Convento dos Capuchos, em Almada

Almada também tem o seu Convento dos Capuchos, à semelhança da Arrábida e de Sintra. Hoje mais conhecido por ser a casa do Festival de Música dos Capuchos, este conjunto com origem no século 16 tem uma implantação soberba, mesmo por cima da Arriba Fóssil da Costa da Caparica, com vistas privilegiadas para o Atlântico. Aqui, por 3 séculos os frades franciscanos dedicaram-se a viver em contemplação no meio da austeridade. É um espaço com muita história, embora possua hoje poucos elementos originais, preservando no entanto o ambiente isolado que levou à sua escolha.

Foi na Quinta da Conceição, em Murfacém, que se instalaram inicialmente os frades capuchos da Caparica, corria o ano de 1550. Todavia, em 1558 passaram para o lugar conhecido por Outeiro, o tal acima da arriba, provavelmente em busca de maior resguardo, uma vez que na quinta anterior eram forçados a conviver com a vizinhança, por aí perto existir um poço de água. Este novo lugar foi-lhes cedido por Lourenço Pires de Távora, natural de Almada, morgado da Caparica e então embaixador do reino. A rua fronteira ao Convento dos Capuchos da Caparica toma hoje o seu nome e na capela jaz em túmulo junto ao altar. A igreja deste novo lugar logo foi erigida sob a invocação de Nossa Senhora da Piedade. Os primeiros frades pertenciam à Custódia de Santa Maria da Arrábida, parte do grupo de franciscanos que se havia instalado na Arrábida, do qual faziam parte os freis espanhóis Martinho de Santa Maria e Pedro de Alcântara, que aí chegaram em 1539. A sua vida era plena de austeridade, vivendo como eremitas em pobreza. Uma pobreza rigorosa que manifestava-se em todos os domínios da vida, fosse nas suas casas, celas desprovidas de qualquer ornamento onde se deitavam não em camas mas antes em esteiras directamente no chão. Igualmente nos seus hábitos, roupa feita de panos simples e sem calçado. E também nas coisas do dia a dia, como a alimentação e até as imagens a venerar, as quais limitavam-se a ser de papel e não quadros ou retábulos. Era uma vida de disciplina, penitência e contemplação, aquela seguida pelos que ficaram conhecidos por capuchos, em alusão à forma cónica e pontiaguda do capelo do seu hábito.

O quarto convento arrábido do reino (para além dos citados da Arrábida e de Sintra, havia ainda o de Loures, hoje Quinta do Conventinho), um dos mais austeros dos franciscanos, era, assim, um convento simples, localizado nem muito longe nem muito perto de povoações, permitindo aos frades o contacto com o exterior de forma a saírem em mendicância, sendo autorizados a pedir esmola uma vez por semana. No entanto, a partir de 1779, o Convento passou a ser sede de uma escola aberta ao exterior, aí ensinando-se a ler os rapazes da vizinhança. A extinção das ordens religiosas, em 1834, levou ao abandono e posterior ruína do lugar. Na década de 1950, a Câmara Municipal de Almada comprou o Convento dos Capuchos da Caparica, mas o restauro aconteceu apenas cerca do ano de 2000. Hoje, este é um espaço de memória e de cultura, com uns bonitos jardins e um excepcional miradouro. Nele acontecem eventos musicais, exposições e até casamentos.

A pequena alameda que antecede o adro da igreja é garbosa, com uns belos exemplares arbóreos a ladearem-na. A fachada simples da Igreja do antigo Convento é o resultado de duas épocas distintas, a parte inferior renascentista, com colunas toscanas, e a parte superior barroca, com duas lápides. Uma delas com as armas dos Távora e a outra com o símbolo da ordem dos franciscanos – as mãos abertas representam aqueles que se propuseram a receber as chagas de Cristo. A imagem de Santo António, que se vê mais acima na fachada, foi colocada posteriormente. Assim como os azulejos na galilé à entrada da Igreja, uma espécie de alpendre, colocados na década de 1960, com imagens do mesmo Santo António.

Com efeito, o actual conjunto que outrora pertenceu ao Convento dos Capuchos da Caparica está muito alterado, seja pelo abandono e ruínas a que foi votado – perderam-se muitos azulejos -, seja pelas obras da Câmara, e o seu pouco espólio é proveniente de diversos outros lugares. Do restauro ficou, para além da Igreja, o claustro com arcadas, ao redor do qual estavam as dependências, e vestígios do refeitório, cozinha e livraria, todos eles transformados em espaços modernos de apoio às actividades que aí acontecem.

E, claro, o Convento possuía ainda uma cerca com horta e poço de água, com árvores de fruto e vinha. Os jardins estão muito bem restaurados e são um ponto alto da visita ao Convento. Por entre árvores diversas, incluindo buxo, fontes, canteiros e painéis de azulejo trazidos de outras quintas do concelho, o lugar é muito aprazível. Há bancos para se estar, decorados com embrechados, uma técnica despojada e simples, que assenta bem a estas ordens conventuais, aproveitando materiais considerados menos nobres, como fragmentos de vidro e conchas. No meio do jardim formal está a Capela de Santo António, também decorada da mesma forma, tudo resultado do restauro efectuado não década de 1950.

A não perder, ainda, os pontos de vista que o lugar do Outeiro oferece: há vistas tapadas pela densa vegetação, mas o Miradouro Pablo Neruda abre-se desafogado ao horizonte. Dele se alcança o infinito do Oceano Atlântico, mas também a Caparica logo abaixo, o Bugio no meio do mar e a Serra de Sintra próxima. Todos eles elementos inspiradores, compensadores da pobreza franciscana.

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