O Castelo de Lisboa

Numa colina sobre o Tejo ergue-se o Castelo. Lisboa é cidade antiga. Antes de sermos lisboetas, habituámo-nos a receber a visita dos fenícios, dos romanos, dos visigodos e dos muçulmanos, até que chegou D. Afonso Henriques e os seus amigos cruzados e a Alis Ubba (dos fenícios), a Olissipo (dos romanos), a Ulixbuna (dos visigodos) e a Al-Ushbuna (dos muçulmanos) tornou-se a Lisboa que hoje nomeamos.

As colinas, e em especial esta a que agora dedicamos a nossa atenção, já lá estavam todas no século VII a.C., quando o lugar começou a ser povoado. Foram, no entanto, os romanos quem no século I a.C. primeiro começaram a construir uma cidade estado murada, com uma construção primitiva no topo do que hoje conhecemos como colina do Castelo, muralhas essas que acabariam por ser aproveitadas pelos muçulmanos para, a partir do século X ou XI, erguerem a sua Cerca Moura. Da Cerca Moura, ou Cerca Velha, pouco resta hoje de visível para além do troço junto ao terraço das Portas do Sol (escadaria da Rua Norberto Araújo), donde se avista o que era então o arrabalde de Alfama encosta abaixo até desaguar no Tejo. Eram, então, cerca de 1250 metros de muralha e mais de 20 torres (são visíveis, ainda, troços de muralha dentro de vários edifícios como os da Fundação Ricardo Espírito Santo e da Casa dos Bicos) e, hoje, um circuito pedonal circular entre a Rua Chão da Feira e a Rua Milagres de Santo António, com 16 totens informativos espalhados pelo caminho, permite-nos conhecer este sistema defensivo medieval que perdurou até à construção da Muralha Fernandina, ou Cerca Nova, no século XIV, sete vezes maior do que a anterior.

Se destas muralhas que acabaram por ser aglutinadas pelos espaços urbanos pouco vemos, a muralha da Alcáçova, essa, ainda lá está para recriarmos uma imagem do nosso passado medieval. Da actual Rua Chão da Feira entramos para a parte mais alta da medina de outrora, a qual era protegida, precisamente, pela Alcáçova. Era aqui, no topo da colina, que ficavam os bairros residenciais da elite administrativa, religiosa e militar e o castelo. E para sul desenvolvia-se o núcleo urbano da cidade – a medina -, com comerciantes, artesãos, banhos públicos, mercados e mesquita, tudo isso ainda no interior da cerca urbana. Só depois vinham os arrabaldes.

Em 1147 D. Afonso Henriques e o seu exército de cruzados levaram 17 semanas de cerco a Al-Ushbuna até a tomarem. A construção muçulmana não era fácil de penetrar. Para além de estar localizada no alto de uma escarpa, a cada porta seguiam-se estreitos corredores em cotovelo, o que tornava difícil a entrada mesmo depois da porta derrubada, encurralando o invasor. Aliás, quando entramos pela Rua do Chão da Feira percebemos isso mesmo, uma entrada logo seguida de uma curva apertada.

A partir daqui estende-se o castelo e o bairro do Castelo.

São 4 ruas e 1 beco, mais coisa menos coisa. Ruas sempre estreitas, como já o eram aquelas que rodeiam o bairro e a Alcáçova (é obrigatório iniciar este périplo pelo Castelo por um passeio pela Rua da Costa do Castelo e/ou pela Calçada do Menino de Deus, onde os bairros da Mouraria e de Alfama se confundem com o bairro do Castelo).

E 2 praças separadas por um pano de muralhas e 11 torres.

Na primeira praça, a Esplanada, apesar da estátua de D. Afonso Henriques marcar o momento histórico da conquista da cidade, a história é completamente ultrapassada pelo miradouro em que se transforma o Castelo. A paisagem que daqui se avista é épica, tudo se registando aos nossos pés, 360° graus de ícones lisboetas.

A segunda praça é vivida já no interior do castelo, ultrapassado o fosso e a barbacã. Subimos à muralha, por ela caminhamos, subimos a uma torre, descemos, caminhamos mais um pouco pela muralha, subimos a outra torre, e assim vamos continuando. Por cada torre que passamos acrescentamos mais uma vista fantástica para um ponto cardeal da nossa Lisboa. É o Tejo, é a Baixa, é a Graça, é São Vicente, tudo, tudinho. Como curiosidade, destaque para duas destas torres. Uma, a Torre do Tombo, foi o lugar do inicial arquivo documental do reino. Outra, a Torre de São Lourenço, a única construída num lugar baixo, ao fim de uma longa escada que nos leva quase até à actual Praça do Martim Moniz – era lá abaixo que os antigos habitantes iam buscar água em segurança, com a Torre a servir de garantia de acesso seguro a um poço situado fora do castelo.

O Castelo de São Jorge, nome pelo qual o conhecemos desde o reinado de D. João I, no século XIV, não terá sido usualmente residência de reis. Talvez D. Sebastião tenha usado o lugar como paço, mas terá sido o último a fazê-lo e com a dinastia Filipina o paço real passou definitivamente para o Paço da Ribeira, no Terreiro do Paço, tendo o Castelo a partir daí tido sobretudo uma função militar, de defesa de quem vivia na Alcáçova e suas imediações.

Foi já no decorrer do século XX que se redescobriu o Castelo de São Jorge. Nos anos 1938-40 foi objecto de obras de restauro, à semelhança de muitos castelos país fora, numa recriação nacionalista do Estado Novo (daí que se afirme que o Castelo de São Jorge é uma criação do Estado Novo). A essa época já o Castelo tinha chegado em muito mau estado, ruína mesmo, em consequência dos terramotos de 1530 e de 1755 e do descaso dos Homens que o tinham maltratado com o uso de um conjunto de quartéis. Se foram essas obras de há apenas escassos 80 anos lhe deram a imagem de fortificação com torres e ameias que vemos hoje, foi também desde aí que se tem vindo a perceber os vestígios do antigo paço real e da alcáçova islâmica e as vivências de outrora. Trabalhos arqueológicos que continuam o seu curso permitem-nos traçar 3 épocas de presença humana na colina do castelo: idade do ferro (com vestígios de estruturas habitacionais que remontam ao século VII a.C.), bairro islâmico (século XI – XII, ligado à fundação do castelo e área residencial das elites do governo da cidade) e época cristã (século XV a XVIII, com antigo paço episcopal e palácio dos Condes de Santiago, o último dos palácios da antiga alcáçova medieval que se manteve habitado até ter ruído com o terramoto). Marcas do conjunto destes vestígios podemos encontrá-los no “sítio arqueológico” que testemunham estes três períodos significativos da história de Lisboa. E na exposição permanente instalada no espaço daquele que se acredita ter sido o antigo paço real podemos ainda ver uma colecção de objectos encontrados na área arqueológica, os quais permitem traçar a evolução do povoamento desta colina que permaneceu o centro da cidade de Lisboa até ao século XVI.

No sítio arqueológico vemos a igreja da Alcáçova, a igreja Santa Cruz do Castelo, a qual já existiria quando os muçulmanos chegaram à cidade.

Invenção do Estado Novo ou não, o que é certo é que o Castelo de São Jorge é o monumento mais visitado do país e o miradouro número um da cidade de Lisboa. Assim como já o tinha sido na cidade de Alis Ubba, de Olissipo, de Ulixbuna e de Al-Ushbuna.

Uns castelos pelo Tejo

O rio Tejo em território de Portugal é pontuado pela presença de uns castelos aqui e ali. Um bem óbvio para quem mora na capital, como é o caso do Castelo de São Jorge, outro uma visita de sonho para quase todos nós, como é o caso do Castelo de Almourol plantado numa ilhota. Pelo meio temos ainda o Castelo de Santarém e as suas vistas maravilhosas para a lezíria.

Porém, desta vez passearemos pelos outros castelos sobranceiros ao Tejo, os de Abrantes, de Belver e da Amieira, deixando o de Vila Velha de Ródão para uma próxima viagem, fiéis ao princípio de deixar sempre algo para ver como desculpa para voltar.

A situação geográfica do rio Tejo e a sua acessibilidade e navegabilidade não foram, claro, alheios à decisão de se implantar estas estruturas defensivas em cada um destes lugares. No entanto, cada uma destas estruturas da Linha Defensiva do Tejo acabou por desempenhar diferentes papéis na história do nosso país.

Comecemos pelo Castelo de Abrantes. Depois de tomada Abrantes aos mouros, D. Afonso Henriques mandou construir nesse mesmo século XII o castelo para defesa da linha do Tejo. Estávamos então no contexto da Reconquista Cristã e o castelo que no século XVIII acabou por tomar a forma de fortaleza foi, antes disso, palco de diversas batalhas entre mouros e cristãos. As muralhas exteriores não são muito imponentes e este século trouxe-lhe um quê de infantilidade com a instalação de um parque de jogos à sua entrada.

Mas um passeio pelo seu interior permite-nos ainda perceber a sua configuração e papel histórico. Aqui temos a Igreja de Santa Maria. A primitiva igreja era contemporânea da construção do castelo, mas no século XV acabou por ser remodelada e passar a panteão dos Almeida, cujos membros da família eram condes de Abrantes. O interior do castelo possui ainda o Palácio dos Governadores, muito alterado ao longo dos séculos, e a Torre de Menagem. Esta Torre de origem medieval, do século XII, também foi objecto de reconstruções várias ao longo dos tempos, mas no seu caso por força do terramoto de 1531 que a deixou em ruína até ao século XIX, século este que viu ainda passar pela vila e castelo as tropas napoleónicas.

Não precisávamos de subir à Torre para vistas enormes, uma vez que da muralha do castelo já as tínhamos, mas não resistimos a mais um ponto de vista. E que vista.

Uns 30 kms Tejo adentro, ainda na sua margem direita, a norte, surge no caminho um dos mais fantásticos castelos portugueses. Depois da apresentação quase burocrática do Castelo de Abrantes, este início de boas-vindas ao Castelo de Belver faz com que as expectativas se elevem. Mas não há que temer pela felicidade numa visita a este Belver. Esta é garantida.

Instalado no topo mais elevado de um monte granítico junto ao rio, o Castelo de Belver tem o cognome, à semelhança do de Almourol, de “sentinela do Tejo”. Vivia-se a época da Reconquista Cristã quando por volta de 1194 D. Sancho I doou à Ordem dos Hospitalários (hoje Ordem de Malta) um território que incluía, entre outras, as terras que logo passariam a ser a povoação e castelo de Belver – o Tejo era então um espaço de fronteira e havia que fazer face a ambas as necessidades de povoamento e militares. Até aqui a Ordem dos Hospitalários tinha uma função assistencial e com a construção desta estrutura defensiva assumirá a sua vocação militar. O castelo terá ficado construído em 1212 e figuras históricas passaram por lá. O Condestável D. Nuno Álvares Pereira mandou reconstruir as primitivas defesas, a princesa Santa Joana fez daqui sua residência após a peste de Aveiro em 1476 e fala-se, ainda, de um eventual exílio de Camões em Belver. O castelo sofreu com os terramotos de 1531 e de 1755 que deixaram a sua Torre de Menagem em ruína, mas o século XX veio dar um novo rumo no seu estado de conservação com os trabalhos de restauro por parte das autoridades do Estado.

Feito o contexto histórico, adentramos neste reduto de muralhas medievais e descobrimos a pitoresca ermida de São Brás aninhada junto à Torre de Menagem. O espaço interior do castelo é pequeno e subimos ao alto da Torre. As vistas para lá das muralhas não podiam ser mais sublimes. As águas azuis do Tejo serpenteiam rasgando a terra coberta do verde da relva rasteira e das oliveiras. Uma tranquilidade imensa é o que se sente do alto da torre do castelo de Belver.

Um pouco mais ainda adentro pelo Tejo, mas mais longe por estrada, há de surgir o Castelo da Amieira, a meio caminho do Gavião e Nisa. Não está mesmo junto ao Tejo nem este se avista do castelo, mas sente-se. Amieira do Tejo era uma das doze vilas da Ordem de Malta. Neste território, que hoje faz a transição entre a Beira e o Alentejo, mandou construir em 1359 D. Álvaro Gonçalves Pereira (prior da ordem de Malta e pai do Condestável D. Nuno Álvares Pereira) um castelo integrado na linha defensiva da margem sul do Tejo. Três anos antes a sede da Ordem tinha sido transferida para a Flor da Rosa, ali perto, e tendo o Tejo boas condições de navegabilidade e, no caso específico da Amieira, um bom porto fluvial, foi então escolhido o lugar para se implantar novo castelo. Como curiosidade, o castelo não está num ponto cimeiro, pelo contrário, como que se desce na aldeia para se ir ter com o castelo, avistando-se a Capela do Calvário mais acima.

O Castelo da Amieira foi um dos primeiros exemplares de castelo gótico em Portugal, tendo-lhe sido construída uma barbacã inovadora com características modernas. Com planta quadrangular e quatro torres em cada um dos cantos ligadas por muralhas, a maior dessas torres teria a função de torre de menagem mas acabou sobretudo por ser a residência do fundador do castelo, D. Álvaro Gonçalves Pereira. Uma volta pelo exterior do castelo saindo pela Porta da Traição e uma vista do alto das suas muralhas deixa-nos face a face com mais um pedaço de tranquilidade, feita de contornos suaves da serra e mais uma série de oliveiras.

Entre muitas outras, duas curiosidades deste castelo que foi residência de alcaides, prisão e cemitério. Primeiro, a sua cisterna possui ainda e desde sempre água, facto que não é assim tão comum. Segundo, a Capela de São João Baptista, construção do século XVI, apresenta pinturas no seu tecto efectuadas com a técnica decorativa do esgrafito. A temática destas pinturas é profana, com a justaposição de motivos grotescos e vegetalistas, reflectindo talvez a decadência das funções defensivas do castelo e a especial devoção a este santo por parte dos hospitalários. Também nas torres podemos ver vestígios de pinturas, o que é invulgar nas fortificações medievais portuguesas.

Da Vila de Sintra ao Castelo dos Mouros

Não há melhor forma de circular por Sintra do que a pé. Em tempos já tínhamos escrito aqui sobre a jornada até ao Palácio da Pena desde o centro da vila através do caminho da Vila Sasseti. Desta vez seguimos caminho com partida desse mesmo centro com passagem pela entrada do Palácio da Pena, visita ao Castelo dos Mouros e volta ao ponto inicial, de forma circular, aproveitando as “Pequenas Rotas” do PR2 (Percurso da Pena) e PR3 (Percurso do Castelo). Coisa para uma manhã em cheio.

Saímos do largo do inigualável Palácio da Vila, o mais antigo palácio português, com origem no primitivo paço dos antigos governadores mouros da Sintra do século X, já com o Castelo dos Mouros sob mirada lá no alto, com alguns dos palacetes que fazem a fama de Sintra sob o seu colo.

E logo tomámos as estreitas ruas da vila, cheias de cotovelos, até chegarmos ao miradouro da Ferraria. Daqui, uma vista diferente mas igualmente próxima do Palácio da Vila, com as suas distintas chaminés. Ultrapassado mais um chalet apalaçado e damos com a Fonte da Sabuga.

São muitas as fontes que se vão vendo pelos caminhos de Sintra, mas esta fonte medieval reconstruída no século XVIII será a mais chamativa e célebre das fontes de Sintra, reconhecida ainda pelos seus poderes milagrosos. Está decorada com um tom azul e o dourado do sol que a encima retém a nossa atenção, bem como a pedra de armas de Sintra logo acima.

Após uma breve subida com vista para a planície das terras de Sintra, chegamos a um recanto mais recolhido da vila, onde ficam a Igreja de Santa Maria (do século XII, em estilo românico-gótico), a Casa do Adro (onde em 1866 viveu Hans Christian Andersen) e o Convento da Santíssima Trindade (hoje residência particular sem visitas ao público). E pelo meio uma casa com uma fachada curiosa.

Mais umas centenas de metros e a São Pedro de Penaferrim vê-mo-la lá em baixo. A estrada continua e segue-se um trilho com algumas árvores caídas, certamente consequência de temporal recente, que nos leva ao topo do Monte Sereno com seu castelo particular. Daqui avista-se já do outro lado o Castelo dos Mouros. E com pouca demora perceberíamos que do Castelo dos Mouros também se observa livremente o castelinho do Monte Sereno, como se mantivessem ambos um diálogo próximo e constante.

Na subida pela Calçada da Pena encontramos, por fim, veículos motorizados, carros particulares, autocarros e tuk-tuks, muitos tuk-tuks. Mas aqui encontramos também a vegetação cerrada da Serra de Sintra. Passamos pela entrada do Palácio da Pena, apreciando o colorido do seu edifício pintado num céu azulíssimo, e um pouco mais adiante eis o Castelo dos Mouros. Ao invés de seguirmos directamente para a sua entrada, vale a pena espreitar a casa do guarda junto à segunda cintura de muralhas (para incremento da área fortificada e protecção da população e bairros que se instalaram na vertente), com bar esplanada, e deambular pelo caminho que descerá até ao centro da vila para mais um miradouro com belas vistas.

De volta em direcção ao Castelo, não nos cansamos de apreciar as formosas rochas que são também elas parte da paisagem de Sintra.

Imediatamente antes da entrada do Castelo dos Mouros recebe-nos a Capela de São Pedro com o seu Centro de Interpretação da História do Castelo dos Mouros, um pequeno museu com achados arqueológicos. Nas imediações da capela percebemos umas estruturas escavadas na rocha que serviram há séculos para armazenamento e conservação de cereais e leguminosas. Por aqui estava o primitivo bairro medieval islâmico, mais tarde lugar de uma necrópole cristã, hoje transformado numa área arqueológica.

A passagem pelo pano de muralha mais imponente do Castelo dos Mouros faz-nos entrar num outro mundo, transportando-nos pela história.

Corria o século VIII quando, numa vertente mais elevada da Serra de Sintra, a cerca de 400 metros de altitude, os muçulmanos decidiram construir aqui uma fortificação de defesa do seu território após a conquista da Península Ibérica aos visigodos. O castelo terá funcionado como atalaia de controle da costa atlântica e dos territórios a norte, desempenhando a função de posto avançado da cidade de Lisboa. Mas, após anos de disputas, quer a fortificação quer o território acabaria por ser perdido para os cristãos no século XII, com a conquista definitiva por D. Afonso Henriques em 1147, tendo nessa época sido edificada a primeira capela cristã de Sintra, dedicada a São Pedro. As muralhas foram objecto de restauro no período romântico, por volta de 1860, sob a direcção Dom Fernado II, que arborizou igualmente os espaços envolventes. É interessante aprender que a vegetação intensa que caracteriza a Serra de Sintra dos nossos dias é um fenómeno recente. E nisso, como em muitos outros aspectos em Sintra, com destaque para o Palácio da Pena, a acção de D. Fernando II, o Rei Artista, foi decisiva. Nessa época a Serra tinha um aspecto nu, sem a vegetação primitiva de carvalhos, provavelmente em consequência da expansão de actividades como a pastorícia e a agricultura e da exploração florestal pela procura de lenha, carvão e madeira. Só no século XIX, com a chegada de D. Fernando II, inspirado pelo Romantismo, foi a Serra de Sintra reflorestada, com a introdução de espécies exóticas, tendo igualmente dado início à moda da criação dos jardins “à inglesa”. A paisagem de Sintra transformou-se no que vemos hoje e, para além dos muitos palacetes e seus jardins, ao lado dos autóctones carvalhos temos acácias, araucárias, plátanos, fetos, pinheiros, eucaliptos e ciprestes.

E porquê esta referência à paisagem de Sintra quando dizíamos ter entrado no Castelo passando pela sua porta muralhada? Porque o Castelo dos Mouros, não desfazendo a sua história, tem tudo a ver com paisagem. São vistas e mais vistas, todas elas fabulosas, fazendo-nos pensar que a vida se resume a isso: a uma paisagem, a paisagem de Sintra.

Ao caminhar pela muralha quase nunca perdemos de vista o Palácio da Pena, mas enquanto que da Alcáçova e Torre de Menagem temos a vila de Sintra aos nossos pés, contornando-a para seguirmos, subindo, até à torre do lado contrário, a Torre Real, ficamos com a Quinta da Regaleira e Seteais à nossa beira e o mar, esse, com todo o Atlântico da costa de Sintra sempre no nosso horizonte próximo.

É, pois, um prazer caminhar pela muralha do Castelo dos Mouros. Prazer maior ainda é deixarmo-nos estar na Torre Real, imitando D. Fernando II na sua época a contemplar a Pena, mas não a pintar a Serra.

Descendo a muralha, ao invés da passagem pelo extenso terreiro da Praça de Armas optamos pelo caminho rodeado de vegetação e grandes e bonitas rochas para chegar até à saída do Castelo.

Já cá fora, a volta ao centro da Vila inicia-se com uma curta passagem pelo interior da Tapada dos Bichos. Há que seguir a caminhar com atenção para não perder as vistas quer para o Palácio da Pena quer para o Castelo dos Mouros, por entre as árvores.

Depois o percurso segue por estrada, pela Rampa da Pena, cheia de curvas e mais curvas. E vários chalets, como o Chalet do Relógio e o Chalet Biester com os seus torreões a lembrar um palacete. No fim da descida da Rampa da Pena aí temos, então, o final da nossa jornada com a chegada ao centro histórico de Sintra. E aí termina o sossego e a sensação de solitude que vivemos antes, quando estivemos embrenhados na Serra.

Castelo da Lousã

A Lousã é a serra e as aldeias de xisto, mas é também o seu castelo, segundo José Saramago “paisagisticamente, das mais belas coisas que em Portugal se encontram”. A sua implantação no meio da floresta é preciosa e torna-o ainda mais apelativo. Diz-se ser o “castelo perdido nas árvores” e qualquer vista panorâmica mais afastada confirma-o.

Também conhecido como Castelo de Arouce, fazia parte da linha defensiva do Mondego, rio que até à conquista de Lisboa aos mouros no século XII fazia de fronteira entre o mundo cristão e muçulmano. Terá sido erguido no século anterior, mas uma lenda antiga conta-nos ainda da possibilidade de ter sido construído por um emir para servir de proteção da sua filha e dos seus tesouros após derrotado e expulso de Conimbriga.

Fortaleza pequena, com uma torre de menagem e um curto pátio, à entrada percebemos um alambor, uma base rampeada que tinha como função reforçar a muralha e impedir a escalada dos seus muros. A partir deste ano de 2019 passou a ser possível a visita ao interior do castelo e do alto da sua torre as vistas para a densa vegetação são incríveis. Em baixo vemos o alvo Santuário de Nossa Senhora da Piedade a contrastar com o verde da floresta e o xisto – claro – do castelo.

Descemos do castelo e bem lá em baixo fica a praia fluvial com vista para ele. A beleza natural do lugar é comovente. No entanto, há que não ficar pela vista. A Ribeira de São João corre ponte afora e acompanhando-a enquanto podemos descobrimos mais um recanto de tranquilidade na Serra da Lousã.

Uns castelos pela Beira

As regiões de Viseu e da Guarda possuem uma série de castelos que, em tempos, serviram de protecção da raia. Mas se de Espanha, hoje, já nem o dito “nem bom vento, nem bom casamento” assusta, muito menos o faz a defesa da fronteira. Ainda assim, os castelos ali seguem de pé, altivos e orgulhosos da sua história e prontos para fazer as delícias dos mais aventureiros.

Já se viu que sou fã de castelos. Muitos haveria a destacar, mas desta vez optarei por indicar apenas estes três, todos eles classificados como monumento nacional e todos eles doados por D. Flâmula ao Mosteiro de Guimarães no século X. Mas, mais decisivo para esta escolha, todos eles diferentes e verdadeiramente surpreendentes na sua forma.

Moreira de Rei, no concelho de Trancoso, é uma aldeia pequenina aberta a um vale a perder de vista com a silhueta de uns montes ao fundo. Diz que do alto do seu castelo, à noite, se distinguem as luzinhas de 52 povoados, um por cada semana do ano. O castelo de Moreira de Rei tem raízes longínquas, pelo menos desde o século X. Seria então uma estrutura defensiva rudimentar, mais de acompanhamento a uma povoação rural do que de salvaguarda militar. O actual castelo datará do tempo de D. Afonso Henriques e está hoje em ruína. Acontece que essa ruína é fantástica. São rochedos e mais rochedos, todos formosos, que se percebe ainda dar corpo a esta fortificação. É um aproveitamento certeiro dos recursos naturais em todos os aspectos, quer construtivos quer paisagísticos. A muralha resiste a espaços e não há torres, mas ainda assim é uma felicidade deambular pelo curto espaço interior deste castelo.

O castelo de Penedono é provavelmente o mais elegante e bonito castelo português. Na verdade, não se veem muitos castelos com esta forma no nosso território, quase a forma de um castelo de fadas. As suas origens remontarão igualmente ao século X, mas a sua actual configuração será uma reconstrução do século XIV, motivada por desejos de autonomia das gentes de Penedono em relação às rivais de Trancoso. De planta poligonal, este é um castelo-paço com cinco torres quadrangulares coroadas por ameias piramidais. O também conhecido como Castelo do Magriço (Álvaro Gonçalves Coutinho, guerreiro eternizado por Luís de Camões no “Os Lusíadas”) assenta sobre um afloramento granítico e é rodeado por uma baixa barbacã. Do seu pequeno interior obtém-se enormes vistas panorâmicas.

O Castelo de Numão é um castelo bem maior do que os anteriores. Uma constante, porém: as vistas magníficas que dele se alcançam, desta vez para a paisagem do Côa, para mim uma das mais épicas de Portugal. Localizado no concelho de Vila Nova de Foz Côa, a primeira referência a este castelo data igualmente do século X. Instalado no topo de um monte, o seu perímetro muralhado de forma ovalada irregular é extenso, cerca de 250 metros.

Andamos pelo mato rasteiro, damos de caras com uns cavalos a pastar e o seu dono a relaxar perante aquela paisagem imensa, ufano por nos informar ser Numão a terra de Dina Aguiar, vemos até as ruínas de uma igreja românica e uma cisterna e, por fim, arriscamos subir às muralhas e a uma das suas seis torres, dum total de 15 que em tempos existiram. Como se fôssemos um arqueólogo, não apenas em busca da história, mas também de mais um panorama. E que vista, esta.

Linhares da Beira

Da rede das 12 “Aldeias Históricas de Portugal”, Linhares da Beira era a única que ainda não tinha visitado (de todas as outras podem ser lidos posts escritos anteriormente neste blogue).

No vale do rio Mondego, perto da Serra da Estrela, Linhares é uma aldeia medieval do século XII. Antes disso, porém, terá tido origem num castro lusitano, foi visigoda e muçulmana, até que em 1169 D. Afonso Henriques lhe concedeu foral. Linhares foi crescendo com a época da Reconquista Cristã e manteve a sua importância para além dela, uma vez que a sua localização geográfica impunha que a Bacia do Mondego fosse protegida como retaguarda às fortificações da raia. O nome Linhares virá de “campo de linho”, cultura outrora forte na região.

Cortesia da evolução da sua ocupação ao longo dos séculos, pelas ruas de Linhares podemos testemunhar a presença de estilos arquitectónicos não apenas medievais, mas também quinhentistas – são estes que ainda perduram em grande número.

Mas o maior símbolo de Linhares da Beira será o seu castelo e é por aqui que iniciaremos o nosso passeio. À medida que vamos serpenteando pela estrada que nos leva até à aldeia vamos vendo o castelo de Linhares aproximando-se cada vez mais. Instalado num cabeço a 820 metros de altitude, alguma fortificação existia já até o actual castelo ter sido reformado no reinado de D. Dinis no século XIII.

Bem preservado, ainda hoje serve como que de vigia da aldeia e do vale a perder de vista, oferecendo uma excelente panorâmica. Entramos pela sua porta virada para o largo da Igreja Matriz e um pátio recebe-nos como antecâmara para o enorme terreiro que se apresenta para lá da porta seguinte. Aqui ficamos face a face com as duas torres com ameias – a de Menagem e a do Relógio – que já se percebiam desde ao longe na estrada e percebemos como é grande o castelo. Os andorinhões fazem-nos companhia e salpicam o céu azul com uns pontinhos a preto.

Saindo do castelo, a aldeia desce por ali abaixo. As ruas de pedra correm umas para as outras e os edifícios de granito preenchem-nas. Há de todo o tipo de casas, desde as mais populares a solares, com um brasão aqui e outro ali. Veem-se diversas janelas singulares esculpidas nas fachadas de pedra ao gosto manuelino do século XVI, decorando-as.

As fontes são também um elemento decorativo de destaque na aldeia. E, no meio de mais pormenores curiosos, damos de caras com uma passagem por um arco, a Rua do Passadiço, que daria entrada para a judiaria medieval, uma vez que Linhares acolhia uma comunidade judaica.

Na aldeia encontramos ainda os vestígios da calçada romana que passava pela povoação, parte da Via da Estrela que ligava Mérida (Emerita Augusta) a Braga (Bracara Augusta).

Por Castro Laboreiro

Castro Laboreiro, situado bem a norte, no concelho de Melgaço, é longe, longe de tudo.

Até há menos de um século, nem uma estrada a ligava à civilização. Apenas caminhos de cabras. Isolamento, é do que se trata. Hoje tudo é diferente, mas para alguém da cidade esta continua a ser uma região perdida no meio da montanha. E a montanha aqui não é qualquer uma, é a Serra da Peneda. Os montes e pedregulhos típicos da Peneda só fazem com que o ambiente de desolação, rigor e mistério se adense. Aqui não vamos encontrar formas e recantos verdejantes como nos lugares mais frequentados do Gerês. Aqui só existem penedos rugosos e pedregosos. O caos de pedra da Peneda.

Ainda assim, tudo na região me atraí.

Cheguei noite caída a Castro Laboreiro, 5 estranhos graus. No dia seguinte, para aproveitar o dia, ainda antes do pequeno almoço tardiamente servido pelas 8:30, saí manhã cedo rumo ao Castelo.

Uns cães uivavam – eram cães mas soavam como lobos -, num contraste perfeito com o som encantatório de embalo que saia das colunas municipais como música de fundo na vila. É um retrato exacto do sentimento perante a região: receio e fascínio em doses iguais.

Iniciei, assim, a subida até ao Castelo hesitante, a medo até, pensando na imagem intimidante do cão raça Castro Laboreiro – porque os lobos há muito desapareceram. Se me aparece um pela frente aqui neste meio do nada não chego ao Castelo, pensei. É o fim, pura e simplesmente, conclui. Continuo caminho, olho adiante, para o lado direito, para o lado esquerdo, para trás. A paisagem fantástica tudo faz esquecer e o facto de estar sozinha nela só faz crescer a adrenalina. O tal caos de pedra faz com que queiramos conhecer a forma da pedra seguinte, do que está para além dela, os contornos dos vales e dos montes que nos enchem a alma. A Peneda é linda.

O Castelo está implantado num castro, o Castram Laborarum dos romanos, com o significado de “acampamento de trabalhadores”, numa colina escarpada a 1033 metros de altitude. Foram, no entanto, os mouros os que ergueram o primeiro castelo no lugar, o qual viria a ser conquistado por D. Afonso Henriques e reconstruído pelo seu sucessor, D. Sancho I. Se ainda hoje o acesso até lá cima é difícil, não consigo imaginar como fariam os nossos antepassados para lá chegar. Fácil de imaginar é, sim, a inexpugnabilidade do castelo face aos inimigos invasores.

No topo do Castro, depois de ultrapassada uma das suas duas portas de madeira, encontramos as ruínas dos dois antigos recintos, o castelo e a cerca da antiga povoação. Esta povoação intramuros terá sido abandonada logo na Idade Média, tendo os seus habitantes mudado para a vila cá em baixo, a actual Castro Laboreiro. Com o avançar dos séculos o Castelo foi perdendo a sua importância e provavelmente já na época das Guerras da Restauração apresentaria estruturas apenas rudimentares e não terá desempenhado um papel decisivo. Para piorar, no século XIX foram utilizadas pedras do Castelo para a construção de edifícios na mais recente vila.

O que temos hoje é, pois, a ruína de um castelo. Mas uma ruína perceptível e, sobretudo, uma ruína num espaço fabuloso. Para lá das pequenas muralhas altaneiras o cenário de montanha é de cortar a respiração. Avistamos até uma cascata a despenhar-se pelas fragas rochosas antes de cair no rio Laboreiro.

O percurso até ao topo do Castro e Castelo é circular. Na descida, mais uma vista especial, a da vila cá em baixo no planalto encaixada nos montes. Castro Laboreiro é pequena, e o seu centro histórico resume-se a uma reduzida praça com pelourinho e igreja matriz e umas casas típicas de granito por companhia.

Mas Castro Laboreiro fascina ainda pela sua cultura castreja. São três os tipos de ocupação na região: os povoados de ocupação permanente situados nas zonas mais abrigadas do vale abaixo do planalto, as brandas e as inverneiras. Estes dois últimos não são de ocupação permanente. Tudo depende do clima que a natureza oferece numa determinada época do ano. As brandas são a opção para as épocas do ano mais quentes, situando-se a maior altitude e em zonas mais frescas e de pastagens mais verdes e mais propícias às sementeiras, enquanto que as inverneiras ficam para o Inverno, protegidas que estão do vento a mais baixa altitude e nas encostas mais abrigadas da Peneda. O que acontece de especial em Castro Laboreiro é que esta situação, que seria típica das zonas de alta montanha, acaba por não se verificar bem assim. Na verdade, nos dias de hoje muitos dos habitantes da região acabam por fazer das brandas a sua primeira habitação, muito graças ao cada vez menor rigor dos Invernos.

O Trilho Castrejo, com cerca de 17 kms, transporta-nos por muitas destas penedias recônditas, pelos antigos caminhos que ligam as brandas às inverneiras. Segui, ao invés, de carro e, embora sem a mesma proximidade e sem chegar às brandas de outrora, pude perceber um pouco mais da ocupação da região nas duas margens do rio Laboreiro.

Para sul do castelo segue uma estrada estreita que corta o vale e apresenta paisagens mais convidativas, com algum verde e arvoredo. As paredes rugosas das montanhas estão, no entanto, logo ali perto. Pela estrada fora vão surgindo alguns desvios para povoações. Para se atestar do quão apartadas e perdidas estão, as caixas do correio dos seus habitantes ficam à entrada, precisamente no lugar do desvio da estrada que já é ela própria uma estrada secundaríssima.

Esta estrada é ainda encantadora pelas pontes que aparecem à sua beira.

A primeira, a Ponte da Assureira fica à entrada da povoação inverneira de mesmo nome. Construída na época medieval, veio substituir uma outra da época romana, e é uma pequena ponte de pedra sobre um ribeiro afluente do rio Laboreiro. Tem um único arco e o seu tabuleiro é em cavalete suave. A vegetação é aqui intensa e junto à ponte encontramos um moinho. Um pouco mais afastada fica a Capela de São Brás, nome pelo qual é também conhecida esta ponte.

A Ponte Nova ou da Cava Velha fica uns 200 metros mais à frente na estrada. Porém, para darmos com ela temos de desviar e seguir por um pequeno trilho. Provavelmente construída no século I, na época romana, terá sido reformada na época medieval. O nome “Ponte Nova” faz presumir que não seria a única nas redondezas, talvez acompanhada da Ponte da Assureira ou de uma outra. Com dois arcos de volta perfeita mas não de mesmo tamanho, julga-se que esta ponte poderá ter tido em tempos mais um arco. O tabuleiro em cavalete e inclinado é feito de laje.

Sobre o rio Laboreiro, esta é a mais imponente e surpreendente das pontes da Peneda. A pedra domina toda a sua envolvente, marcando presença na ponte, nas paredes da serra e até no caminho da água. O lugar é lindo e selvagem, como todos na Peneda, e aqui não se vê vivalma, só natureza bruta.

A última ponte desta jornada volta a estar escancarada na estrada, sendo fácil, por isso, dar com ela. É a mais recente Ponte de Dorna, construída no século XIX. Também em arco e tabuleiro em cavalete, a sua forma e materiais não diferem das anteriores. O lugar é aqui o mais bucólico possível, com direito a arvoredo com folhagem de vários tons e belos reflexos na água do ribeiro.

Todas estas pontes estavam integradas na rede de comunicações vicinais de Castro Laboreiro, ligando até a via romana que seguia para Espanha.

Na volta o percurso segue pela outra margem do rio Laboreiro, com muitas mais inverneiras no caminho e os maciços da serra a conferirem ao cenário um típico ambiente de montanha. A branda do Curral do Gonçalo fica para lá do sol posto, não sei se se avista daqui nem sei como lá chegar. Sei é que é o lugar de mais altitude da freguesia, a 1166 metros, o que faz dele o segundo lugar habitado em Portugal com mais elevada altitude. Tudo em grande por Castro Laboreiro, está visto.

Soajo e Lindoso, espigueiros e muito mais

Os espigueiros fazem parte da paisagem do norte do nosso país. Andamos por montes e vales e nem precisamos de entrar numa povoação para encontrarmos um exemplar à beira da estrada. Eles vão-se sucedendo, uns maiores do que outros, mas quase sempre elegantes.

Chamemos-lhes espigueiros ou canastros, estes elementos de arquitectura popular são na sua maioria de forma rectangular (mas também os há quadrados ou redondos), elevados no solo, de madeira ou de pedra, com cobertura de telha ou de palha e de ornamentação variada. Só a sua função parece não variar: pequenos celeiros para guardar o milho e protegê-lo das intempéries e dos roedores.

Em lugar nenhum do nosso país podemos vê-los em tão grande número e tão concentrados como no Soajo e no Lindoso, em pleno Parque Natural Peneda-Gerês.

Comecemos por uma paragem no Soajo.

Já foi vila, passou a aldeia e desde 2009 voltou a ter a distinção de vila. Instalada na Serra do Soajo, cujo cume mede 1416 metros de altitude, esta povoação feita ainda de muitos edifícios de granito, ruas estreitas e inclinadas, abre-se altaneira para o recorte dos montes que a rodeiam, onde não faltam os terrenos dispostos em socalcos. À entrada um monumento erguido ao Cão Sabujo da Serra do Soajo faz-nos saber que “daqui partiram, todos os anos, para os reis de Portugal cinco grandes e valentes cães do Soajo. Por tal, nos séculos da monarquia, os soajeiros beneficiaram da isenção de impostos e de outros admiráveis privilégios”. Igualmente, abaixo de um brasão numa das casas da vila, com elementos como o dito cão e outros animais e uma árvore, está inscrito “Serra do Soajo, Parque Natural d’ el Rei”. A vila ganhou foral em 1514 e o orgulho dos seus habitantes pelo seu papel na história do país é manifesto.

Ainda que não restem já edifícios dessa remota era, alguns dos seus edifícios mais típicos seguem de pé e são bons testemunhos de arquitectura tradicional.

A praça principal é disso exemplo. Aqui ficam a oitocentista Casa da Câmara, os antigos paços municipais, a quinhentista Casa do Largo de Eiró (o nome da dita praça principal), o seiscentista Pelourinho e a Igreja Paroquial com o seu estreito campanário a que se acede por uma escadaria.

Quase sempre em granito, as casas são normalmente de um ou dois pisos, e o superior pode conter um alpendre em madeira ou balcão em pedra a que se acede por uma escadaria. A Casa do Largo é distinta pela sua arcaria e gárgulas de canhão.

O Pelourinho é muito curioso. Não é certa nem a sua origem nem o seu significado, mas o rosto sorridente e solar lá está, a encimar a coluna.

Vale a pena passar para lá da Igreja e caminhar pelas ruelas irregulares da vila antes de seguir para a Eira Comunitária do Soajo, o lugar que lhe dá a fama e que chama a maior parte dos seus visitantes.

Sobre um afloramento de granito ergue-se um conjunto de 24 espigueiros, todos eles em pedra. Alguns destes espigueiros são ainda hoje utilizados pela população e o mais antigo deles data de 1782.

Estas estruturas seculares de arquitectura agrícola, dispostas desordenadamente no cimo deste penedo cheio de desníveis e com uma vista fabulosa para os montes e vales que formam a Serra do Soajo, representam ainda assim um conjunto harmonioso. Possuem uma forma rectangular, são estreitos e inteiramente de granito, incluindo a sua cobertura, e apenas a sua porta é de madeira. São elevados para permitir uma melhor secagem dos cereais e assentes numa espécie de pés também eles feitos de lajes de granito. As suas paredes têm umas fendas verticais. Estas frestas pequenas servem para arejar o cereal no interior do espigueiro, ao mesmo tempo que o poupam dos estragos quer do clima quer dos animais. As suas portas estavam fechadas e não dava para perceber o que estes espigueiros guardavam por esta altura do ano, mas o vento que soprava forte e entrava por ali adentro fazia o seu interior ganhar vida, remexido pelo ar e pelas portas a ranger. Este ambiente levemente agreste condiz com a rudeza destas construções vernáculas.

A sua ornamentação basta-se com as cruzes dispostas na frente ou na traseira, ou em ambas, do telhado do espigueiro. A cruz é o símbolo de proteção contra a maldição e, ao mesmo tempo, abençoa o milho. Ou seja, ao contrário do que um olhar menos atento poderia julgar, não se tratam de estruturas funerárias, pelo contrário, representam a vida, o sustento das famílias.

Antes de deixarmos a vila do Soajo não o podemos fazer sem uma visita – ou, se o clima o permitir, um mergulho – ao Poço das Mantas e, especialmente, ao Poço Negro, um recanto travestido de piscina natural no caminho do rio Adrão, o qual há-de desaguar no rio Lima um pouco mais adiante.

Do Soajo para Lindoso são cerca de 15 kms. Há um caminho mais directo, mas optámos por seguir pelo lugar de Ermelo, pequeno ponto no mapa mas ainda assim terra de um Monumento Nacional na figura do seu Mosteiro do tempo do Românico, à beira do rio Lima. E é também à beira deste rio que a dado passo na estrada vemos despenhar-se com surpresa uma queda de água do alto de um monte.

Porque as surpresas nesta região não param de acontecer, vale a pena estarmos atentos ao caminho para que antes da entrada em Parada do Lindoso possamos desviar à direita para o Poço da Gola. Estacionamos o carro e vemos cá de cima o rio a vencer os desníveis e a romper as pedras pelo meio da vegetação. Continuamos mais um pouco a pé, procurando acompanhar o seu curso, e aí a surpresa é total. A uma antiga casinha de pedra em ruínas segue-se uma ponte de madeira e, cereja no topo do bolo, mais uma piscina natural de água claríssima, num conjunto verde perfeito.

O Lindoso, por fim.

Diz a lenda que D. Dinis, ao ver o castelo, “tão alegre e primoroso o achou, que logo lindoso o chamou”. O Castelo do Lindoso foi, no entanto, construído pelo seu antecessor, D. Afonso III, no século XIII. A sua implantação é primorosa, no alto de um pequeno penedo rochoso sobranceiro ao rio Lima, a 468 metros de altitude, em plena Serra Amarela. Espanha está a apenas 4 kms, daí que o objectivo primeiro da sua construção tenha sido o de defesa e vigia da fronteira. Mais tarde, o Castelo do Lindoso viria a desempenhar também um papel importante nas Guerras da Restauração, mais uma vez como linha de defesa contra o vizinho espanhol. O seu uso foi sempre estritamente militar, nunca tendo servido de residência.

No século XVII, curiosamente, foi construído um forte a envolver o castelo, que ocupa a praça interior. Hoje restam a torre de menagem, baluartes e canhoneiras. Mas o ambiente é já totalmente tranquilo no que a guerras, invasões e disputas diz respeito. A rudeza queda-se pelo isolamento da região e pelo cinzento do granito que nos cerca. O granito do terreno, o granito do castelo e o granito dos espigueiros.

Mesmo junto ao castelo fica a eira comunitária com cerca de 64 espigueiros (no total da freguesia serão mais de 120, o que faz dela a possuidora do maior aglomerado de espigueiros da Península Ibérica). É também esta a beleza deste Castelo do Lindoso, o facto da sua localização ser estratégica e paisagísticamente imaculada e ter como vizinhos imediatos um dos maiores expoentes da arquitectura rural do Minho: os espigueiros.

À semelhança do que acontece no Soajo, e em muitas das povoações do distante e montanhoso norte de Portugal, o espírito comunitário tem aqui uma forte presença. E também à semelhança dos espigueiros do Soajo, os do Lindoso são estreitos e rectangulares, em pedra, com acabamentos nas cantarias muito perfeitos e, mais uma vez, ornamentados apenas com um cruz no seu telhado. Alguns deles têm inscrita a data da sua criação e o mais antigo data, tal como o do Soajo, do século XVIII.

Vale a pena circular pelo espaço da eira, com os espigueiros distribuídos ao acaso, mas quase sempre com o topo traseiro virado a sudoeste, pensando na orientação do sentido da chuva, rodeando-os e apreciando-os de perto. Eles são aqui largos e de pouca altura, quase sempre de mesmas dimensões, e estas características comuns indiciam um equilíbrio na distribuição da propriedade agrícola na região.

A atestar a importância dos espigueiros enquanto símbolo etnográfico, a Imprensa Nacional Casa da Moeda lançou em 2018 uma moeda comemorativa (Espigueiros do Noroeste) com a imagem dos espigueiros do Soajo e do Lindoso, enaltecendo o património e a cultura identitária dos seus povos.

Castelo de Ouguela

Um dia destes torno-me sócia da Associação dos Amigos dos Castelos. Castelos, fortes e fortalezas, quanto mais distantes e abandonados, melhor. Sou capaz de fazer desvios de dezenas ou centenas de quilómetros só para os conhecer.

Ouguela, por exemplo, fica lá longe, já a riscar a linha de fronteira com Espanha. Mas como está ali, temos de o conhecer. Valha a verdade, as estradas do Alentejo, nomeadamente a caminho de Campo Maior, são um prazer de ser percorridas. Não é preciso ser-se nenhum Fitippaldi para se conduzir aqui. Rectas a perder de vista, estradas sempre planas, paisagem plácida, vacas e bois a pastar por entre as ovelhas, a planície alentejana é beleza pura. As cores do Outono mais não fazem do que adornar este cenário do montado alentejano.

A antiga Praça Forte de Ouguela fica a cerca de 10 quilómetros de Campo Maior. É uma excepção à planura da região próxima, mas não muito. Instalada no cimo de um cabeço rodeado por campos de oliveiras, esse monte tem apenas 259 metros de altitude.

Não são certas as origens de Ouguela. Crê-se que tenha sido um povoado proto-histórico que acabou por ser romanizado e mais tarde transformado numa fortaleza islâmica. Passou para o domínio cristão e fez parte do Reino de Leão e Castela na sequência da Reconquista Cristã da Península Ibérica. De Espanha resta hoje a vista cercana, ali à distância de um esticar de braço. D. Dinis acabou por integrar Ouguela no reino de Portugal em 1297, tendo-lhe concedido foral no ano seguinte. Desde aí Ouguela desempenhou um papel importante ao longo da história, sobretudo como parte da primeira linha de defesa da raia alentejana, a par das fortificações de Elvas, Campo Maior, Olivença e Juromenha (esta última, a minha preferida). Mas acabou por perder relevância militar e foi vítima do abandono da sua população. Uma quadra, irónica, canta o seguinte:

Adeus vila de Ouguela / Que não há vila mais nobre / Para teres vinte ruas / Faltam-te só dezanove

Ouguela, nos seus tempos de grandeza, terá passado dos 600 habitantes. Hoje não são mais de 60, distribuídos pelas casas extra-muralhas (a maioria) e por aquelas intra-muralhas.

Parte das muralhas e torreões da histórica vila insistem em manter-se de pé, porém. O seu traçado medieval também se mantém. Por altura da minha visita, intensas obras decorriam, quer no exterior das muralhas quer no interior do castelo. O terreiro estava todo revolvido, ao que parece para remodelação da conduta da água.

Mas para aí entrarmos temos de atravessar as duas portas em arco do castelo, encimadas por umas bonitas e ainda perceptíveis decorações do brasão de armas local. Após um percurso não linear junto às paredes da muralha, quase labiríntico, chegamos então à antiga praça de armas, o tal terreiro em obras. Ao centro, um poço correspondente à antiga cisterna permite ainda hoje aos habitastes retirar água. As suas poucas casas são brancas, com portas verdes, e com telhados ocres, como é da praxe alentejana.

As chaminés possuem um formato curioso, sendo altas e estreitas. Subimos às muralhas através de umas escadinhas que mais parecem propriedade privada. A muralha não está toda intacta, mas podemos caminhar sobre ela.

As vistas para a planície alentejana são soberbas. Daqui de cima uma tranquilidade imensa invade-nos. O antigo castelo era envolvido por um fosso a toda a volta, protegendo e isolando a então vila de Ouguela. Hoje Ouguela é apenas lugar, até o estatuto de freguesia perdeu, mas o seu isolamento dá-lhe um carácter especial.

Ao longo dos séculos o Castelo de Ouguela foi sofrendo alterações, por forma a adaptá-lo às exigências militares de cada época. O casario que chegou aos nossos dias data do século XVIII, incluindo a alvíssima Igreja de Nossa Senhora da Graça, interessante contraste com os tons da pedra da muralha.

Em 1840 a praça-forte de Ouguela foi desmilitarizada e desde aí, mais acentuadamente, vive num sono quase profundo, talvez triste para quem ainda ouve recordar os seus tempos áureos, mas mágico para quem a visita.

Vila Medieval de Ourém e Castelo

A Ourém dos nossos dias é a cidade que juntou a antiga vila medieval de Ourém à antiga Aldeia da Cruz (a qual, por sua vez, tinha dado origem à Vila Nova de Ourém).

Diz a lenda que o nome Ourém deve-se à moura cativa que ao converter-se ao cristianismo por amor a um cavaleiro português mudou o seu nome muçulmano Fátima para Oureana.

O Castelo de Ourém, também conhecido como os Paços do Conde de Ourém, é uma surpresa no cimo de um monte a 330 metros de altitude que se vai avistando e destacando desde ao longe na paisagem envolvente. É no cimo deste monte que fica a antiga vila medieval de Ourém, lugar ocupado desde a pré-história, tendo por lá passado os romanos, os visigodos e os muçulmanos. Até que em 1136 D. Afonso Henriques chegou e conquistou a então Abdegas aos mouros e começou por reconstruir a sua antiga fortificação. Os seus sucessores haveriam de dar forma ao burgo e castelo que hoje podemos conhecer.

A sua arquitectura é especial e singular. Mas o pequeno burgo medieval que o circunda, e que devemos percorrer até chegarmos ao topo do morro onde se encontra o castelo, confere um encanto ainda maior ao lugar.

Comecemos por aqui.

Uma estrada serpenteante desde a cidade de Ourém leva-nos até ao cimo da colina deixando-nos face à Porta da Vila, a norte, uma das duas entradas da vila medieval muralhada. Esta porta em arco rompe a muralha e faz-nos entrar no núcleo urbano onde deambulamos por um mundo de ruas estreitas de pedra e casinhas brancas. E com mais de uma mão cheia de pormenores que encantam.

Desde logo, a fonte em estilo gótico, datada de 1434, com o escudo de armas de D. Afonso, 4° Conde de Ourém (personagem incontornável e central no desenvolvimento deste burgo). O abastecimento de água à vila medieval era essencial e este é o primeiro elemento a ela ligado com que nos depararemos.

Aqui perto fico o Pelourinho em estilo barroco, mesmo em frente aos antigos Paços do Concelho, hoje Galeria Municipal. Seguimos, porém, em direcção à Igreja da Colegiada, logo nas costas da Porta da Vila.

A Igreja da Colegiada de Nossa Senhora da Misericórdia teve no seu lugar um templo inicialmente fundado por D. Afonso Henriques que no século XV foi remodelado por iniciativa de D. Afonso. O terramoto de 1755 trouxe a destruição quase total da igreja. No entanto, a cripta onde se encontra o túmulo de D. Afonso sobreviveu. No mais, a igreja foi reconstruída após o terramoto e hoje apresenta um estilo barroco.

O adro da Igreja da Colegiada tem um escala pequena, à semelhança da aldeia medieval. Ao seu redor encontramos um restaurante, uma pousada, uma praça onde se descobre uma janela manuelina e um excepcional miradouro que se abre numa paisagem imensa sobre os vales férteis onde se foram desenvolvendo diversas aldeias.

A existência de antigos edifícios públicos, como Igrejas, ermidas, casa paroquial, pelourinho, casa da cadeia, hospital, sinagoga e castelo atesta a importância que este núcleo medieval atingiu no século XV.

Abandonando o centro deste pequeno núcleo urbano continuamos em direcção à Porta de Santarém, a entrada sul, passando por diversas casas em ruína e campos de cultivo hoje abandonados. Após uma breve subida chegaremos ao Castelo. Ou seja, a antiga vila medieval estava estruturada de forma a que as suas duas entradas possuíssem dois pólos centrais: um religioso, com a Igreja, outro militar, com o Castelo.

O Castelo de Ourém enquanto conjunto não possui a arquitectura a que tipicamente estamos habituados a ver no nosso território nacional, sendo por isso inovador e original ao seu tempo. Construído entre 1450 e 1460, são três as suas estruturas principais: o castelo propriamente dito, o paço e as torres baluarte.

Vindos da Porta de Santarém é com as Torres Baluarte que nos deparamos em primeiro lugar. São duas elegantes torres defensivas que integravam a muralha da vila e são rematadas por balcões corridos que nos permitem vistas fantásticas. Ourém fica situada no centro de Portugal e aqui de cima não duvidamos da estratégia do lugar.

A telha e o tijolo nestas torres quebram a monotonia e o monocromatismo que nos habituámos a ver na maior parte dos castelos portugueses. E é precisamente esse detalhe de linha de tijolo quase rendilhado que encontramos também no corpo da então residência oficial de D. Afonso, o Paço dos Condes, também uma espécie de torre a toda a largura dos dois baluartes, mas atrás destes e por eles protegido. Homem culto e viajado, D Afonso foi o grande responsável pela pujança de Ourém na época medieval construiu este Paço inspirando-se numa arquitectura de gosto italiano e mudéjar, mesclando a estética militar com a palaciana.

O castelo, por sua vez também recuado em relação ao Paço, tem um formato triangular com três torres em cada um dos seus lados, alberga uma cisterna subterrânea (outra referência ao elemento água) e possui um estilo românico. Construído no século XII, uma das suas torres ficou conhecida como Torre D. Mécia, pois foi ali que a mulher de D. Sancho II foi mantida encarcerada por disputas com Castela.

O que mais impressiona, porém, é o Terreiro de Santiago que lhe serve de recepção. Um espaço enorme e totalmente aberto aos elementos – paisagem e vento, sobretudo – tem no centro a estátua de D. Nuno Álvares Pereira, 3° Conde de Ourém, que, conta-se, terá saído daqui para a Batalha de Aljubarrota.

Após o terramoto de 1755 todo o lugar – castelo e vila medieval – ficaram muito destruídos. Mais tarde sofreu ainda mais danos na sequência da ocupação pelas tropas de Napoleão. Tudo isso contribuiu para que os seus habitantes abandonassem a colina e se viessem a estabelecer na então Aldeia da Cruz, hoje cidade de Ourém.

Embora se observem algumas ruínas, a apreciação global de uma visita à vila medieval de Ourém só pode ser de contentamento. É um lugar surpreendente e com um ambiente sedutor. Muito compacto, apresenta inúmeros pontos que nos distrairão e nos remeterão para épocas idas. Que mais pedir de um passeio a um lugar histórico?