Bayon

O templo de Bayon é um dos favoritos dos viajantes.
A francesa que viajava connosco pelo Mekong já tinha nos tinha dado o seu veredicto “este é o tal”, daí que as expectativas fossem imensas.
E, de facto, ao lado da imponência de Angkor Wat, da delicadeza de Banteay Srei e da luxúria da selva que invade Ta Phrom, o mistério das faces de Bayon ficará para sempre gravado na nossa memória.

Este templo é um dos mais enigmáticos de Angkor.
O seu simbolismo e forma original ainda hoje estão para ser entendidos. Nem mesmo quanto às faces – 4 – que decoram cada uma das 54 torres do templo existe consenso. Há quem defenda que estes rostos representam o Bodhisattva Avalokiteshvara, ligando-o ao carácter budista do templo, e há quem defenda que estes rostos não são mais do que a representação da imagem do rei Jayarvarman VII, ligando-o à omnipresença do rei.

Certa parece ser a evidência de que o templo pretende exprimir a ligação simbólica entre o céu e a terra. E aqui é fácil deixarmos a nossa mente desprender-se do nosso corpo, tanta é a harmonia presente no templo, com a obra-prima (mais uma) que são os baixos-relevos que retratam cenas do dia a dia, mas também – e sobretudo – pela expressividade dos rostos com lábios e olhos poderosos, num total de 216, que teimam em perseguir-nos.
É o simbólico “sorriso de Angkor”.

Angkor Thom

Angkor Thom está localizada a 1700 metros de Angkor Wat e foi mandada construir por Jayavarman VII entre os finais do século XII e princípios do século XIII. Esta cidade fortificada, a “grande cidade”, maior do que qualquer outra cidade europeia do seu tempo, foi a última capital do império Khmer e ergueu-se sob a inspiração budista.

Legou-nos edifícios fantásticos como Bayon, Baphuon, Phimeanakas, Preah Palilay, e espaços formosíssimos como os Terraços dos Elefantes ou do Rei Leproso.



Igualmente de uma inspiração tocante são as 5 portas que nos dão acesso à cidade de Angkor Thom. A Porta Victoria mais 4 portas, cada uma delas orientada para um dos pontos cardeais. A caminho destas portas temos uma passagem sobre o fosso de água – que mais parece um lado idílico – com exactamente 54 figuras de cada lado – 54 deuses à esquerda, 54 demónios à direita. Quase todas as cabeças destas figuras são cópias, já que os originais ou foram roubados ou depositados em lugar seguro. Não perde o encanto por isso, todavia.
Em cada uma das entradas existe uma torre com cerca de 23 metros. Estas “gopuras” são encimadas por uma outra figura com 4 faces (novamente uma por cada ponto cardeal) – um dos outros símbolos mais famosos de Angkor.


Escolhemos entrar pela porta sul, talvez a mais interessante e melhor conservada, a utilizada pela esmagadora maioria das pessoas e não só.


Uns metros mais à frente damos de caras – literalmente – com Bayon. Este é um dos templos favoritos de qualquer visitante e concorre com Angkor Wat pelo primeiro posto nesta disputa. Por ser ainda mais especial, terá destaque exclusivo no próximo post.

Apesar de ter sido construído em finais do século XII, em Angkor Thom existiam outras 2 estruturas anteriores que receberam influência hindu: Baphuon e Phimeanakas.


Baphuon restou praticamente destruído e tem sido objecto de demorados trabalhos de restauro ao longo dos anos que ainda perduram. O seu edifício é uma representação do Monte Meru em forma de pirâmide, um imenso templo cujo acesso principal é feito sobre uma ponte com uma avenida de cerca de 200 metros.


Phimeanakas, dentro do recinto do que foi o Palácio Real, de que hoje pouco resta para além da imaginação do que terá sido, é mais uma representação do Monte Meru. São degraus e mais degraus até se atingir topo do templo onde o Rei fazia o seu culto.


Um pouco mais adiante, chegamos a Preah Palilay, um templo budista considerado um dos mais serenos de Angkor. Pela primeira vez na nossa visita fomos testemunhas do impressionante poder da natureza na floresta de Angkor, designadamente das raízes das suas árvores.


Voltando para a zona central de Angkor Thom, na estrada principal, encontramos os encantadores Terraço do Rei Leproso e Terraço dos Elefantes, com figuras muitíssimo bem trabalhadas cravadas na pedra.

Do lado oposto aos terraços – e de frente para eles – ficam os Kleangs, 12 torres autenticamente dentro da selva (alguns só foram limpos há poucos anos), que uns crêem ter servido de armazéns e outros de salas de recepção de dignitários estrangeiros.

Uma sombra por aqui é praticamente encarada como um oásis. Não que seja rara, mas porque é sempre bem-vinda para escapar ao inclemente calor e humidade que nos faz ver a roupa colada ao corpo enquanto suamos sem parar. Mais um desafio, enfim, no meio de tanta ensaboadela cultural e artística.

Angkor Wat

Angkor Wat é o mais famoso postal do Camboja.
O mais fotografado, porque o mais impressionante, o maior, o mais elaborado, o mais belo, equilibrado e simétrico, o mais bem conservado. A jóia da coroa da arte Khmer, em resumo. Para o descrever superlativos não são suficientes. Já se sabe. Está dado como adquirido.
Mas… Existe sempre um mas. Quem lá vai deixa-se impressionar, é claro. Mas na hora de escolher o templo que mais nos marca, nem sempre Angkor Wat é o tal. Ou, pelo menos, não nos conseguimos deixar de esquecer de Bayon, Banteay Srei ou Ta Phrom.

Mas voltemos a Angkor Wat.
Construído entre 1113 e 1150, em honra de Vishnu, divindade hindu, quando a capital do império se mudou para Phnom Penh ficou entregue aos monges budistas. Foi o único templo no meio da floresta que cerca Angkor a nunca ter sido abandonado e ter sido objecto de peregrinação desde sempre. Tendo em conta a sua orientação para oeste, simbolicamente a direcção da morte, há quem defenda que a sua função original seria a de mausoléu. Certo é que é considerado o maior edifício religioso do mundo.

E a aproximação ao templo é, como não podia deixar de ser, feita em grande. Como antecâmara das suas torres de entrada temos uma ponte de pedra de 250 metros sobre elevada a um fosso de água que cerca todo o terreno do templo, na totalidade de aproximadamente uns nada modestos 210 hectares.
Depois desta “pré-entrada”, segue-se uma verdadeira avenida de 500 metros através da qual vamos caminhando passo a passo rumo à monumentalidade e perfeição absolutas. Mais uma vez o mítico Monte Meru serviu como inspiração. As 5 elegantes torres lá estão, prontinhas a serem devoradas pelos nossos sentidos. Ao amanhecer, à tarde, à noite.

Lá dentro, enquanto descobrimos os vários patamares do templo, carregadinhos de inacreditáveis baixos-relevos profusamente decorados no primeiro piso, a magia vence-nos definitivamente. Estes baixos-relevos relatam episódios de temas de épicos indianos, de livros sagrados ou de batalhas históricas. Impressionante o trabalho das mãos que cravaram na pedra imagens tão delicadas. E impressionante esta arte ter chegado tão bem conservada ao nosso tempo (graças também, claro, às modernas técnicas de restauro).

Como se não bastasse toda esta magnificência arquitectónica e artística, acompanhada à altura pela mãe natureza, o que confere ao espaço um misticismo especial, no imenso verde relvado que dá as boas vindas ao edifício principal do templo existem umas bacias de água que tornam ainda mais idílico o ambiente.

São mais umas horas e horas a procurar o melhor ângulo de fotografia, enquanto o motorista do tuc-tuc nos espera à entrada, junto da confusão de vendedores mirins que nos tentam impingir de tudo um pouco.
O diálogo não muda grande coisa:
«Buy something?Maybe later?
If you buy, you buy me.
Lulu, remember me, blue shirt.»
Esta é toda uma arte à parte. As crianças levam isto mesmo a sério. Quem vê primeiro um possível cliente parece achar-se no direito a ser o seu vendedor exclusivo. A mana foi chamada de “bad woman” só por na volta ter comprado uma garrafa de água a uma miúda diferente daquela que – pelos vistos – na chegada a tinha abordado.
E às portas de Angkor Wat o movimento e a concorrência dos vendedores são os mais ferozes. Seja qual for a hora do dia. Há que não esquecer que se este é o templo de todos os “mais”, neste se inclui também o de mais visitado.

Finalmente, Angkor

E para o fim deste encadeamento de posts fica aquele que provavelmente terá sido o ponto mais esperado desta nossa ida ao oriente – o Parque Arqueológico de Angkor.
Angkor é tudo para o Cambodja. Mais do que um monumento, é toda uma herança, um símbolo, um orgulho, com direito a representação da sua imagem na bandeira oficial do país.
A base para se explorar os templos de Angkor dificilmente poderá deixar de ser Siem Reap, cidade sem muito apelo a não ser a sua localização a cerca de 6 km de Angkor Wat e o interessante significado do seu nome – “derrota do Sião” – em homenagem aos vizinhos rivais que tanto domínio foram exercendo em terras Khmer ao longo dos séculos. Para além disto, e para quem gosta (e eu não gosto), a cidade tem uma animada vida nocturna, cheia de restaurantes e bares da moda que poderiam estar de portas abertas em qualquer lugar cosmopolita do mundo.
A expectativa da visita a Angkor era muita, como já disse. Pensava que iria ficar deslumbrada – e fiquei –, mas pensava também que iria ficar farta de ver tanta pedra – e não fiquei.
E nem sequer imaginava que poderiam existir assim tantos templos (ou seja, pedras) para serem visitados.
É tudo muito mais do que apenas a imagem mais famosa de Angkor Wat.
São cerca de 200 km2 de monumentos prontinhos a ser visitados (alguns deles extraordinariamente bem conservados).

O império Khmer ia da Burma ao Vietname e chegou a ter 1 milhão de habitantes.
Angkor, a “cidade sagrada”, capital do império Khmer, é uma mescla da espiritualidade com a criatividade. Os poderosos reis fizeram por colocar em prática a sua megalomania artística para a dedicar às suas divindades preferidas. Sempre sob a influência indiana e, nomeadamente, de duas das suas religiões, primeiro a hindu, mais tarde a budista e, muitas das vezes, as duas ao mesmo tempo. Outras das inspirações Khmers foram os épicos hindus Ramayana e Mahabharata – excelentemente representados nos baixos-relevos de alguns templos e incrivelmente bem conservados até hoje.

Mais um pouco de história, então.
O período que se designa por angkoriano vai do ano 802 ao ano 1432. Jayavarman II, o primeiro rei e fundador de Angkor, começou a expansão do império Khmer depois de o ter unificado. Desde aí iniciou-se a construção dos vários templos dedicados às divindades, com Shiva e o seu lugar sagrado – o Monte Meru – à cabeça. Daí que muitos dos templos simbolizem representações desta mítica montanha. A ideia da arquitectura Khmer baseava-se, assim, no templo montanha, de preferência construído numa montanha verdadeira.
Outro dos aspectos que se verificaram desde logo e que perduraram foi a magnifica simetria dos elementos. Para além do equilíbrio, a elegância das construções era – e é – evidente.
Em 1177 os Chams saquearam Angkor, mas Jayavarman VII conseguiu dar a volta à situação e reergueu o império, desatando a construir mais e mais templos. Assim, a Angkor Wat acrescentou uma nova cidade, Angkor Thom, cercada por muros e um fosso de água, legando-nos monumentos fantásticos e misteriosos como Bayon, Ta Phrom, Banteay Kdei e Preah Kahn. E para além das divindades hindus adoptou o Mahayana Budismo, religião esta que já era seguida pelo povo. Com a sua morte em 1219 o império começou a entrar em decadência e voltou-se ao hindu como religião do estado.

Em 1351 os Thais saquearam Angkor e os Khmers saíram para Phnom Penh – a actual capital do reino do Camboja. Deixaram, assim, Angkor para os peregrinos e, principalmente, para a selva. Apenas Angkor Wat seguiu sendo utilizado como um mosteiro budista.
Angkor só voltou a ser “descoberta” por volta de 1860 pelos franceses. Nessa sequência o explorador Henri Mouhot escreveu um livro sobre a mítica Angkor que cativou o mundo. No entanto, antes, no século XVI já os portugueses – sempre os mesmos intrometidos – se haviam referido a esta cidade como a “cidade murada” e são tidos como os primeiros europeus a terem visto Angkor.Começaram então os trabalhos de restauro, com técnicas cada vez mais desenvolvidas e muita cooperação externa durante todo o século XX, os quais viriam a ser interrompidos pela acção trágica (para o país e o mundo) do Khmer Vermelho.
A partir dos anos 90 o sítio arqueológico voltou a ficar acessível para todo o mundo e com cada vez mais monumentos a estarem disponíveis à visita das multidões de turistas que aqui acorrem em cada vez maior número à medida que os anos vão passando. Encontram-se ainda alguns avisos de perigo de minas nos monumentos mais distantes do centro de Angkor, mas se nos mantermos no trilho tudo correrá pelo melhor.

E nem o escada a cima, escada abaixo sob o calor abrasivo nos faz delirar e rejeitar as pedras. Ou melhor, delírios só no bom sentido. É possível ficarmos quase um mês (houvesse férias para tal) a ver, observar e sentir os inúmeros e variados templos a cada hora do dia, aproveitando as muitas maravilhas que as diferenças de tonalidade de luz nos presenteiam.
Mas não. Ficámo-nos por 3 dias praticamente inteirinhos, com direito a nascer e por do sol (com as nuvens a atrapalhar aquele que tinha tudo para ser o momento mais inesquecível das nossas vidas – assim ficou apenas um dos) nesta autêntica cidade de edifícios, terraços, portas monumentais, avenidas e lagos, à qual nem sequer faltava um desenvolvido sistema hidráulico de reservatórios e canais destinados à agricultura.

Uma cidade que permaneceu protegida pela floresta e que hoje vê a floresta como uma das suas inimigas.
No fundo, “quod me nutrit me destruit” (o que me alimenta, destrói-me), nada mais, nada menos do que uma das frases que Angelina Jolie carrega numa tatuagem no seu corpo. Ops, a previsibilidade a atacar. Não consegui escrever um post sobre Angkor / Camboja sem falar de Angelina Jolie, provavelmente a star que mais terá contribuído para os colocar no mapa do imaginário popular depois do templo de Ta Phrom ter servido de cenário para Tomb Raider.

Palácio Real e Pagode de Prata

O complexo que compreende o Palácio Real e o Pagode de Prata, situado do outro lado da rua que passa junto ao rio em Phnom Penh, é um daqueles pedaços de arquitectura que deslumbram qualquer viajante não oriental.
São cerca de 435m de comprimento por 421m de largura de vários exemplos de edifícios de arquitectura khmer, que nos dias de hoje parece ser exclusiva de edifícios públicos, como palácios, ministérios, museus, universidades ou templos.
Representada a cores de branco e amarelo (simbolizando, respectivamente, o brahmanismo e o budismo), esta é uma arquitectura simples, com pormenores esteticamente belos e elegantes, como são os seus telhados com vários níveis com torres no topo, um símbolo da prosperidade.
Um mimo.

O Palácio Real foi construído em 1866, durante o governo francês, mas muitos dos edifícios que lhe fazem companhia foram sendo acrescentados nos anos seguintes. Assim, para além da residência do rei encontramos o Salão do Trono, edifícios onde são realizadas as recepções reais e os banquetes, salão de música e de baile, museu e galeria de exposição – esta instalada num edifício construído em ferro oferecido por Napoleão III ao Rei Norodom.

No lado esquerdo do complexo encontramos o Pagode de Prata, construído no fim do século XIX e renovado em 1962, um dos poucos que foram poupados (no seu exterior) pelo regime de Pol Pot. O seu nome faz alusão ao seu chão completamente coberto de azulejos em prata. É igualmente conhecido como o Templo do Buda de Esmeralda.
À sua frente encontramos diversas stupas (espécies de mausoléus) e estátuas do rei.

Todos estes elementos e toda esta diferença estética e bom gosto faz com que nos encantemos ainda mais com esta cidade. Como esquecê-la?

Phnom Penh

A entrada no Cambodja fez-se navegando calmamente pelo Rio Mekong.
À medida que nos íamos aproximando da fronteira, as casas assentes em palafitas sobre a água iam ficando mais esparsas, mas os búfalos e as crianças, esses, continuavam a aproveitar a água do rio para se divertirem.
À chegada à fronteira trocámos de barco e todos optámos pelo “slow boat” que demoraria cerca de 4 horas até à capital Phnom Penh. Éramos 15 a destilar dentro de um teco teco que insistia em manter-se à tona da água. Por todos nós, homens ou mulheres, ocidentais ou orientais, escorriam abundantes gotas de suor. Até hoje, posso afirmar sem medo de errar, nunca suei tanto na minha vida. E estava sentadinha num banco, à larga, sem mexer o que quer que fosse que pudesse acelerar a queda dos pingos.
Depois de deixarmos o barco fizemos mais cerca de 1 hora de viagem de carro até Phnom Penh, numa condução louca e barulhenta numa espécie de auto-estrada. Quanto a isto, nada de muito diferente para as cidades do Vietname.

O que pareceu diferente a olhos vistos foi a pobreza e a sujidade nas ruas de Phnom Penh. A acrescer a isto a pouca iluminação quando o sol cai e muitos pedintes e estropiados na marginal, deveremos concluir ser Phnom Penh para esquecer e passar rapidamente a Angkor, este sim, o grande monumento que faz a esmagadora maioria dos turistas visitar o Cambodja? Longe disso, muito longe mesmo.
Apesar de toda a caracterização negativa de Phnom Penh feita acima, esta é uma cidade bem interessante e, lá está, carismática, daí que se goste de deambular pelas suas ruas, caminhar junto ao rio, observar a arquitectura dos seus edifícios, entrar pelos seus mercados, juntarmo-nos ao rebuliço dos seus habitantes e dos seus tuc tucs.

Para além disso, há que conferir todo o desconto ao Cambodja e, em especial, a Phnom Penh.
Outrora lar de uma civilização brilhante que temos a sorte de nos ter legado – praticamente intacta – o complexo de Angkor, o Cambodja foi desde sempre alvo de invasões e domínio de estrangeiros.
Mais recentemente calhou-lhe viver atrocidades brutais e inimagináveis impostas por alguns dos seus próprios cidadãos, sob o comando do Khmer Vermelho de Pol Pot. E este recentemente é mesmo muito recente – só em Janeiro de 1979 os arqui-rivais Vietname vieram para derrubar o regime de Pol Pot no vizinho Cambodja, com quem estavam em guerra, mas o Khmer Vermelho fugiu para o interior do país e continuou activo – vide as inúmeras minas espalhadas pelo país até hoje – até à cedência definitiva apenas em 1998.
Esta história começou em 1975 e apesar de ter durado pouco mais de 3 anos deixou marcas profundas – para toda a humanidade, há que dizê-lo. Só para se ter uma pequena ideia (todo o mal desta triste história é-nos impossível de entrar na cabeça), Phnom Penh – que tem hoje cerca de 1,2 milhões de habitantes – chegou a ter nessa altura apenas 50 mil, dadas as politicas absurdas de levar os cidadãos em massa para o campo com o objectivo de montar uma sociedade exclusivamente agrária com todos trabalhando no cultivo. Dinheiro e propriedade privada foram conceitos totalmente abolidos e a repressão, violência e tortura eram rainhas.
Uma pequena parte de todo este horror é-nos dado a conhecer no Museu Tuol Sleng, instalado numa antiga escola que no tempo de Pol Pot foi transformada numa prisão conhecida como Prisão de Segurança 21 – S-21. A sua visita é muitas vezes descrita como uma experiência deprimente. É-o. Mas é também imprescindível. Até para se constatar in loco um outro aspecto a juntar a toda esta falta de sentido. O local onde a antiga prisão (antiga escola, hoje museu) está instalada é uma zona residencial. As celas (antigas salas de aula) onde hoje se encontram expostos alguns objectos de tortura e fotografias das vítimas têm à sua entrada um aviso solicitando que os visitante sejam contidos e não se riam. No entanto, da janela de uma das celas, foi impossível evitar esboçar um sorriso depois de bater com o olhar numa varanda do prédio do outro lado da estreita rua onde duas crianças dançavam inocente e freneticamente ao som de uma música ritmada em altos berros.
Mas Phnom Penh não é só esta má experiência. Aliás, tendo a sua história recente em mente, mais valor se dá à cidade e aos seus habitantes no esforço que tem sido colocado na sua recuperação.
E parecem ser muitos os estrangeiros que têm escolhido aqui viver. Neste ponto a doutrina cá de casa divide-se – a mana acha que são todos turistas os muitos ocidentais que por lá se vêem; já eu acho que são estrangeiros ocidentais que escolheram viver numa das capitais do sudeste asiático que, segundo se diz, oferece melhor vida nocturna e boas compras sempre aliadas ao exotismo do oriente. E digo isto por ver esses ditos a caminhar pelas ruas de forma descontraída e cómoda como só aqueles que se sentem em casa sabem caminhar, com sacos de comprar diárias na mão. E por ter lido umas quantas histórias de executivos que aqui escolheram viver (aí as oportunidades de negócio em países em desenvolvimento…), muitos deles numa constante ponte aérea com a mais estável e bem próxima Banguecoque.
E este facto faz com que os extremos se toquem – a pobreza dos autóctones e o luxo e boa vida dos estrangeiros.

E boa vida é o que se pode levar em Phnom Penh, principalmente na sua frente de rio, onde encontramos os melhores hotéis, restaurantes e bares, com um design tão familiar ao gosto ocidental que parece que estamos em casa. Felizmente não estamos e por isso é que paredes meias com aqueles podemos ver maravilhados edifícios em arquitectura khmer como o Palácio Real e o Pagode de Prata e o Museu Nacional.


Outros ícones da cidade que são estranhos a nossa arquitectura ocidentalizada são os Wats. No Wat Phnom, instalado numa colina (Phnom significa, precisamente, colina), no meio de um concorrido parque que é um hino ao kitsh, com um elefante às voltinhas, namoradinhos, crentes, vendedores e, coisa esquisita, senhores com gaiolas de pássaros na mão à espera que alguém (e ainda são uns quantos) lhes dê uns trocos para soltar os ditos passarinhos (confesso que não captei bem o significado da coisa, mas parece que é um costume por aqui).

E os mercados, como não podia deixar de ser, são outro ponto de paragem obrigatório. Desde logo o Psar Thmei, edifício muitíssimo interessante em arquitectura Art Deco, cortesia dos franceses. Mas para as melhores compras, o local a escolher é o Psar Tuol Tom Pong, também conhecido como Mercado Russo, onde se encontram um sem número de produtos falsificados.


Mas não há volta a dar, a minha preferência vai toda para a vida intensa da cidade, do seu movimento. E nada melhor do que ir dar novamente à frente do rio junto ao Palácio Real. Na confluência dos rios Tonlé Sap e Tonlé Bassac, ambos braços do Mekong, vemos toda a gente a passear ao fim da tarde, pobres, remediados, ricos, monges, turistas. Vários grupos de homens na casa dos 30 / 40 anos jogam uma espécie de badminton com os pés, executando autênticos malabarismos que não deixariam o nosso Cristiano Ronaldo envergonhado. Uns miúdos com 8 / 10 anos exibem todo o seu talento nos saltos para o rio, esmerando-se ainda mais sempre que passa um barco carregadinho de turistas. Pela manhã bem cedinho, por volta das 6:00 (ou devo dizer madrugada?), é a vez da ginástica matinal, tanta gente, mas tanta gente, como não vemos nem por volta das 12:00 de domingo num qualquer parque público do nosso país.
Esta é, pois, uma forma simples e inesquecível de passar uns momentos em Phnom Penh, apenas sentando-nos a observar relaxadamente a vida neste pedaço do Oriente.