Póvoa de Varzim

Póvoa de Varzim é sinónimo de mar. E o mar é central a toda a sua história e vida dos seus habitantes. O mar como labor e o mar como lazer.

Instalada numa pequena enseada, mais protegida dos humores da natureza, é terra de pescadores desde há séculos e a chegada do comboio no último quartel do século XIX fez com que passasse a ser também uma estância de veraneio. Hoje é esta última faceta que predomina na Póvoa, deixando às Caxinas, na vizinha Vila do Conde, a vida dura da pesca. Vila do Conde, com a qual a Póvoa de Varzim se confunde, de tal forma que para um não local é quase impossível perceber se está num ou noutro concelho – e para os locais também não deve ser fácil, pois à mesma pergunta sobre se um dado ponto de uma rua era uma ou outra localidade foi dada resposta diferente -, Vila do Conde, dizia, começou por ser dominadora. De 1308, data do seu foral, até 1514, a Póvoa de Varzim esteve na dependência do mosteiro de Santa Clara de Vila do Conde. “Libertada” da rival, a comunidade piscatória foi crescendo e desenvolvendo, estabelecendo-se aí uma importante indústria de construção naval, até se transformar na maior praça de pescado do norte de Portugal. De tal forma que se tornou famosa a figura do “Poveiro”.

“Só tendo a morte quase certa é que o poveiro não vai ao mar. Aqui o homem é acima de tudo pescador. Depende do mar e vive do mar: cria-se no barco e entranha-se de salitre. […] O poveiro ignora tudo fora da sua profissão, mas essa conhece-a como nenhum outro pescador”, escreveu Raul Brandão em “Os Pescadores”. Ramalho Ortigão, por sua vez, descreveu o “poveiro” como “afogado de nascença”, pois estava sempre na água.

Desta pujança económica ligada à pesca e à salga até que a Póvoa se transformasse no mais concorrido lugar para “ir a banhos” do norte do país, à boleia da fama das suas águas ricas em iodo, foi um pulinho. Bem frequentada, a Póvoa viria ainda a tornar-se num centro de jogo: o Casino, inaugurado em 1934, ainda hoje faz parte não só da paisagem arquitectónica da cidade como da vida cultural da região e até do país.

Ligada ao Porto pelo metro, a Póvoa de Varzim é uma cidade moderna. Aquele mar com areal mesmo em frente de prédios à distância de um breve atravessar do alcatrão dá-lhe um ar de Copacabana, ainda que o clima possa nem sempre ser convidativo. Isto é o norte, senhores. Mas mesmo nos dias fechados, assiste-se a uma espécie de eterno lazer, com jovens a jogar vôlei ou futebol na areia.

É a Avenida dos Banhos que percorre a praia urbana da Póvoa desde o Porto de Pesca e da Marina até ao Estádio do Varzim. No denominado Passeio Alegre, espaço pedonal amplo, fica o Casino e o Grande Hotel da Póvoa. E um monumento de homenagem a Cego do Maio. Pescador do século XIX, é o exemplo maior de Poveiro. A sua coragem fê-lo arriscar a sua vida para salvar a dos demais, gente do povo e do mar como ele. Diz-se que foram mais de 80 os seus salvamentos e ele ali continua vigilante, agora imortalizado numa estátua em bronze, de frente para o mar.

As homenagens às gentes do mar não se ficam por esta figura. Se dúvidas houvesse acerca do papel do mar na vida – e morte – dos poveiros, um curto passeio pela zona do Porto de Pesca e da Marina acabariam de imediato com elas. Com a Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição e seus baluartes e a Igreja da Lapa, esta um pouco mais adiante, como testemunhas das agruras que o mar ainda hoje traz, um painel de azulejos da autoria de Fernando Rodrigues mostra-nos cenas da história da Póvoa, evocando e prestando homenagem a figuras públicas e outras anónimas. São pungentes as imagens que retratam as mulheres na areia assistindo ao naufrágio dos seus homens no mar.

Aqui perto fica outro monumento escultórico de homenagem a estas mulheres, viúvas mas também sacrificadas, sobre as quais tão acertadamente escreveu Raul Brandão. É o Monumento à Peixeira.

Seguimos agora pelo coração comercial daPovoa, a Rua da Junqueira, até ao seu centro cívico, a Praça do Almada.

A Junqueira é a principal rua da Póvoa. Secular e das mais antigas ruas pedonais portuguesas (desde 1955), aqui encontramos o comércio tradicional, incluindo a Ourivesaria Gomes, fornecedora dos Duques de Bragança, lado a lado com as marcas modernas.

E edifícios de vários estilos, incluindo alguns exemplos da Belle Époque, decoração em azulejos, varandas de ferro forjado, onde viveram grandes figuras poveiras e uma certa burguesia. Ao redor da Junqueira saem pequenas ruas que ligam a praças, como aquela que acolhe o rejuvenescido Cine Teatro Garrett.

E percorrendo a Junqueira desde a Avenida dos Banhos até ao seu final chegamos à Praça do Almada. Praça Nova que no final do século XVIII veio substituir a antiga Praça Velha, no sentido de ir ao encontro das exigências de desenvolvimento da nova urbe, este local é muito bonito pelo conjunto de edifícios e estruturas que acolhe. Destaque para a arcaria do piso térreo do edifício da Câmara Municipal em estilo neoclássico, com decoração azulejar no piso superior.

Relativamente ampla, a Praça presta-se a lugar de convívio e jardim público. O Coreto com influências da Arte Nova construído em 1904 é um belo elemento decorativo. Mas a Praça do Almada é ainda o lugar onde nasceu Eça de Queirós, mais precisamente na casa com o número 1. Como homenagem, uma escultura / estátua de um dos nossos maiores escritores.

A Póvoa é bem mais do que o acima descrito. Não cessa de crescer e a saída norte da cidade comprova-o, com um relativamente recente núcleo residencial feito de construção em altura bem firmado.

A não perder, perto daqui, uma visita ao Parque da Cidade da Póvoa de Varzim. Instalado numa antiga planície que outrora acomodava um pequeno ribeiro, campos de cultivo e quintas, este equipamento de lazer projectado por Sidónio Pardal (o mesmo do Parque da Cidade do Porto) com cerca de 19 hectares foi inaugurado em 2007.

É um pedaço de natureza paredes meias com a A28 e com vista para os prédios da Póvoa lá bem ao fundo. A sua localização não me pareceu a mais útil para quem queira aqui chegar sem ser de carro, mas uma vez entrados no Parque logo nos esquecemos de tudo. Os seus caminhos bem desenhados, formando colinas aqui e ali, levam-nos a um bonito lago com uns divertidos patos que saem das suas águas para nos vir cumprimentar.

A qualidade de vida da Póvoa de Varzim está ainda em alta pelos passadiços pedonais sobre o extenso areal junto ao mar que se estendem por terras mais a norte e a sul. Desta vez apenas explorei os caminhos que vão do centro da Póvoa até à Praia de Santo André, passando pela pitoresca Aver-o-Mar. E fiquei a pensar porque é que, tirando parte da Linha e de Vila Franca de Xira, não podemos fazer o mesmo na zona metropolitana de Lisboa?

Cascata da Cabreia e Minas do Braçal

No concelho de Sever do Vouga, junto à aldeia de Silva Escura, fica uma das cascatas mais bonitas de Portugal.

A Cascata da Cabreia cai de uma altura de 25 metros e jorra água a bem jorrar. E isto surpreendeu-me porque nos últimos anos estou farta de ver quedas de água consideradas como das mais altas de Portugal sem água. Exemplos? Faia da Água Alta, onde não vi sequer resquícios de água, e Frecha da Mizarela, onde tive dificuldade em encontrar o fio de água.

A Cabreia não. A Cabreia lá estava frondosa e acolhedora e ainda com o bónus de vir acompanhada de uma piscina natural de água fria mas transparente aos seus pés.

Com um acesso fácil de carro e bonito como é, não admira que este lugar não seja um segredo. Um lugar para se tirar fotos da cara-metade em poses várias e de deixar quaisquer casados de fresco com inveja por não ter terem tido a ideia ou a oportunidade de uma recordação como esta.

O Rio Mau, que se torna Bom ao fim de um tempo, e as rochas são os responsáveis por esta beleza que a geografia da natureza nos dá. Vai daí, a água vem caindo em patamares até que no último deles se precipita com estrondo. Uma densa vegetação acompanha e completa este cenário. Já mais calma a água vai depois correndo por um bosque, por entre pedras e sob pontes de madeira, tendo por vizinhas umas pequenas casas em xisto. Uma outra ideia: que tal trazer uma flor de lótus de modelo para mais fotos absurdamente fantásticas? Já farta de tanta inspiração não tive forças para fotografar o casalinho budista que se fazia acompanhar de parafernália vária para as melhores imagens de todo o sempre.

O parque e praia fluvial da Cabreia tem até um parque de merendas formal para que nada falte a um dia bem passado na Cabreia. As suas tranquilidade e frescura fazem lembrar o que podemos igualmente experimentar na Fraga da Pena, na Mata da Margaraça, em Arganil.

O percurso da Cabreia até às Minas do Braçal parece poder ser feito a pé, mas optei por seguir de carro até aqui. Chegados ao final da aldeia de Folharido há que seguir em frente pela estrada local sem asfalto. Não é necessário um 4×4 e com o devido cuidado um veículo normal sobrevive sem mazelas. A vegetação por aqui continua poderosa. 2 quilómetros depois vemos um edifício que pertencia às Minas da Malhada e logo adiante temos então os edifícios abandonados das Minas do Braçal.

Não há ninguém por aqui, com excepção de mim. Nem cara-metade, nem vestido de noiva, nem sequer uma flor de lótus. É nestes momentos que faz falta seguir com alguém, para que a coragem não falhe e não faça hesitar em continuar a busca de mais um lugar desconhecido.

Já disse que a vegetação por aqui é intensa e sabendo-me sozinha qualquer barulho do vento a bater nas folhas das árvores assusta. Penso sempre que tipo de animal me vai sair de um lugar como este. Mas depois começo a ouvir o barulho da água a correr e ganho novo alento, o de descobrir onde pára o rio. Com cautela, claro, e sem nunca me aproximar de qualquer piso donde possa resvalar. Os edifícios das antigas Minas completamente em ruína e tomados pela natureza começam a aparecer e aí sim lamento verdadeiramente não estar acompanhada para explorar o seu interior esventrado. Não que fosse encontrar algum tesouro que o que havia por aqui para levar já foi levado há muito. É o ambiente de mistério que me fascina.

Crê-se que já na época dos romanos o Braçal tenha tido actividade mineira, mas a exploração oficial das Minas do Braçal teve o seu início em 1836 – a mais antiga concessão mineira portuguesa – e apesar de interregnos nos seus trabalhos só foi definitivamente desactivada em 1959. Aqui se explorava sobretudo chumbo, mas também pequenas quantidades de volfrâmio, zinco e prata, e no seu apogeu chegou a empregar quase 1000 trabalhadores. Situada ao longo do Rio Mau, nem sempre é fácil descobrir o seu caminho de água, uma vez que este afluente do Vouga corre canalizado sob a forma de túneis artificiais em muitas partes. Lá está, ouvia-o mas não era só a vegetação densa que me impedia de o ver. Até que depois de passar por diversas infra-estruturas de apoio à antiga mineração, seguindo o barulho da água por um caminho estreito se encontra uns pequenos degraus. Ao descer temos finalmente o rio à nossa vista. É uma paisagem bucólica, uma leve queda de água junto a um moinho que segue até o perdermos de vista para lá de uma ponte em túnel. Este cenário juntamente com as ruínas da Mina só adensa o seu clima e aura especiais.

Como dificilmente se vem ter às Minas do Braçal por acaso, os amantes de aventura e mistério que os lugares abandonados proporcionam façam o favor de marcar este sítio no seu mapa pessoal.

Do Porto a Espinho, de bicicleta

Saindo a pedalar desde o centro do Porto até Espinho são cerca de 30 agradáveis quilómetros. É aconselhável fazer os percursos de bicicleta em Portugal de norte para sul, de forma a aproveitar o vento favorável a empurrar as nossas costas.

Ultrapassada a azáfama turística da Ribeira, atravessamos a Ponte D. Luís I e aguarda-nos a azáfama turística do Cais de Gaia. Os turistas acumulam-se, seja para ver os miúdos a saltar da Ponte para o rio, seja para entrar numa das provas de vinho das várias Caves, seja para parar numa das bancas de feira com produtos locais. Quanto a mim, desmonto da bicicleta e faço aquilo que mais gosto quando por lá: sento-me em frente ao Douro e aprecio o casario tripeiro do outro lado.

Vila Nova de Gaia tem uma extensa área de ciclovia, quase toda ela ora junto ao rio ora junto ao mar. Depois de passarmos sob a Ponte da Arrábida é a popular Afurada que nos recebe. O maior centro piscatório de Gaia é uma povoação cheia de personalidade. Os seus moradores eram já pescadores e vieram sobretudo de terras um pouco mais a sul, como Espinho, Ovar e Murtosa. A pesca da sardinha é rainha, mas nas grelhas à porta das casas e dos restaurantes encontra-se muito mais peixe. Este é, claro está, um bom sítio para uma paragem para almoço à beira rio.

As casas da Afurada são conhecidas pelo seu revestimento a azulejo e em algumas delas podemos ainda ver mosaicos alusivos ao mar. Mas o mais pitoresco do bairro, e ao mesmo tempo uma viagem no tempo, é o seu Lavadouro público. Um tanque municipal, hoje coberto, onde ainda se vai lavar a roupa e estendê-la a céu aberto, a secar livremente ao vento. Uma senhora cumpria a tradição no momento em que lá passámos, enquanto os curiosos como nós se perdiam por entre aquela colecção de roupa.

Após a Afurada segue-se a Reseva Natural do Estuário do Douro, parte da Rede Nacional das Áreas Protegidas. É o habitat de diversas espécies de aves migratórias e na Baía de São Paio dois postos de observação estão ali ao nosso dispor para melhor as apreciarmos.

A Reserva estende-se até ao Cabedelo, curva onde o Douro encontra o Atlântico. O Cabedelo é uma praia com um longo areal com vista para a Foz, na outra margem do Douro, avistando-se até bem ao longe o novo edifício do Terminal de Cruzeiros de Matosinhos.

E o Cabedelo tem como elementos característicos umas rochas, as Pedras Altas, Pedra do Maroiço ou Pedra de Escorregar. Várias lendas estão associadas a este lugar. Uma delas diz-nos que aqui eram praticados rituais de fecundidade e precisamente na Pedra de Escorregar as moças deixavam-se deslizar até ao chão em busca da fertilidade. Outra lenda conta-nos que uma moura que aqui passeava um dia foi enfeitiçada por uma bruxa que a transformou em sereia, tendo determinado que esse feitiço fosse quebrado apenas quando uma virgem lhe servisse pão e leite; acontece que essa aparição do alto da rocha apenas acontecia de 100 e 100 anos. De qualquer forma, não avistámos a sereia. Mas as rochas, essas, continuam a pontuar as pedras das praias que se sucedem à do Cabedelo, como a dos Lavadores.

O clima nortenho não é dos mais propícios para banhos de sol, mas estas rochas servem bem o propósito de defesa do vento fresco, para além de serem bonitas e darem um ar selvagem à costa.

O percurso de bicicleta segue agora junto ao mar, ao invés do rio. Praia de Salgueiros, Canide, Madalena, dos Tesos (!). Existem certamente, e bem, restrições à construção junto ao mar, mas é evidente a geral simplicidade das habitações nesta zona, com uma ou outra excepção, num claro contraste com o edificado mais a norte, nomeadamente pela Foz e Leça da Palmeira.

Após a praia de Valadares o percurso abandona por momentos a companhia do mar e adentra terra. E aí, junto à estrada, espreitamos aquele que é seguramente um dos quintais de vivendas mais curiosos e divertidos do país. E um orgulho para qualquer sportinguista. Em bonecos de gesso lá estão os jogadores do Sporting, devidamente equipados com as listas verde e brancas, e então dedicamo-nos ao passatempo de tentar descobrir quem é quem.

De volta para junto do Atlântico, a praia de Miramar oferece-nos a Capela do Senhor da Pedra, uma das mais emblemáticas imagens da nossa costa. Erguida num rochedo junto ao mar, talvez em 1886 ou em 1763, ficamos também na dúvida se esta capela está na realidade em terra ou no mar. Lugar de culto e romarias, a maior delas acontece no domingo da Santíssima Trindade e prolonga-se até 3ª feira, em três dias de festa. Na passagem de ano, à meia-noite, também é costume muitos juntarem-se aqui para o primeiro mergulho gélido do ano. E o Senhor da Pedra está também associado a lendas e mitos. Desde aqueles que vinham para aqui agarrados à crença de que os seus amores partidos para o Brasil voltariam um dia para os seus braços, até aquelas mulheres que desejosas de casar iam colocar os seus pés na marca semelhante à pegada de boi que está atrás da capela para que os seus desejos viessem a ser concretizados.

Este é um lugar popular. Junto à praia e seu longo areal temos restaurantes, parque recreativo, bancas de feira e um espaço público generoso para que muitos possam vir para aqui passear. Vê- se de tudo, bicicletas, skates, citadinos, aldeões e até um andino a tocar a sua característica flauta. Parece que esta praia foi eleita há pouco tempo uma das mais bonitas do mundo e, se assim é, então todos merecem vir conhecê-la e aproveitá-la.

A Aguda é a praia e povoação que se segue antes de começarmos a avistar Espinho. Já num controlo estrito da hora de partida do comboio para Lisboa, não espreitámos o mar da Aguda, praia de pescadores com tradição. Mas apreciámos e aprovámos com encanto o conjunto de cinco moradias em banda bem junto à ciclovia.

Poucos minutos mais a pedalar por ruas afastadas da praia e chegamos enfim a Espinho. Todos sabemos que esta cidade é uma conhecida zona balnear do norte e que o Casino a coloca no mapa não apenas do turismo mas também do entretenimento e jogo a nível nacional. Mas menos a conhecerão pela Nova Iorque portuguesa, pelo mero facto de as suas ruas serem também designadas por números.

A Rua 19, por exemplo, é a rua pedonal que liga a praça onde está instalada a câmara municipal local ao mar. A cidade parece agradável e muito movimentada. Apesar de não ter achado grande piada à sua frente de mar (aquela grua junto ao molhe norte não ajudou), deixámo-nos ficar por aqui a saborear um gelado no fim desta jornada fácil e prazerosa.

(É possível viajar em Portugal de comboio no Intercidades sem necessidade de desmontar a bicicleta. Em cada carruagem existem dois lugares específicos para a deixar)

De bicicleta de Santa Catarina à Boa Nova, passando pela Foz

Já que estávamos com a bicicleta no Porto, com o objectivo de na volta pedalar daí até Espinho, aproveitámos para no dia anterior nos deslocarmos na cidade também através desse modo suave. E a verdade é que da Rua de Santa Catarina é possível seguir até à Praia da Boa Nova, em Leça da Palmeira, sempre em terreno plano junto ao rio / mar e daí voltar igualmente sem esforço e atravessar o Parque da Cidade, visitar Serralves e a Casa da Música e chegar sãs e salvas à casa partida.

Descendo pela Avenida dos Aliados e seus edifícios de decoração elegante, deixamos a Estação de São Bento e seus deliciosos azulejos para trás e num ápice estamos cá em baixo junto ao Palácio da Bolsa e à Igreja de São Francisco. A partir daqui é sempre a pedalar com a água por companhia. A água do Douro que nos transporta pela Alfândega, Miragaia, Massarelos, Ponte da Arrábida e Cantareira até chegarmos à Foz e passarmos a ter a água do Atlântico como companheira.

E a partir do Jardim do Calém, onde fica o Observatório de Aves do Rio Douro, temos já uma ciclovia ao nosso dispor até à entrada do concelho de Matosinhos.

A Cantareira é um excelente aperitivo da Foz. Terra do Chico Fininho, o freak da Cantareira, é uma antiga zona portuária onde não é preciso entrar no rio para se pescar. Mas, claro, são os barcos que dominam a bela paisagem aberta ao Douro e ao Atlântico, porque a pesca tradicional ainda tem aqui raízes, bem como a reparação de barcos e redes. Do outro lado fica a Afurada, sua parceira piscatória.

O Jardim do Passeio Alegre é muito bonito, com as suas frondosas palmeiras a chamarem a atenção, mas vale a pena passar dentro do jardim e ver as suas esculturas e chafariz.

E já com o muito fotografado Farolim das Felgueiras ali à mão de semear começam então a suceder-se as famosas e concorridas praias da rica Foz (Ourigo, Ingleses e Luz). Ramalho Ortigão, autor de “As Praias de Portugal”, não é esquecido e uma placa lembra-nos que a Foz é a “residência querida da minha (sua) infância”.

Seguimos no caminho sempre plano, ideal para nos concentramos ora na paisagem natural do mar ora nos elementos criados pelo Homem e bem cuidados, como a octogenária Pérgola da Foz e os jardins do Homem do Leme e Montevideo. Não faltam sequer uns assentos artísticos para melhor contemplarmos o cenário.

Mas eis que chegamos ao Castelo do Queijo e num repente se instala uma furiosa neblina. Mal se viam os muitos surfistas ali na Praia de Matosinhos, a gigante Anémona só demos por ela por que a rasámos e o novo edifício do Terminal de Cruzeiros perdeu-se na totalidade naquele nevoeiro cerrado. Pudemos, no entanto, pisar as areias desta praia, típica pela sua paisagem industrial das infra-estruturas do Porto de Leixões. E observar compungidas a Escultura Tragédia no Mar. Esta é uma homenagem aos 152 pescadores, e suas viúvas e órfãos, que perderam a vida no maior naufrágio da costa portuguesa, que aconteceu nesta região em 1947.

E já que estávamos em Matosinhos pela hora do almoço, nada melhor do que uma paragem num dos seus muitos restaurantes na rua junto à Docapesca. Peixe fresco e doses generosas é o que nos espera.

Atravessado o Rio Leça chegamos a Leça da Palmeira.

A Avenida Marginal de Leça tem o traço de Álvaro Siza Vieira, um projecto de 2005. Zona pedonal por excelência, onde as pessoas e bicicletas se confundem numa área larga, por ela afora temos o prazer de visitar ou rever dois dos primeiros projectos de Siza, a Piscina das Marés (1966) e a Casa de Chá da Boa Nova (1963), ambos classificados como Monumento Nacional.

O complexo da Piscina das Marés funciona de acordo com a época balnear. Fora desta época a entrada não é paga, o bar mantém-se aberto, mas não há vigilância dos banhos das duas piscinas e de mar. As piscinas são de água salgada e confundem-se com as rochas à beira mar, numa integração preciosa com a paisagem natural. O próprio acesso ao espaço desde a Avenida não forma nenhuma ruptura com a vista do horizonte, já que é feito por uma rampa que nos deixa junto ao nível dos vestiários, das piscinas e do mar.

A conexão plena entre arquitectura e natureza é igualmente soberba no projecto da Casa de Chá da Boa Nova e o desígnio de Siza de “construir na paisagem” terá tido aqui o seu maior alcance. Tendo crescido na zona e sendo esta bastante familiar ao arquitecto, Siza integrou de forma majestosa o edifício na vegetação e nas formações rochosas aí existentes, tendo igualmente analisado o clima e as marés locais. Chá e neblina condizem, mas o restaurante Boa Nova que o chef Rui Paula dirige desde 2014 e que o levou a alcançar uma Estrela Michelin também não destoa nada do ambiente. O edifício foi recuperado e o mobiliário interior reproduzido conforme os originais desenhados pelo próprio Siza. Desta vez não entrámos, mas não é necessário fazê-lo para perceber que as salas de refeições estão envolvidas nas rochas e apenas o suficientemente enterradas nelas para que deixe as vistas de janelas livres para contemplar o mar. Podemos percorrer as rochas no exterior para melhor apreciar os planos da implantação deste edifício, mesmo se isso implique alguma intromissão nas refeições e trabalho de quem está no interior. Os preciosos detalhes deste projecto, à semelhança do da Piscina das Marés, estão igualmente no acesso ao edifício. A ele chegamos discretamente depois de atravessado um pequeno parque de estacionamento e ao subir dois patamares de escadas e só aí nos apercebemos da obra-prima: uma casa branca com telhado de madeira que quase beija as rochas. Um momento de delicadeza junto a uma paisagem bravia.

A envolvente da Casa de Chá são as rochas e o mar, já se disse. Mas próximos temos ainda a Capela da Boa Nova e o Farol da Boa Nova, uma estrutura de 46 metros que faz deste o segundo maior farol da nossa costa.

Chegadas a este ponto, a Praia da Boa Nova, Matosinhos continua por aí adiante, mas estava na hora de regressar ao Porto. Desta vez já não pela Foz e natureza marítima e fluvial, mas antes por aquela criada pelo Homem. O Parque da Cidade e os Jardins de Serralves são momentos de recato no Porto. A Casa da Arquitectura, o Museu de Arte Contemporânea de Serralves e a Casa da Música são ícones de um novo Porto moderno.

Anish Kapoor no Parque de Serralves

A desculpa para voltarmos a Serralves foi a ocupação dos seus jardins por Anish Kapoor. À boleia aproveitámos ainda para ver a exposição “A Colecção Sonnabend: meio século de arte europeia e americana. Parte II” e as Fotografias de Robert Mapplethorpe. Sobre a polémica destas últimas direi apenas que a fotografia de Jeff Koons com a sua (ex) Cicciolina, parte da exposição da Colecção Sonnabend, é tão forte e explícita como as de Mapplethorpe.

Prosseguindo com Kapoor, a exposição do artista indo-britânico é um excelente pretexto para um passeio pelo Parque de Serralves. Certo que uma das salas do Museu está também ocupada com maquetas das suas obras, daí que a designação da exposição seja “Anish Kapoor: Obras, Pensamentos, Experiências”. Mas é pelos 18 hectares dos jardins do parque que estão espalhadas quatro das suas obras escultóricas.

Logo à entrada de Serralves apresenta-se-nos a obra “Corpo seccional preparando-se para uma singularidade monádica”. Seja lá o que isso for. E observando o enorme cubo vermelho e preto com um buraco no meio não se fica a perceber muito mais (será uma vagina? De assexuada é que a Fundação não pode ser acusada). Mas a estética e o contraste das sua cores vivas com o verde da relva do jardim e o branco do museu está muito bem conseguida. Aliás, Kapoor assume mesmo que a localização desta obra foi propositada para haver um diálogo com o edifício projectado por Álvaro Siza Vieira.

Seguimos pela Alameda dos Liquidâmbares, passando pela Colher de Jardineiro que se tornou uma das imagem de marca de Serralves, obra de nome “Plantoir” de Claes Oldenburg e Coosje van Bruggen. Mas esta é apenas uma das várias esculturas com casa no Parque.

E em breve chegamos à Casa de Serralves, um dos melhores exemplos de arquitectura art déco no nosso país. Obra do arquitecto José Marques da Silva, foi concluída em 1940 a mando do 2º Conde de Vizela que mais tarde alienou a propriedade ao Conde de Riba de Ave. Daí que os vizinhos de Serralves ainda a conheçam como a Casa do Conde. Esta era, pois, uma propriedade privada e burguesa. O 2º Conde de Vizela havia herdado a Quinta do Lordelo e ficado com a Quinta do Mata Sete por permuta, as quais juntamente com os jardins da Casa de Serralves e o Museu de Arte Contemporânea (1996) formam hoje a totalidade do Parque. A história da Fundação de Serralves entra por aqui adentro quando após 1974 a cidade do Porto começa a sentir imprescindível a criação de um espaço onde se expusesse a arte da época e desse voz à cena artística local. O Estado português adquiriu assim em 1986 a Casa de Serralves e jardins – elementos inequivocamente modernistas no Porto de então – e quintas envolventes e em 1989 é criada a Fundação. Era no edifício rosa da Casa de Serralves que tinham lugar as exposições da Fundação até à construção do edifício branco de Siza, hoje Museu de Arte Contemporânea, inaugurado em 1999.

Ou seja, o que temos hoje em Serralves, parque e museu, é no fundo um compromisso do Estado com a sociedade e da paisagem com o património.

Voltando ao passeio pelo Parque, o belíssimo jardim formal que se estende pela Casa abaixo é um projecto do arquitecto Jacques Gréber. Em patamares, rematado por uma fonte, tudo aqui é perfeito e bem cuidado. Mais um exemplo da harmonia do Parque.

Mais abaixo, ligado por uma escadaria, surgem os jardins românticos, um lago, bosques e uma extensa quinta com um prado que acolhe uma horta pedagógica. A diversidade arbórea e arbustiva é enorme, com cerca de 8000 espécies presentes, entre autóctones e exóticas.

É nesta zona mais baixa do Parque, por entre o lago, a vegetação cerrada e o prado, que descobrimos outra obra de Kapoor. “Linguagem das Aves”, feita este ano especialmente para Serralves, quase que passava despercebida. Tirando partido da também variedade de espécies de aves, esta escultura é como que um pedestal que serve de posto para chamar e falar com os pássaros. Esta forma escultórica foi inspirada no minarete da Grande Mesquita de Samarra, no Iraque – Anish Kapoor é filho de mãe judia iraquiana e de pai hindu – e a ideia de chamamento de pássaros nas memórias de um chamador de corvos na sua Índia natal.

Percorrendo mais uma parte de densa vegetação vamos ter ao edifício do Museu. Mais uma brilhante integração de património edificado com a paisagem natural da autoria de Siza. Nestes mantos verdes ajardinados espreitamos para as salas de exposição, abertas deliberadamente ao exterior pelos largos cortes das janelas.

E aqui perto fica o belo Roseiral e a sua elegante Pérgola. Pela sua colunata somos transportados até ao Jardim do Relógio Sol.

É aqui que encontramos a nossa terceira obra de Kapoor, “Espelho do Céu”. É um espelho côncavo em aço inoxidável que reflecte tudo à sua volta. O tudo à sua volta é maioritariamente a natureza, as árvores e o céu, um passarinho que por ali voe. Ou um avião. Ou as pessoas que por aqui deambulem ou se sentem num dos bancos deste jardim.

Kapoor quis expor esta obra num espaço mais intimista e agradou-lhe que este espaço estivesse rodeado de árvores e, assim, o espelho como que pudesse ser visto como uma pintura. Ou até como se funcionasse como o lago no centro de um jardim que tudo reflecte.

Depois deste momento de simplicidade de ideias, gestos e recursos, faltava-nos descobrir a quarta e última obra de Kapoor. Seria aquela que mais deu que falar nas notícias, por um visitante nela ter caído. “Descida para o Limbo”, de 1992, é um pequeno pavilhão instalado na Clareira das Azinheiras, paredes meias com parque de estacionamento interior do edifício do Museu. Temos de mostrar a nossa identificação à entrada e assinar um termo de responsabilidade para entrar no dito pavilhão. Kapoor propõe-se aqui a falar sobre o nada. E nada, a não ser um buraco, é o que nos espera no interior deste pavilhão. Um buraco assustador que não dá vontade de espreitar de perto. Dá vontade, sim, de tentar perceber a uma certa distância se este buraco é mesmo um buraco ou apenas um círculo pintado no chão. O tal visitante das notícias provou que é mesmo um buraco. E então outro desafio se coloca: este buraco está pintado de preto? Ou é um azul tão intenso que parece preto? A ideia aqui é discutir-se as várias percepções e o vazio e a possibilidade de um vazio ser ao mesmo tempo um não-espaço e um espaço infinito.

Ai, a arte contemporânea. Fosse tudo tão simples como as flores, os cabedais e as pilas do Mapplethorpe. Ainda bem que as suas fotografias também estavam mesmo ali ao lado em exposição.

Caminha

Caminha é a última povoação na linha de defesa do rio Minho. Ou a primeira, para quem entra desde o Atlântico.

É aqui que o Minho desagua no Oceano Atlântico e é aqui que o Coura desagua no Minho. Um estuário largo onde a água impera, mas também o Monte de Santa Tecla já em terras de Espanha, mas apenas à distância de um breve olhar.

Lugar apetecível, este.

Da antiga fortaleza de Caminha, que juntamente com a de Vila Nova de Cerveira, de Valença e de Monção, bem como outros pontos fortificados por esta linha fluvial do Minho, faziam de guardiões da fronteira noroeste de Portugal restam panos de muralha e alguns baluartes e guaritas.

As muralhas datam de diversos momentos ao longo da nossa história: as mais antigas do século XIII, uma segunda linha de muralhas do século XIV e os baluartes e torreões do século XVII. As muralhas que restam estão sobretudo na cabeça de terra de Caminha que vê o Coura a encontrar-se com o Minho. Para lá das muralhas, um espaço de lazer com passeios largos e áreas verdes com vistas privilegiadas abre-se generoso.

A par de Monção, Caminha é a maior das povoações à beira Minho. E, infelizmente, à semelhança de Monção são muitos os edifícios no centro histórico de Caminha a necessitar de reabilitação. As ruas direitas do antigo burgo medieval da terra que viu Sidónio Pais nascer e que numa das suas paredes ostenta hoje um grafitti do ex-cabeleireiro mais famoso do país, António Variações, são fáceis de percorrer mas não deixamos de nos questionar o porquê de tanto abandono.

A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção, pelo contrário, mantém toda a sua beleza e formosura após as obras de requalificação já neste século. Datada do século XV, são visíveis os vários estilos na sua fachada. Gótico, renascentista e os rendilhados que denunciam o manuelino. Destaque para a sua rosácea e logo acima a figura de um carneiro que sustenta a cruz desta igreja.

Do lado contrário do centro histórico fica a Torre do Relógio, antiga Torre de Menagem e porta de saída ou entrada da velha Caminha, conforme a direcção que tomemos. Parte da antiga e primeira muralha, a torre antes designada Porta de Viana, por ser daqui que se saia em direcção a Viana do Castelo, resiste ao tempo como o único torreão do Castelo de Caminha. O relógio que hoje lhe dá nome foi acrescentado em 1673 e por baixo do escudo de Portugal vemos uma imagem em pedra da Virgem da Conceicao mandada lá colocar por D. João IV após a Restauração. Hoje a Torre do Relógio é o Núcleo Museológico do Centro Histórico de Caminha, onde se pode testemunhar a história da vila ao longo dos séculos.

Da Porta abre-se um largo terreiro, hoje o coração de Caminha. Pitoresco e acolhedor, no centro encontramos o Chafariz em estilo renascentista do século XVI da autoria do mestre vienense João Lopes, o Velho, uma combinação de elementos geométricos e figuras mitológicas.

Voltando à água, elemento dominante em Caminha, a Mata Nacional do Camarido serve de transição do rio ao mar. Espaço extenso e denso, depois de atravessado este pinhal mandado plantar por D. Dinis, damos de caras com o Forte da Ínsua, um dos símbolos de Caminha.

Instalado numa ilhota perto da costa já no Atlântico e à entrada do Rio Minho, é possível a ida de barco até às ruínas do Forte para visita ou, para os locais, para a apanha do mexilhão e caranguejo. Inicialmente foi ocupado pelos franciscanos que aí construíram o Convento de Santa Maria da Ínsua no século XIV. Mais tarde, no século XVII, diz-se que com a própria colaboração dos franciscanos foi construída a fortaleza, hoje em ruínas, num lugar que não precisa de justificação do porquê de ser estratégico.

E Caminha é ainda o lugar ideal para se vir por aí abaixo, percorrendo a Costa Atlântica portuguesa, desde esta Ínsua, no Moledo, até ao Cabo de São Vicente, no Algarve. Projecto ambicioso para se ir fazendo aos passinhos.

Vila Nova de Cerveira

Este texto irá começar pelas conclusões.

Vila Nova de Cerveira é provavelmente a mais encantadora povoação à beira Minho e o Forte de Lovelhe o lugar mais incrível para se visitar.

Começando pelo Forte, instalado à beira rio antes de entrarmos em Vila Nova de Cerveira. Construído entre 1660 e 1662, um período em que se vivia a Guerra da Restauração, o seu propósito era o de reforçar a defesa de Vila Nova de Cerveira e impedir a passagem do inimigo nesta parte do rio. Do outro lado do rio está Espanha, já se sabe, com quem travávamos na época a dita guerra. Acontece que o Forte de Lovelhe acabou por desempenhar um papel mais decisivo num outro episódio da história de Portugal, ao impedir o avanço das tropas do General Soult aquando da Segunda Invasão Francesa em 1809.

Não é no entanto o seu papel na história que causou o meu arrebatamento por este Forte, antes a sua situação de abandono. Sim, o abandono pode deslumbrar e entusiasmar. Esta fortaleza abaluartada com a forma de um trapézio está inteiramente tomada pela vegetação. Mais uns tempos sem limpeza do terreno e os baluartes deixarão de se perceber. Nunca a expressão “envolvido pela natureza” foi tão literal e certeira. De um lado o rio e do outro a montanha. Pelo meio um pequeno forte abandonado e tomado pela vegetação indomável. É o ambiente de aventura, como se explorássemos um lugar histórico mas esquecido pelo Homem, que nos faz render. Julgava-me sozinha por aqui, circundando os muros da fortaleza rodeada de verde por todo o lado, quando avisto dois cães. Susto. Mas logo percebi que estavam acompanhados do seu dono e que este sentiu o mesmo que eu: como se a sua fortaleza, o seu lugar de recato, estivesse a ser invadido. O ambiente sublime chegou, todavia, para os dois.

O que faz do Forte de Lovelhe um lugar tão especial, já se viu, é o seu estado de abandono e as paisagens que o secundam.

O Monte Cristo, o ponto mais alto do concelho, começa a ganhar altura desde aqui e não apenas do Forte de Lovelhe podemos distinguir a figura do cervo que é símbolo da vila quase a tocar o céu. O nome de Vila Nova de Cerveira tem a sua origem, pois, nos cervos que pastavam nas encostas férteis da região.

Fundada por D. Dinis em 1320, este rei logo mandou construir um castelo junto ao rio, mais uma das fortalezas ao longo do rio Minho que constituía a linha de defesa dos ataques espanhóis.

O pequeno Castelo com a forma oval tem dentro das suas muralhas algumas infra-estruturas em estado de abandono. A pousada que ocupava o seu espaço na quase totalidade está definitivamente encerrada e planos para a reconversão e utilização do Castelo aguardam financiamento no âmbito do projecto Revive.

É extra-muralhas que a povoação de Vila Nova de Cerveira se mostra hoje viva. Desde logo, aos sábados é montada uma feira enorme junto às muralhas e sobranceira ao rio. O aglomerado de abarracamento não suscitou nem a minha simpatia estética nem curiosidade pelos seus produtos em venda.

Mas logo à entrada do largo que é o coração de Vila Nova de Cerveira – e onde encontramos a Porta da Vila de entrada no Castelo – vemos alguns elementos interessantes que nos dão as boas vindas.

A Fonte da Vila era onde os habitantes da vila vinham abastecer de água até esta ter passado a ser canalizada. Provavelmente datada do século XVII, veem-se no topo desta fonte as armas reais encimadas por uma coroa e uma cruz e em baixo três bicas em forma de carranca. A Casa verde com a fachada preenchida de azulejos dessa cor fica nas suas traseiras.

E assim entramos no centro do movimentado terreiro de Vila Nova de Cerveira. Aí se ergue uma pirâmide, a Memória, homenagem aos defensores do Minho durante a Guerra Peninsular. Lugar para se deixar estar, aqui fica também a Igreja Matriz e sua fachada barroca.

Uma rua estreita que cerca as muralhas do castelo, sem que o percebamos de imediato, mostra-nos o Solar dos Castros (hoje Biblioteca Municipal), edifício do século XVII com brasão distinto com dois leões a fazer de tenentes, lojas de comércio e uns edifícios restaurados onde se destacam as suas varandas e decoração mimosa.

Antes de atravessarmos a também estreita linha do comboio observamos o panorama desde o Largo de São Sebastião, onde fica a outra porta do Castelo, a chamada Porta da Traição.

A zona ribeirinha de lazer que nos deixa junto ao Minho é um dos ex-libris de Vila Nova de Cerveira. Os pequenos barcos ancorados transmitem todo o sentimento de tranquilidade que aqui se vive.

Mas é do alto da Serra da Gávea que se percebe em absoluto toda a grandeza desta tranquilidade. Não chegámos até ao topo do Monte do Crasto onde fica a famosa escultura do Cervo, da autoria de José Rodrigues. Ficámo-nos pelo lugar da Capela da Senhora da Encarnação, logo abaixo. Daqui contemplamos o rio Minho a rasgar o verde infinito, deixando umas ilhas pelo meio – a Ilha da Boega, maior, e a Ilha dos Amores, mais pequena – numa paisagem recortada por umas erupções de montes na planura junto à água que corre tranquila alheia a toda esta majestade.