Ainda Mais Petra – Em Fotos


Quem não quer caminhar pelo Siq pode sempre usar o lombo de um cavalo ou as almofadas de uma charrete


O Siq, que por vezes é muito estreito, também sabe ser espaçoso para acomodar muitos turistas de uma só vez



As formas e as cores mirabolantes que a rocha nos dá


O Tesouro, imensamente fotografado, imensamente contemplado, sem chegarmos à exaustão


A Street of Façades, com as tumbas e as casas que mais parecem covinhas na rocha


Ah, esqueci. Também podemos percorrer Petra de camelo


Dá para distinguir o teatro com capacidade para 3000 pessoas e que se confunde com a própria rocha, aliás que foi cravado na própria rocha?


O Monasterio cá no alto e a imensidão de Petra


Sempre a caminhar, por montes e vales


O mais incrível são as cores de Petra: o que parecia uma monotonia de pedra escura de deserto tranforma-se aqui e ali num colorido que nos é dado pelos veios da rocha ou por uma vegetação que nos aparece no meio do nada

Mais Petra

Petra está situada no que hoje conhecemos por Jordânia, mas historicamente esta era uma região de algum apelo comercial por ficar entre Damasco e a Península Arábica. Por lá passaram vários povos neolíticos antes de os Nabateus aí se estabelecerem no século IV a.C. e criarem a cidade que hoje desperta todos os nossos sentidos, causando-nos uma extrema admiração e um entusiasmo sem fim.
No século I a.C. os romanos começaram a rondar Petra até que em 106 d.C. a tomam em definitivo aos Nabateus. Assim, para além das influências helénicas dos Nabateus, passamos a assistir à introdução na cidade de influências romanas – o teatro, por exemplo, apesar de construído pelos Nabateus viria a ser alargado pelos romanos – e, pouco mais tarde, influências bizantinas.
O declínio de Petra aconteceu durante o domínio romano, principalmente por se terem passado a utilizar rotas marítimas no comércio. Todavia, um terramoto no século IV d.C. Contribuiu para acentuar ainda mais o seu declínio.

Até que em 1812 o suíço Johann Ludwig Burckhardt, que já desconfiava da sua existência e para melhor se movimentar na região se disfarçou de árabe, deu com Petra e a apresentou ao mundo ocidental.

Outro europeu, neste caso escocês, o pintor David Roberts (1796-1864) fez com que a imagem de Petra rodasse o mundo através das suas pinturas.

Inesquecível é também a imagem de Petra, em especial, do Tesouro, que Hergé e o seu Tintin nos deixaram com o livro “Carvão no Porão”.

Petra

O ponto alto de qualquer visita à Jordânia será, à partida, Petra. Agora que já saímos, a constatação não muda nada, apenas a vemos confirmada.
Este é um dos sítios arqueológicos mais amados e carismáticos do mundo, eleito uma das novas 7 maravilhas do mundo pelo voto de milhões de pessoas espalhadas pelo mundo. E digo voto de pessoas espalhadas pelo mundo porque, a receber o voto só dos poucos Jordanos, Petra não se safaria.

A nossa chegada a Petra aconteceu a uma quinta-feira ao fim da tarde. Achávamos que nunca conseguiríamos apanhar um bilhete para ver Petra à noite àquela hora, mas… ainda fomos a tempo e foi jantar rapidamente e atravessar a rua. O caminho de cerca de 1,2 kms pelo Siq às escuras, ladeado apenas por uns candeeiros de papel com uma vela dentro, é feito a um passo acelerado, com os visitantes numa espécie de fila indiana ansiosos por chegar ao Tesouro. Aí, sentamo-nos no chão, bebemos um chá e vimos e ouvimos a actuação de dois homens com instrumentos musicais típicos. Com o breu da noite, pouco se vê o Tesouro, mas ao sinal para que todos disparem as suas câmeras fotográficas com flash ao mesmo tempo, temos a primeira percepção do esplendor do que veremos na manha seguinte.

A entrada para Petra não é nada barata: 50 euros para um dia. A bilheteira está instalada num contentor horroroso e a brochura com dados e mapa do sítio é, sem rodeios, ranhosa. Lá dentro, com um calor abrasador, vendem-se bugigangas e tarecos, mas nenhumas garrafas de água a não ser quando chegamos bem depois do meio-dia à zona dos restaurantes. O preço da água é astronómico, e não consigo deixar de mostrar desagrado por este assalto à mão armada ao turista. A verdade é que as expectativas em relação a Petra eram mais que muitas, e achei que tudo tinha que ser perfeito. Contando já o final da história direi que, tirando isto, tudo é mesmo perfeito.

O espaço é imenso. Ao atravessar o mágico Siq de dia, com as suas paredes de rocha de várias tonalidades, com destaque especial para o vermelho ora rosado ora ocre, vamo-nos preparando e ambientando para o que veremos mais à frente numa magnificência e escala sem palavras. Ao longo do Siq vão se vendo já várias esculturas nas rochas. No fim do Siq, por uma frecha que parece ter sido criada a régua e esquadro para domar a nossa ansiedade vemos um pequeno aperitivo do Tesouro (Al-Khazneh) e, depois, à medida que vamos avançando vemo-lo por inteiro.

São 43 metros de altura por 30 metros de largura de uma verdadeira obra de arte esculpida na rocha pelos Nabateus. As altas colunas são seis, encimadas por uns capiteis decorados e encontramos ainda figuras como os filhos de Zeus e outras desconhecidas. Crê-se que o Tesouro foi construído entre o século I a.C. e II d.C. para servir de tumba para o Rei Aretas III dos Nabateus. Aqui neste plateau pequeno, onde dividimos o cenário com os camelos e os burros que puxam as carroças e com os turistas e os locais, temos a visão imensa deste colosso artístico aos nossos pés. Mas não conseguimos estar sozinhos, há sempre alguém a passar, os insistentes e deslumbrados oh! repetem-se (e outros ouviram os nossos oh!), os locais não cessam de nos impingir algo. A maior parte dos turistas vai pouco mais além deste ponto, que as pernas e o calor moem. Não saberão talvez que uma caminhada de cerca de uma hora a partir dali nos leva a um a ponto elevado onde podemos observar o Tesouro desde cima e ver as formiguinhas que, agora, o rodeiam. Não é fácil subir, quer pelo cansaço, quer pela medíocre sinalização, quer pelas cabras que ocupam o caminho. Mas uma vista, melhor, mais uma vista de Petra, vale tudo.

Descendo de volta ao roteiro mais popular, são inúmeros os edifícios, sempre esculpidos na rocha, que nos continuam a causar impressão. A imagem de Petra é o Tesouro, a mais divulgada, dando umas vezes lugar ao seu quase irmão gémeo Monasterio. Mas Petra é muito mais do que estes dois. Frente a frente com as tumbas reais, imensas e brutais, até custa a crer que estes possam ficar na sombra do que quer que seja.

Continuando a Rua das Colunas vemos algumas ruínas do que foi a ocupação romana por aqui, não tão bem conservadas como as obras na rocha. Por esta altura o dia já se tornou tarde, mas ainda não tarde o suficiente para ver o por do sol do Monasterio (Al-Deir), um dos highlights – que não tivemos. O Monasterio é, a seguir ao Tesouro, o monumento mais reconhecido de Petra. São praticamente iguais mas o Monasterio é maior, cerca de 45 metros de altura por 50 metros de largura, mas menos elegante e decorado do que o Tesouro.

Depois de relaxar um pouco no café aí no topo com cadeiras e sofás que mais pareciam camas e de falar com um português que viajava sozinho por Israel e Jordânia, descemos e arranjamos forças não sei onde para continuarmos rumo à montanha do Alto Lugar do Sacrifício (Al-Madbah) – nome quase apropriado, não fosse o caso de ao mesmo tempo envolver também muito prazer. As cores do quase final de dia foram partilhadas com mais 2 ou 3 pessoas com que nos cruzamos no caminho, tirando o pastor com os seus bodes. E o mais incrível é que também por aqui não nos deixámos de surpreender pelo que íamos encontrando ao virar ou ao subir de uma rocha.

Foram praticamente 11 horas seguida, sempre a caminhar, dentro desta imensa Petra, pelas suas montanhas e vales. Estafantes, sob um calor que deu para escaldar, mas incrivelmente enriquecedoras e deslumbrantes. É sempre fantástico encontrar uma antiga cidade romana, grande e bem conservada, seja em Portugal, Itália ou tão longe como na Turquia ou Jordânia. Mas como Petra, a cidade de um povo não tão falado como os Nabateus, mas que foi capaz de deixar uma maravilha tão original como esta, aí sentimo-nos especiais, como com um brinquedo nas mãos e na vista, apropriado por todos os sentidos, que nos tivesse sido dado a nós e a poucos mais. Sim, porque pese embora toda a publicidade e todo o reconhecimento merecido, e ao contrário do que temíamos, não foram enchentes o que nos esperou. Passando o Siq e o Tesouro percorremos a história quase sozinhas e aí a noção de privilégio ganha mais força e um outro sentido.

Se não esperávamos que Petra fosse tão grande e com tanto para ver, no outro dia outra surpresa nos aguardava – a Petra Pequena. Mesmo tendo sido vista e percorrida depois, nem por isso o encantamento esmoreceu. A não perder também.

Wadi Rum – Deserto

Wadi Rum, a terra dos beduínos não é assim tão cosmopolita. Vêem-se alguns, poucos, turistas nos jipes para lá e para cá, contornando as rochas, as dunas, as tendas do chá e das recordações turísticas. O condutor que nos calhou, que não era guia, era um verdadeiro beduíno totó. Salam não perdia a oportunidade de a cada paragem tirar a sua almofadinha e deitar a descansar um pouco na areia debaixo da sombrinha de um rochedo. De inglês, com esforço, conseguia dizer hello.


Do passeio de um dia e uma noite no deserto, para além da paisagem linda e reconfortante, deu ainda para nos apercebermos do quão perto estão os jordanos e os seus beduínos da mentalidade ocidental. O povo beduíno sente-se discriminado em relação aos outros jordanos, quer no tratamento dado pelo governo quer pelos seus concidadãos. Serão vistos como preguiçosos e como tendo pouca vontade de se integrarem na sociedade, em especial no mercado de trabalho. Quanto ao condutor Salam, de 27 anos, e à sua almofada companheira, estamos conversados. Já o outro miúdo que tinha uma tenda de chá no meio do deserto, junto às Lawrence Springs, esse conseguiu aos 23 anos juntar dinheiro suficiente com os negócios com os turistas para comprar um jipe Cherokee. Os seus maiores entretenimentos eram, um, ir até Amman passear-se dentro do seu jipe para ver as mulheres não beduínas e causar inveja nos homens não beduínos e, outro, sair noite fora pelo deserto, sempre com o seu jipe, acelerando até matar os coelhos que conseguisse. Parece estranho?



O por do sol em Wadi Rum é fenomenal, criando-se umas cores entre o céu e a terra irreais. Como não há muita gente por ali, não é difícil sentirmo-nos umas privilegiadas naquele momento.
Depois de uma refeição típica e de um pouco de música tocada pelos rapazes da terra, não há muito mais a fazer se não ir dormir, não sem antes levantar o pescoço e olhos para o céu e vê-lo todo pejado de estrelas. Mas há que dormir dentro da tenda, pois apesar de termos tido sorte com as temperaturas, faz frio suficiente para não se arriscar a beleza de dormir ao relento. Ainda assim, a ida ao deserto, seja de noite ou de dia, é experiência a não perder na Jordânia.

Aqaba – Mar Vermelho

Em Aqaba param alguns barcos de cruzeiros e respectivos turistas. A cidade, que tem vindo a crescer rapidamente nos últimos anos, tornando-se uma das mais populosas do país, está virada, por isso mesmo, para o turismo. Apesar da indústria da pedra ter também relevância, são as praias e a sua corniche que se destacam. Há a praia pública, com os barquinhos para curtos passeios ali à volta e as famílias a banharem-se.


As mulheres, como não podia deixar de ser, vão vestidas e acaba por ser muito pitoresco ver as mais velhas com as cadeiras instaladas na água e as crianças a brincar à volta. No centro de Aqaba há uma serie de hotéis e restaurantes que podiam estar em qualquer lugar do mundo. No entanto, nos últimos anos a cidade tem vindo a estender-se mais para sul, em direcção à fronteira com a Arábia Saudita, para a zona de Tala Bay, onde ficam hoje os melhores resorts com acesso a praias privadas.


O Mar Vermelho é conhecido por ser um dos melhores locais para o mergulho, ainda que melhor no Egipto do que aqui. Todavia, para iniciantes como nós, a experiência chegou para deslumbrar. A água é claríssima, com corais e peixinhos mesmo junto à costa, seja a dois metros de profundidade ou a dez. Olhar para cima e ver aquela luz azul intensa, em que a água e o céu se confundem, depois de sentir os peixes palhaço a nadarem junto a nós é delicioso. É ver as fotos que a Yashica da mana tirou até se engasgar com demasiada água na bateria.



Os dois rapazes do centro náutico do hotel eram sul-americanos, um argentino e outro colombiano, “fugidos” da revolta árabe do Egipto, mas desgostosos com a falta de clientes aqui na Jordânia. Ou então fartos de clientes mulheres que lhes chegam a pedir actividades onde não se tenham de molhar (?). Ficámos sem perceber muito bem a origem da maior parte da clientela do hotel e dos turistas por aqui. Serão Jordanos, palestinianos, árabes certamente.
Um dos aspectos interessantes da localização desta cidade é o facto de que, deitadas na praia ou na piscina, estamos na Jordânia, olhamos para a direita e aí está Israel, para a frente o Egipto e para a esquerda a Arábia Saudita. Um melting point de fogo.