Os Amigos do Alva

E porque um grande rio não se torna grande sem os seus amigos, de seguida apresentam-se alguns dos companheiros do Alva que a determinado ponto a ele se juntam no seu caminho até à foz no Mondego. Aos seus amigos Rio Alvôco, Ribeira de Loriga e Ribeira do Piodão dedicarei, então, algumas linhas.

O Rio Alvôco nasce na Serra da Estrela, em Alvôco da Serra (e desagua no Rio Alva, na Ponte das Três Entradas). Um pouco mais a norte, Loriga vê passar por si a Ribeira de Loriga, afluente do Rio Alvôco. São muitos nomes, mas há que fixar estes dois: Alvôco da Serra e Loriga, duas povoações de montanha com uma daquelas implantações geográficas de tirar o fôlego.

Mas porque de rios se trata este texto, eis a praia fluvial de Loriga. No vale glaciar de Loriga, o enquadramento é grandioso e perfeito, com a montanha acidentada nas costas. Várias piscinas de água cristalina se formam ao redor de rochas esbeltas. Não é preciso um dia de frio para que as águas sejam gélidas, mas o cenário vale qualquer tiritar.

Antes da Vide (onde pouco antes a Ribeira de Loriga se encontra com o Rio Alvôco), no lugar da Barriosa fica um dos pedaços mais épicos do Rio Alvôco: o Poço da Broca. É uma sucessão incrível de cascatas que caem de uma falha na terra. Acima das cascatas o rio corre sereno e abaixo delas forma-se um largo lago onde se pode nadar tranquilamente, apenas com a perturbação do som da água a jorrar. Vale a pena uma curta caminhada até ao topo da cascata, em ambiente serrano e agrícola, e uma refeição no restaurante rústico Guarda-Rios.

Em Alvôco das Várzeas fica à praia fluvial de mesmo nome. Aqui o cenário vem acompanhado da mesma enorme natureza mas acrescentado por uma formosa ponte romana. Como não gostar de rios quando se tem estes lugares à disposição.

Para agravar, de volta à estrada aparecem-nos estas paisagens majestáticas.

Um aparte: a infelicidade pode trazer postais felizes. Os fogos de Outubro de 2010 mudaram em muito a paisagem por aqui. Montes e vales despidos, a cada dia o novo cenário foi sendo transformado pela força regeneradora da natureza. Mas isso deixou também à vista lugares antes escondidos pela intensa vegetação.

Por exemplo, Parente e a Moenda ficaram visíveis da estrada, acessíveis ao olhar de qualquer viajante. Como curiosidade, diga-se que lugares de nome Moenda abundam na região, remetendo para os tempos em que os lagares e os moinhos ainda laboravam à beira rio.

Por fim, Foz de Égua, o lugar onde a Ribeira do Piodão se encontra com a Ribeira de Chãs para, juntas, seguirem até à Vide e abraçarem o Rio Alvôco. Foz de Égua é hoje uma das praias fluviais mais desejadas do país. O cenário perfeito repete-se, mas agora à paisagem natural misturam-se as casas de xisto e telhados de lousa feitas pelo Homem. Não será o lugar mais ideal para uns mergulhos na maior parte do ano, uma vez que o caudal do rio não é muito forte e quase sempre a água não passa dos joelhos, mas este é provavelmente um dos lugares com rio mais magníficos para se ver e estar.

Um Passeio pelo Rio Alva

Adoro rios. A terra rasgada por um pedaço de água, seja ele um fiozinho estreito ou um braço largo, faz com que a paisagem, aos meus olhos, ganhe logo outro encanto.

Vivo à beira Tejo, exemplo de braço largo, de tal forma que por vezes sem se ver a outra margem mais parece um mar. Mas o rio da minha infância, aquele onde dava infinitos mergulhos e nadava entre ambas as margens, é o Alva.

O rio Alva nasce em plena Serra da Estrela, a 1651 metros de altitude, perto da povoação mais alta de Portugal, o Sabugueiro. O local exacto onde começa o Alva não é unânime, uma vez que existem algumas dúvidas sobre qual dos troços da Ribeira de Fervença escolher para seu início. De qualquer forma, são cerca de 115 os quilómetros que percorre até se encontrar com o Mondego em Porto da Raiva, perto de Penacova, a menos de 100 metros de altitude. Para além da Serra da Estrela, o Alva corre sob a protecção da Serra do Açor, atravessando ou passando ao largo de aldeias dos concelhos de Seia, Oliveira do Hospital e Arganil.

Umas vezes sobe, outras desce, numas flui espaçoso, noutras mais encaixado, quase que furando a terra para ganhar espaço para passar. Sereno nuns casos, inquieto noutros. O Vale do Alva é, quase sempre, sinónimo de belas paisagens. A Estrada da Beira deixa-nos à porta de várias aldeias que cresceram à beira rio, mas para além delas surgem outras alcandoradas na montanha verdejante salpicada por pedras de xisto ou granito.

Por estas terras estiveram outrora os romanos a explorar o ouro, nomeadamente junto a Côja, e muito depois deles criou o salteador João Brandão a sua fama. Terra de lendas, deixaremos para o fim a história da criação do Alva junto dos seus irmãos Mondego e Zêzere, os três rios que orgulhosamente nascem na Serra da Estrela.

Após nascer no Sabugueiro o Rio Alva desce, mas não muito, até à Senhora do Desterro e, logo depois, mais abruptamente, até à Lapa dos Dinheiros, a cerca de 600 metros de altitude. Eis a nossa primeira paragem nesta jornada acompanhando o Alva. E esta paragem é logo um magnífico cartão de visita para o que mais haverá para vir. Com praias fluviais de excelência ao longo do rio, a da Lapa dos Dinheiros é um recanto escondido por entre a vegetação para lá da aldeia de mesmo nome. A aldeia de casas brancas fica bem no alto da montanha, quase custa a crer que o motor do carro aguente a viagem até lá. Mas por uma boa paisagem e uma boa praia fluvial tudo se aguenta. Até mesmo umas cobras no caminho (é isso, as cobras gostam de rios, pelo que há que partilhar o espaço com elas).

A pequena lagoa de água translúcida com umas rochas cénicas faz-nos esquecer tudo o mais e a indicação das Quedas da Caniça faz-nos seguir caminho sem temer. Uma levada estreita transporta-nos pela mata e o muito arvoredo e vegetação não nos permitem mais do que ouvir o barulho das quedas. Até que uma pequena aberta aparece e vemos então ao fundo a água a despenhar-se dos rochedos. Na verdade, estas são águas do Rio Canção que metros abaixo desaguará no Alva.

A próxima paragem é Vila Cova à Coelheira. O nome não engana, esta aldeia está mesmo instalada numa cova e uma daquelas bem fundas. À sua entrada vê-se um conjunto de edifícios abandonados e em ruína, de uma antiga fábrica de lanifícios. Por aqui fica ainda uma central hidroeléctrica. E Vila Cova à Coelheira tem uma praia fluvial tranquila como a paisagem que a circunda e adornada por uma ponte romana que cruza a água do Alva.

Uns 10 kms adiante, por estradas onde a vista do Vale do Alva enquadrado pela Serra da Estrela é épica, surge Sandomil. A sua ponte pode não ser romana (apesar de os romanos por aqui terem andado, a ponte será medieval), mas a sua beleza não é menor. São três arcos que produzem uns reflexos incríveis na água do rio, devidamente vigiados por uma pequena capela.

Segue-se a praia fluvial de São Gião. Com um parque de campismo e uma extensa área de apoio a que não faltam sequer umas pranchas de salto para o rio, esta zona tem tudo para ser um sucesso recreativo. Neste fim de tarde, porém, menos de dois anos após os assoladores fogos de Outubro de 2017, não pude deixar de focar a atenção na desolação da paisagem circundante, despida da frondosa vegetação de outros tempos, feita de muitos pinheiros e castanheiros, mas também choupos e salgueiros.

Esta região é o troço de Alva que melhor conheço, mas a paisagem está em muito irreconhecível. A terra queimada deixou à vista rochas que antes estavam tomadas pelo intenso arvoredo, há cabeços despidos que embora já não estejam negros se percebe que lhes falta algo e aproveitou-se o corte das árvores para se alargar a estrada em alguns pontos. As memórias de outros tempos não dizem respeito apenas a uma paisagem perdida. Normalmente ficávamos pelo rio da Ponte das Três Entradas, mas quando nos juntávamos a pessoal que tinha carro podíamos seguir até à Rapada. Mas onde, exactamente, fica a Rapada (e o Pego? e a Moenda?)? Antes, as zonas mais acessíveis de rio não tinham infra-estruturas. Conhecíamos o lugar, descíamos por atalhos e aí nos deixávamos estar, ao fresco das árvores e da água do rio. Os nomes dos lugares vinham de longe, ouvidos aos antepassados. Hoje, quase todas as aldeias à beira Alva têm um acesso de luxo ao seu rio, com áreas de lazer a condizer e bem sinalizadas.

É o caso de Penalva do Alva e de Santo António do Alva, com as Caldas de São Paulo pelo caminho e seu conjunto pitoresco de pedrinhas a fazer a água rolar de forma diferente antes de chegar ao Aqua Village, o projecto turístico de maior renome da região.

A praia fluvial de São Sebastião da Feira é hoje uma das minhas preferidas. Tem um língua de areia onde podemos estender a toalha e o cenário que nos rodeia é o ideal para nos fazer alhear do bulício citadino: vegetação intensa cortada por uma linha de água clara e fresca com uma nora a adornar o postal.

A Ponte das Três Entradas continua linda, embora sem o esplendor de outros tempos, onde debaixo das suas árvores ou no seu açude intacto aguardávamos intermináveis horas de digestão impostas pela avó até que pudéssemos finalmente dar um mergulho. Diz a sabedoria popular que é aqui que o Alva deixa de ser ribeira e ascende à categoria de rio. Uma ponte com um desenho único, com três arcos sob os quais se juntam as águas do Alvôco e do Alva para que este possa então correr sozinho em nome próprio.

A Ponte gira à volta da sua sempre magnífica praia fluvial, mas esta povoação é como que uma centralidade, com parque de campismo, restaurantes e um hotel que actualmente consegue até superar os bons velhos tempos de ontem.

E daqui para a frente o Alva passa por duas aldeias que valem muito a pena serem exploradas e apreciadas para além do rio: Avô e Vila Cova de Alva. A sua implantação geográfica encaixada no vale do Alva é uma inspiração.

Vasco Campos, médico e poeta reputado da região, dedicou-lhe vários dos seus versos, como este:

“Do Rio Alva princesa,

Castelã do verde manto;

Deu-lhe o passado a nobreza

E a natureza o encanto.

No seu quieto abandono,

Senhora de antigo brio,

Servem-lhe os montes de trono,

Canta-lhe trovas o rio!”

A surpresa está ainda em encontrar, em cada uma destas povoações, um núcleo urbano feito de casas apalaçadas e até um castelo, caso de Avô.

Avô, que chegou a ser considerada uma das mais belas aldeias de Portugal, têm uma deliciosa praia fluvial à qual não falta sequer uma ilha, a ilha do Picoto.

Antes de seguirmos de Vila Cova para Coja há que fazer um desvio até Barril do Alva e à sua praia fluvial de mesmo nome e à do Urtigal. São mais um recanto de pacatez com as devidas infra-estruturas, como um parque de caravanas e um bar, para além de umas águas que permitem o justo repouso. Miguel Torga passou por aqui e diz-se que o ambiente o inspirou a escrever o seu poema “Saudação”, uma ode às aves Guarda-Rios, aí inscrito numa lápide. E sobre o Alva escreveu “É bonito, o Alva! Manso, claro, calado, sem a tragédia do Douro nem a grandeza do Tejo, é bem o rio da Beira”.

Coja, então. A “princesa do Alva” é uma das mais carismáticas e gabadas povoações da região. É mais uma das tais cujo interesse não se esgota no rio, embora este lhe dê inequivocamente uma boa parte da sua beleza. Abaixo do seu casco antigo bem preservado e pitoresco corre o Alva e podemos optar por uma das duas praias fluviais oficiais de Coja, a do Moinho de Alva ou a do Caneiro.

Esta última é das mais procuradas da região. Extensa, há lugar para todos à beira das belas águas guardadas pela floresta.

Já estamos perto de Arganil, terra da secular Comarca de Arganil e do médico Fernando Valle. O Alva não passa mesmo aqui, antes a Ribeira de Folques, um seu afluente, mas com Arganil de permeio temos mais duas boas praias fluviais, a de Secarias (Cascalheira) e a de Sarzedo.

O Rio Alva irá em breve tornar-se mais largo, mas continuará a serpentear. Atravessamos a ponte do Maladão e a zona da Albufeira das Fronhas traz-nos um outro tipo de paisagem, mais aberta e selvagem. Nestas águas do rio tornado barragem existem várias zonas de pesca desportiva autorizada como a de Sail e a de Vale de Espinho.

Moura Morta, cujo nome se dá a especulação e nos leva a deixar a imaginação solta, é uma aldeola altaneira donde se avista o Alva na sua versão novamente tranquila. Pode-se ir até à sua beira, mas a imagem de cima é imprescindível para garantir que levamos o Alva no coração.

Estamos já perto da foz do Alva, mas há que fazer mais uma paragem obrigatória, desta vez na praia fluvial do Vimieiro. No meio do (quase) nada surge um dos mais bonitos pedaços acessíveis do Alva. Com um afamado restaurante e lugar para piqueniques à beira rio e espaço fácil e sossegado para um mergulho, esta é uma boa despedida do nosso rio.

O Rio Alva desagua poucos quilómetros adiante no Mondego, no lugar de Porto da Raiva, perto de Penacova. Já misturado com as águas do Mondego, havemos de ter face a nós uma obra da natureza materializada num recorte surpreendente das rochas. É a Livraria do Mondego. Uma paisagem selvagem, talvez feita de raiva.

E aqui chegados, terminamos com a prometida lenda do Alva. Conta-se que os três rios irmãos nascidos na Serra da Estrela, o Alva, o Mondego e o Zêzere, após uma discussão nocturna decidiram disputar entre si quem seria o mais valente e chegaria primeiro ao mar. Assim, no dia seguinte cada um seguiria o seu caminho em busca dessa valentia e o Mondego, previdente madrugador, levantou-se cedo e foi deslizando silenciosamente pela Guarda, Celorico, Gouveia, Manteigas e Raiva, onde os primos ribeiros a ele se juntaram tornando-o mais forte, até chegar à Coimbra. O Zêzere, atento, não tardou a sair e escondido por entre os penhascos dirigiu-se a Manteigas, passando pela Guarda e Fundão, mas, cansado, em Constância acabou por perder-se nas águas do Tejo. Já o Alva, esse, passou a noite a contar as estrelas, e a sua veia de poeta e sonhador fez com que adormecesse. Quando acordou já os seus irmãos iam longe. Furioso, pôs-se a caminho rasgando montes e rochedos, atravessando penhascos e vales. Mas deu com o Mondego já adiantado a chegar ao mar. Tentou, então, expulsar o seu irmão do leito, aumentando a sua fúria e espumando de raiva ao ver que o Mondego, impávido e sereno, se preparava para o engolir. O lugar onde esta luta se deu ficou para sempre conhecido como Raiva. Mas nos dias de hoje não há aqui mais tormenta, antes uma serenidade feita da união das forças da natureza.

Um passeio até ao campo da bola de Loures

Não sei quando fui a primeira vez ao futebol. Não posso sabê-lo, tão pequena era. Sportinguista ferrenha, não consigo dizer sequer se fui primeiro a Alvalade ou à Luz. Ou ao pelado de Aldeia das Dez. Uma coisa é certa, nunca tinha ido ao Faria, o campo da bola do centenário Grupo Sportivo Loures, concelho onde vivi grande parte da minha vida e onde ainda hoje trabalho.

Fui lá há uns meses, nesta época desportiva de 2018/19 que entretanto findou, a um GS Loures – FC Oliveira do Hospital, a contar para o Campeonato de Portugal, Série C, vulgo 3ª Divisão Sénior.

O campo fica logo à entrada de Loures, para quem vem de Lisboa, e os seus muros estão totalmente graffitados com mensagens de Abril, a lembrar que em Loures, terra ainda comunista, a palavra é quem mais ordena.

A entrada fica do outro lado da estrada principal, e as antigas bilheteiras perdem-se no meio dos bonecos.

Preço do bilhete? 4 euros para sócios, 7 para não sócios. Ora toma, quem pensou que vir ao futebol de terceira é mais barato que um bilhete de cinema? À entrada não há é cachecóis nem bandeiras para venda e lá dentro, verei logo a seguir, não há queijadas. Mas há o bar do clube já para lá da porta de entrada. Lembro então que nos verões da Loures dos anos 90 era impossível uma refeição ao almoço que não fosse na sede do clube local. Isso melhorou, mas pouco mais.

Já no campo da bola, o primeiro comentário ouvido foi logo um “até o Santa Iria já está à nossa frente”. O Santa Iria disputa o mesmo campeonato e série e é o clube da freguesia mais a sudeste do concelho. Rival da sede, portanto.

Sento-me na bancada central, coberta, para adeptos locais. A ruidosa claque está do mesmo lado da bancada, única, mas um pouco mais separada. Só há mais umas poucas bancadas de trás uma das balizas. Tudo muito junto ao relvado. Tão junto, tão junto, aliás, que estava sentada há poucos minutos atrás do banco de um dos clube, onde os jogadores aqueciam, quando logo ouvi um deles gritar: “olha a bola”. Era para mim, mas não me acertou. Ainda me desviei umas quantas vezes mais. Os meus parceiros iam fazendo de apanha-bolas.

Os jogadores recolhem aos balneários para se equiparem e logo depois, de lá de dentro, vai-se ouvindo o grito de cada uma das equipas, à vez. Estavam prontos para subir de novo ao relvado e uma voz chama-os “bora, malta”.

A claque do Loures, com uma grande bandeira desfraldada, mostra-se incansável no apoio ao seu clube, com cânticos familiares a quem frequenta os estádios de futebol. Os seus cânticos falam também em “curva”, mas neste campo não há cá curva nenhuma.

São poucos os espectadores, cerca de centena e meia. Mais homens do que mulheres, mais velhos do que novos, mas sente-se um ambiente familiar. Apesar dos prédios que se debruçam para um dos topos do campo, apenas numa janela parece haver um espectador interessado. Já o jogo tinha começado e chegam dois chineses, a estes é que não lhes escapa nada.

10 minutos de jogo e o desânimo parece começar a instalar-se nas bancadas, que soltam um “lá estão eles a jogar outra vez a bola para trás”. A claque, não, essa continua – e continuará até ao final – a puxar pela equipa. É o Loures, no entanto, que tem a iniciativa do jogo e joga ao ataque. O seu número 14 está endiabrado. Mas é o Oliveira que marca à meia-hora, um auto-golo, e os seus jogadores vão comemorar perto da claque do Loures, talvez porque não tenham visto ninguém dos seus, apesar de eu estar de azul, embora escondida no outro lado da bancada entre os restantes adeptos do clube da casa. Pois é, Loures é o meu concelho, mas Oliveira do Hospital é o concelho da freguesia de Aldeia das Dez. Força, azuis.

Esta comemoração deu confusão e resultou nuns quantos cartões amarelos para os de Oliveira e um bocado de tempo do jogo parado. Logo na jogada seguinte, vermelho directo para o capitão do Loures, após uma entrada louca. Não ouve sequer contestação à decisão do árbitro, antes aplausos e incentivos para os jogadores locais, que agora ficariam com menos um e a perder. Apenas se ouviu um “estás-te a rir mas no fim vais chorar, não digas que não te avisei” para um calmeirão do Oliveira. Era optimismo cego, a coisa parecia difícil.

Não levei eu com uma bolada, levou um velhote num grupo de velhotes coxos no topo à entrada do campo. Foi na cabeça, mas ao de leve, o suficiente para o por a cambalear. Isto estava mesmo mau para os da casa.

E aí vai uma bola para fora do campo, para lá dos muros, para a estrada principal da cidade, pode ser que tenha caído num dos seus muitos buracos sem apanhar um carro que lá passasse.

Já sobre o intervalo pede-se pénalti para os da casa e chegam os primeiros nomes ao árbitro, os homens gritam “cabrão”, as mulheres gritam “estúpido”. Os jogadores do Loures saem para descanso sob os aplausos da sua claque e esta também deixa as bancadas para ir beber umas no bar.

Para a segunda parte do jogo as equipas mudam de lado do campo e eu também. Na esperança de ver mais um golo do Oliveira vou para a mini-bancada atrás da baliza onde se instala o guarda-redes do Loures. Rezo para que as redes da baliza não estejam rotas e que a pontaria dos de Oliveira esteja afinada.

Mais um azar para os de Loures, outro vermelho directo, estranhamente designado por “encarnado” por estes lados. Mais aplausos à saída do jogador expulso. Durante o jogo só deu para aplaudir cenas destas, mas a cantoria continuou até final.

E o Oliveira fez o segundo golo e percebo, então, que estou entre os meus. Afinal há cá mais adeptos da equipa visitante. E veio ainda o terceiro golo.

Resultado final: 0x3. Os da claque do Loures aplaudiram entusiasticamente a sua equipa no final. Acto incompreendido até pelos seus co-adeptos, que só tinham palavras para, ironicamente, dizer “aplaudam, aplaudam, que fartaram-se de jogar”. “O treinador não fica cá para além desta semana”. Viu-se até um lenço branco. Tudo muito familiar.

Nota final: o Santa Iria acabou a época com a despromoção do Campeonato de Portugal e o Loures aguentou-se.

Alguma gastronomia açoriana

Nesta jornada pelas ilhas do grupo central do arquipélago dos Açores (com excepção da Graciosa) fui tendo oportunidade de saborear várias das suas especialidades gastronómicas.

Parece que nos Açores há de tudo. O mar dá-lhe o pescado e crustáceos e as inúmeras pastagens a carne feliz e os lacticínios. Até da lava consegue fazer nascer vinho. E, depois, há ainda os doces típicos.

Não sendo apreciadora nem de vinho nem de queijo, e sendo mais de carne do que de peixe, logo depois de experimentar uns suculentos pedaços de touros pretos açorianos no Príncipe Gastro Bar, na Horta, tive de me render ao peixe veja da Casa Âncora, em São Roque do Pico. Estes dois restaurantes de bom gosto e cozinha moderna são do mesmo dono e “apenas” estão separados pelo Canal.

Mais caseiro e tradicional, no Clube Naval de Velas, em São Jorge, dei uma hipótese ao enchareu. Tão tradicional que o prato parecia ter sido posto na mesa pela minha mãe: peixinho grelhado, acompanhado de verduras e de batata (felizmente, batata doce). Ao contrário de outros, no que respeita ao peixe a comida da mamã não me traz grandes recordações.

Na Terceira, já com companhia para partilhar as iguarias à mesa, incluindo a da dita mamã, foi a alcatra que roubou todos os paladares. Alcatra é de carne, certo? Não se estivermos na Terceira. Aqui podemos escolher entre a alcatra de carne e a de peixe ou, então, ficar com as duas. Em comum, ambas são servidas em tacho de barro, cozinhadas com especiarias várias e acompanhadas de pão. E ambas são uma bomba deliciosa.

A mais surpreendente alcatra de peixe pode ser apreciada no restaurante Boca-Negra, em Porto Judeu, numa variedade de três peixes que para nós incluiu o boca-negra, o congro e o goraz.

A época da Páscoa não é de cracas, mas pudemos experimentar umas lapas que não desiludiram.

E quanto à doçaria, os fãs da massa sovada também não ficam desiludidos numa passagem pelas ilhas do grupo central açoriano. Mas não é isso que irão relembrar. Trarão antes o gosto das “espécies” de São Jorge e das “Dona Amélia” da Terceira. Na Pastelaria O Forno, em Angra, muitas são as opções, mas a curiosidade recai nestas queijadas (também servidas na forma de bolo) de nome curioso, assim apodado após a visita do Rei D. Carlos e da Rainha D. Amélia à ilha em 1901. Este doce mistura mel de cana, canela, noz moscada e cidras. Uma delícia entre delícias açorianas.

Pelo interior da Terceira

Na Ilha Terceira confirmei uma vez mais que o que me enche as medidas é mesmo o centro das ilhas. As povoações são pitorescas e a costa bonita, mas o centro das ilhas açorianas é fabuloso – montes e vales, prados e vegetação luxuriante, vulcões e furnas. E até porque do centro tudo se contempla, incluindo as pitorescas povoações e a bonita costa.

A Terra Chã está a poucos minutos da cidade de Angra e aqui logo adentramos a ruralidade da Terceira. Uns miradouros permitem-nos admirar as diversas facetas da ilha. Embora a Serra de Santa Bárbara costume estar acompanhada de nuvens – e elas viam-se à distância – teimámos em tentar chegar aos 1021 metros de altitude, o ponto mais alto da ilha Terceira. Conseguimos, mas nada se via do topo, óbvio. O caminho até lá, porém, é daqueles que vale a pena enfrentar seja que clima teimar em marcar presença.

Passamos a Lagoa das Patas, pequena mata de recreio, seguimos pela estrada ladeada de criptomérias, com alguns troncos de árvores muito curiosos, as vistas vão-se abrindo para o mar, com o Monte do Brasil e os ilhéus das Cabras ao fundo, enquanto as vacas pastam no manto verde dividido pelos cerrados. Tranquilidade pura.

O cimo da Serra de Santa Bárbara é constituído pelo que foi outrora um vulcão. As nuvens cerradas não o deixam perceber, mas depois de descermos e voltarmos no caminho em direcção ao centro da ilha, em grande parte ocupado pela caldeira de Guilherme Moniz, temos oportunidade de perceber a quantidade de picos correspondentes a antigos vulcões que pululam por aqui. Curiosamente, nesta ilha relativamente pequena, a parte ocidental é acidentada, cheia de montes, enquanto que a parte oriental é quase toda ela plana, ocupada pelas famosas mantas de retalhos.

A Caldeira de Guilherme Moniz não se chega a perceber. A sua dimensão é enorme e é atravessada por estradas, por vezes a vegetação é intensa e vêem-se uma série de cabeços e campos de lava. Não há um ponto mais elevado donde se possa apreciar os seus exactos contornos. O que há, sim, são vários elementos naturais que nos deixam absolutamente surpreendidos.

O primeiro deles é uma das maiores atracções da ilha: o Algar do Carvão. Quando me indicaram o que ver e fazer na Terceira, falaram-me na descida a uma gruta. Logo disse que detestava grutas. Mas que não, que esta não poderia perder. E é verdade, não a poderia ter perdido por nada deste mundo. Até porque esta é uma das poucas, senão única, oportunidade no mundo de se entrar num vulcão. Esta é, literalmente, uma viagem ao centro da terra.

Os algares são buracos verticais e profundos de origem vulcânica, autênticas cavernas que se formam pela erosão e dissolução da água, daí que muitas vezes se possam encontrar neles pequenas lagoas que vão guardando a água das chuvas. Não são raros no arquipélago dos Açores. Mas nem todos são visitáveis. O Algar do Carvão pode ser visitado durante todo o ano.

Um cabeço revestido de uma intensa vegetação recebe-nos mas à partida não lhe descobrimos nada de diferente. Mas após uma portinhola a servir de entrada seguimos por um túnel e entramos num mundo novo. Uma galeria no interior do dito cabeço fica diante nós. Descemos uma longa escadaria e o ambiente torna-se mais frio e húmido, com as gotas da água a escorrer pelas paredes rochosas. Estamos, então, dentro do vulcão e olhando para cima vemos a sua chaminé aberta ao céu. No negrume, um toque de verde dado pelas diversas espécies vegetais.

Voltando os sentidos para dentro do cone vulcânico, para além das algas e bolores, são diversos os minerais que se encontram nesta cavidade, estalactites e estalagmites junto com outros palavrões do género. A lagoa fica numa vertente mais abaixo e a escuridão não nos deixa apreciá-la na plenitude, mas sabemos que chega a ter uma superfície de 400 m2 e uma profundidade de 15 metros, sendo alimentada por infiltrações pluviais e pequenas nascentes aqui imersas.

João de Melo referiu-se a este Algar do Carvão como uma “ferida profunda aberta na terra”. Mas o que parece igualmente uma ferida é um lugar aqui perto, as Furnas do Enxofre, donde brotam umas fumarolas vulcânicas.

Através de um percurso pedonal instituído somos transportados por mais uma paisagem irreal. Um sistema de fissura vulcânica leva a que uns gases – as fumarolas – sejam libertados para a superfície. A cor amarelo-alaranjada que se vê no meio da vegetação corresponde a depósitos de enxofre, sendo ainda, fenómeno mais raro, formados cristais de enxofre.

Perto do Algar do Carvão fica a Gruta do Natal, outro daqueles sítios cuja visita é única. À sua porta temos a Lagoa do Negro com um arvoredo intenso na sua traseira a fazer de palco.

Mas o espectáculo faz-se novamente nas “entranhas da terra”. Num percurso de cerca de 700 metros por um tubo de lava onde podemos observar diversas estruturas geológicas ficamos, ao mesmo tempo, com uma maior percepção de como foram formadas as ilhas de origem vulcânica. O caminho não é difícil, mas por vezes o chão apresenta alguns desníveis e algumas partes são muito baixas. É o nosso momento Indiana Jones. O nome desta gruta, “do Natal”, deve-se ao facto de aqui ter sido celebrada uma missa de Natal em 1969.

Junto à Gruta do Natal tem início um dos trilhos pelo interior da ilha: o dos Mistérios Negros. Com muita pena, não houve tempo para o percorrer. A nossa escolha recaiu, ao invés, no trilho que tem o seu início do outro lado da estrada do Caminho dos Biscoitos, ali perto.

O trilho da Rocha do Chambre é circular e tem cerca de 10 kms, coisa para épicas 2h 30m. Deixamos o carro na beira da estrada e iniciamos o percurso pelo caminho de bagacina vermelha, um dos muitos pisos que iremos experimentar.

As vistas logo ao início, com o recorte exacto dos montes, são soberbas, graças também à sorte com o dia de céu quase limpo. Por entre muito verde e céu azul, passamos por caminhos de pastagens, sempre com o aviso de deixar as cancelas como as encontrámos, e logo entramos num caminho de lava mais invulgar. A lava que derramou sobre estes terrenos fez que, com o tempo, se originassem diversas pequenas pedras que agora vamos pisando com cuidado para não nos desequilibrarmos.

Uma das partes mais bonitas deste percurso aparece com pouca demora: uma floresta de cryptomeria japonica. Os troncos destas árvores são fantásticos, alguns deles tomando a forma de bengalas invertidas. Outros, com formas mais comuns, dão-nos na mesma uma imagem belíssima, todos próximos uns dos outros e bem altos. Nesta zona passa um ribeiro e existem algumas partes mais encharcadas, pelo que há que ter atenção onde colocar os pés para não escorregar. Vêem-se umas pontes nesta mata, o que aumenta a fantasia do cenário.

E daqui começamos a subir durante um tempo protegidos pelas copas das árvores. Um corda grossa onde nos devemos apoiar ajuda a vencer uns degraus rústicos e escorregadios numa subida a pique. Nesta subida que nos vai tirando o fôlego fisicamente vamo-nos preparando através de algumas abertas na folhagem das árvores para o cenário que nos aguarda no alto. É o Biscoito da Ferraria e o Pico Alto com o Atlântico ao fundo. E a Rocha do Chambre.

Atingido o ponto mais elevado do percurso, a 704 metros de altitude, é hora de descer. Esta é uma zona de pastagens naturais e daqui avista-se o Pico do Fogo, o Pico Gaspar com o seu cone achatado e a Serra de Santa Bárbara. A paisagem natural só é perturbada por algumas construções de apoio à actividade agrícola. Não vemos gado bravo, mas incomodamos o repouso de umas cabras. E em breve a estrada torna-se familiar e voltamos ao piso vermelho que anuncia o fim (e anteriormente o começo) deste trilho circular.

No final, a certeza: só caminhando pelo seu interior se fica com uma ideia mais próxima da beleza indomável das ilhas.

Uma volta pela Terceira

Há quem diga que a Terceira é a ilha do arquipélago dos Açores com mais diversidade. Com uma cidade distinguida como Património da Humanidade, pejada de igrejas, conventos e palacetes, rica em tradições e festividades e com uma gastronomia muito própria, o seu património construído e a sua cultura encontram um fortíssimo rival na paisagem natural. Montes e planícies, crateras de vulcões e grutas, praias e piscinas naturais, aqui tudo se encontra.

Iniciaremos este percurso circular pela ilha Terceira no Monte do Brasil, o guardião natural de Angra. Esta península é o que resulta de um antigo vulcão, hoje extinto, mas que nos deixou uma caldeira e vários picos. Em quase todo o Monte do Brasil se podem encontrar as muralhas e baluartes ou pelo menos vestígios da grandiosa fortaleza de São João Baptista. Mas à parte a vertente militar, este é também um espaço recreativo e de lazer, com o Relvão e parques de merendas. Em post anterior já tínhamos percebido como a vista do Pico das Cruzinhas para a baía de Angra é fabulosa, mas dirigindo o olhar para ocidente temos uma vista igualmente superior da costa sul, onde se destaca a povoação de São Mateus da Calheta.

Já na estrada, cá em baixo, rapidamente chegamos a São Mateus. Esta vila piscatória, outrora um centro baleeiro, tem uma baía bem pitoresca com um porto de pesca muito movimentado. Não é de estranhar, pois, que aqui fique um dos mais afamados restaurantes da ilha, o Beira-Mar.

Seguindo pela costa damos com a igreja velha da povoação, descascada no final do século XIX por um forte ciclone, e chegamos à Ponta das Cinco, lugar de umas piscinas naturais.

Esta zona costeira das Cinco Ribeiras é de uma ruralidade comovedora. Com o mar azul de um lado e montes verdejantes do outro, tomamos as estreitas canadas e deambulamos pelo meio das pastagens divididas por pequenos muros de pedra – os cerrados – e ocupadas pelas vacas.

Pela costa ocidental da ilha vão aparecendo alguns pontos de vista de excelência, como o miradouro da Ponta do Queimado ou Ponta da Serreta. Antigo lugar de vigia da baleia, este é um promontório bem alto numa costa agreste e dura. Surpreende, pois, que logo ali junto ao mar rochoso se desenvolva uma mata cerrada. Não desviamos quase nada para o interior e logo damos com a Reserva Florestal da Serreta, um bosque de recreio e lazer muito rico em espécies arbóreas.

De volta à costa, mais um miradouro, o da Ponta do Raminho.

Nesta jornada já havíamos passado por uns quantos “impérios” e igrejas e agora segue-se Altares e uma paragem para almoçar uma alcatra de carne no restaurante Caneta.

De volta à estrada de barriga cheia, a vista do Pico Matias Simão é como que a sobremesa bónus. Ao nosso redor, tudo o que vemos é a planície recortada em rectângulos verdejantes que repousam junto ao mar.

Segue-se Biscoitos. Não outra sobremesa, mas antes a zona de veraneio por excelência da Terceira, graças ao seu microclima especial que faz com que aqui esteja quase sempre bom tempo para um mergulho nas suas piscinas naturais, as mais fantásticas da ilha. Biscoitos é o nome que se dá no arquipélago aos terrenos formados pelas lavas que resultam das erupções vulcânicas. Nesta povoação à beira mar a terra parece queimada, cortesia da dita lava que se transformou em rochas de basalto preto. E essas rochas tomaram aqui formas deliciosas que deram origem a recantos por onde o mar vai entrando.

Imediatamente a seguir às piscinas naturais, ainda na costa, vemos outro cenário também surpreendente na rocha escura: uma série de trincheiras que fizeram parte do sistema defensivo militar da ilha construído e usado na II Grande Guerra Mundial. Crê-se, no entanto, que sistema semelhante tenha sido igualmente usado numa época anterior, nos séculos XVI e XVII, para fazer face aos ataques dos piratas e corsários.

E os Biscoitos são ainda famosos pela sua tradição vinícola, sendo a única região de vinhos demarcada na ilha Terceira. O referido microclima e o engenho do Homem na adaptação do terreno à sua subsistência fez com que as pedras de basalto fossem utilizadas para a construção das curraletas que protegem as vinhas dos ventos. À semelhança do que víramos na ilha do Pico, também o verdelho vinga neste terreno e faz as delícias dos apreciadores de vinho.

Prosseguindo pela costa norte da ilha, duas praias aparecem para alegria dos entusiastas das paisagens costeiras. A Alagoa da Fajãzinha é uma pequena delícia. Junto à Ponta do Mistério, nas Quatro Ribeiras, a costa é escarpada e o mar chega a rebentar violento contra a rocha. Pequenas baías e promontórios dominam a paisagem, mas eis que por aquele cenário de lavas recentes surge um pedaço de terra que se estende ilha adentro, parecendo ter vencido a batalha da costa escarpada. É a dita Fajãzinha, uma pequena praia não de areia mas de pequenas pedras junto à beira mar, os detritos que os deslizamentos dos montes foram acumulando ao longo dos séculos. É muito curioso ver como no meio da lava vão-se já sobrepondo pedaços de vegetação.

As Escaleiras é outra praia surpreendente. Descemos do parque de estacionamento e vamos sentindo o mar barulhento a quebrar na rocha lá em baixo. Mas lá em baixo, no entanto, abre-se uma baía e, apesar de uns quantos surfistas na água, o mar parece mais tranquilo, protegido pelos morros altos que o recebem.

A costa norte da Terceira, a tornar-se nordeste, é onde fica a Base Aérea das Lages, utilizada quer pela Força Aérea Portuguesa, quer pela Força Aérea dos Estados Unidos da América, servindo igualmente como o aeroporto da ilha.

A Praia da Vitória é a segunda maior povoação da Terceira e uma das primeiras escolhidas pelos povoadores da ilha para se estabelecerem logo à sua chegada no século XV. O nome “da Vitória” foi-lhe acrescentado já no século XIX, por carta régia de D. Maria II, em reconhecimento do seu papel na Guerra Civil Portuguesa, quando a então vila se opôs ao desembarque das tropas miguelistas. O apoio aos liberais valeu-lhe os títulos de “Mui Notável” e “da Vitória”.

E para a história esta será, para sempre, a terra natal de Vitorino Nemésio. A casa onde nasceu foi transformada em Casa-Museu Vitorino Nemésio e muitos outros lugares por onde passou estão devidamente assinalados, como a Casa das Tias. As cores da hoje cidade da Praia da Vitória dão-lhe, por si só, um encanto muito próprio. Mas, depois, temos ainda os belos edifícios da Igreja Matriz e dos Paços do Concelho. E temos, ainda, a dita praia, reconhecida como o mais extenso areal de todo o arquipélago dos Açores, com uma promenade bem cuidada e uma pequena marina. O fim de tarde escuro e a areia igualmente escura e em dragagens acabaram por não me parecer o convite ideal a um momento de contemplação do Atlântico, mas acredito que com outras cores este possa ser um postal para mais tarde recordar.

A Praia acaba por ser uma baía e a Serra do Facho protege-a. Do seu alto um miradouro serve-nos de ponto de vista para toda esta região da ilha, com as costas da Serra do Cume ao fundo. E da Serra do Cume, claro, avista-se a Praia da Vitória.

A imagem do vale verdejante da Serra do Cume é, talvez, a mais repetida de toda a ilha Terceira. A maior cratera do arquipélago transformou-se num quadriculado de pastagens e terras de cultivo, conhecida localmente por “manta de retalhos”. E é isso mesmo que esta imensa planície rodeada por pequenos montes nos faz lembrar.

Do miradouro da Serra do Cume avistam-se ao longe os Ilhéus das Cabras. Antes de os termos mais perto de nós, porém, há que passar pelas povoações de Porto Martins, pela bela aldeia de São Sebastião e por Porto Judeu (perdendo, no caminho, uma ida até à Ponta das Contendas – lá está, há que deixar sempre algo para uma próxima visita às ilhas), estas duas últimas com umas igrejas bem bonitas. Porto Judeu é imperdível, pois é lá que fica o restaurante Boca Negra, afamado pela sua alcatra de peixe.

Daqui até Angra é um tirinho, passando por muitos “impérios” na beira da estrada junto à Feteira, e quase sempre com os Ilhéus das Cabras por companhia, repousando tranquilamente sobre as águas do Atlântico.

Estas duas fotogénicas ilhotas são o resultado de um vulcão, partido ao meio pela erosão marinha e pelas movimentações tectónicas ao longo dos tempos. Sobre estes cones verdes escreveu repetidamente Nemésio, primeiro, em Mau Tempo no Canal, referindo-se a eles como tendo “o aspecto de um pão a que se esgaça um bocado” e, depois, em Corsário das Ilhas como, como “a estátua da nossa solidão”. E é com esta imagem, da solidão do ilhéu, que chegamos de volta a Angra, cidade para onde historicamente confluíram todos os solitários que cruzavam os mares.

Os “Impérios” da Terceira

“A alma do ilhéu é cândida e tenaz; quer um Deus vivo e alegre; chama-o à intimidade do seu pai e das suas ervas húmidas.”

Assim escreveu Vitorino Nemésio na sua obra maior, Mau Tempo no Canal, a propósito das Festas do Espírito Santo.

Terra de tradições e festas, como a “corrida à corda” (touros) e as “sanjoaninas”, uma das singularidades da paisagem da ilha Terceira são os “impérios”. Vêmo-los um pouco por todas as ilhas do arquipélago dos Açores, mas na Terceira eles florescem e multiplicam-se. Estão em qualquer esquina, algumas vezes até vários exemplares numa mesma rua. Serão cerca de 68, espalhados um pouco por toda a ilha, e cada localidade tem o seu.

Estes “impérios” são a expressão arquitectónica do culto do Divino Espírito Santo, a mais importante manifestação cultural da ilha Terceira. As suas festas começam no domingo a seguir à Páscoa e seguem até ao dia de Pentecostes (50 dias depois da Páscoa) ou ao domingo da Trindade (primeiro domingo seguinte ao Pentecostes). Mas na Terceira não é raro que estes “impérios” prossigam as suas festividades pelo Verão fora.

O culto do Espírito Santo na Terceira vem já do século XV, tendo sido introduzido na ilha pela Ordem de Cristo. Durante as festas, estes pequenos edifícios, espécie de capelas em versão exuberante e multicolorida com uma panóplia de elementos decorativos onde quase sempre está presente uma coroa a encimar a fachada, abrem as suas portas para seguirem a tradicional e secular distribuição do bodo. Lá dentro, junto ao pequeno altar, com a mesa posta distribui-se pão, carne e vinho. E durante os dias das festas sucedem-se as procissões e desfiles de cortejos. Sagrado e profano lado a lado. Sempre popular. Esta ilha é uma animação.

O mais antigo destes “impérios” é o de São Pedro, datado de 1795, o qual terá escapado ao nosso olhar. Mas grande parte dos “impérios” está junto às estradas, muitos deles até junto a igrejas, pelo que não é difícil vê-los desfilar diante nós. Eis alguns exemplos destes pequenos templos.