Eslovénia

Eslovénia. É a resposta ao post-advinha anterior. Eslovénia é o país sobre o qual escrevi.
No passado foi uma das repúblicas pertencentes à República Socialista Federal da Jugoslávia. Hoje, e desde 1990, é um país independente e, desde 2004, um dos Estados membros da União Europeia.
Triglav é a montanha mais alta (2864m) e importante do país. A tal montanha venerada pelos eslovenos e que consta da bandeira nacional. Faz parte dos Alpes Julianos, dá nome a um parque nacional – uma das maiores reservas naturais da Europa – e, tal como outros picos, é de uma beleza cénica fantástica.

Pico nevado do Triglav

É dentro dos limites ou nas proximidades do parque nacional Triglav que se encontram alguns dos cartões postais da Eslovénia. O Lago Bled, o lago Bohinj, o Vrsič Pass, o próprio Monte Triglav, o Vintgar Gorge.
Tudo brindado pela natureza e pela beleza. 
O lago Bled é a imagem turística mais forte do país. Este lago de águas verde esmeralda, envolvido por alguns dos picos mais altos dos Alpes Julianos, com um castelo medieval altaneiro num dos extremos e com uma ilha, onde se localiza uma igreja, apresenta um charme contagiante.

Acede-se à ilha através de um barco, a remos ou por pletna, um género de gôndola, que desembarca os passageiros na monumental escadaria que dá acesso à Igreja da Assunção de Maria.

Ver o lago de todos os prismas é obrigatório, pelo que dar a volta ao lago é essencial. Fizemo-lo a pé num percurso de 6 km ao redor do lago, o qual tem 2km por 1,4km. Pelo meio vimos os atletas de competição a treinarem remo no lago, provavelmente com os próximos Jogos Olímpicos no horizonte. Mais à frente adoçamos a boca com o bolo de creme de Bled (kremma rezina).

Também imperdível é ver o lago de cima. Subir a Ojstrika é pois fundamental para alcançar vistas amplas e soberbas.

Bled tem o glamour e com isso, quase, ofusca o lago Bohinj, que tem o encanto de ser mais natural e menos frequentado. Apaixonei-me de forma doce e serena pelo Bled, já pelo Bohinj foi paixão assolapada.

É muita natureza. É muito poder bruto o que se afigura aos nossos olhos. Apetece ficar e dar um mergulho com os miúdos naquele início de Primavera com surpreendente ar de Verão. Ou remar lado a lado com a canoa comandada pelo casal sexagenário.

Quem sabe apenas deitar e ficar a ler.

Ou até mesmo entrar e ficar com a água até à cintura para pescar, tal qual o pescador ali ao redor faz.

 

O que pesca? Talvez uma truta, como aquela (magnífica) que comemos já fumada no outro lado do lago, em Ukanc, antes de subirmos à Savica Waterfall.

 Ukanc

 Savica Waterfall

Conduzir pelas estradas que serpenteiam as montanhas, os rios e os lagos é um prazer. Tanto como caminhar pelas gargantas dos rios, que nos conduzem a quedas de água ou outros motivos de espanto. O Vintgar Gorge ainda está fechado, a recuperar da inclemência dos rigores do Inverno. Fazemos apenas um pequeno troço do rio Radovna e sentimos a potência da Sum Waterfall.

Lamentamos não podermos explorar a totalidade da amostra que admirámos. A frustração passa dias depois, quando temos a compensação da beleza de outro desfiladeiro em Tolmin.
Bem próximo de Itália, no ponta nordoeste da Eslovénia, fica Kranjska Gora, a maior estância de ski do país. É aí próximo, na pista de saltos de Planica, que os atletas treinam e sonham com uma medalha Olímpica  
Bem próximo também fica o lago Jasna e a bela reserva natural de Zelenci. Itália está mesmo ali à beira.

Lago Jasna

Zelenci

Encaminhamo-nos para mudar de vertente da montanha. Passamos o Vrsič Pass, grande obra de engenharia.

Antes, enquanto subimos montanha acima, maravilhamo-nos com a capela russa, arduamente construída por prisioneiros russos durante a 1ª Grande Guerra Mundial.

Depois de subirmos tudo e sentirmos os rigores meteorológicos, começamos a descer em direcção ao vale do rio Soča, na parte Sul/Oeste do Triglav. A paisagem deslumbra.

O verde é permanente e o azul transparente passa a acompanhar-nos. São as águas irreais e fascinantes do rio Soča.

Próximo de Bovec, capital do Vale do Soča e das actividades de aventura, os canoistas fazem parte da paisagem. São pontos coloridos a flutuar nas águas azuis transparentes dos rios, os quais são alimentado pelas águas puras que nascem na montanha e caem a pique para outros patamares.

 

Comprovamos isso na deslumbrante Virje Waterfall e na, não tão espectacular, Boka Waterfall, a qual, no entanto, é a mais alta da Eslovénia, com uma primeira queda de 106m e uma segunda de 30m.

Virje Waterfall
Em Kobarid nota-se reminiscências italianas, afinal a fronteira não dista nem 10km dali.
Palco da 1ª Guerra Mundial, é identificada na obra Adeus às Armas, de Ernest Hemingway. Fazemos o trilho histórico, percorremos caminhos trilhados na guerra, admiramos belas vistas, continuamos a impressionar-nos com a transparência e cor da água, alcançamos a formidável Kozjak Waterfall e deleitamo-nos com a alta cozinha do Hisa Franko, onde também pernoitamos.

Percorremos os rios Tolminka e Zadlascica na Tolmin Gorges. O deslumbre e a beleza não têm fim. Surpreendemo-nos a cada canto mais apertado e abrupto das encostas que ladeiam as águas translúcidas dos rios.

Rendemo-nos a Most na Soči, um lago artificial de um verde espantoso, para onde interceptam os rios Soča e Idrijca.

Entramos na região de vinhos. Primeiro as colinas ondulantes de Goridska Brda e depois o Vale de Vipava, de onde são provenientes os melhores vinhos do país.

Entramos no zona cársica por excelência. As grutas são uma constante. Visitamos a enorme e fascinante Postojna, com um largo sistema de cavernas, salas e passagens que se desenvolvem por 24km, que foram formados há 2 milhões de anos.

Bem próximo, deslumbramo-nos com o castelo Predjama, com uma localização impressionante, cravada no desfiladeiro. Encantador.

Aproximamo-nos dos poucos quilómetros – 47km – de faixa costeira que o país tem. Deixamo-nos ficar por Piran. Quase sentimos que estamos em Itália.

Não é de estranhar, a cidade é uma jóia da arquitectura gótica veneziana. A torre do sino, por exemplo, é inspirada na de San Marco em Veneza.

As ruas vão desaguar em praças à italiana, a comida traduz a influência histórica que por ali se foi sentido, pelo que os sabores são mediterrânicos.

A partir de Piran, a sudoeste da Eslovénia, numa diagonal marcada para nordeste encontramos, no centro do país, a capital Ljubljana.
Cidade perfeita no equilíbrio entre tamanho e qualidade de vida. É uma cidade muito agradável e vivida por uma população jovem. Em torno do rio Ljubljanica o acesso é vedado ao automóvel, pelo que podemos desfrutar da melhor forma a cidade e as suas múltiplas esplanadas.

No topo encontra-se o castelo.

Cá em baixo algumas das obras do arquitecto Joze Plecnik, que deixou grandemente o seu cunho na cidade, tal como a alteração à Ponte Tripla, a Biblioteca Nacional e Universitária e as colunas do Mercado Central.

 Ponte Tripla
 Biblioteca

Algo completamente diferente encontramos em Metelkova, a curta distância do centro da cidade. É um espaço alternativo, de contra-cultura, que se apropriou de barracões utilizados na Guerra dos Balcãs nos anos 90 do século passado. Apresenta um conjunto de bares e clubs e imperam os ideais anarquistas.

Mesmo ao lado encontra-se o óptimo Museu de Arte Contemporânea, que está associado ao Museu de Arte Moderna, ambos com colecções de artistas da Europa do Leste.

Caminhando mais para a parte noroeste do país e encontramos pequenas, mas muito agradáveis, cidades, como Celje e, sobretudo, Ptuj. Esta última fica na memória pelos telhados vermelhos que cobrem o compacto coração medieval e por a vista do outro lado do rio Drava, que a banha, se assemelhar a uma mini Coimbra.

 Celje
 Ptuj
Ptuj

Por fim, mesmo junto à fronteira com a Áustria, fica Maribor, a segunda cidade eslovena. Foi por aqui que começámos a nossa viagem por terras eslovenas e onde vimos escrito numa parede que o futuro é ali.

Não creio. Foi o único sítio dos quais percorremos que me pareceu pouco interessante, tirando uma praça, e sem grande potencial. Potencial só mesmo para ser uma equipa a perder nas competições europeias de futebol com o grande Sporting.

Futebol e Maribor à parte, a Eslovénia é um pequeno país a conhecer, pela beleza, serenidade e encanto que apresenta.

As Fronteiras

À partida para a viagem por alguns dos países dos Balcãs levava desde logo a ideia da necessidade de passar de uns para os outros pelas suas fronteiras terrestres (Croácia para Bósnia; Croácia para Montenegro; Montenegro para Albânia; Albânia para Macedónia).
Ouve-se hoje dizer amiúde que já não há fronteiras e a nossa experiência será maioritariamente a de ir directamente de avião para um local ou percorrer a Europa do espaço Schengen onde as fronteiras físicas não se sentem mais.
Aqui nos Balcãs recordei as palavras de Ryszard Kapuscinski nas suas Andanças com Heródoto: 
“(…) ao chegar à fronteira, as terras tornavam-se mais vazias, as pessoas escasseavam. Aquele vazio potenciava o carácter misterioso daqueles lugares. Reparei também que nas zonas fronteiriças reinava o silêncio, o mistério e o silêncio intrigavam e atraiam. Era tentado a ver o que estava do outro lado. Imaginava o que é que se podia sentir ou pensar ao atravessar a fronteira. Deve ser um momento de grande emoção, de tensão, de inquietude. Como será do outro lado? Seguramente é diferente. Mas que significa diferente? Parecido com quê?”

Albânia

A escolha da Albânia para participar no nosso tour não passava ao início de um adereço, um complemento a algo que julgávamos mais importante. Dava jeito fazê-la parte do programa para que por ela passássemos a caminho do Ohrid, na Macedónia, e como porta de saída para o retorno ao nosso país. Mas como aqueles actores secundários que provam entretanto toda a sua qualidade, arrebatando o protagonismo às estrelas, assim foi a Albânia para nós.
E, no entanto, foi tão pouco o que visitámos, apenas Berat e Tirana; tanto o que ficou por conhecer, em especial as tão desejadas – pela mana – praias do sul. Mas – opinião unânime do trio – foi aqui que melhor nos sentimos e encontramos as pessoas mais dadas e simpáticas (tirando a nossa #elianamonamour).
Não foram poucas as vezes que os albaneses se nos dirigiram para tentar comunicar conosco, mesmo que nada falassem para além do albanês ou não passassem de umas poucas palavras italianas. A senhora vestida toda de preto, igual às viúvas portuguesas, mostrando três dedos da mão, cada um deles correspondendo aos três filhos emigrados; o funcionário / guia da mesquita antiga de Berat, com os seus capisce após cada vinte palavras albanesas e duas italianas. Todos ficarão nas nossas memórias pela disponibilidade e simpatia.
A Albânia é Europa, mas custa a acreditar, sobretudo quando se a visita.
A Shqiperia, como se autodenominam os albaneses, sobreviveu ao comunismo e hoje está ainda muito fora dos circuitos turísticos. O que parece impossível se pensarmos que a sua costa está encravada entre as super populares costas do Montenegro e da Grécia.

 

Cortesia do regime comunista dessa irreal figura chamada Enver Hoxha, o ditador da terra. Não, não é uma figura irreal; aconteceu mesmo e deixou muitas marcas. Como a quantidade enorme de bunkers que vemos pelo caminho, nas estradas ou nas cidades. Eles são omnipresentes e crê-se que o regime terá construído cerca de 750 mil bunkers entre os anos 1950 e 1985. Estas estruturas de concreto e betão eram indestrutíveis e deveram-se à paranóia do ditador depois de se ter incompatibilizado com a Rússia, primeiro, com a China, depois, com o mundo, por fim. Foram muitos os anos de isolamento (até 1991, com o fim do comunismo) e hoje a Albânia tenta voltar à vida.
Antes, porém, à semelhança dos outros países que compõem os Balcãs, a Albânia viu passar pelo seu território os ilíacos, os gregos, os sérvios e os otomanos, bem como os venezianos na costa. No século XV o herói nacional Skanderberg (que dá hoje o nome à principal praça da capital Tirana) liderou a resistência contra os turcos. Bem mais tarde, já no século XX os italianos guiados por Mussolini ocuparam a Albânia. Os italianos ainda hoje têm aqui alguma influência, afinal de contas Itália fica muito perto em linha recta, com o Mar Adriático apenas a separar os dois países. Muitos albaneses arranham umas quantas palavras italianas, uma vez que os canais de Itália emitem também aqui.
Depois da II Grande Guerra Mundial os alemães foram corridos da Albânia e chegou então a vez do comunismo moldar o país. Em 1946 foi proclamada a República Popular da Albânia, com Enver Hoxha como presidente e camarada supremo. A sua morte em 1985 e o ano de 1990, com os acontecimentos pós queda do Muro de Berlim que se deram na Europa de leste, inspiraram os albaneses e as manifestações sucederam-se, levando a uma abertura e eleições democrática no país. Desde aí o parque automóvel albanês, que não passava de 10 mil automóveis (a maioria conduzidos por oficiais do partido), não pára de aumentar, sendo hoje cerca de 300 mil os carros que fazem do trânsito no país uma loucura.
Continuando, então, nos dias de hoje e na nossa viagem, entrámos na Albânia por Shkodra, vindas de autocarro do Montenegro. Às 7 horas da manhã a cidade, uma das mais antigas da Europa, já estava a bombar de movimento nas ruas, indivíduos para lá e para cá, lojas abertas à primeira alvorada.
Daqui teríamos que seguir para Tirana. Uma furgoneta albanesa esperava os viajantes do Montenegro e pediu-nos 5 euros por pessoa pela viagem, preço que considerámos bastante aceitável uma vez que no trajecto anterior, muito mais curto, havíamos pago 7 euros. Sem que nos apercebêssemos, deu-se uma confusão e uma discussão entre os motoristas (o do Montenegro e a da Albânia), num regateio de preço com gritos e quase empurrões, com o preço a ficar estabelecido nos 3 (?) euros para uma viagem de cerca de 2 horas. Não foi a nosso pedido, entrámos no veículo com algumas dúvidas de que ele fosse capaz de chegar ao seu destino, e embalámos num sono ao som de uma conversa entre outros passageiros em que só entendíamos a palavra “máfia”. Durante a estadia na Albânia não vimos nenhuma máfia, mas confirmaríamos que os preços aqui praticados são mesmo muito baixos – refeições completas bem saborosas a 5 euros por pessoa, gelados a 14 cêntimos, enfim, preços que não são da Europa.
Depois de atravessarmos parte do centro do país rumo a Ohrid, na Macedónia, regressámos e estabelecemo-nos em Berat.

 

 

Berat, classificada pela Unesco como património da humanidade, é uma cidade de clara influência otomana, mais conhecida como a “cidade das 1000 janelas”. Oferece-nos uma quantidade infinita de casas brancas de telha ocre escurecida com janelas definidas por um castanho que as realça. Todas estas personagens estão plantadas nas montanhas, uma de cada lado, atravessadas por um rio praticamente seco. Se o rio não é bonito, o nosso olhar dirige-se quase por inteiro para aquele emaranhado de casas e janelas, construídas em ruas empedradas estreitas em que é fácil deixar-nos perder.

 

 

Ao caminhar pelas ruas inclinadas no quarteirão de Magalem fomos convidadas para um jantar familiar. Recusámos mas não deixámos de provar a deliciosa cozinha albanesa, com um sabor muitíssimo bem apurado, a melhor de todos os países balcânicos que visitámos. Talvez também por isso, porque uma viagem não pode ser inteira sem sentir os sabores dos sítios, a Albânia nos cativou.
Para além da beleza da disposição destas casas de janelas peculiares e da sua cozinha, em Berat deixamos-nos seduzir pelas pessoas. O funcionário da mesquita antiga da cidade foi-nos explicando pacientemente que nos tempos do comunismo a mesquita foi uma sala de jogos de pingue-pongue umas vezes e um supermercado noutras. A religião não era, então, bem vista. Apesar de o islão ser a religião maioritária entre os albaneses, cerca de metade deles parece declarar não ter qualquer religião. Curiosamente, a figura albanesa mais conhecida em todo o mundo é a Madre Teresa de Calcutá, cristã.
Voltando à explicação dada pelo nosso amigo, o islão professado na Albânia é um islão de tipo sufi, mais moderado e tolerante aos outros. Ouvi-o com indisfarçável interesse, certamente o meu olhar não enganava, eu que tenho muita curiosidade pelo islamismo, e ainda tremo de emoção só de pensar no momento em que o meu amigo albanês me ofereceu um Alcorão em albanês e em árabe. A simpatia não tem limites.

 

Em Berat há ainda a visitar o castelo, lá bem no alto, uma jornada algo extenuante – para cima porque doem as pernas e a respiração arfa, para baixo porque as pedras de que é feito o chão fazem os nossos passos escorregar. Mas vale a pena, quando mais não seja pela visita ao Museu Onufri, o maior pintor albanês, que entre os séculos XVI e XVII pintou uns ícones belíssimos.

 

Se em Berat, que é uma terra pequena, vêem-se poucos turistas, em Tirana devemos ter-nos cruzado cada uma com uma mão cheia deles. Ficámos alojadas perto do mercado da capital, onde gabámos as azeitonas aos montes. Ainda a salivar por elas, ao jantar pedimos como entrada um prato de azeitonas e qual não foi o nosso espanto quando demos com um prato normal e inteiro delas, uma rodela de laranja a apurar o sabor. Melancias, essas, vêem-se por todo o lado, no mercado, sim, mas também na beira das estradas, enormes.

 

 

Toda a zona a leste da Praça Skanderberg parece ser um enorme mercado. As ruas são tomadas pelos objectos que se pretendem vender, desde bicicletas a sofás, livros, ventoinhas, o que calhar, numa extensão das lojas que ocupam o piso térreo dos edifícios. Estes estão um bocado decrépitos, se não inteiramente em ruínas parece que alguns podem cair a qualquer momento. O urbanismo não é bonito. Muito haverá a fazer na Albânia antes ou ao mesmo tempo do que a conservação do edificado. Mas Tirana possui uma ideia – concretizada – muito bonita e interessante: umas pinceladas aqui e ali em alguns blocos de apartamentos dão-lhe um colorido e uma alegria inesperados.

 

 

 

Tirana é uma cidade segura. O seu centro desenvolve-se ao redor da Praça Skanderberg (tornado herói para defesa de uma causa nacionalista), uma zona bem cuidada onde para além dos hotéis  ficam instalados quase todos os locais de interesse para os forasteiros. Aqui fica a Mesquita Et’hem Bey, o Museu de História Nacional com o fantástico mural socialista a encimar a sua fachada, a Ópera e Teatro Nacionais e diversos edifícios que albergam ministérios. Apesar da arquitectura de inspiração estalinista, não chocam as suas proporções, pelo contrário, é uma zona equilibrada. Aqui perto fica ainda a Galeria de Arte Nacional. O edifício de linhas rectas é bonito e a sua colecção é muito interessante. Logicamente, dominam as temáticas socialistas, algumas grandiosas, com o povo laboriosamente a trabalhar para a construção de uma sociedade comum.

 

 

No jardim do outro lado da avenida encontramos mais uns quantos bunkers, convivendo pacatamente junto a bancos coloridos.

 

Tirana tem vida e ela não é artificialmente criada por umas simples pinceladas de cor, como surpreendentemente constataríamos após uma caminhada pelo quarteirão Blloku. Nos tempos do comunismo este bairro era onde estavam instaladas as moradias dos líderes políticos do país, lugar de acesso vedado ao comum dos cidadãos. Hoje é ocupado pela classe média alta que reside nos seus apartamentos de bom ar e consome nas suas lojas, bares e restaurantes. E, sobretudo, diverte-se nesta zona animada da cidade. A ocupação dos passeios pelas esplanadas e os portões de acesso aos edifícios fizeram-nos lembrar as ruas da zona sul do Rio de Janeiro. Até o calor e noite quente ajudou a essa lembrança.

 

 

Percorrer as ruas deste bairro a oeste da Avenida Skanderberg é, pois, muito agradável. Uma subida ao topo do edifício do Sky Club Bar permite-nos conhecer Tirana por um outro prisma e ter uma melhor noção da sua implantação. As montanhas cercam-na e a amálgama de edifícios coloridos é aqui também evidente.

 

 

 

Antes disso, porém, já tínhamos tido oportunidade de ver a cidade de um outro ponto elevado, embora nem pouco mais ou menos tão alto como o do Sky Club Bar. A estranha Pirâmide, construção de 1988 de iniciativa do ditador Enver Hoxha, cujo projecto ficou a cargo da sua filha e genro, já foi um museu, um centro de convenções e mais recentemente um clube nocturno. Ninguém sabe o que fazer com ela e enquanto isso, votada ao abandono, vai sendo grafitada e os seus vidros vão sendo deixados partidos. O ar é de fim de festa. No entanto, apesar do absurdo desta estrutura no contexto urbanístico, conseguimo-nos divertir por aqui, mais um sinal do bom e descontraído ambiente que se sente em Tirana. À partida a subida até ao seu cume parecia missão só para uns quantos destemidos, como o trio de rapazes que observávamos desde cá debaixo, tal era a inclinação das paredes da pirâmide. Mas, enchendo-nos de coragem, não desdenhámos um desafio e uma aventura e lá fomos por ali a cima, o trio de portuguesas rumo ao pináculo do maior símbolo da decadência do antigo regime na capital da Albânia, a terra da águia.

O Lago Ohrid

O destino era Ohrid, o lago. A ideia era levar apenas esta paisagem da Macedónia.
A Macedónia foi uma das seis antigas repúblicas jugoslavas, mas possuía outras aspirações que não pertencer-lhe e até tinha uma linguagem própria. Foi a única a obter a sua independência através de uma secessão pacífica em 1991. O problema veio depois, quando quis usar o histórico nome “Macedónia” e os gregos mostraram-se contra, por considerarem que este é o nome de uma província sua e nada mais. Daí que seja mais conhecida como FYROM – Former Yugoslavia Republic of Macedonia. Para além disso, o país sofre com uns quantos problemas étnicos com os albaneses que aqui vivem. 
Resumindo, isto é os Balcãs, o caldeirão. 
A nossa chegada ao país foi interminável. Saímos às 6:30 da manhã de Ulcinj, no Montenegro, rumo a Shkodra, na Albânia, e daqui para Tirana, onde apanhámos o carro no rent-a-car onde esperámos por um documento que nos permitisse levar o carro até à vizinha Macedónia. Saindo com sucesso do trânsito louco da capital albanesa partimos em direcção ao Lago Ohrid, atravessando parte da Albânia, estradas demoradas e um bocado monótonas. Na fronteira da entrada da Macedónia ouvimos uns quantos berros e soubemos aí que tínhamos que pagar (mais) 50 euros para poder entrar com o carro no país. Que raio de documento estivemos afinal a aguardar junto da nossa querida Eliane, albanesa de ar angélico que nos embarretou à grande? Deu até direito a um hashtag que passou a marca da nossa viagem: #elianamonamour
Estávamos cansadas física e psicologicamente e eu – que fizera força para desviarmos até Ohrid – não tinha certeza de que o lugar não fosse um grande barrete, decadente e cheio de turistas. A entrada na estrada junto ao lago, para quem vem da Albânia, não parecia melhorar o estado de espírito: praias não tão lindas assim, cenário piorado pela gente que as frequentava. Mais um imenso piscinão, pensámos. Foi então que chegou a tirada da nossa Katarina de que para encontrar pouca gente em Ohrid talvez fosse melhor voltarmos em Novembro.
Mas, num ápice, o ar de Ohrid pôs o desânimo a sair a voar.
Ohrid é o principal destino da Macedónia. O Lago Ohrid – leia-se Orrid – tem 34 km de serenidade absoluta, pontilhada aqui e ali com igrejas bizantinas belíssimas. Este que é o mais antigo lago da Europa (estima-se que tenha 3 milhões de anos) e um dos mais antigos do mundo, é partilhado entre a Macedónia (dois terços) e a Albânia (um terço) e possui 300 metros de profundidade. 
A cidade de Ohrid é o maior povoamento da região e o seu nome significa “cidade no monte”. 
Historicamente, os bizantinos exerceram por aqui influência, tal como os incontornáveis otomanos,  os eslavos búlgaros e os gregos. Os búlgaros, esses, ainda para aqui vêm aos magotes, mas agora de férias. 
O que há, então, para ver e fazer em Ohrid? Desde logo as referidas igrejas bizantinas. E depois, ou ao mesmo tempo, deixar-nos estar a olhar para o lago.
A Sveti Jovan Kaneo é a estrela e é provavelmente a imagem mais difundida da Macedónia. Construída no século XIII, fica altaneira à beira do lago. A sua arquitectura é deliciosa, um intrincado de telhas que torna difícil crer que possa ter sido obra humana. A sua localização, no entanto, absorve quase todos os nossos sentidos. É boa ideia vir aqui a diferentes horas do dia para que se possa tomar conta das várias tonalidades do lago, mas a hora do fim do dia será a melhor. 

Kaneo, o lugar, possui um ambiente inspirador. Quer pela igreja lá no alto, quer pelos recantos que vão fazendo praias cá em baixo. Tem gente, sim, mas não tem aquele ar de subúrbio atulhado de gente em cima de gente. E um bom passatempo para acompanhar uma bebida à beira do lago é ir vendo os típicos barcos a passar.
Para além da suprema Sveti Jovan, não se deve perder a Catedral de Sveti Sofija, cuja acústica é fantástica (tivemos a sorte de a visitar quando um artista tocava ao seu piano) e alguns frescos ainda em recuperação deixam entrever muitas maravilhas. 

A minha preferência, porém, vai para a Igreja e Mosteiro de São Pantaleão, recuperada praticamente por inteiro nos últimos anos. Mais um exemplo do estilo bizantino e mais um exemplo de localização perfeita.

Um pouco por todo o lado vamos encontrando muitas mais igrejas, algumas pequeninas, mais parecendo capelas, todas deliciosamente belas.

A cidade de Ohrid é muito agradável. As suas casas estão dispostas numa encosta do monte e por entre as ruas estreitas e declivosas encontramos vários exemplares típicos de edifícios pintados a castanho e branco. A atenção colocada na decoração das moradias é outra beleza que a cidade tem para nos dar, com as flores no pátio de entrada e às janelas a fazerem lembrar a  Córdoba espanhola.
Para uma esmagadora vista da cidade, lago e arredores a subida ao Castelo é essencial. Aqui confirmamos o título de Ohrid, a cidade no monte.

Um passeio de barco pelo lago vale muito a pena. Até Sveti Naum são cerca de 70 minutos de pura contemplação. Aqui chegadas não é tanto o seu mosteiro que merece a visita, mas mais o enquadramento do lugar. Uma praia calma com cadeiras sobre a água no lado esquerdo do mosteiro e uma zona de restaurantes deitados sobre um lago de água de um verde intenso no lado direito do mosteiro.
De Sveti Naum sai rumo a Ohrid todos anos uma maratona aquática de 30 km, a realizar precisamente no próximo sábado. Mais uma vez a Katarina é que sabe: é sempre o búlgaro a ganhar; pelo menos até que umas portuguesas se dediquem aos treinos e arrebatem o seu ceptro.

As montanhas do Montenegro

Depois de uns dias bem passados em Kotor e sua vizinhança, abandonámos a zona costeira do Montenegro e seguimos rumo às montanhas. Balcãs significa montanhas e o Montenegro, um dos países que integra esta região, é isso mesmo: montanhas e mais montanhas.

De carro de Kotor a Cetinje, a capital histórica do país, sobe-se o Monte Lovcen, o berço nacional a 1749 metros, para em seguida o descer. A subida é efectuada sempre com vista para o soberbo Golfo de Kotor, enquanto que na descida da encosta contrária observamos a paisagem a mudar completamente passando a ruralidade a ser a marca. Aproveitámos para comprar umas fatias do presunto local Njeguški, o qual degustámos num piquenique na pacata Cetinje. Centro espiritual do país, Cetinje possui ainda relevância política, uma vez que aqui estão instalados alguns serviços do governo e é aqui também que fica a residência oficial do presidente da república. Nesta antiga capital, de dimensões muito reduzidas, é um prazer caminhar pelas suas ruas através de quintas, mansões, museus e galerias, tomando nos dias de hoje o lugar que antes pertencia às embaixadas. Aqui fica também um mosteiro importante. 

Deixando Cetinje rumo a norte, visitámos o Mosteiro de Ostrog. É um complexo de dois mosteiros, um à beira da estrada principal e o outro num nível elevado. A localização deste último é surpreendente: fica encravado na montanha, a 900 metros de um vale. O branco alvo do mosteiro é vivíssimo e destaca-se da montanha a quilómetros de distância. Construído em 1665 e dedicado a São Basílio, um dos santos mais venerados da igreja ortodoxa, este é o mais importante mosteiro cristão ortodoxo do Montenegro e aqui vem gente de toda a vizinhança em peregrinação, não apenas crentes ortodoxos, mas também católicos e muçulmanos. Observámos a devoção dos crentes e apreciámos os frescos lindíssimos que o mosteiro acolhe. As pinturas são vívidas e de cores fortes, representando momentos da vida do Santo e seus companheiros.
Após deixarmos Ostrog o destino foi Scepan Polje, na fronteira com a Bósnia. A estrada até lá é provavelmente uma das mais bonitas de se percorrer em todo o mundo. Os sentidos têm obrigatoriamente de estar todos alerta, quer pela paisagem estupenda quer pela sinuosidade e estreiteza do seu trajecto. Passamos pelo Canyon de Piva, rio transformado em parte em barragem que alimenta uma hidroeléctrica, de uma cor azul tão intensa tão intensa que faz dele o parceiro ideal para as altas rochas da montanha que acompanham o seu percurso. O Canyon tem cerca de 1000 metros de profundidade e 33 quilómetros de extensão; a estrada absolutamente cénica corre ao longo do Canyon de Piva e possui o incrível número de 56 túneis, ou seja, sai-se de um para logo entrar no outro.
Mal refeitas de tanta beleza dá-se a chegada a Scepan Polje, praticamente nada mais do que uma fronteira e um assentamento de vários campings donde sai a actividade mais atractiva do Montenegro: o rafting. Nós escolhemos o Tara Tour, um conjunto de chalets no meio de absolutamente nada a não ser o rio Tara. Quando o rio Tara se junta ao rio Piva a sua confluência forma o rio Drina. 

O Canyon do Tara não é menos espectacular. A sua profundidade chega a 1300 metros e é considerado o mais longo e profundo da Europa. Fizemos rafting por umas horas, ao longo de cerca de 18 quilómetros entre Brstanovica e Scepan Polje. A adrenalina da aventura dos rápidos praticamente não existe e é muito bem substituída por momentos mais contemplativos, de puro gozo do cenário que temos a sorte de ver. O barco levava 3 portugueses porreiras, 6 parvos montenegrinos e um guia montenegrino mais do que parvalhão. Mas não interessa. Quase todos nos rendemos à natureza soberba e deixamo-nos mergulhar na fria água do Tara.
Esta zona fronteira com a Bósnia está à porta do Parque Nacional Durmitor, uma reserva da biosfera, fauna e flora rica, um dos destinos mais esperados da nossa viagem, não só pelo rafting, mas também pelas caminhadas que esperávamos fazer.
De Scepan Polje para Zabljak, a “capital” do Durmitor, a estrada volta-nos a levar pelo Canyon de Piva e depois segue mais interior para uma paisagem completamente diferente. Um ambiente absolutamente rural, montes de palha elaboradamente equilibrados em forma de cone, uma casinha aqui ou ali, isto num género de curto planalto. Eis que então as montanhas do Durmitor chegam, lindíssimas, talvez parecidas com as Dolomites que nunca vi de perto.

Ficámos a dormir em Zabljak e aqui apercebemo-nos de como os montenegrinos sabem ser simpáticos. A nossa anfitriã Milena não falava uma palavra por nós entendível, sendo o inverso verdade, mas ainda assim foi a custo que parou com as boas-vindas e as suas ofertas de bebida.
Zabljak é uma típica cidade turística de montanha: seja de inverno para o esqui, seja de verão para as caminhadas. Tem umas quantas casinhas coloridas e pouco mais. E não precisa de nada mais, porque o interesse está todo da natureza.

O nome Durmitor significa “água da montanha”. Bem acessível desde Zabljak ficam uma série de lagos belíssimos, sendo o mais popular o Crno Jezero, “lago negro”. Na verdade, este são dois lagos separados: o Veliko Jezero, “grande lago”, e o Malo Jezero, “pequeno lago”. Este último chega a ter 49 metros de profundidade, profundidade não averiguada pela mana, que se ficou apenas por umas quantas braçadas na sua plácida água. É possível  – e devida – uma agradável caminhada à volta destes dois lagos feitos um, havendo uma passagem entre eles caso queiramos colocar as canelas na água para a provar.

O Bobotov Kuk, o monte mais alto do parque, a 2523 metros, está sempre vigilante. A sua ascensão é uma das caminhadas estrela no parque, coisa para umas 12 horas. Não o fizemos.
Caminhamos, antes, até ao Zminje Jezero, o “lago cobra” e Crepulj Polyana. Este último é um vale rodeado de montanhas, a 1648 metros de altitude, com uma vegetação rasteira e duas casas de montanha ali a compor a paisagem. Foi aqui que escolhemos fazer a nossa pausa de almoço. Enquanto trocávamos umas poucas impressões, um senhor que havia passado por nós e retornado resolveu parar ao nosso lado. “Portuguesas? Adoro fado. Adoro a Mariza.” E continuou a sua jornada apregoando “Rosa Branca”. Era um sérvio apaixonado pela nossa língua e foi com emoção que eu, tudo menos nacionalista e admiradora de Mariza me confesso, vivi esta experiência.

Sossego foi a nota dominante nos passeios pelo Durmitor, já que raramente nos cruzámos com parceiros caminhantes para além do Lago Negro.

No Durmitor fica uma obra de engenharia de excelência: a Ponte Djurdevjca sobre o rio Tara. Construída entre os anos 1937 e 1940, tem uma extensão de 365 metros, mas a sua grande distinção e o que lhe dá elegância é o seu enorme arco, a 160 metros do rio. 
As estradas por aqui continuam fantásticas e o Canyon do Tara é agora a estrela.

Daqui seguimos para Podgorica, a capital do Montenegro. Antes, porém, dois apontamentos no caminho: o Mosteiro de Moraca, do século XIII, cuja implantação e frescos que acolhe merecem uma visita; e a estrada completamente louca que segue o Canyon de Moraca. Se um carro cai dali são cerca de 300 ou 400 metros a pique. Os condutores que a utilizam são de um atrevimento sem noção. Bruscos, não hesitam qualquer ultrapassagem em alta velocidade, independentemente de haver uma curva sem visibilidade a poucos metros e três ou quatro carros para passar num ápice. Apesar de a paisagem que acompanha a estrada ser belíssima, dificilmente nos conseguimos concentrar no belo. Medo.

Podgorica é um ponto que muitos aconselham a passar rapidamente. Optámos por aqui almoçar e  passar toda a tarde e noite. Apesar de não haver muito para ver e fazer, não nos arrependemos. Caminhámos pelas suas ruas, edifícios de apartamentos que são autênticos blocos de concreto, fogo à beira da Ponte Milénio, só para juntar cheiro e mais calor aos 40 graus que se faziam sentir. Podgorica, a antiga Titograd, significa “debaixo do monte”, e ficou quase completamente destruída na II Guerra Mundial. Possui uma localização central no país e hoje tem 150 mil habitantes, sendo uma das mais pequenas capitais europeias. Aqui visitámos o centro de arte contemporânea que fica no Palácio Petrovic, do outro lado do rio. As luzes foram ligadas de propósito para nós apreciarmos obras de artistas jugoslavos das últimas décadas. Demos um curto passeio pela zona histórica (?), onde é possível colher figos nas suas ruas. Acontecerá tal no centro de mais alguma capital europeia? A surpresa, porém, veio ao fim da tarde e noite. Todos parecem sair à rua e perto da praça central ficam umas ruas de bares e restaurantes muito modernos e concorridos. Conclusão: afinal estamos numa cidade e na Europa. A vida nocturna é o ponto alto de Podgorica, não tanto para beber a tradicional aguardente Rakija, mas talvez um mojito ou um gin.

Perto de Podgorica fica o Lago Skadar, um dos parques nacionais do Montenegro mais visitados. Este é o maior lago dos Balcãs e é partilhado pelo Montenegro e Albânia (que possui uma pequena parte). Toma a forma de um golfinho e aqui fica uma das maiores reservas de pássaros da Europa. O nosso objectivo não era tanto ver os pássaros, nem fazer provas do vinho local Vranac, antes deambular por aqui. Uma das imagens mais difundidas do Skadar é aquela em que a disposição de dois montes fez os locais lembrarem-se de apelidar o sítio de Sophia Loren.

Por aqui encontramos uma série de vilas de pescadores. Algumas, como Rijeka Crnojevika, são encantadoras com a sua ponte, outras, como Virpazar, servem de ponto de partida para inúmeros passeios de barco pelo lago.

Mais para sul, num território mais remoto a caminho da Albânia, outras vilas de pescadores marcam também presença, mas aqui aparecem uns mosteiros para compor a paisagem. A paisagem, essa, é muito bonita, composta pelas montanhas Rumija e o espelho da água do lago.

A Costa do Montenegro

De Dubrovnik, na Croácia, a Kotor, no Montenegro, são cerca de duas horas de autocarro, sem demora na fronteira. O Mar Adriático é partilhado, assim como o são as belas montanhas. A zona costeira montenegrina, em especial a sul, onde fica Budva e o Golfo de Kotor, é a mais turística e uma das regiões mais belas do país.
Optámos por fazer de Kotor a nossa base e depois de visitarmos a sua vizinhança temos a certeza de que foi a melhor escolha. 
Quando desce da Croácia e entra no Montenegro, o Adriático a certa altura vê a terra fazer um corte e resolve meter para dentro criando o Golfo de Kotor. Há quem se lhe refira como um fiorde, o mais a sul da Europa, o único do Mediterrâneo, mas fiorde ou não o certo é que a paisagem é superlativa de elogios. A estrada segue junto à baía com a montanha a subir abruptamente num enquadramento magistral. Antes de chegarmos a Kotor temos aquele que é um dos momentos altos da paisagem montenegrina: a vila de Perast com as suas duas ilhas no meio da baía. Já lá iremos.
Kotor é uma cidade medieval do século XV de influência veneziana. O leão na Porta do Mar, símbolo de Veneza, não deixa dúvidas. Aliás, esta influência está presente em toda a costa do Montenegro até se chegar a Ulcinj, onde é a vez da influência turca dizer presente e a vizinhança da Albânia a ter mais poder.

Kotor é encantadora e a sua localização não podia ser melhor. No fim do Golfo de mesmo nome, fica numa encosta estendida para o mar e abraçada pelas montanhas cinzentas pintadas de vegetação aqui e ali. A cidade, em forma triangular, como se observa bem do alto da sua fortaleza, é muralhada, com ruas estreitas e praças acolhedoras. A torre do relógio será o seu maior símbolo, mas as suas praças são rainhas e tem nomes deliciosos como Praça da Salada (onde ficava o nosso apartamento temporário) e Praça do Leite.
Kotor foi um histórico porto marítimo, pertenceu aos romanos, aos ilírios, aos sarracenos, aos búlgaros, aos sérvios, aos otomamos, aos venezianos, aos habsburgos e hoje recebe as centenas de turistas que diariamente aqui param nos barcos de cruzeiro. Assim, se durante o dia as ruas estão cheias de pessoas, ao fim da tarde a coisa melhora e o acto de nos deixarmos perder pelas ruinhas de Kotor toma outro encanto.

As manhãs, essas, tiveram para mim um sentido especial. Junto ao nosso apartamento ficava uma das inúmeras igrejas de Kotor e acordar ao som das badaladas do seu sino, ainda por cima praticamente iguais às da aldeia da avó, puxa a recordações distantes mas queridas e só enriquece as boas recordações que daqui levo.

A não perder uma caminhada extenuante pelas muralhas da fortaleza de Kotor, sempre a subir. Estas muralhas foram pensadas logo no século IX pelos bizantinos para proteger a cidade. O que vemos foi praticamente concluído no século XV. Passamos primeiro por uma igreja e parece que já estamos a cair para o lado, mas ainda falta bastante para chegar ao castelo, no topo. No final, a vista é soberba e compensadora. Como se preciso fosse, confirmamos a magnificência da baía e a sua água espelho azul cobalto. 

A propósito de água e mergulhos, não faltam opções para encontrar um espaço para cair na água e dar umas braçadas, que a temperatura do ar e da própria água a isso convida. Escolhemos um local, que nos parecia menos povoado, com uma atmosfera muito boa, com casas apalaçadas com a montanha que não me canso de gabar por guarda-costas.

O polo aquático é um dos desportos principais do Montenegro, de tal forma que quando procurávamos uma camisola da selecção de futebol local só encontrávamos disponível a do polo. Esta piscina transformada em campo de polo aquático deve ser a mais inspiradora do mundo.

A estrada que liga Kotor ao Monte Lovcen (o tal que deu nome ao Montenegro), curva surpreendente após curva surpreendente, deu-me uma das vistas mais incríveis que já tive oportunidade de ser testemunha. Sem palavras, apenas fotografias.

A cerca de vinte minutos de autocarro fica Perast, um dos momentos altos de qualquer viagem ao Montenegro. Concentradas num pequeno espaço encontramos casas barrocas, palácios de estilo veneziano gótico, igrejas e uma frente de mar lindíssima. Este foi um povoado pujante que teve o seu apogeu no século XVIII e fazia frente àqueles que o queriam invadir, tendo existido aqui uma importante escola náutica que formou muita gente de fora como marinheiros, cartógrafos e engenheiros que para aqui vinham aprender com os locais. Os seus heróis marítimos estão devidamente recordados em muitos cantos da vila.

À frente de Perast ficam duas ilhas belíssimas. O facto de serem artificiais, construídas no século XV, não retira nenhuma da sua fantástica atmosfera. Pacatez e serenidade é o que se vive por aqui, daí que talvez o epíteto de Sereníssima caísse tão bem a Perast como à Veneza que tanto a influenciou. Uma das ilhas é a Nossa Senhora da Rocha, para onde se vai de barco em apenas 10 minutinhos ou a nado (não calhou). Aqui fica uma igreja e nada mais, mas o prazer de aqui aportar já tem tudo em si. A sua vizinha é a ilha de São Jorge, a qual alberga um mosteiro beneditino rodeado de ciprestes. Lindíssima.

A 40 minutos de autocarro desde Kotor fica Budva, considerada por muitos o top da zona. A caminho vimos uns quantos cartazes com anúncios de nomes grandes da música que tocaram ou iriam lá tocar. As expectativas eram elevadas. Mas de Budva seguem apenas umas fotos e um pequeno comentário: a cidade medieval de estilo veneziano é muitíssimo pitoresca e muitíssimo agradável de se passear (foi quase totalmente reconstruída após o terramoto de 1979 que também afectou Kotor). O problema é olhar e estar para além da cidade antiga. Urbanisticamente falando, é tudo muito mau no maior centro turístico do país. Talvez as suas noites loucas sejam divertidas, mas não é isso que me faz viajar. O primo tinha dito que Budva era o Algarve em bom, mas ou Budva mudou muito nos últimos cinco anos ou o primo não conhece o Algarve. De fugir.
Poderíamos ter fugido para a vizinha Jazz, considerada este ano uma das praias mais bonitas do mundo, mas a vista desde cima apenas nos deu a ideia de um imenso abarracamento de toldos e chapéus, de tal forma que já nem conseguimos admitir que, sim senhora, o seu enquadramento é fantástico. Talvez num dia de sol de Novembro.

Mas também perto de Budva ficam mais praias bem bonitas, em especial Sveti Stefan, por isso a fuga até nem foi má. Sveti Stefan é uma ilha, um rochedo rodeado de ciprestes ligado ao mundo real por um pequeno istmo. Depois da II Grande Guerra Mundial os seus habitantes, praticamente todos eles pescadores, abandonaram Sveti Stefan e Tito, o todo poderoso da então Jugoslávia, acabou por a nacionalizar e mais tarde reconverte-la em casas de luxo. As estrelas de Hollywood eram visita habitual nos anos 50 e agora toda ela é um resort.
Escolhemos fazer uma tarde de praia aqui, no lado esquerdo da vista para a cénica ilha, que o do direito é exclusivo dos hóspedes do resort ou daqueles que queiram pagar 75 euros para pisar este lado da “areia”. Mas atenção: o pagamento dá direito a champanhe.

Já perto da Albânia fica Ulcinj, a cidade costeira do Montenegro que rompe a influência veneziana das vizinhas mais a norte para tomar características turcas. O ar que aqui se respira é albanês, com as diversas mesquitas a dominarem a paisagem, mais pronunciado ainda no verão pela quantidade de kosovares que para aqui vêem passar férias, muitos deles emigrados na Alemanha (vê-se pelas matrículas do seus veículos). Por outro lado, com os problemas no Kosovo, em 1999 esta cidade tornou-se ainda mais um refúgio para os seus habitantes. 
Esta cidade costeira é realmente diferente das que havíamos visitado anteriormente. Embora não  tivéssemos feito dela o nosso poiso, existe por aqui até uma praia exclusiva para mulheres, atendendo a que a maioria dos frequentadores da região serão muçulmanos. 
Historicamente centro de comércio de escravos e terra de corsários e piratas que adoptaram o estilo albanês, Ulcinj inicialmente não era território do Montenegro. Uma constante porém: a soberba localização e a cidade velha dentro de muralhas. A sua praia principal tinha demasiada gente e estava demasiada suja. O ar de festa de aldeia predominava à noite e até uma balança para pesar as pessoas se via na sua promenade. 
Na cidade velha encontrámos, no entanto, um lugar calmo e quase sem ninguém, fantástico para testemunhar o pôr-do-sol. O pior foi depois, ao jantar, quando pedimos o prato de marisco que estava na fotografia da ementa e recebemos uma massa com outra coisa qualquer. Quando reclamámos, o jovem dono do lugar disse que a culpa era do designer e que o Montenegro nem sequer marisco tinha.
Na verdade, o bom serviço não abundou na costa montenegrina, a região mais turística do país. Em Kotor foram muitos os problemas em restaurantes para tão poucos dias. Desde mexilhões fechados com o empregado a assumir que ele não os comeria mas havia quem comesse e por isso não os iria substituir, até à vinda para a mesa de um esparguete com molho de natas quanto o pedido era molho de tomate, facilmente resolvido acrescentando o desejado molho vermelho ao branco. As paisagens são bonitas, mas o turismo não pode ser de qualidade quando os que nos recebem têm comportamentos destes e reacções arrogantes e bruscas. 
A ida para outras paragens do país, nomeadamente o centro e norte, mudaria todavia a imagem dos locais que levámos da costa.  

Montenegro

Crna Gora é Montenegro para os locais. 
E o país é, na realidade, preenchido pelas montanhas, mas não necessariamente negras. A montanha é omnipresente, encontramo-la na costa, a sul, e no interior, a norte, e terá servido de barreira natural para manter os vizinhos à distância.
Região acidentada, as estradas do país são uma autêntica obra do homem para romper a natureza. O resultado são cenários belíssimos e é difícil eleger uma ou sequer um top 3 das estradas mais bonitas. Percorremo-las na costa, com as suas cidades medievais de estilo veneziano, também rodeando o Golfo de Kotor, subimos a montanha até ao monte Lovcen (o tal que dá o nome ao país), descemos para Cetinje (o centro histórico montenegrino), adentramos o território rumo às montanhas onde ficam dois incríveis canyons (Piva e Tara) e voltamos a sul passando pela capital Podgorica (encravada nas montanhas) e pelo Lago Skadar (um espelho com mosteiros à sua beira). Para além da beleza cénica de todas as estradas percorridas, um outro ponto comum: a loucura dos motoristas montenegrinos nas suas estradas estreitas e cheias de curvas. Susto.
A beleza natural é rainha no Montenegro.
A sua história, essa, não é assim tão simplista. Tal como, aliás, a dos seus vizinhos.
Por esta região exerceram a sua influência através dos tempos povos como os ilírios, romanos, eslavos (Jugoslávia significa eslavos do sul), sérvios, gregos, venezianos, otomanos e habsburgos, até ser criada a Jugoslávia e, por fim, o Montenegro se ter tornado independente em 2006 (em meados do século XIX havia experimentado pela primeira vez na sua história a independência, muito por culpa da época em que emergiram os nacionalismos e a influência do grande nome da cultura e da história montenegrina: Njegos, rei e poeta).
Mas este que é um dos mais novos países do mundo é a olhos vistos pouco homogéneo. São claras as diferenças na paisagem construída entre a costa e o interior e a costa norte e a costa sul. Por exemplo, no Adriático norte a influência católica dá-nos igrejas; no Adriático sul a influência otomana dá-nos mesquitas; no interior a igreja ortodoxa Sérvia dá-nos mosteiros. Tal não quer dizer que um pouco por toda a região não se encontrem exemplos das três fés num espaço curto de metros. O Montenegro é etnicamente diverso mas acabou por ter a sorte de ter tomado pouca parte na última guerra dos Balcãs, sofrendo no entanto as consequências das sanções económicas impostas à Sérvia, com quem então mantinha uma união e com quem pouco se diferencia culturalmente. 
Hoje, a última das seis repúblicas ex-jugoslavas a obter a independência vê a sua economia depender em grande parte do turismo. O nosso objectivo para estas férias era percorrer o Montenegro quase de lés a lés e, com excepção do nordeste, conseguimos fazê-lo.

A Ponte Sobre o Drina

Por muitos considerada a obra prima do nobel bósnio Ivo Andric, a história de “A Ponte Sobre o Drina” desenrola-se ao longo de quatro séculos, desde a construção da ponte da cidade de Visegrad, na fronteira com a Sérvia, até à entrada para a I Grande Guerra Mundial. Ao longo desse tempo o autor vai-nos contando histórias sobre as gentes da terra, sempre com a ponte como protagonista principal, as quais foram sofrendo a influência otomana – a ponte sobre o Drina foi mandada construir pelos turcos no século XVI -, sérvia e austríaca, até à emergência do nacionalismo.
Entre o relato de histórias de amor ou de pequenas vivências na passagem pela ponte de uma margem do Drina para a outra, impossível não deixar de refletir nas palavras do autor quando mostra, primeiro, a convivência pacífica entre as várias etnias e, depois, a quebra dos laços fraternos de séculos entre elas.
Primeiro:
“Os velhos conceitos e valores colidiam com os novos e opunham-se-lhes, combinavam-se ou coexistiam como se estivessem à espera para ver quais deles sobreviviam aos outros. O povo fazia contas em florins e em kreutzers, bem como em groshes e paras, media e pesava em côvados, em okas e drams, mas também em metros, quilos e gramas, fixava as datas para os pagamentos e encomendas pelo novo calendário, mas também, e na maior parte das vezes, segundo o velho costume: no dia de São Jorge ou no dia de São Demetrio.”
Depois:
“Só então é que na cidade começou a verdadeira perseguição aos sérvios e a tudo o que lhes estava ligado. Todo o povo se dividiu em perseguidos e perseguidores. A fera que existe dentro do homem e que só ousa mostrar-se quando as barreiras da lei e dos hábitos são removidas, estava agora à solta. Dado o sinal, as barreiras caíram. Como tantas vezes acontece na história humana, a violência, a pilhagem e mesmo o assassínio eram tacitamente permitidos desde que fossem cometidos em nome de interesses superiores, em conformidade com regras estabelecidas e contra um número limitado de pessoas de uma determinada espécie e credo. Um homem de espírito puro e de olhos abertos que então vivesse poderia testemunhar como é que se dá esse milagre e como uma sociedade inteira se podia transformar num único dia. Em poucos minutos a tradição secular da cidade foi devastada. É certo que sempre tinha havido secretos ódios, intolerância religiosa, infâmia e crueldade, mas também sempre houvera amizade e magnanimidade, e um sentimento de decência e de ordem que mantinham todos os instintos vis dentro dos limites do suportável, e que, ao fim e ao cabo, os acalmava, e os submetiam ao interesse geral da vida em comum.”
Publicada em 1945, esta obra confirma como os equilibrios nos Balcãs foram sempre dúbios e assim permanecem para além dela.

Mostar e arredores

Desde que fiz o caminho Dubrovnik – Mljet há doze anos que as montanhas da vizinha Bósnia não me saíram mais da imaginação. Adriático azul intenso de um lado, montes calcários lindos do outro. 
Desta vez tiramos um dia para visitar Mostar, a cerca de três horas de carro de Dubrovnik. 
A estrada segue sempre junto ao Adriático, sai da Croácia, entra na Bósnia (em Neum, na sua única cidade costeira, daí que se tenha que aproveitar todo o metro de terra, num claro contraste com a paisagem urbanística da Croácia), volta a sair da Bósnia e a entrar na Croácia para, já interior, entrar definitivamente na Bósnia. O tempo gasto nas fronteiras foi quase nenhum, excepto nesta última que nos levou cerca de uma hora e meia de fila parada sob um calor intenso. Assim, as três horas de viagem de carro passaram a quase cinco (penso, no entanto, que esta situação foi um mero azar e que a passagem para piscar o olho aos passaportes se costuma fazer célere).
Dizer Bósnia é o mesmo que dizer Bósnia Herzegovina, o nome oficial do país. Mostar e os arredores que visitámos ficam na província da Herzegovina.

Mostar entrou incontornavelmente na infeliz história mundial pela sua destruição na Guerra da Bósnia. Em Novembro de 1993 a sua Ponte Velha (Stari Most, construída originalmente pelos turcos em 1566) foi bombardeada e totalmente destruída. Apenas em 2004 voltou à vida, tendo sido reconstruída com o recurso aos materiais locais e seguindo o modelo original. A maior parte da ajuda financeira veio da Itália, país mecenas que se mostra muito presente quer na Bósnia, quer no Montenegro.
Mostar foi capital provincial quando a região estava sob o domínio do império otomano. No entanto, apesar de ser por demais evidente a influência turca na paisagem, quer pelas casas quer pelas mesquitas aqui presentes, esta cidade representa um verdadeiro encontro entre o ocidente e o oriente, consequência das referidas influências otomanas, sim, mas também influências austro-húngaras, império que aqui exerceu influência antes da criação da ex-Jugoslávia. A ocupação multi-étnica da cidade vinha de trás e os ódios raciais exacerbam-se de tempos a tempos.

A cidade velha de Mostar desenrola-se pelos dois lados do rio Neretva, ligado precisamente pela Stari Most, uma bela ponte de pedra em arco. As ruas são estreitas, calçada de pedra, casas preenchidas quase todas por lojas de souvenirs e cafés. É um bazar interminável, bem ao gosto da maioria dos turistas que aqui vêm. E são muitos. 

A ponte, sempre a ponte. Os turistas ocupam-na por inteiro – não é muito longa, pelo contrário, é surpreendentemente curta – sobretudo no momento em que alguns rapazes locais se preparam para saltar do seu arco, 21 metros a pique até à água do rio. E muitos mais turistas ficam cá em baixo, na margem do Neretva. Este é todo um folclore local. Um rapaz em calção de banho anda lá por cima, a recolher dinheiro da turistada, enquanto outro faz que salta mas não salta. Abre os braços, estica um pouco, ameaça a queda, mas em conjunto chegam à conclusão de que o cesto para recolher dinheiro ainda não está suficientemente preenchido. Novo acto, com poucas alterações para o primeiro. Podemos andar meia-hora nisso. Até que um dos pseudo-saltadores vem mesmo cá abaixo, sacar o dinheiro ao resto da assistência – onde me encontrava já sem paciência para esta peça de teatro mal amanhada. Eis que de repente aparece um terceiro rapagão em cena que salta da ponte e num ápice cai na corrente forte do rio. Feito.
(por curiosidade, no fim de semana passado a Stari Most de Mostar foi palco de uma etapa da Red Bull Cliff Diving, que também passou há pouco pelos Açores)
Está mais que visto que Mostar para mim é a ponte e pouco mais. A sua localização é incrível, belíssima mesmo, e muito há para escolher para melhor vista da mítica ponte. De baixo, com as casinhas enquadradas dentro do arco, ou de cima, com as montanhas como companheiras de postal perfeitas.

Tal como a ponte, a cidade velha foi reconstruída, porém, à sua entrada são ainda visíveis alguns edifícios com sinais de balas, balas essas que são vendidas nas lojas para turistas. Que lindo.
Típico por típico optámos por almoçar um cevapi, deixando o burek para outra altura.

De Mostar seguimos para a pequena vila de Blagaj, a cerca de vinte quilômetros de distância. Este lugar é extremamente bonito, idílico até se estiver vazio ou com muito menos de centenas de pessoas, como era o caso (vou parar de me queixar da gente em demasia que tal como nós escolheu passear por estas bandas). Ao longo de um pedaço do rio ficam uma série de restaurantes com esplanada, num parque fluvial cujo maior interesse é a Tejika, uma casa de madeira dervish debruçada no rio e à entrada de uma cave, com água azul e verde mesmo à porta. Lindo.
Em Blagaj assistimos a algo curioso e que não entendemos – um funeral onde só seguiam homens como acompanhantes.

Daqui seguimos para a Kravice, um pouco distante pelas voltas que se tem de dar, umas quedas de água que se estendem ao longo de 25 metros, num parque natural que acaba por se transformar numa bela piscina. Chegámos já ao fim do dia e por isso não estava muita gente. Boa.

Melhor ainda, depois disso seguimos para Pocitelj, a caminho da Croácia, e aí não estava praticamente ninguém para além das senhoras que vendiam fruta, de tal forma embalada que mais parecia buquês de flores. Pocitelj é uma aldeia otomana fortificada. A sua localização parece ter sido escolhida a dedo – não falo de um ponto de vista estratégico, mas antes antes da beleza do lugar. Fica na encosta da montanha, rodeada de vegetação, altaneira para o rio que passa lá em baixo. Irrompendo a caminho do céu vemos os minaretes e a torre do relógio, com o castelo lá no alto. 

Foi a forma perfeita para terminar o dia na Bósnia, mas mal sabíamos nós àquela hora que de volta à Croácia muito mais trânsito nos esperaria. Pois é, aquela estrada belíssima junto ao Adriático tem uma faixa de cada lado, os rapazes a conduzir são um bocado Sennas, daí que qualquer acidente tenha como resultado o encerramento, pura e simples, da estrada. Volta. 
PS: Após a saída da Croácia e a entrada na Bósnia uma das visões mais inquietante foi observar as placas da estrada a anunciar o nome das terras riscadas. Os croatas usam o alfabeto latino; os bósnios usam também o alfabeto cirilico. Fácil, pois, perceber quem riscou aquelas placas com letras para nós imperceptíveis.

Dubrovnik

Dubrovnik doze anos depois tem muito mais gente a visitá-la, assim como em 2003 eram muito mais os visitantes do que doze anos antes. 
Em 1991 a cidade velha de Dubrovnik, aquele postal muralhado repleto de telhados vermelhos, com as águas brilhantes do Adriático a torneá-la, foi bombardeada por ocasião da guerra da independência da Croácia, no que veio a ser o fim da Jugoslávia.
Numa das entradas da cidade velha podemos ver um mapa onde estão marcados os telhados que sofreram as consequências das bombas: dois em cada três receberam-nas e destes muitíssimos ficaram totalmente destruídos. 

O ano de 2003 – ano em que a visitámos pela primeira vez – era já testemunha do árduo trabalho de recuperação deste lugar incrível que hoje está ainda mais na moda, muito também à boleia da série Game of Thrones que é filmada por estes lados. É uma emoção poder admirar todo este esforço de reconstrução, uma vez que qualquer adolescente dos anos 90, época da Guerra dos Balcãs, tem memórias da estupidez a que levou a divisão das etnias nesta região da Europa.
Mais emoção ainda sentirão aqueles que visitaram Dubrovnik em plenos anos 90, telhados destruídos sobre telhados destruídos, como é o caso do casal de brasileiros que encontrámos agora enquanto percorríamos as muralhas da cidade.

A visita às muralhas da cidade (muros entre 6 e 22 metros) – depois de uma subida pelo teleférico que nos dá uma perspectiva esmagadora de Dubrovnik lá do alto da montanha – é obrigatória. Como curiosidade, diga-se que em 2003 pagámos 15 kunas pela entrada e em 2015 o preço da entrada passou a “somente” 100 kunas. Acrescento a título informativo que a kuna não teve flutuação especial face ao euro durante este tempo. O turismo é muito bonito.

A “pérola do Adriático” de Lord Byron ou o “paraíso na terra” de George Bernard Shaw é hoje uma cidade medieval de influência barroca extremamente bem conservada e atraente. 
Aqui perto começou por existir uma cidade romana, desde o início muralhada para a proteger das invasões quer dos piratas quer de estados rivais. No século XII Ragusa, o seu nome de então, era  um importante centro de comércio, ligando o Mediterrâneo aos estados balcânicos. Ficou depois sob autoridade veneziana e no século XVI não se livrou de pagar tributo ao império otomano. A sua prosperidade viria a ser interrompida por um terramoto no século XVII, mas também pela concorrência das novas rotas entretanto surgidas e pela emergência de novas forças navais rivais. Depois da sua tomada pela França de Napoleão, Dubrovnik viria a ser cedida ao império austro-húngaro, com quem ficou até 1918, altura da criação da Jugoslávia. Este padrão histórico (romanos, venezianos, otomanos, austro-húngaros) é comum a muitos estados balcânicos, verificando-se que as ondas nacionalistas tiveram o seu início na segunda metade do século XIX para não mais deixarem de estar vivas – até aos dias de hoje.

Se a cidade velha vista de cima é um mimo, o sentimento não muda muito quando percorremos as ruas ruas estreitas e desniveladas. Cá em baixo encontramos igrejas, mosteiros, palácios, fontes, cafés e, sobretudo, a fantástica Stradum, ou Placa, a rua principal – pedonal, como toda a cidade muralhada. O seu chão parece mármore e a silhueta das pessoas aí reflectida faz-nos lembrar pequenos e estreitos riscos pretos num quadro branco. 

Para além de caminhar pelas suas ruas e de um mergulho no Adriático um pouco à direita do porto de Dubrovnik, junto a um dos omnipresentes campos de polo aquático (a Croácia obteve o segundo lugar nos mundiais da semana passada, perdendo na final para a arqui-rival Sérvia), entendemos apenas entrar no Museu War Photo Limited. Neste edifício de dois andares são apresentadas fotos da guerra que levou ao fim da Jugoslávia, sim, mas também fotos de outros conflitos, como a recente guerra na Ucrânia. Extremamente educativo e incontornável, pois é difícil não recordar os conflitos armados enquanto se percorre grande parte dos Balcãs. 
Ao final do dia, um segundo mergulho na Península de Lapad, já muito para lá da cidade muralhada. Foi aqui que tivemos a primeira sensação de termos chegado ao Piscinão de Ramos, mas foi aqui também que soubemos perseverar até encontrar um local onde pudéssemos dividir o espaço com menos de uma equipa de polo aquático. A água, essa, não deu nem para refrescar – mais de 30 eram os seus graus.