Tratado das Coisas da China, de Frei Gaspar da Cruz

Frei Gaspar da Cruz foi um missionário dominicano pioneiro nas viagens pela Ásia do Sueste. Em 1556 viajou para Cantão, sul da China, com a missão de evangelizar a “multidão de almas perdidas com a ignorância da verdade”. E como “estas gentes têm muitas coisas muito dignas de memória” moveu-se “a dar notícia geral”, tendo então escrito uma narrativa de viagem, o Tratado das Coisas da China, que veio a revelar-se uma das melhores fontes europeias do século XVI e desempenharia um papel importante na construção da visão da China na Europa da época.

O frade dominicano andou por Goa, Ceilão, Malaca e Camboja. Desapontado por ter aqui encontrado algumas dificuldades na conversão das suas gentes, decidiu partir para o sul da China, mais especificamente Cantão. Pode não ter tido muito sucesso na sua missionação, mas acabou por entrar e permanecer na história como o primeiro a fazer editar na Europa uma narrativa dedicada exclusivamente à China. Este Tratado das Coisas da China, impresso em 1569-1570, foi mesmo editado antes da (mais famosa) obra de Fernão Mendes Pinto e só não teve distribuição mais alargada na Europa por ter sido editado apenas em português.

A ideia de publicar esta narrativa tem muito a ver com uma ideologia da expansão, profundamente ligada ao projecto de missionação, o qual possuía não só o apoio real, como era parte integrante dos descobrimentos e da expansão portuguesa. Não estranha, assim, que no prólogo da obra de Frei Gaspar da Cruz sejam louvados os descobrimentos “por meio dos quais Deus por seus servos tem convertidas novamente muitas gentes à fé, e vai convertendo e converterá”, desde “os brasis e os de toda a costa de Guiné”, Sofala e Moçambique, Ormuz, Índia, Ceilão, Japão, Maluco, Timor e Java. Pese embora todo este sucesso, devidamente exaltado, faltaria a China: “os chinas a todos excedem em multidão de gente, em grandeza de reino, em excelência de polícia e governo, e em abundância de possessões e riquezas, e porque estas gentes têm muitas coisas muito dignas de memória me movi a dar notícia geral”. Mas apesar de tanta grandeza, o frei acrescenta o compadecimento que deve merecer “tanta multidão de almas perdidas com a ignorância da verdade, pedindo a Deus que dilate a sua santa fé católica nesta gente como na demais, tirando-a de sua ignorância e cegueira em que vivem idolatrando”.

A invenção da imprensa levava pouco mais de um século e nos finais do século XVI as obras relativas às aventuras portuguesas além-mar começavam a despertar o interesse num conjunto de leitores. Por outro lado, desde a Antiguidade que o Oriente alimentava as fantasias dos europeus como lugar exótico e, ainda que a China não fosse muito conhecida, era mítica, misteriosa e fascinante. Lugar de lendas. Nesta época não eram muitos os contactos com a China e embora os portugueses estivessem instalados em Macau, no mesmo delta do Rio das Pérolas onde se situa também a Cantão para onde o frade foi pregar, faziam-no sem autorização legal por parte dos chineses. Ou seja, a visão da China estava condicionada pela que havia sido dada por Marco Polo. A tal visão que suscitava encantamento e admiração aos europeus. E, por isso, no prólogo Frei Gaspar da Cruz refere saber que “os curiosos acharão muitas coisas que folgarão de ler”.

Esta obra aborda, assim, primeiro a China em geral, da gente e da terra, depois em particular, do reino e das províncias. Mais, seus edifícios e embarcações, aproveitamento das terras e ocupações dos homens, trajos dos homens e das mulheres, usos e costumes, dos que regem a terra e do governo dela e, por fim, cultos e adorações.

A China Ming da época vem tratada pelo Frei como um império modelo, talvez porque tivesse presente que a vida no Portugal de então era inferior à realidade chinesa. Os tempos Ming foram tempos de uma cultura literata e de alguma prosperidade, muito derivada ao comércio marítimo internacional, uma vez que os Ming foram contemporâneos da expansão europeia na Ásia. Mas os Ming seguiam uma política de auto-isolamento. A este propósito escreve o Frei que “mas vendo el-rei da China que o seu reino se ia desbaratando e arriscando por se quererem estender a senhorear outras muitas terras de fora, se tornou a recolher com suas gentes só em seu reino, com fazer édito público que sob pena de morte nenhum seu natural navegasse para fora da China”.

Já se sabe, o objectivo de Frei Gaspar da Cruz na China era o de fazer a cristandade. Encontrou, todavia, dificuldades, tal como as havia encontrado no Sueste Asiático. Tal se devia ao facto não só de os portugueses não poderem aí permanecer por tempo indeterminado, como por os mandarins, ou loutiás, como a eles se refere o Frei, subjugarem o povo e não permitirem nenhuma novidade. Por outro lado, os sacerdotes eram vistos de alguma forma como gente ociosa, aborrecida e desestimada pelos chineses, uma vez que não desenvolviam actividades produtivas. Mas Frei Gaspar da Cruz bastas vezes mostra a sua admiração pelo modelo de valores que era a China que visitava, designadamente, a sua riqueza, abundância, igualdade, justiça e tolerância, e destaca igualmente o seu apreço por esta ideologia do trabalho. Os chineses dão relevância à obra do homem, considerando o trabalho um valor essencial, sendo “a gente ociosa nesta terra muito aborrecida e mui odiosa aos demais”.

Na sua exposição descreve a geografia e a história dos reinos que compunham a China, a grandeza da terra, a maravilha das suas construções, como pontes, estradas, ruas e casas, o aproveitamento geral da terra, usos e costumes, a religião e a justiça. Descreve, até, as gentes com quem confina a China. Os “mogores”, “gente esta mui belicosa, pelejam com frechas e arcos a cavalo, usam de couraças e capacetes e terçados”, os “tártaros”, as tribos semi-nómadas da Ásia Central que ameaçavam a China, “gente vermelha commumente e não alva, andam nus da cinta para cima, comem carne crua e untam os corpos com o sangue dela. Pelo que commumente são fedorentos e têm mau cheiro”, e que “chamam os chinas a estes tatos, porque não podem pronunciar esta letra r”.

Já os chineses foram pelo Frei considerados feios. “Ainda que os chinas commumente sejam feios, tendo olhos pequenos e rostos e narizes esmagados, e sejam desbravados, com uns camelinos nas maçãs da barba, todavia se acham alguns que têm os rostos mui bem feitos e proporcionados, com olhos grandes, barbas bem postas, narizes bem feitos. Mas destes são muito poucos, e pode ser que sejam de outras nações nos tempos antigos entremetidas nos chinas, em tempos que eles comunicava diversas gentes”.

Quanto à geografia da própria China, diz ser a mesma constituída por treze províncias e cada uma delas ter “uma cidade mui grande e populosa e mui nobre em edifícios por cabeça”, ou seja, por capital. “Cantão é uma entre muitas menos nobres da China, e muito somemos em edifícios que outras muitas, ainda que mais populosa que muitas. Isto dito por todos soque a viram e andaram pela terra dentro, onde viram outras muitas”. O Frei baseia-se aqui nas suas fontes, nomeadamente Galiote Pereira e outros informadores. Apesar de não ter estado em Pequim, a grande capital está sempre presente no seu relato enquanto projecção aumentada das informações sobre Cantão. Se esta cidade menor é tão cheia de grandeza, riqueza e maravilhas, como serão as outras e sobretudo a imensa Pequim? Da grandeza da cidade de Pequim diz “que um cavalo de andadura apenas a atravessa dos muros adentro de sol a sol”.

Compara Cantão com Lisboa, capital do seu reino, ao afirmar que “as ruas da cidade todas são lançadas à linha mui direitas, sem nenhuma qualidade fazerem lombo nem tortura. As ruas principais são algumas mais largas que a Rua Nova dos Mercadores de Lisboa aos Ferros”. Mais, “têm as ruas principais arcos triunfais que as atravessam, altos e mui bem feitos, os quais fazem as ruas muito formosas e enobrecem a cidade”. Quanto aos materiais usados nas casas, “confesso em verdade que nunca vi madeira tão linda como aquela”, as telhas “melhores e de mais duração que as nossas”.

O deslumbre continua. “Estas pontes são a principal praça das cidades, onde se vendem todas as coisas de comer. O que é de maravilhar da China, é haver muitas pontes por toda a China em lugares despovoados, e não serem de menos custo e obra que as que estão ao longo das cidades, antes são todas custosas e mui bem obradas”.

A circulação fluvial na China de quinhentos era intensa. As grandes cidades estavam situadas nas margens dos férteis rios, os quais permitiam ainda uma fácil mobilidade. “Quase todas as cidades estão fundadas ao longo de rios”; “há imensidade de navios e embarcações”; “tem muita multidão de ilhas ao longo da costa, mas muito grande costa pela qual se navega”; “toda a China por dentro se navega e toda se corre por rios que a talham toda e regam, que são muitos e muito grandes. De maneira que até aos fins do reino se pode navegar e ir em embarcações”; “é tão grande a multidão de navios que é coisa maravilhosa vê-los”. Frei Gaspar da Cruz regista ainda o facto de as embarcações servirem de casas para muita gente pobre. Descreve as sampanas e diz que “ali criam o seu porquinho, sua galinha, e ali têm também sua pobrezinha horta, e ali têm toda sua pobreza e agasalhado”.

Acerca do aproveitamento da terra e ocupações dos homens, refere ser a “China terra quase toda mui bem aproveitada” e que “faz ajuda muito a isto ser a gente ociosa nesta terra muito aborrecida e mui odiosa aos demais, e quem o não trabalhar não no comerá, porque commumente não há quem dê esmola a pobre”. “Daqui vem que toda a terra que na China pode dar qualquer género de fruta recebendo semente é aproveitada […] semeiam arroz, e dão algumas destas várzeas duas e três novidades no ano”. Para além de que, diz acerca dos ofícios e mercadores, “há nesta terra de todos os ofícios muita quantidade de oficiais, e muita abundância de todas as coisas para o uso comum necessárias”. Caso diferente do que aconteceria em Portugal, o que o leva a registar que “de maneira que os ricos e os muito pobres podem todos andar calçados”.

É neste ponto que, após constatar a abundância de ourives de ouro e de prata, latoeiros, ferreiros e muitos mais ofícios donde são geradas abundantes e prefeitas coisas, bem como uma multidão de mercadores de peças e panos de seda, Frei Gaspar da Cruz fala da porcelana. A mitologia acerca do seu fabrico e da sua produção perdurou até muito tarde. Marco Polo havia já referido a porcelana e ajudado a criar o mito. Apenas com Frei Gaspar da Cruz a situação mudou de figura e a ideia de serem as porcelanas feitas de cascas de ovo, conchas de molusco e terra foi desmistificada. Este descreve, assim, quer o seu material, quer o seu modo de produção.

O Frei foi também o primeiro na Europa a pormenorizar as excelências do chá e as suas qualidades. Diz-nos ser a oferta desta bebida um ritual de hospitalidade. Esta infusão começou a ser mencionada em escritos portugueses a partir de 1548, no entanto Frei Gaspar da Cruz foi um dos primeiros a reproduzir o seu nome, chá, exactamente.

Diz ainda gostarem os chineses de conviver à mesa e que esta é farta, tendo a terra muita fartura e muita abundância de todas as coisas necessárias para comer e remediar a vida, destacando o arroz e o trigo, a carne e o peixe, e as frutas e as hortaliças, mas também as rãs e a carne de cão “feitos em quartos, assados e cozidos e crus, e com as cabacinhas peladas e com suas orelhas, porque os pelam todos como leitões. É manjar que come a gente baixa, e vendem-se vivos pela cidade em gaiolas”.

Refere ser o cumprimento comum dizer-se um ao outro “chifã mesão”, qualquer coisa como “comeste ou não, que todo seu bem nesta vida se resolve em comer”, acrescenta.

Frei Gaspar da Cruz descreve ainda as festas chinesas, nomeadamente a festa da primavera e do ano novo chinês e a comemoração dos dias de seus nascimentos. A descrição desta última faz crer que no Portugal de então não seria habitual a comemoração com festas dos aniversários.

No que respeita às mulheres, em particular aos seus pés pequenos, o Frei foi o primeiro na Europa a referir-se a esta característica: “desde meninas lhes apertam muito os pés com panos, para que fiquem os pés muito pequenos, e fazem-no porque têm os chinas por mais gentis mulheres as que têm os narizes e os pés pequenos. Isto todavia se usa na gente lustrosa, e não na muito baixa”.

O sistema de ensino e o método da escrita chinesa causaram, igualmente, admiração. O Tratado do Frei contém, inclusivamente, algumas expressões e palavras, como a palavra cha ou os títulos de vários oficiais. Diz haver na China “muita diferença de linguagens, pelas quais uns a outros na fala não se entendem, entendendo-se por escritura”. “Não têm os chinas letras certas no escrever, porque tudo o que escrevem é por figuras, e fazem letras por parte, pelo que têm muito grande multidão de letras, significando cada uma coisa por uma letra. De maneira que uma só letra lhes significa “céu”, e outra “terra”, e outra “homem”. Esta é a causa porque em toda a China há muitas línguas, de maneira que uma se não entende à outra por fala, nem os cauchins-chinas se entendem com os chinas, nem os japões com os mesmos chinas se entendem por palavra, e todos se entendem por escritura”. “Disse-lhe que me fizesse as letras todas do a.b.c., e respondeu-me que não podia logo assim fazê-las, que eram mais de cinco mil”.

Em relação aos mandarins, isto é, aos altos funcionários chineses, surpreendentemente Frei Gaspar da Cruz nunca usa esta palavra. Opta antes pelo termo “louthia” para os designar ou usa “os que regem a terra”. O Frei foi o primeiro europeu a descrever o dragão imperial, tradicionalmente usado como insígnia imperial. Assim como nos referiu o sombreiro amarelo usado pelas mais altas dignidades.

Por fim, é nos dada uma breve relação das principais crenças chinesas, ainda que sem grandes novidades, uma vez que os padres da Companhia de Jesus já o haviam feito uns anos antes. Refere divindades como o céu, o culto aos antepassados, o budismo e o taoismo.

Apesar da esmagadora maioria de notas laudatórias acerca da China, no que respeita às suas práticas religiosas a censura é evidente: “pelo que, não terem os chinas conhecimento de um Deus, é bastante argumento para mostrar que os chinas não têm estudos de filosofia natural, nem se dão à contemplação das coisas naturais”; mais, “adoram também estas gentes o diabo”; e ainda, “quão polida é esta gente no regimento e governo da terra e no comum trato, tão bestial é em suas gentilidades, no tratamento de seus deuses e idolatrias”.

Tudo isto para chegar à conclusão do quão difícil seria ter sucesso nos seus intentos de converter os chineses à cristandade. Todavia, sucesso completo em mostrar em primeira mão aos europeus do século XVI e até hoje a todo o mundo do século XXI, a China quinhentista sob o ponto de vista geográfico, político-governamental, cultural e religioso, seu território e suas gentes. Uma China que era então imaginada mas não conhecida.

Hong Kong por 30 cêntimos

Dois dias em Hong Kong apenas serviram para relembrar os seus arranha-céus, os seus templos, os seus parques, as suas vistas e a sua intensa vida de rua. 
Mas, sobretudo, para relembrar que é em Hong Kong que estão dois dos meios de transporte mais fantásticos e estupidamente baratos do mundo. Por cerca de 30 cêntimos de euro o Star Ferry cruza o “porto perfumado” e é uma vista privilegiada do skyline de Hong Kong. 

E pelos mesmos cerca de 30 cêntimos de euro o tram fininho de duplo deck percorre lentamente algumas das ruas aceleradas do lugar que comemora neste 2017 os 20 anos da devolução britânica à China.
Algumas fotos como lembrança.


Alimentação na China

Os chineses vivem para comer.

Que outro país tem como saudação “chi fan le”, qualquer coisa como “já comeste”?

Na China a comida não serve apenas para comer e sobreviver, mas está ainda ligada a crenças médicas, à estética e é uma forma de comunicação em sociedade. É um dos prazeres da vida. E uma arte. A literatura faz alusão à comida e o cinema também. Nos filmes acostumamo-nos a ver inúmeras cenas com comida, famílias reunidas à mesa, amigos a confraternizar à mesa, negócios discutidos à mesa. O papel social da comida é uma evidência. Os mercados são vivos e animados e pelas ruas de qualquer cidade ou vila encontramos muitos pontos de venda de comida improvisados. Restaurantes são mais do que muitos e estão cheios.


Comer num daqueles restaurantes com salões enormes é uma experiência única. Há quase sempre uma salinha recolhida, privada, mas a maior parte das pessoas fica no salão, de preferência ao redor da mesa redonda com a roda de vidro giratória onde vão desfilando os incontáveis pratos. E o barulho é uma presença obrigatória. Os chineses são barulhentos, ainda mais à mesa.

Ao mesmo tempo, há uma tradição de frugalidade no que respeita à refeição chinesa. Há que comer com moderação o suficiente para matar a fome e a sede. Não deve haver desperdício. E o corpo deve manter-se equilibrado e harmonioso, o Yin e o Yang. Quente e frio, molhado e seco, purificador e venenoso. Aqui revela-se a importância da comida no domínio da prevenção e cura de doenças.

Esta dimensão maior da comida pode ser vista ainda nas oferendas que são feitas às divindades e aos espíritos ancestrais, trazendo a comida um colorido ainda mais especial aos templos budistas e taoistas. É também usual depositar-se comida nas sepulturas, considerando-se que os mortos possuem as mesmas necessidades alimentares do que os vivos, sendo ainda este um desejo de se manter uma ligação entre os membros das famílias mesmo depois de mortos. 

Na China, uma recomendação antiga diz-nos que fan (arroz) e cai (vegetais) devem ser equilibrados numa refeição.
Historicamente a agricultura tomou forma de maneira deliberada por políticas do governo e foi sendo conscientemente planeada. Aquela paisagem dos arrozais em socalcos que hoje nos deleita é uma paisagem altamente manipulada e trabalhada pelo Homem.

Como aconteceu como todos os povos, os chineses começaram por se alimentar de cereais e caça. À medida que foram adquirindo a habilidade de criar artefactos mais desenvolvidos também a agricultura se desenvolveu. Confúcio, o grande pensador chinês, deu-lhe prioridade e considerou-a o mais importante trabalho. A entrada deste milénio trouxe inovações culinárias e novas políticas agrícolas. Os Tang importaram culturas da Pérsia e introduziram a dupla colheita do arroz em todo o país. A expansão do comércio durante os Song e novas técnicas na construção de represas e bombeamento de água, bem como incentivos à construção por socalcos, levou a um crescimento enorme da agricultura que, por sua vez, trouxe um crescimento substancial da população. Decisivo foi o papel do transporte na evolução do sistema de comida chinês através da rede de canais entretanto construídos, por onde a agricultura cresceu e se espalhou. O mundo tornava-se mais globalizado e o comércio marítimo mundial durante a época Ming levou à introdução de novas culturas vindas do Novo Mundo, como a batata doce, o amendoim e o tabaco. A área cultivada cada vez era maior. 
A era Qing viu crescer ainda mais o comércio e a rede de mercados.

A agricultura na China desenvolveu-se primeiro a norte. A pressão populacional levou à pressão pela comida, forçando as pessoas a inovar ou à fome. Em tempos remotos, a agricultura existia conforme o clima o permitia e era desenvolvida perto da habitação. O comércio trazia informação sobre plantas e seu uso e isso explica o porquê da agricultura se ter desenvolvido também ao longo das rotas de comércio. 
Hoje, na China, quase todo o país está sob intenso cultivo. Existe uma grande variedade de climas e de paisagens e, logo, uma enorme potencialidade de comidas. Falta-lhe, todavia, o clima mediterrâneo, de grande importância agrícola. 

Poucos países transformaram tanto a sua paisagem como a China: durante séculos construíram terraços, diques e canais, irrigaram, desmataram e drenaram, de tal forma que a paisagem do país é hoje uma verdadeira criação humana, sempre seguindo o preceito de que a terra dá-nos oportunidades e deve servir os seus fins. No fundo, a paisagem é um meio para corresponder às necessidades humanas. 

O clima a norte é um clima continental, com invernos frios e verões quentes e baixa precipitação. A estação de crescimento e colheita é muito mais baixa do que a sul. O norte tradicionalmente está exposto a povos pastorícios, com abundância de pratos de cordeiro (influência dos povos mongóis e muçulmanos), e a sua cozinha é eclética. Verificamos a importância do trigo, do sorgo, do milho e do milho miúdo e não exclusivamente do arroz.

No leste da China, região centrada no baixo rio Yangtze, a precipitação é maior do que a norte e os invernos mais amenos, o que permite o cultivo de mais culturas. Encontramos uma agricultura aquática, focada na pesca e na piscicultura, com muito peixe e marisco. Shanghai é a maior cidade da região e a mais cosmopolita. A cozinha é sofisticada, delicada e saudável e exposta a ideias culinárias de outras regiões e países. 

Na zona ocidental da China o arroz é a cultura mais importante, mas o clima subtropical permite muitas outras culturas como trigo, aveia, soja, laranjas e cana de açúcar. A sua cozinha (Sichuan e Yunnan, por exemplo) é notada pelas suas poderosas especiarias. Encontra-se ainda o recurso a pratos fumados e ao uso de óleo e a uma mistura de diferentes sabores. Como a região está longe do mar para se obter peixe fresco, a alternativa é o uso de peixe de rio ou a importação de peixe seco.

O sul da China consegue ter culturas durante todo o ano. A região de Cantão é aquela que há mais tempo está aberta ao comércio internacional e geograficamente é possuidora de uma intrincada rede de rios tributários no delta do Rio das Pérolas para o comércio interno. E isso cria oportunidades. Existe aqui uma variedade enorme, desde carne, peixe, marisco, vegetais, especiarias, arroz com dupla ou até tripla colheita. Os cantoneses são enérgicos, independentes e empreendedores e, de todas as cozinhas chinesas, a sua cozinha é a mais conhecida internacionalmente.

Na China, no geral, verifica-se uma ausência de produtos derivados do leite (apenas com presença pontual a norte). O leite é historicamente encarado como um produto bárbaro, um preconceito da China para com a Ásia Central, para além de que o clima no país não é propício para a pastorícia, pelo que o teriam de os importar. 

Uma última palavra para o chá, uma cultura que gostamos de associar aos ingleses, mas que foi levada pelos portugueses da China para a Europa e só depois para a corte inglesa. Com origens no sudoeste da China, esta é uma tradição de vida ligada historicamente à meditação, à tranquilidade e à imaginação. Os budistas entendiam que o chá combatia a monotonia e a fraqueza e os taoistas acreditavam que o chá fazia com que as pessoas se mantivessem jovens e tornassem imortais. Beber chá tornou-se uma necessidade espiritual e a sua cerimónia não se limitava apenas ao acto de beber o chá ou à escolha do chá; antes, todos os detalhes haviam de ser tidos em conta, como a escolha da água, dos utensílios, do tempo, a ocasião. O chá está ligado a ideias como a frescura e a pureza. Nos dias que correm, rápidos e sem tempo para contemplações, pode não haver oportunidade para celebrações como a cerimónia do chá. Mas um bule de chá é o que nunca falta numa mesa de refeição chinesa.

E, para o fim, um reparo. Onde estão os doces, caros amigos chineses? Estranham os senhores que vos adocem a boca?

Festival Roupas a Secar – Shàiyī Jié


Mas Longji não se trata só de terraços de arroz e paisagem. As suas aldeias históricas trazem consigo as fortes tradições culturais associadas às suas minorias étnicas. Se em Ping’an é a etnia zhuang que domina, em Dazhai são os Yao que dão colorido à terra. E que colorido.


Por altura da nossa visita tivemos a felicidade de assistir ao Shàiyī Jié, o Festival das Roupas a Secar. No sexto dia do sexto mês lunar, que este ano calhou na sexta-feira, dia 28 de Julho, as mulheres yao, conhecidas pelos seus longos cabelos que nunca são cortados, vestem as suas roupas tradicionais e colocam-nas ao sol, nas varandas, às janelas ou na rua, a secar. A aldeia fica com um colorido imenso e fantástico. 

O propósito é o de que o sol desinfecte e purifique as suas roupas. 

Esta tribo yao é parte da minoria étnica de mesmo nome que tem cerca de 2 milhões de indivíduos estabelecidos sobretudo no sul da China, mas também na Tailândia, Vietname e Laos. 


As meninas yao de Dazhai, em especial, saem todas à rua e mostram-nos as suas roupas cheias de adereços, como cintos, bainhas, colares e acessórios de prata. Reúnem-se em círculo ao redor da praça principal e mostram-nos as suas habilidades ao tear, bordando as roupas vistosas que depois haveremos de ver desfilar nos seus corpos.



Os homens, por seu lado, atiram-se ao estreito rio vestidos nas suas roupas escuras pescando os peixes com as suas próprias mãos, uma mostra de virilidade para o delírio total das massas.

Não podia haver melhor forma para nos despedirmos da China.

Terraços de Longji

E, enfim, para o final da viagem pelo sul da China que se pretendia rural calhou-nos uma vaga ideia de ruralidade e de remoto. 
Os terraços de arroz de Longji estão a 90 km de autocarro de Guilin mas a todo um mundo de distância. São mais de duas horas num caminho maioritariamente ziguezagueante e de tirar o fôlego; pelas paisagens fabulosas, sim, mas também pelas curvas apertadas numa estrada estreita que deixa ver as ribanceiras demasiado próximas. 


Esta área ficou completamente fora dos radares do turismo até aos anos 90, altura em que fotografias dos seus terraços atraíram as atenções do mundo. 
O sítio é extremamente fotogénico, mas é igualmente uma ode ao espírito criador e ao engenho do Homem. Ao longo de cerca de 60 km os chineses têm hoje, num processo que teve o seu início  no século XIII, durante a dinastia Yuan, um complexo e completo método de irrigação que faz um óptimo uso da escassa área arável e deste declivoso terreno montanhoso. E, assim, conseguem plantar arroz num local muito improvável.


Longji significa literalmente “espinha do dragão”. É isso mesmo que o recorte dos terraços alcandorados na montanha faz lembrar. A imaginação dos chineses para nomes sugestivos é um mimo e aqui funciona na perfeição. Eis alguns dos nomes dos lugares a visitar: “música do paraíso”, “mil camadas para o céu”, “nove dragões e cinco tigres”.

Normalmente, quem visita os terraços de Longji opta por pernoitar numa de três aldeias: Ping’an, Dazhai ou Tiantou. 
Ficámos com esta última. 


Saímos no autocarro em Dazhai e caminhamos cerca de meia-hora até ao nosso inn, logo começando a sentir a força do cenário. Dependendo da época do ano em que se visita estes terraços de arroz, as cores serão diferentes. A seguir à época de chuva de Maio os terraços estão verdes e, por isso, Julho é uma das melhores alturas para se visitar. Claro que os fã das tonalidades amarelas não concordarão e os amantes do gelo ainda menos. De qualquer forma, esta época é preciosa para se entender a importância da água na dinâmica da cultura do arroz. A água vai escorrendo pelos vários andares e as plataformas têm de estar permanentemente com água em abundância. Caminhamos tão perto dos terraços, mesmo dentro dos terraços – com cuidado para não estragar o trabalho dos agricultores – que nos apercebemos destes pormenores.





O arroz e a forma como é cultivado em terraços é rei e um monumento que vale bem a pena qualquer desvio na viagem. Mas a paisagem que o acompanha é deslumbrante. Existem diversos pontos de observação e quanto mais elevados mais soberbo o ponto de vista que abraça toda a região. 
O turismo não abunda por aqui, pelo que é fácil sentirmo-nos em sossego e em paz com a vida num lugar como este. Fosse tudo tão simples assim.






Só há três coisas a fazer por aqui: caminhar, sentar nesta espécie de anfiteatros e tirar fotografias. E, à noite, uma quarta: olhar as estrelas. Tantas e tão belas, a provar que na China o céu também ainda pode ser limpo, limpo.
A aldeia de Tiantou é apenas um ponto na paisagem, perdida nos socalcos montanhosos. Está preparada para receber os turistas e recebe-os com simpatia. 



A aldeia de Dazhai não é muito diferente, mas é maior e com mais infraestruturas. Em ambas a arquitectura típica são as casas de madeira clara com telhados escuros. Ruas não existem propriamente, antes caminhos. As mulheres das aldeias possuem rostos duros e marcados, de idade indefinida. 30 anos ou 60 anos? Toda uma vida a separá-las, mas nunca saberemos. Curiosamente, são elas que desempenham o papel de carregar às costas as malas e outra carga dos turistas “cansados”. Não os homens da aldeia.

Yangshuo


A chegada a Yangshuo tem obrigatoriamente de ser feita por rio. 
Só assim se preenche a alma.
A ideia de que o cenário da região de Guilin se resume a colinas e rios é mais forte do que nunca em Yangshuo. Por aqui nunca estamos longe demais de um rio e, bem, é mesmo impossível deixarmos de avistar uma qualquer elevação. Na verdade, elas são tantas e tão majestosas, que dir-se-ia que é impossível não nos deixarmos perder entre pináculos. 
Embebidas naquela floresta de pura beleza, não exageradamente considerado um dos mais belos cenários do mundo, o mais feliz é sentar junto ao rio e ficar a contemplar a paisagem.
Diante de nós temos, ao mesmo tempo, um pedaço de tranquilidade e de caos num equilíbrio perfeito.

Receio que o centro de Yangshuo seja como o centro de Guilin, um ajuntamento de feios edifícios construídos pelo Homem rodeado por belas colinas criadas pela Natureza.
Porém, as cores do final do dia, em especial vistas da Colina Xilang, no Parque Yangshuo, tornam este conjunto uma enorme obra-prima. Que bela joint venture!

Infelizmente, aquando da nossa visita derrocadas recentes fecharam o Pico do Lotus Verde, um dos pontos mais concorridos e vista privilegiada de Yangshuo para o rio Li, pelo que não tivemos oportunidade de o “escalar”. Ficámo-nos pela vista desde a promenade de Yangshuo, observando o movimento do ferry que cruza as curtas margens, os meninos que tomam banho nus, os barcos de bambu que por ali vagueiam. De repente vem-me à ideia um reputado nadador chinês, Mao. Será que Mao, que tanto gostava de nadar em rios, será que Mao também nadou no rio Li?

A pequena cidade é movimentada de dia e de noite, com lojas e mercados de rua e bares e restaurantes. Não era essa, porém, a nossa ideia de programa para Yangshuo e até ficámos alojadas na outra margem do rio. Nas redondezas do centro da cidade vêem-se vários hotéis, alguns deles designados “retreat”, e passar alguns dias por aqui, nesta paisagem lírica, retempera qualquer um.

A melhor forma de se explorar os arredores de Yangshuo é fazê-lo de bicicleta. Sem ela não se conhece verdadeiramente a floresta de pináculos de calcário de Yangshuo. Um passeio para um dia completo é sair de Yangshuo de manhã cedo e rumar até à Colina da Lua e daí até à Ponte do Dragão e voltar, num percurso quase circular. São cerca de 30 / 40 km.

Até chegar à Colina da Lua passamos ainda pela enorme árvore Banyan que, diz-se, terá cerca de 1500 anos e 17 metros de altura e muitas ramificações.


A Colina da Lua é um dos símbolos de Yangshuo. A subida até lá não é fácil, mas após muitas centenas de degraus ganha-se (mais) uma vista soberba para as erupções rochosas descontroladas da paisagem fabulosa da região. E a novidade deste lugar é uma cave, como o nome o indica, em forma de lua. Mais uma oferta rara e inesperada da natureza.

Da Colina da Lua regressamos até ao cruzamento do rio Yulong e desta vez seguimo-lo. Este é um afluente do rio Li e nas suas águas barrentas pululam os chamados “bamboo rafting”, os tronquinhos de bambu a fazer de embarcação para os turistas descerem o rio.





É possível fazer o percurso de bicicleta acompanhando as curvas do rio mesmo ali ao lado. 
Percebe-se claramente o porquê de tantos barcos feitos de bambu: as suas árvores dominam a paisagem. 
Os arrozais também fazem parte da paisagem. O cenário aqui é dos mais luxuriantes e magnificentes. 
E é aqui, também, onde se pode observar cenas rurais, embora não tivéssemos tido a felicidade de testemunhar muitas delas, com excepção de um ou outro camponês a caminho do trabalho e um ou outro búfalo em pousio do calor. 
Quanto à cena típica de Yangshuo do senhor do pássaro, só mesmo para turista tirar foto e nós não estivemos para isso.

Imperdível, imperdível, por mais turístico que se possa achar que o é, é o espectáculo Liu San Jie, – Impressions. Dirigido por Zhang Yimou, que já tinha sido responsável pela Cerimónia de Abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim de 2008 e é um dos mais celebrados realizadores da China, este é um espectáculo de dança, luz e som que utiliza as montanhas e o rio como cenário natural. E que cenário soberbo este é. Num imenso teatro ao ar livre, todos os dias desde 2004 têm sido apresentados dois shows nocturnos com efeitos especiais onde participam cerca de 600 figurantes – parece que toda a cidade participa. Este espectáculo mostra-nos (dai o nome “impressões”) a vida das pessoas à volta do rio Li, nomeadamente a sua relação com o rio, os seus costumes, seu vestuário, sua música, sem esquecer as diversas minorias étnicas que por aqui habitam. O horário do nosso show apanhou o final da tarde, pelo que vimos ainda as montanhas de calcário debruçadas sobre o Li de dia e tivemos direito à mudança das cores de forma natural e, depois, de forma artística. Noite imensa. 
E interessante, também, para nos apercebermos como é tão diferente a maneira de viver um espectáculo por parte dos chineses e dos europeus. Eles em constante conversa e saindo rapidamente ao final do espectáculo; nós em silêncio e aplaudindo ao final como sinal de emoção e agradecimento pelo momento que os seus nos ofereceram.

Cruzeiro no Rio Li


“O rio é um cinto de seda verde, os cabelos de esmeralda das montanhas.”
Há mais de 1000 anos um poeta escreveu estas palavras. Depois dele, muitos mais anónimos se deixaram encantar e inspirar pela magnificência da natureza do rio Li. Aqui, o poderio da natureza impressiona. Aqui, não podemos ter do que reclamar da vida. Aqui, somos felizes.
Este é o melhor cenário de Guilin. E é o melhor cenário do rio Li. O rio Li tem 437 km, mas os 83 km entre Guilin e Yangshuo são a sua obra-prima e uma das obras-primas entre todas as paisagens chinesas. 
Registe-se: são 11 os barcos, cada um deles com cerca de 200 pessoas, que saem todas as manhãs do pier de Zhujiang, para percorrer as 4 horas de viagem pelas plácidas águas do rio Li, cuja monotonia é quebrada pelas formas bizarras das colinas de calcário e por uma ou outra cena rural. O momento alto é quando a guia informa que ali, justo ali, precisamente ali, é a montanha que vem em todas as notas de vinte yuan e, então, todos os chineses do barco lá se dão ao trabalho de subir até ao terraço para se amontoarem e tirarem a foto e, depois, voltam para baixo, para cantar, ver televisão ou dormir, deixando o terreno livre. Ou seja, aquilo que se temia que pudesse vir a ser uma tormenta, é afinal um cruzeiro pacato e uma manhã de pura doçura alimentada por uma paisagem maior de um rio que vai pedindo licença às senhoras colinas para lhes adelgaçar os colos.
Algumas fotos.























Eis o momento:



E o sossego continuou, 








Guilin

Guilin é uma das maiores atrações da China e destino de turismo de massas desde 1949, data do início da República Popular da China, quando os comunistas fizeram dela a primeira cidade turística do país. 
Beneficia do facto de estar relativamente perto de Hong Kong e, por isso, ideal para uma escapada sem grandes demoras e riscos com o bónus de se ver paisagens fabulosas.
As montanhas e os rios são soberanos nestas regiões. 
Na viagem de comboio de alta velocidade entre Guilin e Shenzhen (o comboio chega a ultrapassar os 300 km por hora) vamos vendo desfilar aqui e ali um género de erupções de pináculos verdes pela planície. À aproximação de Guilin esses pináculos multiplicam-se e rodeiam-nos por inteiro, preenchendo o cenário de forma ondulante. O resultado parece quase o mesmo quando damos um lápis para a mão de uma criança e lhe pedimos para desenhar um horizonte montanhoso: um emaranhado de formas dão corpo aos picos das montanhas, numa confusão só ao alcance da mente das crianças. Ou da natureza. O cenário é tão irreal que se torna perfeito.
Não surpreende, pois, que há milénios a região inspire poetas e pintores.
O “poético sul” não foi cunhado à toa.
A conjugação de diversos fenómenos naturais, nomeadamente o choque das placas tectónicas e a erosão do terreno pela água e pelo vento, esculpiram e moldaram delicadamente a paisagem fazendo do cenário de Guilin um conjunto de inúmeras colinas de calcário, umas gordinhas, outras esguias, todas elas formosas e com uma vegetação que torna a paisagem luxuriante. 




Da Colina da Beleza Solitária, a 152 metros de altura, observamos a cidade de Guilin e sua envolvente com toda a precisão. 
Para o bem e para o mal. 
O problema de Guilin é que já não é apenas paisagem. A cidade cresceu de forma desordenada, hoje acolhe mais de 1 milhão de habitantes, e apesar de alguns pontos interessantes a sensação que se tem é que talvez ainda verdadeiro o dito que já vem dos tempos da dinastia Ming – “o cenário de Guilin é o melhor de todos sob o céu” -, mas talvez também possamos ser tão ou mais felizes noutro lugar ali perto, de mesmo cenário. Yangshuo, por exemplo. Mas isso confirmaríamos no dia seguinte (veredicto: Guilin é imperdível, sim, mas como ponto breve de transferência; para sul, para Yangshuo; para norte, para os terraços de arroz de Longji).


A Colina da Beleza Solitária fica no complexo do Palácio Wang Cheng, uma mini cidade proibida dos tempos Ming, datada do século XIV, que obedece na perfeição aos princípios do fengshui. Nessa época Guilin era de tal fora importante – e inspiradora – que esta era uma das sedes de governo.
Muitas mais colinas, parques e caves há para visitar em Guilin. O tempo curto, a repetição de vistas e o custo das entradas obrigam a escolhas, porém.


Uma visita a Guilin não fica completa, no entanto, sem uma curta caminhada pela sua promenade, vendo os locais a banharem-se nas águas do rio Li. A 


Colina da Tromba do Elefante, uma das imagens mais conhecidas de Guilin fica aqui perto. É uma das muitas formas que estas rochas mágicas tomam.



Para o final do dia, a não perder a mudança de cores nos elegantes e românticos pagodes do Sol e da Lua nos Lagos Rong e Shan, enquanto que as montanhas ao fundo teimam em não se despedir dos últimos raios de sol.


Kunming


Kunming é a capital da província do Yunnan e encaixa como uma luva na ideia da nova China, uma China em rápida transformação. 
Kunming não foi uma cidade que surgiu do nada, porém. Durante muitos séculos permaneceu como um centro estratégico nas rotas das caravanas que vinham da Birmânia e da Índia e há registos de Marco Polo a ter visitado no século XIII. 
Ainda hoje a sua posição estratégica faz de Kunming um hub na transferência de pessoas (entre as quais turistas) e está ainda nas modernas rotas de comércio. O seu desenvolvimento moderno começou, no entanto, com a invasão japonesa do século XX que trouxe os nacionalistas chineses para aqui em busca de refúgio, tendo estes começado a desenvolver a cidade construindo infraestruturas. Desde as últimas décadas, à semelhança de muitas outras cidades médias para os padrões chineses, Kunming tem vindo a crescer exponencialmente e hoje tem cerca de 6 milhões de habitantes. É uma cidade moderna, de avenidas largas, cheia de viadutos e conjuntos de prédios enormes.
E o clima temperado da cidade, cujo cognome é “a cidade da eterna primavera”, também atraiu alguns dos seus habitantes.

Mas dessa tal primavera, quanto a nós, nem sinal. 

Dois dias em Kunming, dois dias de eterna chuvada. 
E, claro, isso condiciona totalmente a percepção com que se fica de um lugar.
Eis, pois, o relato da visita possível, sempre com água pelo joelho.


Kunming é uma cidade com muitos parques, lagos e flores, isso deu para perceber. 
Cuihu, o Lago Verde, é o coração saudável da cidade e a área mais atraente para o turista se estabelecer. Aqui perto existem restaurantes, bares e lojas, o templo Yuantong e o mercado de flores e pássaros. Não necessariamente tudo na mesma direcção, mas tudo a uma distância facilmente percorrida a pé. 


Começando pelo templo Yuantong, este é um dos maiores templos budistas chineses da época Tang e tem cerca de 1200 anos. Os pavilhões vão se sucedendo à medida que caminhamos pelos halls a céu aberto, desprotegidas da chuva. As pontes conferem uma maior beleza ao lugar, mesmo num dia feio e mesmo se o lago não possui água para além daquela que teima em cair copiosamente das nuvens.


O mercado de flores e pássaros é, mesmo em dia de chuva, uma zona viva da cidade. Nesta zona, que pode ser considerada o centro histórico da capital do Yunnan, sobram ainda algumas, poucas, casas de madeira na fila para serem substituídas pelos edifícios de concreto de número indefinido de andares. Deixar-se-ão uma dúzia delas em mau estado de conservação, só de um lado ali naquela rua velha, por exemplo, para se mostrar como outrora havia lojas físicas onde as pessoas iam comprar carimbos, selos, medalhas, taças, galhardetes, quinquilharia varia, enfim.  


Esta zona pode parecer um ser estranho em relação ao resto da cidade, mas não é tanto assim. Vou misturar assuntos, talvez seja o excesso de água que já tenha chegado à barriga e me tenha parado a digestão ou então chegado ao cérebro e me tenha feito da cabeça um aquário com peixinhos a passearem por aqui sem destino aparente. 

Os esforços de urbanização são evidentes, mas os costumes dos indivíduos nem sempre acompanham o planeamento das cidades. Os chineses daqui não parecem tão sofisticados. Lojas de telemóveis estão em todo o lado, a Oppo é dona e senhora no ramo e os preços não são amigáveis. Olha a New Bunren, podia jurar que tinha andado com a irmã gémea New Balance no ginásio. Ai esta enchurrada que não pára. Temos de avançar por este viaduto, mas como se cai terra lá de cima? Ficamos uma hora e meia paradas no trânsito para fazer um percurso de quinze minutos. Nada circula e as inúmeras vias rápidas mostram que podem ser muitas e rápidas mas que sólidas é que não são. O pior há de ser na vinda. Depois de um dia inteiro de chuva já nenhum taxista vai ser apanhado de surpresa com o caos pelo que se vão recusar na viagem ou pedir um preço exorbitante. Resultado certo: segunda alternativa e mais uma hora e meia de trânsito para fazer um percurso que em condições normais se faria novamente em quinze minutos. O progresso e a tecnologia podem fazer parte desta nova China, mas os transportes colectivos informais continuam a fazer parte do dia a dia e eles por ali vão, juntamente com todos os outros veículos, a galgar passeios, fugindo à confusão, no salve-se quem puder, tentando chegar primeiro do que todos os outros. Cansadas, aborrecidas e ensopadas, acabamos tardiamente a jantar uma pizza, mas antes de fechar os olhos para dormir sonhamos com o que teria sido o sabor dos crossing the bridge noodles. 


Valha a verdade que um pouco de bonança nos tocou no momento do nosso passeio a Shilin, a floresta de pedra a cerca de 1600 metros de altitude e a 2 horas de distância de autocarro de Kunming (o autocarro vai da estação Este da cidade até mesmo à entrada do Parque de Shilin) – a chuva deu uma momentânea trégua.
É perfeitamente possível uma visita de um dia de forma autónoma, sem guia ou visita organizada. Os autocarros saem com frequência e uma vez no Parque é só deixarmo-nos caminhar por cerca de 3-4 horas e ficamos com uma boa ideia do que a natureza tem para nos oferecer. 


Esta é uma zona cársica em a que a erosão pelo vento e pela água foi causando fracturas no calcário, desviando as rochas, deixando-nos um cenário fantástico e intrigante. As rochas tomam aqui formas absolutamente curiosas. Pináculos emergem inesperadamente quer na sua forma quer no seu sentido. 


Temos flores




E temos lagos tranquilos. 


E extensos mantos relvados verdejantes. 

Mais uma vez, a entrada no Parque não é nada barata, mas depois de lá estarmos e vermos como tudo está perfeitamente conservado e como é extenso o lugar compreendemos que tudo tem um custo. 



Existem aqui inúmeras possibilidade de caminhos. Comprova-se novamente o dito que 80% dos turistas se concentram em 20% dos locais, por isso há que sair dos locais mais óbvios, por onde andam os magotes de turistas chineses que aqui chegam em bando em excursões organizadas. 
A Minor Stone Forest é por onde se queda a maior parte dos visitantes. Aqui ficam os jardins naturais de pilares de pedra tão graciosos que é difícil acreditar que não tenham sido moldados propositadamente pelo Homem. Mas isso seria acreditar que a mão da Natureza não lhe é superior. 
As rochas assemelham-se a elefantes, cogumelos, deusas, mãe e filho, o que quisermos, o limite será a imaginação. 




O pagode construído pelo Homem no topo de uma das rochas é um dos lugares mais concorridos do Parque, mas a vista que daqui se alcança é fabulosa e dá-nos uma ideia exacta desta obra-prima natural. Uma autêntica desordem pitoresca.

Diz a lenda que os imortais moldaram a montanha de forma a que esta se tornasse um labirinto para que os amantes melhor pudessem namorar em privacidade. 




E essa privacidade é possível, por exemplo, no Major Stone Forest, no Bushao Shan. Um pouco mais afastado da zona central, é possível encontrar caminhos infinitos cruzando-nos com pouca gente. Caminhos com passagens estreitas por entre as rochas, diz-se que são cinco as portas naturais de pedra por aqui, portas feitas de frestas espaçosas o suficiente para passar um corpo esbelto que as rochas gentilmente nos deixaram. 
Shilin é um lugar excepcional para caminhar também. Partir à descoberta de novas formas. Dar asas à imaginação. Lugar encantado e feliz onde uma placa nos diz: “a relva esta a sorrir, não a perturbes” – e nós respeitamos, caminhamos sobre ela, olhamos uma vez mais um dos pilares de rocha que a rodeiam e sorrimos também. Olhamos o céu e três horas depois volta a chover. Sorrimos novamente. É hora de voltar a Kunming.