Trilho do Vinho do Porto – 3° desvio à EN2

“Conheciam o Douro palmo a palmo, a íngreme dureza das suas encostas, o peso dos seus cestos vindimos, a luz mortiça dos seus lagares.” – Miguel Torga, in Vindima.

Não nos cansamos do Douro e insistimos em passear ao seu redor.

Perto de Lamego fica a aldeia de Samodães, sobranceira ao rio, onde tem início (e fim) o Trilho do Vinho do Porto, mais 8 kms fantásticos por esta inesquecível região. Esta caminhada circular não é inteiramente fácil, pois embora a primeira parte seja toda a descer tendo depois uma recta plana ao longo do rio, os seus últimos 2 kms são sempre a subir, num total de cerca de 2h 30m a dar à sola.

Descemos desde a igreja de Samodães sempre com o Douro na mira. Baixamos por entre caminhos protegidos por muros de xisto com vinhas logo ao lado. E fazê-mo-lo atravessando povoações, daquelas com meia dúzia de casas.

Já descemos bastante e olhamos para cima, confirmando que deixámos Samodães bem no alto. Lá em baixo corre o rio Douro, encaixado no vale, enquanto as encostas estão quase todas ocupadas por vinha. As linhas que a plantação das vinhas formam são uma beleza e todas diferentes. Não nos cruzamos com ninguém e começamos a chegar ao fundo do vale, rodeados de montes a enquadrar o Douro a toda a volta. Incluindo a Serra do Marão, imponente lá ao longe. Como escreveu Torga no seu “Reino Maravilhoso”, “Serras sobrepostas a serras. Montanhas paralelas a montanhas”.

É um cenário grandioso e sereno ao mesmo tempo, onde apenas o cacarejar das galinhas e o latido insistente dos cães vai ecoando. Aqui é-se feliz e nem a sensação de que à nossa passagem uma cobra se esgueira para dentro das vinhas nos perturba. Afinal, elas têm mais medo de nós do que nós delas.

O Douro já está quase à nossa beira e seguimos os últimos metros da descida pela estrada. Já a tínhamos avistado de cima, mas agora passamos mesmo ao lado do Six Senses, o hotel de luxo instalado na antiga Quinta do Vale Abraão que Agustina nos deu a ler e Manuel de Oliveira a ver.

Daqui abeiramos o Douro e seguimos durante cerca de 1,5 km sempre com ele ao nosso lado. Este rio é carismático e não nos cansamos de mirá-lo, ainda para mais sendo ele dono de reflexos incríveis que teima em oferecer-nos. Só um lamento: porque é tão difícil encontrar um lugar para nele mergulhar em segurança?

E chegou, enfim, o momento da grande subida. Grande em todos os sentidos. Extenuante fisicamente mas épica nas vistas. Um aviso: é obrigatório subir uns passos e ir parando para olhar para trás. Nem é preciso a desculpa do descanso, é mesmo por esta ser a parte do percurso mais estupenda.

Aqui caminhamos bem junto à encosta carregada de vinhas. Tão perto que percebemos um rapaz a trabalhar o terreno com o seu veículo empoleirado nos socalcos. Socalcos esses que o Homem há séculos teve a arte e o engenho de criar com poucos meios, cavando o terreno xistoso, assim transformando e moldando a paisagem da região do Douro a custo para que esta se tornasse a maravilha que os nossos sentidos hoje testemunham.

À medida que vamos subindo a paisagem vai ficando ainda mais bruta, socalcos, vinha e rio num cenário de montes a perder de vista. Um portão para o imenso convida-nos a espreitar os “íngremes socalcos, varandins que nenhum palácio aveza”, novamente nas palavras de Torga.

Com a respiração arfante e já quase com a igreja de Samodães à vista, espaço ainda para perceber um pássaro incrível, castanho com listas brancas e pretas e com uma crista irreal. Seguimos o poupa (é este o nome desta ave) durante uns metros pensando que companheiros lindos tem este Douro. Pode ser uma sorte, a dele, mas é seguramente também a nossa.

De Provesende ao Pinhão – 2° desvio à EN2

“Não é descer de Sabrosa para o Pinhão, estacar em São Cristóvão, e abrir a boca de espanto. Não é ir a São Leonardo de Galafura ou ao Miradoiro de São Brás, olhar o caleidoscópio, e ficar maravilhado. É compreender toda a significação da tragédia, desde a tentação do cenário, à condenação de Prometeu, ao clamor do coro.” – Miguel Torga, in “O Doiro”

Provesende é uma das mais belas aldeias vinhateiras do Douro. Situada no alto de um planalto, a sua implantação é privilegiada, rodeada de uma sucessão de montes e de muitas plantações de vinha. Com um longo passado e cheia de histórias para contar – uma delas a da origem do seu nome, que derivará de “pobre Zaide”, o mouro local vencido pelos vizinhos cristãos -, diz-se que nela podemos encontrar o maior número de casas brasonadas por metro quadrado. A cultura vitivinícola que aqui fez estabelecer uma série de nobres é a grande responsável pela sua construção, mas num espaço tão pequeno merecem ainda uma visita a Igreja Matriz e a Fonte Velha em estilo barroco, ambas do século XVIII, bem como o Pelourinho manuelino.

Do Largo da Igreja Matriz, situado a 590m de altitude, tem início um dos trilhos mais bonitos do nosso país. Ao longo de quase 6 kms descemos até ao Pinhão, a 80m de altitude. O trilho é conhecido como “Trilho Torgueano Provesende – São Cristóvão do Douro – Pinhão” e percebe-se porquê. Foi em paisagens esplendorosas como esta que Torga foi buscar inspiração para a escrita das mais belas descrições do nosso país, como aquela com que iniciámos este texto.

A região do Douro é um exemplo da sobrevivência e superação do Homem face a terrenos inóspitos. Com a permissão e colaboração da Natureza, desde a época romana que insiste na cultura da vinha e vem transformando a paisagem, moldando-a em socalcos. Em resultado e em reconhecimento, em 2001 o Alto Douro Vinhateiro foi distinguido pela UNESCO como Património da Humanidade. São cenários magníficos aqueles que teremos por companhia durante esta caminhada de pouco mais de 1h 30m.

Saímos de Provesende e logo começamos a descer – uma constante ao longo de todo o percurso, daí que este trilho seja relativamente fácil para qualquer pessoa em termos de esforço físico. Caminhamos em terra batida, junto a muros de xisto, percebendo que os solos aqui são xistosos. E logo tem início o desfile de vinhas. Vinhas e mais vinhas, nunca cansam, e o passatempo perfeito é observar as várias formas das suas linhas, quase todas elas dispostas em socalcos, mas todas plantadas nas íngremes encostas. As características topográficas e climáticas do Vale do Douro fazem com que esta seja uma região óptima para a cultura da vinha. Um solo ácido, um fundo dos vales húmido e sujeito a forte radiação solar e sobretudo a exposição e a orientação dos terrenos aliado ao clima mediterrâneo de invernos frios e verões quentes e secos, eis a conjugação perfeita de factores para que esta seja não apenas uma região propícia à vinha mas também uma de excelência para a produção de vinhos do Porto Vintages.

E é por isso que em toda esta zona encontramos das mais famosas quintas do Douro. Este trilho de São Cristóvão não passa por nenhuma delas, mas atravessa muitas outras vinhas particulares. E é por isso que, bem perto, percebemos que já se veem umas uvas, bem verdinhas. Mas as vinhas não estão sozinhas nesta paisagem, antes têm a companhia de muitas oliveiras.

À medida que vamos descendo vamos avistando o Douro ao fundo, mais um momento alto da caminhada. Afinal, é por ele que aqui estamos e é até ele que caminhamos.

Uma breve passagem na estrada permite-nos debruçar sobre a aldeia de São Cristóvão do Douro, no vale da outra vertente do monte, belamente rodeado de mais socalcos de vinha.

De volta ao trilho de terra, o Miradouro de São Cristóvão do Douro é soberbo. Como dizia o guia que aqui largou um grupo de ingleses, “este é o spot”: uma soberba vista do rio Pinhão a juntar-se às águas do rio Douro. Não vale a pena procurar mais, este é o lugar para se estar e deixar ficar. E talvez arriscar compreender a sua beleza dramática, que Torga tão bem nos tentou explicar.

O Pinhão já está mesmo à nossa beira, mas há que descer até ele. Diversos afortunados possuem aqui casas alcandoradas, todas com terrenos de vinhas, os mais felizes até com acesso ao rio. O rio Pinhão corre sereno e um moço privilegiado rema no seu caiaque, passando tranquilamente por baixo da ponte romana. O cheiro das figueiras adoça ainda mais o cenário idílico e acompanha-nos em até à foz do Pinhão, onde atravessamos o rio pela nova ponte pedonal, com vista para a ponte ferroviária (e mais para lá há ainda uma outra ponte).

A vila do Pinhão não é muito antiga, tendo crescido com o comércio do vinho do Porto no século XIX. Os vinhos continuam a sair do seu Cais, e se antigamente seguiam em pipas nos típicos barcos rabelos e depois de comboio, hoje fazem-no através de todos os meios de transporte ao dispor. O Cais do Pinhão é também muito movimentado pelo intenso turismo que a vila recebe. Daqui podemos sair a passear de barco e uns metros mais adiante tomar o comboio rumo à Régua ou a Tua. Mas neste Verão de Covid-19 tudo está estranhamente calmo, ideal para o sossego da observação dos incríveis reflexos dos montes que caem sobre o Douro. Pode ser uma paisagem oferecida, fácil, mas assumimos com todo o prazer o seu abraço preguiçoso.

Este percurso não pode terminar senão na estação de comboio do Pinhão. Pode ser hiper turística, um cliché até, mas esta é mesmo uma das mais bonitas de Portugal. Inaugurada no século XIX, foi a partir de 1937 que começou a ganhar fama pela beleza da decoração das suas paredes em azulejo. São 24 painéis em azulejo azul que através da representação de cenas do dia-a-dia no Douro contam a história da produção do vinho do Porto, desde o momento da vindima até ao transporte fluvial do vinho. E aqui, observando estes azulejos e as vidas que mostram, recordo uma passagem de “Vindima”, único romance de Miguel Torga, e percebo que o Douro nem sempre e nem para todos foi só passeio e facilidades, antes o tal resultado do esforço dos homens face a uma natureza inóspita.

“Depois da ceia, o pessoal, extenuado, esfarrapado é imundo, dormia pelos cantos a fazer horas. Ganho o dia aos cestos, numa escravidão de besta de carga, era preciso ganhar a noite, enterrado em vinho, num marcar passo que a princípio dava gosto e alegria, e depois era uma tortura sem fim.”

Trilho das Fisgas do Ermelo – 1° desvio à EN2

“O pouco que sou devo-o às fragas. Foi a pisá-las que aprendi a conhecer a dureza do mundo e a admirar o ímpeto que se não resigna à lisa sonolência duma paz interior espalmada. A inquietação da terra vê-se nos montes. Sem eles, quem daria aos homens o permanente exemplo da sublevação natural que há no espírito da própria vida?” – Miguel Torga

Em territórios de Vila Real e Mondim de Basto, percorrer o trilho das Fisgas do Ermelo é a melhor forma de se conhecer e perceber a Serra do Alvão, sua natureza bruta e modos de vida das suas povoações.

De Vila Real ao Ermelo, a aldeia de xisto onde tem início o trilho, são 30 kms. Mas grande parte deles são percorridos no troço da EN 304 correspondente ao Vale da Campeã, entre as serras do Alvão e do Marão. São cenários grandiosos aqueles por onde rolamos nesta que é considerada uma das melhores estradas da Europa para se conduzir.

Deixamos o carro na aldeia do Ermelo, a quem foi dado foral no século XII por D. Sancho I, passamos pelo seu Pelourinho junto àquela que foi a antiga casa da cadeia e junta de freguesia (extinta), uma fonte aqui, um espigueiro ali e inúmeras casas de xisto com telhado de lousa. E são precisamente para umas placas de lousa que o artista local se orgulha de chamar a nossa atenção. Lemos os textos aí inscritos contando a história do lugar e dedicatórias à sua beleza e encanto (“há (sic) tarde quando anoitece / louco de tanta beleza / o Ôlo não adormece / canta um hino à natureza”) e iniciamos os 12 kms do percurso pedestre (PR3 Fisgas de Ermelo) que nos manterá epicamente ocupados ao longo das próximas quase 6 horas.

O Olo é o rio que nasce no Alvão, um pouco para lá da povoação de Lamas de Olo, e desagua no Tâmega pouco antes de Amarante. É ele a grande estrela deste trilho ao proporcionar, em parceria com as locais rochas quartzíticas, uma queda de água com um desnível de cerca de 400 metros que se desenvolve em diversos patamares, formando lagoas de água cristalina, as “piocas”. No entanto, o primeiro curso de água de que nos aproximamos é a Ribeira de Fervença (que em breve se juntará ao Olo), até onde descemos desde a aldeia do Ermelo e cruzamos a sua ponte de madeira.

A partir daqui iniciamos uma longa subida a caminho das Fisgas e da aldeia de Varzigueto, primeiro protegidos pela vegetação, mas logo a céu aberto – daí que a caminhada em dias de maior calor possa ser ainda mais extenuante. Só que as vistas são absolutamente fantásticas, um emaranhado de serras e penhascos agrestes – um lugar de espanto e terror, como tão bem caracterizou Miguel Torga -, onde ao longe uma espuma branca pinta um desses penhascos, escorregando por ele abaixo. São, precisamente, as Fisgas. Os pretextos para pararmos e deixarmo-nos absorver pela magia do cenário são muitos, fazendo com que nem a subida nem o calor nos detenha.

A Lomba do Bulhão é o primeiro miradouro oficial, mesmo de frente para as Fisgas e debruçada sobre o vale do Olo.

Todavia, durante esta primeira parte da caminhada, a da subida, as Fisgas têm a forte concorrência do Monte Farinha, acompanhado de mais dois ondulantes montes, todos em filinha uns ao lado dos outros. O Monte Farinha é, a par das Fisgas, o grande símbolo do concelho de Mondim de Basto, e tem o Santuário da Senhora da Graça no seu topo, lugar incontornável da passagem da Volta a Portugal em bicicleta. Já o tínhamos subido (de carro) num dia de vento e chuva e havíamos sentido que o ambiente que lá se experimenta era quase místico. Agora ao longe, vendo-o em toda a sua formosura no meio de uma paisagem imensa, não podemos deixar de recordar todo o seu poder.

Estamos em Terras de Basto e a felicidade inunda-nos. Que cenário!

As Fisgas ainda vão longe, por enquanto percebemos pouco mais do que a tal longa espuma branca a pintar a rocha, mas mesmo à distância o barulho intenso da queda da água faz-se sentir. À medida que circundamos o percurso, agora por um trilho com uma subida menos pronunciada, e nos aproximamos das Fisgas, vamos percebendo alguns dos muitos patamares em que vai caindo e as piscinas naturais que vai formando, as piocas. Este é um fenómeno natural onde um acidente geológico originado por uma falha interrompe o curso do Olo em sucessivas quedas de água em desníveis ao longo de centenas de metros.

Logo vemos uma pioca mais larga, vazia de gente, e definimos que é aí que vamos querer mergulhar. Mas não nos podemos distrair com a ansiedade e com o desejo de refrescar porque nesta vertente do trilho as lascas da pedra são usadas para definir o caminho.

Já estafados, finalmente o trilho dá-nos uma recta e até uma leve descida com o bónus de árvores como cobertura, uma espécie de descanso bem antes do meio do percurso.

Mais um miradouro, desta vez quase junto às Fisgas e às Piocas, próximo do Alto da Cabeça Grande, talvez o ponto mais elevado da nossa jornada, a 802 metros de altitude (a aldeia do Ermelo, onde começámos, está apenas a cerca de 420 metros).

É pouco depois que surge o desvio para as Piocas de Cima. Primeiro assistimos ao Olo a correr plano e lentamente. Depois percebemos um desnível seguido de uma piscina natural, mais um desnível e outra piscina, e mais um e outra, e poderíamos estar aqui até ao fim do dia a contá-los.

O lugar é verdadeiramente incrível e a vontade de uma banhoca gelada e refrescante ganha a concorrência de querer perceber como é a piscina que se segue. Controlamos uma vez mais a ansiedade e entramos na água, gentil e cristalina. Boiamos e olhamos o céu, a tentar acreditar que temos toda esta natureza para nós. Ainda dentro de água, espreitamos a próxima piscina. Demoramo-nos. Só então, já fora da lagoa escolhida, vamos caminhar em busca de mais piocas pelos blocos de pedras que as rodeiam que, por não serem escorregadias, não constituem um perigo de maior. Percebemos, com ingenuidade, que a tal pioca mais larga que viramos do miradouro anterior está um bocadão mais lá abaixo, sendo que o abaixo aqui é relativo, porque as verdadeiras Piocas de Baixo estão infinitamente mais abaixo. Digamos que esta lagoa generosa estará no primeiro 1/4 da infinitude da queda de água das Fisgas. Aliás, o nome “Fisgas” deriva precisamente desta forma que a água do Olo encontrou para se acomodar na parede rochosa, como que enfisgando-se.

Mas não vale a pena arriscar demasiado em busca de mais piocas, porque as que temos cá em cima temo-las que chegue. Continuamos, por isso, caminho rumo a Varzigueto, agora sempre junto ao Olo, estreito, quase um fio de agua sereno que vai dando para molhar os pés e a espaços até banhar o corpo todo.

Varzigueto, aldeia de montanha, está belamente implantada a 745 metros de altitude e aqui a ruralidade impera. Também com casas de xisto, palheiros e espigueiros, aqui as vacas pareciam indomáveis, teimando em escolher o seu caminho à revelia do seu domador. Não deixo Varzigueto sem quase tropeçar ou pisar num pedaço de qualquer coisa enrolado no chão. Felizmente que o senhor PAN não anda por aqui e alguém já lhe tinha dado uma paulada na cabeça, ou teria apanhado o susto da minha vida.

Atravessada Varzigueto, retornamos, passamos a ponte e seguimos agora pela margem contrária do Olo. Mesmo repetidas, as vistas continuam bonitas e, saciados, não desviamos novamente para as Piocas de Cima. O som forte da água a cair continua.

Pouco depois passamos pela Cancela do Miradouro com nova panorâmica, e mais próxima, para o Monte Farinha.

E logo chegamos ao mais famoso e acessível miradouro para as Fisgas do Ermelo, aquele onde se chega de carro imediatamente a seguir ao Fojo, com a sua capela, e o mais próximo que podemos chegar delas sem qualquer esforço físico. Há anos tinha aqui estado e é incrível como, apesar de brutal, não se percebe nem um décimo da enormidade das Fisgas. Aqui se lê e confirma com sentimento as palavras de Torga já referidas anteriormente: “Cá me vim debruçar também sobre o despenhadeiro das Fisgas, com os pés seguros pelos companheiros por causa das vertigens. E apreciei devidamente este misto de espanto e terror. A contemplação dos abismos naturais é necessária de vez em quando a quem tem a atracção dos outros. Toma-se consciência, com rigor físico, das asas que nos faltam para estar à altura da máxima de Nietzsche”.

Deste miradouro iniciamos uma descida num terreno de pedra. Até aqui o trilho tinha estado sempre muito bem marcado, com indicações amiúde, mas nesta descida perdi-me, voltando no entanto ao caminho com pouca demora e sem esforço de maior.

As Piocas de Baixo são outra das atracções da jornada. E começam por se ver e ouvir desde bem ao alto, logo aguçando a vontade de as espreitar de perto. No Ermelo tinham-nos dito que este era o lugar mais bonito de toda a região. Descemos, desviamos no trilho, descemos mais um pouco e aí estão as lagoas de baixo. Acontece que não esperávamos encontrar aqui tanta gente e, sobretudo, parafernália como colchões de água, bóias com patinho e música a sair demasiado alta de um rádio. Alguém chegou primeiro e tomou o lugar para si. Merecem respeito na mesma, uma vez que tanto para chegar às Piocas de Baixo como às de Cima há que caminhar mais de 1 km, nada é oferecido.

De qualquer forma, já não houve mergulho nestas piocas, antes subimos e seguimos rumo aos últimos 2 kms até à meta na aldeia do Ermelo. Que acabaram por ser um pouco mais, uma vez que alguma distração fez perder nova sinalização num qualquer cruzamento, levando a que se tivesse que saltar uns quantos muros até retomar o trilho. Continuamos a descer e aqui ficamos preocupados, porque sabemos que o casario de Ermelo está mais acima e, cansados, sabemos que teremos de enfrentar mais uma subida.

Cruzamos a ponte da Abelheira e reconheço a água do rio pintalgada de vegetação em forma de pompons que há anos tinha apreciado. Aqui é um bom lugar para descansar, tomar banho e até mergulhar.

E, bom, a partir daqui é mais 1 km sempre a subir. Com o acumulado da caminhada, quase 6 horas, é o que mais custa. Mas, com a chegada às casinhas de xisto do Ermelo todo o cansaço se vai e uma enorme alegria nos inunda pelo feito da conclusão de uma das mais épicas e incríveis caminhadas jamais feitas no nosso país. O coração do Alvão tinha sido atingido, mas eu é que sai conquistada, ainda mais após uma perseguição e espera de alguns anos.

Um passeio pelo Cabo Espichel

O Cabo Espichel é um promontório aberto ao Atlântico situado no concelho de Sesimbra e integrado no Parque Natural da Arrábida. São, por isso, belas paisagens que nos esperam num passeio pela costa ao seu redor.

A caminhada que propomos em seguida tem cerca de 10 kms no total e aproveita dois dos percursos pedestres oficiais da Câmara de Sesimbra, o “Maravilhas do Cabo” e o “Chã de Navegantes”, ambos circulares e cada um com 5 kms.

Começamos o nosso passeio exactamente no Cabo Espichel. Lugar de pura natureza, ao mesmo tempo cândida e selvagem, este é também um lugar de história e lendas. Temos de um lado o Farol, construído em 1790, o que faz dele um dos mais antigos de Portugal, e do outro o Santuário de Nossa Senhora do Cabo, datado do início do século XVIII. Este último é um lugar inspirador, cujo estado de relativo abandono só faz adensar o clima de mistério. Enorme e monumental no seu terreiro de linhas harmoniosas, a formosa Igreja de Nossa Senhora do Cabo (diz que bonita no seu interior, mas fechada à minha passagem), mandada construir por D. Pedro II, devoto de Nossa Senhora do Cabo, é ladeada por umas impressivas alas que serviam de hospedaria aos romeiros que para aqui vinham em peregrinação.

Diz a lenda que em 1410 apareceu uma imagem da Virgem no exacto lugar onde logo se instalou a Ermida da Memória, no topo da escarpa acima da Baía dos Lagosteiros. O lugar é incrível, uma extensão profunda do mar onde não custa assumir qualquer tipo de religiosidade. O aparecimento desta imagem da Virgem resultou no culto da Nossa Senhora do Cabo Espichel por multidões de peregrinos, pelo que em 1701 se decidiu pela construção do Santuário de Nossa Senhora do Cabo, também conhecido por Santuário de Nossa Senhora da Pedra da Mua. A lenda da Pedra da Mua é contada de forma historiada através de painéis de azulejo guardados no interior da Ermida – a imagem da Virgem transportada por uma “jumentinha” desde o mar até ao topo do Cabo, subindo pela laje conhecida como Pedra da Mua.

Para além da ermida, da igreja, das duas alas de hospedarias conhecidas como Casa dos Círios e do cruzeiro, o conjunto monumental possui ainda hortas dos peregrinos, a Casa da Ópera (em ruínas) e a Casa da Água, abastecida por um aqueduto cuja estrutura vemos na estrada à chegada ao Cabo. Apesar do estado de abandono, o culto da Senhora do Cabo ainda se mantém e prevê-se o restauro do complexo do Santuário.

Do Santuário saímos pelo percurso pedestre “Maravilhas do Cabo” na direcção da baía e praia dos Lagosteiros, sem todavia descermos até ela. As arribas são instáveis e a quantidade de pedras que fazem a vez da areia nesta praia são também a prova do perigo. De qualquer forma, a beleza da pequena enseada e a cor do mar fazem felicidade em abundância mesmo vistas de cima. Contornando a baía caminhando pelas arribas calcárias, vamos vendo distanciar-se a fabulosa escarpa com paredes de laje onde está instalado o Santuário de Nossa Senhora do Cabo. Tudo aqui é grandioso.

E eis que chegamos ao ponto de observação das pegadas de dinossauros, não menos imensas. São pegadas do período jurássico impressas na rocha imediatamente junto ao mar. Crivadas na rocha vemos também moldes de fósseis.

Continuamos a caminhar junto à costa, mas agora com vista para as longas praias do Meco e da Fonte da Telha, com a Serra de Sintra e o seu Monte da Lua bem ao fundo.

A vegetação é rasteira e o trilho fácil de perceber. Uma variedade de flores distrai-nos no caminho de volta até à estrada.

Atravessa-mo-la e iniciamos o percurso pedestre “Chã de Navegantes”. Tomamos um caminho sempre a direito por um estradão de terra batida ladeado por edifícios em ruína que nos levará em direcção ao mar. Num ponto elevado admiramos a grandiosa costa da Arrábida, com a silhueta preciosa das suas falésias verdes a cair no mar azul. Sabemos que aqui em baixo fica a Praia da Baleeira, de difícil acesso, mas não a vemos.

Descemos rente à falésia por um caminho estreito, na parte mais difícil e assustadora do percurso, tentando não nos distrair demasiado com a paisagem fabulosa do Atlântico onde os veleiros navegam tranquilamente.

Contornamos a arriba, um monte com uma rocha de belo molde no topo – é um bloco de rochas dolomíticas mais antigas misturadas com rochas calcárias mais recentes, conhecido como Horst do Forte da Baralha.

O Forte da Baralha, ele próprio, fica mesmo aqui debaixo. Construído no século XVII, esta pequena fortificação está em ruínas, percebendo-se ainda os seus panos de muralha e janelas rasgadas na estrutura. A sua implantação geográfica é incrível, um pouco elevado rente ao mar. Ao seu lado, igualmente em ruínas, a vizinha Capela de invocação ao Senhor Jesus dos Navegantes, onde as tripulações das embarcações de Sesimbra gostavam de parar antes da partida para as grandes viagens.

E a uns passos do Forte, eis uma formação geológica surpreendente. A Rechã dos Navegantes e o campo de lapiás, modelado pela erosão marinha, que cai num género de plateau de rocha calcária mar adentro.

Daqui empreendemos a subida em direcção ao nosso destino / ponto de partida, virando a custo as costas àquela enorme paisagem natural, mas arranjando todos os pretextos para mais uma paragem para a contemplar uma última vez. Quem disse que não há que olhar para trás?

Pela Serra de Sintra, com início e fim na Barragem da Mula

Outro lugar onde vamos querer voltar rapidamente em tempos de desconfinamento é a Sintra. Sintra é infinita. Não nos cansamos nunca de a correr porque ela é imensa no que há para descobrir (e já a registámos diversas vezes aqui no blog). Desta vez vamos pelos trilhos da Serra de Sintra desde a Barragem da Mula em direcção aos Capuchos, ainda a aguardar que o “novo” Convento reabra depois dos tempos de restauro, com volta larga até ao ponto inicial.

A Barragem da Mula, ponto de partida para muitos caminhos, retém por momentos a água do Rio da Mula, rio que nasce na Serra de Sintra e que após uns breves 10 kms de curso desagua no Atlântico. Esta barragem envolta pela natureza não está disponível para actividades aquáticas, mas as caminhadas junto a ela servem bem qualquer propósito de evasão.

Seguimos por uma curta subida por entre pinheiros e eucaliptos com a água desta espécie de lago ao nosso lado. E haveremos de a contornar até meio, de forma a melhor observarmos a barragem de outro ângulo.

O fio de água do Rio da Mula é bem estreito, a maior parte das vezes até nem damos por ele, mas as pequenas pontes de madeira sucedem-se. Algumas delas num estado tal que é um convite descarado a meter o pé na poça.

Só que muitas destas pontes até estarão aqui colocadas não para se atravessar algo, mas para tornar o trilho mais atraente e desafiante para o pessoal do BTT. Estes trilhos não são propriamente o lugar ideal para se caminhar confortavelmente apartado do mundo. Porque são difíceis de vencer a pé sem recurso à ajuda de bastões, por exemplo, e porque pode vir de lá lançada uma bicicleta a voar e aterrar mesmo em cima de nós. Mas enfim… fui lá parar não sei como, talvez por falta de sinalização ou por falta de atenção à sinalização, e por aí segui com sorte de não me cruzar assim com tantos radicais da bicla.

A melhor alternativa, embora não tão bonita como o intenso mergulho na floresta de trilhos, é seguir pelo estradão de terra aberto propositadamente para os caminhantes e para os ciclistas menos afoitos.

Mas depois de uns quantos metros pelo estradão com arvoredo de ambos os lados, logo voltamos à imersão na floresta. Uma relativamente extenuante subida num ambiente incrível leva-nos na direcção do Monge. Aqui ficam os Tholos do Monge, um monumento megalítico a 490 metros de altitude. Não há vistas, porém, uma vez que estamos mais uma vez rodeados de vegetação.

As vistas aparecerão mais adiante. Depois de percorremos mais um estradão com os troncos das árvores cobertas de hera, uma nesga deixa-nos vislumbrar a Costa de Sintra, com a forte ondulação a tornar branco o azul da água.

Após uma boa estirada por tapadas, num percurso circular que nos levará de volta ao ponto inicial, subimos até à Pedra Amarela. Aqui sim, as vistas são desimpedidas e soberbas. Para o Atlântico, para a Peninha, para a Pena, para tudo. O ambiente é incrível e as próprias rochas deste alto a 408 metros ajudam ao cenário.

Do Monte da Pedra Amarela até à Barragem da Mula é sempre a descer. Aqui a floresta está neste momento tristonha. Muito terá ardido em incêndios recentes e muitas espécies invasoras ajudaram à desolação. Um exemplo: após o grande incêndio de 1966 na Serra, foram aqui introduzidas espécies exóticas que se expandiram de forma agressiva, sobretudo a acácia, rivalizando e destruindo a vegetação prévia. Nos últimos anos tem estado em andamento um projecto de reflorestação desta parte da Serra de Sintra, para que possamos usufruir da exuberância e equilíbrio pela qual é conhecida. Outro aspecto menos agradável é o barulho intenso e constante produzido pelos carros no autódromo. Não tem piada nenhuma este outro tipo de espécie invasora do ambiente, impossibilitando melodias mais condizentes.

O Parque da Pedra Amarela e seu Campo Base é um parque aventura com muitas actividades, como slide, pista de arborismo, escalada, rappel e orientação, entre outras. Não nos aventurámos em nenhuma delas e subimos antes até à elevação directamente acima da barragem. São as vistas, sempre elas, que nos movem. E aqui nós deixámos ficar a apreciar o esplendor natural da Serra de Sintra, até que, saciados de beleza, iniciámos então a descida dos últimos metros dos cerca de 11 kms deste passeio com início e fim na Barragem da Mula.

As Praias da Arrábida

Com a quarentena a dar as últimas, o desconfinamento em marcha e o Verão a chegar, a Arrábida é o sítio para se estar. Aquela natureza recôndita, serra parelha do mar, vegetação de um verde vivo só superado pelo irreal azul do Atlântico, é um bálsamo em qualquer época da vida, transformado agora em prémio pelas provações vividas em tempos de isolamento.

O Parque Natural da Arrábida, dividido entre os concelhos de Sesimbra, Setúbal e Palmela, é de uma diversidade incrível, não apenas no que diz respeito à fauna e flora. Falo de lugares como o promontório do Cabo Espichel, serras rochosas e escarpadas e serras interiores, baías inacessíveis e outras oferecidas, todas de água transparente, fortes, conventos, castelos e povoações de arquitectura rural onde a vinha e o queijo são delícias populares. E vistas de tirar o fôlego. Tudo para se ir descobrindo lentamente, voltando repetidas vezes, de preferência para se caminhar nos seus inúmeros trilhos.

A época de maior calor não é, contudo, a mais aconselhada para se caminhar a céu aberto, pelo que seguimos de carro à descoberta das praias mais facilmente acessíveis da Arrábida, entre Sesimbra e Setúbal, não dispensando, porém, largas caminhadas entre elas, sempre junto à costa.

Entrando por Azeitão, ziguezagueamos pela estrada numa descida até ao mar. Aldeias e casarões escondidos nos montes cobertos de uma carapinha verde, uma pedreira aqui e ali – o único elemento negativo do Parque Natural -, e logo o nosso olhar é roubado. Já falei daquele azul do mar?

A primeira paragem que propomos é na Praia de Alpertuche, imediatamente antes da descida para o Portinho da Arrábida. Para se alcançar esta pequena praia escondida no meio da vegetação e dos rochedos há que caminhar por uma estrada de terra batida só acessível aos veículos dos proprietários das casas aí situadas e, depois, descer um breve trilho completamente envolvidos pela natureza. Umas nesgas no arvoredo vão-nos preparando para o cenário lá em baixo junto ao mar. Esta praia mínima com uma espécie de chalet em plena areia tem uma série de pedras e a vista típica das arribas e cor do mar da Arrábida.

Logo a seguir fica um dos lugares mais surpreendentes do Parque, a Lapa de Santa Margarida. Descemos sucessivos degraus em pedra construídos por um ermitão, mais uma vez totalmente engolidos pela vegetação, passando por rochas e cactos curiosos, até chegarmos à beira mar e, deitando-lhe costas, nos aventurarmos a entrar por um buraco aberto na parede da rocha.

É então que deparamos com uma enorme gruta, com uma capela no seu interior, um cenário misterioso com as veias da rocha a tomarem formas incríveis. Esta gruta tem a tal abertura na rocha e tem, ainda, uma abertura directa para o mar que mais parece uma janela. Uma janela natural por onde em tempos idos os pescadores vinham nos seus barcos em peregrinação para orar neste lugar absolutamente recolhido.

O Portinho da Arrábida é exíguo no seu estacionamento, por isso é boa ideia deixar o carro perto da Lapa e seguir a pé até à baía mais famosa da Arrábida. Passamos o Forte de Santa Maria da Arrábida, hoje Museu Oceanográfico, construído no século XVII para defesa do pequeno porto e do convento mais acima, e logo temos aos nossos braços aquela paisagem imensa. A encosta verde da serra a cair delicadamente no azul do mar. E a água tão transparente. A diversidade marinha é grande e o Portinho é um bom lugar para mergulho. E é também o local ideal para uma paragem para almoço num dos seus restaurantes antes ou após uma caminhada pela longa Praia do Creiro, à qual não falta sequer uma estação arqueológica, uma antiga fábrica romana de salgas de peixe.

A areia do Creiro é branquinha, branquinha, mais um tom para a palete perfeita. Vale a pena percorrê-la de uma ponta à outra, avistando a ilhota da Anicha, querendo sempre chegar um pouco mais adiante, embrenhando-nos nas rochas em busca de um refúgio ainda mais isolado. Não se pode, em situação alguma, subir às falésias, apesar da vontade de tentar chegar à próxima praia. Solução? Ir a nado.

Ou voltar para o carro e seguir pela estrada com pontos de vista lindíssimos até ao início do trilho que nos leva à Praia dos Coelhos.

Uma delícia caminhar por estes sítios, rumo a praias abrigadas com águas azuis-esverdeadas de uma transparência e tranquilidade sem limites.

Da Praia dos Coelhos, diversos trilhos totalmente protegidos pela vegetação transportam-nos até às Praias dos Galapinhos e dos Galapos. Mais do mesmo. Sendo que este mesmo é o máximo.

Depois dos Galapos fica a Praia da Figueirinha, a mais popular e acessível das praias da Arrábida, já à porta de Setúbal. Mas optámos, antes, por entrar em Setúbal seguindo pela estrada mais acima na serra, aquela que dá acesso ao Convento da Arrábida.

É aqui que a Arrábida nos é oferecida em todo o seu esplendor. Não apenas nos sucessivos miradouros que se abrem no horizonte nesta estrada espectacular, mas também no misticismo da Serra, que desde o século XVI se habituou a ser lugar de conventos. Hoje resta o Convento da Arrábida, antigo convento franciscano escondido na vegetação com vista para o Atlântico, mas chegaram a ser nove, testemunho de uma vida espiritual intensa, onde os ermitas se recolhiam em meditação e oração. E restam as inúmeras cruzes cravadas nas encostas. Há quem defenda que o topónimo Arrábida provém da palavra árabe “arrábita”, cujo significado é “local de oração”. José Tolentino Mendonça escrevia em artigo relativamente recente no Expresso que “O mais difícil não é ir à Arrábida. Difícil, difícil, é entendê-la: porque boas praias, boas sombras e boas vistas há-as em toda a parte… O que não há em toda a parte é a religiosidade que dá à Serra da Arrábida elevação e sentido”.

Certa de que não a entendi por inteiro, talvez desculpa para lá voltar, termino com as fáceis paisagens. Depois de uma piscadela de olho a Lisboa para além do largo Tejo, um abraço ao Sado como despedida breve da Arrábida.

Passadiços do Alamal

Os Passadiços do Alamal já cá andam há muitos anos, mas desde os incêndios de Agosto de 2017 que assolaram a região ganharam uma nova cara, nomeadamente no que à acessibilidade para todos diz respeito, incluindo aqueles com mobilidade reduzida.

Obra premiada do gabinete de arquitectura Proap, encomendada pela Câmara Municipal do Gavião, o Parque Fluvial da Quinta do Alamal é uma pequena maravilha no Tejo.

Para lá chegar descemos um vale encaixado nas colinas graníticas onde à natureza se juntou uma barragem que fez inundar um pouco mais o Tejo. Estamos na margem esquerda do rio e na praia fluvial, onde encontramos o Alamal River Club, a unidade de alojamento que ocupa, precisamente, a antiga quinta.

Da praia fluvial, onde não falta sequer uma língua de areia branca, parte um percurso sobre passadiços de madeira de cerca de 1800 metros de comprimento, até à ponte de Belver, com o seu característico tabuleiro metálico verde. Este percurso, que a câmara pretende ver prolongado, é parte do PR1, “Arribas do Tejo”, mais longo, circular e com passagem por ambas as margens do rio. Mas nos passadiços caminhamos sempre pela margem esquerda do Tejo. E quase sempre com a companhia da imagem fabulosa do belo castelo de Belver na margem contrária.

O passadiço, encostado muitas vezes à rocha de granito que faz parte da paisagem juntamente com o rio, vai ganhando forma, curvando onde tem de curvar e estendendo-se livremente onde pode. A vegetação sobre ele vai variando, com árvores, flores ou canas, zonas mais protegidas ou mais abertas. Encontramos até um pequeno e discreto curso de água a rolar sobre umas pedras com musgo verde.

Mas é, no entanto, a água do grande Tejo que vai dominado a paisagem. E o castelo, claro. Uma beleza natural (bem) moldada pelo homem.

Treetop Walk Serralves – caminhar nas árvores

Serralves é sempre uma visita obrigatória numa passagem pelo Porto. Mas desde Setembro do ano passado há mais uma desculpa para lá voltar. Centro de Arte Contemporânea e lugar para se apreciar arquitectura de excelência, há que não esquecer que Serralves é também em grande parte o seu parque. E se já nos encantava perdermo-nos nos muitos caminhos do seu parque, temos agora a possibilidade de caminhar ao nível da copa das suas árvores.

O Treetop Walk de Serralves, criado no ano em que a Fundação celebrou os seus 30 anos, tem apenas 250 metros de passadiços de madeira, mas cada passo sobre eles é dado sob um prazer imenso e sem fim. É uma experiência verdadeiramente diferente de usufruto da natureza, levando-nos a percorre-la através de uma perspectiva única.

O projecto foi desenvolvido pelo arquitecto Carlos Castanheira em colaboração com o arquiteto Álvaro Siza Vieira, e em primeira instância pretende sensibilizar os visitantes para a protecção e a preservação da biodiversidade do ambiente natural do Parque de Serralves. Vamos ficando ao nível das copas dos carvalhos, ciprestes e sequoias, caminhando sob o canto dos pássaros, enquanto que lá em baixo, no lago, vemos os patinhos a desfilar. A altura dos passadiços chega a tomar 25 metros. Um pouco mais distante apreciamos os prados de Serralves e uma nuvem de prédios mais ao fundo. Diz-se que até o mar se chega a avistar, mas não nos tocou essa vista.

Estes passadiços foram construídos no respeito e integração com a natureza, com o uso de madeira reciclada, e os seus pilares, por exemplo, foram instalados de forma a permitirem que as raízes das árvores cresçam naturalmente, sem barreiras.

Ao caminhar no alto, junto aos ramos das árvores, apreciamos ainda melhor as suas cores. Cores essas que, graças às estações do ano, ganham novas tonalidades a cada temporada. O preço do bilhete de Serralves, mesmo que apenas para visitas ao seu Parque, é puxadinho, mas sendo a entrada nas manhãs do primeiro domingo de cada mês gratuitas não há desculpas para não vir caminhar sobre as árvores. Repetidamente.

Da Vila de Sintra ao Castelo dos Mouros

Não há melhor forma de circular por Sintra do que a pé. Em tempos já tínhamos escrito aqui sobre a jornada até ao Palácio da Pena desde o centro da vila através do caminho da Vila Sasseti. Desta vez seguimos caminho com partida desse mesmo centro com passagem pela entrada do Palácio da Pena, visita ao Castelo dos Mouros e volta ao ponto inicial, de forma circular, aproveitando as “Pequenas Rotas” do PR2 (Percurso da Pena) e PR3 (Percurso do Castelo). Coisa para uma manhã em cheio.

Saímos do largo do inigualável Palácio da Vila, o mais antigo palácio português, com origem no primitivo paço dos antigos governadores mouros da Sintra do século X, já com o Castelo dos Mouros sob mirada lá no alto, com alguns dos palacetes que fazem a fama de Sintra sob o seu colo.

E logo tomámos as estreitas ruas da vila, cheias de cotovelos, até chegarmos ao miradouro da Ferraria. Daqui, uma vista diferente mas igualmente próxima do Palácio da Vila, com as suas distintas chaminés. Ultrapassado mais um chalet apalaçado e damos com a Fonte da Sabuga.

São muitas as fontes que se vão vendo pelos caminhos de Sintra, mas esta fonte medieval reconstruída no século XVIII será a mais chamativa e célebre das fontes de Sintra, reconhecida ainda pelos seus poderes milagrosos. Está decorada com um tom azul e o dourado do sol que a encima retém a nossa atenção, bem como a pedra de armas de Sintra logo acima.

Após uma breve subida com vista para a planície das terras de Sintra, chegamos a um recanto mais recolhido da vila, onde ficam a Igreja de Santa Maria (do século XII, em estilo românico-gótico), a Casa do Adro (onde em 1866 viveu Hans Christian Andersen) e o Convento da Santíssima Trindade (hoje residência particular sem visitas ao público). E pelo meio uma casa com uma fachada curiosa.

Mais umas centenas de metros e a São Pedro de Penaferrim vê-mo-la lá em baixo. A estrada continua e segue-se um trilho com algumas árvores caídas, certamente consequência de temporal recente, que nos leva ao topo do Monte Sereno com seu castelo particular. Daqui avista-se já do outro lado o Castelo dos Mouros. E com pouca demora perceberíamos que do Castelo dos Mouros também se observa livremente o castelinho do Monte Sereno, como se mantivessem ambos um diálogo próximo e constante.

Na subida pela Calçada da Pena encontramos, por fim, veículos motorizados, carros particulares, autocarros e tuk-tuks, muitos tuk-tuks. Mas aqui encontramos também a vegetação cerrada da Serra de Sintra. Passamos pela entrada do Palácio da Pena, apreciando o colorido do seu edifício pintado num céu azulíssimo, e um pouco mais adiante eis o Castelo dos Mouros. Ao invés de seguirmos directamente para a sua entrada, vale a pena espreitar a casa do guarda junto à segunda cintura de muralhas (para incremento da área fortificada e protecção da população e bairros que se instalaram na vertente), com bar esplanada, e deambular pelo caminho que descerá até ao centro da vila para mais um miradouro com belas vistas.

De volta em direcção ao Castelo, não nos cansamos de apreciar as formosas rochas que são também elas parte da paisagem de Sintra.

Imediatamente antes da entrada do Castelo dos Mouros recebe-nos a Capela de São Pedro com o seu Centro de Interpretação da História do Castelo dos Mouros, um pequeno museu com achados arqueológicos. Nas imediações da capela percebemos umas estruturas escavadas na rocha que serviram há séculos para armazenamento e conservação de cereais e leguminosas. Por aqui estava o primitivo bairro medieval islâmico, mais tarde lugar de uma necrópole cristã, hoje transformado numa área arqueológica.

A passagem pelo pano de muralha mais imponente do Castelo dos Mouros faz-nos entrar num outro mundo, transportando-nos pela história.

Corria o século VIII quando, numa vertente mais elevada da Serra de Sintra, a cerca de 400 metros de altitude, os muçulmanos decidiram construir aqui uma fortificação de defesa do seu território após a conquista da Península Ibérica aos visigodos. O castelo terá funcionado como atalaia de controle da costa atlântica e dos territórios a norte, desempenhando a função de posto avançado da cidade de Lisboa. Mas, após anos de disputas, quer a fortificação quer o território acabaria por ser perdido para os cristãos no século XII, com a conquista definitiva por D. Afonso Henriques em 1147, tendo nessa época sido edificada a primeira capela cristã de Sintra, dedicada a São Pedro. As muralhas foram objecto de restauro no período romântico, por volta de 1860, sob a direcção Dom Fernado II, que arborizou igualmente os espaços envolventes. É interessante aprender que a vegetação intensa que caracteriza a Serra de Sintra dos nossos dias é um fenómeno recente. E nisso, como em muitos outros aspectos em Sintra, com destaque para o Palácio da Pena, a acção de D. Fernando II, o Rei Artista, foi decisiva. Nessa época a Serra tinha um aspecto nu, sem a vegetação primitiva de carvalhos, provavelmente em consequência da expansão de actividades como a pastorícia e a agricultura e da exploração florestal pela procura de lenha, carvão e madeira. Só no século XIX, com a chegada de D. Fernando II, inspirado pelo Romantismo, foi a Serra de Sintra reflorestada, com a introdução de espécies exóticas, tendo igualmente dado início à moda da criação dos jardins “à inglesa”. A paisagem de Sintra transformou-se no que vemos hoje e, para além dos muitos palacetes e seus jardins, ao lado dos autóctones carvalhos temos acácias, araucárias, plátanos, fetos, pinheiros, eucaliptos e ciprestes.

E porquê esta referência à paisagem de Sintra quando dizíamos ter entrado no Castelo passando pela sua porta muralhada? Porque o Castelo dos Mouros, não desfazendo a sua história, tem tudo a ver com paisagem. São vistas e mais vistas, todas elas fabulosas, fazendo-nos pensar que a vida se resume a isso: a uma paisagem, a paisagem de Sintra.

Ao caminhar pela muralha quase nunca perdemos de vista o Palácio da Pena, mas enquanto que da Alcáçova e Torre de Menagem temos a vila de Sintra aos nossos pés, contornando-a para seguirmos, subindo, até à torre do lado contrário, a Torre Real, ficamos com a Quinta da Regaleira e Seteais à nossa beira e o mar, esse, com todo o Atlântico da costa de Sintra sempre no nosso horizonte próximo.

É, pois, um prazer caminhar pela muralha do Castelo dos Mouros. Prazer maior ainda é deixarmo-nos estar na Torre Real, imitando D. Fernando II na sua época a contemplar a Pena, mas não a pintar a Serra.

Descendo a muralha, ao invés da passagem pelo extenso terreiro da Praça de Armas optamos pelo caminho rodeado de vegetação e grandes e bonitas rochas para chegar até à saída do Castelo.

Já cá fora, a volta ao centro da Vila inicia-se com uma curta passagem pelo interior da Tapada dos Bichos. Há que seguir a caminhar com atenção para não perder as vistas quer para o Palácio da Pena quer para o Castelo dos Mouros, por entre as árvores.

Depois o percurso segue por estrada, pela Rampa da Pena, cheia de curvas e mais curvas. E vários chalets, como o Chalet do Relógio e o Chalet Biester com os seus torreões a lembrar um palacete. No fim da descida da Rampa da Pena aí temos, então, o final da nossa jornada com a chegada ao centro histórico de Sintra. E aí termina o sossego e a sensação de solitude que vivemos antes, quando estivemos embrenhados na Serra.

Uma caminhada pela Peninha

São incontáveis os percursos pedestres que se podem inventar pela Serra de Sintra, mas alguns deles estão oficialmente demarcados. Assim, embora da Peninha possamos sair a caminhar em direcção a cada um dos pontos cardeais, o PR10 está montado para nos por a caminho da natureza e do património de forma circular por cerca de 4,5 kms. São menos de duas horas a gastar a sola, incluindo paragens demoradas para gastar os vários sentidos.

Até chegarmos ao estacionamento do Santuário da Peninha, onde tem início esta caminhada, seguimos de carro pela estrada totalmente protegidos pela vegetação carregada. Umas abertas, logo transformadas em miradouros, permitem-nos ir acostumando à paisagem que teremos lá de cima. Primeiro uma vista para as águas da albufeira do Rio da Mula e Palácio da Pena, depois uma vista para o Guincho e Cascais.

O trilho inicia-se com uma breve subida com o Santuário à nossa direita a confundir-se com as rochas e ramagem de ambos os lados. E, de repente, deixamos de ter a protecção dessa ramagem e tudo se revela. O cenário imenso da costa do Guincho aos nossos pés.

Estamos a uns 466 metros de altitude, a literatura científica não revelou ainda qualquer efeito desta altitude na falta de oxigénio, mas, de qualquer das formas, a nossa respiração é facilmente cortada com esta paisagem do recorte da costa em conjugação com o azul do mar.

Subimos a escadaria do Santuário da Peninha, instalado num penedo a 486 metros de altitude, e daqui de cima as vistas conseguem ser ainda maiores, porque agora se abrem para todos os lados, do Cabo Espichel às Berlengas, passando pelo Cabo da Roca, numa imensidão total. Podemos não identificar quer o Espichel quer as Berlengas, mas em dias de céu azul as vistas desde Lisboa à Ericeira são garantidas.

A Capela de Nossa Senhora da Penha confunde-se, no seu exterior, com o cinzento das rochas, já se disse, mas alguns acrescentos posteriores de edifícios anexos, nomeadamente um palacete, têm um tom amarelo vivo que ganha um relevo muito grande na paisagem. As origens do lugar, onde foi instalada uma primitiva ermida, remontam ao século XII, mas a capela tal como a conhecemos hoje começou a ser edificada no século XVII. Se a sua arquitectura exterior vale mais pelo seu lugar de implantação, diz que o seu interior é, esse sim, um deslumbre só por si. O Santuário está votado ao abandono e a capela fechada, impedindo-nos assim de conhecer os mármores e azulejos azuis e brancos que revestem o interior da Capela de Nossa Senhora da Penha.

Deixado o Santuário para trás, após passarmos pela Ermida de São Saturnino escondemo-nos da paisagem e envolvemo-nos numa mata cerradíssima, num pequeno trilho conhecido como trilho da Viúva. São apenas cerca de 500 metros sempre a descer e pensamos que ainda bem que o trilho é circular e não o teremos de subir. Isso para bem das nossas pernas, porque de resto não nos importaríamos de aí voltar vezes sem conta.

O lugar é belíssimo, todo ocupado com árvores sem deixar ver o céu, um daqueles pedaços onde se sente todo o poder e magia da natureza. Lugar fresco e escuro com raios de sol a tentarem penetrar, a humidade faz-se sentir e pingos da água soltam-se das árvores e plantas e caem sobre nós. Esta é uma zona de cupressal, com cedros do Buçaco plantados na tentativa de reflorestação da Serra de Sintra, muito sujeita a incêndios, e encontramos ainda fetos e folhas de hera.

Quando acaba a descida mágica viramos à direita na estrada florestal. O denso arvoredo mantém-se, passamos por um pequeno lago com algas verdes e logo chegamos a uma mata com mesas para piqueniques. Um pouco mais para lá dela e encontramos o desvio para Adrenunes.

A vegetação não nos larga, mas é incrível constatar como ela vai variando na sua forma. Agora é como se o arvoredo nos fechasse, formando um túnel natural onde em alguns pontos nos temos até de agachar. E, passado um tempo, a vegetação deixa de nos cobrir, sentimos o sol forte sobre nós e ganhamos a vista de mar ao fundo.

A Anta de Adrenunes está classificada como Monumento Nacional. No entanto, ainda não é claro se este conjunto de rochas é uma formação natural ou obra do Homem, o que leva alguns a considerar que é errado designá-la por anta. Terá, todavia, sido utilizada como necrópole, facto que induz a que o considerem um monumento megalítico. O que é claro é que este amontoado de rochas perdido no meio da vegetação da Serra de Sintra é esbelto. Não é fácil circundá-lo, precisamente pela vegetação que tomou o lugar, e é impossível adentrá-lo – não há espaço na rocha. Mas com perseverança subimos as suas rochas empilhadas e percebemos o marco geodésico que foi instalado no seu topo. Daqui a nossa vista alcança o Palácio da Pena, o Santuário da Peninha e o Cabo da Roca e a Adraga.

A Anta de Adrenunes é ainda um lugar de nidificação de aves.

No caminho de volta apreciamos mais uma vez a vegetação rica em plantas medicinais e aromáticas e voltamos a entrar na zona de mata de volta ao ponto de partida, com os carvalhos e as acácias a dominarem. Antes da chegada, porém, uma passagem e paragem pelas Pedras Irmãs.

É mais um lugar com uma aura misteriosa, com as imensas e formosas rochas preenchidas de musgo verde e rodeadas de ciprestes e carvalhos a darem mais um contributo para o encanto que costumeiramente é reconhecido à Serra de Sintra.