Hong Kong por 30 cêntimos

Dois dias em Hong Kong apenas serviram para relembrar os seus arranha-céus, os seus templos, os seus parques, as suas vistas e a sua intensa vida de rua. 
Mas, sobretudo, para relembrar que é em Hong Kong que estão dois dos meios de transporte mais fantásticos e estupidamente baratos do mundo. Por cerca de 30 cêntimos de euro o Star Ferry cruza o “porto perfumado” e é uma vista privilegiada do skyline de Hong Kong. 

E pelos mesmos cerca de 30 cêntimos de euro o tram fininho de duplo deck percorre lentamente algumas das ruas aceleradas do lugar que comemora neste 2017 os 20 anos da devolução britânica à China.
Algumas fotos como lembrança.


Alimentação na China

Os chineses vivem para comer.

Que outro país tem como saudação “chi fan le”, qualquer coisa como “já comeste”?

Na China a comida não serve apenas para comer e sobreviver, mas está ainda ligada a crenças médicas, à estética e é uma forma de comunicação em sociedade. É um dos prazeres da vida. E uma arte. A literatura faz alusão à comida e o cinema também. Nos filmes acostumamo-nos a ver inúmeras cenas com comida, famílias reunidas à mesa, amigos a confraternizar à mesa, negócios discutidos à mesa. O papel social da comida é uma evidência. Os mercados são vivos e animados e pelas ruas de qualquer cidade ou vila encontramos muitos pontos de venda de comida improvisados. Restaurantes são mais do que muitos e estão cheios.


Comer num daqueles restaurantes com salões enormes é uma experiência única. Há quase sempre uma salinha recolhida, privada, mas a maior parte das pessoas fica no salão, de preferência ao redor da mesa redonda com a roda de vidro giratória onde vão desfilando os incontáveis pratos. E o barulho é uma presença obrigatória. Os chineses são barulhentos, ainda mais à mesa.

Ao mesmo tempo, há uma tradição de frugalidade no que respeita à refeição chinesa. Há que comer com moderação o suficiente para matar a fome e a sede. Não deve haver desperdício. E o corpo deve manter-se equilibrado e harmonioso, o Yin e o Yang. Quente e frio, molhado e seco, purificador e venenoso. Aqui revela-se a importância da comida no domínio da prevenção e cura de doenças.

Esta dimensão maior da comida pode ser vista ainda nas oferendas que são feitas às divindades e aos espíritos ancestrais, trazendo a comida um colorido ainda mais especial aos templos budistas e taoistas. É também usual depositar-se comida nas sepulturas, considerando-se que os mortos possuem as mesmas necessidades alimentares do que os vivos, sendo ainda este um desejo de se manter uma ligação entre os membros das famílias mesmo depois de mortos. 

Na China, uma recomendação antiga diz-nos que fan (arroz) e cai (vegetais) devem ser equilibrados numa refeição.
Historicamente a agricultura tomou forma de maneira deliberada por políticas do governo e foi sendo conscientemente planeada. Aquela paisagem dos arrozais em socalcos que hoje nos deleita é uma paisagem altamente manipulada e trabalhada pelo Homem.

Como aconteceu como todos os povos, os chineses começaram por se alimentar de cereais e caça. À medida que foram adquirindo a habilidade de criar artefactos mais desenvolvidos também a agricultura se desenvolveu. Confúcio, o grande pensador chinês, deu-lhe prioridade e considerou-a o mais importante trabalho. A entrada deste milénio trouxe inovações culinárias e novas políticas agrícolas. Os Tang importaram culturas da Pérsia e introduziram a dupla colheita do arroz em todo o país. A expansão do comércio durante os Song e novas técnicas na construção de represas e bombeamento de água, bem como incentivos à construção por socalcos, levou a um crescimento enorme da agricultura que, por sua vez, trouxe um crescimento substancial da população. Decisivo foi o papel do transporte na evolução do sistema de comida chinês através da rede de canais entretanto construídos, por onde a agricultura cresceu e se espalhou. O mundo tornava-se mais globalizado e o comércio marítimo mundial durante a época Ming levou à introdução de novas culturas vindas do Novo Mundo, como a batata doce, o amendoim e o tabaco. A área cultivada cada vez era maior. 
A era Qing viu crescer ainda mais o comércio e a rede de mercados.

A agricultura na China desenvolveu-se primeiro a norte. A pressão populacional levou à pressão pela comida, forçando as pessoas a inovar ou à fome. Em tempos remotos, a agricultura existia conforme o clima o permitia e era desenvolvida perto da habitação. O comércio trazia informação sobre plantas e seu uso e isso explica o porquê da agricultura se ter desenvolvido também ao longo das rotas de comércio. 
Hoje, na China, quase todo o país está sob intenso cultivo. Existe uma grande variedade de climas e de paisagens e, logo, uma enorme potencialidade de comidas. Falta-lhe, todavia, o clima mediterrâneo, de grande importância agrícola. 

Poucos países transformaram tanto a sua paisagem como a China: durante séculos construíram terraços, diques e canais, irrigaram, desmataram e drenaram, de tal forma que a paisagem do país é hoje uma verdadeira criação humana, sempre seguindo o preceito de que a terra dá-nos oportunidades e deve servir os seus fins. No fundo, a paisagem é um meio para corresponder às necessidades humanas. 

O clima a norte é um clima continental, com invernos frios e verões quentes e baixa precipitação. A estação de crescimento e colheita é muito mais baixa do que a sul. O norte tradicionalmente está exposto a povos pastorícios, com abundância de pratos de cordeiro (influência dos povos mongóis e muçulmanos), e a sua cozinha é eclética. Verificamos a importância do trigo, do sorgo, do milho e do milho miúdo e não exclusivamente do arroz.

No leste da China, região centrada no baixo rio Yangtze, a precipitação é maior do que a norte e os invernos mais amenos, o que permite o cultivo de mais culturas. Encontramos uma agricultura aquática, focada na pesca e na piscicultura, com muito peixe e marisco. Shanghai é a maior cidade da região e a mais cosmopolita. A cozinha é sofisticada, delicada e saudável e exposta a ideias culinárias de outras regiões e países. 

Na zona ocidental da China o arroz é a cultura mais importante, mas o clima subtropical permite muitas outras culturas como trigo, aveia, soja, laranjas e cana de açúcar. A sua cozinha (Sichuan e Yunnan, por exemplo) é notada pelas suas poderosas especiarias. Encontra-se ainda o recurso a pratos fumados e ao uso de óleo e a uma mistura de diferentes sabores. Como a região está longe do mar para se obter peixe fresco, a alternativa é o uso de peixe de rio ou a importação de peixe seco.

O sul da China consegue ter culturas durante todo o ano. A região de Cantão é aquela que há mais tempo está aberta ao comércio internacional e geograficamente é possuidora de uma intrincada rede de rios tributários no delta do Rio das Pérolas para o comércio interno. E isso cria oportunidades. Existe aqui uma variedade enorme, desde carne, peixe, marisco, vegetais, especiarias, arroz com dupla ou até tripla colheita. Os cantoneses são enérgicos, independentes e empreendedores e, de todas as cozinhas chinesas, a sua cozinha é a mais conhecida internacionalmente.

Na China, no geral, verifica-se uma ausência de produtos derivados do leite (apenas com presença pontual a norte). O leite é historicamente encarado como um produto bárbaro, um preconceito da China para com a Ásia Central, para além de que o clima no país não é propício para a pastorícia, pelo que o teriam de os importar. 

Uma última palavra para o chá, uma cultura que gostamos de associar aos ingleses, mas que foi levada pelos portugueses da China para a Europa e só depois para a corte inglesa. Com origens no sudoeste da China, esta é uma tradição de vida ligada historicamente à meditação, à tranquilidade e à imaginação. Os budistas entendiam que o chá combatia a monotonia e a fraqueza e os taoistas acreditavam que o chá fazia com que as pessoas se mantivessem jovens e tornassem imortais. Beber chá tornou-se uma necessidade espiritual e a sua cerimónia não se limitava apenas ao acto de beber o chá ou à escolha do chá; antes, todos os detalhes haviam de ser tidos em conta, como a escolha da água, dos utensílios, do tempo, a ocasião. O chá está ligado a ideias como a frescura e a pureza. Nos dias que correm, rápidos e sem tempo para contemplações, pode não haver oportunidade para celebrações como a cerimónia do chá. Mas um bule de chá é o que nunca falta numa mesa de refeição chinesa.

E, para o fim, um reparo. Onde estão os doces, caros amigos chineses? Estranham os senhores que vos adocem a boca?

Festival Roupas a Secar – Shàiyī Jié


Mas Longji não se trata só de terraços de arroz e paisagem. As suas aldeias históricas trazem consigo as fortes tradições culturais associadas às suas minorias étnicas. Se em Ping’an é a etnia zhuang que domina, em Dazhai são os Yao que dão colorido à terra. E que colorido.


Por altura da nossa visita tivemos a felicidade de assistir ao Shàiyī Jié, o Festival das Roupas a Secar. No sexto dia do sexto mês lunar, que este ano calhou na sexta-feira, dia 28 de Julho, as mulheres yao, conhecidas pelos seus longos cabelos que nunca são cortados, vestem as suas roupas tradicionais e colocam-nas ao sol, nas varandas, às janelas ou na rua, a secar. A aldeia fica com um colorido imenso e fantástico. 

O propósito é o de que o sol desinfecte e purifique as suas roupas. 

Esta tribo yao é parte da minoria étnica de mesmo nome que tem cerca de 2 milhões de indivíduos estabelecidos sobretudo no sul da China, mas também na Tailândia, Vietname e Laos. 


As meninas yao de Dazhai, em especial, saem todas à rua e mostram-nos as suas roupas cheias de adereços, como cintos, bainhas, colares e acessórios de prata. Reúnem-se em círculo ao redor da praça principal e mostram-nos as suas habilidades ao tear, bordando as roupas vistosas que depois haveremos de ver desfilar nos seus corpos.



Os homens, por seu lado, atiram-se ao estreito rio vestidos nas suas roupas escuras pescando os peixes com as suas próprias mãos, uma mostra de virilidade para o delírio total das massas.

Não podia haver melhor forma para nos despedirmos da China.

Terraços de Longji

E, enfim, para o final da viagem pelo sul da China que se pretendia rural calhou-nos uma vaga ideia de ruralidade e de remoto. 
Os terraços de arroz de Longji estão a 90 km de autocarro de Guilin mas a todo um mundo de distância. São mais de duas horas num caminho maioritariamente ziguezagueante e de tirar o fôlego; pelas paisagens fabulosas, sim, mas também pelas curvas apertadas numa estrada estreita que deixa ver as ribanceiras demasiado próximas. 


Esta área ficou completamente fora dos radares do turismo até aos anos 90, altura em que fotografias dos seus terraços atraíram as atenções do mundo. 
O sítio é extremamente fotogénico, mas é igualmente uma ode ao espírito criador e ao engenho do Homem. Ao longo de cerca de 60 km os chineses têm hoje, num processo que teve o seu início  no século XIII, durante a dinastia Yuan, um complexo e completo método de irrigação que faz um óptimo uso da escassa área arável e deste declivoso terreno montanhoso. E, assim, conseguem plantar arroz num local muito improvável.


Longji significa literalmente “espinha do dragão”. É isso mesmo que o recorte dos terraços alcandorados na montanha faz lembrar. A imaginação dos chineses para nomes sugestivos é um mimo e aqui funciona na perfeição. Eis alguns dos nomes dos lugares a visitar: “música do paraíso”, “mil camadas para o céu”, “nove dragões e cinco tigres”.

Normalmente, quem visita os terraços de Longji opta por pernoitar numa de três aldeias: Ping’an, Dazhai ou Tiantou. 
Ficámos com esta última. 


Saímos no autocarro em Dazhai e caminhamos cerca de meia-hora até ao nosso inn, logo começando a sentir a força do cenário. Dependendo da época do ano em que se visita estes terraços de arroz, as cores serão diferentes. A seguir à época de chuva de Maio os terraços estão verdes e, por isso, Julho é uma das melhores alturas para se visitar. Claro que os fã das tonalidades amarelas não concordarão e os amantes do gelo ainda menos. De qualquer forma, esta época é preciosa para se entender a importância da água na dinâmica da cultura do arroz. A água vai escorrendo pelos vários andares e as plataformas têm de estar permanentemente com água em abundância. Caminhamos tão perto dos terraços, mesmo dentro dos terraços – com cuidado para não estragar o trabalho dos agricultores – que nos apercebemos destes pormenores.





O arroz e a forma como é cultivado em terraços é rei e um monumento que vale bem a pena qualquer desvio na viagem. Mas a paisagem que o acompanha é deslumbrante. Existem diversos pontos de observação e quanto mais elevados mais soberbo o ponto de vista que abraça toda a região. 
O turismo não abunda por aqui, pelo que é fácil sentirmo-nos em sossego e em paz com a vida num lugar como este. Fosse tudo tão simples assim.






Só há três coisas a fazer por aqui: caminhar, sentar nesta espécie de anfiteatros e tirar fotografias. E, à noite, uma quarta: olhar as estrelas. Tantas e tão belas, a provar que na China o céu também ainda pode ser limpo, limpo.
A aldeia de Tiantou é apenas um ponto na paisagem, perdida nos socalcos montanhosos. Está preparada para receber os turistas e recebe-os com simpatia. 



A aldeia de Dazhai não é muito diferente, mas é maior e com mais infraestruturas. Em ambas a arquitectura típica são as casas de madeira clara com telhados escuros. Ruas não existem propriamente, antes caminhos. As mulheres das aldeias possuem rostos duros e marcados, de idade indefinida. 30 anos ou 60 anos? Toda uma vida a separá-las, mas nunca saberemos. Curiosamente, são elas que desempenham o papel de carregar às costas as malas e outra carga dos turistas “cansados”. Não os homens da aldeia.

Yangshuo


A chegada a Yangshuo tem obrigatoriamente de ser feita por rio. 
Só assim se preenche a alma.
A ideia de que o cenário da região de Guilin se resume a colinas e rios é mais forte do que nunca em Yangshuo. Por aqui nunca estamos longe demais de um rio e, bem, é mesmo impossível deixarmos de avistar uma qualquer elevação. Na verdade, elas são tantas e tão majestosas, que dir-se-ia que é impossível não nos deixarmos perder entre pináculos. 
Embebidas naquela floresta de pura beleza, não exageradamente considerado um dos mais belos cenários do mundo, o mais feliz é sentar junto ao rio e ficar a contemplar a paisagem.
Diante de nós temos, ao mesmo tempo, um pedaço de tranquilidade e de caos num equilíbrio perfeito.

Receio que o centro de Yangshuo seja como o centro de Guilin, um ajuntamento de feios edifícios construídos pelo Homem rodeado por belas colinas criadas pela Natureza.
Porém, as cores do final do dia, em especial vistas da Colina Xilang, no Parque Yangshuo, tornam este conjunto uma enorme obra-prima. Que bela joint venture!

Infelizmente, aquando da nossa visita derrocadas recentes fecharam o Pico do Lotus Verde, um dos pontos mais concorridos e vista privilegiada de Yangshuo para o rio Li, pelo que não tivemos oportunidade de o “escalar”. Ficámo-nos pela vista desde a promenade de Yangshuo, observando o movimento do ferry que cruza as curtas margens, os meninos que tomam banho nus, os barcos de bambu que por ali vagueiam. De repente vem-me à ideia um reputado nadador chinês, Mao. Será que Mao, que tanto gostava de nadar em rios, será que Mao também nadou no rio Li?

A pequena cidade é movimentada de dia e de noite, com lojas e mercados de rua e bares e restaurantes. Não era essa, porém, a nossa ideia de programa para Yangshuo e até ficámos alojadas na outra margem do rio. Nas redondezas do centro da cidade vêem-se vários hotéis, alguns deles designados “retreat”, e passar alguns dias por aqui, nesta paisagem lírica, retempera qualquer um.

A melhor forma de se explorar os arredores de Yangshuo é fazê-lo de bicicleta. Sem ela não se conhece verdadeiramente a floresta de pináculos de calcário de Yangshuo. Um passeio para um dia completo é sair de Yangshuo de manhã cedo e rumar até à Colina da Lua e daí até à Ponte do Dragão e voltar, num percurso quase circular. São cerca de 30 / 40 km.

Até chegar à Colina da Lua passamos ainda pela enorme árvore Banyan que, diz-se, terá cerca de 1500 anos e 17 metros de altura e muitas ramificações.


A Colina da Lua é um dos símbolos de Yangshuo. A subida até lá não é fácil, mas após muitas centenas de degraus ganha-se (mais) uma vista soberba para as erupções rochosas descontroladas da paisagem fabulosa da região. E a novidade deste lugar é uma cave, como o nome o indica, em forma de lua. Mais uma oferta rara e inesperada da natureza.

Da Colina da Lua regressamos até ao cruzamento do rio Yulong e desta vez seguimo-lo. Este é um afluente do rio Li e nas suas águas barrentas pululam os chamados “bamboo rafting”, os tronquinhos de bambu a fazer de embarcação para os turistas descerem o rio.





É possível fazer o percurso de bicicleta acompanhando as curvas do rio mesmo ali ao lado. 
Percebe-se claramente o porquê de tantos barcos feitos de bambu: as suas árvores dominam a paisagem. 
Os arrozais também fazem parte da paisagem. O cenário aqui é dos mais luxuriantes e magnificentes. 
E é aqui, também, onde se pode observar cenas rurais, embora não tivéssemos tido a felicidade de testemunhar muitas delas, com excepção de um ou outro camponês a caminho do trabalho e um ou outro búfalo em pousio do calor. 
Quanto à cena típica de Yangshuo do senhor do pássaro, só mesmo para turista tirar foto e nós não estivemos para isso.

Imperdível, imperdível, por mais turístico que se possa achar que o é, é o espectáculo Liu San Jie, – Impressions. Dirigido por Zhang Yimou, que já tinha sido responsável pela Cerimónia de Abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim de 2008 e é um dos mais celebrados realizadores da China, este é um espectáculo de dança, luz e som que utiliza as montanhas e o rio como cenário natural. E que cenário soberbo este é. Num imenso teatro ao ar livre, todos os dias desde 2004 têm sido apresentados dois shows nocturnos com efeitos especiais onde participam cerca de 600 figurantes – parece que toda a cidade participa. Este espectáculo mostra-nos (dai o nome “impressões”) a vida das pessoas à volta do rio Li, nomeadamente a sua relação com o rio, os seus costumes, seu vestuário, sua música, sem esquecer as diversas minorias étnicas que por aqui habitam. O horário do nosso show apanhou o final da tarde, pelo que vimos ainda as montanhas de calcário debruçadas sobre o Li de dia e tivemos direito à mudança das cores de forma natural e, depois, de forma artística. Noite imensa. 
E interessante, também, para nos apercebermos como é tão diferente a maneira de viver um espectáculo por parte dos chineses e dos europeus. Eles em constante conversa e saindo rapidamente ao final do espectáculo; nós em silêncio e aplaudindo ao final como sinal de emoção e agradecimento pelo momento que os seus nos ofereceram.

Cruzeiro no Rio Li


“O rio é um cinto de seda verde, os cabelos de esmeralda das montanhas.”
Há mais de 1000 anos um poeta escreveu estas palavras. Depois dele, muitos mais anónimos se deixaram encantar e inspirar pela magnificência da natureza do rio Li. Aqui, o poderio da natureza impressiona. Aqui, não podemos ter do que reclamar da vida. Aqui, somos felizes.
Este é o melhor cenário de Guilin. E é o melhor cenário do rio Li. O rio Li tem 437 km, mas os 83 km entre Guilin e Yangshuo são a sua obra-prima e uma das obras-primas entre todas as paisagens chinesas. 
Registe-se: são 11 os barcos, cada um deles com cerca de 200 pessoas, que saem todas as manhãs do pier de Zhujiang, para percorrer as 4 horas de viagem pelas plácidas águas do rio Li, cuja monotonia é quebrada pelas formas bizarras das colinas de calcário e por uma ou outra cena rural. O momento alto é quando a guia informa que ali, justo ali, precisamente ali, é a montanha que vem em todas as notas de vinte yuan e, então, todos os chineses do barco lá se dão ao trabalho de subir até ao terraço para se amontoarem e tirarem a foto e, depois, voltam para baixo, para cantar, ver televisão ou dormir, deixando o terreno livre. Ou seja, aquilo que se temia que pudesse vir a ser uma tormenta, é afinal um cruzeiro pacato e uma manhã de pura doçura alimentada por uma paisagem maior de um rio que vai pedindo licença às senhoras colinas para lhes adelgaçar os colos.
Algumas fotos.























Eis o momento:



E o sossego continuou,