A Dragon Apparent

Norman Lewis foi um jornalista britânico que, entre outros, escreveu uns quantos livros de viagem acerca de diversas regiões do mundo.
Elogiado pelos seus pares durante a sua longa vida (morreu em 2003 com 95 anos) – Graham Greene considerou-o mesmo um dos escritores do século -, até à presente data dele li “A Dragon Apparent – Travels in Cambodia, Laos and Vietnam”, publicado em 1951, uma das suas primeiras obras.
Não tendo a pretensão de conhecer de lés a lés todos estes três países, o certo é que conheço alguma coisa de todos eles – e todos eles me fascinaram e fascinam – pelo que pensei ser uma boa escolha começar a leitura de Norman Lewis por aqui.
Aquele que preferia pensar em si como um homem semi-invisível com o propósito de revelar poucas descrições deixou-nos um relato muito belo e interessante, escrevendo sobre minorias étnicas e aldeias, cidades modernas e cidades antigas e, com não podia deixar de ser, sobre paisagens, numa época em que a Indochina colonial já se encontrava em guerra com os franceses, mas ainda antes da guerra com os americanos (Guerra do Vietname que se estenderia aos vizinhos Camboja e Laos).
Um bom documento histórico, em especial pela preocupação que demonstra com as tribos autóctones, é igualmente um cativante relato de um observador diligente que se preocupa em testemunhar o que vê e vive para conosco partilhar.
Não obstante as referidas guerras que desde a sua visita assolaram a região, o mais fantástico é constatar que conseguimos encontrar ainda hoje no que foi a designada Indochina elementos e vivências semelhantes àquelas que nos são reveladas por Norman Lewis. Não querendo recorrer aos clichés da Indochina eterna ou pura, a verdade é que, sobretudo no Laos, consegue-se atingir um estado de uma comunhão quase perfeita com uma realidade que no nosso mundo sabemos difícil de existir já. Comunhão plena com gentes e cenários. O Mekong mítico, os monges de açafrão imaginários.
Ao ler A Dragon Apparent parece que aqui e ali o mundo (na Indochina) parou e é hoje igual ao que era há 60 anos. Os textos sobre Angkor lio-os como se quem os tivesse escrito fosse o meu companheiro de viagem de 2008. Do Laos, aos primeiros adjectivos para descrever a montanha de rocha sublime, logo vi que era a Vang Vieng de 2013.
Certo, concedo. Estes são lugares perdidos no tempo e no espaço, não mudarão muito ao longo das décadas que se seguirão. Mas que dizer então de Saigão, a cidade a caminho de se tornar metrópole? Um exemplo:
“Era claro desde o primeiro momento em que me pus a caminho por estas abarrotadas, tórridas ruas que as vidas das pessoas do Extremo Oriente eram vividas em público. A rua é uma extensão da casa e não há uma linha divisória forte entre as duas. Ao amanhecer, no caso de Saigão, à hora em que o toque de recolher é levantado, as pessoas rolam da cama e fazem-se ao pavimento, onde há mais espaço, para efectuarem a maior parte da sua toalete. Depois, elas comem, jogam às cartas, dormitam, lavam-se, têm os seus dentes observados, são massajados por médicos, visitam adivinhos; tudo na rua. Não há nenhum do desejo de privacidade que é tão forte na Europa.”
Ainda de Saigão, o autor refere o seu encantamento pelas elegantes meninas a andar de bicicleta, vestidas com os característicos robes brancos. “Criaturas etéreas”, chama-lhes. Pelo menos em Hué, ainda hoje é possível observar esse postal.
E, para o final, um excerto que me parece igualmente actual como síntese do que era e é ainda a imaginada Indochina:
“Havia um rápido, silenciosamente um turbilhão de tráfego nas ruas de rickshaws misturados com bicicletas; um autocarro, varrendo de uma rua lateral por entre a torrente principal, apanhou um ciclista e atirou-o fora e esmagou a sua máquina. Ambos o condutor do autocarro e o ciclista eram chineses ou vietnamitas, e o condutor do autocarro, saltando para baixo desde o seu lugar, correu a felicitar o ciclista pela sua sorte em ter escapado. Ambos estavam encantados e o ciclista partiu carregando os destroços da sua máquina e ainda sorrindo largamente.”
Conclui Norman Lewis acerca deste episódio: “Nenhum outro incidente nas minhas viagens pela Indo-China mostra mais claramente a diferença fundamental para com a vida e sorte do Oriente e do Ocidente.”

Música Lao ou Thai, precisa-se

Gosto de música. Não preciso sequer de entender aquilo que se está a cantar. Encantam-me as melodias.
Daí que desde que estive no Camboja tenha ficado com um certo tipo de música na cabeça. Por sorte descobri um grupo que me acompanha até hoje: os Dengue Fever.
No Laos a mesma coisa. Passava por um sítio qualquer e lá estava aquele género de cantar enrolado, num idioma totalmente estranho, mas agradável aos meus ouvidos.
É muito bonito quando se viaja para outros países dizer que se faz amigos, que se estabelece contactos com os seus cidadãos, que se integra na cultura local. Eu até tento, como no Laos, mas por vezes isso é impossível.
Ora vejamos.
Chegada ao Parque Buda, arredores de Vientiane, uma banquinha que vendia sumos tinha um som a tocar. Aquela sonoridade que me persegue nos meus melhores sonhos. Com gestos – não falo laosiano, o rapaz não falava senão laosiano – a apontar para os ouvidos e para o rádio e fazendo o símbolo (ocidental) da pergunta, tentava chegar a uma conclusão do que estava a tocar. Nada.
Até que chegou a minha grande oportunidade, a que não iria deixar de me trazer os frutos que tanto desejava. O condutor do tuc tuc de Pakse falava um bom inglês, era jovem e gostava de música. Reunidas as condições de uma perfeita comunhão com o cidadão e cultura local, passo-lhe para a mão um papel e uma caneta para que me escreva alguns grupos e cantores que deva ouvir. Calmamente, aguardo que o moço pense e me faça uma, senão excelente, pelo menos boa colecção musical de canções do Laos e da Tailândia. Qual não é o meu espanto quando vejo que tudo está escrito no alfabeto deles. Pois é, o rapaz falava inglês, mas não sabia escrever no nosso alfabeto.
Não me resta senão descobrir por mim a música do sueste asiático que toca na minha cabeça.

Jantar Por Uma Causa

Uma das experiências mais enriquecedoras da nossa viagem pelo Vietname e pelo Camboja foi a possibilidade de chegar ao conhecimento da existência de uma realidade de que nunca tínhamos ouvido falar. Estávamos, obviamente, cientes das dificuldades nestes dois países, nomeadamente das suas populações poderem atingir um presente e um futuro melhores.
E existe quem se preocupe verdadeiramente com isso e coloque mãos à obra para tentar dar um novo rumo às vidas dos jovens nestes países.
O que ficámos a conhecer foi uma das formas para atingir esse objectivo: o projecto “jantar por uma causa”.
Em Hanoi com o restaurante KOTO (“know one, teach one”), em Phnom Penh com o restaurante Friends (“a non-profit restaurant run by former street youths in training”).
O programa que está muito para além destes dois restaurantes é o de pegar num grupo de jovens de rua carenciados e dar-lhes um ofício, educando-os e ensinando-os, com isso ajudando também as suas famílias e comunidades onde estão inseridos. A nós apenas nos é pedido que façamos a nossa refeição nos seus restaurantes (ainda por cima com um ambiente e decoração agradáveis e uma comida muito bem confeccionada) e que com isso possamos contribuir para esta causa.
Uma ideia simples que muda muitas vidas.

Os links
http://koto.com.au/
http://www.streetfriends.org/index.html

A Nossa Ingenuidade

Sou fácil de convencer. Muito fácil, mesmo. Daquelas capazes de comprar um tareco horroroso, ao qual não saberá o destino a dar, só porque se deixou enredar na conversa de uma criancinha aparentemente desamparada.
Desta vez, porém, não cheguei a comprar nada.
Mas fiquei uma vez mais tocada com a minha imensa ingenuidade. Ops, a ingenuidade não devia ser das criancinhas cambojanas ou vietnamitas?

Primeira história:
A visita às aldeias flutuantes de Chong Khneas, perto do complexo arqueológico de Angkor, cuja visita, não obstante todo o seu interesse, serve também para desenjoar de tantos templos, tem como custo de “entrada” 15 USD por pessoa, quase tanto como os 20 USD que se paga por um dia todinho em Angkor. Depois do pagamento num estabelecimento com algum ar de oficial, somos metidas num barco com um miúdo guia. O que nos tocou era bem simpático, bem novinho também, falava bem inglês, fazia parte dos cambojanos que vivem a flutuar, tinha curiosidade em saber como vivíamos, ou seja, um excelente ponto de partida para tentarmos entender as vidas das pessoas que habitam no sítio que estávamos a visitar. Na volta da ida até ao lago Tonle Sap, para onde os flutuantes vão quando as águas baixam e deixa de ser possível manter as casas, mercados, oficinas, escolas, igrejas, centros de saúde e quantos mais equipamentos necessários a uma comunidade que possamos imaginar, na volta da nossa proveitosa excursão o dito miúdo pergunta-nos se queremos conhecer a escola por dentro e se estávamos dispostas a colaborar com a oferta de cadernos para os carenciados alunos (aqui deixa-se de ir à escola por não se ter dinheiro para comprar cadernos ou para comprar roupa que vestir). Óbvio que aceitamos. Óbvio também que engolimos em seco quando nos pediram 15 USD por um maço de cadernos. Talvez não tão óbvio que tivéssemos delicadamente recusado dar algum dinheiro para ajudar o “professor” que compunha a sala de aulas para a fotografia na visita dos turistas. Mas houve ainda uma recaída quando o bem simpático e competente mini-guia insinuou que lhe déssemos alguma gorjeta para ele e para o seu companheiro mini-marinheiro que nesse dia guiava o barco do pai. Provavelmente dei a maior gorjeta da minha vida: 5 USD. Mais provavelmente ainda, terei tido o maior arrependimento da minha vida no que a gorjetas diz respeito depois de ver o rosto de “só isto que tens para me dar” do puto.

Segunda história:
Umas pequenitas vietnamitas junto a um dos mausoléus de Hué chegaram contentes da vida perto das turistas pedindo umas moedinhas da nossa terra. Achando piada à vertente coleccionadora das miúdas – tão pura que é a tuguita –, logo tirei as moedas mais baixas que tinha, o que calhou ser a de 2 cêntimos, 5 cêntimos e 20 cêntimos. Ui! Que cara de desoladas! Logo pediram um euro – já não era a moeda da nossa terra; logo reconheceram que era o euro que tinham que receber, das moedas brancas e não das escurinhas.
Esta foi só rir.

Terceira história:
Esta, mais típica, é a dos condutores dos cyclos ou dos moto-bike, a versão riquexo vietnamita. A regra é acertar o preço antes de nos sentarmos na cadeirinha. A excepção é que o preço a pagar no final corresponda ao acertado no inicio. Há sempre uma desculpa. Seja porque afinal o preço era por pessoa e não por viagem, ou porque o destino é “quiet far” ou porque – esta é deliciosa – está muito calor e o “driver” precisa de uma bebida. Enfim tudo desculpas muito válidas, porque para além de não se notar nada logo à partida que somos duas, até nem dizemos para onde queremos ir e calor é coisa que não bate no sudeste asiático.
Para compor o ramalhete falta dizer que os artolas dos condutores nunca têm troco, logo… já caíste.

Mais Além

Um pouco mais afastados da zona central de Angkor (a cerca de 32km) – numa demorada viagem de tuc tuc que nos transporta pelo Camboja profundo, de plantações de arrozais, casas assentes em pilares, miúdos a nadar nas poças de água, búfalos passeando entre as gentes – ficam Banteay Srei e Kbal Spean.

Banteay Srei é provavelmente o mais lindo e adorável templo de Angkor, considerado a jóia da coroa da sua arte. Dedicado a Shiva, divindade hindu, é também designado como a “Cidadela das Mulheres”. O arenito na sua construção toma tonalidades rosa e na pedra encontramos talhados pormenores decorativos muito bem trabalhados, delicados e encantadores. Apesar das figuras dos guardiões (ou por isso mesmo…), não foi à toa que em 1923 Andre Malraux, que viria a ser ministro da cultura francês foi apanhado e preso por tentar “guardar” umas quantas estátuas e esculturas deste templo.

Kbal Spean, não muito longe do templo acima, é completamente diferente de tudo aquilo que nos foi dado a ver em Angkor. Também no meio da selva, este sitio conhecido como “River of a Thousand Lingas” proporciona-nos uma agradável caminhada de cerca de 1,5km até chegarmos ao leito do rio, onde encontramos esculpidas nas suas rochas imagens de divindades hindus.

Verdadeiramente surpreendente este aproveitamento da natureza, num local que até há bem pouco tempo era considerado muito perigoso pelas minas terrestres que por aqui estavam espalhadas. Felizmente agora a zona está limpa e quem quiser pode até aventurar-se numa refrescante banhoca por baixo da cascata.

Uns Quantos Templos Mais

Como umas criancinhas bem formatadas, papamos a sopinha toda e fizemos os trabalhos de casa todos. Quer isto dizer, entrámos e conhecemos todos os templos a que tivemos direito na nossa estadia de 3 dias inteirinhos nas imediações de Angkor.
Uns tem o poder de despertar mais a nossa paixão do que outros, mas todos eles são interessantíssimos e cativantes na sua arquitectura, com pormenores delicados que nem a escura pedra característica de Angkor é capaz de afastar.
Ainda no perímetro das grandes atracões de Angkor ficam os templos de Ta Phrom, Preah Khan, Neak Pean e Phnom Bakheng, uns dos que entre tantos outros nos seduziram.


Phnom Bakheng é um templo pirâmide construído num monte natural, lá bem no alto. É o local em Angkor para se chegar antes do sol se pôr, com uma vista fabulosa da imensa selva que nos rodeia, com o Tonle Sap do outro lado. Sobe-se a bem subir mais de um km, e há quem o faça de elefante, e a descida é feita sem qualquer luz, com cuidado para ver onde assentamos os pés e para não esbarrarmos na multidão que teve a mesma ideia do que nós.

Mas, incrivelmente, depois de nova multidão a ver nascer o sol em Angkor Wat, ainda é possível encontrar-se templos vazios por aqui. Está bem que a hora da manhã (cerca de 7:30) e o tempo que fazia (chuva intensa) não convidavam a muitos passeios. Mas não estávamos lá todos para o mesmo?
Assim, por sorte conseguimos ter Preah Khan e Preah Neak Pean só para nós.


Neak Pean é um dos mais idílicos locais de Angkor, um pequeno templo numa ilhota no meio do que era a piscina dos reis.

Preah Khan é um templo imenso, um dos maiores de Angkor, cujo significado literal é “espada sagrada”. Aventurámo-nos completamente sozinhas atravessando as várias divisões deste antigo mosteiro, de pátio em pátio, testemunhas únicas num ambiente misterioso no meio da selva.

Ta Phrom é um dos mais carismáticos templos de Angkor, o tal que foi lugar das filmagens de Tomb Raider. À semelhança de Preah Khan, também teve como função original ter servido de mosteiro. As suas arquitecturas são também parecidas. E também nos dois templos as árvores têm mostrado as suas garras, na forma de raízes devoradoras, destruindo muito das suas estruturas. Mas, ao contrário de Preah Khan, o Ta Phrom foi deixado propositadamente à acção da natureza e, assim, foi deixado intocado pelos arqueólogos que mais não fizeram aqui do que recuperar umas passagens para que os visitantes caminhem em maior segurança.
Como alguém escreveu em tempos “o seu estado de ruína é um estado de beleza”. E o mistério aqui volta a sentir-se, ainda que com muito mais gente como testemunha.
Os seus corredores estreitos desembocam em pátios e mais pátios à medida que nos vamos perdendo, tentando identificar esta e mais aquela árvore de raízes devoradoras que havíamos visto na fotografia de um qualquer livro. Mas em Ta Phrom estas situações são mais do que muitas, raízes como nunca viramos ou imagináramos existir, aterradoras mesmo.

Bayon

O templo de Bayon é um dos favoritos dos viajantes.
A francesa que viajava connosco pelo Mekong já tinha nos tinha dado o seu veredicto “este é o tal”, daí que as expectativas fossem imensas.
E, de facto, ao lado da imponência de Angkor Wat, da delicadeza de Banteay Srei e da luxúria da selva que invade Ta Phrom, o mistério das faces de Bayon ficará para sempre gravado na nossa memória.

Este templo é um dos mais enigmáticos de Angkor.
O seu simbolismo e forma original ainda hoje estão para ser entendidos. Nem mesmo quanto às faces – 4 – que decoram cada uma das 54 torres do templo existe consenso. Há quem defenda que estes rostos representam o Bodhisattva Avalokiteshvara, ligando-o ao carácter budista do templo, e há quem defenda que estes rostos não são mais do que a representação da imagem do rei Jayarvarman VII, ligando-o à omnipresença do rei.

Certa parece ser a evidência de que o templo pretende exprimir a ligação simbólica entre o céu e a terra. E aqui é fácil deixarmos a nossa mente desprender-se do nosso corpo, tanta é a harmonia presente no templo, com a obra-prima (mais uma) que são os baixos-relevos que retratam cenas do dia a dia, mas também – e sobretudo – pela expressividade dos rostos com lábios e olhos poderosos, num total de 216, que teimam em perseguir-nos.
É o simbólico “sorriso de Angkor”.

Angkor Thom

Angkor Thom está localizada a 1700 metros de Angkor Wat e foi mandada construir por Jayavarman VII entre os finais do século XII e princípios do século XIII. Esta cidade fortificada, a “grande cidade”, maior do que qualquer outra cidade europeia do seu tempo, foi a última capital do império Khmer e ergueu-se sob a inspiração budista.

Legou-nos edifícios fantásticos como Bayon, Baphuon, Phimeanakas, Preah Palilay, e espaços formosíssimos como os Terraços dos Elefantes ou do Rei Leproso.



Igualmente de uma inspiração tocante são as 5 portas que nos dão acesso à cidade de Angkor Thom. A Porta Victoria mais 4 portas, cada uma delas orientada para um dos pontos cardeais. A caminho destas portas temos uma passagem sobre o fosso de água – que mais parece um lado idílico – com exactamente 54 figuras de cada lado – 54 deuses à esquerda, 54 demónios à direita. Quase todas as cabeças destas figuras são cópias, já que os originais ou foram roubados ou depositados em lugar seguro. Não perde o encanto por isso, todavia.
Em cada uma das entradas existe uma torre com cerca de 23 metros. Estas “gopuras” são encimadas por uma outra figura com 4 faces (novamente uma por cada ponto cardeal) – um dos outros símbolos mais famosos de Angkor.


Escolhemos entrar pela porta sul, talvez a mais interessante e melhor conservada, a utilizada pela esmagadora maioria das pessoas e não só.


Uns metros mais à frente damos de caras – literalmente – com Bayon. Este é um dos templos favoritos de qualquer visitante e concorre com Angkor Wat pelo primeiro posto nesta disputa. Por ser ainda mais especial, terá destaque exclusivo no próximo post.

Apesar de ter sido construído em finais do século XII, em Angkor Thom existiam outras 2 estruturas anteriores que receberam influência hindu: Baphuon e Phimeanakas.


Baphuon restou praticamente destruído e tem sido objecto de demorados trabalhos de restauro ao longo dos anos que ainda perduram. O seu edifício é uma representação do Monte Meru em forma de pirâmide, um imenso templo cujo acesso principal é feito sobre uma ponte com uma avenida de cerca de 200 metros.


Phimeanakas, dentro do recinto do que foi o Palácio Real, de que hoje pouco resta para além da imaginação do que terá sido, é mais uma representação do Monte Meru. São degraus e mais degraus até se atingir topo do templo onde o Rei fazia o seu culto.


Um pouco mais adiante, chegamos a Preah Palilay, um templo budista considerado um dos mais serenos de Angkor. Pela primeira vez na nossa visita fomos testemunhas do impressionante poder da natureza na floresta de Angkor, designadamente das raízes das suas árvores.


Voltando para a zona central de Angkor Thom, na estrada principal, encontramos os encantadores Terraço do Rei Leproso e Terraço dos Elefantes, com figuras muitíssimo bem trabalhadas cravadas na pedra.

Do lado oposto aos terraços – e de frente para eles – ficam os Kleangs, 12 torres autenticamente dentro da selva (alguns só foram limpos há poucos anos), que uns crêem ter servido de armazéns e outros de salas de recepção de dignitários estrangeiros.

Uma sombra por aqui é praticamente encarada como um oásis. Não que seja rara, mas porque é sempre bem-vinda para escapar ao inclemente calor e humidade que nos faz ver a roupa colada ao corpo enquanto suamos sem parar. Mais um desafio, enfim, no meio de tanta ensaboadela cultural e artística.

Angkor Wat

Angkor Wat é o mais famoso postal do Camboja.
O mais fotografado, porque o mais impressionante, o maior, o mais elaborado, o mais belo, equilibrado e simétrico, o mais bem conservado. A jóia da coroa da arte Khmer, em resumo. Para o descrever superlativos não são suficientes. Já se sabe. Está dado como adquirido.
Mas… Existe sempre um mas. Quem lá vai deixa-se impressionar, é claro. Mas na hora de escolher o templo que mais nos marca, nem sempre Angkor Wat é o tal. Ou, pelo menos, não nos conseguimos deixar de esquecer de Bayon, Banteay Srei ou Ta Phrom.

Mas voltemos a Angkor Wat.
Construído entre 1113 e 1150, em honra de Vishnu, divindade hindu, quando a capital do império se mudou para Phnom Penh ficou entregue aos monges budistas. Foi o único templo no meio da floresta que cerca Angkor a nunca ter sido abandonado e ter sido objecto de peregrinação desde sempre. Tendo em conta a sua orientação para oeste, simbolicamente a direcção da morte, há quem defenda que a sua função original seria a de mausoléu. Certo é que é considerado o maior edifício religioso do mundo.

E a aproximação ao templo é, como não podia deixar de ser, feita em grande. Como antecâmara das suas torres de entrada temos uma ponte de pedra de 250 metros sobre elevada a um fosso de água que cerca todo o terreno do templo, na totalidade de aproximadamente uns nada modestos 210 hectares.
Depois desta “pré-entrada”, segue-se uma verdadeira avenida de 500 metros através da qual vamos caminhando passo a passo rumo à monumentalidade e perfeição absolutas. Mais uma vez o mítico Monte Meru serviu como inspiração. As 5 elegantes torres lá estão, prontinhas a serem devoradas pelos nossos sentidos. Ao amanhecer, à tarde, à noite.

Lá dentro, enquanto descobrimos os vários patamares do templo, carregadinhos de inacreditáveis baixos-relevos profusamente decorados no primeiro piso, a magia vence-nos definitivamente. Estes baixos-relevos relatam episódios de temas de épicos indianos, de livros sagrados ou de batalhas históricas. Impressionante o trabalho das mãos que cravaram na pedra imagens tão delicadas. E impressionante esta arte ter chegado tão bem conservada ao nosso tempo (graças também, claro, às modernas técnicas de restauro).

Como se não bastasse toda esta magnificência arquitectónica e artística, acompanhada à altura pela mãe natureza, o que confere ao espaço um misticismo especial, no imenso verde relvado que dá as boas vindas ao edifício principal do templo existem umas bacias de água que tornam ainda mais idílico o ambiente.

São mais umas horas e horas a procurar o melhor ângulo de fotografia, enquanto o motorista do tuc-tuc nos espera à entrada, junto da confusão de vendedores mirins que nos tentam impingir de tudo um pouco.
O diálogo não muda grande coisa:
«Buy something?Maybe later?
If you buy, you buy me.
Lulu, remember me, blue shirt.»
Esta é toda uma arte à parte. As crianças levam isto mesmo a sério. Quem vê primeiro um possível cliente parece achar-se no direito a ser o seu vendedor exclusivo. A mana foi chamada de “bad woman” só por na volta ter comprado uma garrafa de água a uma miúda diferente daquela que – pelos vistos – na chegada a tinha abordado.
E às portas de Angkor Wat o movimento e a concorrência dos vendedores são os mais ferozes. Seja qual for a hora do dia. Há que não esquecer que se este é o templo de todos os “mais”, neste se inclui também o de mais visitado.