Tresminas, Ouro em Terras de Aguiar

Se não fosse conselho amigo atirado para o ar por descendente de vizinha de Tresminas não me ocorreria uma visita ao lugar. Mas há tiros certeiros e assim se fica a conhecer lugares inesperados deste nosso mundo. Sim, mundo, porque Tresminas espera vir a ser distinguida como Património da Humanidade pela Unesco. Por enquanto prepara-se para subir à categoria de Monumento Nacional, o que não é pouca coisa.


Situado na Serra da Padrela, no limite este do concelho de Vila Pouca de Aguiar, o Complexo Mineiro Romano de Tresminas é um testemunho histórico, cultural e paisagístico. 

Só chegar a Tresminas vindo das Pedras Salgadas já é todo um programa. Subimos por uma estrada cheia de curvas e mais curvas, cotovelos apertados, pinheiros que carregam intensamente a vegetação. Damos enfim com a estrada principal e um planalto se nos abre. Mas a ruralidade volta a aparecer com pouca demora e os pastos verdejantes com vacas e espigueiros fazem parte da paisagem.

A visita ao Complexo Mineiro começa na aldeia de Tresminas, no seu Centro Interpretativo, um espaço museológico instalado num edifício bem recuperado e adaptado para o efeito que foi a antiga casa paroquial. Aqui é nos dado o enquadramento histórico e arqueológico da área mineira que os romanos entenderam explorar durante os séculos I a III. Nessa essa época, que terá durado cerca de 250 anos, esta foi uma das mais importantes explorações de ouro de todo o Império Romano. A actividade mineira girava à volta da extracção do ouro, sim, mas também da prata e do chumbo.

Feita a introdução histórica, onde vemos alguns vídeos, maquetes, artefactos e ficamos a saber que o ouro aqui extraído terá servido exclusivamente para a cunhagem de moeda, continuamos a nossa visita – sempre acompanhados pela guia do Centro – e saímos para o exterior, uns dois quilómetros afastados da aldeia, para a visita às cortas e à galeria subterrânea.


O curioso desta exploração mineira romana é que era efectuada a céu aberto através do sistema de cortas. Explicando melhor, os vales com configuração de desfiladeiros que hoje vemos na paisagem mais não são do que alterações a essa mesma paisagem provocadas pelo Homem, precisamente cortes nos montes e nas rochas (os veios xistosos) efectuados pelos romanos através dos quais iam extraindo os minérios. 






Existem diversos pontos altos – miradouros – donde podemos observar de forma privilegiada estas cortas, ou seja, estes locais de exploração de minério. 
São elas a Corta de Covas (com 450 metros de comprimento, 120 de largura e 90 de altura), a Corta da Ribeirinha (com 370 metros de comprimento, 160 de largura e 100 de altura) e a Corta de Lagoinhos (com 60 metros de comprimento, 4 de largura e 12 de altura).


Esta exploração estava, porém, também associada a um sistema de galerias e poços subterrâneos que foram escavados na sequência de trabalhos arqueológicos e podem hoje ser visitados. Uma das galerias que visitamos é agora morada de um sem número de espécies de morcegos, pelo que aqui ao interesse pelo património histórico e arqueológico acresce ainda o interesse pela fauna e habitats naturais.


Esta é uma região de granito, mas aqui é o xisto que predomina. E a urze (incrível constatar as parecenças com a distante mas para mim familiar Serra do Açor). Lugar ainda para uma centenária “Silha de Urso”, uma fortaleza de pedra circular do século XVII que servia para proteger a produção do mel do ataque dos ursos, a qual se avista ao longe.


Nos poucos séculos que os romanos aqui estiveram a explorar o ouro trouxeram os seus técnicos especialistas e das aldeias vizinhas vinham os trabalhadores. 
A água possuía uma importância fulcral para que o sistema funcionasse. O rio Tinhela, que hoje em rápida visita não damos por ele, era decisivo para o abastecimento do complexo e os romanos construíram uma rede de canais e até uma barragem para o alimentar. 

Mas o ouro e o restante minério demoravam a ser transportados até ao centro do império e quando os romanos encontraram alternativas de extração mais próximas, nomeadamente no que é hoje a Roménia, abandonaram Tresminas.

Durante 18 séculos este património permaneceu escondido e desconhecido. Até que nos anos 50 do século passado se entendeu ir em busca de alternativas às minas de Jales (donde se extraiu ouro até aos anos 1990) e se deu com as vizinhas minas de Tresminas. Bem preservadas, protegidas pela natureza, a pouco e pouco foi-se percebendo que as explicações que os locais utilizavam para caracterizar o terreno não encontravam eco apenas em lendas e mitos.

Foi, porém, apenas na década de 1980 que as escavações arqueológicas em Tresminas se intensificaram graças a um casal de arqueólogos alemães.

Referir ainda que o topónimo Tresminas nada terá a ver com a ideia de “três minas”, antes derivará do nome medieval “Tresmires”. De qualquer forma, tudo por aqui é inspirador, remotamente inspirador, e convida a que se volte em busca de muito mais surpresas.

Água e Pedra em Terras de Aguiar

O concelho de Vila Pouca de Aguiar gosta de se caracterizar como sendo terra de ouro (Tresminas e Jales), de pedra (granito e xisto) e de água (a gaseificada Água das Pedras). 

Falando do ouro em post seguinte, e deixando o seu maior símbolo – as Pedras Salgadas – para uma outra visita, dedicar-me-ei em seguida a outra água e ao granito. Dois desvios breves da estrada nacional que liga Vila Pouca de Aguiar a Vila Real são obrigatórios. 

Um primeiro, para uma visita ao Parque de Lazer Lagoa do Alvão, também conhecido como Barragem da Falperra. 





Este espelho de água é um habitat natural de fauna e flora integrado na Rede Natura. Temos um parque de merendas instalado num denso arvoredo e um trilho pedestre circular que pode ser percorrido ao longo da lagoa. A paisagem que a rodeia é belíssima.

Voltando à estrada nacional no sentido de Vila Real, um segundo desvio que se impõe é para Castelo de Pena de Aguiar. 


Vamos subindo na estrada e avistando lá em cima aquilo que parece uma ruína. 




Antes de o confirmarmos, porém, temos de passar por um túnel de videiras e por umas rochas irreais. Há para aqui um castelo, sabemo-lo, e este é um mundo de fantasia e as pedras são os elementos decorativos ideais.



A paisagem do alto do Castelo é soberba. Alcançamos todo o vale de Aguiar, Serra do Alvão para um lado, Serra da Padrela para o outro, povoação de Castelo de Aguiar a esconder-se atrás da muralha do seu Castelo. 



Este Castelo – confirmamos cá em cima que é mesmo uma ruína, mas uma ruína devidamente escorada – do século X é mais uma ode ao espírito criativo do Homem em parceria com a Natureza: incrivelmente acomodado numa fraga de granito, vai vencendo o tempo e as probabilidades de equilíbrio e lá se vai sustentado séculos após séculos. 

Vila Real

Vila Real sempre foi, historicamente, uma região rica, com rios e minas à sua volta. Só para citar dois exemplos, eis o Douro Vinhateiro, reconhecido como património mundial, e Tresminas, património nacional com ambições de alcançar a distinção mundial.

Capital de distrito e a maior cidade de Trás-os-Montes, Vila Real deve o seu nome ao facto de ter sido, precisamente, uma criação do rei. D. Dinis concedeu-lhe foral em 1289 e, diz-se, escolheu pessoalmente o lugar para implantação da nova cidade, tendo esta ficado sob a sua protecção directa.

A sua localização é bonita, num planalto granítico por entre os vales dos rios Corgo e Cabril e as serras do Marão e Alvão.

Avançando uns bons séculos, é inevitável falar-se da vinha e da importância que esta teve para o desenvolvimento da cidade em termos sócio-económicos e arquitectónicos. À volta do negócio da vinha foi-se formando uma comunidade muito empreendedora e rica. Estes nobres e burgueses deixaram alguns belos exemplares da arquitectura fidalga dos séculos XVII e XVIII, sendo a Casa de Mateus o seu maior exemplo. Não tive oportunidade de voltar a visitá-la, para além deste dia chuvoso



Mas desta vez calhou-me um dia soalheiro por Vila Real onde pude constatar a existência de alguns destes exemplares solarengos brasonados numa malha urbana coerente deste antigo burgo real. Todavia, muito decadente. São demasiados os edifícios abandonados e em ruínas no centro histórico.




Algumas fotos de brasões:






Ornamentos nos edifícios:




Varandas em ferro:




Igrejas, muitas igrejas:





A Casa onde se pensa que nasceu Diogo Cão, navegador do século XV:


Vila Real é sede da UTAD, logo, jovens não devem faltar. Aqui vai, então, uma pitada de irreverência:


Chaves

 
Chaves é uma daquelas cidades portuguesas pela qual quase todos nós sentimos simpatia sem sabermos muito bem porquê. É a água, é o pastel, é o presuntinho (que trilogia!). Chaves é carismática. E bonita.
 
Mesmo na fronteira com Espanha, a Aquae Flaviae fundada por Flávio Vespasiano no ano 78 foi uma cidade próspera do império romano. A salubridade das suas águas era já motivo de História e lendas.
 
Ainda hoje as Termas de Chaves são concorridas e não há melhor lugar por onde começar um passeio pela cidade do que, precisamente, por aqui. Junto às Termas encontramos o pavilhão donde provamos a água termal directamente da fonte local. Uma água bicarbonatada hiper quente – 73 graus – oferecida num copo. Claro que existem uns belos banquinhos e um ambiente repousante para aguardarmos que a água nos deixe de queimar a garganta. Ao final, há quem não goste do sabor desta água, mas eu gostei.
 
 
 
Das Termas podemos seguir pelo Jardim do Tabolado junto ao rio Tâmega e atravessar a Ponte de Trajano, um dos ex-libris de Chaves. Esta ponte romana do século I ou II é uma construção em granito com 12 arcos (e 4 enterrados). Ao caminharmos pela ponte encontramos 2 colunas epigrafadas, mas são os reflexos dos edifícios e das árvores no rio que roubam a nossa atenção.
 
 
 
Voltando a atravessar a ponte, rumamos então ao centro histórico flaviense. Já antecipando o final da viagem, este é provavelmente um dos conjuntos urbanos mais harmoniosos e com mais sentido das cidades pequeno-médio portuguesas.
É um prazer caminhar pelas ruas estreitas medievais de Chaves, em especial pela Rua Direita, sempre com o olhar colado nas suas casas coloridas e nas suas varandas de madeira. Diz-se que a construção destas varandas era uma forma de ganhar espaço às suas pequenas casas. Estas casas populares são características de Chaves e o seu maior encanto.
 
 
 
 
 
O alto da Torre de Menagem (o que resta do Castelo, bem como um pouco da muralha) é um óptimo ponto de vista para este colorido do centro histórico da cidade e demais envolvência do Tâmega. 
 
 
 
 
Existem ainda outros locais aprazíveis em Chaves, como alguns jardins e o Forte de São Francisco. A Igreja Matriz é interessante e, dizem, a Igreja da Misericórdia obrigatória. O Senhor Padre estava de férias por altura da minha visita, logo, nada de abrir a dita beleza obrigatória aos olhares forasteiros interessados. Voltem outro dia. Ou quando as férias acabarem. Quais? As dele? Ou as minhas? 
 
 
 
 
E, para terminar num outro tipo de beleza, Chaves tem para nos oferecer desde o ano passado o Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso. Um caminho de terra junto ao rio Tâmega leva-nos até um edifício longo branco que se vai desenvolvendo para lá de um pequeno muro de granito. Pura ruralidade. 
 
 
Para qualquer um que goste de arquitectura e do Siza é fácil distinguir as linhas do arquitecto Álvaro Siza Vieira. Mas, admirando-o, não é fácil concordar com ele quando diz que este projecto é pura racionalidade. Não, é pura emotividade. Mais fácil é concordar com Souto Moura quando diz que este é provavelmente um dos maiores projectos do Siza. É simplesmente uma obra-prima. Uma plena integração de edifício e lugar. 
 
 
E o interior torna tudo ainda mais perfeito com os cortes das janelas a deixarem o rio vir ter com as obras em exposição. 
 
 
E onde fica Nadir Afonso no meio disto tudo? O artista flaviense (e os demais artistas em exposição) encaixa aqui na perfeição e um projecto arquitectónico desta envergadura ajuda a revelar todas as facetas de Nadir, um artista multifacetado que tem aqui uma homenagem à sua altura.
 

Bragança

De Bragança a Lisboa continuam a ser muitas horas de viagem. Não já nove horas, como na música dos Xutos, mas ainda muitas horas. Terra de emigração, é impossível não percorrer o concelho de Bragança e falar com a sua gente e ouvir, “ah, os meus estão para França”, “os meus saíram ontem para Lisboa”, “os meus vêm o próximo fim de semana do Porto”.
Ficou quem não pôde sair ou está quem já voltou.

Bragança é capital de distrito mas é incrível constatar como apesar de ostentar o título de cidade pode ser absolutamente rural mesmo no seu centro.
Observem-se estas imagens junto ao rio Fervença que corre pela ponte do Açougue abaixo do centro histórico. 



O centro histórico de Bragança é quase que a união de duas povoações: Bragança havia sido em tempos romana no lugar próximo onde é hoje a Sé mas esse passado ficara esquecido; com a guerra entre mouros e cristãos em 1130 a cidade foi restaurada no lugar do Castelo. Ao longo dos séculos Bragança foi-se desenvolvendo entre-muralhas e também para além destas, formando um conjunto urbano de raíz medieval.


Este ponto de vista na estrada um pouco acima da Pousada de Bragança permite-nos entender melhor os contornos do Castelo e muralha da cidade.

Aqui ficam três elementos únicos: a Torre de Menagem, o Domus Municipalis e o Pelourinho. 


A elegante Torre da Princesa é objecto de lendas, contando-se que aqui esteve cativa uma bela princesa apaixonada por um trovador. 



O Domus Municipalis é um exemplo singular da arquitectura civil portuguesa, talvez do século XIII. Inicialmente serviria de cisterna, mais tarde viria a ser utilizado como lugar de assembleia dos homens-bons. É um imenso bloco rectangular de granito cujo interior sereno possui um banco corrido a toda a volta com janelas em arco que deixam ver a paisagem poderosa do exterior. 


Já o Pelourinho, também conhecido como “Porca da Vila”, é um exemplar curioso, escultura zoomórfica tosca, a dita porca, que serve de suporte a uma coluna em granito.




Esta zona muralhada não é muito extensa e numa curta caminhada saímos do Castelo para rumarmos em direcção à Praça da Sé, sem atracções de maior. 


O interior da Antiga Sé é surpreendentemente pequeno, mas a sua Torre do Relógio encanta pela simplicidade da sua torre ameada. 


A Praça Camões, nas traseiras da Sé, pelo contrário, é ampla. E distinta com a sua arcaria. 


Para baixo fica o Jardim António José de Almeida, onde encontramos umas esculturas de José Pedro Croft. Aqui tem início a frente ribeirinha do Fervença intervencionada pelo Programa Polis, um corredor verde moderno, nova cara da cidade.


E aqui abro um capítulo para uma Bragança diferente. 
Havia referido uma Bragança rural, dando como exemplo este mesmo rio, não muitos metros distante daqui. 
Bragança pode, afinal, ter muitas naturezas: rural e urbana. Histórica e moderna. 
Há castelo, mas há também arte urbana como esta de Bordalo II.



E há museus a visitar como o do Abade Baçal (que nos oferece uma perspectiva histórica da região), instalado no antigo Paço Episcopal, ou o Centro de Arte Contemporânea Graça Morais (obras da artista nascida na região e outras exposições), com projecto de adaptação arquitectónica de Souto Moura.



Para além destes, a conferir ainda as exposições do Centro Cultural Municipal e do Auditório Paulo Quintela, onde fica instalado o Centro de Fotografia Georges Dussaud. 

Parque Natural de Montesinho


O Parque Natural de Montesinho, a norte dos concelhos de Bragança e Vinhais, e quase do mais a norte de Portugal que podemos ter, bem junto à fronteira com Espanha, é um lugar remoto e, talvez por isso, surpreendente. 

Surpreendente pelo seu isolamento, pela sua serenidade, pela sua paisagem, pela sua diversidade num espaço relativamente pequeno (embora com 75 mil hectares seja um dos maiores parques naturais do nosso país) e, sobretudo, pela vida das suas gentes. As práticas comunitárias são aqui um modo de vida.

O Parque de Montesinho fica às portas de Bragança e a melhor (única?) forma de o conhecer é saindo a conduzir de carro pelas suas estradas que atravessam montanhas, vales, planaltos, pontes sobre rios e aldeias. 


A primeira aldeia a que chegámos logo de manhã foi Gimonde, cedo de mais para confirmar a fama de um dos seus restaurantes de caça, mas ideal para atestar toda a sua magnificência cênica. Aqui os rios Sabor e de Onor encontram-se e correm juntos sob as elegantes pontes da aldeia. 






De Gimonde a Guadramil seria apenas cerca de meia hora de viagem passando por algumas outras aldeias não se desse o caso de sermos obrigados a conduzir devagar e até pararmos para entender o porquê de a paisagem ir mudando tantas vezes de humor.



À chegada a Guadramil vêem-se algumas pessoas a cuidar das terras. Em conversa com alguns dos poucos locais que restam eles negam, dizem que são já poucos, mas para quem vem da Beira Interior penso que as diferenças são notórias. Aqui ainda há vida de campo. Mas são, efectivamente, poucos os seus habitantes. Não há quem não tenha os filhos no Porto, em Lisboa, em França (França país, não a aldeia vizinha). E não há quem não se queixe da vida e da “décima”, como chamam ao IMI por aqui – nem sequer se lhe referem como contribuição autárquica. 





Guadramil é uma aldeia vizinha da mais conhecida Rio de Onor e tal como esta mantém as suas casas de arquitectura popular em xisto, com paredes grossas para que não se sinta o frio (não é à toa que chamam a esta a Terra Fria, cortesia dos seus nove meses de inverno), embora bem menos conservadas. 


Rio de Onor é a estrela da companhia do Parque de Montesinho. 
Merecida. 







A aldeia tem os seus edifícios muito bem cuidados e conservados, com casas em xisto, telhados em lousa e varandins em madeira. 
Mas é a ideia de aldeia comunitária e a prática que ainda hoje faz dela que torna Rio de Onor um caso especial. O isolamento destas povoações, e de Rio de Onor em concreto, levou a que as suas gentes se unissem e desenvolvessem relações comunitárias. Os seus habitantes partilham a terra, partilham os bens, partilham as tarefas e todos cuidam da horta.





Caminhando pelas suas ruas tanto podemos testemunhar a palha como os legumes deixados por ali como um rebanho ou os cavalos em trânsito.


Próxima paragem: Montesinho, a aldeia que dá o nome ao Parque. A 1030 metros de altitude, esta é a povoação mais alta da Serra e uma das mais altas de Portugal. Para lá chegarmos temos de passar França, não seguir para Espanha e desviar antes de Portelo. Subimos a bom subir e eis que nos deparamos com outra aldeia absolutamente remota e bem conservada, cheia de opções de turismo rural.






Os castanheiros por aqui estavam carregados e tão verdes que a castanha este ano só pode prometer. A aldeia de Montesinho é uma boa opção para uma paragem para almoço. 


Voltando para trás no caminho, até Moimenta é um bom esticão, mas sempre por paisagens agradáveis.



Antes, porém, uma paragem na Praia Fluvial de Fresulfe para espreitar o Rio Tuela, um dos muitos que riscam a azul o Parque. Aqui o rio é sereno e convida a um mergulho. Nesta região, perto de Dine, encontramos alguns exemplos de fornos de cal e moinhos, mais um exemplo da vida de campo e comunitária de Montesinho.








A estrada até Moimenta é provavelmente o pedaço mais bonito e surpreendente em termos paisagísticos do Parque de Montesinho. Até subirmos a cerca de 900 metros de altitude vamos vendo desfilar uns afloramentos rochosos ora de xisto ora de quartzo ora de granito que irrompem nos montes com cabeços verdejantes ao qual logo se sucedem vales onde depois de uma descida íngreme pode surgir uma ponte sobre um rio que parecia escondido.


As vistas que se sucedem são fantásticas.






Pinheiro Novo, a pequena povoação que se segue, é um dos melhores exemplos da arquitectura popular de Montesinho. Aqui encontramos a igreja com a típica torre sineira da região, mas, sobretudo, um curioso cruzeiro bifronte e uma casa senhorial e casas populares em granito e, mais curioso ainda, a sua cobertura: foi adoptada uma solução de compromisso com o uso de xisto e telha a meias num mesmo edifício.



Até ao regresso a Bragança, e antes de uma passagem por Vinhais, tempo ainda para uma espreitadela na Praia Fluvial do Rabaçal e mais uma olhada ao rio Tuela, desta vez mais selvagem.

Neste passeio pelo Parque de Montesinho seguimos sem encontrar a sua fauna típica, como os lobos, javalis (nem sequer no prato) ou aves, nem encontramos já vestígios do contrabando de outrora nesta que continua a ser uma zona de fronteira, embora nos dias de hoje nem nos apercebamos que a passamos.
Apesar de vermos os bois a pastar e sentirmos o cheiro dos porcos, é mais fácil provar a posta mirandesa e o fumeiro do porco bísaro em Bragança ou Vinhais. E assim a experiência em Montesinho torna-se perfeita.

Lamego

Antes de corrermos pelo Douro passámos por Lamego e depois da corrida voltámos para visitar a Virgem do alto do monte de Santo Estevão.

O Santuário de Nossa Senhora dos Remédios é provavelmente o mais conhecido cartão postal de Lamego. Bem pitoresco e sempre rodeado por um intenso arvoredo, o Santuário ergue-se no alto, a cerca de 600 metros de altitude, e espraia-se em patamares numa escadaria monumental até à cidade. O cenário é cativante e não é preciso ser-se crente para se deixar tocar pelo lugar. 
Em 1361 começou por ser aqui construída uma capela dedicada precisamente a Santo Estevão. Mais tarde, no século XVI a devoção a Santo Estevão foi sendo progressivamente transferida para uma devoção à Virgem, e a busca de cura para as doenças por parte dos crentes transformou-se em culto à Nossa Senhora dos Remédios. O Santuário que hoje podemos apreciar foi começado a construir em 1750, mas apenas em 1905 viu a sua conclusão.

A fachada da igreja é bem apelativa, em estilo barroco e rococó, com uma torre sineira de cada lado. Mas é a escadaria a sua imagem de marca. Monumental, mesmo. São 686 degraus, em nove patamares onde vamos vendo desfilar capelas, estátuas e fontes.
Já cá em baixo, no Rossio de Lamego, numa praça muitíssimo bem arranjada e aprazível, as fontes continuam, desta vez dedicadas às quatro estações do ano.
Aqui perto fica um edifício que rompe com a restante Lamego histórica – o interessante Centro Multiusos, do qual só vimos o seu exterior.
Lamego é antiga, pré-romana até. Pela cidade passaram os romanos, os visigodos e os mouros, até que em 1057 foi reconquistada a estes pelos cristãos. Crê-se que foi em Lamego que decorreram as Cortes de Lamego que aclamaram D. Afonso Henriques como Rei de Portugal.
A cidade estava bem localizada e nas rotas dos mercadores que vinham de Castela e de Granada para comercializar sobretudo especiarias e tecidos orientais. Estava ainda na rota da romagem a Compostela. No entanto, a perda de Granada por parte dos mouros e a descoberta do caminho marítimo para a Índia fizeram com que Lamego deixasse de estar a caminho de qualquer coisa e o comércio e a economia da cidade saíram dai prejudicados.
Mas os séculos XVII e XVIII trouxeram consigo o comércio do vinho do Douro e o Marquês de Pombal deu uma ajuda com a criação da Região Demarcada do Douro. A cidade viu, então, serem aqui construídos diversos solares e casas brasonadas, o que ainda hoje é possível constatar. 

Ao longo dos anos Lamego foi rivalizando com Viseu pelo lugar de sede de distrito, sem sucesso no entanto. Mas é até hoje sede da diocese de Lamego, a única que não corresponde a uma capital de distrito. Não estranha, pois, que um dos seus grandes monumentos seja a Sé Catedral. 

Fundada em 1129, foi sofrendo ao longo dos séculos diversas alterações. É uma catedral gótica, mas encontramos aqui também elementos renascentistas, nomeadamente nos seus claustros. A torre da Sé é imponente e dura. O interior é rico e bonito, com elementos do barroco.

O relativamente pequeno e recolhido adro da igreja tem a acompanhá-la umas casinhas bem pitorescas. À volta da Sé o traçado das ruas da cidade é claramente medieval e encontramos edifícios bem conservados.

Perto da Sé fica a Praça Luís de Camões e a zona mais monumental de Lamego – com os edifícios do antigo Paço Episcopal (hoje Museu Regional) e do Hospital da Misericórdia (hoje Cine-Teatro Ribeiro Conceição).
Omnipresente é o castelo, guardião mor da cidade. 
Curioso verificar quantos e tantos turistas descem dos autocarros das viagens organizadas para visitar Lamego. É o vinho e o santuário a chamar, certamente, mas o centro desta pequena cidade bem cuidada merece a curta e agradável caminhada, pelo menos desde a Nossa Senhora dos Remédios ao Paço Episcopal. 

Fim de tarde no Pinhão



A viagem de comboio da Régua ao Pinhão oferece-nos uma trintena de minutos de deleite, delicadeza e placidez. Esta última apenas foi quebrada pelas águas tormentosas do Douro até à Barragem de Bagaúste e pelo rapaz que pedalava lá fora numa forte cadência, ainda assim insuficiente para deixar o comboio para trás.


Depois de relembrar a estação do Pinhão – seus belíssimos azulejos e sua localização superior – seguimos para junto do rio e caminhámos languidamente rio Pinhão adentro, entrecruzando conversas de banalidades com temas mais profundos. 



Deixámo-nos conquistar pela simpatia das gentes deste Douro. Diz-se que quando se viaja sozinho é mais fácil entabular conversa com o(s) outro(s), por se estar mais disponível. Mas os cinco estivemos disponíveis e aceitámos que se metessem connosco e quisemos meter-nos com os outros, à vez. O peixe era mesmo um peixe e estava pronto para nos ser oferecido, caso assim o quiséssemos; o nome do barco de cruzeiro amavida prestava-se a dúvidas, mas os simpáticos durienses não se deixaram enganar pelo trocadilho “a má vida”.





Para o fim da viagem, no apeadeiro à saída do Pinhão, a dúvida instalou-se entre nós: como será para um jovem viver ali, terra remota? Um local partilhou connosco uma convicção pungente, a de que a destruição da linha do Tua foi propositada, pois se tal não fosse, como explicar que uma linha centenária tivesse tido dois acidentes seguidos depois de décadas e décadas de viagens pacatas, um deles com vítimas mortais até?
Depois de ouvirmos atenta e silenciosamente este senhor enquanto aguardávamos a chegada do comboio que nos levaria de volta à Régua, incrédulos com o sentido que a história fazia, comentávamos entre nós como era simpática e disponível esta gente, lembrando que apenas o revisor do comboio não o tinha sido, nem sequer tendo respondido aos nossos “boa tarde”. Eis senão quando entra o revisor da viagem de retorno e… era ele mesmo, mas agora em versão brincalhona e efusiva, a distribuir boa disposição para todos os viajantes. 
Ah! Estes homens são uns homens do norte!

A mais bela corrida do mundo


Na senda de correr em lugares diferentes dos da nossa cidade, desta vez seguimos para a Régua para a disputa da entitulada “A mais bela corrida do mundo”. A propaganda não é pouca coisa, mas como a corrida segue junto às margens do Douro não há que duvidar da sua verdade e justeza.

A Régua é provavelmente das cidades mais feias de Portugal. Tendo acabado de referir a justeza de outro título, não corro porém o risco de proferir injusta afirmação agora. Repito, a Régua é provavelmente das cidades mais feias de Portugal. O que é um feito absurdo, tendo em conta que a cidade se abre para a paisagem deslumbrante do Douro. O que a natureza dá, o homem (quase) consegue estragar. Mas cerrando os olhos a alguns dos monstruosos edifícios que alberga e virando as costas ao edificado, é fácil cair de simpatia pela cidade.


Peso da Régua é fulcral como entrada na Região Demarcada do Douro. À sua volta encontramos uma série de quintas que trazem a fama aos vinhos do Douro. Assim, não espanta que possamos visitar na cidade o Museu do Douro, instalado de frente para o rio na Casa da Companhia. A história desta arte feita de sacrifício na região é nos aqui apresentada. Destaque para um painel onde frases vêm sob a forma de ondas, como os socalcos dos montes que ladeiam o Douro, e para a disposição das garrafas – um Museu a visitar.


Noutro domínio, a arte azulejar é presença constante. Mas para me ater às palavras, relevo para outro painel, desta vez em azulejo, nas traseiras da rua principal, com a representação da figura e citações do omnipresente Miguel Torga

“montes que não deixam crescer, videiras que ninguém pode contar, rio que não pára de correr, pedaço de viril beleza”

“O comboio num vaivém sem descanso, leva e traz anseios, aproxima e afasta esperanças, carrega e descarrega ilusões”

e de Eugénio de Andrade

“Poucas vezes o outono se demorou tanto nestas águas sem as cobrir de névoa”


Curiosa, ainda, a capela da Misericórdia de Peso da Régua, da qual escreveu Paulo Varela Gomes ser uma das mais bonitas do nosso país. Surpreendente encontrar por aqui um monumento religioso que dá ares de um orientalismo, bem vincado na forma e nos tons verdes e vermelhos das suas telhas.

Se da Régua preferimos reter a paisagem do Douro, não escapámos ainda a saborear a sua comida. Por aqui comemos sempre muito bem, sem medo de seleccionar previamente os restaurantes, com confiança em entrar nos que o acaso nos ofereceu.


Pernoitámos numa daquelas aberrações que faz da Régua uma cidade incaracterística. Mas como era uma torre pudemos começar logo de manhã por sentir o ambiente dos corredores lá em baixo. 
A corrida da Meia Maratona do Douro Vinhateiro teve início na estação de comboios da Régua, primeiro sentados à janela do comboio a ver o plácido Douro correr forte, cortesia das chuvadas recentes e da abertura das barragens por parte dos vizinhos espanhóis. O apeadeiro foi a estação da Barragem de Bagaúste, a cerca de 6 kms da meta da Régua. Atravessámos o rio para a outra margem e para cima água calma, para baixo água revoltosa certamente a impedir, ou pelo menos a complicar, a passagem dos barcos (neste ano, nesta época, os barcos não têm ido além do Pinhão). 
Partida.

Esperavam-nos 21 kms e mais uns pózinhos a dar às pernas e a tentar manter o coração no ritmo certo. Seguimos Douro adentro, em direcção à Folgosa, onde pouco depois invertemos a marcha e voltámos para a Régua. Antes de passarmos pelo DOC do chef Rui Paula, lamentando não o termos incluído gastronómicamente na escapada, esses primeiros cerca de 7,5 kms foram fáceis, com percurso sempre plano. Melhor: céu azul, temperatura amena, paisagem absolutamente sossegada, passarinhos a chilrear para quebrar a monotonia da respiração dos corredores a arfar. Como não corria vento, os reflexos da paisagem – montes, casas brancas, comboio a passar – estavam colados na água do Douro, como se de um selo de garantia se tratasse. Antes de voltarmos neste percurso já não tínhamos dúvidas do título: esta é mesmo a mais bela corrida do mundo.

Infelizmente, porém, a abundância de verde por aqui não foi suficiente para que a tarde dissipasse as dúvidas no sentido mais correcto e o título de primeiro em outro campeonato recaísse nos leões verdes. Não chegou haver aqui uma equipa de “lion runners”, o primeiro lugar desta Meia Maratona ter ido parar a um atleta do Sporting e muitos mais a fazer força; a águia que vimos sobrevoar o Douro lá para os lados do Pinhão na tarde anterior foi mais forte e a premonição da maioria dos amigos do nosso grupo trouxe felicidade para eles e (mais um) desgosto para as manas.

Voltando à corrida, a do Douro é mesmo especial. E nem estou a pensar na garrafinha de vinho que ofereceram com a inscrição. Penso antes nas freiras e padres (mesmo que mascarados) que se mantinham à beira da estrada com vista para o rio a apoiar os atletas e a dar-lhes música – nada de rockalhadas vinda de gente urbana, como noutras corridas. O bom ambiente e a boa disposição também marcaram presença.

De volta em direcção à Régua, a boa companhia da paisagem manteve-se e certamente foi um alento para continuarmos em movimento. Já a correr para a meta, tempo e disposição ainda para pensar e apreciar o quanto o rio se encontrava liso e as quintas vinhateiras e os socalcos se sucediam. Na parte final, porém, o rio parecia traduzir o cansaço e misto de emoções dos corredores, euforia e tormenta, desejo de que a enorme ponte da Régua venha para perto da nossa vista, sinal de que nos preparamos para atravessar a outra ponte mais pequena, de deixar a estação de comboios para trás, o Museu do Douto à direita, postal da figura do homem da capa – Sandeman – à esquerda, meta mesmo ali à frente.

Feito. Sucesso. Embora lá comer um javali e repor os líquidos.