Roma 2014-15

Dezanove anos depois voltei a Roma. 
A ideia que levava da minha primeira visita ainda no século passado era a de que em pleno Outubro mal conseguira cruzar-me com romanos, tal era a quantidade de turistas já naquela época. Logo, as expectativas quanto à possibilidade de no final do ano de 2014 ter um momento de sossego e introspecção face a face com as obras da antiguidade e da renascença eram diminutas. É a postura correcta, a não ser que se escolha o horário entre as 8:00 e as 9:00 da manhã para visitar os locais mais conhecidos de Roma.
Um aviso, porém: é impossível visitar Roma sem que algo esteja em restauro ou reforma. É uma constante e não há que lamentar isso, afinal o que faz Roma ser Roma é o seu passado e esse tem de ser continuamente cuidado. Felizmente, Roma tem também presente e terá futuro. E, felizmente também, esses os demais turistas não estão preocupados em conhecer.
Explicando melhor, Roma é, na verdade, impossível nos dias que correm. A competição por visitar as suas praças e fontes e as obras dos seus artistas, em especial do barroco, é altamente disputada. Há que estar bem preparada fisicamente para ganhar um lugar mais à frente a todos os estrangeiros que conosco competem pela melhor vista. Se há umas centenas de anos foram os ingleses e alemães que se deixaram seduzir por Roma como ponto de passagem no seu Grand Tour, hoje a concorrência feroz inclui chineses e russos.
Acontece que, para ajudar à decisão de fugir dos locais mais batidos, os romanos de hoje não parecem ter o mesmo gosto e estética que tanto encantou Goethe no século XVIII e o fez eleger Roma como a escola da sua formação estética. A chegada a Roma está hoje longe de poder ser considerada um segundo nascimento e a mudança interior só poderá ser para pior quando se entra pela Piazza Navona e se constata com pavor que entre as suas belíssimas fontes está instalado um carrossel e bancas com figuras que serão abatidas pelos clientes que dispararem tirinhos ou lançarem bolas. Esfrego os olhos e penso, “estarei no adro da igreja matriz de Aldeia das Dez em plena festa de São Bartolomeu?”. Não, não pode ser, afinal de contas em Agosto não faz temperatura negativa e nem sequer vejo a casa da avó.

Colocando a nossa Sophia de Mello Breyner ao barulho, dizer que no século XXI também já não podemos dizer que viajar é olhar quando nos encontramos na Piazza Navona.
Teria, então, James Joyce razão ao mostrar desprezo por Roma por se sentir rodeado de ruínas e mortos, recordando-lhe um homem que vive de exibir o cadáver da sua avó? Talvez não. Hoje, pelas ruínas, caminha-se com menos gente (Fórum e Coliseu) ou sem ninguém (Termas de Caracalla e Catacumbas de São Sebastião), enquanto que pela Roma renascentista e pelo Vaticano e bairros giros como Trastevere a gente é tanta que nos faz sentir que é preferível que todos já estivessem na realidade mortos. Não há volta a dar. Fala-se de Roma e vai-se dar sempre ao exagerado número de pessoas que hoje a visita. Políticas urbanas e turísticas são urgentes para reverter um ciclo que, se nada se fizer, pode ter um fim.
Então quer isto tudo dizer que não vale a pena o aborrecimento de passear pelo centro de Roma e suas maiores atrações? 
Não. Roma é e será sempre o centro da nossa civilização e todas as estradas lá vão dar. Para além disso, vale sempre a pena conhecer as cidades em todas as suas vertentes. 
E Roma, nisso, é uma verdadeira cidade moderna e cosmopolita. 
Se se quer ver muita gente, por exemplo, é circundar o Termini, a principal estação de comboios de Roma, e por aí fica a entender-se quem são os actuais habitantes da cidade. Apanhar daí um eléctrico e depois um autocarro para se percorrer a Prenestina, parando no caminho no Pigneto, também ajuda a conhecer a Roma mais próxima de nós, multicultural, onde se divide um transporte público com africanos, árabes e chineses, e onde se percebe a transição das muralhas romanas da cidade para as habitações contemporâneas e, por fim, para a zona industrial hoje tomada por quem lhes dá novos usos. Roma convive com o passado, sim, mas não deixa de olhar para a frente.
Muito há a conhecer para além do banal folheto turístico. 
Por exemplo, o modernismo, tomando o epíteto de “racionalismo”, do legado urbanístico de Mussolini expresso no Foro Italico e no Eur. E o Maxxi e o Parco della Musica dos arquitectos estrela Zaha Hadid e Renzo Piano, respectivamente (e aqui poderia incluir ainda Richard Meier e a sua intervenção no Ara Pacis – que vi de fora – e a sua igreja de Dio Padre Misericordioso no bairro de Tor Tre Teste – que não vi). Quanto a bairros passíveis de admirar o ocre alaranjado ou rosado dos edifícios de Roma, talvez seja bom incluir visita mais demorada por Testaccio, e quanto a vistas sobre toda a cidade, numa das suas várias colinas, Aventino é uma hipótese mais avisada. A quantidade e qualidade da arte que por Roma existe é tanta que Caravaggios e tutti quanti podem ser vistos em museus não tão populares como o Vaticano e igrejas não tão frequentadas como São Luís dos Franceses ou Santa Maria del Popolo. E se se pretende visitar ruínas romanas apenas com famílias de italianos a Vila Adriana é a ideal, assim como o é a Vila de Este para palácios com jardins fabulosos, ambas na cidade próxima de Tivoli.
Ou seja, é tudo uma questão de escolha – e Roma, pelo seu encanto diverso, presta-se a isso. 

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