Castelo de Vide

A primeira impressão à aproximação de Castelo de Vide, que vamos vendo instalada no alto de uma colina a 469 metros de altitude, é a de que é uma povoação extensa de casas brancas protegidas por um castelo no meio da Serra de São Mamede.

Castelo de Vide recebeu carta régia em 1180 e o primeiro foral em 1310 por D. Dinis, o qual construiu o castelo que lhe dá o nome e as muralhas que perduram até hoje. Não é, no entanto, deste rei a estátua com que nos deparamos à entrada do centro histórico. Na larga Praça D. Pedro V é este esbelto rei que nos dá as boas-vindas e logo percebemos que é uma vila bem conservada a que nos recebe. Não que seja monumental, nada disso. São antes as suas ruas e o seu casario e apontamentos arquitectónicos e decorativos discretos mas abundantes o que nos seduz. Ou seja, há que caminhar e palmilhar as ruas estreitas e íngremes de Castelo de Vide para melhor a sentirmos e ganharmos.

Na Praça D. Pedro V ficam os antigos Paços do Concelho, um edifício com arcos quebrados e portais góticos, uma construção nobre do século XVIII que ostenta um brasão com as armas de Portugal e a cruz de Avis. E aqui ficam ainda mais uns quantos edifícios interessantes.

Uns interessantes pela sua arquitectura surpreendente, com pequenos torreões acastelados, uma, e com trabalhos de estuque e cores vivas, a outra. Outros ainda interessantes pelo facto de neles terem nascido personagens históricas, como Mouzinho da Silveira, por exemplo. Ao lado da Igreja Matriz da Devesa fica um pequeno largo que leva o nome de outra figura que desempenhou um papel decisivo no nosso Portugal contemporâneo: Castelo de Vide é a terra que viu nascer Salgueiro Maia.

Tamanhos vultos só podem significar ser esta uma terra grande e mais adiante nomearemos ainda um outro, só para tirar qualquer dúvida que ainda pudesse existir.

Antes, porém, subamos até ao castelo. Pelas tais ruas estreitas e íngremes. Sempre preenchidas com o casario branco com frisos amarelos, tão típico dos povoados alentejanos. Mas aqui as ruas de traçado medieval estão todas floridas. E as portas ogivais e manuelinas sucedem-se sem que nos cansemos de as observar.

A entrada no Castelo e a descoberta de um novo burgo permite-nos perceber que Castelo de Vide são como que duas povoações, mas ambas unidas pelo mesmo carácter e atmosfera. No entanto, o enorme trabalho de conservação e restauro da vila não chegará para tudo e aqui dentro do castelo veem-se alguns espaços abandonados.

Mas a maioria segue inteira e mimosa aos olhares forasteiros. Uma placa de uma das ruas anuncia ter sido esta, em tempos, a vencedora de um prémio de rua mais florida e uma velhinha à sua porta dedica-se ao artesanato e à venda dos seus produtos.

No burgo intra Castelo destaca-se o pequeno largo onde fica a igreja de Nossa Senhora da Alegria, conhecida pelos seus azulejos.

É possível caminhar um pouco pelas muralhas e até descê-las e voltar ao centro histórico da vila pela encosta contrária à entrada principal do castelo.

Não o fizemos e optamos apenas pela a imprescindível subida à Torre de Menagem. Daqui se aprecia os contornos da serra que envolve a vila de Castelo de Vide que se espraia aos nossos pés.

E se subimos até ao Castelo, agora toca-nos descer.

A Judiaria, o bairro judeu medieval, é o conjunto de casas e ruelas instaladas numa encosta que vai da porta do castelo até à fonte da vila. No século XV um édito dos Reis Católicos de Espanha levou a que inúmeras famílias judias fugissem do outro lado da fronteira e aqui procurassem refúgio. Foi assim que aqui se foi instalando uma comunidade judaica que muito viria a contribuir para o desenvolvimento da vila. No edifício do que se pensa (sem muita certeza) ter sido a sinagoga fica hoje um espaço museológico que nos conta a história e tradições desta comunidade que se dedicou sobretudo a artes e ofícios como a sapataria, tecelagem e cardação. Ficamos a saber, por exemplo, que as tradições pascais da vila (comuns, aliás, a muitas regiões do país) terão ainda hoje influência de ritos judaicos. E que Garcia da Orta pode ter escapado em vida à fogueira, o que não aconteceu com a sua irmã, mas os restos do seu corpo já no túmulo não tiveram a mesma sorte, vítimas da Inquisição. É isso mesmo, Garcia da Orta, o mais histórico dos botânicos portugueses, é também um dos filhos ilustres de Castelo de Vide.

Saídos da sinagoga descemos a bem descer até à Fonte da Vila, construção do século XVI em forma quadrangular e com uma cobertura piramidal suportada por colunas de mármore. Despedindo-nos desta fonte singular, subimos mais uma rua e já cá estamos novamente diante dos antigos Paços do Concelho. Diversas ruas irradiam daqui para cima, até lugares que nos oferecem uma panorâmica irresistível do castelo e da Serra de São Mamede e mais além.

Na outra ponta da Castelo de Vide fortificada há até mais um forte para além do castelo, o forte de São Roque, e pelo meio diversos baluartes. Haja fôlego para repetir as subidas. Cá em baixo, porém, vários jardins e igrejas nos aguardam. E bons restaurantes. E doçaria típica, como a boleima, mais uma tradição da comunidade judaica.

Não é fácil deixar o encanto de Castelo de Vide, mas saímos convencidos do bom trabalho na conservação de uma vila pitoresca no interior de Portugal.

Não podemos, no entanto, deixar de vaguear pelos seus arredores. Região onde a ocupação humana é muito antiga, vários exemplares do megalitismo estão por aqui presentes, como antas e menires. Junto a Marvão, ali perto, temos até a cidade romana de Ammaia para conhecer.

Mas a melhor forma de nos despedirmos de Castelo de Vide é subir até à Capela Nossa Senhora da Penha, um miradouro incrível donde tudo se alcança, e avistá-la de longe por entre o arvoredo e as rochas agrestes.

Para pernoitar, uma sugestão à medida da pacatez que a interioridade do Alentejo nos oferece. Existem várias opções de alojamento, mas talvez nenhuma tão surpreendente como a Pensão Destino, instalada na antiga estação de comboios de Castelo de Vide, a 4 kms do seu centro histórico. Aqui pudemos desfrutar do sossego absoluto da serra, apenas entrecortado pelo latido dos cães ou o cacarejar das galinhas, enquanto nos deixamos estar na sua esplanada com a companhia dos belíssimos azulejos e relógio da antiga estação e da desactivada linha do comboio ali mesmo ao lado.

Marvão

Quando vemos um grupo de uns 40 chineses a ser descarregado em bando de um autocarro num ponto do interior de Portugal ficamos sem dúvidas: o Marvão pode ser um ponto perdido no meio da Serra de São Mamede, mas é um daqueles que tem obrigatoriamente de estar no caminho de, pelo menos, qualquer um de nós, portugueses. Pois então se até do outro lado do mundo o vêm conhecer.

A sua localização é especial, uma vila no alto de um cabeço a 843 metros de altitude, a mais alta povoação do Alentejo. E para torná-la ainda mais inexpugnável, muralhas e torres cercam-na e confundem-se com a rocha fabulosa que a natureza lhe ofereceu. O que não se confunde nunca, mesmo se avistado de longe, é o seu casario de cor alva durante o dia e as suas luzinhas amarelo-alaranjadas durante a noite. Parece mágico e é-o mesmo.

O nome “Marvão” tem origem no nome do fundador da vila, Ibn Marwan, o vizir da época muçulmana que levantou as fortificações no século IX. Três séculos depois, D. Afonso Henriques tomou-a aos mouros e integrou-a no reino de Portugal. Com uma situação geográfica estratégica, foi desempenhando ao longo dos tempos um papel muito importante no controlo e no povoamento da linha de fronteira. Marvão está a apenas 6 kms da fronteira com Espanha.

O acesso por estrada a Marvão é feito exclusivamente a partir da povoação de Portagem, lugar de bons restaurantes e de um parque fluvial aprazível junto ao rio Sever situado na planície da Serra de São Mamede. Daí é sempre a subir em direcção a Marvão. Antes de adentrarmos na vila medieval fortificada, encontramos o Convento e Igreja de Nossa Senhora da Estrela, construído pelos franciscanos em 1448.

Um pouco mais adiante chegamos, então, às Portas de Rodão, uma das entradas de Marvão. É muito boa ideia deixar o carro aqui fora para poder explorar livremente as suas ruas a pé.

Ultrapassada esta porta muralhada, logo nos surge uma ruinha a subir. Rua estreita mas longa, calçada antiga, casas brancas de um lado e do outro de dois pisos (tradicionalmente o primeiro para oficina ou guardar animais e o segundo residencial). O típico de Marvão que nos há-de acompanhar por toda a jornada.

E por esta rua logo chegamos ao Largo do Pelourinho e à Câmara Velha (também conhecida como Torre do Relógio), hoje Casa da Cultura, o lugar do antigo tribunal e da antiga prisão, um pequeno espaço museológico que vale a pena visitar. Mouzinho da Silveira foi juiz em Marvão e esse facto é aqui lembrado. Desde este centro da vila temos três opções: ou seguimos a mesma direção, sempre em frente, ou subimos as escadinhas junto à Câmara Velha ou viramos à esquerda, invertendo o sentido em direcção ao Castelo. Optámos por esta última no imediato, mas não deixámos de, mais tarde, seguir por todas as ruas que a pequena Marvão nos oferece.

Antes de entrarmos no Castelo passamos pela Igreja de Santa Maria, hoje transformada em Museu Municipal, e pelo bonito jardim de buxo à sua porta.

Situado sobre uma escarpa rochosa no ponto mais alto da vila, e na sua vertente mais oriental, o Castelo ergue-se vigilante. Esta é a única fortificação medieval portuguesa que manteve o seu valor estratégico até ao século XIX. Logo ultrapassada a sua porta de entrada encontramos uma das maiores cisternas de castelos portugueses, com 1 metro de altura e 46 cm de comprimento. Diz-se que aqui se acumulava água para 6 meses, essencial para uma vila altaneira onde não havia água.

Segue-se a segunda porta e um enorme terreiro (o antigo albacar) nos aguarda, a primeira de duas praças de armas. E a Torre de Menagem. É imprescindível subir à torre da bandeira ou, para quem tem vertigens, pelo menos caminhar pela muralha. As vistas da serra de São Mamede e da vila de Marvão são fabulosas (se bem que a vista que se obtém antes da entrada do Castelo, encavalitada na rocha, é mais fotogénica, pela agreste natureza moldada pelo Homem).

José Saramago escreveu em tempos que “de Marvão vê-se a terra toda”. Já o Prior Frei Miguel Viegas Bravo, nas Memórias Paroquiais de 1758, classificava Marvão como a “vila a mais inconquistável de todo o reino, só aos pássaros permite a entrada. Talvez por isso, Marvão é conhecida como “ninho de águias”.

Um novo terreiro, mais pequeno, aguarda-nos ainda para completar a surpresa que é a visita a este Castelo. Rodeado de altas muralhas, aqui ficavam os antigos paióis e armarias. A chamada Porta da Traição fica por aqui, assim como diversos baluartes. As vistas continuam largas.

Apreciada, então, Marvão de cima, e percebidos agora mais claramente os contornos desta vila muralhada, adentramos novamente pelas suas ruas.

Passamos pela fonte do concelho, pelo edifício apalaçado da antiga Casa do Governador com a sua sacada em ferro forjado, por lojas de artesanato e venda de castanhas, pela Igreja de Santiago em frente a mais umas formosas formações rochosas. Uma das mais bem conservadas vilas fortificadas portuguesas, Marvão não é, ainda para mais, um burgo fantasma. Tem vida, e não apenas pelos turistas que a visitam.

Castelo de Ouguela

Um dia destes torno-me sócia da Associação dos Amigos dos Castelos. Castelos, fortes e fortalezas, quanto mais distantes e abandonados, melhor. Sou capaz de fazer desvios de dezenas ou centenas de quilómetros só para os conhecer.

Ouguela, por exemplo, fica lá longe, já a riscar a linha de fronteira com Espanha. Mas como está ali, temos de o conhecer. Valha a verdade, as estradas do Alentejo, nomeadamente a caminho de Campo Maior, são um prazer de ser percorridas. Não é preciso ser-se nenhum Fitippaldi para se conduzir aqui. Rectas a perder de vista, estradas sempre planas, paisagem plácida, vacas e bois a pastar por entre as ovelhas, a planície alentejana é beleza pura. As cores do Outono mais não fazem do que adornar este cenário do montado alentejano.

A antiga Praça Forte de Ouguela fica a cerca de 10 quilómetros de Campo Maior. É uma excepção à planura da região próxima, mas não muito. Instalada no cimo de um cabeço rodeado por campos de oliveiras, esse monte tem apenas 259 metros de altitude.

Não são certas as origens de Ouguela. Crê-se que tenha sido um povoado proto-histórico que acabou por ser romanizado e mais tarde transformado numa fortaleza islâmica. Passou para o domínio cristão e fez parte do Reino de Leão e Castela na sequência da Reconquista Cristã da Península Ibérica. De Espanha resta hoje a vista cercana, ali à distância de um esticar de braço. D. Dinis acabou por integrar Ouguela no reino de Portugal em 1297, tendo-lhe concedido foral no ano seguinte. Desde aí Ouguela desempenhou um papel importante ao longo da história, sobretudo como parte da primeira linha de defesa da raia alentejana, a par das fortificações de Elvas, Campo Maior, Olivença e Juromenha (esta última, a minha preferida). Mas acabou por perder relevância militar e foi vítima do abandono da sua população. Uma quadra, irónica, canta o seguinte:

Adeus vila de Ouguela / Que não há vila mais nobre / Para teres vinte ruas / Faltam-te só dezanove

Ouguela, nos seus tempos de grandeza, terá passado dos 600 habitantes. Hoje não são mais de 60, distribuídos pelas casas extra-muralhas (a maioria) e por aquelas intra-muralhas.

Parte das muralhas e torreões da histórica vila insistem em manter-se de pé, porém. O seu traçado medieval também se mantém. Por altura da minha visita, intensas obras decorriam, quer no exterior das muralhas quer no interior do castelo. O terreiro estava todo revolvido, ao que parece para remodelação da conduta da água.

Mas para aí entrarmos temos de atravessar as duas portas em arco do castelo, encimadas por umas bonitas e ainda perceptíveis decorações do brasão de armas local. Após um percurso não linear junto às paredes da muralha, quase labiríntico, chegamos então à antiga praça de armas, o tal terreiro em obras. Ao centro, um poço correspondente à antiga cisterna permite ainda hoje aos habitastes retirar água. As suas poucas casas são brancas, com portas verdes, e com telhados ocres, como é da praxe alentejana.

As chaminés possuem um formato curioso, sendo altas e estreitas. Subimos às muralhas através de umas escadinhas que mais parecem propriedade privada. A muralha não está toda intacta, mas podemos caminhar sobre ela.

As vistas para a planície alentejana são soberbas. Daqui de cima uma tranquilidade imensa invade-nos. O antigo castelo era envolvido por um fosso a toda a volta, protegendo e isolando a então vila de Ouguela. Hoje Ouguela é apenas lugar, até o estatuto de freguesia perdeu, mas o seu isolamento dá-lhe um carácter especial.

Ao longo dos séculos o Castelo de Ouguela foi sofrendo alterações, por forma a adaptá-lo às exigências militares de cada época. O casario que chegou aos nossos dias data do século XVIII, incluindo a alvíssima Igreja de Nossa Senhora da Graça, interessante contraste com os tons da pedra da muralha.

Em 1840 a praça-forte de Ouguela foi desmilitarizada e desde aí, mais acentuadamente, vive num sono quase profundo, talvez triste para quem ainda ouve recordar os seus tempos áureos, mas mágico para quem a visita.

Adega Mayor

A Adega Mayor é mais uma das maravilhas arquitectónicas com que Siza Vieira nos tem brindado. Desta vez a responsabilidade não é só do arquitecto. O comendador Rui Nabeiro sonhou e Siza vez acontecer.

Esta adega plantada no meio de um montado alentejano junto a Campo Maior é pura emoção.

Com uma pré-marcação é possível fazer-se uma visita guiada à Adega Mayor. A visita inicia-se com um breve vídeo sobre as origens desta ideia e, acreditem, esta história simples de um sonho tornado realidade fez com que as lágrimas me viessem aos olhos. Não é tanto a história em si que é tocante, antes a bela parceria Homem-Natureza que vamos vendo desfilar em imagens de todos os ângulos possíveis, incluindo o aéreo, onde se percebe na plenitude os contornos deste projecto.

Sendo esta uma adega é de vinhos que se trata o tal sonho do comendador. Não sendo entendedora nem sequer consumidora, resta-me dizer que para a sua integridade contribui o facto de eles serem criados próximo ao clima temperado da Serra de São Mamede e aos seus solos graníticos.

Vamos, então, aos elementos decisivos desta emoção.

Primeiro a localização. Às portas de Campo Maior, junto à fábrica da Delta e ao Centro de Ciência do Café, a Adega Mayor ocupa cerca de 350 hectares de campos agrícolas e montado de azinho desde 2007. Com excepção daqueles edifícios industriais, poucos mais se percebem à volta, a não ser pequenas construções de apoio rural. É isto que é tão cativante neste projecto, a sua implantação na ruralidade, aproveitando todas as potencialidade do lugar. Cercam-no vinhas e mais vinhas, de cores variadas, uma paleta perfeita acrescentada às poderosas cores do Outono. Em meados de Novembro viam-se e ouviam-se os homens a cortar as vinhas, compondo este quadro perfeito.

Depois a arquitectura. A primeira adega de autor em Portugal é um projecto que tem a marca inconfundível de Siza Vieira: as linhas direitas e elegantes, a cor branca, uma simplicidade notável. Poder-se-ia dizer que este edifício caiu ali de pára-quedas. Mas não. Tudo aqui faz sentido e mostra-nos como é (parece?) tão fácil integrar uma peça arquitectónica num meio rural.

À primeira vista é o exterior do edifício e sua envolvente que nos seduzem. Mas o seu interior é também ele uma obra de arte em que tudo foi pensado para atingir a excelência no propósito de fazer um bom vinho. Sim, não nos podemos esquecer que este edifício é muito mais do que um belo boneco. Ele é, antes de tudo, uma adega. E para isso Siza pensou e executou os espaços para acomodar a transformação das uvas e o armazenamento das barricas sem recorrer às costumeiras caves. Não há aqui pisos enterrados e a manutenção de uma temperatura e humidade ideais para a conservação do vinho foi alcançada à conta da escolha dos materiais das salas. Para isso, decisiva foi também a opção por um espelho de água no terraço que permite que a sala que lhe está abaixo mantenha sempre a temperatura desejada.

O terraço da Adega Mayor é provavelmente o espaço mais deslumbrante deste edifício, como que um prolongamento até ao infinito da planície alentejana. Por sorte, pude visitá-lo ao pôr-do-sol e face a tamanho cenário as palavras perdem sentido.

Arouca

Já que estamos pela Serra da Freita e pelos Passadiços do Paiva, vale a pena uma paragem na vila de Arouca, sede de concelho abençoada com uma paisagem natural impressionante.

Arouca cresceu e desenvolveu-se à volta do Mosteiro de Santa Maria de Arouca. Este Mosteiro, talvez datado do século X, foi doado por Dom Sancho I à sua filha, Dona Mafalda. No início era um mosteiro misto, mas a partir do século XII tornou-se exclusivamente feminino, e logo um dos maiores do país, tendo passado a integrar a Ordem de Cister em 1226. O edifício que vemos hoje foi alterado praticamente por completo nos séculos XVII e XVIII. Os seus dormitórios são largos, a atestar a origem aristocrática e o poder das famílias das freiras de Arouca. É por isso que este mosteiro é rico, alimentado pelos dotes das suas ocupantes, e ainda hoje essa riqueza é visível. A visita ao Museu de Arte Sacra neste Mosteiro, incluindo cozinha, claustros, pintura, escultura, mobiliário e prataria, tem como ponto alto o seu Coro Baixo.

Separado da bela igreja rica em talha dourada (de visita livre), para que as freiras não fossem vistas pelos leigos, este Coro é uma pequena maravilha. O belíssimo trabalho do cadeiral é obra de entalhadores portuenses do século XVIII e acima veem-se vinte emocionantes imagens de pedra de Ançã esculpidas por Jacinto Vieira também da mesma data.

Junto ao Mosteiro é o coração de Arouca e nas ruas ao seu redor destaca-se algum casario mais distinto e revestido a azulejo. À frente fica a Capela da Misericórdia com o seu bonito largo com calçada portuguesa. Um pouco mais acima o Calvário. Parece uma terra devota.

Para algo mais terreno, voltemos ao centro, seja para comprar alguns produtos locais na feira dominical no parque verde, seja para uma refeição num dos seus restaurantes de comida típica regional, donde faz parte a incontornável carne arouquesa.

E não esqueçamos de saborear um dos vários doces conventuais regionais, como as castanhas doces, as roscas, as morcelas doces e as barriga de freira. A provar que Arouca é terra de paisagens enormes, mas também de sabores inesquecíveis.

Para terminar em beleza, uma subida até à Capela de Nossa Senhora da Mó, mais um dos pontos de vista soberbos da região para a despedida.

Os Passadiços do Paiva

Os Passadiços do Paiva são actualmente uma das estrelas do turismo português. Numa região de enorme beleza natural, é verdadeiramente uma proeza que um sítio possa recolher a quase unanimidade das preferências dos viajantes.

E então o que é isso dos Passadiços? São épicos oito quilómetros de caminhada ao longo do rio Paiva, pelo meio de uma natureza que começa plácida no Areinho e se vai tornando selvagem logo aos primeiros metros, numa jornada que vai alternando constantemente entre essa feliz combinação entre tranquilidade e inquietude naturais.

Por esse caminho, sempre à beira do Paiva, um dos rios mais bonitos e limpos da Europa, foram construídos uns passadiços de madeira que desde 2015 fazem as delícias de qualquer pessoa que goste de passear. Desde aí os Passadiços têm recebido uma série de prémios nacionais e internacionais, como o de projecto turístico mais inovador. Um arrojo quilométrico que faz com que estas estruturas de madeiras serpenteiem ao longo das enormes paredes rochosas, tentando acompanhar o percurso sinuoso do rio, e se suspendam nos céus. Logo ao início, para quem começa a caminhada no Areinho, vemos os Passadiços encavalitados e a tentar chegar às nuvens, numa escadaria imensa e sem fim. As várias formas que estes caminhos de madeira tomam nesta paisagem belíssima dão imagens irreais, daquelas que ficarão para sempre registadas na nossa memória.

Mas, então, se são oito quilómetros de caminhada isso não é para qualquer um, certo? Não necessariamente. Esta caminhada é considerada como sendo de nível de dificuldade alto e vem anunciada como distando, efectivamente, oito quilómetros entre as duas entradas possíveis: Areinho e Espiunca. Iniciando o percurso no Areinho a subida inclemente fica logo feita, enquanto que se o iniciarmos em Espiunca teremos a dita subida como fim de festa, quando já estivermos cansados – daí que seja aconselhável, a quem não se propõe fazer o percurso de ida e volta, inciá-lo no Areinho. Acontece que é sempre possível sair do percurso a meio, na Praia Fluvial do Vau, pelo que não existem desculpas para, pelo menos, percorrer o fácil – e belo – caminho entre Espiunca e Vau (4 quilómetros, cerca de 1 hora). A subida logo ao início do Areinho só se torna, na verdade, fácil apenas para quem não tenha problemas em subir escadas e se proponha fazê-lo com calma.

E, então, vale a pena fazer o percurso todo de longos oito quilómetros, isso não é sempre a mesma coisa? Não, a paisagem não é sempre a mesma coisa. Há a madeira dos Passadiços, certo, e há o rio e a serra. Mas a serra tem tonalidades e formas diferentes e umas vezes apresenta-se com vegetação e outras com rocha de granito ou xisto. O rio ora segue calmo como, de repente, se torna rebelde, com pedrinhas e relevos que mudam a cada instante. Escutá-lo é todo um outro programa nesta bela caminhada, uma sinfonia absolutamente natural. E, bom, as formas dos Passadiços, essas, já se disse, também vão surpreendente a cada passo, sendo uma merecida estrela criada pelo Homem neste ambiente puro de natureza. Posto isto, sim, há que fazer todo o percurso e se quisermos duplicar o prazer, pois então, que voltemos à casa partida do mesmo modo.

Chegar aos Passadiços do Paiva é fácil. Desde Arouca são cerca de 12 quilómetros por curvas numa densa vegetação até à Praia Fluvial do Areinho. É aqui que temos a maior área de estacionamento. O aconselhável é deixar aqui o carro e após a saída em Espiunca tomar um dos vários táxis que aí se encontram para voltar ao Areinho (o custo da viagem são cerca de 18 euros, daí que seja bom partilhar a viagem).

A Praia Fluvial do Areinho é o primeiro momento de beleza que encontramos. Com um pequeno areal, as árvores e as paredes de rocha produzem belos reflexos nas tranquilas águas do rio. Iniciamos a caminhada aqui por uma curta estrada de terra batida protegidos pelo enorme arvoredo.

Logo adiante começa o caminho de madeira, os Passadiços, e avista-se a Garganta do Paiva. É o primeiro momento selvagem, um desnível na terra por onde o rio vai furando as poderosas paredes rochosas.

E aqui se inicia a tal escadaria interminável. O argumento – verdadeiro – de que a paisagem é belíssima e merece ser contemplada sem pressas dá imenso jeito. Pois, então, subamos vintena de degraus a vintena de degraus e deixemos-nos estar por aqui a admirar o cenário. O cenário da natureza, sim, mas também da obra de construção desta escadaria em madeira, soberbamente intrincada na rocha. É no fim da subida desta formosa escadaria que surge a entrada no Parque (tem de ser previamente comprada na internet – 1 euro – ou no momento na Praia Fluvial do Areinho, mas aí sujeita a disponibilidade).

Após a subida e um momento de planura por nova terra batida com vistas altaneiras, logo nos aparece a descida, não menos intensa e formosa. E vem acompanhada da panorâmica da Cascata das Aguieiras, um fio de água que se distingue na montanha à nossa frente. A altura é enorme e aqui percebemos verdadeiramente a dimensão e força da natureza que nos rodeia.

Em termos de formas dos Passadiços, as vistas sobre as quais nos debruçamos na descida para o outro lado da montanha são as mais fantásticas. Só o rio segue tranquilo na paisagem rebelde de madeira e rocha.

Após esta descida o percurso segue sempre em passadiço de madeira até à Praia Fluvial do Vau e ainda demora. Mas nunca aborrece. Diz-se que a totalidade dos oito quilómetros se fazem, em média, em 2 horas e 30 minutos, mas só até ao Vau – metade do caminho – levei 2 felizes horas. Neste caso, devia haver louros não para os mais rápidos a fazer o percurso mas antes para aqueles que o levam mais tempo a saborear.

O Vau é um dos recantos do Paiva. Pura beleza, passe a repetição. É o lugar ideal para uma paragem, seja para um mergulho na água fria, um snack ou piquenique ou só para ficar a olhar para mais uns irreais reflexos na água. Temos até uma bela cascatinha.

Outra das estrelas do Vau é a ponte suspensa de madeira logo à sua entrada. Sobre o rio, a ponte é de madeira, bem estreita e balança que dói. É um bocadinho aterrador atravessá-la, ainda para mais se o fizermos ao mesmo tempo que um daqueles grupos numerosos e animados para quem a adrenalina é a chave da viagem. Podia chamar-lhes parvos, mas os parvos não sabem o que é bom e não vêm até ao Paiva.

Após o Vau o rio Paiva dá uma curva larga e a paisagem alarga. As emoções sobem e, de repente, a tranquilidade do rio apaga-se por momentos. A rocha continua com as suas formas agrestes, mas agora as pedras vão-se depositando cada vez mais no caminho do rio, estreitando-o, e este vai ficando revolto. O Poço das Golas é um paraíso para o rafting.

O cheiro a rio e a orvalho persegue-nos e acompanha-nos. A paisagem não pára de deslumbrar até Espiunca e já a chegar ao final do percurso não deixamos de olhar para trás uma última vez e guardar a beleza sem fim do Paiva.

Dois dias de carro pela Serra da Freita – o 2° dia

Junto a Arouca uma excelente sugestão de dormida é a Quinta do Toutuço, em Lourosa do Campo. O lugar é pura ruralidade, com vistas lindíssimas para o verde da serra, um recanto de pacatez. Se não houvesse tanto para conhecer pela região não seriam mal passados uns dias de dolce far niente na Quinta, à conversa com os seus simpáticos proprietários e demais hóspedes dos apenas quatro quartos. Imperdível, no entanto, um passeio pelos jardins da Quinta, não apenas para ver uma das inúmeras árvores de fruto, mas sobretudo para apreciar a maior canastra do nosso país.

A manhã do segundo dia pela Serra da Freita começou com a visita aos Passadiços do Paiva, o ponto alto de qualquer passeio pela região (em breve um post sobre esta caminhada).

A minha caminhada de oito quilómetros foi demorada, como acabam por ser quase todos os meus passeios. Muita paragem para observar qualquer coisa, com interesse ou não só o sei depois, leva a que o plano do dia tenha de sofrer alterações e se tenham de fazer opções. Por exemplo, a ideia era almoçar uma das carnes típicas em Alvarenga, mas como já não eram bem horas de almoço e muito quilómetro havia ainda para percorrer, esta refeição ficou para trás.

Do Areinho, uma das entradas dos Passadiços, seguimos até à ponte onde cai a Garganta do Paiva, lugar onde quem se propõe fazer os Passadiços tem de superar a única dificuldade do percurso, uma longa subida por uma épica escadaria. Mas de carro podemos seguir até Paradinha, uma estrada que termina na sua praia fluvial e passa à entrada dos Icnofósseis de Cabanas Longas, outra das paragens com interesse geológico no Geopark de Arouca. Não há lugares para estacionar, por isso não sei bem como se pretende que possamos visitar o sítio. Aliás, não há sequer lugar para dois carros se cruzarem na estrada. Esta estrada é terrivelmente perigosa, estreita e sem visibilidade, curva contra curva monte afora a deixar ver um vale imensamente fundo. A rezar constantemente para não me cruzar com mais nenhum carro. Fui atendida.

E esta estrada é também terrivelmente bela. As formas que os monte tomam, o intenso verde e o isolamento que se pressente faz com que a viagem seja uma verdadeira aventura.

O lugar de Paradinha é um exemplo de tudo isto. Antiga aldeia de casas de xisto, foi totalmente recuperada e hoje não vive lá ninguém em permanência. O ambiente que se sente é misto. Não se vê vida, mas como refúgio parece ideal. Perdida na natureza, mas com arte espalhada pelas suas ruas e casas.

Como tinha dito, a estrada termina em Paradinha e daí há que voltar pela estrada terrível, mas agora felizmente na parte interior junto ao monte. Se tiver que desviar o carro pelo menos bato, não caio. O próximo destino é Janarde, a dois quilómetros de Paradinha em linha recta no mapa e a 22 quilómetros por estrada. O que vale é que a paisagem compensa a distância e a demora.

Pelo meio uma paragem em Meitriz. Faz lembrar Chãs de Égua, no Piodão, até pelo ambiente de abandono. Núcleo minúsculo de casas de xisto com a companhia de umas videiras, esse abandono só faz adensar o clima de mistério.

Em Janarde, um pouco adiante e acima, já vi duas pessoas. Neste ponto perdido no mapa não é apenas o xisto e o clima de mistério que prendem a nossa atenção, é antes a paisagem fabulosa. Pretendia fazer o percurso a pé até à Livraria do Paiva, fenómeno semelhante à mais acessível Livraria do Mondego, riscas nas paredes rochosas que parecem estantes de livros. Mas estes são literalmente caminhos menos batidos e as silvas a roçarem nas pernas ao léu venceram-me pelo cansaço ao fim de pouco tempo.

O pior foi quando tentei seguir de Janarde para Regoufe. O GPS deu-me uma estrada estreita e a subir em terra batida que só a inconsciência me levou a tentar iniciá-la sem um 4×4. Depois do susto, a volta à estrada de asfalto terrível mas bonita fez-me relativizar a coisa e já nem o cruzar com outros carros me atormentava.

Regoufe tem bem mais vida que as anteriores Paradinha, Meitriz e Janarde. E tem também outra história e dimensão.

A aldeia de Regoufe tem um localização geográfica belíssima, na cova de um monte com paredes enormes ora preenchidas do verde da vegetação ora de plantações de milho. Há ainda alguma vida aqui. E a aldeia acaba por ser um museu dos hábitos de vida tradicionais. As ruas tanto são das pessoas como dos cães, bois e galinhas. O cheiro a bosta faz aqui sentido.

Mas Regoufe, cujo significado é “rei dos lobos”, não é apenas aldeia de agricultura e pastorícia. Em tempos foi ainda lugar de umas minas de volfrâmio. As Minas de Regoufe ou Poça da Cadela começaram a sua exploração em 1915 e foram inicialmente concedidas a um francês. Em 1941 os ingleses tomaram a administração das minas e a eles se deveram vários melhoramentos não só no espaço mineiro mas também nos acessos à região. É curioso que em plena II Grande Guerra Mundial os ingleses tinham aqui esta mina de Regoufe e não muito longe os alemães administravam a de Rio de Frades, também dedicada à exploração do “ouro negro”, do qual fabricavam depois armas e munições. O complexo mineiro de Regoufe chegou a empregar mais de 1000 pessoas e apenas cessou a sua actividade na década de 1970. Hoje visitam-se as ruínas dos seus edifícios em granito, como as zonas residenciais, escritórios e oficinas. Vê-se até alguma maquinaria. E por ali afora abre-se um vale e a paisagem dá ainda mais encanto a este lugar abandonado. Não falta sequer um campo de futebol pelado ainda com balizas e redes roídas. Ao mesmo tempo, parece que a mina foi abandonada ontem mesmo.

E é na aldeia de Regoufe que se inicia aquele que deve ser um dos mais incríveis percursos pedestres do nosso país. A caminhada até Drave, a aldeia fantasma perdida nas profundezas da terra que os escoteiros fazem por manter ligada ao mundo, ficou adiada mas não será esquecida.

Ainda tinha esperança que a sua silhueta se pudesse ver de algum ponto da estrada à volta do seu vale, mas nada.

De qualquer forma, a estrada que passa pelo Portal do Inferno e da Garra (que nome inspirado) é certamente uma das mais fantásticas do nosso país. O vale de Drave para um lado, o vale de Covas do Monte para o outro. Não é apenas beleza, é muito mais do que isso e só aqui fincando os pés conseguimos sentir todo o poder da região.

O último capítulo desta viagem pela Serra da Freita e companhia antes de voltarmos para Arouca transporta-nos ainda até ao Santuário de São Macário, no alto da serra de mesmo nome, após atravessarmos um planalto. Não falta sequer uma lenda a este sítio, segundo a qual um homem que acidentalmente matou o seu pai se refugiou aqui até ao fim dos seus dias, alimentando-se de ervas e gafanhotos como penitência. Ficou santo, uma ermida foi construída neste lugar em sua honra e a romaria de São Macário é celebrada até hoje.

Aqui estamos no topo do nosso mundo, a 1054 metros de altitude, e o dia começa a deixar-nos. O vento forte tenta perturbar o momento, mas é impossível desviar a atenção da paisagem majestosa destas Montanhas Mágicas.