Pelos Lagos do Sabor – Dia 2

Neste segundo dia de passeio pelo Baixo Sabor continuamos com o extenso Vale da Vilariça como ponto de partida, mas agora um pouco mais a norte, desde Santa Comba da Vilarica. É concelho de Vila Flor, mas logo entraremos por caminhos do concelho de Alfândega da Fé, seguindo em parte pelo Circuito Panorâmico “Lagos do Sabor”.

Santa Comba da Vilariça é uma aldeia simpática famosa pelos seus cruzeiros, mas é a paisagem nas suas imediações que nos faz vir até cá. A imagem da pequena albufeira da Ribeira das Pias, junto à aldeia de Vilarelhos, um lago de água que deixa que os relevos que a cercam se reflitam de forma mágica, explica porquê. Mais acima, no lugar da capelinha da Senhora das Angústias avista-se mais pontinhos de água no meio da planície. E água e lagos, está visto, não faltarão nesta jornada.

Estamos a uns 200 metros de altitude e iremos subir até à Cabreira, a mais de 600 metros. Surpresa: no miradouro da Cabreira estamos na margem contrária do Lago de Cilhades onde havíamos estado no dia anterior, precisamente em frente do miradouro de São Lourenço, o do baloiço, em Felgar. A um olhar curto e quase esticar de mãos tocamo-lo, mas para lá chegar de carro teríamos de percorrer mais de uma trintena de quilómetros; mais rápido lá chegaríamos a nadar. E este facto dá-nos uma boa ideia da dimensão dos Lagos do Sabor e sua envolvente, o resultado do projecto da construção da Barragem do Baixo Sabor. Os seus contornos, quer do lago quer dos montes que o rodeiam, parecem ter sido traçados por um pincel saído das mãos de um artista maior, mas são na verdade uma bela parceria da Natureza e do Homem.

A estrada da Cabreira até ao centro de Alfândega da Fé é como se fosse uma estrada de montanha, com muitas curvas que procuram vencer os montes, belos pontos de vista para lagos, serras e vinhas, e povoações em lugares que não julgaríamos de fácil acesso.

Alfândega da Fé é uma pequena vila sede de concelho fundada em 1294 por D. Dinis. Já teve castelo e muralhas e tem ainda uma curiosa Torre do Relógio quadrangular e com telhado em forma de pirâmide, mas embora falte saber muito sobre esta estrutura crê-se que seja bem posterior ao castelo e não esteja com ele relacionada. Mas são os jardins de Alfândega da Fé e a sua rota de arte pública (com 34 esculturas contemporâneas), bem como a Casa da Cultura, projecto do arquitecto Alcino Soutinho, que merecem uma visita mais demorada.

A saída de Alfândega da Fé, novamente em direcção ao Sabor, deixa-nos com uma bela despedida da vila enquadrada pela pequena barragem da Ribeira do Malimão, mais uma a servir de prova de que nunca estaremos muito longe do elemento água.

Já nos Cerejais, onde fica o Santuário de mesmo nome, uma espécie de Fátima do Nordeste Trasmontano, temos a primeira imagem do nosso segundo lago do Sabor: o Lago dos Santuários, precisamente.

Daqui seguimos até ao lugar de Quinta de São Pedro, já concelho de Mogadouro, para espreitar um pouco das “Fragas do Sabor”. É uma povoação que nem chegará a ser aldeia, completamente isolada e que quando a alcançamos julgamos ter chegado ao fim do mundo. Como espécie de redenção tem o belo Sabor margeado por oliveiras à sua beira.

É por estes lados que fica a entretanto tornada icónica ponte do IC5 em curva. Ao deixar passar as águas do Sabor sob si logo estas se transformarão em Lago Medal, o terceiro lago do Sabor.

Uma volta atrás na estrada faz-nos seguir até ao Santuário de Santo Antão da Barca, com uma série de pontos de vista incríveis sobre os Lagos. Digo os Lagos, sim, porque desta vez as águas do Lago dos Santuários e do Lago do Medal quase se confundem diante nós. O dia não estava muito bonito, antes com o céu carregado de nuvens, mas ainda assim não foram necessárias águas em espelho e reflexos do além para nos deixar assombrados com a nova paisagem.

E é no novíssimo Santuário de Santo Antão da Barca que percebemos na perfeição todas as implicações do projecto da Barragem do Baixo Sabor e as ambições dos Lagos do Sabor, um trabalho ainda em progresso. Vejamos: aqui algures, já não se percebe com exactidão onde, existia um santuário com mais de 200 anos, cuja igreja havia sido mandada construir no século XVIII pela família dos Távoras, então senhores de Mogadouro. Esse lugar foi afundado pela nova barragem e a igreja transladada para o cimo do monte que dá para o Lago dos Santuários, à direita, e para o Lago do Medal, à esquerda. A empreitada durou meses e o novo lugar irá acolher um museu, um restaurante e um dormitório, tudo ainda fechado e a aguardar desenvolvimentos. Não imaginamos este sítio, sem dúvida especial, inundado de magotes, pelo que aproveitemo-lo enquanto o temos só para nós.

O próximo destino é Macedo de Cavaleiros, mas no caminho impõe-se uma parada em Chacim, onde sob marcação podemos visitar o Real Filatório, a antiga fábrica de sedas fundada por D. Maria I no século XVIII e hoje em ruína depois de ter servido de cadeia e até palheiro. Mesmo sem visita a este pequeno núcleo museológico, a própria aldeia merece um desvio, sendo um bom exemplo de povoação antiga pelo seu casario compacto instalado no sopé da Serra de Bornes.

Aqui perto fica o cabeço do Caramouro, com o Convento de Balsemão no seu cume, construído no lugar de um antigo eremitério onde a vista era já bastante larga. Daqui parte um pequeno percurso pedestre circular com cerca de 5 quilómetros que nos leva até ao rio Azibo, um afluente do Sabor. Lá em baixo (e não é preciso ir a pé, pois um veículo 4×4 desce bem), quase escondido, o Poço dos Paus surge como um tranquilo recanto rodeado de arvoredo e convida a um mergulho certamente frio. O ambiente vale o desafio. A oriente de Balsemão fica o Maciço de Morais e o Geopark Terras de Cavaleiros, uma especificidade geológica transmontana que nos ficou a faltar explorar neste passeio pelos Lagos do Sabor.

Macedo de Cavaleiros é uma sede de concelho relativamente recente, apenas desde 1853. Era então uma aldeia e a vizinha Chacim seria até mais importante, mas tem desenvolvido tão rapidamente que hoje é já cidade.

A grande mais valia de Macedo é a sua proximidade da Albufeira do Azibo. Construída 1982, veio servir para o regadio das terras agrícolas e para o abastecimento de água aos locais. E aqui ficam duas excelentes praias fluviais muito concorridas nos dias de calor, a da Ribeira (eleita uma das 7 Maravilhas no quesito Praias de Portugal) e a da Fraga da Pegada. Sobretudo, a paisagem envolvente é uma delícia. Não espanta, pois, que esteja classificada como Paisagem Protegida e parcialmente integrada na Rede Natura 2000.

A Albufeira do Azibo pode, pois, ser considerada como o quarto Lago do Sabor. Com o seu espelho de água como protagonista, este é um lugar privilegiado para o lazer e para além das praias fluviais temos aqui percursos para caminhadas e bicicleta, canoagem e observação de aves, tudo isto no meio da Natureza no seu estado mais puro. O Trilho Ricardo Magalhães, com início sugerido junto à capela de Santa Combinha, tem 4,1 kms e desenrola-se quase todo ele junto à margem da Alfubeira do Azibo, integrando ainda a estação de biodiversidade. O espelho de água é fantástico, mas todo o caminho é prosseguido sob um ambiente de carvalhos e sobreiros, cantoria de passarinhos e brincadeiras dos patos, um ecossistema riquíssimo e pleno de diversidade.

Não terminamos este roteiro sem um toque cultural e etnográfico que revela uma tradição transmontana que em 2019 foi distinguida pela Unesco como Património Imaterial da Humanidade, os Caretos de Podence. Podence é uma aldeia com vista para o Azibo que entrou no mapa pelo seu típico Carnaval, onde no domingo os caretos (rapazes solteiros) saem para a rua em loucas danças e corridas cheias de movimento para chocalhar as moças casadoiras, um ritual de fertilidade de origens profanas que pretende assinalar o fim do Inverno e a aproximação da Primavera. O que é proibido durante todo o ano é tolerado neste dia. Os fatos de careto em lã e as máscaras características são um elemento visual extremamente atraente que dão um colorido incrível a esta festa popular.

Podemos visitar a Casa do Careto para conhecer mais sobre esta tradição muito antiga e não devemos perder um passeio pela aldeia para ver os seus edifícios de arquitectura vernacular, muitos deles hoje grafitados com desenhos que dão um toque artístico à povoação.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s