Pela Serra de Sintra, com início e fim na Barragem da Mula

Outro lugar onde vamos querer voltar rapidamente em tempos de desconfinamento é a Sintra. Sintra é infinita. Não nos cansamos nunca de a correr porque ela é imensa no que há para descobrir (e já a registámos diversas vezes aqui no blog). Desta vez vamos pelos trilhos da Serra de Sintra desde a Barragem da Mula em direcção aos Capuchos, ainda a aguardar que o “novo” Convento reabra depois dos tempos de restauro, com volta larga até ao ponto inicial.

A Barragem da Mula, ponto de partida para muitos caminhos, retém por momentos a água do Rio da Mula, rio que nasce na Serra de Sintra e que após uns breves 10 kms de curso desagua no Atlântico. Esta barragem envolta pela natureza não está disponível para actividades aquáticas, mas as caminhadas junto a ela servem bem qualquer propósito de evasão.

Seguimos por uma curta subida por entre pinheiros e eucaliptos com a água desta espécie de lago ao nosso lado. E haveremos de a contornar até meio, de forma a melhor observarmos a barragem de outro ângulo.

O fio de água do Rio da Mula é bem estreito, a maior parte das vezes até nem damos por ele, mas as pequenas pontes de madeira sucedem-se. Algumas delas num estado tal que é um convite descarado a meter o pé na poça.

Só que muitas destas pontes até estarão aqui colocadas não para se atravessar algo, mas para tornar o trilho mais atraente e desafiante para o pessoal do BTT. Estes trilhos não são propriamente o lugar ideal para se caminhar confortavelmente apartado do mundo. Porque são difíceis de vencer a pé sem recurso à ajuda de bastões, por exemplo, e porque pode vir de lá lançada uma bicicleta a voar e aterrar mesmo em cima de nós. Mas enfim… fui lá parar não sei como, talvez por falta de sinalização ou por falta de atenção à sinalização, e por aí segui com sorte de não me cruzar assim com tantos radicais da bicla.

A melhor alternativa, embora não tão bonita como o intenso mergulho na floresta de trilhos, é seguir pelo estradão de terra aberto propositadamente para os caminhantes e para os ciclistas menos afoitos.

Mas depois de uns quantos metros pelo estradão com arvoredo de ambos os lados, logo voltamos à imersão na floresta. Uma relativamente extenuante subida num ambiente incrível leva-nos na direcção do Monge. Aqui ficam os Tholos do Monge, um monumento megalítico a 490 metros de altitude. Não há vistas, porém, uma vez que estamos mais uma vez rodeados de vegetação.

As vistas aparecerão mais adiante. Depois de percorremos mais um estradão com os troncos das árvores cobertas de hera, uma nesga deixa-nos vislumbrar a Costa de Sintra, com a forte ondulação a tornar branco o azul da água.

Após uma boa estirada por tapadas, num percurso circular que nos levará de volta ao ponto inicial, subimos até à Pedra Amarela. Aqui sim, as vistas são desimpedidas e soberbas. Para o Atlântico, para a Peninha, para a Pena, para tudo. O ambiente é incrível e as próprias rochas deste alto a 408 metros ajudam ao cenário.

Do Monte da Pedra Amarela até à Barragem da Mula é sempre a descer. Aqui a floresta está neste momento tristonha. Muito terá ardido em incêndios recentes e muitas espécies invasoras ajudaram à desolação. Um exemplo: após o grande incêndio de 1966 na Serra, foram aqui introduzidas espécies exóticas que se expandiram de forma agressiva, sobretudo a acácia, rivalizando e destruindo a vegetação prévia. Nos últimos anos tem estado em andamento um projecto de reflorestação desta parte da Serra de Sintra, para que possamos usufruir da exuberância e equilíbrio pela qual é conhecida. Outro aspecto menos agradável é o barulho intenso e constante produzido pelos carros no autódromo. Não tem piada nenhuma este outro tipo de espécie invasora do ambiente, impossibilitando melodias mais condizentes.

O Parque da Pedra Amarela e seu Campo Base é um parque aventura com muitas actividades, como slide, pista de arborismo, escalada, rappel e orientação, entre outras. Não nos aventurámos em nenhuma delas e subimos antes até à elevação directamente acima da barragem. São as vistas, sempre elas, que nos movem. E aqui nós deixámos ficar a apreciar o esplendor natural da Serra de Sintra, até que, saciados de beleza, iniciámos então a descida dos últimos metros dos cerca de 11 kms deste passeio com início e fim na Barragem da Mula.

As Praias da Arrábida

Com a quarentena a dar as últimas, o desconfinamento em marcha e o Verão a chegar, a Arrábida é o sítio para se estar. Aquela natureza recôndita, serra parelha do mar, vegetação de um verde vivo só superado pelo irreal azul do Atlântico, é um bálsamo em qualquer época da vida, transformado agora em prémio pelas provações vividas em tempos de isolamento.

O Parque Natural da Arrábida, dividido entre os concelhos de Sesimbra, Setúbal e Palmela, é de uma diversidade incrível, não apenas no que diz respeito à fauna e flora. Falo de lugares como o promontório do Cabo Espichel, serras rochosas e escarpadas e serras interiores, baías inacessíveis e outras oferecidas, todas de água transparente, fortes, conventos, castelos e povoações de arquitectura rural onde a vinha e o queijo são delícias populares. E vistas de tirar o fôlego. Tudo para se ir descobrindo lentamente, voltando repetidas vezes, de preferência para se caminhar nos seus inúmeros trilhos.

A época de maior calor não é, contudo, a mais aconselhada para se caminhar a céu aberto, pelo que seguimos de carro à descoberta das praias mais facilmente acessíveis da Arrábida, entre Sesimbra e Setúbal, não dispensando, porém, largas caminhadas entre elas, sempre junto à costa.

Entrando por Azeitão, ziguezagueamos pela estrada numa descida até ao mar. Aldeias e casarões escondidos nos montes cobertos de uma carapinha verde, uma pedreira aqui e ali – o único elemento negativo do Parque Natural -, e logo o nosso olhar é roubado. Já falei daquele azul do mar?

A primeira paragem que propomos é na Praia de Alpertuche, imediatamente antes da descida para o Portinho da Arrábida. Para se alcançar esta pequena praia escondida no meio da vegetação e dos rochedos há que caminhar por uma estrada de terra batida só acessível aos veículos dos proprietários das casas aí situadas e, depois, descer um breve trilho completamente envolvidos pela natureza. Umas nesgas no arvoredo vão-nos preparando para o cenário lá em baixo junto ao mar. Esta praia mínima com uma espécie de chalet em plena areia tem uma série de pedras e a vista típica das arribas e cor do mar da Arrábida.

Logo a seguir fica um dos lugares mais surpreendentes do Parque, a Lapa de Santa Margarida. Descemos sucessivos degraus em pedra construídos por um ermitão, mais uma vez totalmente engolidos pela vegetação, passando por rochas e cactos curiosos, até chegarmos à beira mar e, deitando-lhe costas, nos aventurarmos a entrar por um buraco aberto na parede da rocha.

É então que deparamos com uma enorme gruta, com uma capela no seu interior, um cenário misterioso com as veias da rocha a tomarem formas incríveis. Esta gruta tem a tal abertura na rocha e tem, ainda, uma abertura directa para o mar que mais parece uma janela. Uma janela natural por onde em tempos idos os pescadores vinham nos seus barcos em peregrinação para orar neste lugar absolutamente recolhido.

O Portinho da Arrábida é exíguo no seu estacionamento, por isso é boa ideia deixar o carro perto da Lapa e seguir a pé até à baía mais famosa da Arrábida. Passamos o Forte de Santa Maria da Arrábida, hoje Museu Oceanográfico, construído no século XVII para defesa do pequeno porto e do convento mais acima, e logo temos aos nossos braços aquela paisagem imensa. A encosta verde da serra a cair delicadamente no azul do mar. E a água tão transparente. A diversidade marinha é grande e o Portinho é um bom lugar para mergulho. E é também o local ideal para uma paragem para almoço num dos seus restaurantes antes ou após uma caminhada pela longa Praia do Creiro, à qual não falta sequer uma estação arqueológica, uma antiga fábrica romana de salgas de peixe.

A areia do Creiro é branquinha, branquinha, mais um tom para a palete perfeita. Vale a pena percorrê-la de uma ponta à outra, avistando a ilhota da Anicha, querendo sempre chegar um pouco mais adiante, embrenhando-nos nas rochas em busca de um refúgio ainda mais isolado. Não se pode, em situação alguma, subir às falésias, apesar da vontade de tentar chegar à próxima praia. Solução? Ir a nado.

Ou voltar para o carro e seguir pela estrada com pontos de vista lindíssimos até ao início do trilho que nos leva à Praia dos Coelhos.

Uma delícia caminhar por estes sítios, rumo a praias abrigadas com águas azuis-esverdeadas de uma transparência e tranquilidade sem limites.

Da Praia dos Coelhos, diversos trilhos totalmente protegidos pela vegetação transportam-nos até às Praias dos Galapinhos e dos Galapos. Mais do mesmo. Sendo que este mesmo é o máximo.

Depois dos Galapos fica a Praia da Figueirinha, a mais popular e acessível das praias da Arrábida, já à porta de Setúbal. Mas optámos, antes, por entrar em Setúbal seguindo pela estrada mais acima na serra, aquela que dá acesso ao Convento da Arrábida.

É aqui que a Arrábida nos é oferecida em todo o seu esplendor. Não apenas nos sucessivos miradouros que se abrem no horizonte nesta estrada espectacular, mas também no misticismo da Serra, que desde o século XVI se habituou a ser lugar de conventos. Hoje resta o Convento da Arrábida, antigo convento franciscano escondido na vegetação com vista para o Atlântico, mas chegaram a ser nove, testemunho de uma vida espiritual intensa, onde os ermitas se recolhiam em meditação e oração. E restam as inúmeras cruzes cravadas nas encostas. Há quem defenda que o topónimo Arrábida provém da palavra árabe “arrábita”, cujo significado é “local de oração”. José Tolentino Mendonça escrevia em artigo relativamente recente no Expresso que “O mais difícil não é ir à Arrábida. Difícil, difícil, é entendê-la: porque boas praias, boas sombras e boas vistas há-as em toda a parte… O que não há em toda a parte é a religiosidade que dá à Serra da Arrábida elevação e sentido”.

Certa de que não a entendi por inteiro, talvez desculpa para lá voltar, termino com as fáceis paisagens. Depois de uma piscadela de olho a Lisboa para além do largo Tejo, um abraço ao Sado como despedida breve da Arrábida.

Passadiços do Alamal

Os Passadiços do Alamal já cá andam há muitos anos, mas desde os incêndios de Agosto de 2017 que assolaram a região ganharam uma nova cara, nomeadamente no que à acessibilidade para todos diz respeito, incluindo aqueles com mobilidade reduzida.

Obra premiada do gabinete de arquitectura Proap, encomendada pela Câmara Municipal do Gavião, o Parque Fluvial da Quinta do Alamal é uma pequena maravilha no Tejo.

Para lá chegar descemos um vale encaixado nas colinas graníticas onde à natureza se juntou uma barragem que fez inundar um pouco mais o Tejo. Estamos na margem esquerda do rio e na praia fluvial, onde encontramos o Alamal River Club, a unidade de alojamento que ocupa, precisamente, a antiga quinta.

Da praia fluvial, onde não falta sequer uma língua de areia branca, parte um percurso sobre passadiços de madeira de cerca de 1800 metros de comprimento, até à ponte de Belver, com o seu característico tabuleiro metálico verde. Este percurso, que a câmara pretende ver prolongado, é parte do PR1, “Arribas do Tejo”, mais longo, circular e com passagem por ambas as margens do rio. Mas nos passadiços caminhamos sempre pela margem esquerda do Tejo. E quase sempre com a companhia da imagem fabulosa do belo castelo de Belver na margem contrária.

O passadiço, encostado muitas vezes à rocha de granito que faz parte da paisagem juntamente com o rio, vai ganhando forma, curvando onde tem de curvar e estendendo-se livremente onde pode. A vegetação sobre ele vai variando, com árvores, flores ou canas, zonas mais protegidas ou mais abertas. Encontramos até um pequeno e discreto curso de água a rolar sobre umas pedras com musgo verde.

Mas é, no entanto, a água do grande Tejo que vai dominado a paisagem. E o castelo, claro. Uma beleza natural (bem) moldada pelo homem.

Treetop Walk Serralves – caminhar nas árvores

Serralves é sempre uma visita obrigatória numa passagem pelo Porto. Mas desde Setembro do ano passado há mais uma desculpa para lá voltar. Centro de Arte Contemporânea e lugar para se apreciar arquitectura de excelência, há que não esquecer que Serralves é também em grande parte o seu parque. E se já nos encantava perdermo-nos nos muitos caminhos do seu parque, temos agora a possibilidade de caminhar ao nível da copa das suas árvores.

O Treetop Walk de Serralves, criado no ano em que a Fundação celebrou os seus 30 anos, tem apenas 250 metros de passadiços de madeira, mas cada passo sobre eles é dado sob um prazer imenso e sem fim. É uma experiência verdadeiramente diferente de usufruto da natureza, levando-nos a percorre-la através de uma perspectiva única.

O projecto foi desenvolvido pelo arquitecto Carlos Castanheira em colaboração com o arquiteto Álvaro Siza Vieira, e em primeira instância pretende sensibilizar os visitantes para a protecção e a preservação da biodiversidade do ambiente natural do Parque de Serralves. Vamos ficando ao nível das copas dos carvalhos, ciprestes e sequoias, caminhando sob o canto dos pássaros, enquanto que lá em baixo, no lago, vemos os patinhos a desfilar. A altura dos passadiços chega a tomar 25 metros. Um pouco mais distante apreciamos os prados de Serralves e uma nuvem de prédios mais ao fundo. Diz-se que até o mar se chega a avistar, mas não nos tocou essa vista.

Estes passadiços foram construídos no respeito e integração com a natureza, com o uso de madeira reciclada, e os seus pilares, por exemplo, foram instalados de forma a permitirem que as raízes das árvores cresçam naturalmente, sem barreiras.

Ao caminhar no alto, junto aos ramos das árvores, apreciamos ainda melhor as suas cores. Cores essas que, graças às estações do ano, ganham novas tonalidades a cada temporada. O preço do bilhete de Serralves, mesmo que apenas para visitas ao seu Parque, é puxadinho, mas sendo a entrada nas manhãs do primeiro domingo de cada mês gratuitas não há desculpas para não vir caminhar sobre as árvores. Repetidamente.

Da Vila de Sintra ao Castelo dos Mouros

Não há melhor forma de circular por Sintra do que a pé. Em tempos já tínhamos escrito aqui sobre a jornada até ao Palácio da Pena desde o centro da vila através do caminho da Vila Sasseti. Desta vez seguimos caminho com partida desse mesmo centro com passagem pela entrada do Palácio da Pena, visita ao Castelo dos Mouros e volta ao ponto inicial, de forma circular, aproveitando as “Pequenas Rotas” do PR2 (Percurso da Pena) e PR3 (Percurso do Castelo). Coisa para uma manhã em cheio.

Saímos do largo do inigualável Palácio da Vila, o mais antigo palácio português, com origem no primitivo paço dos antigos governadores mouros da Sintra do século X, já com o Castelo dos Mouros sob mirada lá no alto, com alguns dos palacetes que fazem a fama de Sintra sob o seu colo.

E logo tomámos as estreitas ruas da vila, cheias de cotovelos, até chegarmos ao miradouro da Ferraria. Daqui, uma vista diferente mas igualmente próxima do Palácio da Vila, com as suas distintas chaminés. Ultrapassado mais um chalet apalaçado e damos com a Fonte da Sabuga.

São muitas as fontes que se vão vendo pelos caminhos de Sintra, mas esta fonte medieval reconstruída no século XVIII será a mais chamativa e célebre das fontes de Sintra, reconhecida ainda pelos seus poderes milagrosos. Está decorada com um tom azul e o dourado do sol que a encima retém a nossa atenção, bem como a pedra de armas de Sintra logo acima.

Após uma breve subida com vista para a planície das terras de Sintra, chegamos a um recanto mais recolhido da vila, onde ficam a Igreja de Santa Maria (do século XII, em estilo românico-gótico), a Casa do Adro (onde em 1866 viveu Hans Christian Andersen) e o Convento da Santíssima Trindade (hoje residência particular sem visitas ao público). E pelo meio uma casa com uma fachada curiosa.

Mais umas centenas de metros e a São Pedro de Penaferrim vê-mo-la lá em baixo. A estrada continua e segue-se um trilho com algumas árvores caídas, certamente consequência de temporal recente, que nos leva ao topo do Monte Sereno com seu castelo particular. Daqui avista-se já do outro lado o Castelo dos Mouros. E com pouca demora perceberíamos que do Castelo dos Mouros também se observa livremente o castelinho do Monte Sereno, como se mantivessem ambos um diálogo próximo e constante.

Na subida pela Calçada da Pena encontramos, por fim, veículos motorizados, carros particulares, autocarros e tuk-tuks, muitos tuk-tuks. Mas aqui encontramos também a vegetação cerrada da Serra de Sintra. Passamos pela entrada do Palácio da Pena, apreciando o colorido do seu edifício pintado num céu azulíssimo, e um pouco mais adiante eis o Castelo dos Mouros. Ao invés de seguirmos directamente para a sua entrada, vale a pena espreitar a casa do guarda junto à segunda cintura de muralhas (para incremento da área fortificada e protecção da população e bairros que se instalaram na vertente), com bar esplanada, e deambular pelo caminho que descerá até ao centro da vila para mais um miradouro com belas vistas.

De volta em direcção ao Castelo, não nos cansamos de apreciar as formosas rochas que são também elas parte da paisagem de Sintra.

Imediatamente antes da entrada do Castelo dos Mouros recebe-nos a Capela de São Pedro com o seu Centro de Interpretação da História do Castelo dos Mouros, um pequeno museu com achados arqueológicos. Nas imediações da capela percebemos umas estruturas escavadas na rocha que serviram há séculos para armazenamento e conservação de cereais e leguminosas. Por aqui estava o primitivo bairro medieval islâmico, mais tarde lugar de uma necrópole cristã, hoje transformado numa área arqueológica.

A passagem pelo pano de muralha mais imponente do Castelo dos Mouros faz-nos entrar num outro mundo, transportando-nos pela história.

Corria o século VIII quando, numa vertente mais elevada da Serra de Sintra, a cerca de 400 metros de altitude, os muçulmanos decidiram construir aqui uma fortificação de defesa do seu território após a conquista da Península Ibérica aos visigodos. O castelo terá funcionado como atalaia de controle da costa atlântica e dos territórios a norte, desempenhando a função de posto avançado da cidade de Lisboa. Mas, após anos de disputas, quer a fortificação quer o território acabaria por ser perdido para os cristãos no século XII, com a conquista definitiva por D. Afonso Henriques em 1147, tendo nessa época sido edificada a primeira capela cristã de Sintra, dedicada a São Pedro. As muralhas foram objecto de restauro no período romântico, por volta de 1860, sob a direcção Dom Fernado II, que arborizou igualmente os espaços envolventes. É interessante aprender que a vegetação intensa que caracteriza a Serra de Sintra dos nossos dias é um fenómeno recente. E nisso, como em muitos outros aspectos em Sintra, com destaque para o Palácio da Pena, a acção de D. Fernando II, o Rei Artista, foi decisiva. Nessa época a Serra tinha um aspecto nu, sem a vegetação primitiva de carvalhos, provavelmente em consequência da expansão de actividades como a pastorícia e a agricultura e da exploração florestal pela procura de lenha, carvão e madeira. Só no século XIX, com a chegada de D. Fernando II, inspirado pelo Romantismo, foi a Serra de Sintra reflorestada, com a introdução de espécies exóticas, tendo igualmente dado início à moda da criação dos jardins “à inglesa”. A paisagem de Sintra transformou-se no que vemos hoje e, para além dos muitos palacetes e seus jardins, ao lado dos autóctones carvalhos temos acácias, araucárias, plátanos, fetos, pinheiros, eucaliptos e ciprestes.

E porquê esta referência à paisagem de Sintra quando dizíamos ter entrado no Castelo passando pela sua porta muralhada? Porque o Castelo dos Mouros, não desfazendo a sua história, tem tudo a ver com paisagem. São vistas e mais vistas, todas elas fabulosas, fazendo-nos pensar que a vida se resume a isso: a uma paisagem, a paisagem de Sintra.

Ao caminhar pela muralha quase nunca perdemos de vista o Palácio da Pena, mas enquanto que da Alcáçova e Torre de Menagem temos a vila de Sintra aos nossos pés, contornando-a para seguirmos, subindo, até à torre do lado contrário, a Torre Real, ficamos com a Quinta da Regaleira e Seteais à nossa beira e o mar, esse, com todo o Atlântico da costa de Sintra sempre no nosso horizonte próximo.

É, pois, um prazer caminhar pela muralha do Castelo dos Mouros. Prazer maior ainda é deixarmo-nos estar na Torre Real, imitando D. Fernando II na sua época a contemplar a Pena, mas não a pintar a Serra.

Descendo a muralha, ao invés da passagem pelo extenso terreiro da Praça de Armas optamos pelo caminho rodeado de vegetação e grandes e bonitas rochas para chegar até à saída do Castelo.

Já cá fora, a volta ao centro da Vila inicia-se com uma curta passagem pelo interior da Tapada dos Bichos. Há que seguir a caminhar com atenção para não perder as vistas quer para o Palácio da Pena quer para o Castelo dos Mouros, por entre as árvores.

Depois o percurso segue por estrada, pela Rampa da Pena, cheia de curvas e mais curvas. E vários chalets, como o Chalet do Relógio e o Chalet Biester com os seus torreões a lembrar um palacete. No fim da descida da Rampa da Pena aí temos, então, o final da nossa jornada com a chegada ao centro histórico de Sintra. E aí termina o sossego e a sensação de solitude que vivemos antes, quando estivemos embrenhados na Serra.

Uma caminhada pela Peninha

São incontáveis os percursos pedestres que se podem inventar pela Serra de Sintra, mas alguns deles estão oficialmente demarcados. Assim, embora da Peninha possamos sair a caminhar em direcção a cada um dos pontos cardeais, o PR10 está montado para nos por a caminho da natureza e do património de forma circular por cerca de 4,5 kms. São menos de duas horas a gastar a sola, incluindo paragens demoradas para gastar os vários sentidos.

Até chegarmos ao estacionamento do Santuário da Peninha, onde tem início esta caminhada, seguimos de carro pela estrada totalmente protegidos pela vegetação carregada. Umas abertas, logo transformadas em miradouros, permitem-nos ir acostumando à paisagem que teremos lá de cima. Primeiro uma vista para as águas da albufeira do Rio da Mula e Palácio da Pena, depois uma vista para o Guincho e Cascais.

O trilho inicia-se com uma breve subida com o Santuário à nossa direita a confundir-se com as rochas e ramagem de ambos os lados. E, de repente, deixamos de ter a protecção dessa ramagem e tudo se revela. O cenário imenso da costa do Guincho aos nossos pés.

Estamos a uns 466 metros de altitude, a literatura científica não revelou ainda qualquer efeito desta altitude na falta de oxigénio, mas, de qualquer das formas, a nossa respiração é facilmente cortada com esta paisagem do recorte da costa em conjugação com o azul do mar.

Subimos a escadaria do Santuário da Peninha, instalado num penedo a 486 metros de altitude, e daqui de cima as vistas conseguem ser ainda maiores, porque agora se abrem para todos os lados, do Cabo Espichel às Berlengas, passando pelo Cabo da Roca, numa imensidão total. Podemos não identificar quer o Espichel quer as Berlengas, mas em dias de céu azul as vistas desde Lisboa à Ericeira são garantidas.

A Capela de Nossa Senhora da Penha confunde-se, no seu exterior, com o cinzento das rochas, já se disse, mas alguns acrescentos posteriores de edifícios anexos, nomeadamente um palacete, têm um tom amarelo vivo que ganha um relevo muito grande na paisagem. As origens do lugar, onde foi instalada uma primitiva ermida, remontam ao século XII, mas a capela tal como a conhecemos hoje começou a ser edificada no século XVII. Se a sua arquitectura exterior vale mais pelo seu lugar de implantação, diz que o seu interior é, esse sim, um deslumbre só por si. O Santuário está votado ao abandono e a capela fechada, impedindo-nos assim de conhecer os mármores e azulejos azuis e brancos que revestem o interior da Capela de Nossa Senhora da Penha.

Deixado o Santuário para trás, após passarmos pela Ermida de São Saturnino escondemo-nos da paisagem e envolvemo-nos numa mata cerradíssima, num pequeno trilho conhecido como trilho da Viúva. São apenas cerca de 500 metros sempre a descer e pensamos que ainda bem que o trilho é circular e não o teremos de subir. Isso para bem das nossas pernas, porque de resto não nos importaríamos de aí voltar vezes sem conta.

O lugar é belíssimo, todo ocupado com árvores sem deixar ver o céu, um daqueles pedaços onde se sente todo o poder e magia da natureza. Lugar fresco e escuro com raios de sol a tentarem penetrar, a humidade faz-se sentir e pingos da água soltam-se das árvores e plantas e caem sobre nós. Esta é uma zona de cupressal, com cedros do Buçaco plantados na tentativa de reflorestação da Serra de Sintra, muito sujeita a incêndios, e encontramos ainda fetos e folhas de hera.

Quando acaba a descida mágica viramos à direita na estrada florestal. O denso arvoredo mantém-se, passamos por um pequeno lago com algas verdes e logo chegamos a uma mata com mesas para piqueniques. Um pouco mais para lá dela e encontramos o desvio para Adrenunes.

A vegetação não nos larga, mas é incrível constatar como ela vai variando na sua forma. Agora é como se o arvoredo nos fechasse, formando um túnel natural onde em alguns pontos nos temos até de agachar. E, passado um tempo, a vegetação deixa de nos cobrir, sentimos o sol forte sobre nós e ganhamos a vista de mar ao fundo.

A Anta de Adrenunes está classificada como Monumento Nacional. No entanto, ainda não é claro se este conjunto de rochas é uma formação natural ou obra do Homem, o que leva alguns a considerar que é errado designá-la por anta. Terá, todavia, sido utilizada como necrópole, facto que induz a que o considerem um monumento megalítico. O que é claro é que este amontoado de rochas perdido no meio da vegetação da Serra de Sintra é esbelto. Não é fácil circundá-lo, precisamente pela vegetação que tomou o lugar, e é impossível adentrá-lo – não há espaço na rocha. Mas com perseverança subimos as suas rochas empilhadas e percebemos o marco geodésico que foi instalado no seu topo. Daqui a nossa vista alcança o Palácio da Pena, o Santuário da Peninha e o Cabo da Roca e a Adraga.

A Anta de Adrenunes é ainda um lugar de nidificação de aves.

No caminho de volta apreciamos mais uma vez a vegetação rica em plantas medicinais e aromáticas e voltamos a entrar na zona de mata de volta ao ponto de partida, com os carvalhos e as acácias a dominarem. Antes da chegada, porém, uma passagem e paragem pelas Pedras Irmãs.

É mais um lugar com uma aura misteriosa, com as imensas e formosas rochas preenchidas de musgo verde e rodeadas de ciprestes e carvalhos a darem mais um contributo para o encanto que costumeiramente é reconhecido à Serra de Sintra.

Os Passadiços de Esgueira

“A alma desta terra é na realidade a sua água. A ria, como o Nilo, é quási uma divindade. Só ela gera e produz.” – Raul Brandão, Os Pescadores

Acordámos na Torreira e pedalámos até São Jacinto, sempre junto ao amanhecer dormente da Ria, com os flamingos ainda a espreguiçarem-se. Como pedalar nas dunas não é para meninas, de São Jacinto retivemos apenas uma espreitadela à sua praia e logo apanhámos o barco até à Gafanha para daí pedalarmos até Aveiro.

Após um breve almoço num dos restaurantes do colorido Canal da Praça do Peixe partimos do Cais de São Roque rumo ao Cais de Esgueira, a menos de 2 quilómetros, ponto inicial oficial dos novos Passadiços de Aveiro. Estes passadiços, mais conhecidos pelos Passadiços de Esgueira, foram inaugurados no Verão de 2018 e são sete quilómetros lineares quase sempre sobre estacas de madeira assentes sobre a Ria até Vilarinho de Cacia.

A paisagem é sempre fenomenal, uma natureza em estado bruto feita de canais, esteiros, charcos, sapal, zonas tão baixas que as mais das vezes os barcos atracados não flutuam, antes estão enterrados na Ria, talvez para a melhor sentir, como que dizendo “este pedaço de paraíso é nosso”.

O percurso é muito fácil e extremamente prazeroso. No caminho temos bancos para descansar ou fazer um piquenique. E por vezes saímos da madeira para pisar a terra adentro na floresta. Mas logo voltamos para bem perto da Ria.

O final destes passadiços, enquanto não forem ligados aos trilhos do concelho de Estarreja, acontece no cais de Vilarinho. Apesar do estaleiro de obras montado por altura da nossa passagem, este é um lugar incrivelmente tranquilo e é aqui que o rio Vouga desagua na Ria. É curioso pensar que há pouco mais de 1000 anos a Ria de Aveiro não existia e os rios desaguavam então directamente no mar, ao invés de primeiro se recrearem neste cordão lagunar paralelo à costa.

Retornando o caminho, repetimos as vistas mas tudo parece sempre novo e a beleza não cansa nunca.

Os barcos que aqui repousam são um espectáculo à parte, compondo de forma perfeita o cenário. Nesta foto vemos inscrita na madeira a expressão “andar à rola” e muitas outras nos aparecem no caminho, para que à experiência pela natureza se junte também umas pitadas da cultura regional.

Mas a natureza, mais especificamente a sua biodiversidade, é a grande protagonista. São dezenas de milhar as aves migratórias que para aqui vêm nidificar, fazendo deste um lugar privilegiado para se observar aves. Deviam estar escondidas à nossa passagem, mas já estávamos de barrigudinha cheia com tanta beleza.

No entanto, de volta ao centro de Aveiro ainda lá cabiam mais uns doces de ovos moles e uma tripa, para repor devidamente as energias dos 136 quilómetros em dois dias a pedalar de bicicleta entre Espinho e Aveiro.

Na Ria de Aveiro pelos trilhos da Murtosa

“A laguna (…) iria formar um acidente único, sem parceiro na Península. Tudo isto se passou nos tempos da formação da nacionalidade. Podemos dizer com orgulho que a Ria de Aveiro e Portugal se formaram ao mesmo tempo. Nasceram simultaneamente por alturas do século XII e poderíamos dizer, fantasiando um pouco, que, enquanto os nossos primeiros Reis e os seus homens iam dilatando as terras peninsulares, a Mãe-Natura ia conquistando ao mar esta jóia prodigiosa que generosamente viria ofertar às nossas terras alavarienses”

Orlando Ribeiro, Origens da Ria de Aveiro

Da Praia de Esmoriz seguimos até à Murtosa. Passámos pelas praias e povoações da Cortegaça e Furadouro (uma das “praias obscuras” de Ramalho Ortigão) ambas, a par da Torreira, com características semelhantes: uma larga avenida que vai dar até ao mar ladeada com edifícios de todo o género. Um ou dois pisos, com ou sem azulejos, varandas ou varadins, uns em art nouveau, outros modernistas, outros até contemporâneos. Uma amálgama total não apenas de épocas construtivas, mas sobretudo de gostos.

Até se chegar ao Canal de Ovar, já a cheirar a Ria de Aveiro, a Cicloria leva-nos a pedalar uma vintena de quilómetros por uma estrada no meio do pinhal, afastada do mar. Não sentimos o odor a maresia, mas o cheiro dos pinheiros não lhe fica atrás em sentimento. Chegados ao dito Canal de Ovar a água passa a acompanhar-nos à esquerda e na estrada chamam-nos a atenção os barquinhos típicos aí atracados e as bancas com as senhoras a vender fruta e legumes. Por ocasião da povoação Quintas do Norte atravessamos a ponte construída estrategicamente no ponto mais curto da Ria e iniciamos finalmente o passeio planeado pelos trilhos da Ria na Murtosa.

O projecto Murtosa Ciclável aproveitou caminhos rurais e ribeirinhos que já existiam e é por eles que seguimos a pedalar partindo à descoberta do coração da Ria. A Ria que Raul Brandão dizia ser “lago e mar ao mesmo tempo”.

A Ria de Aveiro é um acidente geográfico ocorrido há cerca de 1000 anos que resultou do recuo do mar, estendendo-se por cerca de 45 kms desde Ovar a Mira. Aqui desaguam os rios Vouga, Antuã, Boco e Fontão. Em 1808 foi aberto um canal artificial entre as povoações da Barra e de São Jacinto de forma a que a Ria comunicasse com o mar. E é esta ligação estreita, com a inevitável junção das águas, que faz deste espaço um habitat natural riquíssimo, um dos mais importantes ecossistemas húmidos da Europa, com uma enorme diversidade de flora e fauna no estuário e na laguna.

A natureza e as paisagens são grandiosas. De uma serenidade tocante. Os flamingos com as suas elegantes patas assustam-se, sem razão, à nossa passagem e logo abrem e fecham as suas asas vigorosamente, pintalgando de rosa o cenário com fundo azul. Esta foi a primeira imagem que nos tocou ao iniciar o trilho da Bestida e não mais a esqueceremos. Adoptámos os flamingos como mascotes do nosso passeio e sempre que os víamos parávamos e deixávamo-nos estar a contemplá-los em silêncio, para não voltar a perturbá-los.

Mais adiante, a Ria não apenas como espaço natural mas também como espaço de lazer. Uns barcos atracados no cais, outros soltos numa pequena enseada de areia e um papagaio no ar a puxar um homem sobre uma prancha. Estas águas acompanhadas do vento local são ideais para o kitesurf, entre muitos outros desportos náuticos.

Não temos um barco e por isso continuamos a pedalar, agora por um trilho ladeado por canas de feno e milho. Os terrenos da Ria são férteis e em tempos viam-se muitas terras cultivadas não apenas com milho, mas também trigo, feijão, chicória, couves e outras. Inclusivamente, algumas das ilhas da Ria eram usadas para a criação de gado e produção de sal. Hoje já nada disso se passa e é mais fácil ver uma ilha à venda do que gente a trabalhar a terra.

A Ribeira de Pardelhas é um dos lugares mais bonitos deste percurso. Deixamos de seguir junto à Ria por breves 2 kms para trocá-la pela Ribeira onde uns antigos armazéns deram lugar ao Centro de Educação Ambiental e à Associação dos Amigos da Ria e do Barco Moliceiro – com os incontornáveis barcos típicos atracados no cais -, para além de um parque de merendas e de um bar.

Já de volta à beira da Ria, a paragem seguinte é no Cais do Bico, o maior e o mais frequentado da Murtosa, uma vez que é também o mais acessível. Tem até uma praia de areia. Este foi em tempos um lugar de descarga de moliço, sal e materiais de construção, e até chegou a funcionar aqui um estaleiro naval. Nos dias de hoje continua a ser um lugar de poiso e apoio da comunidade piscatória local, mas agora num espaço modernizado.

Não muito distante encontramos novo cais, a Cova do Chegado.

Continuamos a pedalar até ao Cais da Cambeia e daí em diante entramos numa zona de esteiro, cheia de braços estreitos com vegetação rasteira na água. Não muito longe desta zona desagua o Rio Antuã.

Uns curtos passadiços levam-nos ao último cais do passeio, o Cais da Ribeira Nova. A natureza continua a imperar, mas vai sendo deixada para trás à medida que seguimos até ao centro da Murtosa onde fazemos a última paragem antes do término da jornada na Torreira. Da ponte de Varela até ao Cais da Ribeira Nova são à volta de belos 17 kms.

O Museu Municipal da Comur está instalado na antiga fábrica conserveira que marcou toda uma vida da comunidade local e impulsionou a economia da região. Foram as características específicas da Murtosa e da Ria que deram origem a esta fábrica, a Fábrica de Conservas da Murtosa, criada em 1942, mas foi sobretudo o período da II Grande Guerra Mundial, onde a procura por alimentos era imensa, o grande impulsionador do negócio. No museu aprendemos sobre todo o processo conserveiro, desde a chegada do peixe até à expedição das conservas. São diversas espécies de peixe, como a enguia – a imagem de marca da Comur -, mas também berbigão, mexilhão, carapau, tainha, carpa, truta, polvo, choco, lula, bacalhau e atum. Numa época como a de hoje em que o turismo – interno e externo – trouxe de volta antigas formas de saber-fazer e a (re)comercialização de produtos que pareciam esquecidos, é possível adquirir as coloridas latinhas de conservas da Comur em muitas lojas de conservas, incluindo no Museu da Comur e no centro de Aveiro.

Os Passadiços da Barrinha / Lagoa de Paramos

“Estava na carreira de tiro de Esmoriz. Não via o mar, mas sentia-o no peito dilatado. Perto de mim uma mouta de pinheiros novos; e as agulhas escorriam molhadas de fresco. Uma nora, um choupo. Ao longe barracas de madeira agrupadas – Páramos. Uma gaivota pairando sôbre um charco… Para o outro lado campos lavradios com milho rasteiro que sabe a ar salgado, casas de lavradores perdidas entre as sebes, de telhados muito baixos onde secam abóboras amarelas.”

Raul Brandão, Os Pescadores

Conhecidos por ambos os nomes, Passadiços da Barrinha ou Passadiços da Lagoa de Paramos, este pedaço de natureza em Esmoriz passou a estar desde 2017 no mapa das caminhadas.

É um percurso circular de 8 kms à volta de uma laguna com vista para o mar. Podemos percorre-lo a pé ou de bicicleta. Optámos pelas duas rodas, tomando o comboio Lisboa – Espinho e daqui pedalando os menos de 5 kms sempre junto ao Atlântico (não perder a imagem dos estendais no paredão da Praia dos Pescadores, talvez mais junto à areia do que às casas) até ao início dos novos passadiços junto à Praia da Barrinha.

Para a requalificação desta zona lagunar foi preciso esperar décadas pela eliminação da poluição vinda das fábricas das redondezas que aqui descarregavam, valorizando-se um lugar de claro interesse ambiental e beleza. A instalação dos caminhos de madeira que hoje proporcionam o usufruto deste espaço natural por parte de todos nós teve como preocupação a preservação do ecosistema, o qual não é perturbado nem pelos postos de observação de aves, nem pelo mobiliário urbano que vamos encontrando amiúde.

Esta é a maior zona lagunar do norte de Portugal, com 396 hectares. Dunas de um lado, canaviais do outro, água pelo meio. Nos céus, muitas aves. O passeio é feito quase sempre sob o canto dos pássaros, mas infelizmente por vezes esse canto é perturbado pelo zumbido irritante dos motores dos parapentes e avionetas que levantam voo do aeródromo vizinho.

O percurso é sempre plano, fácil portanto. Umas vezes aberto à paisagem, outras envolto na vegetação, com arvoredo de um lado e canavial do outro. Passamos por uma casinha rústica com um barquinho à porta num cais improvisado e, mais adiante, por vivendas com vista para a laguna.

A biodiversidade do lugar é grande e levou à sua classificação como Sitio de Importância Comunitária e integrada na Rede Natura 2000. Entre a fauna característica pode observar-se o pato, garça-real, lagostim vermelho, rouxinol bravo, lampreia-de-riacho, rãs, enguias, ginetas ou morcegos.

São muitos os pontos para se tirar belas fotos, mas a imagem mais icónica da laguna é a da ponte norte-sul de madeira em arco. Sobre ela temos uma vista quase completa de todo o percurso ciclável e sobretudo para o canal que rompe as dunas para ligar a água da laguna à do mar, a água doce à salgada – daí o termo “laguna” ser mais correcto do que “lagoa”. No lugar desta ponte havia uma outra, construída em 1854, que originalmente ligava as margens da Barrinha e à qual Júlio Dinis fez referência na sua obra “O Canto da Sereia”.

Da aldeia de xisto de Água Formosa até aos passadiços do Penedo Furado

Água Formosa é a única povoação do concelho de Vila de Rei integrante da rede das Aldeias de Xisto. E é a mais central, a 10kms quilómetros do centro geodésico de Portugal, ou seja, equidistante norte-sul e este-oeste dos limites da fronteira do nosso rectângulo.

Antes de tentarmos perceber o nome “Água Formosa”, e mais uma vez com a ajuda de uma olhada para o mapa, vemos que a aldeia fica perto do Rio Zêzere transformado em alfubeira de Castelo de Bode e não fica muito longe do Rio Tejo. No entanto, o seu nome vem de uma fonte de água pura alimentada pelas águas das ribeiras de Corga e da Galega, encaixadas num pequeno vale protegido por umas encostas de floresta. A água é um elemento sempre presente e foi ela que aqui fez fixar os primeiros habitantes.

A estrada que nos transporta até Água Formosa pára aqui, quer venhamos de um lado da aldeia quer do outro. Uma espécie de fim do mundo mas em versão boa. Natureza, tranquilidade e tradição é o que nos espera. E estas características andam todas de mão dada. A natureza – paisagem verde, som da água, rochas de quartzito e xisto – é a grande responsável pelo sossego e harmonia que aqui se vive. E ambos levam a que grande parte do edificado da aldeia esteja preservado e de pé, incluindo fornos a lenha, eiras, hortas e até água içada da ribeira desde o alto através de uma corda.

A qualquer passo pelas poucas e breves ruas da aldeia em sobe e desce se percebem os veios de quartzito e xisto a sair da rocha, os grandes alimentadores das pitorescas casinhas, muitas delas assentes directamente na rocha.

São menos de 10 os habitantes permanentes de Água Formosa, um pouco mais os sazonais e muito mais os visitantes. Há até algumas casas de alojamento local para aqui se desfrutar de uma noite bem dormida e uns dias bem passados.

Saindo de Água Formosa, em menos de 15 minutos chegamos à Praia Fluvial de Penedo Furado, depois de termos observado a paisagem do miradouro instalado no cimo do dito. O nome “furado” deve-se à abertura de forma afunilada no rochedo. A praia fluvial é uma das mais procuradas da região, de tal forma que no Verão fica difícil arranjar espaço para sentar na areia ou mergulhar na água transparente e impossível conseguir uma mesa para um piquenique.

Aqui começam uns dos mais recentes passadiços no nosso país. Por enquanto são apenas 532 metros lineares, mas a Câmara Municipal de Vila de Rei pretende alargar o percurso de forma a torná-lo circular. Podem ser poucos metros mas cada um deles merece a pena ser pisado com leveza de forma a melhor se apreciar a paisagem que os rodeia. Rochas selvagens envolvem-nos ao mesmo tempo que um fio de água da Ribeira de Codes corre sem pressa até ao encontro da alfubeira de Castelo de Bode, logo ali ao fundo.

O fim dos passadiços é acompanhado de um pequeno trilho que nos deixa face a face com uma cascata que cai para uma piscina natural. Subimos em sua direcção e no caminho vemos uns santuários erguidos no cimo dos montes-miradouros e mais ao fundo uma série de outras piscinas naturais e quedas de água. Dizem que aqui é o paraíso e pelo menos um casal lá em baixo, quase que escondido na vegetação, fazia por o tomar à letra.