Convento de São Pedro de Alcântara, em Lisboa

O Convento de São Pedro de Alcântara fica no Bairro Alto, em Lisboa. É de Alcântara, e não em Alcântara. E este São Pedro era rico, mas resolveu juntar-se à ordem mendicante dos franciscanos. E era espanhol, tendo vivido numa época em que as disputas territoriais entre Portugal e Espanha eram frequentes. Como pôde Lisboa, então, acolher um convento dedicado a um espanhol, poucos anos após livrar-se do domínio filipino?

Convento São Pedro de Alcântara

Ao contemplarmos Lisboa desde o jardim e miradouro de São Pedro de Alcântara, numa das panorâmicas mais majestosas da cidade das colinas e do Tejo, não suspeitamos que logo ali está um convento cuja visita nos conta a história de uma Lisboa antiga, muito diferente até na forma daquela que hoje conhecemos. A Avenida da Liberdade está lá em baixo, no lugar onde antes corria uma ribeira. Então, o Convento de São Pedro de Alcântara dialogava – e ainda dialoga – com a Igreja e Convento da Graça, do outro lado da ribeira, na colina defronte si. Não seria fácil chegar cá cima vindo da ribeira: originalmente, a igreja do Convento de São Pedro de Alcântara possuía um caminho de ronda, e não uma escadaria direta (como o Bom Jesus de Braga ou a Nossa Senhora dos Remédios de Lamego). Como que uma penitência, havia momentos que marcavam o caminho, mas não capelas.

Convento São Pedro de Alcântara

O Convento de São Pedro de Alcântara foi fundado em 1670, pelo 1.º Marquês de Marialva, António Luís de Menezes, na sequência de um voto por si efectuado em caso de vitória na Batalha de Montes Claros, contra os espanhóis. Na época, Portugal havia saído há pouco do domínio filipino, mas os portugueses tomaram São Pedro como seu. Fizeram força para que se tornasse santo e, como se o pretendessem justificar, representaram-no em imagens junto ao Tejo (vêmo-lo nas telas do altar).

Convento São Pedro de Alcântara
São Pedro de Alcântara – azulejo

Porém, um das imagens recorrentes deste santo é a representação de São Pedro de Alcântara à semelhança de Cristo, com ligações a saírem das suas chagas – no portão de entrada do Convento virado ao Jardim de São Pedro de Alcântara, vê-se um painel de azulejo com esta imagem.

O Convento assume uma arquitectura maneirista e o projecto decorativo e o interior da igreja é barroco. A entrada da igreja é pontuada por mais painéis de azulejos, desta vez pombalinos, posteriores ao Grande Terramoto de 1755. Mostram os mendicantes franciscanos em actos de misericórdia: à direita (numa perspectiva a contar do altar da igreja), veem-se nobres a dar aos franciscanos, e à esquerda, pobres e enfermos a receber dos franciscanos. Esta diferença entre as representações dos franciscanos à direita e à esquerda mostra o respeito na representação da nobreza, uma vez que o lado direito era considerado o “melhor”.

O interior da igreja possui mais painéis de azulejo, desta vez com iconografia de São Pedro. São originais joaninos, uma doação, e únicos em Portugal, precisamente por representarem a vida de São Pedro de Alcântara. Há que estar atento: logo atrás da porta do lado esquerdo (mais uma vez, numa perspectiva a contar do altar da igreja) vê-se São Pedro representado como touro, como os espanhóis o costumam figurar – se a porta estiver aberta, desvie-a e espreite. Outra forma de representação deste santo é apresentá-lo com a cruz grande, imagem que remete para Cristo. E aparece muitas vezes suspenso, como que a voar, como no citado painel junto ao portão de entrada.

Num dos painéis de azulejo junto ao púlpito, vê-se Santa Teresa de Ávila, a fundadora da Ordem das Carmelitas, a receber a comunhão de São Pedro, com São Francisco de Assis e Santo António ao seu lado – as duas ordens possuíam uma relação muito próxima (e aí está o vizinho Convento dos Cardais, carmelita, a confirmá-lo).

Azulejo
Azulejo
Azulejo

Ao redor dos confessionários, mais azulejos. Em comum, todos têm os três elementos usados pelos frades para mortificação corporal: o cilício para apertar e os outros dois para chicotear a si próprios. A ideia subjacente aos franciscanos é “eu sacrifico-me para que tu não te sacrifiques” – já os membros da Companhia de Jesus, presentes na vizinha Igreja de São Roque, pouco abaixo, pensavam de uma forma totalmente diferente e entendiam que só podiam ajudar o outro se estivessem bem fisicamente, “mente são em corpo são”). Ou seja, os franciscanos não se sacrificam por gosto, têm sempre presente a relação com o outro; no fundo, propõem-se a expurgar os pecados dos outros. Um exemplo deste modo de vida verificava-se quando os guerreiros iam para a guerra e matavam, e quem expiava a sua culpa eram os franciscanos, que ficavam recolhidos, muitas vezes apenas em contemplação.

Coro-alto
Pormenor decorativo

A decoração da Igreja do Convento de São Pedro de Alcântara é em mármore fingido, quer o tecto quer as paredes. Não querendo usar materiais nobres, os franciscanos optaram por esta solução – de lembrar que esta comunidade não costumava estar presente nas cidades, antes em lugares ermos e recolhidos do mundo como a Arrábida, onde, aliás, São Pedro esteve, apesar de vir de uma família rica e com grande influência junto da corte.

Pinturas
Pinturas

Mas se os materiais usados eram pobres, as obras presentes na igreja eram do melhor. Na nave estão pinturas que não se sabe com certeza de onde vieram (talvez Mafra), mas sabe-se que são joaninas. Uma delas representa Nossa Senhora da Conceição e a outra, à sua frente, “A Coroação da Virgem”, é de autoria do pintor francês Pierre-Antoine Quillard, o favorito de D. João V. Ao lado da primeira está uma tela de Pedro Alexandrino, “A Pregação de São João Batista“, tendo a curiosidade de ter sido repintada com um erro anatómico: o polegar da mão esquerda está no braço direito da figura representada.

Altar-mor
Altar-mor

No altar, pleno de talha dourada, estão 3 pinturas de André Gonçalves (e mais 1 no coro alto; seriam 5, no entanto), uma delas com a representação de Cristo segurado pela virgem, com São Francisco e São Domingos em baixo a proteger o globo. A pintura central no altar é de Bento Coelho da Silveira.

Saindo da igreja, no acesso ao espaço conventual vê-se um conjunto escultórico com a representação da morte de São Francisco de Assis com figuras à escala real. Este conjunto está hoje separado da portaria por uma parede, mas antes era imediatamente visível logo à entrada do Convento.

Franciscano
Sacristia
Sacristia

Passando para a sacristia, a sala que a antecede possui retratos de diversos franscicanos. Reparamos que possuem uma apresentação mais elegante, eles que são os “filósofos” da ordem, não deixando porém de portarem vestes em conformidade com a sua humildade.

Capela dos Lencastres
Capela dos Lencastres

Por fim, uma visita à Capela dos Lencastres, logo à entrada do Convento. De pequena dimensão, é uma maravilha, decorada por inteiro com embutidos, com excepção do tecto pintado. Há agora muita cor, não se limitando ao monocromatismo azul e branco dos azulejos nos demais espaços do convento. Esta era uma capela privada, dentro do Convento de São Pedro de Alcântara, fundada por um descendente de D. Jorge, filho bastardo do rei D. João II, que faleceu sem herdeiro legítimo, tendo o trono passado para o seu primo, D. Manuel. Originalmente, a Capela não possuía o nome pelo qual é hoje conhecido e era dedicada aos três santos mártires de Lisboa (Máxima, Júlia e Veríssimo, as 3 crianças que no século III vieram a Lisboa com a intenção de converter os seus habitantes ao cristianismo, tendo, no entanto, o imperador romano dado ordem para as matar; lançadas ao rio, deram à costa na zona de Santos, daí o topónimo).

Imediatamente antes da extinção das ordens religiosas, em 1833 o Convento de São Pedro de Alcântara foi entregue à Santa Casa da Misericórdia, que aí instalou um recolhimento de orfãs. Permaneceu um colégio de meninas até 2012 e hoje continua propriedade da Santa Casa e está aberto a visitas.

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