Quinta da Regaleira

A um vírus oportunista, uma resposta cheia de oportunidade. Não há turistas estrangeiros no nosso país e a maioria dos locais ainda se coíbe de passear? Então, toca de rumar a Sintra para aproveitar para ver a vila sem enchentes e, com sorte, ter um dos seus belos monumentos só para nós.

Foi isso que aconteceu na minha mais recente visita à Quinta da Regaleira, em Junho. Chegada logo à hora de abertura num dia de semana, andei pelos seus 4 hectares durante quase três horas cruzando-me apenas com meia dúzia de pessoas bem contadas. A beleza, o encanto e o misticismo da Regaleira só para mim foi um sonho tornado realidade.

A uma distância facilmente percorrida a pé desde o centro histórico de Sintra, é mesmo de sonho que se trata quando se menciona a palavra Regaleira. Quando em 1840 D. Ermelinda Allen Monteiro de Almeida, primeira Viscondessa da Regaleira, comprou os terrenos da quinta que existia já desde os finais do século XVII esta era conhecida como Quinta da Torre (pela torre hoje adossada à actual Casa da Renascença). Foi apenas no princípio do século XX que o lugar se transformou no Palácio e Quinta da Regaleira que hoje conhecemos. Tudo graças ao sonho do seu novo proprietário, António Augusto Carvalho Monteiro, o Monteiro Milhões, nascido no Brasil e com estudos em Coimbra, que com Luigi Manini, cenógrafo do Teatro São Carlos e arquitecto do Palácio do Buçaco, deram a Sintra uma obra-prima. A Regaleira conjuga natureza e arquitectura e condensa em si tudo o que Sintra é: romântica e artística, misteriosa e requintada. E daqui, imersos na vegetação intensa e luxuriante da Serra de Sintra, não faltam pontos de vista de excelência para os outros ex-libris de Sintra, o Castelo dos Mouros, o Palácio da Pena e o Palácio da Vila.

A entrada na Quinta da Regaleira é efectuada mais acima na estrada que nos há-de deixar no Palácio de Seteais. Até lá passamos por pormenores deliciosos no caminho, como uma fonte, uma estatueta em cima do muro e os contornos da Regaleira cheia de pináculos e merlões ao nosso lado esquerdo, claro.

Entramos pelo edifício que outrora serviu de Cocheiras e sem demora subimos em direcção ao Portal dos Guardiães, a primeira paragem numa viagem por jardins, grutas, lagos e edifícios majestosos. No amplo Terraço dos Mundos Celestes, as torres do Zigurate ganham destaque, apenas um dos muitos miradouros da Quinta. Ao elegante semi-circular Portal dos Guardiões não faltam igualmente as torres, mas nele há ainda os elementos decorativos da fonte na sua base central a chamar a atenção.

Ao lado fica o Poço Imperfeito, mas a nossa mente só tem espaço para pensar em chegar ao Poço Iniciático. Sem pressas, porém, adentrando pela floresta que nos cobre totalmente com a sua vegetação, um ambiente escuro e fresco, uma espécie de preparação para o que nos aguarda no Poço. A Regaleira está cheia de simbologia, diz-se que mitológica, alquímica, maçónica, esotérica, templária, enfim, tudo o que seja dado ao oculto encontrará aqui uma explicação. O Monteiro Milhões, para além de milionário, era um homem curioso e de vasta cultura e sensibilidade, atreito às questões científicas e filosóficas. No entanto, a simbologia que pretendeu expressar com a ajuda de Manini (relembremos, para além de arquitecto também cenógrafo) não é acessível a todos – a mim, por exemplo -, não sendo fácil perceber aqui uma visão cosmológica, referências ao binómio paraíso / inferno ou viagens iniciáticas. O que é fácil perceber, sim, é a aura de magia e mistério ao nosso redor.

E talvez em nenhum lugar da Regaleira como no Poço Iniciático se sinta esse poder. As rochas dispostas de forma quase artística não fazem prever o cenário que está para lá delas. Ou, melhor, abaixo delas. É um poço fundo, em espiral, com diversos patamares cénicamente preenchidos com janelas em arco. Este mundo é verde, estamos nas entranhas da terra, apenas uma nesga de luz natural acima de nós que se vai tornando cada vez mais ténue à medida que descemos. O silêncio apenas é perturbado pelas gotículas que teimam em cair num ritmo lento e cadenciado. Embora as muitas interpretações (ou até nenhuma), é aqui que melhor percebemos a presença de três mundos que se complementam: o céu, a terra e o mundo subterrâneo. Do Poço sai um percurso subterrâneo (encerrado) que o liga quer ao Portal dos Guardiões quer à Cascata (antes de deixarmos o Poço Iniciático há que referir que não existe qualquer prova de que este ou qualquer outro espaço da Regaleira tenha sido utilizado para práticas rituais).

Saindo desta viagem subterrânea quase transcendente, continuamos a subir, agora já na superfície a céu aberto, mas com a vegetação como protectora. Passamos pela Gruta da Virgem, uma de muitas, mas todas especiais. Seguimos junto ao muro, com o Castelo dos Mouros a deixar-se ver, sem mistério, no cimo da Serra.

O Lago da Cascata, o tal com ligação subterrânea ao Poço Iniciático, bem como ao Poço Imperfeito e a diversas grutas, é um dos momentos altos da decoração natural da Regaleira. Desenvolve-se por vários níveis ligados por escadas, permitindo-nos uma vez mais uma imersão na abundante vegetação. E faz-nos recordar como a água sempre foi importante deste os primórdios da Quinta, ainda ela não levava o nome actual. A água entrava aqui a partir dos aquedutos dos Anjos e da Serra e o actual sistema hidráulico é distribuído por uma série de minas, depósitos e diferentes espaços de água, como lagos, cascatas, fontes e charcas, para além de uma cisterna.

A água é, sabe-mo-lo, um elemento que confere romantismo ao cenário. E as fontes adensam-no. A Fonte da Abundância, por exemplo, está decorada com embrechados e figuras escultóricas. Igualmente, no espaço de recato que a envolve, com um banco e mesa, vêem-se elementos decorativos como uns vasos com a figura de veados. Mais uma vez, deste espaço pode retirar-se uma série de interpretações da simbologia que apresenta, como as letras inscritas, o altar e a figura da concha e do peixe. Não o querendo interpretar, aprecie-mo-lo, que já enche bem as medidas.

Também a Gruta da Leda, abaixo da Torre da Regaleira e sua varanda-galeria miradouro, tem um ambiente único. Este espaço interior com uma acústica e ambiente incríveis (parece que ainda estou a ouvir e sentir a água a cair) não é bem uma fonte, antes um tanque para onde cai uma cascata adornada pela figura de uma dama com cisne ao lado e pomba na mão – mais uma dose de simbologia para ser interpretada.

Aproximamo-nos cada vez mais do coração da Regaleira. Passamos a estufa com o painel de azulejos azul e branco na sua fachada e eis-nos logo acima da Capela da Santíssima Trindade e do Palácio da Regaleira.

É aqui, com estes dois edifícios, que o estilos manuelino e romântico revivalista atingem o seu apogeu, mas também os estilos gótico e renascentista. Ambos foram construídos com o recurso a materiais nobres, como o calcário, ao contrário dos demais edifícios da Quinta que empregam o granito local, incluindo a vizinha Casa da Renascença, sede da Fundação CulturSintra (a Câmara Municipal de Sintra é a proprietária da Quinta da Regaleira, que após obras de restauro abriu as portas aos visitantes em 1997).

A Capela da Santíssima Trindade é exuberante na sua fachada. As portas e janelas são super decoradas e os merlões e pináculos inundam a cobertura, incluindo a torre alta e esguia. Mas o espaço do seu “adro” é tão exíguo que não cabe na minha foto. Segue este banco como exemplo da sua hiper-decoração.

Estes elementos decoram igualmente a cobertura do Palácio. E aqui vemos a profusão dos estilos arquitectónicos referidos anteriormente – neo-românico, neo-manuelino, neo-renascentista e neo-gótico – em alegre comunhão, num equilíbrio perfeito. O que António Augusto Carvalho Monteiro pretendeu e Luigi Manini e sua equipa executaram foi uma mescla dos mais representativos estilos em território nacional, uma homenagem à história e à epopeia vivida pelos portugueses, daí o revivalismo arquitectónico. No interior do palácio visitamos diversas das suas salas. Bem decoradas, o que mais impressiona, todavia, são os estratégicos pontos de vista para desde o interior se contemplar as panorâmicas majestáticas da Serra de Sintra no exterior, incluindo o Castelo dos Mouros e o Palácio da Pena.

Ao redor da Capela e do Palácio apreciamos um jardim formal carregado de deliciosas espécies arbóreas, sendo que na altura da minha visita eram as hortênsias que tomavam todo o protagonismo.

Não deixamos a Regaleira sem conhecer mais umas grutas e lago, sendo que a Gruta do Labirinto é os dois na mesma medida. Tempo ainda para visitar a Loggia dos Pisões, a qual se vê da estrada que passa junto aos muros da Regaleira. Mas agora, cá dentro, podemos apreciar em detalhe os seus painéis de azulejo ao longo e ao fundo da escada que dá para o pequeno portão lateral da Quinta.

Em direcção à saída da Quinta percorremos, então, o Patamar dos Deuses, uma longa alameda ladeada por espécies exóticas e nove estátuas representando deuses mitológicos que desembocam no jardim e Palácio da Regaleira.

Nesta visita não houve nevoeiro que adensasse o ambiente de mistério da Regaleira e de Sintra. Não foi necessário para que o percebêssemos, e o céu azul e os jardins floridos realçaram ainda mais o esplendor de todos os elementos da Quinta.

Pela Serra de Sintra, com início e fim na Barragem da Mula

Outro lugar onde vamos querer voltar rapidamente em tempos de desconfinamento é a Sintra. Sintra é infinita. Não nos cansamos nunca de a correr porque ela é imensa no que há para descobrir (e já a registámos diversas vezes aqui no blog). Desta vez vamos pelos trilhos da Serra de Sintra desde a Barragem da Mula em direcção aos Capuchos, ainda a aguardar que o “novo” Convento reabra depois dos tempos de restauro, com volta larga até ao ponto inicial.

A Barragem da Mula, ponto de partida para muitos caminhos, retém por momentos a água do Rio da Mula, rio que nasce na Serra de Sintra e que após uns breves 10 kms de curso desagua no Atlântico. Esta barragem envolta pela natureza não está disponível para actividades aquáticas, mas as caminhadas junto a ela servem bem qualquer propósito de evasão.

Seguimos por uma curta subida por entre pinheiros e eucaliptos com a água desta espécie de lago ao nosso lado. E haveremos de a contornar até meio, de forma a melhor observarmos a barragem de outro ângulo.

O fio de água do Rio da Mula é bem estreito, a maior parte das vezes até nem damos por ele, mas as pequenas pontes de madeira sucedem-se. Algumas delas num estado tal que é um convite descarado a meter o pé na poça.

Só que muitas destas pontes até estarão aqui colocadas não para se atravessar algo, mas para tornar o trilho mais atraente e desafiante para o pessoal do BTT. Estes trilhos não são propriamente o lugar ideal para se caminhar confortavelmente apartado do mundo. Porque são difíceis de vencer a pé sem recurso à ajuda de bastões, por exemplo, e porque pode vir de lá lançada uma bicicleta a voar e aterrar mesmo em cima de nós. Mas enfim… fui lá parar não sei como, talvez por falta de sinalização ou por falta de atenção à sinalização, e por aí segui com sorte de não me cruzar assim com tantos radicais da bicla.

A melhor alternativa, embora não tão bonita como o intenso mergulho na floresta de trilhos, é seguir pelo estradão de terra aberto propositadamente para os caminhantes e para os ciclistas menos afoitos.

Mas depois de uns quantos metros pelo estradão com arvoredo de ambos os lados, logo voltamos à imersão na floresta. Uma relativamente extenuante subida num ambiente incrível leva-nos na direcção do Monge. Aqui ficam os Tholos do Monge, um monumento megalítico a 490 metros de altitude. Não há vistas, porém, uma vez que estamos mais uma vez rodeados de vegetação.

As vistas aparecerão mais adiante. Depois de percorremos mais um estradão com os troncos das árvores cobertas de hera, uma nesga deixa-nos vislumbrar a Costa de Sintra, com a forte ondulação a tornar branco o azul da água.

Após uma boa estirada por tapadas, num percurso circular que nos levará de volta ao ponto inicial, subimos até à Pedra Amarela. Aqui sim, as vistas são desimpedidas e soberbas. Para o Atlântico, para a Peninha, para a Pena, para tudo. O ambiente é incrível e as próprias rochas deste alto a 408 metros ajudam ao cenário.

Do Monte da Pedra Amarela até à Barragem da Mula é sempre a descer. Aqui a floresta está neste momento tristonha. Muito terá ardido em incêndios recentes e muitas espécies invasoras ajudaram à desolação. Um exemplo: após o grande incêndio de 1966 na Serra, foram aqui introduzidas espécies exóticas que se expandiram de forma agressiva, sobretudo a acácia, rivalizando e destruindo a vegetação prévia. Nos últimos anos tem estado em andamento um projecto de reflorestação desta parte da Serra de Sintra, para que possamos usufruir da exuberância e equilíbrio pela qual é conhecida. Outro aspecto menos agradável é o barulho intenso e constante produzido pelos carros no autódromo. Não tem piada nenhuma este outro tipo de espécie invasora do ambiente, impossibilitando melodias mais condizentes.

O Parque da Pedra Amarela e seu Campo Base é um parque aventura com muitas actividades, como slide, pista de arborismo, escalada, rappel e orientação, entre outras. Não nos aventurámos em nenhuma delas e subimos antes até à elevação directamente acima da barragem. São as vistas, sempre elas, que nos movem. E aqui nós deixámos ficar a apreciar o esplendor natural da Serra de Sintra, até que, saciados de beleza, iniciámos então a descida dos últimos metros dos cerca de 11 kms deste passeio com início e fim na Barragem da Mula.

Uma caminhada pela Peninha

São incontáveis os percursos pedestres que se podem inventar pela Serra de Sintra, mas alguns deles estão oficialmente demarcados. Assim, embora da Peninha possamos sair a caminhar em direcção a cada um dos pontos cardeais, o PR10 está montado para nos por a caminho da natureza e do património de forma circular por cerca de 4,5 kms. São menos de duas horas a gastar a sola, incluindo paragens demoradas para gastar os vários sentidos.

Até chegarmos ao estacionamento do Santuário da Peninha, onde tem início esta caminhada, seguimos de carro pela estrada totalmente protegidos pela vegetação carregada. Umas abertas, logo transformadas em miradouros, permitem-nos ir acostumando à paisagem que teremos lá de cima. Primeiro uma vista para as águas da albufeira do Rio da Mula e Palácio da Pena, depois uma vista para o Guincho e Cascais.

O trilho inicia-se com uma breve subida com o Santuário à nossa direita a confundir-se com as rochas e ramagem de ambos os lados. E, de repente, deixamos de ter a protecção dessa ramagem e tudo se revela. O cenário imenso da costa do Guincho aos nossos pés.

Estamos a uns 466 metros de altitude, a literatura científica não revelou ainda qualquer efeito desta altitude na falta de oxigénio, mas, de qualquer das formas, a nossa respiração é facilmente cortada com esta paisagem do recorte da costa em conjugação com o azul do mar.

Subimos a escadaria do Santuário da Peninha, instalado num penedo a 486 metros de altitude, e daqui de cima as vistas conseguem ser ainda maiores, porque agora se abrem para todos os lados, do Cabo Espichel às Berlengas, passando pelo Cabo da Roca, numa imensidão total. Podemos não identificar quer o Espichel quer as Berlengas, mas em dias de céu azul as vistas desde Lisboa à Ericeira são garantidas.

A Capela de Nossa Senhora da Penha confunde-se, no seu exterior, com o cinzento das rochas, já se disse, mas alguns acrescentos posteriores de edifícios anexos, nomeadamente um palacete, têm um tom amarelo vivo que ganha um relevo muito grande na paisagem. As origens do lugar, onde foi instalada uma primitiva ermida, remontam ao século XII, mas a capela tal como a conhecemos hoje começou a ser edificada no século XVII. Se a sua arquitectura exterior vale mais pelo seu lugar de implantação, diz que o seu interior é, esse sim, um deslumbre só por si. O Santuário está votado ao abandono e a capela fechada, impedindo-nos assim de conhecer os mármores e azulejos azuis e brancos que revestem o interior da Capela de Nossa Senhora da Penha.

Deixado o Santuário para trás, após passarmos pela Ermida de São Saturnino escondemo-nos da paisagem e envolvemo-nos numa mata cerradíssima, num pequeno trilho conhecido como trilho da Viúva. São apenas cerca de 500 metros sempre a descer e pensamos que ainda bem que o trilho é circular e não o teremos de subir. Isso para bem das nossas pernas, porque de resto não nos importaríamos de aí voltar vezes sem conta.

O lugar é belíssimo, todo ocupado com árvores sem deixar ver o céu, um daqueles pedaços onde se sente todo o poder e magia da natureza. Lugar fresco e escuro com raios de sol a tentarem penetrar, a humidade faz-se sentir e pingos da água soltam-se das árvores e plantas e caem sobre nós. Esta é uma zona de cupressal, com cedros do Buçaco plantados na tentativa de reflorestação da Serra de Sintra, muito sujeita a incêndios, e encontramos ainda fetos e folhas de hera.

Quando acaba a descida mágica viramos à direita na estrada florestal. O denso arvoredo mantém-se, passamos por um pequeno lago com algas verdes e logo chegamos a uma mata com mesas para piqueniques. Um pouco mais para lá dela e encontramos o desvio para Adrenunes.

A vegetação não nos larga, mas é incrível constatar como ela vai variando na sua forma. Agora é como se o arvoredo nos fechasse, formando um túnel natural onde em alguns pontos nos temos até de agachar. E, passado um tempo, a vegetação deixa de nos cobrir, sentimos o sol forte sobre nós e ganhamos a vista de mar ao fundo.

A Anta de Adrenunes está classificada como Monumento Nacional. No entanto, ainda não é claro se este conjunto de rochas é uma formação natural ou obra do Homem, o que leva alguns a considerar que é errado designá-la por anta. Terá, todavia, sido utilizada como necrópole, facto que induz a que o considerem um monumento megalítico. O que é claro é que este amontoado de rochas perdido no meio da vegetação da Serra de Sintra é esbelto. Não é fácil circundá-lo, precisamente pela vegetação que tomou o lugar, e é impossível adentrá-lo – não há espaço na rocha. Mas com perseverança subimos as suas rochas empilhadas e percebemos o marco geodésico que foi instalado no seu topo. Daqui a nossa vista alcança o Palácio da Pena, o Santuário da Peninha e o Cabo da Roca e a Adraga.

A Anta de Adrenunes é ainda um lugar de nidificação de aves.

No caminho de volta apreciamos mais uma vez a vegetação rica em plantas medicinais e aromáticas e voltamos a entrar na zona de mata de volta ao ponto de partida, com os carvalhos e as acácias a dominarem. Antes da chegada, porém, uma passagem e paragem pelas Pedras Irmãs.

É mais um lugar com uma aura misteriosa, com as imensas e formosas rochas preenchidas de musgo verde e rodeadas de ciprestes e carvalhos a darem mais um contributo para o encanto que costumeiramente é reconhecido à Serra de Sintra.

Palácio Nacional de Sintra


O Palácio da Vila destaca-se da paisagem de Sintra. 
Aquela arquitectura exótica e rebelde, de um branco intenso com frisos amarelos no meio da verde vegetação, é um ícone por si só. O par de chaminés indicando o céu muito contribui para isso, mas uma visita para além do postal exterior é obrigatória. 


Antigo Paço Real, há mais de um milénio que conhecemos referência ao local. No século X terá sido um alcácer que com a conquista de Lisboa aos mouros por D. Afonso Henriques, em 1147, acabou por ser tomado pela coroa. Depois daí, diversas alterações e remodelações tem sofrido este Paço, designado por D. João V como “formoso palácio dos reis antigos”.


Na sua fachada, e como referido, destacam-se as duas chaminés cónicas, com 33 metros de altura. Quando entramos no Palácio percebemos que correspondem à cozinha. O seu formato é original e raramente visto na nossa paisagem. 


Mas da fachada destaca-se ainda um elemento muito diferente destes cones brancos, mas mais presente na nossa arquitectura. Falo das janelas manuelinas. A delicadeza colocada na decoração destas janelas é evidente.

Assim como evidente a um primeiríssimo olhar é a diversidade de estilos que por aqui gravitam: manuelino, gótico, renascentista, romântico e mudéjar. 




Vindo este Paço do período do domínio islâmico na Península Ibérica, as suas influências na arquitectura do lugar são enormes e visíveis em aspectos como os pátios, jardins, fontes e lagos e na decoração de revestimento azulejar, nomeadamente nas suas formas geométricas. São muitos os espaços interiores idílicos e bucólicos, prontos a receber o retirante e o melancólico que se irá distrair apenas com a beleza do sítio e com o som da água a correr. 



Num dos pátios encontramos a azul Gruta dos Banhos (com os seus frescos com azulejos e estuques do séc XVIII) e um pilar com umas meninas a sustentar o escudo de Portugal.


As edificações foram erigidas à volta destes pátios e jardins e as salas do Palácio não são menos artísticas, quer no trabalho dos seus tectos quer no mobiliário que acolhem.


Três destaques absolutos:


A Sala dos Cisnes é a maior sala. Ela foi testemunha das recepções e banquetes que ao longo dos tempos tiveram lugar no Palácio Real. O seu nome deve-se à pintura do tecto.


Tecto mais soberbo do que este só encontramos na Sala dos Brasões, a mais importante sala heráldica da Europa. As armas reais portuguesas dominam o centro do tecto, envolvido pelos brasões dos oito filhos de D. Manuel, mais os brasões das 72 famílias nobres com mais influência no reino. O deslumbre e a riqueza da decoração não se fica apenas pelo tecto desta sala. A acompanhar a representação dos brasões temos ainda uns painéis de azulejos com cenas de caça e do campo.


Por fim, a Capela Palatina. Mais uma surpresa. Com tecto de madeira e pavimento em cerâmica, este é um dos exemplos mais antigos de arte mudéjar no nosso país. Datado do século XIV, este espaço é mais um exemplo do harmonioso convívio dos estilos artísticos representados em todo o Palácio. 

A vila de Sintra já é acolhedora por si só. No entanto, num fim de dia nublado e chuvoso é uma boa aposta a visita a este Palácio. Por quase todos os espaços percorridos parece existir um ponto de vista que deita para a vila e para o movimento e paisagem que corre aqui fora. 



O Tritão da Pena

O Palácio da Pena é o maior exemplo arquitectónico do romantismo em Portugal. 
Responsabilidade de D. Fernando II, o Rei Artista, rei consorte então casado com D. Maria II, ele próprio acompanhou e conduziu de perto as obras do projecto a cargo do Barão Von Eschwege, levadas a cabo entre 1840 e 1854.
Construído no lugar de um antigo convento de frades Jerónimos do princípio do século XVI – os quais haviam já tido a bela ideia de escolher o topo de um dos montes mais altos na Serra de Sintra para seu refúgio – poucos lugares mais inspiradores e cénicos haverá. 
D. Fernando II, primo da Rainha Vitória de Inglaterra, homem culto e elegante, deixou-se levar ainda mais pelo ambiente da Pena e aqui deu sequência à sua carreira artística, sobretudo dedicada à gravura e à pintura sobre cerâmica, em peças fornecidas pelas oficinas das Caldas da Rainha e pela Fábrica de Sacavém, com temática que vai desde a vida familiar, passa pela representação da vida animal, em especial os cavalos, e não deixa de se debruçar sobre os costumes, mitos e heróis das tradições populares portuguesas.

Por ocasião do bicentenário do seu nascimento (1816-2016) está neste momento patente no Palácio da Pena uma exposição com objectos de arte de sua criação.

A arquitectura do Palácio da Pena tem muito para surpreender e deliciar. Projecto revivalista, neste palácio inspirado nos seus congéneres alemães encontramos em plena harmonia estilos tão diversos como o manuelino, gótico, renascentista, mourisco e até elementos indianos.
Poderia lembrar uma das suas várias salas, como o atelier de pintura do rei D. Carlos, e seu mobiliário; ou a capela parte original do antigo convento; uma das suas guaritas ou a espécie de minarete com cúpula mourisca; as suas inúmeras torres – circulares, semicirculares ou quadradas – ou tão só a sua torre com o relógio de sol; os miradouros como o terraço da rainha ou o caminho da ronda ou qualquer outro ponto de vista complemente aberto ao mundo; o seu harmonioso Claustro manuelino ou a profusão de azulejos que revestem inúmeras partes do Palácio. 
Entre todos estes, muitos pormenores há para absorver. 

Todavia, escolho antes lembrar a obra-prima que constitui o Pórtico do Tritão.


Sintra, terra de lendas, é lugar mais do que adequado para que a pretexto de arquitectura e seus elementos decorativos se possa expressar mais uma lenda. Diz-se que o Tritão, monstro mitológico meio peixe, meio homem, costumava visitar as águas que bordejam as terras de Sintra, as quais se avistam do alto da Pena. Talvez também por isso tenha sido escolhido para adornar o Palácio. 
Este Pórtico do Tritão continua a constituir um enigma e muitas teorias têm sido lançadas à volta do seu significado concreto. 
Sem romancear, e numa olhada apressada, podíamos dizer apenas que há para ali um monstro que suporta uma janela. Mas assim não teria tanto encanto.
Diz-se que esta é uma alegoria da criação do mundo. E que D. Fernando II, amante de lendas e da cultura portuguesa, o projectou ele próprio e terá ido buscar este Tritão baseando-se em duas tradições literárias nacionais – uma à obra de Damião de Góis (que fala de um Tritão a cantar com uma concha numa praia de Colares), outra aos Lusíadas de Camões (que fala num Tritão que lembra o da Pena).
O Pórtico é constituído por um arco, que media duas torres com cúpula mourisca, com decoração em relevo a fazer lembrar corais. Logo acima encontramos três conchas, com o Tritão sentado na maior delas. Da cabeça deste homem barbudo saem cabelos que se transfiguram num tronco donde emergem parras de videira. Este é um mundo terrestre, pleno de elementos vegetalistas, por contraposição aos elementos marinhos que encontramos na parte inferior do Pórtico, os quais representam o mundo aquático. 
Dois mundos distintos, pois – tal como a Pena parece todo um outro mundo.

Da Vila Sassetti ao Palácio da Pena

A proposta é seguir caminhando desde a vila de Sintra até ao Palácio da Pena pelo novo percurso que a Parques de Sintra – Monte da Lua (empresa pública que ali gere diversos monumentos) estreou em Setembro de 2015.
Em 2011 a Parques adquiriu à Câmara Municipal de Sintra a Vila Sassetti já com o propósito de criar um caminho pedonal alternativo à rampa em alcatrão da Pena. O interior do edifício principal da Vila Sassetti continua em restauro e remodelação, mas o seu exterior e os seus jardins aqui estão, prontos a ser desfrutados por todos nós.
 
 
O percurso tem início na entrada da Vila Sassetti, junto ao Parque das Merendas, numa cota mais elevada face ao centro histórico da vila. Logo no muro de entrada encontramos a designação “Quinta da Amizade”, nome pelo qual era também conhecido o espaço, tomado em alusão ao Penedo da Amizade que se ergue sobranceiro à Vila. 
 
Encontramo-nos na encosta oeste do Castelo dos Mouros e até lá iremos subir a bom subir. São cerca de dois quilómetros até ao Castelo e Parque da Pena e dois quilómetros e meio até ao Palácio da Pena. O piso é relativamente estável (com chuva pode ficar escorregadio devido ao musgo criado pela humidade) e acessível para qualquer pessoa. Como é sempre a subir torna-se, no entanto, desgastante para quem possa não estar habituado a caminhar. Qualquer coisa como 45 minutos a 1 hora a dar às pernas caso consigamos abstrair-nos de tudo e não parar. O que se revela francamente impossível, pois embora a abstracção e a distracção do mundo real seja fácil por aqui, será muito difícil não parar para apreciar qualquer elemento da natureza que nos rodeia. 
 

 

Desde logo, na primeira subida na Vila Sassetti os fios de água que correm sobre as pedras sucedem-se. A serenidade é evidente e o escutar da água a escorrer por ali abaixo apazigua. Vêem-se plantas e vêem-se flores. Castanheiros, carvalhos e camélias, mas também plantas exóticas como plantas nativas do Chile ou da Austrália.
 

 

Antes de chegarmos ao pátio de entrada do edifício principal da Vila Sassetti deparamo-nos com um banco circular com um trono no meio, para não nos esquecermos que esta é terra de príncipes e contos de fadas.
 
A Vila Sassetti foi criada para constituir um refúgio de veraneio de Victor Carlos Sassetti, proprietário de hotéis de luxo (entre os quais o então famoso Branganza, em Lisboa). Em 1890 surgiu este projecto, uma parceria entre Sassetti e o arquitecto Luigi Manini (autor da vizinha Regaleira e do Palácio do Buçaco), inspirados nos castelos da Lombardia, em Itália, terra natal de Manini e da família Sassetti. 
 

 

 

O edifício principal da Vila é de arquitectura residencial revivalista de estilo romântico, onde a sua integração harmoniosa com a natureza é plenamente alcançada. Mais, este edifício distinto deixa-se envolver pelos marcantes elementos naturais que o rodeiam, como a vegetação e as rochas da Serra de Sintra, e fá-lo de uma forma brilhante e absolutamente natural. A sua fachada é distinta e característica, sobressaindo o seu elegante torreão. Utilizando o granito da Serra de Sintra e decorado com faixas de terracota, com cuidado trabalho em material cerâmico nos frisos dos torreões, nas chaminés, nas colunas e na envolvência das janelas, com destaque para o balcão em arco com janelas geminadas, descobrimos ainda neste edifício o seu apelativo telhado mouriscado mas claramente identificado com o estilo português. Muitas influências, já se vê. Do pequeno pátio com fonte no meio apercebemo-nos ainda do painel de azulejos a encimar a porta de entrada do chalet.
 

 

 

 

Um dos anexos da Vila foi transformado em instalações sanitárias e a curiosidade pode e deve levar-nos a espreitar para lá das suas portas e empoleirar-nos na pedra majestática onde está encostado para ganharmos uma vista fabulosa.
 
Deve esclarecer-se, todavia, que a maior parte da área da Vila Sassetti não é edificado, antes jardim. Ou seja, antes mesmo de sairmos do portão da Vila e subirmos mais um pouco já estamos totalmente envolvidos pela natureza, deixando de ver o Palácio da Vila, de um lado, e a Quinta da Regaleira, do outro. Vegetação e pedra, ora luz ora sombra, é o que temos e continuaremos a ter depois de sairmos da Vila Sassetti. 
 

 

Prosseguindo na viagem, percorremos agora um estreito caminho que nos levará ao sopé do Penedo da Amizade, local privilegiado na Serra de Sintra para a prática da escalada. O Castelo dos Mouros fica mesmo ali por cima. Esta é a parte mais difícil do percurso, mas agradável pela natureza que persiste em rodear-nos.
 
 

 

O fim deste percurso deixa-nos num ponto elevado donde obtemos mais uma vista deliciosa. 
Estamos já à porta do Parque da Pena e uma dúvida assalta-nos: seguimos para a entrada pelos Lagos, para a direita, ou para a entrada principal, para a esquerda? Por uma vez, guino à direita e não me arrependo.
 

 

 

 

Não me lembro desta paisagem, o Vale dos Lagos onde seis lagos se sucedem. O maior deles possui uma espécie de ilha com castelinho perdida nas suas águas. O tempo não está bonito mas a paisagem exuberante e verdejante tudo compensa. Temos direito até a reflexos irreais na água dos lagos.
 

 

 

 

 

Antes de nos dirigirmos para o Palácio da Pena é uma boa ideia optar por uma curta caminhada, cerca de 20 minutos, até ao Chalet da Condessa d’ Edla. Passamos pela Abegoaria – as Cavalariças – e seu edifício de arquitectura rural com fontanário com escultura de uma carranca em bronze, pelas estufas, a ponte-pérgola e a mimosa Casa do Jardineiro, esta última com pormenores decorativos em cortiça que encontraremos em grande escala uns poucos minutos depois no Chalet.
 

 

 

 

O Chalet da Condessa d’ Edla foi construído entre 1864 e 1869 por D. Fernando II e pela sua segunda mulher, precisamente a Condessa d’ Edla, de seu nome verdadeiro Elise Hensler. Amantes da música – Elise era cantora – e das artes em geral – o Rei D. Fernando II ficou na história com o cognome de “Rei Artista” – o casal decidiu criar num lugar mais isolado do Parque da Pena um autêntico refúgio no meio da natureza. Os princípios do romantismo estavam cá quase todos e a arquitectura do Chalet mais não fez do que complementar e requintar o cenário. De inspiração alpina, esta casa de veraneio possui uma decoração pouco vista em Portugal. Certo que a cortiça utilizada na decoração do revestimento das portas e janelas na fachada é material português, mas será raro depararmo-nos por cá com uma casa em alvenaria coberta com pintura a imitar pedaços de tábuas para se parecer a uma casa de madeira. A forma do telhado também é uma surpresa para o nosso olhar. 
 

 

 

Mas não só o elemento arquitectónico merece a visita ao espaço designado Chalet da Condessa d’ Edla. A natureza que o envolve, mais uma vez feita de vegetação e pedras, é luxuriante. 
As maciças pedras vizinhas ao Chalet são uma atracção por si só. Poderosas e elegantes, vale a pena adentrá-las e descobrir caminhos por entre as pedras dispostas de forma encantadora, muitas das vezes formando passagens e recantos.
 
 

 

De volta ao Vale dos Lagos, a paisagem natural ganha ainda mais força e é fácil perdermo-nos na vegetação intensa. Mais surpreendente ainda, no caminho podemos testemunhar a aliança entre a natureza e a arte contemporânea. Sim, espalhadas pelo Parque da Pena encontramos algumas instalações de artistas portugueses, como esta de Gabriela Albergaria – é um tornado?, não, é uma obra de arte 🙂 
 

 

E para nos mantermos no totalmente diferente, eis agora a Fonte dos Passarinhos. A surpresa continua e agora tem o condão de nos deleitar. Este pequeno mas poderoso edifício é um pavilhão decorativo de estilo islâmico, ao qual não falta sequer uma cúpula esférica com inscrição em árabe e encimada pelo crescente lunar. Construído em 1853, para além da sua arquitectura o pavilhão possui ainda como influências islâmicas a profusão de azulejos que o revestem e o som da água a correr audível no seu interior, marca esta comum também ao romantismo.
 

 

 

Na envolvência deste pavilhão encontramos elementos tão diversos como um jardim das camélias, uma capela manuelina ou um tanque dos frades que abastecia as hortas e muitos, muitos caminhos que serpenteiam por entre o arvoredo.
 

 

Mais adiante, o Lago da Concha, mais um lago, mais um refúgio, mais um encanto.
 

 

Subindo um pouco mais, chegamos à Gruta do Monge, um espaço sombrio completamente apartado do mundo, ideal para o recolhimento e meditação dos monges Jerónimos.
 

 

Aqui perto fica um conjunto de pedras que vamos observando desde baixo. Não falo da pedra do guerreiro, mas antes do Alto de Santa Catarina. Diz-se que este era o miradouro preferido da rainha D. Amélia e não é difícil perceber porquê. Aqui encontramos o Trono da Rainha, estrategicamente instalado de frente para o Palácio da Pena, numa vista completamente desafogada em plena e profunda Serra de Sintra. Ideal para uma paragem e um momento de contemplação – daqui tudo se avista e o mimoso Palácio ali está, altaneiro, colorido, parece que a posar exclusivamente para nós.
 

 

Tempo ainda para uma passagem pelo Templo das Colunas, edifício de arquitectura clássica, bem evidente pelas doze colunas que antecedem a sua fachada, situado no Alto de Santo António – mais um miradouro privilegiado para o Palácio da Pena, antes de entrarmos definitivamente neste edifício que constitui o maior exemplo do Romantismo em Portugal. 
 
O Palácio da Pena é provavelmente o maior postal de Sintra.
As cores do palácio já se vinham destacando há muito desde quase cada canto da nossa longa mas aprazível caminhada. Cada vez que olhávamos, lá estavam elas, aquele amarelo e aquele vermelho a irromperem pelo céu. Mas, de repente, à medida que íamos chegando mais perto começou a chover copiosamente e o céu tudo nublou de forma que tudo se deixou de perceber. 
Resultado? Em força para a visita ao interior do Palácio, reportagem fotográfica de exteriores adiada para uma próxima visita. 
 
O tempo em Sintra é um tópico. Qualquer lisboeta está já acostumado aos seus humores. 
Em resumo, no Parque da Pena apenas não subimos até à Cruz Alta, o ponto mais elevado da Serra de Sintra, a 529 metros de altitude, uma vez que a chuva que caía e a visibilidade a roçar o zero não compensaria a subida. Ainda assim, este é passeio para ocupar um dia todo, com muito tempo para caminhar, sentar, contemplar, piquenicar e, sobretudo, descobrir.

Pena

Manhã de sábado nublado em Lisboa não indicia nada de bom para Sintra, mas com o microclima da serra nunca se sabe.

Desta vez não houve diferenças no tempo. Olhar para o Palácio da Pena e não vislumbrar mais do que uma ideia das torres do palacete e nem chegar a imaginar as suas cores vivas é um murro no estômago. Mas, viajante que se preza é paciente até nas redondezas da sua casa, e com isso tem a recompensa de ver o sol abrir. Obrigada clima de Sintra.

O Palácio da Pena foi mandado recuperar no século XVIII por D. Fernando II, o rei consorte por via do casamento com D. Maria II. Instalado a 500 metros de altitude, no topo da serra de Sintra, o projecto de arquitectura aproveitou parte das ruínas do antigo mosteiro de Jerónimo de Nossa Sra da Pena, e foi buscar inspiração nos palácios da Baviera. É o maior exemplo da arquitectura romântica em Portugal, mas nele convivem alegremente motivos mouriscos, góticos e manuelinos. As torres, e um pouco por ali e aqui, deixe o clima ou não, são cheias de cores e fantasia.

Depois, encontramos ainda na sua fachada, a par dos brasões da ordem, uns bonitos azulejos e, abrindo caminho para o Pátio dos Arcos onde se obtém uma vista fabulosa para o Atlântico, um rosto de Tritão que nos tenta assustar. No meio de tanta beleza neste castelo de fadas, não o consegue.

A visita ao interior do Palácio começa pela entrada pelos claustros, pequenos e aconchegantes, lindos, numa palavra. Depois vamos percorrendo as salas, sejam as que foram dedicadas ao atelier de D. Carlos, seja o quarto do camareiro, seja o de vestir da rainha (D. Amélia foi a última que por cá passou e utilizava o Palácio como residência de Verão), seja o da sala árabe, ou qualquer um outro com mobiliário e motivos da época.

Para além do Palácio, o parque e toda a serra que o envolve são também eles uma maravilha que merece ser percorrida caminhando sem pressas. Infelizmente não foi o caso deste sábado. Ainda assim, pegámos no carro e demos a volta até ao Chalet da Condessa de Edla, recentemente recuperado. A condessa suíça, de nome Elise Hensler, cantora de ópera e mãe solteira, viria a tornar-se a segunda mulher de D. Fernando II e após a morte deste herdou o Palácio da Pena. Antes, porém, juntos mandaram construir o dito Chalet e jardim, a 30 minutos a pé da Pena, por entre lagos e espécies botânicas em abundância.

A sua localização é estratégica e pretendia D. Fernando com ela um local de maior recato e longe da corte. No entanto, desde os imensos e formosos blocos de granito vizinhos ao Chalet, a Pena fica, majestosa e bela, a uma curta mirada.

O Chalet em si, construído entre 1864 e 1869, teve por modelo os chalets dos Alpes. Em estilo romântico, o edifício é em madeira e utiliza a cortiça como motivos decorativos. O castanho da cortiça e o verde do jardim ficam perfeitos com o amarelado do Chalet, de dois pisos, no qual o interior tem apenas ainda uma sala recuperada – a sala das heras. As obras do Chalet continuam ainda, mas só pelo seu exterior e enquadramento vale uma visita, de preferência conjunta com a Pena.

Praia da Ursa

De volta da Índia e em estágio para dominar as expectativas face à primeira ida a uns Jogos Olímpicos (só para assistir, que competir não passou de um sonho), um reconhecimento de que fazer praia é cá em casa.
Perto do Cabo da Roca fica aquela que é a praia mais ocidental da Europa e que foi considerada pelo guia Michelin uma das praias mais bonitas do mundo.
Com tal palmarés, o único facto de estranhar é que, ficando tão perto, nunca lá tivéssemos dado um salto.
Salto, não. É melhor dizer que é de estranhar que nunca nos tenhamos arrastado até lá.
A praia é selvagem, sabíamos que tinha uns acessos maus e difíceis. Só não cuidamos foi de decorar que devíamos tomar o caminho mais à esquerda na descida desde o parque de estacionamento.
Resultado: parece que descemos pelo caminho do alpinismo. Foi muito perigoso, a não repetir. A descida foi feita em terreno escorregadio e com pedra solta. Não houve outro remédio se não descer sentadas, a tentar controlar a descida para não resvalarmos por ali abaixo. E é de bastante altura que se trata.
Vamos à parte boa, agora que conseguimos não nos magoar na aventura (só tivemos 3 dias de dor intensa de pernas).
A paisagem cá de cima, altaneira, antes da dolorosa descida, é fabulosa. A água clara e as escarpas rompem pelo mar a embelezar a falésia. As rochas pontiagudas são um postal perfeito. Lá em baixo há areal suficiente para as poucas dezenas de companheiros que se aventuram chegar à praia linda. E há, sobretudo, uma série de enseadas onde podemos entrar e deslumbrar-nos ainda mais com o cenário.

 

Parque e Palácio de Monserrate

A caminhada desde o centro da Vila até Monserrate é agradável e fácil, pela estrada com não muito trânsito mas sem bermas.
Monserrate tem uma história curiosa que começou com o nome de Quinta da Boa Vista no século XVI, mesmo século em que foi aí construída uma capela dedicada a Nossa Senhora de Monserrat.
Depois de propriedade de nacionais passou para uma série de ingleses, como De Visme, o responsável pela construção do primitivo palácio neo-gótico no lugar da capela, ou William Beckford que se dedicou à construção do jardim, incluindo a cascata e os arcos de pedra. Com a partida deste no princípio do século XIX o local entrou em declínio e a sua fama romântica cresceu, muito por causa de Lord Byron e dos seus relatos de viagem. Em 1841 inicia-se a reabilitação de Monserrate – palácio e jardins – por intermédio de outro inglês de nome Francis Cook. Em 1949, após a compra da propriedade por um português comerciante de antiguidades que leiloou o recheio do palácio e tentou lotear a quinta, o Estado adquiriu-a. Se dissermos que só em 2001 se iniciou o processo de recuperação do hoje imóvel classificado, dá para ver muito bem quantas décadas teve esta beleza para se degradar.
O certo é que hoje ela aparece-nos em todo o seu esplendor. No seu conjunto é um excelente exemplo da arquitectura do período romântico em Portugal, com uma mescla de gótico veneziano com influências indianas e mouriscas. O jardim, que vem por aí abaixo do palácio, ou este vem por aí acima, bem pertinho do céu, como se um troféu se tratasse, o jardim, dizia, é um manto interminável de verde, com caminhos que se entrecruzam com direito a ramos a fazer de ponte e laguinhos com nenúfares.
As obras no interior ainda estão a desenrolar-se ao mesmo tempo que podemos ir aproveitando o já recuperado. E que bem recuperado. Uma maravilha que deixo para as fotos. Mas não deixo de pensar e dizer… ai aqueles tectos!

Sintraaa!!!

Este ano comecei com um almoço nas Azenhas do Mar.
Talvez um bom auspicio para visitar Sintra. Melhor dizendo, revisitar, que tudo lá merece incontáveis retornos.
Há dias voltei a Monserrate, depois de lá ter estado em 2007, precisamente o ano em que se iniciou o processo de recuperação do interior do Palácio.


Antes, em 2004, subi até ao Castelo dos Mouros.


Em 2005 subi um pouco mais até ao Convento dos Capuchos.


Em 2006 foi a vez de um passeio de eléctrico até à Praia das Maças, com direito a piquenique na areia.


Em 2007 visita à Pena como cicerone para os primos emprestados brasileiros.


A Regaleira foi alvo de umas quantas visitas, uma das quais a trabalho quando ainda não estava aberta ao público e outra para assistir a uma peça de teatro em movimento – o Hamlet em ambiente misterioso.


Mas o bom da Regaleira, tal como de Seteais, é que ficam mesmo ali à beira da estrada, prontos para serem devorados pelo olhar e todos os nossos outros sentidos.


Fica a faltar o Palácio da Vila, nunca visitado mas tantas vezes fotografado, cartão postal da Vila de Sintra.

E uma estreia absoluta: o Chalé da Condessa d´ Edla, aberto o ano passado.