra. Podem ser uns dedos, uma cabeça ou qualquer outra coisa para onde guia o nosso pensamento já imerso em pura evasão.

Mas eis que, rompendo o cinzento granítico, surgem as cores do Outono. A vegetação rasteira em tons verdes, castanhos, amarelos e vermelhos antecipa a entrada num lindo bosque de vidoeiros. Se até aqui lamentávamos o facto de o dia estar nublado e chuvoso, no meio deste bosque – e de outros que se seguiriam nos dias seguintes – este clima agreste e mais inóspito faz todo o sentido. É ele que lhe dá esta paleta e todo o carisma.

O Pico da Fanqueira, a 1175 metros de altitude, surge em destaque diante de nós, uma série de pedras que parecem ter sido empilhadas propositadamente para o fazer mais alto e elegante. Nós, porém, caminhamos um pouco mais baixo, a apenas 1097 metros, ainda assim mais alto do que o planalto Castro Laboreiro que agora nos toca avistar. O cenário é fabuloso. Não apenas pelas imagens que nos são oferecidas, mas também pela sensação de estes serem caminhos pouco pisados por outros que não alguns dos seus habitantes que ainda mantém uma vida dura de trabalho da terra. Mas nós não, nós estamos aqui por prazer e à dureza da vida daqueles que são nossos anfitriões mostramos respeito.

Na área de lazer de Veigas, à entrada da povoação de Várzea Travessa, fazemos uma paragem para um lanche numa das mesas junto à antiga casa da Guarda Florestal.

As vacas barrosãs a pastar livremente e os cães Castro Laboreiro (alguns presos, mas muitos docilmente à solta) cruzam o nosso caminho.

Há algumas povoações rente ao nosso percurso, mas apenas atravessaremos Portelinha. E Espanha é logo ali, talvez a menos de 50 metros de determinado ponto do nosso trilho junto ao rio Trancoso, por um caminho medieval por onde seguimos acompanhados por mais umas deliciosas cores de Outono. Foi esta fronteira imperceptível de diferença em termos paisagísticos que levou o escritor minhoto José Augusto Vieira a escrever “De cá nós! De lá vós!”.

Lamas de Mouro já não está distante e em breve a atravessaremos. O lugar é de povoamento muito antigo, como o atestam vestígios de dolmens e da cultura castreja. Diz-se que no século IX aconteceu aqui uma batalha contra os mouros, que estes perderam. Mas o nome, que é também nome do rio que por aqui passa, ficou: “Mouro”. Já “Lamas” virá das características do solo, cheio de lamas, pastagens de gado com água. Outros dizem que o nome “Lamas” derivará das lágrimas derramadas pelos mouros na dita batalha, que terá sido sangrenta. Seja como for, ficou Lamas de Mouro, aquela que no século XIV se terá tornado um couto da Ordem do Hospital e que durante muito séculos serviu de retaguarda à protecção do Castelo de Castro Laboreiro na defesa dos ataques inimigos na linha de fronteira.

Em Lamas de Mouro as vacas caminham ao nosso lado nas ruas pejadas de edifícios de granito onde muitos ainda reservam o primeiro piso para as guardar. As alminhas são outro dos seus elementos característicos.

Mas é a paisagem, sempre ela, que continua a surpreender-nos. Nesta foto se condensa muita da realidade da Serra da Peneda.

Prosseguindo caminho, à saída de Lamas de Mouro ainda somos brindados como a beleza sensível e pacata de um moinho muito bem conservado à beira do rio de Mouro, ao qual não falta sequer a companhia de uns esbeltos e distintos cogumelos.

Logo a seguir aparece a Ponte Romana de Porto Ribeiro. Atravessado o seu delicado arco seguimos os últimos metros da nossa caminhada sempre junto ao Rio de Mouro até ao centro de recepção das Portas de Lamas de Mouro. Já o havíamos antecipado logo no início deste texto, o seu bosque é belíssimo, a lembrar o Covão da Ametade, na Serra da Estrela. O curso de água rola tranquilo por entre um verde luxuriante, produzindo reflexos incríveis. Uma daquelas imagens que certamente nos acompanhará durante toda a nossa vida.

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