Pontal da Carrapateira

O percurso pedestre “Pontal da Carrapateira” auto-denomina-se como “museu vivo”. E é mesmo disso que se trata este trilho circular de 10,5 quilómetros, parte integrante da rede Rota Vicentina, com início e fim na aldeia da Carrapateira. Ao longo do caminho conhecemos a carismática aldeia da Carrapateira, as dunas e a laguna da praia mais extensa de Aljezur, falésias coloridas, minúsculos portos piscatórios, uma aldeia de pescadores muçulmanos da época medieval e cerros verdes nas costas da última praia do concelho, a do Amado. A paisagem natural bruta e doce da Costa Vicentina mescla-se aqui com elementos geológicos, etnográficos, antropológicos e históricos. Esta caminhada fácil não é apenas lazer, é também uma verdadeira aula a céu aberto.

Saímos da Carrapateira imediatamente a caminho do Atlântico e o primeiro quilómetro e meio é todo ele percorrido sobre um longo campo de dunas. Até que aparece o primeiro vislumbre de água. No entanto, ainda não é o oceano, antes a laguna que se costuma formar na praia da Carrapateira / Bordeira que, já se disse, é a maior do concelho de Aljezur, com um areal de cerca de 3 quilómetros. É tão grande, tão grande, que consegue acolher um sem número de elementos naturais: areal, falésia, praia, lagoa, ribeira e várzea. Este é o lugar da foz da ribeira da Bordeira e, dependendo das marés e do vento, a sua configuração varia. O que não muda é a beleza das suas metamorfoses paisagísticas.

Contornamos a laguna pela sua vertente sul e em breve nos preparamos para seguir caminho no cimo das falésias, sempre junto ao mar. São 6 quilómetros até à praia do Amado e impressiona desde logo a cor destas falésias, com escassa vegetação e formas e rasgos duros e agrestes. É o Geomonumento do Pontal da Carrapateira, um património natural esculpido pelo mar e pelo vento.

Ao longo do percurso deste museu vivo vemos enormes painéis sob a forma de letras do abecedário, instalados sobre a arriba, com informação vária do ponto de vista paisagístico, geológico e etnográfico. A páginas tantas, numa das letras de um desses painéis lemos o seguinte: “o pontal esculpido nas rochas – açoitado pelo mar e pela aridez do vento”.

Para norte da Bordeira a rocha das falésias é predominante xisto, mas para sul é o calcário que passa a dominar. Ora, a rocha calcária está mais sujeita a dissolução pela acção da água – seja do mar ou da chuva – pelo que com tamanhos “açoites” vai erodindo e de caminho ganhando formas diferentes com a ajuda da baforada do vento. Este processo tem milénios e séculos, embora a erosão venha acelerando cada vez mais num curto espaço de tempo, de tal forma que são visíveis as suas marcas até no espaço de uma geração.

Para além do recorte da falésia, com reentrâncias e penhascos mais saídos, observamos ainda a sua cor avermelhada. Mais uma vez, é ao processo erosivo que vamos buscar a explicação para esta mudança na paisagem. O calcário é branco, mas os sedimentos no seu interior que brotam com a sua dissolução não o são, dando um toque mais colorido ao cenário. Por vezes parece que caminhamos em Marte, mas com o mar à nossa beira. É a Costa Vicentina no seu estado mais bruto.

Ao longo do percurso encontramos vários miradouros debruçados sobre o mar, aos quais acedemos por passadiços de madeira. As falésias são brutas e abruptas. Mas os destemidos pescadores não se deixam assustar e é vê-los à pontinha, no último espaço de terra, por vezes quase empoleirados, a aguardar que o peixe morda o anzol lá longe, no outro lado da longa linha estendida falésia abaixo. Outras vezes andam lá em baixo, furando as rochas em busca do melhor percebes.

O acesso da costa não é fácil, já se vê. Mas os pescadores conseguiram descobrir espaço e forma de montar aqui 2 portinhos de pesca. O primeiro deles, o Portinho da Zimbreirinha, passa quase despercebido, tal é a simplicidade e o arcaísmo das suas (poucas) construções em palafita penduradas na arriba – nem consigo perceber como é que alguém chega até lá. Ou chegava, uma vez que na sequência de uma derrocada da falésia em 2010 este portinho foi desactivado. Mais adiante, o Portinho do Forno é o mais antigo da Carrapateira. Nos dias de hoje o seu acesso é fácil e as infra-estruturas cómodas, mas nem sempre foi assim e não foi há muito que o peixe tinha de ser carregado até ao cimo da arriba às costas dos homens ou ao lombo dos burros.

Com vista para o Portinho do Forno, no alto de mais uma falésia, vamos por uma surpreendente viagem pela história. A paisagem é soberba: oceano para o infinito e mais além, arribas marcianas para norte e cerros verdes ondulantes para sul. Que lugar mais especial para se construir um povoado de pescadores? Melhor do que ficar apenas a imaginar, foi aqui que os nossos antepassados muçulmanos colocaram mãos à obra e resolveram estabelecer-se. Trabalhos arqueológicos nas ruínas do Povoado da Ponta do Castelo dizem-nos que tratar-se-á de um povoado sazonal de pescadores islâmicos do século XII, os quais conciliavam a pesca com a agricultura e a pastorícia. Acontece que, apesar da paisagem superior desde o alto da falésia, os ventos fortes e agrestes não eram muito propícios à habitação, pelo que se presume que este promontório pudesse ter sido também utilizado como observatório e, dado o achamento de um osso de baleia, que fosse a baleação uma das suas principais actividades. Hoje já não há baleias na Costa Vicentina, mas o curioso é que pouco mudou no aspecto da economia local, com a pesca, a agricultura e a pastorícia a continuarem como actividades principais, estando os povoados implantados um pouco mais no interior.

E a praia do Amado está mesmo ali ao lado. O cenário atinge aqui o seu ponto mais alto, com os tons vermelho e verde na terra a disputarem a primazia, com o azul do mar sempre à espreita. Já se sabe qua a característica de dissolução por parte do calcário traz cores mais ocres, mas agora a vegetação começa a despontar aqui e ali, tornado-se dominante na cobertura dos cerros que envolvem o Amado. É, de facto, uma praia muito cénica, com um enquadramento natural fantástico. Ideal para o surf, deve ser um prazer acrescido deslizar pelas ondas enquanto se observa tamanha paisagem.

O Amado é a praia mais a sul do concelho de Aljezur e daqui até à aldeia da Carrapateira é um pulinho. O trilho oficial indica-nos caminhos interiores, rumo aos belos e contínuos cerros. Óptimo. O que acontece é que em época de chuva é uma sorte conseguirmos não apanhar charcos e passar em todos os momentos dos trilhos. Era a sorte que vínhamos a ter até aqui, mas que neste preciso momento acabou. Nem houve forma de inventar caminho alternativo, porque uma ribeira para aqui escondida é mais um obstáculo. Resultado: vamos pela estrada, igualmente bela, mas lamentando os segredos ocultos para lá dos cerros.

Chegados à Carrapateira, há que passear pelas suas ruinhas. Casinhas brancas emaranhadas umas nas outras e dispostas numa encosta, as chaminés não enganam, estamos no Algarve. Por entre um telhado espreitamos o longo areal da praia, mas é mais acima, no lugar do Museu do Mar e da Terra, que a percebemos em toda a sua extensão.

O Museu do Mar e da Terra é imperdível. Uma escultura de um percebes dá as boas vindas e logo percebemos que aqui vamos aprender e consolidar os conhecimentos recentes sobre a história e costumes das gentes que passaram pela região, rematando de forma perfeita o nosso passeio pelo “museu vivo” do Pontal da Carrapateira. O museu formal, esse, começa por nos contar a história da baleia Jonas, que por aqui em tempos deu à costa por ter desejado conhecer as belezas da Carrapateira e a coragem dos homens e mulheres que ali habitavam. O facto de estar próxima de Lagos e de Sagres levou a que com os Descobrimentos, no século XV-XVI, aqui nascessem alguns assentamentos. Prova disso é a construção, posterior, de um forte para fazer frente aos ataques dos piratas. Tradicionalmente, e ainda hoje, a vida corria entre o mar e a terra. Ao contrário do que pudéssemos à partida pensar, apesar de o mar sempre ter feito parte das vida destas gentes, até às décadas de 1940/50 a pesca era uma ocupação complementar e subsidiária dos mais pobres e daqueles que não tinham terra, trocando o pescado por produtos agrícolas. A terra era a grande fonte de subsistência, com os terrenos férteis divididos em áreas de regadio (com as hortas na várzea da ribeira da Carrapateira, onde se cultivava milho, feijão, grão, tomate e batata) e áreas de sequeiro (nos vales que levam até ao Amado, com o cultivo de trigo, cevada e aveia, vinha e gado). Com o declínio da agricultura e a debandada da população naquelas décadas para Setúbal e Lisboa é que a pesca passou a assumir um papel mais fulcral. E este facto está também ligado ao crescimento e desenvolvimento do turismo. Turista quer bom peixinho e é em parte para nos agradar que os pescadores e mariscadores arriscam aguardar horas em cima das arribas e até nelas empoleirar-se. Recorrendo à memória colectiva local, hoje inscrita num painel do Museu: “é mais seguro ir para o mar do que ir pescar à cana; o mar não é certo”. Obrigada.

3 Comments Add yours

  1. Um trilho certamente muito interessante!

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    1. E é mesmo. Com paisagem, história e cultura à mistura.

      Liked by 1 person

  2. olimpia santos diz:

    Belo trilho, lindas paisagens e fotos e ótima descrição

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