Giro Pela Toscânia

Partimos de Florença, a maior cidade da Toscânia, para um périplo pela região, nomeadamente pelo Chianti, a área do vinho toscano.
A Primavera iniciara-se recentemente e os campos ainda não estavam verdejantes nem muito floridos. Não sei se por essa razão, a paisagem apesar de bonita não me impressionou. Julgo contudo, que tendo como referência a paisagem vinícola do Douro, é difícil haver uma superação.

Seguimos a estrada local SR222, conhecida como Via Chiantigiana e começámos por parar em Greve in Chianti.

Percorremos esta pequena e simpática cidade e usufruímos da sua praça principal em formato triangular.

Aqui, todos os sábados de manhã tem lugar um mercado. Como não era dia de mercado, aproveitámos por entrar em algumas das lojas da praça, nomeadamente na Antica Macelleria Falorni, um talho toscano que existe desde 1729. Para quem gosta de comer, tudo é apelativo. É difícil sair da loja. Só conseguimos esse feito depois de nos abastecermos com alguns dos saborosos enchidos da região.

Prosseguimos a nossa viagem pelos campos toscanos e parámos em Panzano in Chianti, uma cidadezinha localizada no topo de uma colina.
Cruzamo-nos logo com a Anticca Macceleria Cecchini, do famoso talhante Dario Cecchini. Logo que se entra esticam-nos um copo de vinho e apresentam-nos uma série de produtos para degustarmos. Gosto destes toscanos. Uma delícia.

De seguida caminhamos pelas ruas, vamos até à igreja de Santa Maria Assunta e admiramos as paisagens vinícolas, nomeadamente a Conca d’Oro, uma das paisagens mais pitorescas da região.

A paragem seguinte foi em Radda in Chianti, uma bonita cidadezinha medieval. Almoçámos na praça principal, bordeada pela igreja de origem romana San Niccolò, e percorremos as simpáticas ruazinhas.

Continuámos viagem até Castellina in Chianti, cidadezinha de origem etrusca, também localizada no topo de uma colina. Deambulámos pelas ruas, admirámos os legumes nas bancas das mercearias, desembocámos no adro da Igreja de San Salvatore e um pouco mais acima demos com a praça onde se localiza o Forte, o qual actualmente alberga os serviços municipais.

Da nossa incursão pelos campos e cidadezinhas toscanas, a jornada termina em San Gimignano. Trata-se de uma cidade medieval fantástica e surpreendente. É ponteada por uma série de torres. No total são 13, mas no passado a malha urbana era composta por muitas outras. Se já agora surpreende, não imagino como seria antes.
Subimos à Torre Grossa, a mais alta. Do topo alcançam-se vistas fantásticas e apreendemos a malha urbana, longitudinal e feita de ruas apertadas.

Em baixo encontra-se a Piazza della Cisterna, o núcleo antigo da cidade. Algumas pessoas atravessam a praça, a caminho da contígua Piazza del Duomo ou da Via San Giovanni, a rua principal rua comercial. Outras deixam-se estar sentadas na antiga cisterna, localizada no centro da praça. As sombras no chão são cada vez maiores. Denunciam o entardecer. Os pássaros voam e, tal como nós, assistem a toda a dinâmica lá em baixo.

O sol começa a declinar e vamos até às ruínas do Forte Rocca di Montestaffoli, onde se localiza também o Museu do Vinho. Sentamo-nos a absorver a atmosfera, a paisagem, o som suave que vem dos instrumentos que uns músicos tacteiam. Deixamo-nos estar. Tranquilamente.

Depois, seguimos a nossa jornada e continuamos a percorremos calmamente as ruas desta cidade única, que rapidamente nos conquista. Tudo é perfeito e bonito.

Antes de a noite chegar e de seguirmos viagem para Siena, procuramos um ponto de vista mais distante que nos permita ter outra visão sobre a cidade.
Afastamo-nos pelas estradas sinuosas da Toscânia. Damos com uma estradinha que sobe uma colina. Vamos nesse sentido. Percebemos que se trata do acesso a uma quinta vinícola. Não interessa, sabemos que aquele é o caminho certo. Encontramos o que procurávamos. Eis que temos uma visão sublime. Os campos e ao fundo a cidade e o seu edificado.

De longe, apesar de escalas diferentes, o skyline de San Gimignano parece o de Manhattan. É como se estivéssemos em Brooklyn a olhar para a Baixa de Nova Iorque. Mas não. Aqui o tempo histórico parece ser outro. Recuamos à época medieval. Tudo é orgânico, singelo, harmonioso e surpreendente. Uma maravilha.

Florença

Florença. Primavera 2015. Há 538 anos, em 1482, a Primavera ficou famosa até hoje. Foi nesse ano que Sandro Botticelli criou o quadro A Primavera, uma das grandes obras do Renascimento e uma das referência que ninguém quer perder na Galleria degli Uffizi.

Florença é toda ela Renascimento, o período entre o final do século XIV e o início do século XVII, no qual se volta a redescobrir e a valorizar as referências culturais da antiguidade clássica.

Na Primavera de 2015 a cidade que encontramos não será muito diferente da de há mais de 500 anos atrás. Não na frequência, pois actualmente está repleta de turistas, mas sim na estrutura urbana.
O Arno, rio que banha a cidade, está lá desde sempre. E, provavelmente, desde sempre fascina, sobretudo ao entardecer, e marca a morfologia da cidade, ao separá-la em duas partes (o centro da cidade a norte e Oltrarno a sul), que se ligam por várias pontes.

Uma dessas pontes, a Ponte Vecchio, é um símbolo desde há muitos séculos. Pensa-se que tenha sido construída originalmente, em madeira, na Roma Antiga, sendo reconstruída em 1345, após ter sido destruída por umas cheias uns anos antes.

Pela Ponte Vecchio, passa o Corredor Varasi, construído pelo arquitecto Giorgi Varasi, em 1565, quando Cosimo I, pelo casamento do seu filho Francesco I, quis surpreender todos ao construir uma “via aérea” que unia o Palazzo Vecchio na Piazza della Signoria ao Palazzo Pitti. Esse corredor, para além de demonstrar a grandeza e o poder de Cosimo I, permitiu que a família Médici se movimentasse em segurança.

Bastidores à parte, a Piazza della Signoria surpreende pela diversidade dos elementos que a compõem. É possível chegar à maior praça da cidade através de oito ruas. Qualquer ângulo de chegada à praça, de forma irregular, surpreende. Seja pela imponência do Palazzo Vecchio, pelas várias estátuas, como a fonte de Neptuno, a réplica de David de Michelangelo, a estátua de Hércules e Caco de Baccio Bandinelli, a dimensão das arcadas e conteúdo da Loggia dei Lanzi, as cores dos edifícios.

Uma das ruas que desemboca na Piazza della Signora é a que dá acesso à Galleria degli Uffizi, a sul. Aqui, para além da Primavera de Botticelli, podemos admirar muitas outras obras, nomeadamente, também de Botticelli, o extraordinário Nascimento de Vênus, a partir de uma concha enquanto Zéfiro sopra em direcção à deusa. Nascimento bem mais plácido do que o do comum dos mortais.
Para norte, a Via Calzaiuoli, liga a Piazza della Signora à Piazza del Duomo, onde se encontra o Baptistério e a Catedral de Santa Maria del Fiore (Duomo). O Duomo, cujos trabalhos de construção decorreram durante seis séculos (começou no final do século XIII), impressiona, quer pela dimensão como pela arquitectura e materiais utilizados, mármores coloridos que se destacam das restantes construções da cidade, onde predomina o ocre.

A cúpula e o campanário, sobretudo o primeiro elemento, destacam-se na paisagem urbana de malha apertada. É curioso como quando caminhamos pela cidade sentimos que a cúpula do Duomo é omnipresente e, frequentemente, descobrimos novas perspectivas da mesma.

Do topo, tanto da cúpula como do campanário alcançam-se vistas espantosas sobre a cidade.

O interior da cúpula ainda consegue ser mais surpreendente que o exterior.

Para nascente, a partir também da Piazza della Signora, alcança-se a Piazza di Santa Croce, onde se encontra a Basílica com o mesmo nome. Neste espaço estão sepultados alguns ilustres italianos, como Michelangelo, Galileu, Maquiavel. Já Dante ficou à porta. Não foi autorizado a ter ali a última morada, mas, talvez por peso na consciência, fizeram-lhe posteriormente um monumento junto à Basílica.

A cidade italiana é feita morfologicamente por um conjunto de praças. Para além das já referidas, na nossa incursão pela cidade desembocámos em muitas outras. Como a Piazza della Repubblica, Piazza di Santa Maria Novella, Piazza Santissima Annunziata.

Próximo desta última praça absorvemos o acervo da Galleria della Academia, contigua à Universidade de Florença, e onde encontrámos outra obra emblemática do Renascimento, o David de Michelangelo. Qual voyeurs observámos aquele corpo escultural de todos os ângulos possíveis.

 

Na Piazza di Santa Maria Novella, do lado oposto à igreja com o mesmo nome, que apresenta os mesmos materiais do Duomo, visitamos o Museu Novecento, nas antigas instalações de um Hospital, que tem no seu acervo arte italiana do século XX.
Não muito longe de Santa Maria Novella, onde se situa também a principal estação de comboios de Florença, encontra-se o Mercado Central, cujo segundo piso, após anos encerrado, foi refuncionalizado como área de restauração, tendência semelhante à seguida em outras cidades europeias. 
Ainda do lado norte, do rio Arno, a poente do centro da cidade, localiza-se uma das poucas obras arquitetónicas recentes, o Nuovo Teatro dell’Opera de Florença. Trata-se de um projecto magnífico do atelier italiano ABDR. Surpreende a solução criativa de anfiteatro ao ar livre, onde do topo se vislumbra a cidade e, invariavelmente, o Duomo como destaque.
Do lado sul do Arno, atravessando a Ponte Vecchio ou uma outra, encontramos o bairro Oltrarno. É aqui que se localizam o Palácio Pitti, um dos extremos do tal Corredor Varasi, e a inclinada Piazza dei Pitti. Inicialmente este Palácio Renascentista era propriedade de Luca Pitti, um banqueiro, cuja família passado umas décadas vendeu a propriedade à família Médici.
Adjacente ao Palácio encontra-se os Jardins Boboli, uma referência mundial de jardim histórico.
O coração de Oltrarno está na Piazza Santo Spirito, onde nos finais de tarde a população local se reúne para um aperitivo, essa instituição italiana. Seguimos a máxima, mas adaptámo-la. Em Florença sê florentino.
Também do outro lado do Arno, num ponto alto fica a Abazzia di San Miniato al Monte e a Piazzale Michelangelo, de onde os entardeceres e anoiteceres têm outro encanto.

Da Piazzale Michelangelo, apesar de um ponto mais baixo que a Abazzia, é onde se tem a melhor vista sobre Florença. Aqui, percebe-se a diferença de escala e quão avassalador é o Duomo na estrutura da cidade. Dali entende-se também, se houver dúvidas, o magnetismo de Florença e o porquê de ser considerada uma das cidades mais belas do mundo. O que os olhos alcançam são testemunha disso.

Roma Moderna e "Futurista"

A Roma moderna e “futurista”, que não conhecia, passou a estar nas minhas eleitas.
Esclarecendo: da Roma moderna dou dois exemplos, o Eur e o Foro Italico, ambos projectos de arquitectura fascista; da Roma “futurista” outros dois exemplos, o Maxxi de Zaha Hadid e o Parco della Musica de Renzo Piano.
Eur é o acrónimo de Exposição Universal de Roma. Esta exposição era para ter sido realizada em 1942, mas a Guerra cancelou-a. Para nós, cujo presente hoje vivemos, ficou esta zona periférica da cidade onde foi experimentada a execução de um plano de expansão urbanística que revelasse a arquitectura fascista promovida por Benito Mussolini.
À criação desta nova centralidade – para onde existe metro à distância de uma não muito longa viagem desde o centro de Roma – estão ligados os sonhos de grandeza do novo império que estava a ser criado pelo Duce. A grandiosidade e a megalomania fascistas pretendiam recriar a Roma Antiga, uma expansão da “Terceira Roma” no sentido do mar, de Ostia, com grandes avenidas e uma arquitectura colossal, geométrica e simétrica. Uma arquitectura racional e funcional, moderna para os seus tempos (daí este género de arquitectura que emergiu nos anos 20 do século passado ser conhecido como “racionalismo” – a arte e a arquitectura sob controlo directo do estado para melhor servir os seus propósitos). Ou seja, pretendia-se através de toda uma estética expressar a ideologia fascista. 
Houve na época um amplo debate em Itália onde noções de modernidade e romanidade estiveram em discussão. A ideia era a criação de uma Roma monumental do século XX, em que os cidadãos não poderiam permanecer apenas contemplativos, limitando-se a explorar a sua herança cultural. Havia que criar uma nova herança viva a par da antiga, uma nova arte, a arte dos nossos tempos: a arte fascista.
A justaposição do romano antigo e do romano moderno iria levar a uma recíproca validação para os monumentos e criar a grandeza típica da cidade antiga, tão necessária à cidade fascista, sem que houvesse um corte com a tradição – esta é que se transformaria de forma a assumir novos aspectos que levariam a esta nova expressão.

O maior exemplo e símbolo do Eur é o Palazzo della Civiltà di Lavoro, o Coliseu Quadrado. Monumental, grandioso, imponente. Uma alvura que faz crer na perfeição. Do meu ponto de vista, as formas são elegantes e é uma acertada recriação do maior símbolo de Roma, o Coliseu do século I, o “legítimo”.
O espaço do Eur, cuja construção se foi prolongando pelos anos 50 e 60 e chegou a acolher provas dos Jogos Olímpicos de Roma de 1960, é feito de avenidas grandes, construção de habitação em altura e muitos edifícios que são hoje ocupados por serviços públicos e museus. Acredito que o bairro tenha vida. E digo isto porque o visitei na manhã do primeiro dia do ano, feriado, portanto, e via-se gente a correr nas suas ruas, gente nos cafés abertos, gente junto ao parque e lago onde fica o Palazzo delle Sport (complexo multifunções que acolhe desde eventos desportivos, concertos até congressos).

Aqui e ali vêem-se detalhes evocativos da Roma Antiga, seja nos edifícios (o Coliseu Quadrado remete para o Coliseu, o Palazzo dei Congressi para o Panteão, a igreja de Santi Pietro e Paolo para a catedral de São Pedro no Vaticano), seja nos mosaicos, relevos, ou até no obelisco / coluna dedicado a Marconi que fica no centro do Eur. 
Todo um sonho de expansão.
Outro exemplo da Roma Moderna é o Foro Italico. Antes de aqui ter estado já os seus campos de ténis me tinham dado umas quantas alegrias: seis finais e quatro vitórias para Gabriela Sabatini no final dos anos 80 e princípios dos 90. Mas o Foro Italico é muito mais do que o mega complexo de ténis. Anteriormente designado por Foro Mussolini, fica à beira do Tibre, na margem contrária ao bairro Flaminio, lugar do Maxxi e do Parco della Musica, daí que seja uma boa combinação para ocupar um dia inteiro com esta Roma menos batida pelos turistas. A sua construção teve início na década de 20 do século passado e buscou inspiração nos fóruns imperiais da Roma Antiga. Foi idealizado por Enrico Del Debbio e é hoje um complexo de infra-estruturas desportivas que incluem ainda o Estádio Olímpico (casa dos clubes de futebol AS Roma e Lazio) e o Estádio da Natação. Os Jogos Olímpicos de 1960 realizaram-se em grande parte aqui.
A felicidade com o Foro Italico voltou ao conhecer dois dos seus maiores exemplos que revelam na perfeição a ideologia fascista subjacente a esta arquitetura e arte. 

Um deles, o Palazzo delle Terme (hoje Auditório da Rai), com a sua belíssima piscina decorada com mosaicos de homens másculos e perfeitos. Deve ser um prazer e uma inspiração aqui mergulhar e dar umas braçadas.

O outro, o Estádio dei Marmi, cujo culto do corpo é também o tema. A toda a volta deste pequeno estádio encontramos esculturas de homens-deuses em pleno acto de exercício físico, representando os vários desportos ou tão somente a ideologia do homens forte, raça pura, raça superior. Ideologia à parte e sem culpa consegue-se admirar profundamente estas verdadeiras obras de arte.

Percorrendo a avenida do Estádio Olímpico, com o piso adornado de mosaicos desportivos e lembranças ao Duce, e atravessando o rio encontramos sem muita demora o Maxxi de Zaha Hadid, provavelmente a máxima expressão da Roma “futurista”.

Este projecto, do qual só parece obter-se uma real impressão através de vista aérea, é uma loucura de linhas curvas contorcidas implantadas num terreno que outrora havia sido ocupado por uma fábrica. Zaha Hadid é uma arquitecta espectáculo que tenta evitar os ângulos rectos em benefício das diagonais. Aqui, adapta o seu edifício aos restantes edifícios históricos que são hoje uma cafeteria e pequenas salas multifunções, todos reunidos num mesmo espaço com um pátio comum.
Concluído em 2010, o Museu Nacional para as Artes do Século XXI pretende ser, assim, um conjunto de edifícios acessíveis para todos – está numa área urbana – dedicado à criatividade contemporânea, nomeadamente nos domínios das artes e arquitectura.

O interior, como não podia deixar de ser, é igualmente um constante de paredes curvas e escadas suspensas, sempre expostos à máxima luz natural. 
A uma curta caminhada a pé desde o Maxxi, cerca de 10 minutos em direcção a um extenso pedaço verde da cidade, encontramos o Parco della Musica Auditorium, de Renzo Piano. Construído entre os anos 1994 e 2002, esta é uma cidade dedicada à música. Durante a sua construção foram descobertas as ruínas de uma quinta do século IV e estas acabaram por ficar integradas no novo espaço. 

São três auditórios em forma de concha mais um anfiteatro ao ar livre no centro cujo palco, na época do ano em que o visitei, estava transformado numa pista de gelo. 
Os auditórios conchas são assim caixas de música, cujas cores e materiais remetem para elementos tradicionais romanos, como as cúpulas da paisagem de Roma ou os laranjas dos seus edifícios. Cada um deles tem a função de acolher, um, concertos sinfónicos, outro, ballet e música contemporânea, outro ainda, óperas, música barroca e teatro.

Uma palavra final para um graffiti na Via Prenestina. Por Roma encontram-se demasiados rabiscos sem outra função que não sujar. Mas este, do brasileiro Kobra, é uma verdadeira obra de arte, uma homenagem a Malala e uma vontade de união de todas as religiões, atitude acertada nesta Roma do século XXI que já não se expande mas acolhe quem a ela chega.

Roma Clássica, entre o Renascimento e o Barroco

O império romano, apesar de ter tido ao seu comando diversos líderes fantásticos e visionários, teve também loucos mais preocupados com orgias e incendiários (casos históricos de Caligula e Nero) e homens banais que foram levando a um desgaste. Quando Constantino criou Constantinopla, no século IV, como uma nova capital esse foi um forte pretexto para o já esperado declínio do império romano do ocidente.
Roma era já cristã e os papas viriam a ter domínio sobre a cidade.
Mas, para memória futura, parece haver um lapso de importância da cidade até ao renascimento (século XV) e ao barroco (século XVII) emergirem e darem uma nova cara à cidade – apaixonante até aos dias de hoje.
Com efeito, estas épocas produziram uma profunda influência na cidade e muito do que hoje vemos e admiramos é um seu legado. Michelangelo deixou a sua marca um pouco por toda a cidade e a par do barroco de Bernini e Borromini ou Caravaggio são hoje os maiores produtos de ajuntamentos de turistas a nível global. Não obstante, é impossível deixar de visitar pela primeira vez ou voltar a ver estes lugares icónicos de Roma:
(A igreja de Trinitad dei Monti, no topo das Escadaria da Praça de Espanha – que Rilke via como cascatas -, e a Fontana di Trevi estavam em restauro e, logo, incapacitadas de serem admiradas em parte ou no todo)

Piazza Navona – na Roma antiga este era o espaço do antigo Estádio de Domiciano. Hoje a marca forte são as suas três fontes. Ao centro a Fonte dos Quatro Rios (representando os maiores até então conhecidos: Ganges, Nilo, Danúbio e Prata) donde sai o obelisco. Obra de Bernini, fica mesmo à porta da igreja de Sant’ Agnese in Agone, obra de Borromini. Diz-se que Bernini tapou o rosto de uma das suas estátuas para que esta não visse, em sinal de desprezo, a igreja do seu rival (as outras estátuas estão todas de rosto virado para outros lados). É com certeza falsidade, mas se não é vero é bem trovato – mais um dos mitos que nos faz enredar ainda mais em Roma. As outras fontes da Piazza Navona são a Fonte do Mouro, com o Deus do mar ao centro, e a Fonte de Neptuno, com este a arpoar o polvo. À volta da Piazza Navona ficam das ruas e praças mais encantadoras da cidade. Muito a descobrir, portanto.
Praça do Capitólio, cujo pavimento de linhas geométricas é obra de Miguel Ângelo (sem foto).
Boca da Verdade, só para assistir à fila interminável de indivíduos ávidos de confirmar o óbvio: mesmo que sejamos mentirosos a boca não morde (sem foto).
(Boca por boca e fila por fila, mais vale caminhar um pouco até Aventino)

Aventino, com as vistas fabulosas da cidade e com uma tranquilidade inspiradora. A Via di Santa Sabina concentra um sem número de igrejas (a dos Dominicanos é incrível) e miradouros. Destaque para a fechadura do edifício da Ordem de Malta, com vista directa para a Basílica de São Pedro antecedida de uma avenida rodeada de bosques – lindíssimo postal.

Obelisco de Santa Maria sopra Minerva, em 1667 Bernini criou esta delicada e exótica peça artística, colocando um obelisco no dorso de elefante em mármore.

Ponte de Santo Angêlo, com Mausoléu de Adriano ao fundo e acesso à Praça de São Pedro. A Bernini foi dada a missão de criar uma passagem simbólica para o Vaticano. A ponte já existia, mas o artista adornou-a com dez estátuas de anjos que transportam os símbolos da paixão de Cristo. Desta passadeira sobre o Tibre obtém-se vistas fantásticas de Roma, em especial das silhuetas da Basílica de São Pedro e outras igrejas ao final do dia.

Vaticano, mesmo que não se seja crente, não se pode deixar de ocupar um dia inteiro por aqui. A Praça de São Pedro, porta de entrada, foi desenhada por Bernini que procurou dar a imagem dos braços da igreja abertos para abraçar toda a humanidade. Dentro da Basílica de São Pedro, para cuja reconstrução no século XVI foram convidados os grandes mestres e génios da época, destaque para algumas obras de arte que se evidenciam no meio de muitas outras: o Baldaquino, de Bernini, e a Pieta e a cúpula, ambas de Miguel Ângelo. Desta última, do alto dos seus 136 metros de altura, obtém-se, provavelmente, as melhores vistas de toda a cidade de Roma. 
E, depois, ainda faltam os Museus do Vaticano. A entrada é só uma, mas as salas são tantas que é certeira a designação no plural. A sensação que aqui se tem é quase a mesma da de um hipermercado a um fim de semana, sempre cheio, com as pessoas a quererem chegar aos produtos mais famosos, ou seja, à Capela Sistina, de Miguel Ângelo. Bom para quem quer ver a Pinacoteca – fica na ala contrária e parece que a multidão não dá por ela. Destaque ainda para as imperdíveis Salas de Rafael e Galeria das Cartas Geográficas.

Quanto a palácios e vilas do renascimento, a eleita é a Vila d’ Este, no Tivoli. As famílias romanas, nessa época, construíram luxuosas residências, com jardins e edifícios com espaço suficiente para acolherem as suas coleções de arte. A Vila d’ Este é um excelente exemplo, possuindo uns jardins fabulosos onde a água é o elemento central. A colecção de fontes e cascatas é inesquecível e o cenário que as envolve um excelente coadjuvante.

Roma Antiga

Roma é uma das cidades continuamente habitadas mais antigas do mundo.
A sua fundação está envolta em mitos, como é desejável a qualquer boa e intemporal história.
Simplificando, diz-se que no tempo dos etruscos dois gémeos – Romulo e Remo – viram-se alimentados por uma loba e depois de, mais tarde, lutarem entre si, o primeiro fundaria Roma, no no ano de 753 a.C., no monte do Palatino.
A cultura romana foi sempre sincrética, juntando etruscos com diversos outros povos italianos. Ainda antes do império romano ter sido criado, vigorava então uma república, os romanos foram estendendo o seu território de tal forma que em 270 a.C. Roma controlava toda a Península italiana. 
É muito interessante verificar como muitas das expressões que hoje utilizamos provém da época ainda anterior à formação do império romano. Alguns exemplos: “Vitória de Pirro”, “Erro Crasso”, “Passar o Rubicão”.
A propósito desta última, com Júlio César começou o fim da república romana no século I a.C. Vivia-se, então, uma série de guerras civis e Júlio César ganharia o poder após o momento decisivo em que passou o Rio Rubicão e marchou triunfalmente até Roma em 49 a.C.
No entanto, seria o seu sucessor, César Augusto (Otaviano), o primeiro imperador de Roma.
Uma nova era surgiu e o império avançaria em todos os aspectos e com Trajano, em 116, atingiria a sua máxima expansão, indo até à Escócia, Arábia e Mesopotâmia.
A fonte de expressões, todavia, não terminou. Basta lembrar em Juvenal e no seu pão e circo.
Um dos aspectos mais reconhecidos hoje quando se refere ao Império Romano é o dos combates entre os gladiadores, sendo o Coliseu, inaugurado no ano 80, o símbolo maior de Roma. Este hábito, porém, provinha já dos etruscos que o utilizaram mais como rituais, em que as vítimas eram dadas como sacrifícios para os deuses. Os romanos seguiram esta prática, mas evoluíram-na para um espectáculo e entretenimento.

A paisagem romana é ainda hoje muito marcada por vestígios desta época – muitos deles em excelentes condições de serem totalmente percepcionados cerca de 2000 mais tarde.
Alguns exemplos, para além do já citado Coliseu:
Circo Máximo (vindo já do tempo dos etruscos), recinto enorme, com capacidade para 300000 pessoas, onde se efectuaram corridas entre o século IV a.C. e o século VI (sem foto).

Fórum, o coração da cidade, seja em matéria administrativa, legal, económica ou religiosa. A vista do Monte do Capitólio (o monte mais sagrado da Roma antiga) ou do Monte do Palatino (onde a cidade terá sido fundada) é abarcadora e esclarecedora. Mas só andando lá em baixo, por entre as ruínas, conseguimos imaginar os seus templos, basílicas e arcos do triunfo.

Panteão, o edifício da Roma antiga melhor conservado, com a sua sempre admirada cúpula, uma obra prima da engenharia do tempo de Adriano, século II. O orifício da cúpula dá-nos a única luz interior. Inspirador.

Termas de Caracalla, a reverência romana pela água (bem expressa nas inúmeras fontes um pouco por toda a cidade). Nas termas cultivava-se o espírito e o corpo, em rituais de purificação e na prática do desporto. As de Caracalla foram inauguradas no ano de 216 e eram conhecidas pela sua rica decoração, com abundantes mosaicos e esculturas. Hoje é um lugar grandioso para se visitar.

Vila Adriana, mandada construir por Adriano em Tivoli, a cerca de 30 kms de Roma. Este conjunto imenso de pavilhões, jardins e lagos é o resultado das viagens que o imperador fez ao longo da sua vida e da paixão que mostrava pelas culturas e arquitecturas que ia encontrando. Dificilmente haverá um local mais ideal para passar o dia a ler Marguerite Yourcenar e as suas “Memórias de Adriano”.

Roma 2014-15

Dezanove anos depois voltei a Roma. 
A ideia que levava da minha primeira visita ainda no século passado era a de que em pleno Outubro mal conseguira cruzar-me com romanos, tal era a quantidade de turistas já naquela época. Logo, as expectativas quanto à possibilidade de no final do ano de 2014 ter um momento de sossego e introspecção face a face com as obras da antiguidade e da renascença eram diminutas. É a postura correcta, a não ser que se escolha o horário entre as 8:00 e as 9:00 da manhã para visitar os locais mais conhecidos de Roma.
Um aviso, porém: é impossível visitar Roma sem que algo esteja em restauro ou reforma. É uma constante e não há que lamentar isso, afinal o que faz Roma ser Roma é o seu passado e esse tem de ser continuamente cuidado. Felizmente, Roma tem também presente e terá futuro. E, felizmente também, esses os demais turistas não estão preocupados em conhecer.
Explicando melhor, Roma é, na verdade, impossível nos dias que correm. A competição por visitar as suas praças e fontes e as obras dos seus artistas, em especial do barroco, é altamente disputada. Há que estar bem preparada fisicamente para ganhar um lugar mais à frente a todos os estrangeiros que conosco competem pela melhor vista. Se há umas centenas de anos foram os ingleses e alemães que se deixaram seduzir por Roma como ponto de passagem no seu Grand Tour, hoje a concorrência feroz inclui chineses e russos.
Acontece que, para ajudar à decisão de fugir dos locais mais batidos, os romanos de hoje não parecem ter o mesmo gosto e estética que tanto encantou Goethe no século XVIII e o fez eleger Roma como a escola da sua formação estética. A chegada a Roma está hoje longe de poder ser considerada um segundo nascimento e a mudança interior só poderá ser para pior quando se entra pela Piazza Navona e se constata com pavor que entre as suas belíssimas fontes está instalado um carrossel e bancas com figuras que serão abatidas pelos clientes que dispararem tirinhos ou lançarem bolas. Esfrego os olhos e penso, “estarei no adro da igreja matriz de Aldeia das Dez em plena festa de São Bartolomeu?”. Não, não pode ser, afinal de contas em Agosto não faz temperatura negativa e nem sequer vejo a casa da avó.

Colocando a nossa Sophia de Mello Breyner ao barulho, dizer que no século XXI também já não podemos dizer que viajar é olhar quando nos encontramos na Piazza Navona.
Teria, então, James Joyce razão ao mostrar desprezo por Roma por se sentir rodeado de ruínas e mortos, recordando-lhe um homem que vive de exibir o cadáver da sua avó? Talvez não. Hoje, pelas ruínas, caminha-se com menos gente (Fórum e Coliseu) ou sem ninguém (Termas de Caracalla e Catacumbas de São Sebastião), enquanto que pela Roma renascentista e pelo Vaticano e bairros giros como Trastevere a gente é tanta que nos faz sentir que é preferível que todos já estivessem na realidade mortos. Não há volta a dar. Fala-se de Roma e vai-se dar sempre ao exagerado número de pessoas que hoje a visita. Políticas urbanas e turísticas são urgentes para reverter um ciclo que, se nada se fizer, pode ter um fim.
Então quer isto tudo dizer que não vale a pena o aborrecimento de passear pelo centro de Roma e suas maiores atrações? 
Não. Roma é e será sempre o centro da nossa civilização e todas as estradas lá vão dar. Para além disso, vale sempre a pena conhecer as cidades em todas as suas vertentes. 
E Roma, nisso, é uma verdadeira cidade moderna e cosmopolita. 
Se se quer ver muita gente, por exemplo, é circundar o Termini, a principal estação de comboios de Roma, e por aí fica a entender-se quem são os actuais habitantes da cidade. Apanhar daí um eléctrico e depois um autocarro para se percorrer a Prenestina, parando no caminho no Pigneto, também ajuda a conhecer a Roma mais próxima de nós, multicultural, onde se divide um transporte público com africanos, árabes e chineses, e onde se percebe a transição das muralhas romanas da cidade para as habitações contemporâneas e, por fim, para a zona industrial hoje tomada por quem lhes dá novos usos. Roma convive com o passado, sim, mas não deixa de olhar para a frente.
Muito há a conhecer para além do banal folheto turístico. 
Por exemplo, o modernismo, tomando o epíteto de “racionalismo”, do legado urbanístico de Mussolini expresso no Foro Italico e no Eur. E o Maxxi e o Parco della Musica dos arquitectos estrela Zaha Hadid e Renzo Piano, respectivamente (e aqui poderia incluir ainda Richard Meier e a sua intervenção no Ara Pacis – que vi de fora – e a sua igreja de Dio Padre Misericordioso no bairro de Tor Tre Teste – que não vi). Quanto a bairros passíveis de admirar o ocre alaranjado ou rosado dos edifícios de Roma, talvez seja bom incluir visita mais demorada por Testaccio, e quanto a vistas sobre toda a cidade, numa das suas várias colinas, Aventino é uma hipótese mais avisada. A quantidade e qualidade da arte que por Roma existe é tanta que Caravaggios e tutti quanti podem ser vistos em museus não tão populares como o Vaticano e igrejas não tão frequentadas como São Luís dos Franceses ou Santa Maria del Popolo. E se se pretende visitar ruínas romanas apenas com famílias de italianos a Vila Adriana é a ideal, assim como o é a Vila de Este para palácios com jardins fabulosos, ambas na cidade próxima de Tivoli.
Ou seja, é tudo uma questão de escolha – e Roma, pelo seu encanto diverso, presta-se a isso.