Escaroupim

Escaroupim é uma aldeia piscatória à beira Tejo.

Poderia ser como qualquer outra, mas o que esta tem de diferente para além da localização geográfica fantástica é o facto de aliar a isso a cultura e a gastronomia.

Situada no concelho de Salvaterra de Magos, por entre os campos agrícolas verdejantes e as águas do rio, nos anos 30 do século passado as gentes de Vieira de Leiria começaram a deslocar-se para este pedaço da Lezíria nos meses de Inverno. Era a pesca que os movia e no Verão voltavam para a sua terra. Pesca de rio no Inverno, pesca de Mar no Verão. Eram os “nómadas do rio”, como lhes chamou Alves Redol.

O cais de Escaroupim está ainda assente nas tradicionais palafitas, embora melhoradas e restauradas. O mesmo para as típicas casinhas avieiras, pequenas construções em madeira sobre estacas para se defenderem das cheias do Tejo. São coloridas, o que dá ainda mais alegria ao lugar. Estas casas são hoje exemplos do que era a vida noutros tempos e foram transformadas em espaços museológicos pela Câmara Municipal.

Um pouco mais afastadas do rio ficam umas outras, também pequenas casas de pescadores com características semelhantes, que ainda servem de habitação.

Voltando à beira do rio, até se pode entrar na água para nadar, mas há que ter algum cuidado com os barcos aí atracados ou de passagem. Daqui partem alguns passeios de barco pelo Tejo que vão à descoberta da sua natureza e beleza.

E pode fazer-se um piquenique na pequena mata junto ao Parque de Campismo. Ou optar-se pelo restaurante O Escaroupim. A vista desde aqui já não surpreende, uma vez que antes de entrarmos já tínhamos comprovado toda a beleza e tranquilidade da sua envolvente através de um curto passeio. E a comida, depois de provada, foi mais do que aprovada. Pratos de caça e enguias (e sável, noutra época) são o que nos espera, para além de um sem número de doces caseiros.

Os Passadiços de Esgueira

“A alma desta terra é na realidade a sua água. A ria, como o Nilo, é quási uma divindade. Só ela gera e produz.” – Raul Brandão, Os Pescadores

Acordámos na Torreira e pedalámos até São Jacinto, sempre junto ao amanhecer dormente da Ria, com os flamingos ainda a espreguiçarem-se. Como pedalar nas dunas não é para meninas, de São Jacinto retivemos apenas uma espreitadela à sua praia e logo apanhámos o barco até à Gafanha para daí pedalarmos até Aveiro.

Após um breve almoço num dos restaurantes do colorido Canal da Praça do Peixe partimos do Cais de São Roque rumo ao Cais de Esgueira, a menos de 2 quilómetros, ponto inicial oficial dos novos Passadiços de Aveiro. Estes passadiços, mais conhecidos pelos Passadiços de Esgueira, foram inaugurados no Verão de 2018 e são sete quilómetros lineares quase sempre sobre estacas de madeira assentes sobre a Ria até Vilarinho de Cacia.

A paisagem é sempre fenomenal, uma natureza em estado bruto feita de canais, esteiros, charcos, sapal, zonas tão baixas que as mais das vezes os barcos atracados não flutuam, antes estão enterrados na Ria, talvez para a melhor sentir, como que dizendo “este pedaço de paraíso é nosso”.

O percurso é muito fácil e extremamente prazeroso. No caminho temos bancos para descansar ou fazer um piquenique. E por vezes saímos da madeira para pisar a terra adentro na floresta. Mas logo voltamos para bem perto da Ria.

O final destes passadiços, enquanto não forem ligados aos trilhos do concelho de Estarreja, acontece no cais de Vilarinho. Apesar do estaleiro de obras montado por altura da nossa passagem, este é um lugar incrivelmente tranquilo e é aqui que o rio Vouga desagua na Ria. É curioso pensar que há pouco mais de 1000 anos a Ria de Aveiro não existia e os rios desaguavam então directamente no mar, ao invés de primeiro se recrearem neste cordão lagunar paralelo à costa.

Retornando o caminho, repetimos as vistas mas tudo parece sempre novo e a beleza não cansa nunca.

Os barcos que aqui repousam são um espectáculo à parte, compondo de forma perfeita o cenário. Nesta foto vemos inscrita na madeira a expressão “andar à rola” e muitas outras nos aparecem no caminho, para que à experiência pela natureza se junte também umas pitadas da cultura regional.

Mas a natureza, mais especificamente a sua biodiversidade, é a grande protagonista. São dezenas de milhar as aves migratórias que para aqui vêm nidificar, fazendo deste um lugar privilegiado para se observar aves. Deviam estar escondidas à nossa passagem, mas já estávamos de barrigudinha cheia com tanta beleza.

No entanto, de volta ao centro de Aveiro ainda lá cabiam mais uns doces de ovos moles e uma tripa, para repor devidamente as energias dos 136 quilómetros em dois dias a pedalar de bicicleta entre Espinho e Aveiro.

Na Ria de Aveiro pelos trilhos da Murtosa

“A laguna (…) iria formar um acidente único, sem parceiro na Península. Tudo isto se passou nos tempos da formação da nacionalidade. Podemos dizer com orgulho que a Ria de Aveiro e Portugal se formaram ao mesmo tempo. Nasceram simultaneamente por alturas do século XII e poderíamos dizer, fantasiando um pouco, que, enquanto os nossos primeiros Reis e os seus homens iam dilatando as terras peninsulares, a Mãe-Natura ia conquistando ao mar esta jóia prodigiosa que generosamente viria ofertar às nossas terras alavarienses”

Orlando Ribeiro, Origens da Ria de Aveiro

Da Praia de Esmoriz seguimos até à Murtosa. Passámos pelas praias e povoações da Cortegaça e Furadouro (uma das “praias obscuras” de Ramalho Ortigão) ambas, a par da Torreira, com características semelhantes: uma larga avenida que vai dar até ao mar ladeada com edifícios de todo o género. Um ou dois pisos, com ou sem azulejos, varandas ou varadins, uns em art nouveau, outros modernistas, outros até contemporâneos. Uma amálgama total não apenas de épocas construtivas, mas sobretudo de gostos.

Até se chegar ao Canal de Ovar, já a cheirar a Ria de Aveiro, a Cicloria leva-nos a pedalar uma vintena de quilómetros por uma estrada no meio do pinhal, afastada do mar. Não sentimos o odor a maresia, mas o cheiro dos pinheiros não lhe fica atrás em sentimento. Chegados ao dito Canal de Ovar a água passa a acompanhar-nos à esquerda e na estrada chamam-nos a atenção os barquinhos típicos aí atracados e as bancas com as senhoras a vender fruta e legumes. Por ocasião da povoação Quintas do Norte atravessamos a ponte construída estrategicamente no ponto mais curto da Ria e iniciamos finalmente o passeio planeado pelos trilhos da Ria na Murtosa.

O projecto Murtosa Ciclável aproveitou caminhos rurais e ribeirinhos que já existiam e é por eles que seguimos a pedalar partindo à descoberta do coração da Ria. A Ria que Raul Brandão dizia ser “lago e mar ao mesmo tempo”.

A Ria de Aveiro é um acidente geográfico ocorrido há cerca de 1000 anos que resultou do recuo do mar, estendendo-se por cerca de 45 kms desde Ovar a Mira. Aqui desaguam os rios Vouga, Antuã, Boco e Fontão. Em 1808 foi aberto um canal artificial entre as povoações da Barra e de São Jacinto de forma a que a Ria comunicasse com o mar. E é esta ligação estreita, com a inevitável junção das águas, que faz deste espaço um habitat natural riquíssimo, um dos mais importantes ecossistemas húmidos da Europa, com uma enorme diversidade de flora e fauna no estuário e na laguna.

A natureza e as paisagens são grandiosas. De uma serenidade tocante. Os flamingos com as suas elegantes patas assustam-se, sem razão, à nossa passagem e logo abrem e fecham as suas asas vigorosamente, pintalgando de rosa o cenário com fundo azul. Esta foi a primeira imagem que nos tocou ao iniciar o trilho da Bestida e não mais a esqueceremos. Adoptámos os flamingos como mascotes do nosso passeio e sempre que os víamos parávamos e deixávamo-nos estar a contemplá-los em silêncio, para não voltar a perturbá-los.

Mais adiante, a Ria não apenas como espaço natural mas também como espaço de lazer. Uns barcos atracados no cais, outros soltos numa pequena enseada de areia e um papagaio no ar a puxar um homem sobre uma prancha. Estas águas acompanhadas do vento local são ideais para o kitesurf, entre muitos outros desportos náuticos.

Não temos um barco e por isso continuamos a pedalar, agora por um trilho ladeado por canas de feno e milho. Os terrenos da Ria são férteis e em tempos viam-se muitas terras cultivadas não apenas com milho, mas também trigo, feijão, chicória, couves e outras. Inclusivamente, algumas das ilhas da Ria eram usadas para a criação de gado e produção de sal. Hoje já nada disso se passa e é mais fácil ver uma ilha à venda do que gente a trabalhar a terra.

A Ribeira de Pardelhas é um dos lugares mais bonitos deste percurso. Deixamos de seguir junto à Ria por breves 2 kms para trocá-la pela Ribeira onde uns antigos armazéns deram lugar ao Centro de Educação Ambiental e à Associação dos Amigos da Ria e do Barco Moliceiro – com os incontornáveis barcos típicos atracados no cais -, para além de um parque de merendas e de um bar.

Já de volta à beira da Ria, a paragem seguinte é no Cais do Bico, o maior e o mais frequentado da Murtosa, uma vez que é também o mais acessível. Tem até uma praia de areia. Este foi em tempos um lugar de descarga de moliço, sal e materiais de construção, e até chegou a funcionar aqui um estaleiro naval. Nos dias de hoje continua a ser um lugar de poiso e apoio da comunidade piscatória local, mas agora num espaço modernizado.

Não muito distante encontramos novo cais, a Cova do Chegado.

Continuamos a pedalar até ao Cais da Cambeia e daí em diante entramos numa zona de esteiro, cheia de braços estreitos com vegetação rasteira na água. Não muito longe desta zona desagua o Rio Antuã.

Uns curtos passadiços levam-nos ao último cais do passeio, o Cais da Ribeira Nova. A natureza continua a imperar, mas vai sendo deixada para trás à medida que seguimos até ao centro da Murtosa onde fazemos a última paragem antes do término da jornada na Torreira. Da ponte de Varela até ao Cais da Ribeira Nova são à volta de belos 17 kms.

O Museu Municipal da Comur está instalado na antiga fábrica conserveira que marcou toda uma vida da comunidade local e impulsionou a economia da região. Foram as características específicas da Murtosa e da Ria que deram origem a esta fábrica, a Fábrica de Conservas da Murtosa, criada em 1942, mas foi sobretudo o período da II Grande Guerra Mundial, onde a procura por alimentos era imensa, o grande impulsionador do negócio. No museu aprendemos sobre todo o processo conserveiro, desde a chegada do peixe até à expedição das conservas. São diversas espécies de peixe, como a enguia – a imagem de marca da Comur -, mas também berbigão, mexilhão, carapau, tainha, carpa, truta, polvo, choco, lula, bacalhau e atum. Numa época como a de hoje em que o turismo – interno e externo – trouxe de volta antigas formas de saber-fazer e a (re)comercialização de produtos que pareciam esquecidos, é possível adquirir as coloridas latinhas de conservas da Comur em muitas lojas de conservas, incluindo no Museu da Comur e no centro de Aveiro.

Os Passadiços da Barrinha / Lagoa de Paramos

“Estava na carreira de tiro de Esmoriz. Não via o mar, mas sentia-o no peito dilatado. Perto de mim uma mouta de pinheiros novos; e as agulhas escorriam molhadas de fresco. Uma nora, um choupo. Ao longe barracas de madeira agrupadas – Páramos. Uma gaivota pairando sôbre um charco… Para o outro lado campos lavradios com milho rasteiro que sabe a ar salgado, casas de lavradores perdidas entre as sebes, de telhados muito baixos onde secam abóboras amarelas.”

Raul Brandão, Os Pescadores

Conhecidos por ambos os nomes, Passadiços da Barrinha ou Passadiços da Lagoa de Paramos, este pedaço de natureza em Esmoriz passou a estar desde 2017 no mapa das caminhadas.

É um percurso circular de 8 kms à volta de uma laguna com vista para o mar. Podemos percorre-lo a pé ou de bicicleta. Optámos pelas duas rodas, tomando o comboio Lisboa – Espinho e daqui pedalando os menos de 5 kms sempre junto ao Atlântico (não perder a imagem dos estendais no paredão da Praia dos Pescadores, talvez mais junto à areia do que às casas) até ao início dos novos passadiços junto à Praia da Barrinha.

Para a requalificação desta zona lagunar foi preciso esperar décadas pela eliminação da poluição vinda das fábricas das redondezas que aqui descarregavam, valorizando-se um lugar de claro interesse ambiental e beleza. A instalação dos caminhos de madeira que hoje proporcionam o usufruto deste espaço natural por parte de todos nós teve como preocupação a preservação do ecosistema, o qual não é perturbado nem pelos postos de observação de aves, nem pelo mobiliário urbano que vamos encontrando amiúde.

Esta é a maior zona lagunar do norte de Portugal, com 396 hectares. Dunas de um lado, canaviais do outro, água pelo meio. Nos céus, muitas aves. O passeio é feito quase sempre sob o canto dos pássaros, mas infelizmente por vezes esse canto é perturbado pelo zumbido irritante dos motores dos parapentes e avionetas que levantam voo do aeródromo vizinho.

O percurso é sempre plano, fácil portanto. Umas vezes aberto à paisagem, outras envolto na vegetação, com arvoredo de um lado e canavial do outro. Passamos por uma casinha rústica com um barquinho à porta num cais improvisado e, mais adiante, por vivendas com vista para a laguna.

A biodiversidade do lugar é grande e levou à sua classificação como Sitio de Importância Comunitária e integrada na Rede Natura 2000. Entre a fauna característica pode observar-se o pato, garça-real, lagostim vermelho, rouxinol bravo, lampreia-de-riacho, rãs, enguias, ginetas ou morcegos.

São muitos os pontos para se tirar belas fotos, mas a imagem mais icónica da laguna é a da ponte norte-sul de madeira em arco. Sobre ela temos uma vista quase completa de todo o percurso ciclável e sobretudo para o canal que rompe as dunas para ligar a água da laguna à do mar, a água doce à salgada – daí o termo “laguna” ser mais correcto do que “lagoa”. No lugar desta ponte havia uma outra, construída em 1854, que originalmente ligava as margens da Barrinha e à qual Júlio Dinis fez referência na sua obra “O Canto da Sereia”.

Da aldeia de xisto de Água Formosa até aos passadiços do Penedo Furado

Água Formosa é a única povoação do concelho de Vila de Rei integrante da rede das Aldeias de Xisto. E é a mais central, a 10kms quilómetros do centro geodésico de Portugal, ou seja, equidistante norte-sul e este-oeste dos limites da fronteira do nosso rectângulo.

Antes de tentarmos perceber o nome “Água Formosa”, e mais uma vez com a ajuda de uma olhada para o mapa, vemos que a aldeia fica perto do Rio Zêzere transformado em alfubeira de Castelo de Bode e não fica muito longe do Rio Tejo. No entanto, o seu nome vem de uma fonte de água pura alimentada pelas águas das ribeiras de Corga e da Galega, encaixadas num pequeno vale protegido por umas encostas de floresta. A água é um elemento sempre presente e foi ela que aqui fez fixar os primeiros habitantes.

A estrada que nos transporta até Água Formosa pára aqui, quer venhamos de um lado da aldeia quer do outro. Uma espécie de fim do mundo mas em versão boa. Natureza, tranquilidade e tradição é o que nos espera. E estas características andam todas de mão dada. A natureza – paisagem verde, som da água, rochas de quartzito e xisto – é a grande responsável pelo sossego e harmonia que aqui se vive. E ambos levam a que grande parte do edificado da aldeia esteja preservado e de pé, incluindo fornos a lenha, eiras, hortas e até água içada da ribeira desde o alto através de uma corda.

A qualquer passo pelas poucas e breves ruas da aldeia em sobe e desce se percebem os veios de quartzito e xisto a sair da rocha, os grandes alimentadores das pitorescas casinhas, muitas delas assentes directamente na rocha.

São menos de 10 os habitantes permanentes de Água Formosa, um pouco mais os sazonais e muito mais os visitantes. Há até algumas casas de alojamento local para aqui se desfrutar de uma noite bem dormida e uns dias bem passados.

Saindo de Água Formosa, em menos de 15 minutos chegamos à Praia Fluvial de Penedo Furado, depois de termos observado a paisagem do miradouro instalado no cimo do dito. O nome “furado” deve-se à abertura de forma afunilada no rochedo. A praia fluvial é uma das mais procuradas da região, de tal forma que no Verão fica difícil arranjar espaço para sentar na areia ou mergulhar na água transparente e impossível conseguir uma mesa para um piquenique.

Aqui começam uns dos mais recentes passadiços no nosso país. Por enquanto são apenas 532 metros lineares, mas a Câmara Municipal de Vila de Rei pretende alargar o percurso de forma a torná-lo circular. Podem ser poucos metros mas cada um deles merece a pena ser pisado com leveza de forma a melhor se apreciar a paisagem que os rodeia. Rochas selvagens envolvem-nos ao mesmo tempo que um fio de água da Ribeira de Codes corre sem pressa até ao encontro da alfubeira de Castelo de Bode, logo ali ao fundo.

O fim dos passadiços é acompanhado de um pequeno trilho que nos deixa face a face com uma cascata que cai para uma piscina natural. Subimos em sua direcção e no caminho vemos uns santuários erguidos no cimo dos montes-miradouros e mais ao fundo uma série de outras piscinas naturais e quedas de água. Dizem que aqui é o paraíso e pelo menos um casal lá em baixo, quase que escondido na vegetação, fazia por o tomar à letra.

Aldeias de Xisto de Góis

As aldeias pertencentes à rede das Aldeias de Xisto no concelho de Góis estão localizadas em plena Serra da Lousã. Pena, Aigra Velha, Aigra Nova e Comareira são remotas e isoladas, talvez até mais do que as aldeias do concelho da Lousã. No entanto, ao contrário destas, ainda há nelas habitantes permanentes. Poucos, mas há. Só a Pena, por exemplo, segundo o Censo de 2011 tem 14. Pela estrada de asfalto que liga estas aldeias a Góis, sede de concelho, encontramos até velhinhos amparados nas suas bengalas a caminho ou de volta do trabalho. Porque a vida não pará e enquanto se cá está há que cuidar do que é nosso, mesmo que os descendentes só cá queiram vir passar um fim de semana ou outro.

A paisagem deste pedaço da Serra da Lousã também não difere muito da da outra vertente. Para além dos cada vez mais frequentes pinheiros e eucaliptos, ainda se encontram bosques de castanheiros e carvalhos e nas zonas ribeirinhas azereiros e azevinhos. Mas nesta zona dominam de forma arrebatadora os Penedos de Góis, dos pontos mais altos da serra, com 1043 metros. Esta é uma paisagem mais agreste e também o clima junto a eles é menos certo. A mim tocou-me um dia a bater à porta da época do Verão onde o céu não se chegou a ver.

É possível fazer-se um percurso pedestre circular a iniciar em qualquer uma das 4 aldeias de xisto de Góis, através do qual ao longo de 9 kms de trilho se passa por zonas de montanha com tradições e história muito próprias e uma fauna feita de veados, aves de rapina e cegonhas pretas que costumam nidificar nos Penedos.

Não seguimos a penantes, antes de carro, e começámos o nosso itinerário pela Pena, a aldeia de xisto mais desenvolvida de Góis, protegida no alto pelas escarpas quartzíticas dos Penedos de Góis e em baixo pelas águas da Ribeira da Pena.

A sua implantação geográfica é desafiante, ao longo de um promontório, sempre a subir, e quase que as casas se equilibram umas nas outras. Ainda ao longe vemos que estas casas não são todas de xisto, mas quando entramos na aldeia, pouco após passar a ponte sobre a Ribeira e o castanheiro secular que nos dá as boas-vindas, vemos que é o xisto que nos rodeia. Caminhando pelas ruas estreitas apreciamos as casinhas de xisto com portas, paredes e parapeitos de madeira e observamos uns pormenores deliciosos nas fachadas. A maior parte das casas tem dois andares e tradicionalmente no rés-do-chão guardava-se o gado. Ao segundo piso acede-se por uma escada exterior também em xisto.

Crê-se que a povoação da Pena já existisse no século XVI. A origem do seu nome estará em “penna” ou “pinna”, palavra latina para penha – penhasco ou rochedo.

Da Pena até Aigra Velha é um passinho agradável por campos verdes ondulados onde as cabras pastam em sossego. Aigra Velha é pequeníssima, um ponto no mapa envolto numa bela paisagem agrícola e de pastoreio, a mais alta das aldeias de xisto, a 770 metros de altitude. Não se vê aqui ninguém, apenas animais guardados nas casas de xisto que parecem em ruína e abandonadas. O curioso desta aldeia é que possui um sistema defensivo apenas visto nas aldeias medievais mais antigas do nosso país, com uma única rua que atravessa a aldeia e pode ser fechada nas duas extremidades, ficando todas as casas com ligação interna directa entre si. Esta estrutura construtiva permitia uma melhor protecção contra o clima adverso e contra os animais selvagens, como os lobos.

O nome “aigra” significa campo ou quinta e esta Aigra Velha dirá respeito a uma quinta instalada numa posição geográfica cimeira em termos de altitude em relação a uma outra, a Aigra Nova. E assim nos conduzimos mais para baixo, pela serra que vai vendo um vale cravar-se na paisagem, deixando a silhueta dos Penedos de Góis para trás. Entre as Aigras existem bosques de urzes que servirão para produzir o típico mel da Serra da Lousã.

Aigra Nova, então. Aqui recebem-nos uns cães enormes, daqueles que metem respeito. Depois de hesitar em sair do carro constata-se que estes pachorrentos animais não estão ali para guardar o Núcleo de Interpretação Ambiental e a Loja de Xisto da aldeia, antes optam por se deixar estar na modorra a que a natureza local convida. Esta Aigra tem três ruas estreitas onde se duvida que o carro passe. Mas passa, depois de por elas termos caminhado um pouco.

As casas estão aqui bem recuperadas nas suas fachadas em xisto e portas e janelas em madeira e a aldeia é como se fosse um pequeno museu a céu aberto. Para além disso, esta é a única povoação no nosso país onde existe uma Maternidade de Árvores. À sua volta, hortas e lugares de pastagem. O nome “Aigra Nova”, já se sabe, será uma contraposição à outra aigra – quinta – mais cimeira. Ou, então, a palavra aigra estará ligada à palavra “acrum”, com o significado de áspero, amargo ou duro, tudo caracterizações certeiras da vida no lugar.

Saindo de Aigra Nova, a estrada continua a oferecer-nos belas panorâmicas. À entrada de Comareira, a última aldeia deste nosso itinerário, um miradouro só reforça a beleza dessas panorâmicas, obrigando-nos a parar para contemplar o vale. Novamente, uns cães aguardam a nossa visita e a sua modorra continua, mas desta vez estão um bocado pulguentos.

Uma mosquitagem incrível rodeia-nos e um cheiro a animal e bosta há-de nos acompanhar pela rua única da aldeia. Comareira, no cume de um monte, é a mais pequena destas aldeias do xisto e à semelhança de Aigra Velha também parece ao abandono – com excepção dos muitos bichos, cães, gatos, vacas, para além dos mosquitos.

Castelo da Lousã

A Lousã é a serra e as aldeias de xisto, mas é também o seu castelo, segundo José Saramago “paisagisticamente, das mais belas coisas que em Portugal se encontram”. A sua implantação no meio da floresta é preciosa e torna-o ainda mais apelativo. Diz-se ser o “castelo perdido nas árvores” e qualquer vista panorâmica mais afastada confirma-o.

Também conhecido como Castelo de Arouce, fazia parte da linha defensiva do Mondego, rio que até à conquista de Lisboa aos mouros no século XII fazia de fronteira entre o mundo cristão e muçulmano. Terá sido erguido no século anterior, mas uma lenda antiga conta-nos ainda da possibilidade de ter sido construído por um emir para servir de proteção da sua filha e dos seus tesouros após derrotado e expulso de Conimbriga.

Fortaleza pequena, com uma torre de menagem e um curto pátio, à entrada percebemos um alambor, uma base rampeada que tinha como função reforçar a muralha e impedir a escalada dos seus muros. A partir deste ano de 2019 passou a ser possível a visita ao interior do castelo e do alto da sua torre as vistas para a densa vegetação são incríveis. Em baixo vemos o alvo Santuário de Nossa Senhora da Piedade a contrastar com o verde da floresta e o xisto – claro – do castelo.

Descemos do castelo e bem lá em baixo fica a praia fluvial com vista para ele. A beleza natural do lugar é comovente. No entanto, há que não ficar pela vista. A Ribeira de São João corre ponte afora e acompanhando-a enquanto podemos descobrimos mais um recanto de tranquilidade na Serra da Lousã.