Da Maceira a Santa Cruz

Em tempos falaram-me de uma prova de um trail pelas escarpas da Maceira e de como era bonita a região por onde o trail passava. Investiguei, segui caminho até Porto Novo, entrei vale do rio Alcabrichel adentro, para lá por uma margem e para cá pela outra, com viragem no Balneário dos Frades, e fiquei feliz com o curto passeio. Mas com a inauguração em 2019 do Passadiço das Escapas, um quilómetro que une Maceira a Porto Novo, no concelho de Torres Vedras, decidi voltar para percorrer a nova estrutura.

A ideia era que desta vez o passeio fosse mais alargado, com início na Gruta da Lapa da Rainha, na Maceira, e final na Praia Formosa, em Santa Cruz. Para isso, estacionei em Santa Cruz e apanhei um táxi até à Maceira. Só que, pela estrada que liga Porto Novo à Maceira percebi que o percurso do novo passadiço não seria nem um décimo tão bonito como o percurso que havia feito anteriormente junto à margem escarposa do rio Alcabrichel. Talvez deva dar razão àqueles que se irritam com a praga dos passadiços, sobretudo em lugares cuja beleza está em estado bruto e não é difícil de alcançar. É o caso das Escarpas da Maceira e por aqui iniciaremos o nosso passeio de hoje, 11 fáceis quilómetros a caminhar.

A Gruta da Lapa da Rainha fica no alto de um cabeço na povoação da Maceira, perto da entrada das Termas do Vimeiro. Subimos – a única subida do dia digna desse nome – e poucos metros depois espreitamos por esta Gruta classificada como Monumento Nacional. Crê-se que seja uma estação do Paleolítico Superior, testemunho de uma ocupação humana da zona bem antiga. Entramos por uma cavidade na rocha e saímos pelo lado contrário. Este é o Cabeço da Rainha e no cabeço em frente, o Cabeço do Castelo, há mais uma gruta gêmea desta, menos estudada mas igualmente classificada. As vistas do cimo do cabeço são bem bonitas, com a povoação da Maceira imediatamente abaixo.

Caminhando em direcção ao Atlântico, somos totalmente envolvidos pela intensa vegetação de um bosque e assim seguimos durante umas centenas de metros.

Umas abertas deixam-nos ver, encravadas em baixo no vale, algumas das instalações das Termas do Vimeiro, em especial a sua piscina – vazia, uma vez que dada a Pandemia da Covid-19 as Termas do Vimeiro não abriram neste ano de 2020. Não confundir com a povoação do Vimeiro, ali vizinha mas já no concelho da Lourinhã. Há duas nascentes nesta zona termal, a da Fonte dos Frades e a da Fonte da Rainha Santa Isabel. Diz-se que a Rainha Santa residiu no Vimeiro e terá sido ela a descobrir esta última nascente de água que lhe terá curado algum mal de pele. Verdade ou não, o certo é que está comprovado cientificamente possuírem estas águas uma riqueza mineral e medicinal que traz aqui muita gente em busca de terapias ou tão somente para relaxar.

Estamos a caminhar no topo de um maciço rochoso calcário e as vistas tornam-se cada vez mais bonitas. As escarpas que ladeiam o verdejante vale do rio Alcabrichel são muito cénicas e ao fundo já se vê o azul do mar. Uma composição perfeita.

Quando descemos ao Balneário dos Frades e continuamos a seguir pelo vale, mas agora cá em baixo, a visão das escarpas é ainda mais bonita. As Escarpas da Maceira, monumento natural classificado como geossítio, erguem-se apertadas deixando o rio Alcabrichel correr em direcção ao Atlântico, na Praia de Porto Novo. E nós aproveitamos à boleia no carreiro junto ao rio (o Passadiço, esse, segue do outro lado de uma das escarpas, junto à estrada).

Porto Novo, a foz do Alcabrichel, é um antigo porto piscatório onde em 1808 desembarcaram as tropas britânicas que viriam a combater na batalha do Vimeiro, aquando da primeira Invasão Francesa. Hoje é uma praia com hotéis, restaurantes, actividades náuticas e a possibilidade de estender a toalha na areia ora à beira mar ora à beira rio.

Ao seu lado, passando a falésia baixa que se estende até à água por umas rochas negras muito cénicas, fica a Praia de Santa Rita. Esta tem um longo areal, quase 2 quilómetros, e não fosse o costumeiro vento e neblina locais todos aqui gostariam de ficar a apanhar banhos de sol sem preocupações com distanciamentos sociais.

Não desviámos para as ruínas do Convento de Penafirme, para lá da estrada que passa junto à duna, e no final de Santa Rita subimos o monte arenoso para daí passarmos a caminhar pelo topo da falésia até Santa Cruz. São menos de 5 quilómetros com vistas de praia e mar fantásticas. Vamos vendo a Praia de Porto Novo, para trás, a afastar-se cada vez mais e os contornos da costa a ficarem cada vez mais bonitos. O mais interessante é constatar a diversidade da flora dunar – umas vezes abundante e colorida, outras escassa e lunar.

E um dos passatempos é espreitar e fotografar as pessoas que caminham à beira-mar; vistas de cima da falésia parecem meros pontinhos minúsculos na areia.

Para diante passamos pela Praia da Mexilhoeira (para o interior, escondido na duna, há de estar o Areias do Seixo, um hotel de charme multipremiado pelo seu bom gosto e integração com o meio-ambiente onde está inserido) e pela Praia da Vigia, antes de chegarmos a Santa Cruz e suas praias mais urbanas. Na Praia da Física fica o Noah Surf House, hotel, restaurante, loja de surf, irmão do Areias do Seixo, mas mais popular e acessível e visível da estrada na sua arquitectura moderna.

Mas a imagem de marca de Santa Cruz são os seus toldos de praia com listas verticais coloridas. Eles quase que enchem o areal da Praia da Física nos dias de Verão e são também parte do mobiliário urbano na promenade, servindo como lugares de descanso e sombra.

Santa Cruz, uma das “praias obscuras” de Ramalho Ortigão, é hoje um lugar concorrido, mas à entrada para o último quartel do século XIX tinha apenas uma meia-dúzia de casas. De porto piscatório transformou-se, entretanto, em lugar de veraneio da gente bem de Torres Vedras, atraindo igualmente escritores que se identificaram com o clima melancólico das praias do Oeste. O Passeio dos Poetas, marginal junto ao mar, é dedicado a três deles: Antero de Quental, João de Barros e Kazuo Dan.

O nosso passeio termina da melhor forma junto ao Penedo do Guincho, imediatamente antes da Praia Formosa. Este leixão é uma enorme e belíssima rocha, reclinada como a Torre de Pisa, pousada na água do mar. Já esteve ligada à arriba, e devido à erosão em algum momento dela se despegou. Não bastasse a sua formosura, tem ainda uma abertura no meio, espécie de túnel onde a água do mar bate quando está mais revolto ou rola tranquilamente em alturas de acalmia marítima. Não exagero se disser que este é um dos lugares mais bonitos de toda a nossa costa e mirando o Penedo do Guincho uma e mais uma vez nos despedimos desta jornada.

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Nas Escarpas da Mizarela

O Trilho PR7, nas Escarpas da Mizarela, é considerado o mais fantástico da Serra da Freita. Segue maioritariamente pelo vale encaixado da Frecha da Mizarela, uma queda de água que cai a mais de 60 metros de altura, contornando-a. O lugar é realmente grandioso, belo e selvagem, o coração da Freita. Mas este percurso pedestre de cerca de 10 quilómetros não é nada fácil.

Com início e chegada no Parque de Campismo do Merujal, este percurso oficial do Arouca Geopark vem marcado como tendo 8 quilómetros, mas acabámos por percorrer 10,5 quilómetros, tendo desviado até à base da cascata.

Saindo do Parque de Campismo, atravessamos a Estação da Biodiversidade do Merujal, um caminho plano com diversos painéis informativos acerca da fauna, flora e fungos presentes no lugar. Esta é uma zona de bosque, mato, pinhal e turfeiras onde são os cabeços rochosos que roubam por completo a nossa atenção.

Sem esforço, após 1,5 quilómetros chegamos ao miradouro da Frecha da Mizarela. À distância, parece que apenas um fiozinho de água se despenha da imensa escarpa. O Rio Caima nasce aqui perto, na freguesia de Albergaria da Serra, a mesma da vizinha aldeia da Mizarela, e quando aqui chega cai abrupto por mais de 60 metros por conta deste corte no penhasco. A partir do miradouro vamos descer, ao encontro do curso do Caima no fundo do vale, até à aldeia de Ribeira, onde passaremos para a outra margem do rio para voltar a subir o vale pela encosta contrária.

É precisamente nesta acentuada e interminável descida, sempre coberta pela vegetação, que está a dificuldade do trilho, por incrível que pareça bem pior do que a acentuada e interminável subida, nem sempre coberta pela vegetação. O trilho está bem marcado, com as risquinhas vermelha e amarela da praxe pintadas ora nos troncos da árvore ora nas rochas. O problema é que temos de dedicar tanta atenção à descida – muito perigosa em dias húmidos – que a cabeça baixa pode fazer-nos perder as marcas. Foi isso que aconteceu e descemos demais, ao invés de seguir pelo trilho à direita, e quando o percebemos entendemos que merecia a pena continuar no desvio até à base da cascata (entre ida e volta será cerca de 1 quilómetro a mais). Há enganos que vêm por bem e hoje agradecemos a distracção.

Já cá em baixo, furámos por entre as pedras e percebemos uma lagoa, com uma cascata e tudo. Subindo (não é fácil) pela parede desta piscina acedemos ao patamar seguinte e eis que surge mais uma lagoa, com a devida cascata. Já não arriscámos subir mais, mas o cenário vai-se repetindo. É um sítio poderoso com a natureza em estado bruto.

Depois deste deleite impõe-se a subida, realizada facilmente e em muito menos tempo do que a descida. Com mais atenção, desta vez não perdemos a indicação do desvio e seguimos, então, pelo trilho correcto. O trilho continua sem ser fácil, num carreiro apertado que ora sobe ora desce, quase sempre com vistas soberbas para a Frecha por entre as ramagens dos carvalhos e dos pinheiros. Mas quando cruzamos com a estrada de asfalto e metemos novamente pelo trilho é sempre a descer até à Ribeira.

As vistas continuam impressionantes, com o domínio absoluto das enormes encostas que se levantam do vale quase a direito, cobertas com uma vegetação luxuriante de um verde intenso. Mas devo confessar que nesta altura estava aborrecida com a dificuldade do percurso. Foi, pois, um alívio com comemoração à medida a chegada à Ribeira: um mergulho e um piquenique.

A Ribeira é uma pequeníssima povoação no fundo do vale com casas empoleiradas na encosta em visível mau estado e que parecem todas abandonadas. Percebem-se ainda, no entanto, os socalcos do que foram em tempos terrenos cultivados. E vê-se, também em ruína, um moinho de água que, em conjunto com outros que aqui existiam, trabalhavam para alimentar os habitantes do planalto, carecidos da água abundante na Ribeira.

Depois da pausa para refrescar corpo e mente, atravessamos a ponte da Ribeira e já pela outra margem subimos ao longo do Caima. Esta subida não é tecnicamente nem fisicamente dura, apesar de longa. As vistas continuam de alto nível e por este caminho na outra vertente do vale percebemos que as lagoas e cascatas não cessam no que julgávamos ter sido a base da Frecha da Mizarela, antes continuam ao longo do vale que segue até à bela Ribeira.

Continuando a subida, a dado momento escutamos o som da água e logo depois ela apresenta-se na forma de mais uma ribeira. Mais adiante, nova apresentação, desta vez sob a forma de mais uma cascata, a Cascata da Castanheira. Atravessamos a sua pequena e pitoresca ponte e… continuamos a subir, pois claro.

No topo ganhamos uma vista ao longe para as Pedras Parideiras e para a aldeia da Castanheira e, sobretudo, mais ao longe ainda para uma infinidade de horizonte que em dias de visibilidade máxima chega a permitir avistar o Atlântico para lá de Aveiro.

Durante diversos pontos do percurso já tínhamos percebido os afloramentos quartzíticos nas rochas graníticas, mas agora um enorme bloco branquíssimo surge diante nós. Face a ele qualquer pessoa compreende definitivamente o que é isso de “afloramento quartzítico”.

Parece que já estamos perto da aldeia da Mizarela e do seu miradouro, vê-mo-la quase à distância de um esticar de braço, telhados ocres debruçados na varanda granítica, mas ainda há que seguir pelo trilho que volta a ora descer ora subir, embora já não tão acentuado. Tempo e espaço ainda para passar por altas e inclinadas ravinas, onde até umas cordas estão cravadas na parede da rocha para nos ajudar a ultrapassar um último desafio, mas na verdade este ponto não é tão perigoso nem difícil como parece.

A parte pior há muito havia ficado para trás e de volta à aldeia da Mizarela, e à distância fácil do final do percurso, já só retinha a beleza extraordinária deste vale encaixadíssimo e suas estrondosas escarpas, as quais através de uma solidária abertura permitem que o raio Caima, que até então corria tranquilo, tenha um momento de aventura e se jogue por ali abaixo e no caminho vá nadando em diversas lagoas, fazendo dela a nossa felicidade.

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Drave, a Escondida

Tinha prometido a mim própria que voltaria à Serra da Freita para conhecer a Drave, aquela a que chamam a “Aldeia Mágica”. Os caminhos por vales e montanhas da Freita, em Arouca, são cenários impressionantes, mas também o secretismo e misticismo da povoação da Drave me impressionou. Em tempos tinha tentado percorrer de carro as estradas de asfalto pelas montanhas que lhe são próximas, mas nada de a conseguir vislumbrar.

Parte da atracção da Drave é precisamente esta, a de não se deixar ver nem pisar a não ser caminhando directamente até ela. Encaixada num vale e protegida por montanhas, a este lugar encantado apenas se chega depois de percorrer a pé os 4 quilómetros que a separaram da aldeia de Regoufe (bem marcados pelo PR14 – “Aldeia Mágica”).

Regoufe, a visigótica “rei dos lobos”, é também um lugar que merece ser visitado e explorado. Ao descer de carro até à aldeia percebemos logo a ocupação do vale com terras de cultivo. Um desvio à direita (onde estacionámos) sinaliza as Minas de Regoufe, hoje uma impressionante ruína cheia de ambiente desta antiga indústria de extracção de volfrâmio explorada pelos alemães durante a época da II Grande Guerra Mundial.

Descemos mais um pouco, agora a pé, e a entrada na aldeia permite-nos conhecer um exemplo singular de autêntica ruralidade bem no centro do nosso país. Casas de granito onde o piso térreo ainda é efectivamente usado para guardar os animais são uma realidade. Assim como o é a partilha das suas ruinhas entre os homens e as vacas, cabras e galinhas.

O percurso pedestre que nos leva até à Drave tem início à entrada do casario de Regoufe. São 4 quilómetros para cada lado, cerca de 1h 15m de caminho em cada sentido. É um percurso relativamente fácil, onde na ida a única parte cansativa é precisamente a primeira, aquela que após atravessar a ribeira da aldeia de Regoufe nos leva a enfrentar uma subida inclinada com muita pedra no terreno. Acontece que, na subida somos tentados a olhar para trás, para espreitar a implantação geográfica de Regoufe no vale, e de tão bela que é temos a desculpa perfeita para não apenas caminharmos lentamente como também forçarmos as paragens para descanso ver as vistas.

A chegada ao cimo desta subida dá-nos ainda um cenário maior, a junção das Serras da Freita e da Arada, e mais à frente ainda de São Macário, aquilo que há séculos era designado como o Monte Fuste. E a partir daqui o caminho é quase sempre relativamente plano e em bom piso, com excepção da aproximação a Drave, em que teremos que descer um empedrado.

A vista é fabulosa. As montanhas verdes com rasgões fazem lembrar as do Cáucaso. É impossível deixar de contemplar as enormes paredes montanhosas que se erguem desde abaixo no vale até tocarem no céu. E elas, camaradas, vão nos acompanhando pela nossa caminhada afora.

Começamos a avistar a Drave ao longe quase ao mesmo tempo que percebemos uma ribeira no fundo do vale em curva. Iniciamos a descida e em breve chegamos à Aldeia Mágica.

As casinhas escuras construídas em xisto e lousa confundem-se com as paredes rochosas. Esta é uma zona de transição de granito e xisto, mas o casario de Drave é todo em xisto, à excepção de um ponto branco correspondente à capela caiada. Impressiona como uma povoação implantada a 600 metros de altitude pode estar numa cova, rodeada de montanhas mais altas do que ela.

Esta primeira visão frontal e mais próxima de Drave impressiona ainda porque aqui percebemos de forma esmagadora o seu isolamento. A povoação da Drave tem como referência mais antiga uma dos tempos de D. Dinis, no século XIV, e em 1527 aparecia registada no Cadastro da População do Reino como contando com dois vizinhos e oito pessoas (por comparação, Regoufe tinha oito vizinhos e trinta e duas pessoas). Foi no ano 2000, depois de a linha telefónica ter chegado apenas 7 anos antes e de a electricidade não ter chegado nunca, que o último habitante deixou a aldeia. Era um Martins, descendente da família mais antiga e representativa do lugar, dona do Solar dos Martins, o maior edifício de Drave. Os habitantes de Drave dedicavam-se em exclusivo à agricultura, em especial à cultura do milho e batata, e possuíam algum gado e cabras. Foi a fertilidade do vale, pela confluência de algumas linhas de água, que aqui fez estabelecer as pessoas, mas nas últimas décadas o tempo, “esse grande escultor”, foi afastando os habitantes mais novos, em busca de melhores condições de vida ou tão somente de escolaridade – nunca houve escola na aldeia.

Hoje praticamente tudo está em ruína e não fossem os escuteiros esta seria uma aldeia fantasma. São eles que têm vindo a reabilitar alguma das casas, tendo feito da Drave a Base Nacional da IV Secção do Corpo Nacional de Escutas e é por sua responsabilidade que a Drave ainda não morreu, preservando não apenas o edificado mas também as memórias do lugar com as suas iniciativas.

Um dos prazeres desta caminhada é deambular pelo casario de Drave. Assim o fizemos, primeiro do lado de cá da Ribeira de Palhais e, atravessada a pequena ponte, depois do lado de lá. É uma atmosfera incrível, espreitar pelas portas ou janelas já idas, ou até pelos pedaços de pedra que faltam nas fachadas, e ver a montanha diante nós.

Não se pense que são meia dúzia de casas. Não, a Drave era uma povoação grande e com muitas habitações. Implantadas em pequenas plataformas adaptadas ao terreno, quase como se de socalcos se tratassem, estão construídas em xisto e com telhados em lousa e possuem anexos de apoio à agricultura, como palheiros, currais, azenhas e espigueiros. Podemos ver um espigueiro maior abaixo da Capela, um espigueiro que servia toda a comunidade, exemplo do espírito comunitário destas povoações isoladas.

Um lamento, porém. Ao deixarmo-nos perder por entre as ruinhas e casinhas, percebemos que nem toda a gente que se propõe vir até Drave compreende este legado que mais uma parceria brilhante entre Homem e Natureza nos deixou. Inúmeras casinhas escancaradas pela falta da cobertura e partes da fachada estão repletas de lixo e, sobretudo, de papel higiénico. Está bem que temos de fazer as nossas necessidades fisiológicas, mas como se explica que haja gente que se abale a caminhar esforçadamente durante algum tempo para não respeitar o lugar de destino, por sinal incrível e único? Não desejo que optem pelo depósito deste tipo de resíduos na ribeira – há alternativas – até porque depois do passeio pelo casario de Drave ainda há que mergulhar na Ribeira de Palhais.

Este é outro dos pontos altos desta caminhada. As inúmeras poças e cascatas que se vão formando ao longo do vale. O Verão não é o melhor momento para as ver na sua máxima ou média força, daí que Maio ou Junho sejam os meses mais aconselhados para quem quer caminhar e mergulhar. Não nos tocou essa pujança ribeirinha, pelo contrário, a ribeira estava bem vazia e até dava para caminhar por ela.

Ainda assim, arranjámos um poço sem ninguém e com uma água transparente bem apelativa, para além de um recanto para um piquenique.

Depois de um merecido momento de descanso e reflexão por esta dádiva, iniciámos o caminho de volta. Mais custoso, uma vez que se na vinda havíamos descido, agora haveria que subir. Nada que os momentos relaxantes e de felicidade vividos anteriormente não nos tenham preparado para encarar.

Esta caminhada foi, em conclusão, uma das mais fantásticas que tive oportunidade de percorrer. Trilho com cenas grandiosas de montanha, povoação de construção vernácula em ruína, curso de água com poços cristalinos para tomar banho, tudo reunido, faz deste o passeio perfeito.

Se quiser saber mais sobre Drave pode assistir ao filme “Uma Montanha do Tamanho do Homem”, de João Nuno Brochado, lançado em 2014 e disponível em RTP Play aqui.

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Trilho do Vinho do Porto – 3° desvio à EN2

“Conheciam o Douro palmo a palmo, a íngreme dureza das suas encostas, o peso dos seus cestos vindimos, a luz mortiça dos seus lagares.” – Miguel Torga, in Vindima.

Não nos cansamos do Douro e insistimos em passear ao seu redor.

Perto de Lamego fica a aldeia de Samodães, sobranceira ao rio, onde tem início (e fim) o Trilho do Vinho do Porto, mais 8 kms fantásticos por esta inesquecível região. Esta caminhada circular não é inteiramente fácil, pois embora a primeira parte seja toda a descer tendo depois uma recta plana ao longo do rio, os seus últimos 2 kms são sempre a subir, num total de cerca de 2h 30m a dar à sola.

Descemos desde a igreja de Samodães sempre com o Douro na mira. Baixamos por entre caminhos protegidos por muros de xisto com vinhas logo ao lado. E fazê-mo-lo atravessando povoações, daquelas com meia dúzia de casas.

Já descemos bastante e olhamos para cima, confirmando que deixámos Samodães bem no alto. Lá em baixo corre o rio Douro, encaixado no vale, enquanto as encostas estão quase todas ocupadas por vinha. As linhas que a plantação das vinhas formam são uma beleza e todas diferentes. Não nos cruzamos com ninguém e começamos a chegar ao fundo do vale, rodeados de montes a enquadrar o Douro a toda a volta. Incluindo a Serra do Marão, imponente lá ao longe. Como escreveu Torga no seu “Reino Maravilhoso”, “Serras sobrepostas a serras. Montanhas paralelas a montanhas”.

É um cenário grandioso e sereno ao mesmo tempo, onde apenas o cacarejar das galinhas e o latido insistente dos cães vai ecoando. Aqui é-se feliz e nem a sensação de que à nossa passagem uma cobra se esgueira para dentro das vinhas nos perturba. Afinal, elas têm mais medo de nós do que nós delas.

O Douro já está quase à nossa beira e seguimos os últimos metros da descida pela estrada. Já a tínhamos avistado de cima, mas agora passamos mesmo ao lado do Six Senses, o hotel de luxo instalado na antiga Quinta do Vale Abraão que Agustina nos deu a ler e Manuel de Oliveira a ver.

Daqui abeiramos o Douro e seguimos durante cerca de 1,5 km sempre com ele ao nosso lado. Este rio é carismático e não nos cansamos de mirá-lo, ainda para mais sendo ele dono de reflexos incríveis que teima em oferecer-nos. Só um lamento: porque é tão difícil encontrar um lugar para nele mergulhar em segurança?

E chegou, enfim, o momento da grande subida. Grande em todos os sentidos. Extenuante fisicamente mas épica nas vistas. Um aviso: é obrigatório subir uns passos e ir parando para olhar para trás. Nem é preciso a desculpa do descanso, é mesmo por esta ser a parte do percurso mais estupenda.

Aqui caminhamos bem junto à encosta carregada de vinhas. Tão perto que percebemos um rapaz a trabalhar o terreno com o seu veículo empoleirado nos socalcos. Socalcos esses que o Homem há séculos teve a arte e o engenho de criar com poucos meios, cavando o terreno xistoso, assim transformando e moldando a paisagem da região do Douro a custo para que esta se tornasse a maravilha que os nossos sentidos hoje testemunham.

À medida que vamos subindo a paisagem vai ficando ainda mais bruta, socalcos, vinha e rio num cenário de montes a perder de vista. Um portão para o imenso convida-nos a espreitar os “íngremes socalcos, varandins que nenhum palácio aveza”, novamente nas palavras de Torga.

Com a respiração arfante e já quase com a igreja de Samodães à vista, espaço ainda para perceber um pássaro incrível, castanho com listas brancas e pretas e com uma crista irreal. Seguimos o poupa (é este o nome desta ave) durante uns metros pensando que companheiros lindos tem este Douro. Pode ser uma sorte, a dele, mas é seguramente também a nossa.

De Provesende ao Pinhão – 2° desvio à EN2

“Não é descer de Sabrosa para o Pinhão, estacar em São Cristóvão, e abrir a boca de espanto. Não é ir a São Leonardo de Galafura ou ao Miradoiro de São Brás, olhar o caleidoscópio, e ficar maravilhado. É compreender toda a significação da tragédia, desde a tentação do cenário, à condenação de Prometeu, ao clamor do coro.” – Miguel Torga, in “O Doiro”

Provesende é uma das mais belas aldeias vinhateiras do Douro. Situada no alto de um planalto, a sua implantação é privilegiada, rodeada de uma sucessão de montes e de muitas plantações de vinha. Com um longo passado e cheia de histórias para contar – uma delas a da origem do seu nome, que derivará de “pobre Zaide”, o mouro local vencido pelos vizinhos cristãos -, diz-se que nela podemos encontrar o maior número de casas brasonadas por metro quadrado. A cultura vitivinícola que aqui fez estabelecer uma série de nobres é a grande responsável pela sua construção, mas num espaço tão pequeno merecem ainda uma visita a Igreja Matriz e a Fonte Velha em estilo barroco, ambas do século XVIII, bem como o Pelourinho manuelino.

Do Largo da Igreja Matriz, situado a 590m de altitude, tem início um dos trilhos mais bonitos do nosso país. Ao longo de quase 6 kms descemos até ao Pinhão, a 80m de altitude. O trilho é conhecido como “Trilho Torgueano Provesende – São Cristóvão do Douro – Pinhão” e percebe-se porquê. Foi em paisagens esplendorosas como esta que Torga foi buscar inspiração para a escrita das mais belas descrições do nosso país, como aquela com que iniciámos este texto.

A região do Douro é um exemplo da sobrevivência e superação do Homem face a terrenos inóspitos. Com a permissão e colaboração da Natureza, desde a época romana que insiste na cultura da vinha e vem transformando a paisagem, moldando-a em socalcos. Em resultado e em reconhecimento, em 2001 o Alto Douro Vinhateiro foi distinguido pela UNESCO como Património da Humanidade. São cenários magníficos aqueles que teremos por companhia durante esta caminhada de pouco mais de 1h 30m.

Saímos de Provesende e logo começamos a descer – uma constante ao longo de todo o percurso, daí que este trilho seja relativamente fácil para qualquer pessoa em termos de esforço físico. Caminhamos em terra batida, junto a muros de xisto, percebendo que os solos aqui são xistosos. E logo tem início o desfile de vinhas. Vinhas e mais vinhas, nunca cansam, e o passatempo perfeito é observar as várias formas das suas linhas, quase todas elas dispostas em socalcos, mas todas plantadas nas íngremes encostas. As características topográficas e climáticas do Vale do Douro fazem com que esta seja uma região óptima para a cultura da vinha. Um solo ácido, um fundo dos vales húmido e sujeito a forte radiação solar e sobretudo a exposição e a orientação dos terrenos aliado ao clima mediterrâneo de invernos frios e verões quentes e secos, eis a conjugação perfeita de factores para que esta seja não apenas uma região propícia à vinha mas também uma de excelência para a produção de vinhos do Porto Vintages.

E é por isso que em toda esta zona encontramos das mais famosas quintas do Douro. Este trilho de São Cristóvão não passa por nenhuma delas, mas atravessa muitas outras vinhas particulares. E é por isso que, bem perto, percebemos que já se veem umas uvas, bem verdinhas. Mas as vinhas não estão sozinhas nesta paisagem, antes têm a companhia de muitas oliveiras.

À medida que vamos descendo vamos avistando o Douro ao fundo, mais um momento alto da caminhada. Afinal, é por ele que aqui estamos e é até ele que caminhamos.

Uma breve passagem na estrada permite-nos debruçar sobre a aldeia de São Cristóvão do Douro, no vale da outra vertente do monte, belamente rodeado de mais socalcos de vinha.

De volta ao trilho de terra, o Miradouro de São Cristóvão do Douro é soberbo. Como dizia o guia que aqui largou um grupo de ingleses, “este é o spot”: uma soberba vista do rio Pinhão a juntar-se às águas do rio Douro. Não vale a pena procurar mais, este é o lugar para se estar e deixar ficar. E talvez arriscar compreender a sua beleza dramática, que Torga tão bem nos tentou explicar.

O Pinhão já está mesmo à nossa beira, mas há que descer até ele. Diversos afortunados possuem aqui casas alcandoradas, todas com terrenos de vinhas, os mais felizes até com acesso ao rio. O rio Pinhão corre sereno e um moço privilegiado rema no seu caiaque, passando tranquilamente por baixo da ponte romana. O cheiro das figueiras adoça ainda mais o cenário idílico e acompanha-nos em até à foz do Pinhão, onde atravessamos o rio pela nova ponte pedonal, com vista para a ponte ferroviária (e mais para lá há ainda uma outra ponte).

A vila do Pinhão não é muito antiga, tendo crescido com o comércio do vinho do Porto no século XIX. Os vinhos continuam a sair do seu Cais, e se antigamente seguiam em pipas nos típicos barcos rabelos e depois de comboio, hoje fazem-no através de todos os meios de transporte ao dispor. O Cais do Pinhão é também muito movimentado pelo intenso turismo que a vila recebe. Daqui podemos sair a passear de barco e uns metros mais adiante tomar o comboio rumo à Régua ou a Tua. Mas neste Verão de Covid-19 tudo está estranhamente calmo, ideal para o sossego da observação dos incríveis reflexos dos montes que caem sobre o Douro. Pode ser uma paisagem oferecida, fácil, mas assumimos com todo o prazer o seu abraço preguiçoso.

Este percurso não pode terminar senão na estação de comboio do Pinhão. Pode ser hiper turística, um cliché até, mas esta é mesmo uma das mais bonitas de Portugal. Inaugurada no século XIX, foi a partir de 1937 que começou a ganhar fama pela beleza da decoração das suas paredes em azulejo. São 24 painéis em azulejo azul que através da representação de cenas do dia-a-dia no Douro contam a história da produção do vinho do Porto, desde o momento da vindima até ao transporte fluvial do vinho. E aqui, observando estes azulejos e as vidas que mostram, recordo uma passagem de “Vindima”, único romance de Miguel Torga, e percebo que o Douro nem sempre e nem para todos foi só passeio e facilidades, antes o tal resultado do esforço dos homens face a uma natureza inóspita.

“Depois da ceia, o pessoal, extenuado, esfarrapado é imundo, dormia pelos cantos a fazer horas. Ganho o dia aos cestos, numa escravidão de besta de carga, era preciso ganhar a noite, enterrado em vinho, num marcar passo que a princípio dava gosto e alegria, e depois era uma tortura sem fim.”

Trilho das Fisgas do Ermelo – 1° desvio à EN2

“O pouco que sou devo-o às fragas. Foi a pisá-las que aprendi a conhecer a dureza do mundo e a admirar o ímpeto que se não resigna à lisa sonolência duma paz interior espalmada. A inquietação da terra vê-se nos montes. Sem eles, quem daria aos homens o permanente exemplo da sublevação natural que há no espírito da própria vida?” – Miguel Torga

Em territórios de Vila Real e Mondim de Basto, percorrer o trilho das Fisgas do Ermelo é a melhor forma de se conhecer e perceber a Serra do Alvão, sua natureza bruta e modos de vida das suas povoações.

De Vila Real ao Ermelo, a aldeia de xisto onde tem início o trilho, são 30 kms. Mas grande parte deles são percorridos no troço da EN 304 correspondente ao Vale da Campeã, entre as serras do Alvão e do Marão. São cenários grandiosos aqueles por onde rolamos nesta que é considerada uma das melhores estradas da Europa para se conduzir.

Deixamos o carro na aldeia do Ermelo, a quem foi dado foral no século XII por D. Sancho I, passamos pelo seu Pelourinho junto àquela que foi a antiga casa da cadeia e junta de freguesia (extinta), uma fonte aqui, um espigueiro ali e inúmeras casas de xisto com telhado de lousa. E são precisamente para umas placas de lousa que o artista local se orgulha de chamar a nossa atenção. Lemos os textos aí inscritos contando a história do lugar e dedicatórias à sua beleza e encanto (“há (sic) tarde quando anoitece / louco de tanta beleza / o Ôlo não adormece / canta um hino à natureza”) e iniciamos os 12 kms do percurso pedestre (PR3 Fisgas de Ermelo) que nos manterá epicamente ocupados ao longo das próximas quase 6 horas.

O Olo é o rio que nasce no Alvão, um pouco para lá da povoação de Lamas de Olo, e desagua no Tâmega pouco antes de Amarante. É ele a grande estrela deste trilho ao proporcionar, em parceria com as locais rochas quartzíticas, uma queda de água com um desnível de cerca de 400 metros que se desenvolve em diversos patamares, formando lagoas de água cristalina, as “piocas”. No entanto, o primeiro curso de água de que nos aproximamos é a Ribeira de Fervença (que em breve se juntará ao Olo), até onde descemos desde a aldeia do Ermelo e cruzamos a sua ponte de madeira.

A partir daqui iniciamos uma longa subida a caminho das Fisgas e da aldeia de Varzigueto, primeiro protegidos pela vegetação, mas logo a céu aberto – daí que a caminhada em dias de maior calor possa ser ainda mais extenuante. Só que as vistas são absolutamente fantásticas, um emaranhado de serras e penhascos agrestes – um lugar de espanto e terror, como tão bem caracterizou Miguel Torga -, onde ao longe uma espuma branca pinta um desses penhascos, escorregando por ele abaixo. São, precisamente, as Fisgas. Os pretextos para pararmos e deixarmo-nos absorver pela magia do cenário são muitos, fazendo com que nem a subida nem o calor nos detenha.

A Lomba do Bulhão é o primeiro miradouro oficial, mesmo de frente para as Fisgas e debruçada sobre o vale do Olo.

Todavia, durante esta primeira parte da caminhada, a da subida, as Fisgas têm a forte concorrência do Monte Farinha, acompanhado de mais dois ondulantes montes, todos em filinha uns ao lado dos outros. O Monte Farinha é, a par das Fisgas, o grande símbolo do concelho de Mondim de Basto, e tem o Santuário da Senhora da Graça no seu topo, lugar incontornável da passagem da Volta a Portugal em bicicleta. Já o tínhamos subido (de carro) num dia de vento e chuva e havíamos sentido que o ambiente que lá se experimenta era quase místico. Agora ao longe, vendo-o em toda a sua formosura no meio de uma paisagem imensa, não podemos deixar de recordar todo o seu poder.

Estamos em Terras de Basto e a felicidade inunda-nos. Que cenário!

As Fisgas ainda vão longe, por enquanto percebemos pouco mais do que a tal longa espuma branca a pintar a rocha, mas mesmo à distância o barulho intenso da queda da água faz-se sentir. À medida que circundamos o percurso, agora por um trilho com uma subida menos pronunciada, e nos aproximamos das Fisgas, vamos percebendo alguns dos muitos patamares em que vai caindo e as piscinas naturais que vai formando, as piocas. Este é um fenómeno natural onde um acidente geológico originado por uma falha interrompe o curso do Olo em sucessivas quedas de água em desníveis ao longo de centenas de metros.

Logo vemos uma pioca mais larga, vazia de gente, e definimos que é aí que vamos querer mergulhar. Mas não nos podemos distrair com a ansiedade e com o desejo de refrescar porque nesta vertente do trilho as lascas da pedra são usadas para definir o caminho.

Já estafados, finalmente o trilho dá-nos uma recta e até uma leve descida com o bónus de árvores como cobertura, uma espécie de descanso bem antes do meio do percurso.

Mais um miradouro, desta vez quase junto às Fisgas e às Piocas, próximo do Alto da Cabeça Grande, talvez o ponto mais elevado da nossa jornada, a 802 metros de altitude (a aldeia do Ermelo, onde começámos, está apenas a cerca de 420 metros).

É pouco depois que surge o desvio para as Piocas de Cima. Primeiro assistimos ao Olo a correr plano e lentamente. Depois percebemos um desnível seguido de uma piscina natural, mais um desnível e outra piscina, e mais um e outra, e poderíamos estar aqui até ao fim do dia a contá-los.

O lugar é verdadeiramente incrível e a vontade de uma banhoca gelada e refrescante ganha a concorrência de querer perceber como é a piscina que se segue. Controlamos uma vez mais a ansiedade e entramos na água, gentil e cristalina. Boiamos e olhamos o céu, a tentar acreditar que temos toda esta natureza para nós. Ainda dentro de água, espreitamos a próxima piscina. Demoramo-nos. Só então, já fora da lagoa escolhida, vamos caminhar em busca de mais piocas pelos blocos de pedras que as rodeiam que, por não serem escorregadias, não constituem um perigo de maior. Percebemos, com ingenuidade, que a tal pioca mais larga que viramos do miradouro anterior está um bocadão mais lá abaixo, sendo que o abaixo aqui é relativo, porque as verdadeiras Piocas de Baixo estão infinitamente mais abaixo. Digamos que esta lagoa generosa estará no primeiro 1/4 da infinitude da queda de água das Fisgas. Aliás, o nome “Fisgas” deriva precisamente desta forma que a água do Olo encontrou para se acomodar na parede rochosa, como que enfisgando-se.

Mas não vale a pena arriscar demasiado em busca de mais piocas, porque as que temos cá em cima temo-las que chegue. Continuamos, por isso, caminho rumo a Varzigueto, agora sempre junto ao Olo, estreito, quase um fio de agua sereno que vai dando para molhar os pés e a espaços até banhar o corpo todo.

Varzigueto, aldeia de montanha, está belamente implantada a 745 metros de altitude e aqui a ruralidade impera. Também com casas de xisto, palheiros e espigueiros, aqui as vacas pareciam indomáveis, teimando em escolher o seu caminho à revelia do seu domador. Não deixo Varzigueto sem quase tropeçar ou pisar num pedaço de qualquer coisa enrolado no chão. Felizmente que o senhor PAN não anda por aqui e alguém já lhe tinha dado uma paulada na cabeça, ou teria apanhado o susto da minha vida.

Atravessada Varzigueto, retornamos, passamos a ponte e seguimos agora pela margem contrária do Olo. Mesmo repetidas, as vistas continuam bonitas e, saciados, não desviamos novamente para as Piocas de Cima. O som forte da água a cair continua.

Pouco depois passamos pela Cancela do Miradouro com nova panorâmica, e mais próxima, para o Monte Farinha.

E logo chegamos ao mais famoso e acessível miradouro para as Fisgas do Ermelo, aquele onde se chega de carro imediatamente a seguir ao Fojo, com a sua capela, e o mais próximo que podemos chegar delas sem qualquer esforço físico. Há anos tinha aqui estado e é incrível como, apesar de brutal, não se percebe nem um décimo da enormidade das Fisgas. Aqui se lê e confirma com sentimento as palavras de Torga já referidas anteriormente: “Cá me vim debruçar também sobre o despenhadeiro das Fisgas, com os pés seguros pelos companheiros por causa das vertigens. E apreciei devidamente este misto de espanto e terror. A contemplação dos abismos naturais é necessária de vez em quando a quem tem a atracção dos outros. Toma-se consciência, com rigor físico, das asas que nos faltam para estar à altura da máxima de Nietzsche”.

Deste miradouro iniciamos uma descida num terreno de pedra. Até aqui o trilho tinha estado sempre muito bem marcado, com indicações amiúde, mas nesta descida perdi-me, voltando no entanto ao caminho com pouca demora e sem esforço de maior.

As Piocas de Baixo são outra das atracções da jornada. E começam por se ver e ouvir desde bem ao alto, logo aguçando a vontade de as espreitar de perto. No Ermelo tinham-nos dito que este era o lugar mais bonito de toda a região. Descemos, desviamos no trilho, descemos mais um pouco e aí estão as lagoas de baixo. Acontece que não esperávamos encontrar aqui tanta gente e, sobretudo, parafernália como colchões de água, bóias com patinho e música a sair demasiado alta de um rádio. Alguém chegou primeiro e tomou o lugar para si. Merecem respeito na mesma, uma vez que tanto para chegar às Piocas de Baixo como às de Cima há que caminhar mais de 1 km, nada é oferecido.

De qualquer forma, já não houve mergulho nestas piocas, antes subimos e seguimos rumo aos últimos 2 kms até à meta na aldeia do Ermelo. Que acabaram por ser um pouco mais, uma vez que alguma distração fez perder nova sinalização num qualquer cruzamento, levando a que se tivesse que saltar uns quantos muros até retomar o trilho. Continuamos a descer e aqui ficamos preocupados, porque sabemos que o casario de Ermelo está mais acima e, cansados, sabemos que teremos de enfrentar mais uma subida.

Cruzamos a ponte da Abelheira e reconheço a água do rio pintalgada de vegetação em forma de pompons que há anos tinha apreciado. Aqui é um bom lugar para descansar, tomar banho e até mergulhar.

E, bom, a partir daqui é mais 1 km sempre a subir. Com o acumulado da caminhada, quase 6 horas, é o que mais custa. Mas, com a chegada às casinhas de xisto do Ermelo todo o cansaço se vai e uma enorme alegria nos inunda pelo feito da conclusão de uma das mais épicas e incríveis caminhadas jamais feitas no nosso país. O coração do Alvão tinha sido atingido, mas eu é que sai conquistada, ainda mais após uma perseguição e espera de alguns anos.

Um passeio pelo Cabo Espichel

O Cabo Espichel é um promontório aberto ao Atlântico situado no concelho de Sesimbra e integrado no Parque Natural da Arrábida. São, por isso, belas paisagens que nos esperam num passeio pela costa ao seu redor.

A caminhada que propomos em seguida tem cerca de 10 kms no total e aproveita dois dos percursos pedestres oficiais da Câmara de Sesimbra, o “Maravilhas do Cabo” e o “Chã de Navegantes”, ambos circulares e cada um com 5 kms.

Começamos o nosso passeio exactamente no Cabo Espichel. Lugar de pura natureza, ao mesmo tempo cândida e selvagem, este é também um lugar de história e lendas. Temos de um lado o Farol, construído em 1790, o que faz dele um dos mais antigos de Portugal, e do outro o Santuário de Nossa Senhora do Cabo, datado do início do século XVIII. Este último é um lugar inspirador, cujo estado de relativo abandono só faz adensar o clima de mistério. Enorme e monumental no seu terreiro de linhas harmoniosas, a formosa Igreja de Nossa Senhora do Cabo (diz que bonita no seu interior, mas fechada à minha passagem), mandada construir por D. Pedro II, devoto de Nossa Senhora do Cabo, é ladeada por umas impressivas alas que serviam de hospedaria aos romeiros que para aqui vinham em peregrinação.

Diz a lenda que em 1410 apareceu uma imagem da Virgem no exacto lugar onde logo se instalou a Ermida da Memória, no topo da escarpa acima da Baía dos Lagosteiros. O lugar é incrível, uma extensão profunda do mar onde não custa assumir qualquer tipo de religiosidade. O aparecimento desta imagem da Virgem resultou no culto da Nossa Senhora do Cabo Espichel por multidões de peregrinos, pelo que em 1701 se decidiu pela construção do Santuário de Nossa Senhora do Cabo, também conhecido por Santuário de Nossa Senhora da Pedra da Mua. A lenda da Pedra da Mua é contada de forma historiada através de painéis de azulejo guardados no interior da Ermida – a imagem da Virgem transportada por uma “jumentinha” desde o mar até ao topo do Cabo, subindo pela laje conhecida como Pedra da Mua.

Para além da ermida, da igreja, das duas alas de hospedarias conhecidas como Casa dos Círios e do cruzeiro, o conjunto monumental possui ainda hortas dos peregrinos, a Casa da Ópera (em ruínas) e a Casa da Água, abastecida por um aqueduto cuja estrutura vemos na estrada à chegada ao Cabo. Apesar do estado de abandono, o culto da Senhora do Cabo ainda se mantém e prevê-se o restauro do complexo do Santuário.

Do Santuário saímos pelo percurso pedestre “Maravilhas do Cabo” na direcção da baía e praia dos Lagosteiros, sem todavia descermos até ela. As arribas são instáveis e a quantidade de pedras que fazem a vez da areia nesta praia são também a prova do perigo. De qualquer forma, a beleza da pequena enseada e a cor do mar fazem felicidade em abundância mesmo vistas de cima. Contornando a baía caminhando pelas arribas calcárias, vamos vendo distanciar-se a fabulosa escarpa com paredes de laje onde está instalado o Santuário de Nossa Senhora do Cabo. Tudo aqui é grandioso.

E eis que chegamos ao ponto de observação das pegadas de dinossauros, não menos imensas. São pegadas do período jurássico impressas na rocha imediatamente junto ao mar. Crivadas na rocha vemos também moldes de fósseis.

Continuamos a caminhar junto à costa, mas agora com vista para as longas praias do Meco e da Fonte da Telha, com a Serra de Sintra e o seu Monte da Lua bem ao fundo.

A vegetação é rasteira e o trilho fácil de perceber. Uma variedade de flores distrai-nos no caminho de volta até à estrada.

Atravessa-mo-la e iniciamos o percurso pedestre “Chã de Navegantes”. Tomamos um caminho sempre a direito por um estradão de terra batida ladeado por edifícios em ruína que nos levará em direcção ao mar. Num ponto elevado admiramos a grandiosa costa da Arrábida, com a silhueta preciosa das suas falésias verdes a cair no mar azul. Sabemos que aqui em baixo fica a Praia da Baleeira, de difícil acesso, mas não a vemos.

Descemos rente à falésia por um caminho estreito, na parte mais difícil e assustadora do percurso, tentando não nos distrair demasiado com a paisagem fabulosa do Atlântico onde os veleiros navegam tranquilamente.

Contornamos a arriba, um monte com uma rocha de belo molde no topo – é um bloco de rochas dolomíticas mais antigas misturadas com rochas calcárias mais recentes, conhecido como Horst do Forte da Baralha.

O Forte da Baralha, ele próprio, fica mesmo aqui debaixo. Construído no século XVII, esta pequena fortificação está em ruínas, percebendo-se ainda os seus panos de muralha e janelas rasgadas na estrutura. A sua implantação geográfica é incrível, um pouco elevado rente ao mar. Ao seu lado, igualmente em ruínas, a vizinha Capela de invocação ao Senhor Jesus dos Navegantes, onde as tripulações das embarcações de Sesimbra gostavam de parar antes da partida para as grandes viagens.

E a uns passos do Forte, eis uma formação geológica surpreendente. A Rechã dos Navegantes e o campo de lapiás, modelado pela erosão marinha, que cai num género de plateau de rocha calcária mar adentro.

Daqui empreendemos a subida em direcção ao nosso destino / ponto de partida, virando a custo as costas àquela enorme paisagem natural, mas arranjando todos os pretextos para mais uma paragem para a contemplar uma última vez. Quem disse que não há que olhar para trás?

Pela Serra de Sintra, com início e fim na Barragem da Mula

Outro lugar onde vamos querer voltar rapidamente em tempos de desconfinamento é a Sintra. Sintra é infinita. Não nos cansamos nunca de a correr porque ela é imensa no que há para descobrir (e já a registámos diversas vezes aqui no blog). Desta vez vamos pelos trilhos da Serra de Sintra desde a Barragem da Mula em direcção aos Capuchos, ainda a aguardar que o “novo” Convento reabra depois dos tempos de restauro, com volta larga até ao ponto inicial.

A Barragem da Mula, ponto de partida para muitos caminhos, retém por momentos a água do Rio da Mula, rio que nasce na Serra de Sintra e que após uns breves 10 kms de curso desagua no Atlântico. Esta barragem envolta pela natureza não está disponível para actividades aquáticas, mas as caminhadas junto a ela servem bem qualquer propósito de evasão.

Seguimos por uma curta subida por entre pinheiros e eucaliptos com a água desta espécie de lago ao nosso lado. E haveremos de a contornar até meio, de forma a melhor observarmos a barragem de outro ângulo.

O fio de água do Rio da Mula é bem estreito, a maior parte das vezes até nem damos por ele, mas as pequenas pontes de madeira sucedem-se. Algumas delas num estado tal que é um convite descarado a meter o pé na poça.

Só que muitas destas pontes até estarão aqui colocadas não para se atravessar algo, mas para tornar o trilho mais atraente e desafiante para o pessoal do BTT. Estes trilhos não são propriamente o lugar ideal para se caminhar confortavelmente apartado do mundo. Porque são difíceis de vencer a pé sem recurso à ajuda de bastões, por exemplo, e porque pode vir de lá lançada uma bicicleta a voar e aterrar mesmo em cima de nós. Mas enfim… fui lá parar não sei como, talvez por falta de sinalização ou por falta de atenção à sinalização, e por aí segui com sorte de não me cruzar assim com tantos radicais da bicla.

A melhor alternativa, embora não tão bonita como o intenso mergulho na floresta de trilhos, é seguir pelo estradão de terra aberto propositadamente para os caminhantes e para os ciclistas menos afoitos.

Mas depois de uns quantos metros pelo estradão com arvoredo de ambos os lados, logo voltamos à imersão na floresta. Uma relativamente extenuante subida num ambiente incrível leva-nos na direcção do Monge. Aqui ficam os Tholos do Monge, um monumento megalítico a 490 metros de altitude. Não há vistas, porém, uma vez que estamos mais uma vez rodeados de vegetação.

As vistas aparecerão mais adiante. Depois de percorremos mais um estradão com os troncos das árvores cobertas de hera, uma nesga deixa-nos vislumbrar a Costa de Sintra, com a forte ondulação a tornar branco o azul da água.

Após uma boa estirada por tapadas, num percurso circular que nos levará de volta ao ponto inicial, subimos até à Pedra Amarela. Aqui sim, as vistas são desimpedidas e soberbas. Para o Atlântico, para a Peninha, para a Pena, para tudo. O ambiente é incrível e as próprias rochas deste alto a 408 metros ajudam ao cenário.

Do Monte da Pedra Amarela até à Barragem da Mula é sempre a descer. Aqui a floresta está neste momento tristonha. Muito terá ardido em incêndios recentes e muitas espécies invasoras ajudaram à desolação. Um exemplo: após o grande incêndio de 1966 na Serra, foram aqui introduzidas espécies exóticas que se expandiram de forma agressiva, sobretudo a acácia, rivalizando e destruindo a vegetação prévia. Nos últimos anos tem estado em andamento um projecto de reflorestação desta parte da Serra de Sintra, para que possamos usufruir da exuberância e equilíbrio pela qual é conhecida. Outro aspecto menos agradável é o barulho intenso e constante produzido pelos carros no autódromo. Não tem piada nenhuma este outro tipo de espécie invasora do ambiente, impossibilitando melodias mais condizentes.

O Parque da Pedra Amarela e seu Campo Base é um parque aventura com muitas actividades, como slide, pista de arborismo, escalada, rappel e orientação, entre outras. Não nos aventurámos em nenhuma delas e subimos antes até à elevação directamente acima da barragem. São as vistas, sempre elas, que nos movem. E aqui nós deixámos ficar a apreciar o esplendor natural da Serra de Sintra, até que, saciados de beleza, iniciámos então a descida dos últimos metros dos cerca de 11 kms deste passeio com início e fim na Barragem da Mula.

As Praias da Arrábida

Com a quarentena a dar as últimas, o desconfinamento em marcha e o Verão a chegar, a Arrábida é o sítio para se estar. Aquela natureza recôndita, serra parelha do mar, vegetação de um verde vivo só superado pelo irreal azul do Atlântico, é um bálsamo em qualquer época da vida, transformado agora em prémio pelas provações vividas em tempos de isolamento.

O Parque Natural da Arrábida, dividido entre os concelhos de Sesimbra, Setúbal e Palmela, é de uma diversidade incrível, não apenas no que diz respeito à fauna e flora. Falo de lugares como o promontório do Cabo Espichel, serras rochosas e escarpadas e serras interiores, baías inacessíveis e outras oferecidas, todas de água transparente, fortes, conventos, castelos e povoações de arquitectura rural onde a vinha e o queijo são delícias populares. E vistas de tirar o fôlego. Tudo para se ir descobrindo lentamente, voltando repetidas vezes, de preferência para se caminhar nos seus inúmeros trilhos.

A época de maior calor não é, contudo, a mais aconselhada para se caminhar a céu aberto, pelo que seguimos de carro à descoberta das praias mais facilmente acessíveis da Arrábida, entre Sesimbra e Setúbal, não dispensando, porém, largas caminhadas entre elas, sempre junto à costa.

Entrando por Azeitão, ziguezagueamos pela estrada numa descida até ao mar. Aldeias e casarões escondidos nos montes cobertos de uma carapinha verde, uma pedreira aqui e ali – o único elemento negativo do Parque Natural -, e logo o nosso olhar é roubado. Já falei daquele azul do mar?

A primeira paragem que propomos é na Praia de Alpertuche, imediatamente antes da descida para o Portinho da Arrábida. Para se alcançar esta pequena praia escondida no meio da vegetação e dos rochedos há que caminhar por uma estrada de terra batida só acessível aos veículos dos proprietários das casas aí situadas e, depois, descer um breve trilho completamente envolvidos pela natureza. Umas nesgas no arvoredo vão-nos preparando para o cenário lá em baixo junto ao mar. Esta praia mínima com uma espécie de chalet em plena areia tem uma série de pedras e a vista típica das arribas e cor do mar da Arrábida.

Logo a seguir fica um dos lugares mais surpreendentes do Parque, a Lapa de Santa Margarida. Descemos sucessivos degraus em pedra construídos por um ermitão, mais uma vez totalmente engolidos pela vegetação, passando por rochas e cactos curiosos, até chegarmos à beira mar e, deitando-lhe costas, nos aventurarmos a entrar por um buraco aberto na parede da rocha.

É então que deparamos com uma enorme gruta, com uma capela no seu interior, um cenário misterioso com as veias da rocha a tomarem formas incríveis. Esta gruta tem a tal abertura na rocha e tem, ainda, uma abertura directa para o mar que mais parece uma janela. Uma janela natural por onde em tempos idos os pescadores vinham nos seus barcos em peregrinação para orar neste lugar absolutamente recolhido.

O Portinho da Arrábida é exíguo no seu estacionamento, por isso é boa ideia deixar o carro perto da Lapa e seguir a pé até à baía mais famosa da Arrábida. Passamos o Forte de Santa Maria da Arrábida, hoje Museu Oceanográfico, construído no século XVII para defesa do pequeno porto e do convento mais acima, e logo temos aos nossos braços aquela paisagem imensa. A encosta verde da serra a cair delicadamente no azul do mar. E a água tão transparente. A diversidade marinha é grande e o Portinho é um bom lugar para mergulho. E é também o local ideal para uma paragem para almoço num dos seus restaurantes antes ou após uma caminhada pela longa Praia do Creiro, à qual não falta sequer uma estação arqueológica, uma antiga fábrica romana de salgas de peixe.

A areia do Creiro é branquinha, branquinha, mais um tom para a palete perfeita. Vale a pena percorrê-la de uma ponta à outra, avistando a ilhota da Anicha, querendo sempre chegar um pouco mais adiante, embrenhando-nos nas rochas em busca de um refúgio ainda mais isolado. Não se pode, em situação alguma, subir às falésias, apesar da vontade de tentar chegar à próxima praia. Solução? Ir a nado.

Ou voltar para o carro e seguir pela estrada com pontos de vista lindíssimos até ao início do trilho que nos leva à Praia dos Coelhos.

Uma delícia caminhar por estes sítios, rumo a praias abrigadas com águas azuis-esverdeadas de uma transparência e tranquilidade sem limites.

Da Praia dos Coelhos, diversos trilhos totalmente protegidos pela vegetação transportam-nos até às Praias dos Galapinhos e dos Galapos. Mais do mesmo. Sendo que este mesmo é o máximo.

Depois dos Galapos fica a Praia da Figueirinha, a mais popular e acessível das praias da Arrábida, já à porta de Setúbal. Mas optámos, antes, por entrar em Setúbal seguindo pela estrada mais acima na serra, aquela que dá acesso ao Convento da Arrábida.

É aqui que a Arrábida nos é oferecida em todo o seu esplendor. Não apenas nos sucessivos miradouros que se abrem no horizonte nesta estrada espectacular, mas também no misticismo da Serra, que desde o século XVI se habituou a ser lugar de conventos. Hoje resta o Convento da Arrábida, antigo convento franciscano escondido na vegetação com vista para o Atlântico, mas chegaram a ser nove, testemunho de uma vida espiritual intensa, onde os ermitas se recolhiam em meditação e oração. E restam as inúmeras cruzes cravadas nas encostas. Há quem defenda que o topónimo Arrábida provém da palavra árabe “arrábita”, cujo significado é “local de oração”. José Tolentino Mendonça escrevia em artigo relativamente recente no Expresso que “O mais difícil não é ir à Arrábida. Difícil, difícil, é entendê-la: porque boas praias, boas sombras e boas vistas há-as em toda a parte… O que não há em toda a parte é a religiosidade que dá à Serra da Arrábida elevação e sentido”.

Certa de que não a entendi por inteiro, talvez desculpa para lá voltar, termino com as fáceis paisagens. Depois de uma piscadela de olho a Lisboa para além do largo Tejo, um abraço ao Sado como despedida breve da Arrábida.

Passadiços do Alamal

Os Passadiços do Alamal já cá andam há muitos anos, mas desde os incêndios de Agosto de 2017 que assolaram a região ganharam uma nova cara, nomeadamente no que à acessibilidade para todos diz respeito, incluindo aqueles com mobilidade reduzida.

Obra premiada do gabinete de arquitectura Proap, encomendada pela Câmara Municipal do Gavião, o Parque Fluvial da Quinta do Alamal é uma pequena maravilha no Tejo.

Para lá chegar descemos um vale encaixado nas colinas graníticas onde à natureza se juntou uma barragem que fez inundar um pouco mais o Tejo. Estamos na margem esquerda do rio e na praia fluvial, onde encontramos o Alamal River Club, a unidade de alojamento que ocupa, precisamente, a antiga quinta.

Da praia fluvial, onde não falta sequer uma língua de areia branca, parte um percurso sobre passadiços de madeira de cerca de 1800 metros de comprimento, até à ponte de Belver, com o seu característico tabuleiro metálico verde. Este percurso, que a câmara pretende ver prolongado, é parte do PR1, “Arribas do Tejo”, mais longo, circular e com passagem por ambas as margens do rio. Mas nos passadiços caminhamos sempre pela margem esquerda do Tejo. E quase sempre com a companhia da imagem fabulosa do belo castelo de Belver na margem contrária.

O passadiço, encostado muitas vezes à rocha de granito que faz parte da paisagem juntamente com o rio, vai ganhando forma, curvando onde tem de curvar e estendendo-se livremente onde pode. A vegetação sobre ele vai variando, com árvores, flores ou canas, zonas mais protegidas ou mais abertas. Encontramos até um pequeno e discreto curso de água a rolar sobre umas pedras com musgo verde.

Mas é, no entanto, a água do grande Tejo que vai dominado a paisagem. E o castelo, claro. Uma beleza natural (bem) moldada pelo homem.