Petra

O ponto alto de qualquer visita à Jordânia será, à partida, Petra. Agora que já saímos, a constatação não muda nada, apenas a vemos confirmada.
Este é um dos sítios arqueológicos mais amados e carismáticos do mundo, eleito uma das novas 7 maravilhas do mundo pelo voto de milhões de pessoas espalhadas pelo mundo. E digo voto de pessoas espalhadas pelo mundo porque, a receber o voto só dos poucos Jordanos, Petra não se safaria.

A nossa chegada a Petra aconteceu a uma quinta-feira ao fim da tarde. Achávamos que nunca conseguiríamos apanhar um bilhete para ver Petra à noite àquela hora, mas… ainda fomos a tempo e foi jantar rapidamente e atravessar a rua. O caminho de cerca de 1,2 kms pelo Siq às escuras, ladeado apenas por uns candeeiros de papel com uma vela dentro, é feito a um passo acelerado, com os visitantes numa espécie de fila indiana ansiosos por chegar ao Tesouro. Aí, sentamo-nos no chão, bebemos um chá e vimos e ouvimos a actuação de dois homens com instrumentos musicais típicos. Com o breu da noite, pouco se vê o Tesouro, mas ao sinal para que todos disparem as suas câmeras fotográficas com flash ao mesmo tempo, temos a primeira percepção do esplendor do que veremos na manha seguinte.

A entrada para Petra não é nada barata: 50 euros para um dia. A bilheteira está instalada num contentor horroroso e a brochura com dados e mapa do sítio é, sem rodeios, ranhosa. Lá dentro, com um calor abrasador, vendem-se bugigangas e tarecos, mas nenhumas garrafas de água a não ser quando chegamos bem depois do meio-dia à zona dos restaurantes. O preço da água é astronómico, e não consigo deixar de mostrar desagrado por este assalto à mão armada ao turista. A verdade é que as expectativas em relação a Petra eram mais que muitas, e achei que tudo tinha que ser perfeito. Contando já o final da história direi que, tirando isto, tudo é mesmo perfeito.

O espaço é imenso. Ao atravessar o mágico Siq de dia, com as suas paredes de rocha de várias tonalidades, com destaque especial para o vermelho ora rosado ora ocre, vamo-nos preparando e ambientando para o que veremos mais à frente numa magnificência e escala sem palavras. Ao longo do Siq vão se vendo já várias esculturas nas rochas. No fim do Siq, por uma frecha que parece ter sido criada a régua e esquadro para domar a nossa ansiedade vemos um pequeno aperitivo do Tesouro (Al-Khazneh) e, depois, à medida que vamos avançando vemo-lo por inteiro.

São 43 metros de altura por 30 metros de largura de uma verdadeira obra de arte esculpida na rocha pelos Nabateus. As altas colunas são seis, encimadas por uns capiteis decorados e encontramos ainda figuras como os filhos de Zeus e outras desconhecidas. Crê-se que o Tesouro foi construído entre o século I a.C. e II d.C. para servir de tumba para o Rei Aretas III dos Nabateus. Aqui neste plateau pequeno, onde dividimos o cenário com os camelos e os burros que puxam as carroças e com os turistas e os locais, temos a visão imensa deste colosso artístico aos nossos pés. Mas não conseguimos estar sozinhos, há sempre alguém a passar, os insistentes e deslumbrados oh! repetem-se (e outros ouviram os nossos oh!), os locais não cessam de nos impingir algo. A maior parte dos turistas vai pouco mais além deste ponto, que as pernas e o calor moem. Não saberão talvez que uma caminhada de cerca de uma hora a partir dali nos leva a um a ponto elevado onde podemos observar o Tesouro desde cima e ver as formiguinhas que, agora, o rodeiam. Não é fácil subir, quer pelo cansaço, quer pela medíocre sinalização, quer pelas cabras que ocupam o caminho. Mas uma vista, melhor, mais uma vista de Petra, vale tudo.

Descendo de volta ao roteiro mais popular, são inúmeros os edifícios, sempre esculpidos na rocha, que nos continuam a causar impressão. A imagem de Petra é o Tesouro, a mais divulgada, dando umas vezes lugar ao seu quase irmão gémeo Monasterio. Mas Petra é muito mais do que estes dois. Frente a frente com as tumbas reais, imensas e brutais, até custa a crer que estes possam ficar na sombra do que quer que seja.

Continuando a Rua das Colunas vemos algumas ruínas do que foi a ocupação romana por aqui, não tão bem conservadas como as obras na rocha. Por esta altura o dia já se tornou tarde, mas ainda não tarde o suficiente para ver o por do sol do Monasterio (Al-Deir), um dos highlights – que não tivemos. O Monasterio é, a seguir ao Tesouro, o monumento mais reconhecido de Petra. São praticamente iguais mas o Monasterio é maior, cerca de 45 metros de altura por 50 metros de largura, mas menos elegante e decorado do que o Tesouro.

Depois de relaxar um pouco no café aí no topo com cadeiras e sofás que mais pareciam camas e de falar com um português que viajava sozinho por Israel e Jordânia, descemos e arranjamos forças não sei onde para continuarmos rumo à montanha do Alto Lugar do Sacrifício (Al-Madbah) – nome quase apropriado, não fosse o caso de ao mesmo tempo envolver também muito prazer. As cores do quase final de dia foram partilhadas com mais 2 ou 3 pessoas com que nos cruzamos no caminho, tirando o pastor com os seus bodes. E o mais incrível é que também por aqui não nos deixámos de surpreender pelo que íamos encontrando ao virar ou ao subir de uma rocha.

Foram praticamente 11 horas seguida, sempre a caminhar, dentro desta imensa Petra, pelas suas montanhas e vales. Estafantes, sob um calor que deu para escaldar, mas incrivelmente enriquecedoras e deslumbrantes. É sempre fantástico encontrar uma antiga cidade romana, grande e bem conservada, seja em Portugal, Itália ou tão longe como na Turquia ou Jordânia. Mas como Petra, a cidade de um povo não tão falado como os Nabateus, mas que foi capaz de deixar uma maravilha tão original como esta, aí sentimo-nos especiais, como com um brinquedo nas mãos e na vista, apropriado por todos os sentidos, que nos tivesse sido dado a nós e a poucos mais. Sim, porque pese embora toda a publicidade e todo o reconhecimento merecido, e ao contrário do que temíamos, não foram enchentes o que nos esperou. Passando o Siq e o Tesouro percorremos a história quase sozinhas e aí a noção de privilégio ganha mais força e um outro sentido.

Se não esperávamos que Petra fosse tão grande e com tanto para ver, no outro dia outra surpresa nos aguardava – a Petra Pequena. Mesmo tendo sido vista e percorrida depois, nem por isso o encantamento esmoreceu. A não perder também.

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