Da aldeia de xisto de Água Formosa até aos passadiços do Penedo Furado

Água Formosa é a única povoação do concelho de Vila de Rei integrante da rede das Aldeias de Xisto. E é a mais central, a 10kms quilómetros do centro geodésico de Portugal, ou seja, equidistante norte-sul e este-oeste dos limites da fronteira do nosso rectângulo.

Antes de tentarmos perceber o nome “Água Formosa”, e mais uma vez com a ajuda de uma olhada para o mapa, vemos que a aldeia fica perto do Rio Zêzere transformado em alfubeira de Castelo de Bode e não fica muito longe do Rio Tejo. No entanto, o seu nome vem de uma fonte de água pura alimentada pelas águas das ribeiras de Corga e da Galega, encaixadas num pequeno vale protegido por umas encostas de floresta. A água é um elemento sempre presente e foi ela que aqui fez fixar os primeiros habitantes.

A estrada que nos transporta até Água Formosa pára aqui, quer venhamos de um lado da aldeia quer do outro. Uma espécie de fim do mundo mas em versão boa. Natureza, tranquilidade e tradição é o que nos espera. E estas características andam todas de mão dada. A natureza – paisagem verde, som da água, rochas de quartzito e xisto – é a grande responsável pelo sossego e harmonia que aqui se vive. E ambos levam a que grande parte do edificado da aldeia esteja preservado e de pé, incluindo fornos a lenha, eiras, hortas e até água içada da ribeira desde o alto através de uma corda.

A qualquer passo pelas poucas e breves ruas da aldeia em sobe e desce se percebem os veios de quartzito e xisto a sair da rocha, os grandes alimentadores das pitorescas casinhas, muitas delas assentes directamente na rocha.

São menos de 10 os habitantes permanentes de Água Formosa, um pouco mais os sazonais e muito mais os visitantes. Há até algumas casas de alojamento local para aqui se desfrutar de uma noite bem dormida e uns dias bem passados.

Saindo de Água Formosa, em menos de 15 minutos chegamos à Praia Fluvial de Penedo Furado, depois de termos observado a paisagem do miradouro instalado no cimo do dito. O nome “furado” deve-se à abertura de forma afunilada no rochedo. A praia fluvial é uma das mais procuradas da região, de tal forma que no Verão fica difícil arranjar espaço para sentar na areia ou mergulhar na água transparente e impossível conseguir uma mesa para um piquenique.

Aqui começam uns dos mais recentes passadiços no nosso país. Por enquanto são apenas 532 metros lineares, mas a Câmara Municipal de Vila de Rei pretende alargar o percurso de forma a torná-lo circular. Podem ser poucos metros mas cada um deles merece a pena ser pisado com leveza de forma a melhor se apreciar a paisagem que os rodeia. Rochas selvagens envolvem-nos ao mesmo tempo que um fio de água da Ribeira de Codes corre sem pressa até ao encontro da alfubeira de Castelo de Bode, logo ali ao fundo.

O fim dos passadiços é acompanhado de um pequeno trilho que nos deixa face a face com uma cascata que cai para uma piscina natural. Subimos em sua direcção e no caminho vemos uns santuários erguidos no cimo dos montes-miradouros e mais ao fundo uma série de outras piscinas naturais e quedas de água. Dizem que aqui é o paraíso e pelo menos um casal lá em baixo, quase que escondido na vegetação, fazia por o tomar à letra.

Aldeias de Xisto de Góis

As aldeias pertencentes à rede das Aldeias de Xisto no concelho de Góis estão localizadas em plena Serra da Lousã. Pena, Aigra Velha, Aigra Nova e Comareira são remotas e isoladas, talvez até mais do que as aldeias do concelho da Lousã. No entanto, ao contrário destas, ainda há nelas habitantes permanentes. Poucos, mas há. Só a Pena, por exemplo, segundo o Censo de 2011 tem 14. Pela estrada de asfalto que liga estas aldeias a Góis, sede de concelho, encontramos até velhinhos amparados nas suas bengalas a caminho ou de volta do trabalho. Porque a vida não pará e enquanto se cá está há que cuidar do que é nosso, mesmo que os descendentes só cá queiram vir passar um fim de semana ou outro.

A paisagem deste pedaço da Serra da Lousã também não difere muito da da outra vertente. Para além dos cada vez mais frequentes pinheiros e eucaliptos, ainda se encontram bosques de castanheiros e carvalhos e nas zonas ribeirinhas azereiros e azevinhos. Mas nesta zona dominam de forma arrebatadora os Penedos de Góis, dos pontos mais altos da serra, com 1043 metros. Esta é uma paisagem mais agreste e também o clima junto a eles é menos certo. A mim tocou-me um dia a bater à porta da época do Verão onde o céu não se chegou a ver.

É possível fazer-se um percurso pedestre circular a iniciar em qualquer uma das 4 aldeias de xisto de Góis, através do qual ao longo de 9 kms de trilho se passa por zonas de montanha com tradições e história muito próprias e uma fauna feita de veados, aves de rapina e cegonhas pretas que costumam nidificar nos Penedos.

Não seguimos a penantes, antes de carro, e começámos o nosso itinerário pela Pena, a aldeia de xisto mais desenvolvida de Góis, protegida no alto pelas escarpas quartzíticas dos Penedos de Góis e em baixo pelas águas da Ribeira da Pena.

A sua implantação geográfica é desafiante, ao longo de um promontório, sempre a subir, e quase que as casas se equilibram umas nas outras. Ainda ao longe vemos que estas casas não são todas de xisto, mas quando entramos na aldeia, pouco após passar a ponte sobre a Ribeira e o castanheiro secular que nos dá as boas-vindas, vemos que é o xisto que nos rodeia. Caminhando pelas ruas estreitas apreciamos as casinhas de xisto com portas, paredes e parapeitos de madeira e observamos uns pormenores deliciosos nas fachadas. A maior parte das casas tem dois andares e tradicionalmente no rés-do-chão guardava-se o gado. Ao segundo piso acede-se por uma escada exterior também em xisto.

Crê-se que a povoação da Pena já existisse no século XVI. A origem do seu nome estará em “penna” ou “pinna”, palavra latina para penha – penhasco ou rochedo.

Da Pena até Aigra Velha é um passinho agradável por campos verdes ondulados onde as cabras pastam em sossego. Aigra Velha é pequeníssima, um ponto no mapa envolto numa bela paisagem agrícola e de pastoreio, a mais alta das aldeias de xisto, a 770 metros de altitude. Não se vê aqui ninguém, apenas animais guardados nas casas de xisto que parecem em ruína e abandonadas. O curioso desta aldeia é que possui um sistema defensivo apenas visto nas aldeias medievais mais antigas do nosso país, com uma única rua que atravessa a aldeia e pode ser fechada nas duas extremidades, ficando todas as casas com ligação interna directa entre si. Esta estrutura construtiva permitia uma melhor protecção contra o clima adverso e contra os animais selvagens, como os lobos.

O nome “aigra” significa campo ou quinta e esta Aigra Velha dirá respeito a uma quinta instalada numa posição geográfica cimeira em termos de altitude em relação a uma outra, a Aigra Nova. E assim nos conduzimos mais para baixo, pela serra que vai vendo um vale cravar-se na paisagem, deixando a silhueta dos Penedos de Góis para trás. Entre as Aigras existem bosques de urzes que servirão para produzir o típico mel da Serra da Lousã.

Aigra Nova, então. Aqui recebem-nos uns cães enormes, daqueles que metem respeito. Depois de hesitar em sair do carro constata-se que estes pachorrentos animais não estão ali para guardar o Núcleo de Interpretação Ambiental e a Loja de Xisto da aldeia, antes optam por se deixar estar na modorra a que a natureza local convida. Esta Aigra tem três ruas estreitas onde se duvida que o carro passe. Mas passa, depois de por elas termos caminhado um pouco.

As casas estão aqui bem recuperadas nas suas fachadas em xisto e portas e janelas em madeira e a aldeia é como se fosse um pequeno museu a céu aberto. Para além disso, esta é a única povoação no nosso país onde existe uma Maternidade de Árvores. À sua volta, hortas e lugares de pastagem. O nome “Aigra Nova”, já se sabe, será uma contraposição à outra aigra – quinta – mais cimeira. Ou, então, a palavra aigra estará ligada à palavra “acrum”, com o significado de áspero, amargo ou duro, tudo caracterizações certeiras da vida no lugar.

Saindo de Aigra Nova, a estrada continua a oferecer-nos belas panorâmicas. À entrada de Comareira, a última aldeia deste nosso itinerário, um miradouro só reforça a beleza dessas panorâmicas, obrigando-nos a parar para contemplar o vale. Novamente, uns cães aguardam a nossa visita e a sua modorra continua, mas desta vez estão um bocado pulguentos.

Uma mosquitagem incrível rodeia-nos e um cheiro a animal e bosta há-de nos acompanhar pela rua única da aldeia. Comareira, no cume de um monte, é a mais pequena destas aldeias do xisto e à semelhança de Aigra Velha também parece ao abandono – com excepção dos muitos bichos, cães, gatos, vacas, para além dos mosquitos.

Castelo da Lousã

A Lousã é a serra e as aldeias de xisto, mas é também o seu castelo, segundo José Saramago “paisagisticamente, das mais belas coisas que em Portugal se encontram”. A sua implantação no meio da floresta é preciosa e torna-o ainda mais apelativo. Diz-se ser o “castelo perdido nas árvores” e qualquer vista panorâmica mais afastada confirma-o.

Também conhecido como Castelo de Arouce, fazia parte da linha defensiva do Mondego, rio que até à conquista de Lisboa aos mouros no século XII fazia de fronteira entre o mundo cristão e muçulmano. Terá sido erguido no século anterior, mas uma lenda antiga conta-nos ainda da possibilidade de ter sido construído por um emir para servir de proteção da sua filha e dos seus tesouros após derrotado e expulso de Conimbriga.

Fortaleza pequena, com uma torre de menagem e um curto pátio, à entrada percebemos um alambor, uma base rampeada que tinha como função reforçar a muralha e impedir a escalada dos seus muros. A partir deste ano de 2019 passou a ser possível a visita ao interior do castelo e do alto da sua torre as vistas para a densa vegetação são incríveis. Em baixo vemos o alvo Santuário de Nossa Senhora da Piedade a contrastar com o verde da floresta e o xisto – claro – do castelo.

Descemos do castelo e bem lá em baixo fica a praia fluvial com vista para ele. A beleza natural do lugar é comovente. No entanto, há que não ficar pela vista. A Ribeira de São João corre ponte afora e acompanhando-a enquanto podemos descobrimos mais um recanto de tranquilidade na Serra da Lousã.

As Aldeias de Xisto da Lousã

Junto à vila da Lousã ficam algumas das mais pitorescas aldeias de xisto da serra de mesmo nome. Percorremos as estradas que serpenteiam a serra rodeados de uma vegetação frondosa feita de sobreiros, castanheiros, carvalhos e pinheiros. Pelo caminho, aqui e ali, surge um aglomerado de casas, sempre aninhadas numa encosta em declive, parecendo quase empoleiradas umas nas outras.

Das 5 aldeias de xisto do concelho da Lousã, Casal Novo foi a primeira paragem. Uma entrada mesmo à beira da estrada de asfalto deixa-nos face a face com uma rua sempre a (bom) descer. São edifícios de xisto de um lado e do outro desta rua única empedrada e muito declivosa, uns mais bem conservados do que outros e todos eles rodeados pelo arvoredo. Lá em baixo fica uma eira donde com tempo aberto se descobrem o Castelo da Lousã e o Santuário de Nossa Senhora da Piedade no meio da floresta.

As aldeias da Lousã terão começado a ser ocupadas por volta do século XVII ou XVIII de forma sazonal, na Primavera e no Verão, e as suas gentes dedicavam-se sobretudo à pastorícia. Nos dias de hoje estas aldeias têm muito pouca população com residência habitual, mas a de Casal Novo, que chegou a ter 65 habitantes em 1885, não tem sequer um, sendo as suas habitações todas de residência secundária.

O nome “casal”, já se sabe, significava em português arcaico um aglomerado de duas ou três casas. Já o “novo” do nome desta aldeia indicará que esta era uma povoação mais recente do que as vizinhas Chiqueiro e Talasnal.

Falhei a visita a Chiqueiro, sem que me tenha apercebido muito bem porquê.

Mas a visita a Talasnal é impossível de se falhar, não fosse esta a aldeia mais famosa da Lousã. Da estrada temos logo uma excelente panorâmica que nos mostra com exactidão a forma como a aldeia se espraia na encosta e na serra.

Aqui não há apenas uma rua. São vários os caminhos que nos convidam a descobrir todos os recantos do Talasnal e nos atiram para ruinhas estreitas e sem saída, umas a subir e outras a descer, perdendo-nos no meio daquela natureza construída. Não nos admiremos se dermos de caras com um javali – como me aconteceu – ou um veado ou corço.

Em 1911 o Talasnal tinha 129 habitantes, dois lagares de azeite e até uma escola. Hoje, neste mundo de encantar restam casas de residência secundária (mais uma vez, aqui não há já residentes habituais) feitas de xisto e belamente decoradas com flores e ramos de videira. Umas empoleiram-se nas vizinhas, mas outras conseguem reinar livres de amarras abrindo-se às vistas fabulosas da serra, obrigando ao desfrute relaxado do cenário.

À semelhança do que acontece no Casal Novo, na zona mais baixa do Talasnal consegue ver-se o Castelo da Lousã e um percurso pedestre liga-os, conduzindo-nos até à praia fluvial.

Estas aldeias não foram instaladas muito longe de ribeiras, mas em nenhuma delas o elemento água se faz sentir tão presente como no Candal. À sua entrada, junto à Estrada Nacional (EN) espera-nos a Ribeira do Candal rodeada de casinhas alcandoradas na encosta.

E quando atravessamos a pequena ponte e começamos a subir a aldeia vemos fontes e o som da água vai nos acompanhando. De todas as aldeias de xisto da Lousã, o Candal é a mais acessível, precisamente porque fica à beira de uma EN, daí que seja a mais desenvolvida. Ainda assim, em 1940 eram 201 os seus habitantes permanentes e nos Censos de 2011 0 (zero). As décadas de 50 e 60 viram a sua população emigrar em massa e apenas na década de 70 chegou a electricidade à aldeia. À semelhança do Talasnal, também tinha lagares de azeite e uma escola e o Candal era uma aldeia onde a pastorícia era a actividade principal, com as cabras e as ovelhas a serem guardadas no piso térreo das casas, e os seus habitantes dedicavam-se ainda a uma agricultura de subsistência e ao fabrico de carvão. Mas, tradicionalmente, aqui se trabalharia a pedra. Nesse sentido, o nome “Candal” derivará de “candar” que, por sua vez, derivará de “cantar a pedra”, porque enquanto trabalhavam a pedra os canteiros e os pedreiros iam cantando.

A encosta onde está situada são na verdade uma espécie de duas vertentes cortadas pela Ribeira. Olhando da estrada, a do lado esquerdo é onde fica a maioria do casario. Subimos a bom subir as ruas inclinadas, deambulando pelos caminhos sem saída que vão dar a mais uma casinha de xisto sem reboco ou a um ponto que nos oferece mais uma vista privilegiada. Há aqui, porém, muitos edifícios abandonados e em ruína, o que é ao mesmo tempo uma pena e uma consequência inevitável do avançar do tempo. Ainda assim, o prazer de apreciar as decorações das casas com flores e descobrir umas chaminés singulares, esse, está sempre presente.

Apesar de mais acessível, o Candal acaba por receber menos visitantes – e menos confusão – do que o Talasnal. Foi por isso que no Candal, na sua Loja de Aldeia do Xisto, pude saborear com mais tranquilidade um talasnico, um doce típico de mel e castanha.

A Cerdeira é a aldeia que se segue, onde se chega após um desvio mais adiante na EN. Digamos que a subida de carro pela estrada de asfalto até lá faz suar tanto como se optássemos por seguir a pé. São curvas e mais curvas, tão apertadas e sem visibilidade que nos fazem duvidar que o caminho vá ter a alguma espécie de civilização. Mas vai. E uma daquelas onde a criatividade tem feito por imperar e, com ela, dar nova vida e transformar a aldeia. Cerdeira é a mais criativa e artística das aldeias de xisto.

Mais uma vez, a sua implantação geográfica é soberba, uma daquelas cuja beleza, isolamento e tranquilidade só podem resultar em pura inspiração. Aqui o Homem teve de se esmerar para moldar os elementos naturais a seu belo prazer. Uma longa rua a descer (ou a subir, conforme a perspectiva) até ao vale onde corre uma pequena ribeira, mais uma rua traseira mais curta, escadaria com chão de xisto a condizer com os edifícios e esplanadas perfeitas fazem da Cerdeira o lugar ideal para se montar ateliers e residências artísticas que acolhem gente de todo o mundo e donde a arte há-de brotar. Até um espaço de botânica que usa a planta do xisto como planta aromática.

O nome Cerdeira virá do antigo “sardeira”, a árvore hoje commumente conhecida por cerejeira e que por aqui terá em tempos medrado. Em 1940 os censos registaram o maior número de habitantes que a aldeia já teve, 79. Hoje, mais uma vez, ninguém aqui reside de forma habitual. A este respeito, há até uma história triste que o cinema de João Mário Grilo, no filme de 1992 “O Fim do Mundo”, connosco partilhou: na década de 1970, tinha a aldeia três habitantes, uma discussão pela partilha da água acabou por deixar a aldeia deserta. Constantino matou os outros dois e em 1983 voltou à Cerdeira, após o cumprimento da sua pena, onde, homem bom e respeitado apesar do seu crime, viveu os seus últimos anos de vida partilhando as tradições da aldeia com quem entretanto para aqui viera.

Gondramaz

Gondramaz fica na Serra da Lousã, já concelho de Miranda do Corvo. As aldeias da rede de Aldeias de Xisto, em especial as da Lousã, podem parecer todas iguais. Têm uma implantação fabulosa na paisagem serrana e têm preciosas casinhas de xisto. Gondramaz não foge a isso. É bela nas suas ruas empedradas com xisto e nas fachadas decoradas com flores.

Mas ao contrário das outras aldeias, o seu centro é marcado por uma igrejinha, um dos poucos elementos arquitectónicos rebocado a cal branca que não é de xisto.

Temos ruas e ruinhas, até um Beco do Tintol.

Mas, por entre o casario belamente restaurado, o que Gondramaz tem que a faz tornar ainda mais apelativa e inesquecível – embora fora do radar dos que não são hóspedes – é a piscina no fundo da aldeia cujas águas repousam para o infinito da serra.

O esquisito nome Gondramaz virá, provavelmente, de “villa Gundramaci” ou “quinta de Gundramaco”, nome de origem germânica. Tal facto faz crer que a origem da aldeia poderá estar relacionada com a presença visigótica na região, o que atiraria o povoamento do lugar para o século VI – VIII. Teriam já bom faro, os nossos antepassados, no gosto por se instalar numa paisagem tão tranquila, hoje preenchida por castanheiros, carvalhos e azevinhos

Casal de São Simão

A rede das Aldeias de Xisto é uma iniciativa de um conjunto de aldeias do interior da Região Centro de Portugal que se propõe preservar e promover a paisagem cultural, ao mesmo tempo que procura valorizar o património arquitectónico construído. São 27 aldeias no total, perdidas pela Serra da Lousã, pela Serra do Açor (incluindo a minha Aldeia das Dez), pelo Zêzere e pelo Tejo-Ocreza.

Casal de São Simão é uma destas aldeias, a única representante do concelho de Figueiró dos Vinhos, e fica situada na Serra da Lousã, à semelhança daquelas a quem dedicaremos os próximos dois posts. A paisagem de todas elas é, por isso, muito semelhante, com uma vegetação sempre carregada. O casario também não difere muito, especialmente no que respeita à sua implantação, sempre em declive. Mas os materiais de construção nem sempre são os mesmos. Os de Casal de São Simão, por exemplo, apesar de dita “aldeia de xisto”, são quartzito. E isso deve-se ao facto de geologicamente a aldeia ser guardada por umas escarpas com cristas quartzíticas, as Fragas de São Simão. Da aldeia um caminho pedestre transporta-nos directamente até à parte baixa destas fragas, onde fica uma praia fluvial. Mas já lá iremos. Comecemos por um curto recorrido pela aldeia, porque curta é ela.

À entrada de Casal de São Simão, num ponto mais elevado na paisagem, reina a Ermida de São Simão, do século XV, a mais antiga da região. A aldeia, logo a seguir, é praticamente uma só rua, como o são muitas destas pequenas aldeias de xisto. Casal é uma palavra portuguesa que em português arcaico dizia respeito a um aglomerado de duas ou três casas em meio rural. Não cresceu muito mais do que isso, desde então. E São Simão é o santo protector da aldeia.

As casas estão na sua maioria bem recuperadas, com as fachadas revestidas da pedra do quase dourado quartzito e decoradas com flores. Descemos pela rua empedrada e o desfile de casas típicas continua. A natureza rodeia-nos em socalcos e amiúde vemos vinhas e vemos fontes que fazem com que a água seja aqui um elemento omnipresente.

Não seguimos a pé até às Fragas de São Simão, antes vamos até elas de carro. Antes de começarmos a descer até à Ribeira de Alge paramos no miradouro para vermos a fantástica panorâmica desde o topo, com o Casal como um ponto isolado no meio da natureza e os rochedos agrestes a furar a pacata paisagem. Mais sereno só mesmo lá em baixo, junto à praia fluvial. Seguimos por um caminho onde a água nos acompanha por ambos os lados, de um a da ribeira e do outro a de uma pequena levada. E só então surge o ansiado cenário da fraga que rompe os rochedos, criando uma pequena piscina natural rodeada de belas rochas. A água é absolutamente transparente e os reflexos mágicos.

Uns castelos pela Beira

As regiões de Viseu e da Guarda possuem uma série de castelos que, em tempos, serviram de protecção da raia. Mas se de Espanha, hoje, já nem o dito “nem bom vento, nem bom casamento” assusta, muito menos o faz a defesa da fronteira. Ainda assim, os castelos ali seguem de pé, altivos e orgulhosos da sua história e prontos para fazer as delícias dos mais aventureiros.

Já se viu que sou fã de castelos. Muitos haveria a destacar, mas desta vez optarei por indicar apenas estes três, todos eles classificados como monumento nacional e todos eles doados por D. Flâmula ao Mosteiro de Guimarães no século X. Mas, mais decisivo para esta escolha, todos eles diferentes e verdadeiramente surpreendentes na sua forma.

Moreira de Rei, no concelho de Trancoso, é uma aldeia pequenina aberta a um vale a perder de vista com a silhueta de uns montes ao fundo. Diz que do alto do seu castelo, à noite, se distinguem as luzinhas de 52 povoados, um por cada semana do ano. O castelo de Moreira de Rei tem raízes longínquas, pelo menos desde o século X. Seria então uma estrutura defensiva rudimentar, mais de acompanhamento a uma povoação rural do que de salvaguarda militar. O actual castelo datará do tempo de D. Afonso Henriques e está hoje em ruína. Acontece que essa ruína é fantástica. São rochedos e mais rochedos, todos formosos, que se percebe ainda dar corpo a esta fortificação. É um aproveitamento certeiro dos recursos naturais em todos os aspectos, quer construtivos quer paisagísticos. A muralha resiste a espaços e não há torres, mas ainda assim é uma felicidade deambular pelo curto espaço interior deste castelo.

O castelo de Penedono é provavelmente o mais elegante e bonito castelo português. Na verdade, não se veem muitos castelos com esta forma no nosso território, quase a forma de um castelo de fadas. As suas origens remontarão igualmente ao século X, mas a sua actual configuração será uma reconstrução do século XIV, motivada por desejos de autonomia das gentes de Penedono em relação às rivais de Trancoso. De planta poligonal, este é um castelo-paço com cinco torres quadrangulares coroadas por ameias piramidais. O também conhecido como Castelo do Magriço (Álvaro Gonçalves Coutinho, guerreiro eternizado por Luís de Camões no “Os Lusíadas”) assenta sobre um afloramento granítico e é rodeado por uma baixa barbacã. Do seu pequeno interior obtém-se enormes vistas panorâmicas.

O Castelo de Numão é um castelo bem maior do que os anteriores. Uma constante, porém: as vistas magníficas que dele se alcançam, desta vez para a paisagem do Côa, para mim uma das mais épicas de Portugal. Localizado no concelho de Vila Nova de Foz Côa, a primeira referência a este castelo data igualmente do século X. Instalado no topo de um monte, o seu perímetro muralhado de forma ovalada irregular é extenso, cerca de 250 metros.

Andamos pelo mato rasteiro, damos de caras com uns cavalos a pastar e o seu dono a relaxar perante aquela paisagem imensa, ufano por nos informar ser Numão a terra de Dina Aguiar, vemos até as ruínas de uma igreja românica e uma cisterna e, por fim, arriscamos subir às muralhas e a uma das suas seis torres, dum total de 15 que em tempos existiram. Como se fôssemos um arqueólogo, não apenas em busca da história, mas também de mais um panorama. E que vista, esta.