O Tritão da Pena

O Palácio da Pena é o maior exemplo arquitectónico do romantismo em Portugal. 
Responsabilidade de D. Fernando II, o Rei Artista, rei consorte então casado com D. Maria II, ele próprio acompanhou e conduziu de perto as obras do projecto a cargo do Barão Von Eschwege, levadas a cabo entre 1840 e 1854.
Construído no lugar de um antigo convento de frades Jerónimos do princípio do século XVI – os quais haviam já tido a bela ideia de escolher o topo de um dos montes mais altos na Serra de Sintra para seu refúgio – poucos lugares mais inspiradores e cénicos haverá. 
D. Fernando II, primo da Rainha Vitória de Inglaterra, homem culto e elegante, deixou-se levar ainda mais pelo ambiente da Pena e aqui deu sequência à sua carreira artística, sobretudo dedicada à gravura e à pintura sobre cerâmica, em peças fornecidas pelas oficinas das Caldas da Rainha e pela Fábrica de Sacavém, com temática que vai desde a vida familiar, passa pela representação da vida animal, em especial os cavalos, e não deixa de se debruçar sobre os costumes, mitos e heróis das tradições populares portuguesas.

Por ocasião do bicentenário do seu nascimento (1816-2016) está neste momento patente no Palácio da Pena uma exposição com objectos de arte de sua criação.

A arquitectura do Palácio da Pena tem muito para surpreender e deliciar. Projecto revivalista, neste palácio inspirado nos seus congéneres alemães encontramos em plena harmonia estilos tão diversos como o manuelino, gótico, renascentista, mourisco e até elementos indianos.
Poderia lembrar uma das suas várias salas, como o atelier de pintura do rei D. Carlos, e seu mobiliário; ou a capela parte original do antigo convento; uma das suas guaritas ou a espécie de minarete com cúpula mourisca; as suas inúmeras torres – circulares, semicirculares ou quadradas – ou tão só a sua torre com o relógio de sol; os miradouros como o terraço da rainha ou o caminho da ronda ou qualquer outro ponto de vista complemente aberto ao mundo; o seu harmonioso Claustro manuelino ou a profusão de azulejos que revestem inúmeras partes do Palácio. 
Entre todos estes, muitos pormenores há para absorver. 

Todavia, escolho antes lembrar a obra-prima que constitui o Pórtico do Tritão.


Sintra, terra de lendas, é lugar mais do que adequado para que a pretexto de arquitectura e seus elementos decorativos se possa expressar mais uma lenda. Diz-se que o Tritão, monstro mitológico meio peixe, meio homem, costumava visitar as águas que bordejam as terras de Sintra, as quais se avistam do alto da Pena. Talvez também por isso tenha sido escolhido para adornar o Palácio. 
Este Pórtico do Tritão continua a constituir um enigma e muitas teorias têm sido lançadas à volta do seu significado concreto. 
Sem romancear, e numa olhada apressada, podíamos dizer apenas que há para ali um monstro que suporta uma janela. Mas assim não teria tanto encanto.
Diz-se que esta é uma alegoria da criação do mundo. E que D. Fernando II, amante de lendas e da cultura portuguesa, o projectou ele próprio e terá ido buscar este Tritão baseando-se em duas tradições literárias nacionais – uma à obra de Damião de Góis (que fala de um Tritão a cantar com uma concha numa praia de Colares), outra aos Lusíadas de Camões (que fala num Tritão que lembra o da Pena).
O Pórtico é constituído por um arco, que media duas torres com cúpula mourisca, com decoração em relevo a fazer lembrar corais. Logo acima encontramos três conchas, com o Tritão sentado na maior delas. Da cabeça deste homem barbudo saem cabelos que se transfiguram num tronco donde emergem parras de videira. Este é um mundo terrestre, pleno de elementos vegetalistas, por contraposição aos elementos marinhos que encontramos na parte inferior do Pórtico, os quais representam o mundo aquático. 
Dois mundos distintos, pois – tal como a Pena parece todo um outro mundo.

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