Tavira

Tavira é uma das mais bonitas cidades algarvias. Cortada ao meio pelo rio Gilão, que em breve desaguará na Ria Formosa para logo depois se espremer entre as ilhas de Tavira e de Cabanas até se perder no mar, é na sua margem direita que podemos passear pelo centro histórico.

Talvez em nenhuma urbe como Tavira as marcas islâmicas sejam tão presentes. Desde logo, no nome. Tabira derivará do verbo árabe “tabara”, de significado esconder. Ou seja, Tavira como “a escondida”, por não ser visível nem do mar (graças às ilhas barreira) nem da terra (graças à serra algarvia).

Não surpreende, pois, que aqui possamos visitar o Museu Islâmico, onde se expõe o espólio arqueológico da época islâmica encontrado na cidade. O “Vaso de Tavira” é a estrela do museu e uma belíssima e inesquecível peça cónica de argila datada da segunda metade do século XI, com bonecos moldados à mão representando guerreiros, cavaleiros, músicos e animais.

O castelo e as muralhas de Tavira são outro exemplo da ocupação islâmica. A cidade que há séculos havia estado sob domínio dos fenícios, que terão construído a sua muralha, viu os muçulmanos chegarem no século XI e aqui fixarem-se, tendo construído o castelo no topo da colina de Santa Maria. O objectivo seria a protecção da entrada no rio Gilão e mesmo com a posterior conquista cristã, no século XIII, o lugar manteve a sua importância, bem atestada pelas novas obras no castelo e pelo facto de o perímetro amuralhado ter chegado aos cinco hectares. Mais, com a conquista dos portugueses Tavira passou a ser uma das sedes da Reconquista. Hoje o castelo não possui já estruturas no seu interior, servindo antes como jardim e miradouro.

É a partir desta vista privilegiada – com destaque para três elementos que ela nos oferece: rio, igrejas e telhados – que desde o castelo partimos a descobrir o centro histórico de Tavira.

A primeira igreja que visitamos é a Igreja de Santa Maria do Castelo. À sua frente temos a Igreja de Santiago e ao lado o Convento da Graça. Não é à toa que Tavira é conhecida pela “cidade das igrejas”. Diz que são 37 as igrejas e 6 os conventos espalhados pela cidade, pelo que não ficamos muito tempo sem ver uma torre com uma cruz e um sino. A Igreja de Santa Maria do Castelo é a mais típica e reconhecível, com a torre do relógio de um lado e portal gótico do outro.

No Castelo caminhamos pelo seu belo jardim e do alto das suas muralhas apreciamos outro dos elementos que fazem de Tavira singular. Os telhados tesoura (ou de tesouro), que já tínhamos visto em Faro, parecem ser aqui a solução primeira e mais abundante no que respeita à cobertura dos edifícios. Em forma de pirâmide, com 4 águas muito inclinadas, foram trazidos para Tavira pelos comerciantes e navegadores que viajavam para paragens distantes na época dos descobrimentos, replicando na sua cidade o que viam lá fora. Mas foram usados sobretudo em edifícios pertencentes à nobreza e ao clero e, ao contrário do que se possa à partida pensar, não servem para melhor escoar a água da chuva, uma vez que no Algarve ela não é abundante, mas mais ao facto de esta estrutura permitir um melhor controlo da temperatura no interior das habitações, tornando-as mais frescas.

Descemos do castelo até ao centro da cidade. Espreitamos a Porta de D. Manuel I, voltamos a subir um pouco para descobrir o portal renascentista da Igreja da Misericórdia e ruinhas que a circundam, e descemos finalmente até à Praça da República, espaço amplo virado para o rio Gilão.

Atravessamos a sua ponte assente em sucessivos arcos, construída no século XVII e que se crê ter substituído uma outra mais antiga de origem romana. Da outra margem a vista sobre Tavira é belíssima, com a presença de todos os elementos que a tornam um lugar encantador: rio, igrejas e telhados tesoura.

Mas é o caminhar sem propósito pelas ruas que nos faz gostar ainda mais de Tavira. Paramos numa pastelaria para comprar uma mão cheia de doces típicos do Algarve, provamo-los no Jardim do Coreto e atravessamos o Mercado da Ribeira – que não é, de todo, o que esperávamos, antes uma espécie de centro comercial virado para os turistas.

E voltamos, uma vez mais, a debruçar-nos sobre o rio Gilão enquanto ele não se transforma em rio Séquia. Esta é uma das muitas curiosidades de Tavira. O Rio Séquia nasce na Serra do Caldeirão e desce até Tavira, mas quando chega à antiga ponte da cidade muda de nome, passando a correr sob a designação de Gilão nos seus últimos cerca de 3 kms até à foz. A que se deverá tão raro facto? Provavelmente só as lendas o explicarão e não é difícil de imaginar que esta lenda mete histórias de amor impossível entre princesas mouras e cavaleiros cristãos. Felizmente que a nossa história de amor com Tavira é bem real e está aí para acontecer.

Olhão e Culatra

Olhão está localizada entre Faro e Tavira, mas não é apenas mais uma cidade algarvia. Igualmente plantada à beira da Ria Formosa e igualmente com um passado romano e mouro (embora este último já não visível), tem um carisma genuíno e muito próprio. Como nos dizia um olhanense, pode não ser tão bonita como Tavira, mas depois de dois dias os turistas cansam-se da beleza da vizinha e fogem para Olhão em busca do castiço e autêntico.

Dizíamos que nos dias de hoje não se vêem vestígios deixados pelos mouros, mas curiosamente são as cidades do norte de África que nos vêm à lembrança quando percorrermos as ruas de Olhão – Raul Brandão escreveu que só lhe faltavam os “esguios minaretes”. O seu traçado confuso, feito de ruas que não se sabe muito bem para onde confluem, becos que surgem de surpresa e, sobretudo, edifícios cúbicos com açoteias (terraços-miradouro) fazem-nos crer que estamos numa cidade com influência moura. Na verdade, este desenho da urbe é muito posterior à ocupação muçulmana e foi projectado já por nós, portugueses-olhanenses, no século XIX, influenciados pelas muitas viagens comerciais a Marrocos.

O nome “olhão” vem de um grande olho de água que se encontrava algures no que é hoje território olhanense. Apesar da ocupação humana desde há muitos séculos, terá sido no século XVI que aqui se instalou uma comunidade de pescadores vindos da vizinha Faro, atraídos pela abundante pesca desta parte da Ria. Na origem da povoação esteve, desde o início, gente humilde e as suas habitações eram cabanas de madeira e palha. Os de Faro recusaram até quando puderam construções de alvenaria na vizinha Olhão, e a primeira construção destas apenas foi autorizada em 1715. Esta gente humilde do mar, apartada do poder político, nem por isso deixou de pugnar pelos seus e pela sua terra, e em 1771 ganhou a construção do Compromisso Marítimo, edifício onde puderam passar a tratar de diversos serviços sem necessidade de se deslocarem a Faro. Ainda hoje se lê na fachada do entretanto tornado Museu Municipal de Olhão: “Esta obra foi feita à custa dos mareantes da Nobre Casa do Corpo Santo deste lugar de Olhão, em tempo do Felicíssimo Reinado do Fidelíssimo Rei Senhor D. José, o Primeiro, que Deus guarde, sendo Juiz da mesma Casa, António de Gouveia, no ano de 1771″.

A fibra dos seus cidadãos viu-se ainda num outro episódio da história de Portugal. Aquando das Invasões Francesas fizeram frente aos invasores e conseguiram expulsá-los do Algarve. Um grupo de destemidos olhanenses resolveu, então, meter-se ao mar numa pequena embarcação atravessando o Atlântico com o objectivo de dar a boa nova ao rei D. João VI (que havia fugido para o Brasil). O rei, grato, elevou o lugar de aldeia a vila e atribuiu-lhe uma nova designação, a de Vila da Restauração de Olhão. Uma réplica do caíque Bom Sucesso aí está na frente ribeirinha da hoje cidade para atestar o feito.

É por aqui que encontramos um dos lugares obrigatórios de Olhão, o seu Mercado Municipal, na verdade dois inconfundíveis edifícios lado a lado que se acredita terem sido projectados por discípulo de Gustave Eiffel. No interior a azáfama dos vendedores é vibrante e as bancas de produtos um espectáculo à parte. O peixe, sempre ele, é a estrela da companhia. Bom para se olhar e bom para se saborear. São inúmeros os restaurantes e tascas – na avenida marginal ou num dos tais becos – onde se pode comer um peixe inesquecível, como aquele atum braseado que pude provar e aprovar. E Olhão é ainda conhecida pela sua indústria conserveira – em 1919 eram cerca de 80 as fábricas -, entrada em decadência no final do século XX. Não é, pois, de estranhar que existam tantos edifícios em ruína. No entanto, também aqui se vê a raça do olhanense. Muitos vêm sendo restaurados para dar lugar a alojamentos turísticos recuperados e decorados com bom gosto; outros foram tomados pelos artistas de rua, dando-lhes um novo rosto através da pintura irrequieta.

Ou seja, a popular Olhão a todos acolhe e talvez por isso seja um dos lugares do Algarve que mais atenção e procura têm tido por parte de turistas inconformados e esclarecidos. Não surpreende, pois, que um festival como o FICLO — Festival Internacional de Cinema e Literatura de Olhão tenha lugar na cidade. E claro que aproveitámos para voltar ao cinema nesta era Covid-19, assistindo a uma das sessões ao ar livre no República 14, um dos espaços culturais de Olhão.

E porque estamos no Algarve, a praia não pode faltar. No Porto de Recreio várias opções de passeios de barco pela Ria Formosa nos tentam. Mas nenhuma é mais típica da alma olhanense do que apanhar o barco público até à ilha da Culatra ou da Armona. Escolhemos a Culatra, uma das 5 ilhas (mais duas penínsulas) barreira que separam o mar da ria. A viagem dura cerca de tranquila meia-hora onde nos dedicamos em exclusivo a apreciar Olhão a ficar para trás emoldurada pela Serra do Caldeirão e, depois, a assistir aos barquinhos a passarem por entre canais que contornam os bancos de areia e as áreas de sapal. Descobrimos até um olhanense aqui e ali a trabalhar numa destas pequeníssimas ilhas naturais.

A chegada à Culatra é movimentada, com muitos barcos estacionados no seu porto. Descemos e logo vemos as casas assentes na areia, até uma capelinha. Esta ilha é ainda hoje lugar de pescadores, embora muitos outros se lhes tenham entretanto juntado. São cerca de 1000 os seus habitantes com infra-estrutras à sua disposição como escola, centro social e correios. E muitos e afamados restaurantes onde se come o bom do peixe da Ria e arredores. O ambiente parece, no entanto, um de férias infinitas.

Os caminhos já não são exclusivamente de areia, muitos foram traçados com lajes de cimento, mas as casas simples com terraços e até pequenos jardins dão uma imagem de veraneio. Entramos pela ria e depois de atravessarmos a povoação seguimos por um passadiço de madeira por cerca de 500m totalmente envolvidos por um cordão dunar e, zás, estamos no mar. Esta é uma zona de Parque Natural e há que respeitar as regras para que a biodiversidade dos ecossistemas não seja colocada em causa nem perturbada. Por exemplo, não caminhar nas dunas e respeitar os sinais de não passagem, uma vez que muitos dos lugares podem ser de nidificação de aves e corremos o risco de pisar e destruir os ninhos mesmo sem o perceber.

Após o final do passadiço e com o Atlântico completamente aberto diante de nós, duas opções se colocam: tomar a esquerda em direcção à Praia da Culatra ou tomar a direita em direcção à Praia do Farol. Optámos por esta última e caminhámos pela areia por cerca de 3 kms completamente desertos de gente, apenas com a companhia de muitas aves que se divertiam entre a areia e a água do mar.

O Farol é o farol do Cabo de Santa Maria, mas é também uma (outra) povoação piscatória num dos extremos da ilha da Culatra. Igualmente castiça e popular, indisfarçavelmente Algarve, não lhe faltando sequer as típicas chaminés. Pelo meio da ilha há ainda outra povoação, Hangares, mas essa já só a percebemos ao longe, na volta da viagem de barco para Olhão, completamente saciados de tanta ria e mar.

Faro

Faro é a maior cidade do Algarve e não tem parado de crescer nos últimos anos. Ou seja, muito há para visitar. No entanto, esta nossa visita apenas passou rapidamente pelo Bairro Ribeirinho e demorou-se na Vila Adentro, deixando de fora instituições que mereciam certamente uma visita, como o Mercado Municipal, o Teatro Lethes e a Igreja do Carmo. Estes são dois dos três centros históricos da cidade, separados pela Marina e pelo Jardim Manuel Bívar – onde para trás do Banco de Portugal se estende o Bairro da Mouraria, o terceiro centro histórico de Faro.

O Bairro Ribeirinho é um centro com uma série de ruas estreitas, algumas delas pedonais, quase todas carregadas de graffitis. Tem habitação, restaurantes, comércio, mas deu para perceber que apesar de alguns edifícios reabilitados e outros com reabilitação em curso, muito mais há para fazer.

A Marina de Faro está voltada para a Ria Formosa, tal como o centro histórico de Faro. No século IV a.C. a então Ossonoba era um dos mais importantes centros urbanos do sul do que é hoje Portugal, com os fenícios a dominarem o comércio. Mais tarde vieram os romanos, os visigodos e os mouros. No século IX, era então Santa Maria, foi muralhada pelos mouros e ao seu nome foi acrescentado de Harune. Com a conquista da cidade aos mouros, em 1259, D. Afonso III muda o nome para Santa Maria de Faaron ou Santa Maria de Faaram, dando mais tarde origem ao topónimo Faro que hoje conhecemos.

A sua localização geográfica sempre foi estratégica, com a Ria Formosa como protectora natural de ataques de corsários, e durante séculos o comércio de sal e produtos agrícolas vindos do interior do Algarve fizeram com que Faro se desenvolvesse ainda mais. Elevada a cidade em 1540, foi no século seguinte que se construiu uma nova cintura de muralhas que envolvia a urbe e ia até junto à água da Ria Formosa. É por aqui que se percebe ainda esta antiga estrutura defensiva e do castelo subsistem torres e baluartes.

Pelo Arco da Vila entramos, então, pela Vila Adentro. É um belíssimo portal monumental inaugurado em 1812. Nas suas costas permanece a Porta Árabe, a entrada na cidade muçulmana de Santa Maria. Após um ligeiro cotovelo, subimos levemente pelo empedrado da calçada numa rua estreita rodeada de edifícios brancos.

É uma bela recepção, a qual uns metros depois nos deixa no Largo da Sé. Aqui fica a Câmara Municipal, o Paço Episcopal, o Seminário Episcopal e a Sé Catedral, um espaço amplo digno de uma capital regional. A Catedral, construída sobre as ruínas de um templo romano e tornada mesquita na era moura, é uma mescla de estilos, bem visível pelo corpo central constituído por torre quadrangular gótica do século XV, sendo o restante corpo construção posterior.

O interior da Sé é monumental, com abundante decoração barroca. E no pátio interior vemos um pequena capela decorada com ossos. Do alto da Torre da Catedral percebe-se de forma perfeita a implantação geográfica de Faro e toda a beleza e detalhes deste Largo. Destaque imediato para a tranquilidade da Ria Formosa e para a elegância dos telhados tesoura do Paço Episcopal. A vista é fantástica.

Vamos espreitar a Ria Formosa mais de perto, passando pelo pequeno Arco da Porta Nova, e seguimos junto à muralha e à ria, com o carril do comboio de permeio. Logo se percebem algumas construções industriais ao fundo e, sobretudo, aquela com que, com pouca demora, ficamos face a face. Nas décadas de 1930-40 foi destruída parte da muralha para abrir a Rua Nova do Castelo e sobre o castelo cresceu a Fábrica da Cerveja Portugália, um dos primeiros edifícios em betão armado na cidade, mas que nunca chegou a funcionar como fábrica.

Contornamos a Vila Adentro por fora junto à muralha e ao espaço ajardinado a ela colado. E entramos novamente na Cidade Velha, mas agora pelo Arco do Repouso, assim chamado por D. Afonso III aí ter repousado. E é a estátua deste rei que vamos encontrar no largo defronte do Convento de Nossa Senhora da Assunção, hoje transformado em Museu Municipal de Faro, de que vale a pena apreciar os claustros.

E a partir daqui é caminhar livremente pelas curtas e escassas ruinhas da Vila Adentro, percebendo que os seus edifícios têm vindo a ser reabilitados e que uma nova vida lhes está a ser dada, com restaurantes e espaços culturais para entreter os visitantes do Algarve para além da praia.

O Barrocal Algarvio – 5° desvio à EN2

Esta proposta é uma curta incursão pelo extenso Barrocal Algarvio, a região que de forma natural faz a transição entre a serra e o mar. O mar do Algarve todos conhecem: de Sagres a Vila Real de Santo António é uma faixa de Atlântico com quase 200 kms. Quanto à serra, são na verdade duas as serras algarvias: Monchique e Caldeirão.

É uma longa faixa esta que se espreme entre estes dois elementos, com localidades como Silves, Paderne, Loulé e São Brás de Alportel como atracção. No entanto, neste desvio final da nossa jornada pela EN2 começámos por espreitar o ambiente do Barrocal desde o Miradouro do Alto da Arroteia, em São Brás de Alportel, e vagueamos depois pelo coração de Loulé.

A Fonte Benémola é uma Área de Paisagem Protegida entre Querença e Tôr, duas aldeias algarvias. Para lá chegar percorremos estradas completamente envolvidas na natureza e este lugar ainda o está mais. Por um percurso pedestre com 4 kms bem definidos, cerca de uma hora de caminhada, passeamos por trilhos de terra batida que aliam uma paisagem natural a alguns elementos rurais hoje abandonados ao longo de um vale atravessado por uma linha ribeirinha. A fertilidade dos terrenos agrícolas da várzea fez com que chegassem a ser 30 as pessoas a viverem neste lugar, abandonado na década de 70 e 80 do século passado. Plantava-se milho, batata, couve, melancia e melões e vinha gente de fora tratar das hortas. Hoje restam algumas casas de apoio, fornos de cal, lagar de azeite e infra-estruturas hidráulicas para aproveitamento da água (como levada, moinho de água e nora). A vegetação, agora que o vale deixou de ser cultivado, é abundante e típica do Barrocal, com sobreiros e azinheiras. Junto à ribeira o ambiente é também tipicamente ripícola, com salgueiros, freixos e loendros. Mas nesta paisagem é a água o elemento mais importante.

A Ribeira da Benémola é uma das poucas do Algarve que mantém água durante todo o ano, sendo abastecida por nascentes como O Olho e a Fonte Benémola. Caminhamos durante um bom bocado ao lado dela e vemos açudes que retêm a água e criam espelhos de água. É um lugar tranquilo. Pena que a sua água, que em tempos era reconhecida pelas suas propriedades medicinais, esteja hoje contaminada e imprópria para consumo humano.

Na zona da Fonte Benémola existe um parque de merendas e aqui regressamos ao ponto inicial mas agora pela outra margem. Por momentos o caminho segue numa espécie de túnel, com a vegetação ribeirinha a cobrir-nos, e deixa de se sentir o calor. Diz que este é um espaço privilegiado para observação de aves, mas infelizmente não as avistamos, apenas as ouvimos.

Após a caminhada pela Fonte Bénemola passámos por Querença, aldeia de casario alvo envolvido no verde da paisagem, e seguimos para Salir. Salir tem uma situação geográfica fantástica, instalada no alto de um monte por onde se espraia de forma alongada o seu casario branco. A toda a volta, tudo verde. Habitada desde há muitos séculos, os mouros construíram aqui um castelo que hoje se encontra em ruínas.

Esta é uma zona agrícola, conhecida pelas amendoeiras, figueiras, alfarrobeiras, oliveiras e medronheiros. Estes pomares mistos são possíveis graças às terras argilosas e férteis do Barrocal.

Aqui perto fica a Rocha da Pena, Área de Paisagem Protegida, à semelhança da Benémola. É um belíssimo afloramento rochoso que se avista desde longe, uma espécie de parede calcária. Da aldeia da Penina tem início um percurso pedestre circular de 6,7 kms. Embora a vontade fosse muita, o enorme calor que se fazia sentir aquando do nosso passeio tornou insensato que o percorrêssemos na sua totalidade. Assim, a conselho de um simpático local, invertemos a direcção sugerida pelo percurso pedestre oficial e subimos aldeia afora apenas até ao miradouro sul, a pouco mais de 1,2 kms de distância.

A aldeia é pitoresca, mais uma vez instalada na encosta. O caminho não é difícil se for percorrido com atenção – muita pedra solta – e com calma – sobe bem. A paisagem, pontuada por azinheiros e zimbro, vai ficando melhor e melhor.

O Talefe é o ponto mais alto da Rocha da Pena, a 479m. Daqui a nossa vista tudo alcança, Serra do Caldeirão nas costas, mar em frente, Salir à esquerda, Benafim abaixo, Serra de Monchique à direita. É quase todo o Barrocal de Loulé debaixo de olho. Cenário grandioso à parte, a própria Rocha da Pena é de uma singularidade estonteante, uma parede calcária verdadeiramente elegante. Ficámos com pena de não continuarmos o percurso.

Daqui seguimos para Alte, a aldeia que faz parte de qualquer lista de aldeias mais bonitas de Portugal. Aliás, já foi mesmo oficialmente considerada a mais típica do nosso país e é talvez a aldeia mais referida do Barrocal e uma das mais queridas de todo o Algarve. Entre a Serra e o Barrocal, apesar do relativo isolamento geográfico mantém a sua aura e tradições. As casas caiadas com as suas janelas e platibandas com cor e as chaminés típicas fazem com que um passeio pelas suas ruas seja um momento de beleza.

Já houve aqui água em abundância, nos dias de hoje menos mas ainda presente, e as fontes de Alte e a Queda do Vigário são imperdíveis. O acesso à última estava vedado em consequência da Covid-19, para evitar ajuntamentos, mas não deixamos de relembrar o seu ar de há dois anos (esperemos que ainda mantenha a água).

A Fonte Pequena continuava bonita com os seus arranjos decorativos em homenagem ao poeta altense Cândido Guerreiro, mas a Fonte Grande estava também com restrições pela maldita pandemia, tendo a Junta de Freguesia optado por não abrir as comportas que a enchem de água.

Ou seja, a ideia de um mergulho no interior algarvio ficou gorada. Salvou-se a visita ao castelo de Loulé, a sede de concelho deste Algarve diferente e uma cidade que merece visita antes ou após as férias na praia.

Pela EN2, na companhia de um castelo e de um mergulho: 6ª etapa – Castro Verde – Faro (638 km – 738 km)

“Passado o Caldeirão, é como se me tirassem uma carga dos ombros. Sinto-me livre, aliviado e contente, eu que sou a tristeza em pessoa! […] A terra não hostiliza os pés, o mar não cansa os ouvidos, o frio não entorpece os membros, e os frutos são doces e sempre à altura da mão.” – Miguel Torga, in O Algarve

Eis a última etapa da nossa viagem pela EN2, aquela que nos transporta do Alentejo até ao Algarve, atravessando a Serra do Caldeirão.

Em Castro Verde, vila alentejana, já se vêem as chaminés típicas tão omnipresentes no vizinho Algarve. Mas aqui o elemento arquitectónico de destaque é a sua enorme Basílica Real, tão imponente que se avista ao longe. A caminho do Miradouro de São Pedro das Cabeças vemos passar uma biblioteca itinerante e realizamos o quão afastados estamos do bulício das grandes urbes.

Lá de cima do monte essa realidade é ainda mais presente, uma enorme planície pontuada por uma elevação aqui e ali, como aquela onde Castro Verde está instalada. Diz-se que o Cerro de São Pedro das Cabeças foi o lugar da Batalha de Ourique, mas outros municípios reclamam para si o título. A nós não nos interessa muito essas disputas históricas, o poder real da paisagem chega-nos.

De Castro Verde a Almodôvar temos mais umas rectas generosas. Em Almodôvar, a última das vilas alentejanas, começámos por visitar a ponte medieval da Ribeira de Cobres e, depois, o Convento de Nossa Senhora da Conceição e o Mercado Municipal. Mas a surpresa está no Mesa, o Museu da Escrita do Sudoeste.

Escrita do Sudoeste? O que é isso? No Mesa aprendemos que há uma escrita misteriosa, a primeira forma de escrita da Península Ibérica. Criada há cerca de 2500 anos, este sistema assente em signos desenvolveu-se no Algarve, Alentejo e Andaluzia muito por força da continuada presença dos comerciantes fenícios que para aqui vinham. Daí as suas origens no alfabeto fenício, tendo as populações locais desenvolvido uma escrita própria que resultou da adaptação daquele alfabeto à sua língua. As inscrições desta escrita foram descobertas em estelas (a maior parte delas no concelho de Loulé), elementos funerários onde se crê que eram inscritos epitáfios, breves textos de homenagem à vida de certos indivíduos. Não se sabe ainda muito sobre esta escrita, e talvez não se venha a saber nunca, mas a cerca de uma centena de estelas descobertas permite perceber que era efectuada de baixo para cima e da direita para a esquerda.

Felizes por esta descoberta linguística – que desconhecíamos em absoluto -, começámos por nem perceber que à saída de Almodôvar as rectas iam ficando mais curtas e que as primeiras curvas apareciam. Embora estas curvas, para os padrões da Beira, não sejam nada. Digamos que deixámos de as poder fazer em 5ª mas ainda dá para virar ligeiramente o volante em 4ª. Mas à medida que a Ribeira do Vascão se aproxima – a fronteira entre o Alentejo e o Algarve – as curvas tornam-se, então, uma companhia cerrada. Diz que são 365 as curvas da Serra do Caldeirão, mas contámos pelo menos 366, uma por cada ano bissexto.

A Serra do Caldeirão traz uma diferença abissal relativamente à paisagem de planície alentejana que nos vinha acompanhando ao longo das centenas de quilómetros anteriores. Um relevo agora muito acidentado, com cumes que ondulam a toda a vista, apesar de o mais alto atingir apenas 589m de altitude. Este relevo acidentado deve-se à densa rede hidrográfica, constituída por pequenos ribeiros que ao longo dos séculos foram esculpindo a rocha. A paisagem é avermelhada e carregada sobretudo de sobreiros. Desviámos cerca de 2 kms no Ameixial até ao Azinhal dos Mouros só para sentir um pouco o ambiente do Caldeirão fora da EN2. E é mais ou menos isso, parece que estamos dentro de um caldeirão, em pura ebulição serrana.

O Miradouro do Caldeirão é uma paragem oficial, mas não é o ponto mais bonito da Estrada. A Serra do Caldeirão faz a transição entre o Baixo Alentejo e o Barrocal e o Litoral algarvios. A Fonte Benémola, junto a Querença, está precisamente nesta zona de transição. É uma boa hipótese de desvio da EN2 desde Barranco Velho, mas preferimos deixá-la para o dia seguinte para, sem pressas, podermos caminhar pelo seu percurso pedestre de pouco mais de uma hora.

Para chegar a São Brás de Alportel começamos a descer em direcção ao mar. O Miradouro do Alto da Arroteia prova a sua exacta localização, “entre a serra e o mar”.

Já as suas ruas e o seu casario dá-nos a certeza: estas chaminés não enganam, estamos definitivamente no Algarve. E é curioso constatar como esta primeira povoação algarvia onde nos tocou parar é labiríntica e feita de ruas estreitas e já não geométrica e feita de ruas paralelas umas às outras, como as alentejanas.

O nosso último curtíssimo desvio fez-se para relembrar Estoi e o seu Palácio e Jardim, um dos maiores exemplos do romantismo no Algarve, hoje integrado na rede das Pousadas de Portugal. Construído entre 1840 e 1850, o que vemos aqui é uma mistura de estilos, entre o Neoclássico, o Neorococó e a Arte Nova, e uns belos jardins com lagos, fontes e esculturas. O interior do palácio, adaptado a unidade hoteleira, como se referiu, mostra igual nobreza nos seus salões, não faltando sequer a capela no interior da torre sineira. Ainda em Estoi, vale a pena visitar as Ruínas Romanas de Milreu, a Vila Romana antigamente conhecida como Ossonoba, a qual visitámos há uns bons anos aqui.

A chegada a Faro faz-se sem graça. Os últimos quilómetros da Estrada são ladeados por edifícios industriais e de lojas típicas dos arredores das grandes cidades. Pior, o marco do quilómetro 738, o derradeiro, está instalado numa rotunda sem graça. Merecíamos uma melhor recepção e uma forma cómoda de alcançar o tabuleiro central da rotunda, para os devidos festejos de final desta longa jornada. Mas não, não deu sequer para chegar junto ao marco e tirar a foto da praxe, tal era o intenso tráfego que não cessava de rodar a rotunda.

Mas se a chegada a Faro não tem muita graça, o centro histórico da capital do Algarve tem-na de sobra (e disso daremos conta em futuro post exclusivamente dedicado à cidade). Incluindo umas muralhas junto à Ria Formosa que se crê ser anteriores à chegada dos romanos à região, as quais vieram mais tarde a proteger os mouros, tendo no século XIII acabado por ser reconstruídas pelo rei de Portugal vigente. São o nosso castelo do dia.

E para terminar esta epopeia pela EN2, iniciada em Chaves a longínquos 739 kms do mar, nada melhor do que um mergulho nas águas do Atlântico.

A Praia da Ilha de Faro, mar de um lado e ria do outro, foi a escolhida para o momento. Um lamento apenas. Depois de tantos dias sozinhos pela Estrada tão desertificada como o interior que percorre, imaginámos imergir no oceano com poucas testemunhas. Tal não aconteceu. Sabendo o que sabemos hoje, desta novela apenas mudaríamos o seu final: consultaríamos previamente os horários do barco e trocaríamos o mergulho na Ilha de Faro pela vizinha Ilha Deserta (Barreta). Um mero adorno que não altera o encanto da história.