Giro In Macchina In Sicília Occidentale

Sicília é riquíssima em sítios arqueológicos. O objectivo era escolher um. Entre os vários, tivemos dúvidas entre qual escolher, mas o nosso itinerário acabou por desempatar e escolhemos Selinunte.


Não nos arrependemos. Nem um pouco. É impressionante e cativante. É um pouco da Grécia em Itália. De facto, em tempos, foi a colónia grega mais a ocidente e contemplava mais de 100 000 habitantes e templos importantes.

Hoje sobrevivem algumas ruínas espantosas desses templos, cuja beleza é acentuada pela maravilhosa localização, com o mar como vizinho.

Junto à imensidão das colunas e do mar, que se esprai logo ali, percebemos quão pequenos somos e, simultaneamente, como imensos somos para, em tempos longínquos, projectarmos obras daquela magnitude.

Seguindo a costa Sul para oeste, cruzamo-nos com a Tunísia. Não, não atravessámos o mar para o continente africano. Permanecemos na ilha, em Itália.


O ponto é que Mazara del Vallo, por estar mais próxima da costa africana do que da ponta nascente da Sicília, apresenta muitas influências urbanas e culturais do vizinho continente. O centro histórico é o kasbah, coração desta cidade de origem sarracena. Apresenta-se labiríntico e polvilhado de magníficos edifícios barrocos e Normanos.



Ao mesmo tempo que a nossa vista alcança uma igreja, logo de seguida, surpreendentemente, vislumbramos uma mesquita, enquanto isso sentimos aromas do norte de África. 

Percebemos o porquê quando nos sentamos à mesa para nos deliciarmos com um maravilhoso couscous de peixe, a comida típica local, um chá e doces árabes.

A mistura de influências seduz e emociona. Assim como nos faz pensar na quantidade de dimensões e camadas inerentes a uma identidade e como são ridículas as xenofobias e intolerâncias, infelizmente, cada vez mais exacerbadas.
As influências árabes continuam a fazer-se sentir no presente, já que a cidade, um importante porto, acolhe muitos habitantes tunisinos e do Magreb, vizinhos do outro lado do Mar Mediterrâneo.

Enquanto deambulamos pelas sinuosas ruas do kasbah, vamo-nos cruzando com diversos azulejos pintados à mão, os quais decoram as paredes dos edifícios.


Na praça central, a Piazza della Reppublica, concentram-se diversos edifícios elegantes e monumentais, como a Catedral, o Palazzo e o Seminário Vescovile .


Prosseguimos a nossa viagem e paramos em Marsala, terra do vinho doce homónimo. Charmosa e elegante são dois adjectivos que lhe acentam bem.


No seu pequeno centro histórico impressiona a elegante pavimentação, caldeiras e sistema de drenagem em mármore. Assim como a graciosidade das praças e dos edifícios barrocos.

Ainda na costa oeste, em direcção a norte, entre Marsala e Trapani, surge a paisagem evocativa das salinas e dos moinhos. O sal ali produzido é considerado o melhor de Itália.


As salinas de Trapani são um centro de produção de sal desde tempos antigos e foram um grande negócio durante séculos. Embora o negócio actualmente não seja tão florescente, a paisagem encanta pela serenidade e organização.


Continuando para norte, depois de subirmos serpenteantemente monte acima, chegamos à fascinante Erice, alcandorada a 750 metros acima do mar. Durante a subida, aproveitamos e surpreendemo-nos com a belíssima paisagem e as cores magnetizantes do final de tarde.

Erice é uma vila medieval fortificada e charmosa, repleta de património, do qual se destaca o Duomo. 

Mas também as várias praças, onde vamos desembocando na nossa deambulação.
As múltiplas igrejas e o castelo também encantam.

Pela sua posição geográfica oferece-nos magníficas panorâmicas para Trapani e seu porto, ilhas Egadi, Mar Tirreno e para o Monte Cofano.

Para além destes inúmeros argumentos ainda alberga a famosa pastelaria Maria Grammatico, considerada uma das melhores da Sicília. 

De Erice, que merecia mais tempo, seguimos para San Vito Lo Capo, onde passámos os dias seguintes. Aí abriu-se um novo capítulo da nossa viagem. O próximo a ser relatado.

Palermo

Em Palermo, capital da Sicília, encontrámos uma cidade fervilhante, cheia de contradições, onde a herança aristocrática de outros tempos convive e tenta sobreviver com a actualidade difícil e pobre, ainda hoje marcada pela outrora forte e demolidora intervenção da máfia, resultando numa decadência charmosa e, surpreendentemente, fascinante.

Por outro lado, cruzámo-nos com elementos arquitectónicos que marcam as imensas influências que a cidade recebeu das diversas culturas que ali estiveram ao longo da história.


A cidade congrega um imenso património, embora parte dele em más condições, fruto das dificuldades económicas há anos presentes na região. Ainda assim, ocorre-me pensar na dificuldade, perante determinadas escalas e diversidade patrimoniais, de se alcançar a manutenção de tudo, já que os principais elementos patrimoniais apresentam-se com a dignidade que merecem.

É um deslumbre deambularmos pela cidade e após virarmos a esquina de uma rua esconsa, mas ainda assim pontuada por igrejas e palácios barrocos, apesar de alguns deles decrépitos, nos confrontarmos com a magnitude da Cattedrale di Palermo, no seu estilo árabe-normano.

O mesmo estilo arquitectónico encontramos no Palazzo dei Normani e na sua Cappella Palatina, que nos extasia e nos deixa com um torcicolo por querermos abarcar todos os ângulos ocupados pelos magníficos mosaicos bizantinos e trabalhos de mármore em estilo árabe, bem como o mobiliário em madeira (muqarnas). Naquele espaço, com arte, reconta-se o Antigo Testamento.

Todas estas maravilhas se concentram a poucos metros de distância no bairro de Albergheria, onde se localiza o efervescente Mercato di Balarò, o principal mercado de rua da cidade, onde navegamos entre aromas.

No bairro de Capo, a norte de Albergheria, outro mercado, o Mercato del Capo, também espalha pelas ruas a sua vivacidade e confirma-nos como a comida de rua é uma das riquezas da Sicília e, em particular, de Palermo.

No centro da cidade antiga fica Quattro Canti, uma espantosa, inusitada e elegante intersecção entre o Corso Vittorio Emanuele e a Via Maqueda. Trata-se de um círculo perfeito formado por fachadas curvas, estupendamente adornadas com estátuas que representam as estações do ano, os soberanos espanhóis e as santas palermitanas, espalhadas em três ordens, colunas Dóricas na base, Iónicas no meio e compostas no topo. Magnífico momento urbano.

Próximo encontra-se a superlativa Fontana Pretoria, um dos maiores símbolo da cidade.

Adjacente, situa-se a Piazza Bellini, onde o inusitado acontece.

A La Martorana e a Igreja de San Cataldo ombreadas por palmeiras fazem-nos questionar onde estamos. O exótico aterrou ali. La Martorana foi planeada para ser uma mesquita, por dentro é adornada por uns magníficos mosaicos bizantinos, chegou a ser um templo católico e actualmente é uma igreja da comunidade grega ortodoxa. Portanto, a síntese do que é a Sicília.

A Igreja de San Cataldo, com as suas curiosas cúpulas vermelhas, é mais um exemplo da arquitectura árabe e normana. Fascinante determo-nos a absorver toda esta arquitectura.

O interior fascina igualmente.

Em La Kalsa, estamos à beira do Golfo de Palermo, mas a relação da cidade com o frente de água está por fazer, com excepção da parte onde se localiza a Marina, um pouco mais a norte.

Neste bairro pobre, a regeneração urbana aos poucos está acontecer, com a recuperação do património e instalação de alguns locais trendy.

Valores seguros são o Museu da Inquisição, localizado no Palazzo Chiaromonte Steri, a Galleria d’Arte Moderna e Chiesa di San Francesco d’Assisi.

Igualmente com um passado pobre e marcado pela criminalidade e violência, o bairro de Vucciria, ficou imortalizado na obra artística do pintor siciliano Renato Guttuso, o qual pintou a magnífica e arrebatadora La Vucciria, inspirado no mercado homónimo. Tivemos a oportunidade de ver esta obra genial numa exposição temporária no Palazzo dei Normani.

Este mercado, actualmente, não tem a mesma vivência de outrora, mas é cativante, nomeadamente a convivência do local peixe-espada como o Padrinho, em modo de arte urbana.

Sentir o quotidiano contagia igualmente pela simplicidade. 

Nos limites com a cidade nova fica o Teatro Massimo, em estilo neoclássico, a casa da ópera da cidade e a maior de Itália. Já nessa parte mais recente, ainda que antiga, encontra-se o Teatro Politeama Garibaldi, onde apanhámos o autocarro para Mondello.

Nesta vilazinha costeira, a pouca distância de Palermo, damos mergulhos revigorantes nas águas azuis turquesas, transparentes e quentes. Que maravilha. É uma praia urbana, a praia dos Parlemitanos, pelo que com muita procura. No entanto, o contexto envolvente rodeado de montanhas brutas fascina.

Aqui, apesar de ser uma praia muito procurada, é possível descontrair do intenso bulício de Palermo e prepararmos a partida para outros pontos da ilha, com a riqueza de Palermo no coração.

Cefalù

Logo que chegámos à Sicília dirigimo-nos para Cefalù, a poente e a cerca de uma hora de comboio de Palermo, onde passámos os primeiros dias da nossa viagem.
Esta cidadezinha é a capa da última edição do guia de viagens Lonely Planet. Com frequência se vê nas publicações turísticas a imagem clássica e sempre deslumbrante do seu pequeno porto.

Cefalù é bonita. Tão bonita e emocionante como o filme Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore. Foi pelas ruas e praças desta cidadezinha medieval que foram realizadas parte das filmagens deste belíssimo e comovente clássico do cinema italiano.


Banhada pelo mar Tirreno, Cefalù é simplesmente bonita. De pequena escala, sabe bem andar pelas suas ruazinhas e perscrutar o mar quando se dobram algumas delas. 

Sentarmo-nos a comer uma das especialidades locais enquanto o mar bate nas rochas é igualmente um prazer.

Mergulhar, dar umas braçadas, olhar para terra e ver o casario à sombra das imponentes e portentosas montanhas para além de um prazer, é um privilégio.

Na imponência montanhosa fica La Rocca, onde subimos e alcançamos vistas fabulosas sobre a cidade, em tempos uma cidadela árabe. 





Herança desses tempos é a arquitectura árabe-normana, da qual o Duomo de Cefalù é um magistral exemplo.


Cefalù é um sítio para se estar sem pressas. Para se praticar as pequenas e simples coisas da vida, nas quais se incluem caminhar pela lungomare, a marginal, e comprar um gelado e/ou um brioche com gelado e deleitarmo-nos enquanto a vida corre calma pelas ruas.

Entre Caminhos Se Faz a Riqueza e a Beleza

A meio caminho entre a Europa e África há uma ilha que ao longo dos tempos foi recebendo influências de várias culturas. Muitos andaram por lá. Gregos. Romanos. Bizantinos. Árabes,  conhecidos como Normanos. Sarracenos, os espanhóis muçulmanos. Espanhóis cristãos.
Todo este cruzamento de culturas contribuiu para a construção da identidade actual da Sicília. Foi para esta ilha italiana que embarcámos numa viagem feita de sensações várias, todas elas enriquecedoras e boas.
Palermo. Mondello. Cefalù. Selinunte. Mazara del Vallo. Marsalla. Erice. San Vito lo Capo. Scopello. Foram alguns dos sítios que percorremos. Todos diferentes e magníficos. Todos na parte ocidental da ilha, onde concentrámos a nossa viagem para podermos desfrutar e saborear tudo com mais calma.

Cefalù

Palermo

Selinunte

Riserva dello Zingaro

Cidade, praia, cultura, mergulhos, comida houve de tudo um pouco. E todo o pouco encheu as medidas de forma enorme.
Embarquemos.

Zaha Hadid

Dizer que admirava a arquitectura de Zaha Hadid é pouco. 

Talvez se recordar que numa viagem a Hong Kong planeei previamente uma escapada de um dia até Guangzhou, à distância de um visto de entrada na China e de duas horas de comboio, a admiração seja melhor classificada como fascínio.

Antes de Dezembro de 2012, apenas através de fotografias conhecia o trabalho da primeira mulher arquitecta a receber o Pritzker (em 2004), com excepção do Parque Aquático desenhado para os Jogos Olímpicos de Londres, mas mesmo esse, na altura que pude olhar para a sua fachada, estava muito modificado / adaptado para a ocasião do mega evento desportivo.

A visita à Ópera House de Guangzhou, edificio inaugurado em 2010 foi o meu primeiro verdadeiro encontro com a iraquiana tornada britânica. O seu trabalho nem sempre foi unânime entre os seus pares, que colocaram em causa a funcionalidade das suas obras, mas a espectacularidade das linhas que criou e que acreditou serem possíveis de executar e tornar realidade cativam os sentidos de muitos outros. Em Guangzhou as formas do seu edifico em concreto e vidro são fantásticas. Parece quase uma nave espacial, pronta a levantar voo.


Curiosamente, também de 2010 é o outro projecto de Zaha Hadid por mim visitado: o Maxxi, em Roma. As formas estrambólicas e futuristicas estão uma vez mais presentes. Curvas e mais curvas para nos encantarmos, jogos de pilares e de espelhos na cidade eterna oferecidos por uma arquitecta que não nos abandonará enquanto pudermos visitar as suas obras. 

Bolonha

O extraordinário quadro pintado, em 1972, por Renato Guttuso, Funeral di Togliatti, só podia estar em Bolonha, mais propriamente no Museu de Arte Moderna de Bolonha (MAMbo).

Não porque Guttuso, pintor ligado à ideologia comunista, ou Palmiro Togliatti, político, fundador e líder do Partido Comunista Italiano, tenham nascido em Bolonha. Mas antes por Bolonha, após a 2ª Guerra Mundial, na sequência de ter sido intensamente bombardeada, ter-se tornado no centro italiano do socialismo e comunismo. Por essa razão, mas também pela cor dos edifícios no centro histórico, em tijolo vermelho, tem o cognome La Rossa.

A cidade é conhecida por outros cognomes, como La Dotta, uma referência à sua universidade, considerada a mais antiga do mundo, que ocupa uma área do centro da cidade, dando-lhe uma dinâmica própria e vibrante.

Outro nome pelo qual a cidade é conhecida é La Grassa, uma alusão à sua cozinha, que teve sempre uma forte tradição. Numerosas receitas italianas, que entretanto se expandiram pelo mundo fora, tiveram origem em Bolonha. É o caso do ragù, que convencionalmente e erradamente se chama por todo o mundo esparguete à Bolonhesa, a lasanha, os tortellini, os tortelloni.

Capital da região de Emilia Romagna, economicamente Bolonha é uma cidade forte. Marcas como a Lamborghinie a Maserati foram fundadas em Bolonha. O desenho do logotipo desta última marca foi inspirado no tridente da estátua de Neptuno de Giambologna (1566), a qual adorna a fonte que se localiza numa das principais praças da cidade, a Piazza del Nettuno.

Nessa mesma fonte existem quatro anjos, que representam os ventos, e quatro ninfas, que simbolizam os quatros continentes conhecidos antes de se saber da existência da Oceânia.

A Piazza del Nettuno é contígua à Piazza Maggiore, a principal praça da cidade, que no flanco oeste é balizada pelo Palazzo Comunale, renascentista. Neste imenso palácio encontra-se a Collezioni Comunali d’Arte, que na sua colecção apresenta pintura, escultura e elementos de decoração.

No lado sul desta magnífica praça situa-se a Basílica di San Petronio, nome do patrono da cidade, começada em 1392 e, por razões políticas, nunca terminada. Havia a ambição de que fosse maior que a Basílica de S. Pedro, aspecto que não foi consensual no meio eclesiástico. De construção medieval, o interior, monstruoso, é de origem gótica, composto por uma infinidade de elementos ogivais.

A ladear a basílica fica o Archiginnasio, onde antigamente estava a Universidade e actualmente uma das maiores bibliotecas da região.

No flanco norte da Piazza Maggiore fica o Palazzo del Podestà, à data da nossa visita em obras.
Bolonha, apesar de não ser das cidades mais mediáticas turisticamente, conquistou-me num ápice com a sua personalidade e charme. Tem vida própria e quem a visita não fica com o sentimento que se trata de uma cidade museu, onde só há espaço para a perfeição. Trata-se de uma cidade real, com todas as imperfeições inerentes.
Na área central da cidade, embora nos espaços mais afastadas do centro do centro, quando caminhamos pelas ruas, ou melhor, pelas arcadas, já que a cidade é composta por mais de 40 km de arcadas e pórticos, que lhe dão um toque singular e encantador, cruzamo-nos com alguns tags e grafitis desqualificadores da imagem urbana.

As tais imperfeições de que são feitas as cidades verdadeiras. Contudo, esses aspectos, apesar de não serem belos, mostram o nervo e efervescência da cidade, que recebe e alberga pessoas vindas um pouco de toda a parte. Nota-se que a imigração aqui é grande, provavelmente pela dinâmica económica da região.

Com o seu sistema de arcadas, todas diferentes, a cidade apela e dá conforto a quem caminha e contribui para a dinamização do comércio de rua. Tudo com um toque charmoso e belíssimo.
Numa das arcadas, na Via Piella, existe uma pequena janela que se abre para um pequeno canal, o Canale delle Moline, também conhecido como Little Veneza.
Nas deambulações pela cidade desembocamos com frequência em praças, de estilos e dimensões distintas, mas com um denominador comum, a beleza.
Em direcção ao céu recorta-se o inconfundível perfil criado por duas torres, que crescem a partir da Piazza di Porta Ravegnana e cujas origens remontam ao século XII. Das cerca de 200 torres construídas por famílias importantes de Bolonha, para mostrarem o seu poder e terem funções defensivas, ao longo dos anos subsistiram apenas cerca de duas dezenas, das quais se destacam as Le Due Torri da Piazza di Porta Ravegnana.
A Torre degli Asinelli, a maior, com 97,2 metros de altura, foi construída, pela família com o mesmo nome, em 1109.
Ao seu lado, localiza-se a Torre Garisenda, que foi erguida para disputar o poder com a família Asinelli. Contudo, os Garisenda não tiveram todas as precauções com as fundações e anos depois da sua construção tiveram que, por segurança, encurtar a sua torre, atendendo a que começou a ficar inclinada.

Dante Alighieri, na sua Divina Comédia, faz referência à Garisenda, que actualmente apresenta cerca de 3 metros de inclinação:

 Tal quem, embaixo, para, e no alto mira,
Sob as nuvens em marcha, a Garisenda,
E vê-la desabar crê, e suspira
Assim me pareceu, na ânsia tremenda,
Anteu gigante a tomba…
(Dante Alighieri, Divina Comédia, Inferno, XXXI, 136-140)

 
No campo museológico, destaque para a Pinacoteca Nazionale, a principal galeria de arte de Bolonha, junto à cidade universitária, que alberga um conjunto de trabalhos de artistas bolonheses, e não só, desde o século XIV. No seu acervo existem obras de Giotto e Raphael.
Num espaço mais recente, uma nota positiva para o já referido MAMbo, que para além de acolher arte italiana do período pós 2ª Guerra Mundial até aos dias de hoje, alberga também nas suas instalações o Museu Morandi. Giorgi Morandi, natural de Bolonha, é considerado um dos mais importantes pintores italianos do século XX e um especialista em naturezas mortas.
Mortas, palavra que não se aplica nada a Bolonha. Uma cidade viva e cativante em diversas dimensões.

 

Siena

Chegar a uma cidade, que não se conhece, ao final do dia ou já noite por vezes não é a melhor sensação. Desta vez, quando chegámos a Siena, a experiência foi bem positiva.
Dificuldades não se colocaram porque a cidade é pequena, facilitando todos os movimentos, por outro lado, tivemos o privilégio de sentir a cidade com pouca gente, o que não é uma missão fácil durante o dia.
Absorvermos a Piazza del Campo praticamente vazia, bem como percorrermos as ruas desta cidade magnífica, em muitos momentos, só com a companhia da nossa sombra, criada pela iluminação nocturna, é qualquer coisa de especial.

Sistema eléctrico do hotel parcialmente mandado abaixo, por conta de um curto-circuito na tomada em que tentei ligar um gadget, noite passada e manhã iniciada, abrimos a janela e pareceu-nos que o blackout se prolongou para a rua. Lá fora predominavam cores escuras, confirmando o anúncio de previsão de chuva.

Siena esteve séculos na sombra de Florença, onde durante um grande período se concentrou o poderio económico e cultural da região. Atualmente ao nível de turismo, a haver uma rivalidade, esta não faz sentido porque são sobretudo cidades complementares. Enquanto Florença floresceu durante o Renascimento, as glórias artísticas de Siena são góticas.
Contudo, a cidade surgiu bem antes desse período. Segundo a lenda, Siena foi fundada por Senius, filho de Remo, o irmão gémeo de Rómulo, personagens da mitologia romana, conjuntamente com a loba que os amamentou.
O auge de Siena é, contudo, durante o governo republicano do Consiglio dei Nove, um executivo eleito dominado pela classe mercantil crescente. Esse governo decorreu entre 1287 e 1355, quando na sequência da Peste Negra, em 1348, a cidade entrou em declínio económico.
Esse período foi de um grande esplendor político e económico. Muitos dos melhores edifícios de Siena foram construídos durante este período, incluindo a Catedral (Duomo), o Palazzo Comunale e a Piazza del Campo.
Esta resenha histórica é importante antes de iniciarmos o périplo pela cidade, para que tudo seja mais percepcionado.
Siena é encantadora e o centro histórico medieval tem uma unidade pouco comum e, por isso, extraordinária. Por essa razão, e pelo património que contém, é classificada como Património Mundial da Humanidade pela Unesco.

Caminhamos pela cidade até alcançarmos a Piazza del Campo, a praça principal, onde entramos pela parte central, depois de passarmos pela Loggia della Mercanzia.

Colossal, é a palavra que nos surge. Já o tínhamos sentido na noite da véspera e confirmamos novamente, agora já na companhia de uma multidão de pessoas. A praça é gloriosa e única, pela forma que apresenta.

É o centro social e cívico desde meados do século XIV. O pavimento inclinado é dividido em 9 sectores, os quais representam o número de membros do Conselho do Governo (Consiglio dei Nove).

Na parte mais alta da praça localizam-se vários restaurantes e esplanadas. Num nível um pouco mais abaixo fica a emblemática Fonte Gaia, a funcionar desde 1346, a qual apresenta reproduções – os originais, esculpidos por Jacopo della Quercia no início do século XV, estão no Complesso Museale di Santa Maria della Scala – de vários painéis com cenas mitológicas e bíblicas.

Na área baixa da praça localiza-se o elegante Palazzo Comunale, concebido, em 1297 pelo Consiglio dei Nove, como centro nevrálgico do governo da república. É um dos edifícios góticos mais expressivos de Itália. A fachada do edifício, em pedra e tijolo, tem um desenho engenhoso ao ser côncavo, de forma a espelhar a curva convexa oposta formada pela praça.

A encimar encontra-se a Torre del Mangia, que com os seus 102m é uma das torres mais altas de Itália. Pelas filas proibitivas, não subimos ao seu topo nem entramos no museu cívico e noutros espaços expositivos albergados no Palazzo.

É na Piazza del Campo que anualmente decorre o Palio, um festival que evoca as antigas rivalidades das 17 contrades (paróquias) através de uma corrida de cavalos sem sela e de outras festividades.
Seguimos pela cidade, percorremos as suas belas ruas, apreciamos os majestosos edifícios, desembocamos em várias praças.

O céu começa a ficar mais e mais escuro. O vento intensifica-se. Não tarda a chuva far-se-á anunciar. O Inverno ocupou o lugar da Primavera por mais uns dias. 

Chegamos à Piazza del Duomo e damos com o impressionante Duomo, que é uma das estruturas góticas mais grandiosas de Itália. Começou a ser construído em 1196 e foi praticamente concluído em 1215.

Na fachada frontal apresenta um conjunto de estátuas de filósofos e profetas. Na verdade cópias, porque os originais estão no Museu dell’OperaMetropolitana. Não percebo porque os originais estão sempre noutro lugar.

Listada a preto e branco, a fachada é esplendorosaEntramos na catedral, das poucas atracções turísticas que não tem filas e tempos de espera gigantescos. O interior é majestoso e impressionante.
Apresenta um belíssimo pavimento em mármore de embutidos desenhados, que entre outras cenas, representa o Massacre dos InocentesTambém no interior podemos apreciar esculturas de Pisano, Donatello e Michelangelo, assim como a biblioteca Piccolomini, a qual apresenta uns espantosos frescos de Pinturicchio.
Em meados do século XIV é desenvolvido um plano para aumentar a catedral. Contudo esse projecto é interrompido pelo declínio económico após a epidemia de 1348. Para a posterioridade e até aos dias de hoje ficaram vestígios da nova nave, que atestam a dimensão do pensado.
Voltamos ao exterior e a chuva anunciada cai forte. Deambulamos um pouco mais, sobretudo à procura de um sítio para almoçar. Em Siena, como de resto em toda a Itália, come-se extraordinariamente bem (ver périplo gastronómico em cantina). Vamos até à Piazza del Mercado e entramos num espaço que é uma verdadeira catedral da comida. Como crentes ficamos e absorvemos simultaneamente os sabores toscanos e a beleza de Siena, que nem a chuva lá fora faz apagar.

Giro Pela Toscânia

Partimos de Florença, a maior cidade da Toscânia, para um périplo pela região, nomeadamente pelo Chianti, a área do vinho toscano.
A Primavera iniciara-se recentemente e os campos ainda não estavam verdejantes nem muito floridos. Não sei se por essa razão, a paisagem apesar de bonita não me impressionou. Julgo contudo, que tendo como referência a paisagem vinícola do Douro, é difícil haver uma superação.

Seguimos a estrada local SR222, conhecida como Via Chiantigiana e começámos por parar em Greve in Chianti.

Percorremos esta pequena e simpática cidade e usufruímos da sua praça principal em formato triangular.

Aqui, todos os sábados de manhã tem lugar um mercado. Como não era dia de mercado, aproveitámos por entrar em algumas das lojas da praça, nomeadamente na Antica Macelleria Falorni, um talho toscano que existe desde 1729. Para quem gosta de comer, tudo é apelativo. É difícil sair da loja. Só conseguimos esse feito depois de nos abastecermos com alguns dos saborosos enchidos da região.

Prosseguimos a nossa viagem pelos campos toscanos e parámos em Panzano in Chianti, uma cidadezinha localizada no topo de uma colina.
Cruzamo-nos logo com a Anticca Macceleria Cecchini, do famoso talhante Dario Cecchini. Logo que se entra esticam-nos um copo de vinho e apresentam-nos uma série de produtos para degustarmos. Gosto destes toscanos. Uma delícia.

De seguida caminhamos pelas ruas, vamos até à igreja de Santa Maria Assunta e admiramos as paisagens vinícolas, nomeadamente a Conca d’Oro, uma das paisagens mais pitorescas da região.

A paragem seguinte foi em Radda in Chianti, uma bonita cidadezinha medieval. Almoçámos na praça principal, bordeada pela igreja de origem romana San Niccolò, e percorremos as simpáticas ruazinhas.

Continuámos viagem até Castellina in Chianti, cidadezinha de origem etrusca, também localizada no topo de uma colina. Deambulámos pelas ruas, admirámos os legumes nas bancas das mercearias, desembocámos no adro da Igreja de San Salvatore e um pouco mais acima demos com a praça onde se localiza o Forte, o qual actualmente alberga os serviços municipais.

Da nossa incursão pelos campos e cidadezinhas toscanas, a jornada termina em San Gimignano. Trata-se de uma cidade medieval fantástica e surpreendente. É ponteada por uma série de torres. No total são 13, mas no passado a malha urbana era composta por muitas outras. Se já agora surpreende, não imagino como seria antes.
Subimos à Torre Grossa, a mais alta. Do topo alcançam-se vistas fantásticas e apreendemos a malha urbana, longitudinal e feita de ruas apertadas.

Em baixo encontra-se a Piazza della Cisterna, o núcleo antigo da cidade. Algumas pessoas atravessam a praça, a caminho da contígua Piazza del Duomo ou da Via San Giovanni, a rua principal rua comercial. Outras deixam-se estar sentadas na antiga cisterna, localizada no centro da praça. As sombras no chão são cada vez maiores. Denunciam o entardecer. Os pássaros voam e, tal como nós, assistem a toda a dinâmica lá em baixo.

O sol começa a declinar e vamos até às ruínas do Forte Rocca di Montestaffoli, onde se localiza também o Museu do Vinho. Sentamo-nos a absorver a atmosfera, a paisagem, o som suave que vem dos instrumentos que uns músicos tacteiam. Deixamo-nos estar. Tranquilamente.

Depois, seguimos a nossa jornada e continuamos a percorremos calmamente as ruas desta cidade única, que rapidamente nos conquista. Tudo é perfeito e bonito.

Antes de a noite chegar e de seguirmos viagem para Siena, procuramos um ponto de vista mais distante que nos permita ter outra visão sobre a cidade.
Afastamo-nos pelas estradas sinuosas da Toscânia. Damos com uma estradinha que sobe uma colina. Vamos nesse sentido. Percebemos que se trata do acesso a uma quinta vinícola. Não interessa, sabemos que aquele é o caminho certo. Encontramos o que procurávamos. Eis que temos uma visão sublime. Os campos e ao fundo a cidade e o seu edificado.

De longe, apesar de escalas diferentes, o skyline de San Gimignano parece o de Manhattan. É como se estivéssemos em Brooklyn a olhar para a Baixa de Nova Iorque. Mas não. Aqui o tempo histórico parece ser outro. Recuamos à época medieval. Tudo é orgânico, singelo, harmonioso e surpreendente. Uma maravilha.

Florença

Florença. Primavera 2015. Há 538 anos, em 1482, a Primavera ficou famosa até hoje. Foi nesse ano que Sandro Botticelli criou o quadro A Primavera, uma das grandes obras do Renascimento e uma das referência que ninguém quer perder na Galleria degli Uffizi.

Florença é toda ela Renascimento, o período entre o final do século XIV e o início do século XVII, no qual se volta a redescobrir e a valorizar as referências culturais da antiguidade clássica.

Na Primavera de 2015 a cidade que encontramos não será muito diferente da de há mais de 500 anos atrás. Não na frequência, pois actualmente está repleta de turistas, mas sim na estrutura urbana.
O Arno, rio que banha a cidade, está lá desde sempre. E, provavelmente, desde sempre fascina, sobretudo ao entardecer, e marca a morfologia da cidade, ao separá-la em duas partes (o centro da cidade a norte e Oltrarno a sul), que se ligam por várias pontes.

Uma dessas pontes, a Ponte Vecchio, é um símbolo desde há muitos séculos. Pensa-se que tenha sido construída originalmente, em madeira, na Roma Antiga, sendo reconstruída em 1345, após ter sido destruída por umas cheias uns anos antes.

Pela Ponte Vecchio, passa o Corredor Varasi, construído pelo arquitecto Giorgi Varasi, em 1565, quando Cosimo I, pelo casamento do seu filho Francesco I, quis surpreender todos ao construir uma “via aérea” que unia o Palazzo Vecchio na Piazza della Signoria ao Palazzo Pitti. Esse corredor, para além de demonstrar a grandeza e o poder de Cosimo I, permitiu que a família Médici se movimentasse em segurança.

Bastidores à parte, a Piazza della Signoria surpreende pela diversidade dos elementos que a compõem. É possível chegar à maior praça da cidade através de oito ruas. Qualquer ângulo de chegada à praça, de forma irregular, surpreende. Seja pela imponência do Palazzo Vecchio, pelas várias estátuas, como a fonte de Neptuno, a réplica de David de Michelangelo, a estátua de Hércules e Caco de Baccio Bandinelli, a dimensão das arcadas e conteúdo da Loggia dei Lanzi, as cores dos edifícios.

Uma das ruas que desemboca na Piazza della Signora é a que dá acesso à Galleria degli Uffizi, a sul. Aqui, para além da Primavera de Botticelli, podemos admirar muitas outras obras, nomeadamente, também de Botticelli, o extraordinário Nascimento de Vênus, a partir de uma concha enquanto Zéfiro sopra em direcção à deusa. Nascimento bem mais plácido do que o do comum dos mortais.
Para norte, a Via Calzaiuoli, liga a Piazza della Signora à Piazza del Duomo, onde se encontra o Baptistério e a Catedral de Santa Maria del Fiore (Duomo). O Duomo, cujos trabalhos de construção decorreram durante seis séculos (começou no final do século XIII), impressiona, quer pela dimensão como pela arquitectura e materiais utilizados, mármores coloridos que se destacam das restantes construções da cidade, onde predomina o ocre.

A cúpula e o campanário, sobretudo o primeiro elemento, destacam-se na paisagem urbana de malha apertada. É curioso como quando caminhamos pela cidade sentimos que a cúpula do Duomo é omnipresente e, frequentemente, descobrimos novas perspectivas da mesma.

Do topo, tanto da cúpula como do campanário alcançam-se vistas espantosas sobre a cidade.

O interior da cúpula ainda consegue ser mais surpreendente que o exterior.

Para nascente, a partir também da Piazza della Signora, alcança-se a Piazza di Santa Croce, onde se encontra a Basílica com o mesmo nome. Neste espaço estão sepultados alguns ilustres italianos, como Michelangelo, Galileu, Maquiavel. Já Dante ficou à porta. Não foi autorizado a ter ali a última morada, mas, talvez por peso na consciência, fizeram-lhe posteriormente um monumento junto à Basílica.

A cidade italiana é feita morfologicamente por um conjunto de praças. Para além das já referidas, na nossa incursão pela cidade desembocámos em muitas outras. Como a Piazza della Repubblica, Piazza di Santa Maria Novella, Piazza Santissima Annunziata.

Próximo desta última praça absorvemos o acervo da Galleria della Academia, contigua à Universidade de Florença, e onde encontrámos outra obra emblemática do Renascimento, o David de Michelangelo. Qual voyeurs observámos aquele corpo escultural de todos os ângulos possíveis.

 

Na Piazza di Santa Maria Novella, do lado oposto à igreja com o mesmo nome, que apresenta os mesmos materiais do Duomo, visitamos o Museu Novecento, nas antigas instalações de um Hospital, que tem no seu acervo arte italiana do século XX.
Não muito longe de Santa Maria Novella, onde se situa também a principal estação de comboios de Florença, encontra-se o Mercado Central, cujo segundo piso, após anos encerrado, foi refuncionalizado como área de restauração, tendência semelhante à seguida em outras cidades europeias. 
Ainda do lado norte, do rio Arno, a poente do centro da cidade, localiza-se uma das poucas obras arquitetónicas recentes, o Nuovo Teatro dell’Opera de Florença. Trata-se de um projecto magnífico do atelier italiano ABDR. Surpreende a solução criativa de anfiteatro ao ar livre, onde do topo se vislumbra a cidade e, invariavelmente, o Duomo como destaque.
Do lado sul do Arno, atravessando a Ponte Vecchio ou uma outra, encontramos o bairro Oltrarno. É aqui que se localizam o Palácio Pitti, um dos extremos do tal Corredor Varasi, e a inclinada Piazza dei Pitti. Inicialmente este Palácio Renascentista era propriedade de Luca Pitti, um banqueiro, cuja família passado umas décadas vendeu a propriedade à família Médici.
Adjacente ao Palácio encontra-se os Jardins Boboli, uma referência mundial de jardim histórico.
O coração de Oltrarno está na Piazza Santo Spirito, onde nos finais de tarde a população local se reúne para um aperitivo, essa instituição italiana. Seguimos a máxima, mas adaptámo-la. Em Florença sê florentino.
Também do outro lado do Arno, num ponto alto fica a Abazzia di San Miniato al Monte e a Piazzale Michelangelo, de onde os entardeceres e anoiteceres têm outro encanto.

Da Piazzale Michelangelo, apesar de um ponto mais baixo que a Abazzia, é onde se tem a melhor vista sobre Florença. Aqui, percebe-se a diferença de escala e quão avassalador é o Duomo na estrutura da cidade. Dali entende-se também, se houver dúvidas, o magnetismo de Florença e o porquê de ser considerada uma das cidades mais belas do mundo. O que os olhos alcançam são testemunha disso.

Roma Moderna e "Futurista"

A Roma moderna e “futurista”, que não conhecia, passou a estar nas minhas eleitas.
Esclarecendo: da Roma moderna dou dois exemplos, o Eur e o Foro Italico, ambos projectos de arquitectura fascista; da Roma “futurista” outros dois exemplos, o Maxxi de Zaha Hadid e o Parco della Musica de Renzo Piano.
Eur é o acrónimo de Exposição Universal de Roma. Esta exposição era para ter sido realizada em 1942, mas a Guerra cancelou-a. Para nós, cujo presente hoje vivemos, ficou esta zona periférica da cidade onde foi experimentada a execução de um plano de expansão urbanística que revelasse a arquitectura fascista promovida por Benito Mussolini.
À criação desta nova centralidade – para onde existe metro à distância de uma não muito longa viagem desde o centro de Roma – estão ligados os sonhos de grandeza do novo império que estava a ser criado pelo Duce. A grandiosidade e a megalomania fascistas pretendiam recriar a Roma Antiga, uma expansão da “Terceira Roma” no sentido do mar, de Ostia, com grandes avenidas e uma arquitectura colossal, geométrica e simétrica. Uma arquitectura racional e funcional, moderna para os seus tempos (daí este género de arquitectura que emergiu nos anos 20 do século passado ser conhecido como “racionalismo” – a arte e a arquitectura sob controlo directo do estado para melhor servir os seus propósitos). Ou seja, pretendia-se através de toda uma estética expressar a ideologia fascista. 
Houve na época um amplo debate em Itália onde noções de modernidade e romanidade estiveram em discussão. A ideia era a criação de uma Roma monumental do século XX, em que os cidadãos não poderiam permanecer apenas contemplativos, limitando-se a explorar a sua herança cultural. Havia que criar uma nova herança viva a par da antiga, uma nova arte, a arte dos nossos tempos: a arte fascista.
A justaposição do romano antigo e do romano moderno iria levar a uma recíproca validação para os monumentos e criar a grandeza típica da cidade antiga, tão necessária à cidade fascista, sem que houvesse um corte com a tradição – esta é que se transformaria de forma a assumir novos aspectos que levariam a esta nova expressão.

O maior exemplo e símbolo do Eur é o Palazzo della Civiltà di Lavoro, o Coliseu Quadrado. Monumental, grandioso, imponente. Uma alvura que faz crer na perfeição. Do meu ponto de vista, as formas são elegantes e é uma acertada recriação do maior símbolo de Roma, o Coliseu do século I, o “legítimo”.
O espaço do Eur, cuja construção se foi prolongando pelos anos 50 e 60 e chegou a acolher provas dos Jogos Olímpicos de Roma de 1960, é feito de avenidas grandes, construção de habitação em altura e muitos edifícios que são hoje ocupados por serviços públicos e museus. Acredito que o bairro tenha vida. E digo isto porque o visitei na manhã do primeiro dia do ano, feriado, portanto, e via-se gente a correr nas suas ruas, gente nos cafés abertos, gente junto ao parque e lago onde fica o Palazzo delle Sport (complexo multifunções que acolhe desde eventos desportivos, concertos até congressos).

Aqui e ali vêem-se detalhes evocativos da Roma Antiga, seja nos edifícios (o Coliseu Quadrado remete para o Coliseu, o Palazzo dei Congressi para o Panteão, a igreja de Santi Pietro e Paolo para a catedral de São Pedro no Vaticano), seja nos mosaicos, relevos, ou até no obelisco / coluna dedicado a Marconi que fica no centro do Eur. 
Todo um sonho de expansão.
Outro exemplo da Roma Moderna é o Foro Italico. Antes de aqui ter estado já os seus campos de ténis me tinham dado umas quantas alegrias: seis finais e quatro vitórias para Gabriela Sabatini no final dos anos 80 e princípios dos 90. Mas o Foro Italico é muito mais do que o mega complexo de ténis. Anteriormente designado por Foro Mussolini, fica à beira do Tibre, na margem contrária ao bairro Flaminio, lugar do Maxxi e do Parco della Musica, daí que seja uma boa combinação para ocupar um dia inteiro com esta Roma menos batida pelos turistas. A sua construção teve início na década de 20 do século passado e buscou inspiração nos fóruns imperiais da Roma Antiga. Foi idealizado por Enrico Del Debbio e é hoje um complexo de infra-estruturas desportivas que incluem ainda o Estádio Olímpico (casa dos clubes de futebol AS Roma e Lazio) e o Estádio da Natação. Os Jogos Olímpicos de 1960 realizaram-se em grande parte aqui.
A felicidade com o Foro Italico voltou ao conhecer dois dos seus maiores exemplos que revelam na perfeição a ideologia fascista subjacente a esta arquitetura e arte. 

Um deles, o Palazzo delle Terme (hoje Auditório da Rai), com a sua belíssima piscina decorada com mosaicos de homens másculos e perfeitos. Deve ser um prazer e uma inspiração aqui mergulhar e dar umas braçadas.

O outro, o Estádio dei Marmi, cujo culto do corpo é também o tema. A toda a volta deste pequeno estádio encontramos esculturas de homens-deuses em pleno acto de exercício físico, representando os vários desportos ou tão somente a ideologia do homens forte, raça pura, raça superior. Ideologia à parte e sem culpa consegue-se admirar profundamente estas verdadeiras obras de arte.

Percorrendo a avenida do Estádio Olímpico, com o piso adornado de mosaicos desportivos e lembranças ao Duce, e atravessando o rio encontramos sem muita demora o Maxxi de Zaha Hadid, provavelmente a máxima expressão da Roma “futurista”.

Este projecto, do qual só parece obter-se uma real impressão através de vista aérea, é uma loucura de linhas curvas contorcidas implantadas num terreno que outrora havia sido ocupado por uma fábrica. Zaha Hadid é uma arquitecta espectáculo que tenta evitar os ângulos rectos em benefício das diagonais. Aqui, adapta o seu edifício aos restantes edifícios históricos que são hoje uma cafeteria e pequenas salas multifunções, todos reunidos num mesmo espaço com um pátio comum.
Concluído em 2010, o Museu Nacional para as Artes do Século XXI pretende ser, assim, um conjunto de edifícios acessíveis para todos – está numa área urbana – dedicado à criatividade contemporânea, nomeadamente nos domínios das artes e arquitectura.

O interior, como não podia deixar de ser, é igualmente um constante de paredes curvas e escadas suspensas, sempre expostos à máxima luz natural. 
A uma curta caminhada a pé desde o Maxxi, cerca de 10 minutos em direcção a um extenso pedaço verde da cidade, encontramos o Parco della Musica Auditorium, de Renzo Piano. Construído entre os anos 1994 e 2002, esta é uma cidade dedicada à música. Durante a sua construção foram descobertas as ruínas de uma quinta do século IV e estas acabaram por ficar integradas no novo espaço. 

São três auditórios em forma de concha mais um anfiteatro ao ar livre no centro cujo palco, na época do ano em que o visitei, estava transformado numa pista de gelo. 
Os auditórios conchas são assim caixas de música, cujas cores e materiais remetem para elementos tradicionais romanos, como as cúpulas da paisagem de Roma ou os laranjas dos seus edifícios. Cada um deles tem a função de acolher, um, concertos sinfónicos, outro, ballet e música contemporânea, outro ainda, óperas, música barroca e teatro.

Uma palavra final para um graffiti na Via Prenestina. Por Roma encontram-se demasiados rabiscos sem outra função que não sujar. Mas este, do brasileiro Kobra, é uma verdadeira obra de arte, uma homenagem a Malala e uma vontade de união de todas as religiões, atitude acertada nesta Roma do século XXI que já não se expande mas acolhe quem a ela chega.