Trilho das Fisgas do Ermelo – 1° desvio à EN2

“O pouco que sou devo-o às fragas. Foi a pisá-las que aprendi a conhecer a dureza do mundo e a admirar o ímpeto que se não resigna à lisa sonolência duma paz interior espalmada. A inquietação da terra vê-se nos montes. Sem eles, quem daria aos homens o permanente exemplo da sublevação natural que há no espírito da própria vida?” – Miguel Torga

Em territórios de Vila Real e Mondim de Basto, percorrer o trilho das Fisgas do Ermelo é a melhor forma de se conhecer e perceber a Serra do Alvão, sua natureza bruta e modos de vida das suas povoações.

De Vila Real ao Ermelo, a aldeia de xisto onde tem início o trilho, são 30 kms. Mas grande parte deles são percorridos no troço da EN 304 correspondente ao Vale da Campeã, entre as serras do Alvão e do Marão. São cenários grandiosos aqueles por onde rolamos nesta que é considerada uma das melhores estradas da Europa para se conduzir.

Deixamos o carro na aldeia do Ermelo, a quem foi dado foral no século XII por D. Sancho I, passamos pelo seu Pelourinho junto àquela que foi a antiga casa da cadeia e junta de freguesia (extinta), uma fonte aqui, um espigueiro ali e inúmeras casas de xisto com telhado de lousa. E são precisamente para umas placas de lousa que o artista local se orgulha de chamar a nossa atenção. Lemos os textos aí inscritos contando a história do lugar e dedicatórias à sua beleza e encanto (“há (sic) tarde quando anoitece / louco de tanta beleza / o Ôlo não adormece / canta um hino à natureza”) e iniciamos os 12 kms do percurso pedestre (PR3 Fisgas de Ermelo) que nos manterá epicamente ocupados ao longo das próximas quase 6 horas.

O Olo é o rio que nasce no Alvão, um pouco para lá da povoação de Lamas de Olo, e desagua no Tâmega pouco antes de Amarante. É ele a grande estrela deste trilho ao proporcionar, em parceria com as locais rochas quartzíticas, uma queda de água com um desnível de cerca de 400 metros que se desenvolve em diversos patamares, formando lagoas de água cristalina, as “piocas”. No entanto, o primeiro curso de água de que nos aproximamos é a Ribeira de Fervença (que em breve se juntará ao Olo), até onde descemos desde a aldeia do Ermelo e cruzamos a sua ponte de madeira.

A partir daqui iniciamos uma longa subida a caminho das Fisgas e da aldeia de Varzigueto, primeiro protegidos pela vegetação, mas logo a céu aberto – daí que a caminhada em dias de maior calor possa ser ainda mais extenuante. Só que as vistas são absolutamente fantásticas, um emaranhado de serras e penhascos agrestes – um lugar de espanto e terror, como tão bem caracterizou Miguel Torga -, onde ao longe uma espuma branca pinta um desses penhascos, escorregando por ele abaixo. São, precisamente, as Fisgas. Os pretextos para pararmos e deixarmo-nos absorver pela magia do cenário são muitos, fazendo com que nem a subida nem o calor nos detenha.

A Lomba do Bulhão é o primeiro miradouro oficial, mesmo de frente para as Fisgas e debruçada sobre o vale do Olo.

Todavia, durante esta primeira parte da caminhada, a da subida, as Fisgas têm a forte concorrência do Monte Farinha, acompanhado de mais dois ondulantes montes, todos em filinha uns ao lado dos outros. O Monte Farinha é, a par das Fisgas, o grande símbolo do concelho de Mondim de Basto, e tem o Santuário da Senhora da Graça no seu topo, lugar incontornável da passagem da Volta a Portugal em bicicleta. Já o tínhamos subido (de carro) num dia de vento e chuva e havíamos sentido que o ambiente que lá se experimenta era quase místico. Agora ao longe, vendo-o em toda a sua formosura no meio de uma paisagem imensa, não podemos deixar de recordar todo o seu poder.

Estamos em Terras de Basto e a felicidade inunda-nos. Que cenário!

As Fisgas ainda vão longe, por enquanto percebemos pouco mais do que a tal longa espuma branca a pintar a rocha, mas mesmo à distância o barulho intenso da queda da água faz-se sentir. À medida que circundamos o percurso, agora por um trilho com uma subida menos pronunciada, e nos aproximamos das Fisgas, vamos percebendo alguns dos muitos patamares em que vai caindo e as piscinas naturais que vai formando, as piocas. Este é um fenómeno natural onde um acidente geológico originado por uma falha interrompe o curso do Olo em sucessivas quedas de água em desníveis ao longo de centenas de metros.

Logo vemos uma pioca mais larga, vazia de gente, e definimos que é aí que vamos querer mergulhar. Mas não nos podemos distrair com a ansiedade e com o desejo de refrescar porque nesta vertente do trilho as lascas da pedra são usadas para definir o caminho.

Já estafados, finalmente o trilho dá-nos uma recta e até uma leve descida com o bónus de árvores como cobertura, uma espécie de descanso bem antes do meio do percurso.

Mais um miradouro, desta vez quase junto às Fisgas e às Piocas, próximo do Alto da Cabeça Grande, talvez o ponto mais elevado da nossa jornada, a 802 metros de altitude (a aldeia do Ermelo, onde começámos, está apenas a cerca de 420 metros).

É pouco depois que surge o desvio para as Piocas de Cima. Primeiro assistimos ao Olo a correr plano e lentamente. Depois percebemos um desnível seguido de uma piscina natural, mais um desnível e outra piscina, e mais um e outra, e poderíamos estar aqui até ao fim do dia a contá-los.

O lugar é verdadeiramente incrível e a vontade de uma banhoca gelada e refrescante ganha a concorrência de querer perceber como é a piscina que se segue. Controlamos uma vez mais a ansiedade e entramos na água, gentil e cristalina. Boiamos e olhamos o céu, a tentar acreditar que temos toda esta natureza para nós. Ainda dentro de água, espreitamos a próxima piscina. Demoramo-nos. Só então, já fora da lagoa escolhida, vamos caminhar em busca de mais piocas pelos blocos de pedras que as rodeiam que, por não serem escorregadias, não constituem um perigo de maior. Percebemos, com ingenuidade, que a tal pioca mais larga que viramos do miradouro anterior está um bocadão mais lá abaixo, sendo que o abaixo aqui é relativo, porque as verdadeiras Piocas de Baixo estão infinitamente mais abaixo. Digamos que esta lagoa generosa estará no primeiro 1/4 da infinitude da queda de água das Fisgas. Aliás, o nome “Fisgas” deriva precisamente desta forma que a água do Olo encontrou para se acomodar na parede rochosa, como que enfisgando-se.

Mas não vale a pena arriscar demasiado em busca de mais piocas, porque as que temos cá em cima temo-las que chegue. Continuamos, por isso, caminho rumo a Varzigueto, agora sempre junto ao Olo, estreito, quase um fio de agua sereno que vai dando para molhar os pés e a espaços até banhar o corpo todo.

Varzigueto, aldeia de montanha, está belamente implantada a 745 metros de altitude e aqui a ruralidade impera. Também com casas de xisto, palheiros e espigueiros, aqui as vacas pareciam indomáveis, teimando em escolher o seu caminho à revelia do seu domador. Não deixo Varzigueto sem quase tropeçar ou pisar num pedaço de qualquer coisa enrolado no chão. Felizmente que o senhor PAN não anda por aqui e alguém já lhe tinha dado uma paulada na cabeça, ou teria apanhado o susto da minha vida.

Atravessada Varzigueto, retornamos, passamos a ponte e seguimos agora pela margem contrária do Olo. Mesmo repetidas, as vistas continuam bonitas e, saciados, não desviamos novamente para as Piocas de Cima. O som forte da água a cair continua.

Pouco depois passamos pela Cancela do Miradouro com nova panorâmica, e mais próxima, para o Monte Farinha.

E logo chegamos ao mais famoso e acessível miradouro para as Fisgas do Ermelo, aquele onde se chega de carro imediatamente a seguir ao Fojo, com a sua capela, e o mais próximo que podemos chegar delas sem qualquer esforço físico. Há anos tinha aqui estado e é incrível como, apesar de brutal, não se percebe nem um décimo da enormidade das Fisgas. Aqui se lê e confirma com sentimento as palavras de Torga já referidas anteriormente: “Cá me vim debruçar também sobre o despenhadeiro das Fisgas, com os pés seguros pelos companheiros por causa das vertigens. E apreciei devidamente este misto de espanto e terror. A contemplação dos abismos naturais é necessária de vez em quando a quem tem a atracção dos outros. Toma-se consciência, com rigor físico, das asas que nos faltam para estar à altura da máxima de Nietzsche”.

Deste miradouro iniciamos uma descida num terreno de pedra. Até aqui o trilho tinha estado sempre muito bem marcado, com indicações amiúde, mas nesta descida perdi-me, voltando no entanto ao caminho com pouca demora e sem esforço de maior.

As Piocas de Baixo são outra das atracções da jornada. E começam por se ver e ouvir desde bem ao alto, logo aguçando a vontade de as espreitar de perto. No Ermelo tinham-nos dito que este era o lugar mais bonito de toda a região. Descemos, desviamos no trilho, descemos mais um pouco e aí estão as lagoas de baixo. Acontece que não esperávamos encontrar aqui tanta gente e, sobretudo, parafernália como colchões de água, bóias com patinho e música a sair demasiado alta de um rádio. Alguém chegou primeiro e tomou o lugar para si. Merecem respeito na mesma, uma vez que tanto para chegar às Piocas de Baixo como às de Cima há que caminhar mais de 1 km, nada é oferecido.

De qualquer forma, já não houve mergulho nestas piocas, antes subimos e seguimos rumo aos últimos 2 kms até à meta na aldeia do Ermelo. Que acabaram por ser um pouco mais, uma vez que alguma distração fez perder nova sinalização num qualquer cruzamento, levando a que se tivesse que saltar uns quantos muros até retomar o trilho. Continuamos a descer e aqui ficamos preocupados, porque sabemos que o casario de Ermelo está mais acima e, cansados, sabemos que teremos de enfrentar mais uma subida.

Cruzamos a ponte da Abelheira e reconheço a água do rio pintalgada de vegetação em forma de pompons que há anos tinha apreciado. Aqui é um bom lugar para descansar, tomar banho e até mergulhar.

E, bom, a partir daqui é mais 1 km sempre a subir. Com o acumulado da caminhada, quase 6 horas, é o que mais custa. Mas, com a chegada às casinhas de xisto do Ermelo todo o cansaço se vai e uma enorme alegria nos inunda pelo feito da conclusão de uma das mais épicas e incríveis caminhadas jamais feitas no nosso país. O coração do Alvão tinha sido atingido, mas eu é que sai conquistada, ainda mais após uma perseguição e espera de alguns anos.

Pela EN2, na companhia de um castelo e de um mergulho: 1ª etapa – Chaves – Vila Real (0 km – 61 km)

A EN2 tem início em Chaves e dificilmente poderíamos desejar começo mais feliz para uma jornada que se espera inesquecível.

Antes de nos metermos à estrada em direcção a sul há que passear nesta que é uma das mais bonitas, históricas e singulares povoações portuguesas. A Ponte de Trajano, da época romana, com os seus incríveis reflexos no rio Tâmega, encaminha-nos praticamente até à Rua Direita, o coração da urbe medieval. O centro histórico está bem conservado e é único no colorido das varandas, janelas e portadas de madeira das suas casas estreitas de dois ou três pisos. Quase todas elas possuem varandas avançadas sobre as ruas, uma forma de rentabilizar o pouco espaço interior das casas, dando uma imagem bem típica e castiça a Chaves.

Por aqui fica o Castelo de Chaves, elegante na sua Torre de Menagem. Do seu alto reforçamos a ideia do quão bela é a cidade. E a antiga Aquae Flavie é, claro, a cidade das águas termais, donde não podemos sair sem provar um copo da sua água. Ou do seu presunto. Ou do seu pastel, que aproveitamos para levar uns quantos a pensar no almoço. Depois disto tudo e de uma passagem pelo Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso, com obras de arte do artista flaviense no interior e projecto de arquitectura de excelência (mais uma) de Siza Vieira, é altura de voltarmos a atravessar o Tâmega rumo ao bairro da Madalena, onde numa rotunda encontramos o icónico marco zero da nossa EN2.

E assim iniciamos a primeira de seis etapas da nossa jornada.

A saída de Chaves percorre a Estrada ladeada de muitas oficinas, stands, lojas de pneus e algumas lojas de móveis. A indústria não mora por estes lados. As habitações vão-se prolongando pela Estrada, mas antes de chegarmos ao Vidago ja elas desapareceram.

A vila do Vidago é igualmente famosa pelas suas águas minerais naturais e, sobretudo, pelo seu centenário Vidago Palace Hotel. Ideia ambiciosa do rei D. Carlos, o seu assassinato em 1908 fez com que não chegasse a viver para assistir à inauguração do hotel em 1910. Aliás, nem nenhum outro rei, uma vez que o Palace abriu portas no dia seguinte à queda da monarquia. Não deixou, porém, de ser lugar frequentado pela aristocracia portuguesa e europeia no tempo da “belle époque” e depois dela, lugar central no turismo termal, aproveitando a fama das propriedades terapêuticas das suas águas. O hotel, depois de obras de restauro e renovação, reabriu em 2010 com a novidade da inauguração do novo edifício correspondente ao Spa, projectado por Siza Vieira, que lhe está adossado. Mas o antigo edifício mantém toda a sua elegância com as múltiplas janelas e o interior é de um requinte imenso – inesquecível a sua escadaria dupla. Ao redor do Palace podemos caminhar pelas alamedas do Parque Natural e pelo arvoredo e descobrir as suas quatro fontes, duas delas activas e onde provamos a famosa água.

Mas no centro do Vidago, atravessado pela EN2, vale também a pena uma paragem para pelo menos duas visitas: à esguia Torre do Alto do Côto e à Casa-Museu João Vieira, um centro de arte dedicado à obra do dadaísta que nasceu nesta terra.

As Pedras Salgadas são a próxima paragem. O ambiente e a vivência da terapêutica das águas termais prossegue no seu belo Parque, o qual merece uma caminhada sem pressas. O antigo Grande Hotel está abandonado, quase em ruína, mas o edifício do Casino e a Fonte de Pedras Salgadas (donde provém a Água das Pedras) preservam o esplendor e beleza da sua arquitectura. Pelos seus 20 frescos hectares passamos ainda por outras fontes termais, pelo renovado Balneário Termal, por uma capela, um chalet e um lago e pelas inspiradas eco-houses e tree-houses, completamente envolvidas pela floresta. Deve ser uma delícia dormir num destes alojamentos em que a propaganda do género “venha viver no meio da natureza” não podia ser mais certeira, mas há que seguir caminho pela nossa EN2.

Fazê-mo-lo apreciando os rolinhos de palha artisticamente arrumados à beira da Estrada e não é preciso dela desviar para encontrarmos tractores no caminho ou homens e mulheres com o resultado do seu labor empilhado à cabeça. Esta é uma região que mantém ainda as raízes rurais. Mas é, igualmente, uma região mineira. Minas de ouro que vêm dos tempos em que os romanos por aqui andaram, como a incrível Tresminas e a contemporânea Jales. Não o fiz desta vez, mas vale muito a pena o desvio até Tresminas, onde há anos tivemos oportunidade de fazer uma visita inesquecível que contámos aqui.

A EN2 à aproximação e à saída de Vila Pouca de Aguiar é bonita, com a Serra do Alvão de um lado e a da Padrela do outro. E, sem muito esforço, o nosso castelo do dia entra-nos pelos sentidos adentro. É o Castelo de Pena de Aguiar, à direita do nosso olhar num penedo granítico não muito distante da Estrada. Ao princípio não parece mais do que um amontoado de belas rochas, mas quando subimos a estrada que nos leva até ao cimo e percorremos os últimos metros a pé vamos percebendo que esta era uma fortificação que, resistente, chegou perceptível aos nossos dias. O monte terá sido usado pelos romanos para fins militares, mas foi no século XI que se terá erguido o castelo. Ainda que em ruínas, o lugar é mágico e as vistas grandiosas.

De volta à EN2, agora em direcção a Vila Real, percebemos ainda mais como rolamos entre serras. Vila Real será o lugar do final desta primeira etapa, mas antes de visitarmos a cidade e terminarmos o dia impõe-se um desvio que deve estar presente em qualquer roteiro pela EN2: a visita à Casa Mateus, talvez o ponto mais alto no quesito “património junto à Estrada”.

As origens do Palácio Mateus são mais remotas, mas o edifício barroco de cal branca pontuado pelo cinzento do granito que hoje podemos apreciar é uma criação do século XVIII da autoria de Nicolau Nasoni (o mesmo arquitecto dos Clérigos, no Porto). Mas o espelho de água que o enquadra – a primeira imagem que temos do lugar logo após percorremos a curta alameda carregada de árvores – é obra de Gonçalo Ribeiro Telles, já da década 60 do século passado. A imagem é belíssima, uma verdadeira obra-de arte que dispensa palavras, apenas contemplação. Depois disso, visitamos o interior da Casa (por marcação) e vagueamos pelos jardins. Muito bem decorados com arcos de buxo, canteiros e inúmeras flores coloridas, até um túnel de cedros, é um prazer apreciá-los e, depois, sentarmo-nos a uma sombrinha admirando mais uma vez a fachada traseira da Casa.

E já que estamos por Mateus, vale a pena mais um desvio breve até São Martinho de Anta, a “primeira terra do Douro”, para prestar homenagem a Miguel Torga na terra onde nasceu e onde está sepultado. O Espaço Torga, projecto de arquitectura de Souto Moura, dá-nos a conhecer a sua vida e obra e daqui seguimos com mais vontade de descobrir e conhecer Portugal.

Obviamente, as visitas a estes dois últimos espaços culturais estão sujeitas a horários pré-definidos, pelo que é importante não só planearmos e fazermos escolhas como levantarmo-nos cedo para melhor aproveitar o dia. Então, com dias longos e de calor, nada melhor do que a recompensa de final de dia de um mergulho para refrescar, não? E para isso, nesta jornada, a menos de 10 kms de Vila Real, nada melhor do que a Cascata de Galegos da Serra, em pleno Parque Natural do Alvão. A Ribeira do Arnal vem correndo lentamente, proporcionado vários lugares para molharmos os pés por entre as pedrinhas, mas a determinado momento a água decide cair abrupta no lugar de uma breve falha de uns oito metros de altura, despenhando-se numa piscina natural onde podemos mergulhar e até dar umas curtas braçadas.

De volta a Vila Real, encontramos o seu centro histórico esventrado com obras, a Sé fechada e a Casa de Diogo Cão com um carro vermelho estacionado mesmo à sua porta de propósito para estragar a fotografia. Não faz mal, já conhecíamos Vila Real e sabíamos da sua alteza, cidade carregada de edifícios brasonados. Seguimos para a Pastelaria Gomes e para a Casa Lapão e de cada uma delas saímos com uma crista de galo (doce, ao invés do também típico covilhete, salgado), lambuzando-nos enquanto caminhamos pelas agradáveis ruas pedonais de Vila Real.

Pela EN2, na companhia de um castelo e de um mergulho

“Viajar, num sentido profundo, é morrer. É deixar de ser manjerico à janela do seu quarto e desfazer-se em espanto, em desilusão, em saudade, em cansaço, em movimento, pelo mundo além.” – Miguel Torga.

Chaves, km 0.

A Estrada Nacional 2 (EN2) começa bem a norte de Portugal, a menos de 10 kms da fronteira com Espanha, terra de contrabandistas, aventureiros por excelência. A EN2 não é bem uma estrada, é antes um conjunto de vários troços, um projecto que 75 anos depois não passa de uma amálgama de estradas, nacionais, regionais, ips, ics, rotundas… Começa numa rotunda em Chaves e termina numa rotunda em Faro, 739 kms depois de muita aventura, de muito caminho. Porque é de um caminho que se trata, nunca de um destino.

Um caminho com início em Trás-os-Montes, a mais distante das províncias portuguesas, o Reino Maravilhoso de Miguel Torga. É por isso que iniciamos este texto com as palavras de Torga, o mais telúrico dos nossos escritores e aquele que mais nos emociona com as suas descrições da paisagem portuguesa. E é por isso que nos fizemos acompanhar da sua obra “Portugal”, desfazendo-nos mais em espanto do que em desilusão por este corte norte-sul quase a direito pelo interior deste nosso rectângulo de terra.

A EN2, criada pelo Estado Novo e integrada no Plano Rodoviário em 11 de Maio de 1945, é a mais longa estrada portuguesa e uma das poucas no mundo a atravessar o país na sua longitude (só nos EUA, com a Route 66, e na Argentina, com a Rita 40, encontramos estrada semelhante). Entre Trás-Os-Montes e Algarve, passa por 11 distritos, 35 concelhos, inúmeras serras, rios e albufeiras. Atravessa povoações, segue por curvas e rectas, sobe e desce montanhas e vales e revela toda a imaginação dos portugueses na arte de dar nome às suas terras. Muito património e tradições do nosso país estão ou à beira da estrada ou a curta distância dela. Uma enorme diversidade, revelada até mesmo na gastronomia: carne de vaca barrosã a Norte, cabrito no Centro, porco no Alentejo, peixe no Algarve. E vinhas um pouco por todo o país, embora muito mais esmagadoramente presentes na região do Douro, em especial no mais cénico troço da Estrada, a subida e logo depois descida de Vila Real ao Peso da Régua. E se levava a ideia de que a EN2 iria atravessar muito mais povoações, nunca como até rolar por ela me tinha apercebido da quantidade de montanhas que irrompem por Portugal. E, depois, claro, todos conhecemos da desertificação do interior do nosso país, mas não pensei encontrar tão pouco tráfego por quase todos os 738 kms da Estrada. Bem sei que está distante das grandes cidades portuguesas e que muitas outras opções mais rápidas lhe fazem concorrência, mas tal revela o insucesso do projecto enquanto empreendimento rodoviário. Resta-nos, e não é pouco, conduzir por ela sem pressas, contemplando a paisagem que nos calhou em sorte receber e, como passatempo, ver desfilar os seus icónicos marcos: uns bem à vista, sim, mas outros enterrados, caídos, em falta, escondidos na erva ou a descansar à sombra de uma azinheira.

A pergunta inicial que se impõe numa qualquer jornada pela EN2 é em quantas etapas a vamos dividir. E a resposta só pode depender do interesse de cada viajante. Podemos deixá-la ao improviso, mas será sempre melhor planear para não perdermos as maravilhas que ela nos oferece. Na verdade, a piada da EN2 é percorre-la, mas também ir desviando, ora à esquerda ora à direita, no mapa deste nosso Portugal. Porque, repita-se, é o caminho que nos interessa, não o destino.

Esta empreitada fizemo-la em Julho, tempo de calor, e apresenta-mo-la agora em Agosto, igualmente tempo de calor. Ou seja, cada uma destas etapas teve de integrar um momento para um mergulho refrescante, fosse ao início, meio ou final do dia, junto à EN2 ou pouco dela distante. E porque, dissemos, os desvios são momentos altos desta épica viagem e os interesses de cada um são quem os deve guiar, o mote desta travessia da EN2 foi percorrê-la o mais integralmente e integramente possível (uma vez que há troços já muito abastardados) visitando em cada etapa um castelo. Daí o nosso título: “Pela EN2, na companhia de um castelo e de um mergulho”.

Foram, assim, seis as etapas da nossa EN2 e cinco os desvios mais longos, a saber:

1ª etapa – Chaves – Vila Real

(1° desvio – trilho Fisgas do Ermelo)

2ª etapa – Vila Real – Lamego

(2° desvio – caminhada Provesende Pinhão)

3ª etapa – Lamego – Vila Nova Poiares

(3° desvio – caminhada Vinho do Porto)

4ª etapa – Vila Nova de Poiares – Sardoal

(4º desvio – Rio Ceira da foz à nascente no Açor)

5° etapa – Sardoal – Castro Verde

6ª etapa – Castro Verde – Faro

(5° desvio – Barrocal algarvio)

As aventuras de Filipe Seems por Lisboa

“Tudo é ficção, acaso e destino, labirinto e jogo. Os homens necessitam de fábulas e não há destino mais nobre do que povoar o mundo com as personagens das fábulas”.

Filipe Seems é uma personagem criada pela dupla Nuno Artur Silva e António Jorge Gonçalves, argumentista e desenhador. As aventuras deste detective particular surgiram pela primeira vez nas páginas do jornal Se7e, corria o ano de 1992, e resultaram em três livros: “Ana”, de 1993, “A História do Tesouro Perdido”, de 1994, e “A Tribo dos Sonhos Cruzados”, de 2003 – lançados todos juntos numa caixa ainda com um dvd em 2009.

Antes mesmo de as histórias ganharem forma, Nuno Artur Silva imaginava já a Costa do Castelo como o lugar onde Filipe Seems viveria e aí desfrutaria da luz de Lisboa e da vista do Tejo. A personagem principal mais óbvia é Seems, sim, mas estas aventuras em banda desenhada são uma ode a Lisboa, omnipresente em todas as histórias. Uma Lisboa futura com muitas referências do passado e, sobretudo, literárias. “Sonhava com uma cidade que não existia, mas que gostaria que existisse…”. Assim é Lisboa nestas histórias, uma cidade imaginária que se baseia em muito do real.

As personagens deambulam pelo Chiado, o Campo Pequeno surge-nos sem muitos acrescentos futuristas, mas as gôndolas percorrem toda uma Baixa inundada desde o Elevador de Santa Justa até ao Terreiro do Paço, ao mesmo tempo que um teleférico sai do Castelo e um eléctrico voa sobre o casario da cidade. E que dizer da neve a cobrir os telhados de Lisboa?

O traço de António Jorge Gonçalves é, como sempre, belíssimo e diverso, com várias experiências diferentes ao longo dos três livros.

Filipe Seems é curioso e inquieto, sempre em busca de algo não conhecido. Na primeira história, “Ana”, na verdade três Anas gêmeas (Ana Lógica, Ana Bela e Ana Hera), diz-nos “primeiro queria saber o porquê da semelhança, depois, procurar na semelhança a diferença”.

Fábulas, mistérios, intriga, labirintos, esquecimento – “era contra o esquecimento que eu escrevia (é sempre contra o esquecimento que se escreve), porque não a queria perder” – e amor, claro.

Logo às primeiras páginas observamos Filipe Seems e não podemos deixar de recordar Corto Maltese, o marinheiro de Hugo Pratt. No segundo livro, “A História do Tesouro Perdido“, o que poderia não passar de uma suposição revela-se expressamente numa inspiração. Seems anda às voltas com o mar, oceanos e navegadores numa aventura que é uma caça ao tesouro onírica e a imagem de Corto Maltese vem reproduzida nos quadrinhos. Esta é uma história de desencontros onde, afinal, o tesouro que se buscava no mar se encontra no deserto. A Lisboa donde se parte é representada através de escadinhas, ruas apertadas e até uma caravela, mas há ali elementos que nos fazem viajar para o passado, com os habitantes de Alfama com vestes muçulmanas, para logo de seguida sermos transportados para o futuro através do tal eléctrico voador.

O terceiro e último volume, “A Tribo dos Sonhos Cruzados”, é o mais estranho e difícil. Os desenhos são amiúde baços e esbatidos e os textos tornam-se intrincados, como um sonho desorientado em que as histórias se entrecruzam. Seems vagueia em busca de Ana, anda perdido, tentando encontrar-se, com perguntas como “o que é o desejo, o que fica depois do desejo?”, em imagens hipnotizantes como a música e dança do flamengo que relata. Mas, na verdade, pelo trilho do sonho vai em busca da sua cidade, aquela que conhece como a palma da mão e à qual regressa como se a ela chegasse pela primeira vez. A nossa Lisboa, real ou imaginada.

Um passeio pelo Cabo Espichel

O Cabo Espichel é um promontório aberto ao Atlântico situado no concelho de Sesimbra e integrado no Parque Natural da Arrábida. São, por isso, belas paisagens que nos esperam num passeio pela costa ao seu redor.

A caminhada que propomos em seguida tem cerca de 10 kms no total e aproveita dois dos percursos pedestres oficiais da Câmara de Sesimbra, o “Maravilhas do Cabo” e o “Chã de Navegantes”, ambos circulares e cada um com 5 kms.

Começamos o nosso passeio exactamente no Cabo Espichel. Lugar de pura natureza, ao mesmo tempo cândida e selvagem, este é também um lugar de história e lendas. Temos de um lado o Farol, construído em 1790, o que faz dele um dos mais antigos de Portugal, e do outro o Santuário de Nossa Senhora do Cabo, datado do início do século XVIII. Este último é um lugar inspirador, cujo estado de relativo abandono só faz adensar o clima de mistério. Enorme e monumental no seu terreiro de linhas harmoniosas, a formosa Igreja de Nossa Senhora do Cabo (diz que bonita no seu interior, mas fechada à minha passagem), mandada construir por D. Pedro II, devoto de Nossa Senhora do Cabo, é ladeada por umas impressivas alas que serviam de hospedaria aos romeiros que para aqui vinham em peregrinação.

Diz a lenda que em 1410 apareceu uma imagem da Virgem no exacto lugar onde logo se instalou a Ermida da Memória, no topo da escarpa acima da Baía dos Lagosteiros. O lugar é incrível, uma extensão profunda do mar onde não custa assumir qualquer tipo de religiosidade. O aparecimento desta imagem da Virgem resultou no culto da Nossa Senhora do Cabo Espichel por multidões de peregrinos, pelo que em 1701 se decidiu pela construção do Santuário de Nossa Senhora do Cabo, também conhecido por Santuário de Nossa Senhora da Pedra da Mua. A lenda da Pedra da Mua é contada de forma historiada através de painéis de azulejo guardados no interior da Ermida – a imagem da Virgem transportada por uma “jumentinha” desde o mar até ao topo do Cabo, subindo pela laje conhecida como Pedra da Mua.

Para além da ermida, da igreja, das duas alas de hospedarias conhecidas como Casa dos Círios e do cruzeiro, o conjunto monumental possui ainda hortas dos peregrinos, a Casa da Ópera (em ruínas) e a Casa da Água, abastecida por um aqueduto cuja estrutura vemos na estrada à chegada ao Cabo. Apesar do estado de abandono, o culto da Senhora do Cabo ainda se mantém e prevê-se o restauro do complexo do Santuário.

Do Santuário saímos pelo percurso pedestre “Maravilhas do Cabo” na direcção da baía e praia dos Lagosteiros, sem todavia descermos até ela. As arribas são instáveis e a quantidade de pedras que fazem a vez da areia nesta praia são também a prova do perigo. De qualquer forma, a beleza da pequena enseada e a cor do mar fazem felicidade em abundância mesmo vistas de cima. Contornando a baía caminhando pelas arribas calcárias, vamos vendo distanciar-se a fabulosa escarpa com paredes de laje onde está instalado o Santuário de Nossa Senhora do Cabo. Tudo aqui é grandioso.

E eis que chegamos ao ponto de observação das pegadas de dinossauros, não menos imensas. São pegadas do período jurássico impressas na rocha imediatamente junto ao mar. Crivadas na rocha vemos também moldes de fósseis.

Continuamos a caminhar junto à costa, mas agora com vista para as longas praias do Meco e da Fonte da Telha, com a Serra de Sintra e o seu Monte da Lua bem ao fundo.

A vegetação é rasteira e o trilho fácil de perceber. Uma variedade de flores distrai-nos no caminho de volta até à estrada.

Atravessa-mo-la e iniciamos o percurso pedestre “Chã de Navegantes”. Tomamos um caminho sempre a direito por um estradão de terra batida ladeado por edifícios em ruína que nos levará em direcção ao mar. Num ponto elevado admiramos a grandiosa costa da Arrábida, com a silhueta preciosa das suas falésias verdes a cair no mar azul. Sabemos que aqui em baixo fica a Praia da Baleeira, de difícil acesso, mas não a vemos.

Descemos rente à falésia por um caminho estreito, na parte mais difícil e assustadora do percurso, tentando não nos distrair demasiado com a paisagem fabulosa do Atlântico onde os veleiros navegam tranquilamente.

Contornamos a arriba, um monte com uma rocha de belo molde no topo – é um bloco de rochas dolomíticas mais antigas misturadas com rochas calcárias mais recentes, conhecido como Horst do Forte da Baralha.

O Forte da Baralha, ele próprio, fica mesmo aqui debaixo. Construído no século XVII, esta pequena fortificação está em ruínas, percebendo-se ainda os seus panos de muralha e janelas rasgadas na estrutura. A sua implantação geográfica é incrível, um pouco elevado rente ao mar. Ao seu lado, igualmente em ruínas, a vizinha Capela de invocação ao Senhor Jesus dos Navegantes, onde as tripulações das embarcações de Sesimbra gostavam de parar antes da partida para as grandes viagens.

E a uns passos do Forte, eis uma formação geológica surpreendente. A Rechã dos Navegantes e o campo de lapiás, modelado pela erosão marinha, que cai num género de plateau de rocha calcária mar adentro.

Daqui empreendemos a subida em direcção ao nosso destino / ponto de partida, virando a custo as costas àquela enorme paisagem natural, mas arranjando todos os pretextos para mais uma paragem para a contemplar uma última vez. Quem disse que não há que olhar para trás?

Jardim da Estrela

O Jardim da Estrela é um dos mais concorridos e populares jardins de Lisboa. Inaugurado em 1852 e construído ao estilo dos jardins ingleses, este espaço verde de 4,6 hectares é um convite ao desfrute e relaxe dos lisboetas.

Possui diversas entradas, mas escolhemos aquela que fica em frente à Basílica da Estrela. Portão em ferro, a tradição aqui comanda, não apenas pelo típico eléctrico amarelo que passa na Calçada da Estrela colada ao jardim e representado de forma original à entrada, mas também pelos engraxadores que mantém o seu lugar e função ali mesmo.

A sua criação é de clara inspiração romântica, um jardim de recreio com lagos, vegetação exuberante, canteiros donde saem caminhos, um coreto e diversa estatutária, remetendo para uma ideia de paisagem natural. Nos lagos passeiam-se os patos e as carpas. Na vegetação encontramos espécies exóticas vindas das matas reais e dos jardins do Conde de Farrobo. (actual Jardim Zoológico).

O coreto verde de ferro forjado foi construído em 1884 e estava originalmente no Passeio Público da Avenida da Liberdade até ser transferido para a Estrela em 1936. Nos meses de Verão fazem-se aqui concertos.

E as esculturas encontram-se um pouco por todo o lado no jardim, quer a embelezar os lagos, quer num relvado verdejante, quer num dos muitos recantos do jardim, como este dedicado a Antero de Quental. Há ainda lugar para parques infantis, um café, um quiosque da Biblioteca Municipal e até um chalé destinado a creche / jardim de infância, onde chegou a funcionar a Escola Froebel ou Lactário-Creche n.º 3, a primeira creche da cidade de Lisboa, mas que hoje, apesar de envolvido numa frondosa vegetação, não esconde o seu estado de abandono. Um jardim muito diverso e animado, portanto, mas também com diversos pontos escondidos de recolhimento e refrescantes.

Uma viagem pelos caminhos do Eléctrico 28

O carro amarelo a rolar pelos carris e puxado por antenas coladas às linhas instaladas no céu é um postal de Lisboa. Já teve muitas cores, mas o amarelo será definitivo. Mais uma pitada de cor na cidade que não sofre de falta dela(s).

Os carros eram, então, puxados por animais quando em 1887 se tentou pela primeira vez substitui-los pela tracção eléctrica. Logo os lisboetas temeram que os cabos de alta tensão provocassem raios e coriscos e daí surgissem incêndios destruidores. Mas o projecto foi adiante e em 1900 instalaram-se os cabos aéreos eléctricos e no ano seguinte foi inaugurada a primeira carreira electromotorizada, ligando o Cais Sodré a Algés. Os anos 50 foram testemunhas do maior número de quilómetros da rede de eléctricos – totalizavam então 76 kms. Hoje são apenas 31 kms de rede, distribuídos por 6 carreiras activas e alguns deles por eléctricos modernos, longe do mimo típico que faz as delícias de toda a gente. Uma das minhas mais antigas memórias é, precisamente, a de no fim dos anos 70 subir a um eléctrico e ser por ele guiada lá para os lados do Alto de Santo Amaro, de mão dada ou ao colo da avó. Mas esta diminuição da rede de eléctricos a partir dos anos 50 tem uma óbvia explicação. Desde logo, pelo surgimento dos primeiros autocarros da Carris em 1944 e, depois, pela inauguração do Metro de Lisboa em 1959. De qualquer forma, a passagem dos eléctricos transportando passageiros à pendura pelas ruas de Lisboa está na memória de todos nós.

E o Eléctrico 28, em especial, é uma instituição da capital. Dizem que demasiado turístico e antro de carteiristas. Pois então, sigamos ao lado dos seus carris, numa caminhada desde o Martim Moniz aos Prazeres, pois que não há melhor forma de condensar uma visita a Lisboa. Inaugurada em 1914, no início a carreira do 28 era mais curta, ligando somente a Praça do Camões à Estrela. Felizmente que hoje temos mais para ver, pelo que ponhamo-nos a caminho pelas colinas de Lisboa, num sobe e desce constante num percurso que conta a história da cidade, passando por igrejas, conventos, palácios, jardins, largos e praças, tomando avenidas, ruas e calçadas que dão para becos e escadinhas e cruzando uma Lisboa velha com outra mais nova, misturando alfacinhas e turistas.

Do Martim Moniz, paragem inicial, avista-se ao alto o Castelo que já foi dos muçulmanos e hoje vigia os negócios dos chineses cá em baixo. Seguindo pela Rua da Palma, onde tanto podemos ver o eléctrico passar à frente de uma loja de kebabs ou outra com caracteres chineses na montra ou de um edifício preenchido de azulejos, a encosta da Mouraria reduto do fado espreita com os lisboetas mais típicos. Até subirmos à Graça, esta é a Lisboa mais cosmopolita que podemos encontrar, fazendo do alfacinha uma personagem tão abrangente que não há qualificação possível numa sua descrição.

Sapadores, Rua da Graça, Largo da Graça. E aqui fazemos uma paragem e desvio breve para uma panorâmica de Lisboa no miradouro junto ao Convento.

De volta aos carris, descemos a Rua Voz do Operário, passando pelo edifício do arquitecto Norte Júnior da sede da Sociedade de Instrução e Beneficência A Voz do Operário e, quando a rua se torna Calçada de São Vicente, admiramos a mais antiga Igreja e Convento de São Vicente de Fora.

E logo adentramos Alfama. Tradição que é tradição não dispensa um moço à pendura do eléctrico e ele surge aqui, precisamente quando o carro corre as ruas estreitas de Alfama, rasando as janelas das suas casas, deixando ver becos, pátios e escadinhas. Enfim, a Lisboa castiça cuja intimidade entra sem pedir licença pela janela do eléctrico.

As curvas seguem apertadas pela Rua das Escolas Gerais e são as Portas do Sol que nos dão espaço e umas imensas vistas do rio Tejo acompanhado pelo casario antigo de Lisboa e, agora, por uma das mais recentes imagens da cidade dos barcos de cruzeiro.

Continuamos a descer, mais um miradouro, desta vez o de Santa Luzia e seus azulejos, passamos o Aljube e o Limoeiro e chegamos à Sé. A Sé é um dos ícones mais reconhecíveis da cidade e um exemplo do palimpsesto que é Lisboa: construída em 1147, logo após a tomada da cidade aos mouros, foi edificada sobre uma mesquita muçulmana que, por sua vez, havia sido erguida sobre um templo visigótico.

A partir da Sé temos uma sucessão de igrejas: a própria Sé, a Igreja de Santo António de Lisboa e a Igreja da Madalena, fora as muitas outras que desfilam nas ruas para lá dos carris.

O Eléctrico 28 atravessa, então, a Baixa Pombalina de um lado ao outro pela Rua da Conceição. E se na viagem por estas paragens admiramos a obra dos engenheiros comandados pelo Marquês de Pombal na reconstrução da Lisboa pós-terramoto de 1755, por outro lado nem imaginamos que sob nós está toda uma outra cidade, a das galerias romanas construídas no tempo da antiga Olisipo – duas vezes por ano podemos “furar” os carris da Rua da Conceição para conferirmos este pedaço da história de Lisboa.

Apesar de falharmos o enquadramento do eléctrico com o Arco da Rua Augusta – neste caso não porta aberta à cidade, mas antes porta aberta ao Terreiro do Paço e ao Tejo – não deixamos de gabar a sua formosura ao longe.

Chega a altura de subirmos ao Chiado. À direita fica o Largo da Academia das Belas Artes, mas o eléctrico não segue por aí, antes desce para logo subir a Rua Vítor Cordon antes de continuar a subida pela Rua dos Duques de Bragança e se ver espremido entre o Teatro Nacional de São Carlos e o Teatro São Luiz.

E estamos no coração do Chiado, o coração de Lisboa. O bairro leva o nome do poeta António Ribeiro Chiado, mas é a estátua de Fernado Pessoa à frente do Café A Brasileira que chama a atenção dos turistas e são as personagens de Eça de Queiroz que recordamos enquanto passeamos pelo Chiado. Uma mão cheia de igrejas depois, espreitamos o Tejo Rua do Alecrim abaixo e fazemos uma vénia a Camões no largo que leva o seu nome.

Contornamos meio Camões e, mesmo sabendo que para dentro fica o Bairro Alto, seguimos adiante pela Rua do Loreto, prometendo que numa próxima vez pararemos mais demoradamente para assistir a um filme no Cinema Ideal, mas não prescindindo de imediato de nos lambuzar de pastéis de nata da Manteigaria.

Espreitamos a Bica e o primo mais famoso do Eléctrico 28 e começamos a descer a Calçada do Combro. Mais palácios, com destaque para o de Olhão, igrejas, como a dos Paulistas, e travessas depois entramos pela Rua Poiais de São Bento (o sentido inverso faz-se pela Rua Poço dos Negros). Aqui, à semelhança do que acontece em Alfama, o eléctrico rasa o casario fazendo do seu percurso uma viagem alucinante e do mais típica que há na proximidade com os seus habitantes.

E, se antes descemos, agora temos que subir. O topo do bairro de São Bento traz-nos o Palácio de mesmo nome, um antigo mosteiro beneditino transformado no século XIX na casa da democracia portuguesa. É a Assembleia da República com a sua inconfundível fachada neoclássica com colunas ao cimo de uma longa escadaria. Dica imperdível: saborear um gelado da Nanarella nos jardins do largo da Assembleia.

Só então podemos aventurar subir a inclinada Calçada da Estrela, com o bairro da Lapa na encosta à esquerda. A Basílica da Estrela é outra que merece uma visita antes de continuarmos a subir para Campo de Ourique, o bairro do nosso destino. Na Rua Domingos Sequeira passamos pelo antigo Cinema Paris e tomamos a esquerda na Rua Saraiva de Carvalho sem deixar de observar a sua esquina com edifícios de azulejos e arte nova. A Igreja de Santo Condestável e as inúmeras lojas de tecidos não nos distraem do nosso fim: os Prazeres, nome do cemitério mais bonito de Lisboa.

Os Conventos e Palácios da Zona Ribeirinha do Beato e Xabregas

O Beato fica logo a seguir a Marvila (ou o contrário, se viermos do centro de Lisboa), tão juntos que as suas fronteiras passam despercebidas. O Vale de Chelas continua uma dominante, o carácter industrial mantém-se e o abandono, a degradação e a regeneração urbana são também uma evidência.

Se a Marvila arrabalde histórico de Lisboa era o lugar das quintas, agora no Beato e Xabregas são os conventos que marcaram e continuam a marcar a paisagem.

Desde logo, o Convento de Chelas. Mas, faz sentido, num texto dedicado à zona ribeirinha, falar de algo situado a 2 kms do Tejo? Sim, faz. O Convento de Chelas, também conhecido por Mosteiro de São Félix dos Mártires, fica na muito antiga Estrada de Chelas, em tempos um esteiro do mar que rompia pelo vale acima. Também muito antigo é este convento, embora o edifício actual nada tenha a ver com o primitivo. Crê-se que aqui existiu um templo dedicado a Vesta, a deusa do fogo dos romanos, e Aquiles teria por aqui passado. Aliás, alguns historiadores aventam a possibilidade de o topónimo “Chelas” derivar de “Achilles” e eu, claro, apesar das muitas dúvidas gosto de acreditar na ideia – já se vê que também adoro a hipótese de “Olissipo” derivar de “Ulisses”. Bom, as origens do Convento de Chelas podem não ser tão antigas assim, mas seguro é que no século III recebeu as relíquias de São Félix e outros mártires. No século VIII a igreja foi destruída pelos mouros, mas os monges continuaram a habitá-lo. Quanto em 1147 D. Afonso Henriques conquista Lisboa aos mouros, o Convento estava em ruínas, tendo sido então restaurado e povoado de novo de frades e freiras. Em 1834, ano da extinção das ordens religiosas, aqui habitavam as freiras Regrantes de Santo Agostinho e também por isso é que este é conhecido como Convento de Santo Agostinho. Muitas mudanças ao longo dos séculos, já se vê. O mar já não está à porta e agora é o Arquivo Geral do Exército que guarda os segredos do antigo espaço conventual. A arquitectura exterior do edifício é desengraçada, um imenso bloco amarelo, mas conseguimos espreitar e descobrir no seu interior um portal manuelino delicioso, deixando-nos a sonhar como serão os seus claustros.

O que não mudou com a passagem do tempo foi a ruralidade da zona, com muitas hortas e azinhagas pelo meio. Vimos por aí abaixo, pela Estrada de Chelas, e percebemos as muitas fábricas desactivadas, abandonadas e em ruínas. Aqui chegaram a existir fábricas de licores, malhas, estamparia, tinturaria, tecidos, tabaco, moagem, tanoaria, cortiça, até cocheiras. E muitas vilas e bairros operários, como a Vila Flamiano e a Vila Dias (recentemente comprada pela câmara). Não entramos no Bairro da Madre de Deus e passamos sem parar pelo antigo Mercado de Xabregas, que desde 2017 acolhe a ArCo – Centro de Arte e Comunicação Visual. Uma baralhação esta zona de Lisboa. “Cidades Jardim” que mantém a sua integridade lado a lado com vilas operárias degradadas. Residências artísticas e espaços de co-work lado a lado com a mais miserável vida de rua.

Chegamos, então, à zona ribeirinha do Beato e Xabregas. O fim das ordens militares e a Revolução Industrial levou à reconversão de antigos conventos em unidades fabris, e com as fábricas e o comboio a paisagem alterou-se – uma das imagens da Xabregas de hoje é, precisamente, a da ponte do comboio com as chaminés das fábricas atrás. No entanto, esta zona de Lisboa retém ainda diversos testemunhos do seu rico passado histórico. Os nossos dois primeiros exemplos são, não apenas testemunho de um passado, mas também uma projecção do futuro, o Convento do Beato e o Convento das Agostinhas.

O Convento do Beato, também conhecido por Convento de São Bento de Xabregas, foi mandado construir no século XV pelo Rei D. Afonso V como disposição testamentária da sua mulher, que pretendia que aí se edificasse um hospício. Mas acabou por ser Frei António da Conceição que levou a cabo a construção do convento – e com poucos recursos financeiros, o que aumentou a sua fama de milagreiro. Daí que o Convento de São Bento de Xabregas acabasse por ficar mais conhecido como o Convento do Beato António. Após a extinção das ordens militares, foi Real Hospital Militar, foi destruído por um incêndio, comprado pelo industrial da marca “Nacional” (que até hoje vemos anunciada) para aí instalar a sua fábrica de moagem de cereais, panificação, malte e armazém de vinhos. E, hoje, o Convento é usado para eventos diversos e segue curso o projecto de urbanização de parte do espaço.

Já o Convento das Agostinhas (ou das Grilas) é hoje mais (re)conhecido como o Hub Criativo do Beato. Ex-Convento, ex-Manutenção Militar, mais uma enorme transfiguração se aguarda, desta vez com a transformação do seu imenso espaço (35 mil metros quadrados e duas dezenas de edifícios degradados) num pólo de empreendedorismo, indústrias criativas e inovação. Aguardemos para ver se o projecto megalómano se concretizará.

Quase em frente encontramos o Palácio do Duque de Lafões (ou Palácio do Grilo). Construído após o Grande Terramoto de Lisboa de 1755, a pequena quinta de veraneio foi transformada em residência permanente dos duques. Lá se mantém, embora agora sem a alameda que ligava o palácio ao cais privativo da família no Tejo.

Mais uns passos adiante na Rua do Grilo trazem-nos o Convento e Igreja do Grilo (de outros nomes Recolhimento de Nossa Senhora do Amparo ou Convento de Nossa Senhora da Conceição do Monte Olivete e Igreja de São Bartolomeu ou Igreja Paroquial do Beato). À semelhança do anterior Convento das Agostinhas, também este foi mandado construir por Dona Luísa de Gusmão, no século XVII, para os Irmãos Descalços de Santo Agostinho (este para os frades e o outro para as freiras). Com a extinção das ordens religiosas o antigo convento foi transformado no Recolhimento de Nossa Senhora do Amparo ou do Grilo.

Entrando na Calçada de Dom Gastão, a antiga Quinta Leite de Sousa, também do século XVII, foi depois transformada na operária Vila Maria Luísa e, já neste século, o seu edifício principal passou a ser ocupado pelo Eka Palace, um centro de artes.

E, com mais um pulinho, estamos já na Rua de Xabregas. Mais uma vez, não se sabe com certeza a origem deste topónimo. Mas conta-se uma estória curiosa a ele associada: as lavadeiras que paravam numa das muitas fontes da zona eram muito dadas a guerrear entre si, o que levava a que lhes atirassem muitas vezes a expressão “leixa bregas!”, ou seja, “deixa brigas”. De “leixa bregas” a Enxobregas e, depois, a Xabregas não custa acreditar no caminho. Embora, diga-se, talvez possa fazer mais sentido buscar a origem do seu nome no rio ali mesmo ao pé, onde se praticava o modo de pescar da “arte xávega”, sendo a derivação do topónimo semelhante: Exabregas ou Enxobregas.

Por aqui fica o Palácio de Xabregas ou dos Marqueses de Olhão (ou dos Melo e Cunha), longo na sua fachada simples de 14 janelas, onde encimando uma delas se veem as armas dos Cunhas. Foi construído no século XVI para residência do fidalgo navegador Tristão da Cunha, o primeiro vice-rei da Índia e quem deu o nome ao arquipélago do Oceano Atlântico sul. Propriedade da mesma família desde a sua origem, aqui se conspirou para levar Portugal à Restauração, em 1640. O edifício resistiu ao terramoto, segue conservado, foi classificado como Monumento Nacional e hoje está disponível para acolher eventos.

A cem metros fica o Convento de São Francisco de Xabregas (ou Convento de Santa Maria de Jesus). Construído no século XV, antes terá aqui existido um paço real. Na época tínhamos o Tejo à sua porta. Era a praia de Xabregas, conhecida como a Praia da Marabana, a qual manteve o seu extenso areal até 1939, data das obras do porto de Lisboa e abertura da Avenida Infante Dom Henrique, junto ao rio, que levou ao adeus à praia. Totalmente destruído pelo Terramoto, o Convento foi reconstruído e, depois da extinção das ordens religiosas, foi o primeiro a ser reconvertido em fábrica, logo em 1838. Foi, então, o lugar da Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense, depois fábrica de Tabacos Lisbonense e hoje Teatro Ibérico e IEFP.

Do outro lado da rua, praticamente à sua frente, um apontamento dos nossos dias, materializado no pátio do atelier do artista Bordalo II.

Atravessando o largo onde fica a Ponte Ferroviária de Xabregas com os seus característicos arcos em pedra, entramos na Rua da Madre de Deus. Aqui temos, desde logo, o Palácio dos Marqueses de Nisa. Fundado em 1543 pelo segundo conde da Vidigueira, filho de Vasco da Gama, mais tarde a família receberia o título de Marqueses de Nisa. A sua estrutura já não tem nada a ver com a original e hoje o edifício é propriedade da Misericórdia de Lisboa, onde funciona uma dependência da Casa Pia.

Paredes meias encontramos aquele que é o mais visitado dos conventos da zona: o Convento da Madre de Deus, hoje Museu Nacional do Azulejo. Foi D. Leonor de Lencastre, mulher do rei D. João II, quem fundou as Misericórdias e este Convento em 1509. Já viúva, após a morte do filho retirou-se para aqui e viveu entre as freiras clarissas (o conjunto do Convento da Madre Deus, do hoje Asilo D. Maria Pia e do Palácio Marqueses de Nisa formava, então, o Paço de Enxobregas). Na fachada do edifício, destaque imediato para o seu portal manuelino encimado pelas armas de D. João II e D. Leonor, à esquerda com a figura do pelicano, alimentando os filhotes, e à direita a divisa da rainha com uma rede de camaroeiro, em memória do trágico acidente que vitimou seu filho. O Convento foi sendo objecto de ampliações e restauros vários e em 1965 surge o projecto de criação de um museu do azulejo, concretizado em 1980. E é por isso que este é o Convento que mais facilmente podemos visitar.

A sua colecção de azulejos é deliciosa, com exemplares desde a sua origem até aos dias de hoje, mas com esta visita ficamos a conhecer também os seus claustros e a igreja, uma conjugação belíssima de painéis de azulejo azul com o dourado da talha. Riquíssimo. No último piso, uma vista panorâmica de Lisboa muito especial: um mega painel de azulejo da cidade pré-terramoto, abarcando desde o Convento da Madre de Deus até à Cruz Quebrada.

E, por fim, mas já não em Xabregas ou Beato, eis o Convento de Santos-o-Novo, na Calçada da Cruz de Pedra, em direcção a Santa Apolónia. À semelhança do edifício do primeiro convento deste nosso texto, o Convento de Chelas, também por ele passamos e senti-mo-lo pouco apelativo na sua arquitectura monolítica. Construído no século XVII, o antigo convento das Comendadoras da Ordem de Santiago passa, pois, despercebido, ali junto à linha do comboio. Acontece que estes edifícios escondem muitas histórias e muitos segredos no seu interior. No caso do Convento de Santos-o-Novo, um dos mais fantásticos claustros, diz-se que o maior em área coberta da Península Ibérica.

Foi à boleia da 1ª edição do Open Conventos, no ano passado, que pude visitar este edifício que hoje acolhe quer um lar dos Recolhimentos da Capital quer uma residência estudantil do Iscte. Esta iniciativa tinha como objectivo não apenas dar a conhecer vários conventos espalhados um pouco por toda a Lisboa, mas também fazer pensar e confrontar-nos com o futuro destes espaços. Como mantê-los, como dignificá-los, como legá-los às gerações que hão de vir? Já vimos que após a extinção das ordens religiosas, em 1834, muitos e diferentes usos lhes foram dados: hospitais, fábricas, lares. Hoje temos pudor em transformá-los em hotéis, urbanizações, espaços de empreendedorismo. Se está certo ou errado, daqui a umas décadas veremos, mas que a face de Lisboa continuará a mudar, aí isso continuará.

Marvila

Marvila é uma freguesia de Lisboa situada na zona oriental. A 4ª maior em área e a 2ª em número habitantes, não basta dizer que Marvila é uma freguesia muito diversa. É quase missão impossível tentar referir tudo o que cabe neste pedaço de território que abriga lado a lado terrenos agrícolas, industriais e habitacionais. Que tem um rio como uma das suas fronteiras naturais e que é recortada por um longo vale. O vale de Chelas e o rio Tejo definiram desde sempre a sua personalidade, dando-lhe, um, o carácter rural que nunca perdeu e, outro, os bons ares que aqui fizeram estabelecer uma série de fidalgos.

A Marvila que até meados do século XIX era apenas um arrabalde da capital Lisboa, da qual restam alguns exemplos de quintas e palácios, transformou-se desde aí num dos pólos industriais da cidade, com consequências na paisagem urbana visíveis até hoje. Os gasómetros da Matinha são uma das suas imagens mais fortes e, também, exemplo paradigmático do que as estruturas agora desactivadas e / ou abandonadas podem representar num determinado território: uma memória ou um novo uso? Marvila e sua vizinha Beato são talvez as zonas de Lisboa onde estas perguntas mais se colocam. Mas a transformação de Marvila não terminou com a chegada das fábricas. A decadência deste sector acabou por coincidir com a chegada dos novos núcleos habitacionais que se foram criando no âmbito do Plano de Urbanização de Chelas e que, embora à partida não tivessem esse sentido, nos anos 70 acabaram por se tornar praticamente por inteiro em bairros de habitação social. Casos de estudo como o Pantera Cor-de-Rosa e o Cinco Dedos, no Bairro dos Loios (da autoria dos arquitectos Gonçalo Byrne e António Reis Cabrita e Vítor Figueiredo, respectivamente) ou a Zona J, no Bairro do Condado (do arquitecto Tomás Taveira). Mas se parte da antiga Quinta do Palácio dos Marqueses de Abrantes foi transformada em mais um bairro de habitação social, já a sua vizinha Quinta dos Alfinetes foi reconvertida em biblioteca municipal, numa propositada intenção de dotar um lugar socialmente desqualificado e carente de equipamentos culturais de infra-estruturas que sirvam como um suporte educativo que contribua para um futuro de novas e melhores oportunidades aos seus habitantes.

A piada de Marvila está, precisamente, em poder observar uma série de realidades inesperadas a conviver lado a lado. Uma biblioteca num bairro de habitação social carregado de empenas pintadas pelos maiores artistas de arte urbana, enquanto as ovelhas se arrastam pela rua devidamente guiadas pelo seu pastor.

Mais abaixo, do outro lado da linha do comboio, surge a Marvila mais típica, protegida do rio por uma longa linha de armazéns. É nesta faixa que tudo parece estar a acontecer, mudando não apenas o rosto da freguesia, mas também o de Lisboa, fazendo com que Marvila esteja em alta como a zona mais trendy da capital.

A enorme escultura de José de Guimarães, inaugurada a 25 e Abril de 1999, exactos 25 anos após a Revolução dos Cravos, uma homenagem aos construtores de Lisboa, recebe-nos de braços abertos à entrada desta nova cidade. Aqui na Matinha segue em construção um dos maiores projectos residenciais de Lisboa, o empreendimento de luxo Jardins de Braço de Prata, da autoria do arquitecto Renzo Piano, nos terrenos da antiga Fábrica de Material de Guerra. Ao lado, permanecendo ao abandono e ruína, o edifício ocre da antiga fábrica A Tabaqueira. Atrás, muitos armazéns, um dos quais serve de casa à Galeria Underdogs, de Vhils. À frente, o mais recente jardim de Lisboa, o Parque Ribeirinho Oriental, a devolução aos lisboetas de um espaço de Tejo desimpedido.

A Doca do Poço de Bispo segue vigilante. Não apenas do Tejo, mas de toda a transformação da zona. No entanto, as memórias dos tempos áureos de Marvila estão mesmo ali do outro lado da rua, protegidas no interior. A Praça David Leandro da Silva é o centro histórico e acomoda dois dos seus edifícios mais emblemáticos, a Casa José Domingos Barreiro e os Armazéns Abel Pereira da Fonseca (projecto do arquitecto Norte Júnior). As suas fachadas art deco têm elementos decorativos suficientes para nos deixar especados a olhar para cima, em especial os dois enormes olhos de vidro do Abel Pereira da Fonseca. Ambos antigos armazéns onde se produzia, comercializava e distribuía produtos vinícolas, um construído em 1896 e o outro em 1917, aproveitando a verdadeira auto-estrada que são as águas do Tejo à sua porta para transportar as mercadorias. Observe-se o barquinho assente no rio no emblema do Abel Pereira da Fonseca nas duas fachadas. Este empreendimento era tão grande e importante que chegou mesmo a ter nas suas instalações uma vila para habitação dos funcionários. Aliás, para além das fábricas, a memória histórica de Marvila é também feita de vilas e de pátios operários. A Vila Pereira, com a sua fachada encimada por inúmeras chaminés, e o Pátio Beirão são dois exemplos, ali mesmo na Rua do Açúcar. Rua do Açúcar, não deve haver nome de rua mais doce em Lisboa e, pelos vistos, no lugar onde houve em tempos indústrias de material de guerra, sabão, curtumes, cortiça, fósforos, entre muitos outros, havia também uma refinaria de açúcar.

E a Marvila não falta, é claro, um convento. Construído no século XVII, o Convento de Nossa Senhora da Conceição foi entregue à Ordem das Brígida. Muito destruído com o terramoto de 1775, com a extinção das ordens religiosas no século seguinte o espaço conventual acabou por ser transformado em asilo, mantendo-se a sua igreja – Igreja de Santo Agostinho de Marvila – aberta ao culto até hoje. Não conheço o seu interior, mas a ver pelos azulejos na fachada, o espectáculo deve prolongar-se lá para dentro.

Marvila tem, ainda, mais quintas e palácios para além dos já referidos anteriormente. O Palácio da Mitra, bem conservado, apesar das várias vidas que teve desde a sua construção no século XVII (residência de prelados, fábrica de metalurgia e fundição, fábrica de licores, asilo, Museu da Cidade e, hoje, serviços da Câmara Municipal de Lisboa onde, entre outros, é usado para recepções oficiais. O Palácio dos Marqueses de Abrantes, igualmente propriedade municipal, hoje lugar popular ocupado por diversas colectividades – é aqui que se ensaia a marcha de Marvila – e pelo Pátio do Colégio. E a Quinta do Marquês de Marialva, de que resta apenas a sua formosa torre, conhecida como mirante. Conta-se que foi deste mirante, colado à linha férrea, que em 1856 D. Pedro V assistiu à passagem do primeiro comboio. Mas a partir de 1919 parte dos seus enormes terrenos passaram a ser ocupados pela Fábrica Nacional de Sabões e o restante da Quinta foi votado ao abandono. Parece que em Marvila nada é perene, tudo se transforma e tudo se reconverte e, está visto, nos anos 90 já a Sociedade Nacional dos Sabões tinha deixado de ser uma das maiores empresas do país, falindo e deixando consigo um rasto de abandono e terrenos expectantes.

A questão é mesmo essa, o dos terrenos e edifícios abandonados e, logo, à espera de novos negócios e oportunidades. E, nisso, Marvila é rainha. O quarteirão da Casa José Domingos Barreiro, na praça principal de Marvila – Poço Bispo, foi vendido recentemente e não se conhece ainda o projecto para a sua reconversão urbanística. Já o edifício dos Armazéns Abel Pereira da Fonseca foi reconvertido no Lisbon WorkHub e dispõe de vários espaços criativos, de coworking e restaurante.

A ideia de espaços multifacetados chegou à zona em 2007, com a abertura da nova vida (de parte) da antiga Fábrica de Material de Guerra como Fábrica de Braço de Prata, uns 200 metros mais adiante. Um centro cultural com livrarias, cafés, galerias, ateliers e escritórios que teria, à partida, uma vida breve, até ao loteamento e urbanização dos terrenos onde está instalada. Desde aí, não pararam de chegar novidades. Armazéns reconvertidos em galerias de arte, ateliers, cafés, restaurantes, lojas com ideias fora da caixa, ginásios, escalada indoor, salas de música ao vivo, empresas tecnológicas e teatro (o Teatro Meriodinal, um dos meus preferidos). Até fábricas de cerveja artesanal, logo três de seguida, a Dois Corvos, a Lince e a Musa, tendo sido muito a propósito criado o Lisbon Beer District. Quanto a restaurantes, só a Rua do Açúcar tem duas mãos cheias deles. Fica aqui a indicação de alguns: Dinastia Chang, o meu preferido, El Bulo Social Club, o mais mediático, Aquele Lugar que Não Existe, o mais excêntrico, e Entra, o mais surpreendente.

Mas este era o cenário até à entrada do ano 2020. Nada a ver com Covid-19, portanto. O que acontece é que tudo o que mexe dá nas vistas e atrai a voragem de outros. A maioria dos barracões das antigas fábricas de Marvila há décadas que ali estavam esquecidos, alguns deles alugados há poucos anos por uns trocos a uns então visionários. Mas, agora, tudo parece ter mudado novamente. De repente os terrenos e imóveis tornaram-se apetecíveis e valorizaram exponencialmente, pedindo-se rendas insuportáveis a quem havia vindo para aqui precisamente em busca de preços mais acessíveis. Ou seja, o Dinastia Tang já encerrou definitivamente e outros se seguirão e dirão adeus a Marvila.

Ao mesmo tempo que aguardo com expectativa e apreensão o futuro da Marvila minha vizinha, não posso deixá-la sem acrescentar mais duas das suas instituições: o Clube Oriental de Lisboa, um dos históricos de Lisboa, do qual até já fui atleta, e o Parque da Belavista, um reduto verde numa encosta que nos permite, precisamente, belas vistas de uma outra Lisboa.

Tapada das Necessidades

A Tapada das Necessidades, na Estrela, é um lugar esquecido.

Para o bem e para o mal. Se são muitos os seus edifícios ao abandono, a Tapada preserva ainda largas zonas verdes ideais para nos abstrairmos da realidade, fazer um piquenique ou tão só passear, atravessando-a de um lado ao outro na companhia de pavões e de patos e de vistas para a Ponte 25 de Abril e para os Prazeres, enquanto nos embrenhamos pelos seus caminhos carregados de vegetação exótica.

Foi D. João V quem, no século XVIII, mandou construir a Tapada das Necessidades, Convento e Palácio (hoje sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros) no lugar de uma antiga ermida. Um século depois, D. Fernando II, o Rei Artista, redesenhou o espaço e a zona de hortas e pomares foi transformada em jardim inglês, tendo ainda aí instalado um jardim zoológico com aves raras e macacos. Ao seu filho, D. Pedro V, deveu-se a construção da estufa circular, o apontamento edificado mais bonito da Tapada, embora a Casa do Regalo, de iniciativa do Rei D. Carlos I, tome uma designação que lhe faz forte concorrência. Ou seja, os 10 hectares da Tapada de gosto barroco foram sofrendo alterações e acrescentos ao longo da sua história até chegarem aos nossos dias. Neste que é considerado o primeiro jardim paisagista de Portugal e que foi lugar de lazer e experimentação botânica por parte da realeza, podemos hoje caminhar pelos seus vários jardins, lagos, estátuas e edifícios.

Entrando pela porta junto ao Palácio das Necessidades, iniciamos o passeio pelo jardim inglês e de buxo. Há um frondoso dragoeiro e lago e patos, sim, mas a grande atracção são os pavões que fazem questão de vir até nós, com as suas penas resplandecentes bem abertas, como se nos cumprimentassem.

Logo de seguida, estende-se diante nós um largo relvado verde com um edifício delicioso no cimo, a estufa circular em ferro e vidro.

É aqui que começa o desfile de edifícios abandonados e degradados. A Casa do Fresco, por exemplo, tem até na sua fachada uma das estatuetas decapitada. No topo tem ainda o tanque que lhe garantia um ambiente fresco, mas que servia também como elemento estético, devidamente acompanhado por uns vasos ornamentais. Por aqui segue a alameda que ladeia o que era o jardim zoológico com os seus edifícios rosas todos em muito mau estado. Mas temos uma boa opção: dirigir antes o olhar para o lado esquerdo, para umas boas vistas da Ponte 25 de Abril enquadrada na Tapada.

Mais adiante passamos pela Casa do Regalo, tão intensamente rodeada de vegetação que pode passar despercebida. De fachada amarela e com brasão, foi mandada construir por D. Carlos I para servir de estúdio de pintura para ele e para D. Amélia. Este edifício, sim, está bem conservado, uma vez que, afecto à Secretaria-Geral da Presidência da República, foi restaurado para nele ser instalado o gabinete de Jorge Sampaio, ex-Presidente da República.

Foi a tentar perceber um pouco melhor a fachada escondida da Casa do Regalo que escutei, surpreendida, o grasnar estridente de um papagaio (na verdade, um periquito-de-colar). Tão louro, tão louro que também ele se confundia com o arvoredo. Esta é uma zona de mata mediterrânea, talvez não muito domada, e é logo a seguir que encontramos o Jardim dos Cactos. É uma colecção bastante generosa, exótica e exuberante, imperdível na visita.

E aqui ficamos num dos pontos mais elevados da Tapada, ela que está já implantada numa encosta de Lisboa. As vistas para o Tejo são emolduradas pela vegetação, uma perspectiva bem diferente daquela a que estamos acostumados.

Quando ao futuro da Tapada, designadamente no que respeita à recuperação dos seus espaços degradados, espera-se que em breve possa arrancar um projecto que prevê a instalação de quiosques, esplanadas e equipamentos expositivos e para eventos. Mas que, ao mesmo tempo que a permita ser fruída por todos, possa continuar com o recato que a fez chegar até nós.