Castelo Branco

Castelo Branco, a capital da Beira Baixa, não é monumental e à excepção do Jardim do Paço Episcopal, para lá dos muros do antigo Paço, não terá um elemento que preencha o imaginário dos portugueses. É, no entanto, uma cidade onde dá gosto passear, quer pelo casco antigo quer pela zona mais moderna.

Embora a ocupação humana do lugar seja remota e a fundação da urbe da época medieval, o facto de nem a nobreza nem a igreja se terem instalado em Castelo Branco levou a um certo adormecimento ao longo dos séculos, sendo o seu desenvolvimento relativamente recente, sobretudo a partir do século XVIII. Foi no alto do Outeiro da Cardosa que a povoação começou por surgir e provavelmente terá aqui existido um castro pré-romano. Era uma terra de fronteira que viu passar por ela bárbaros e mouros. No início do século XIII, altura em que foi doada aos Templários, estava coberta de ruínas e matagais e tinha o nome de Cardosa. Os Templários construíram o castelo e a vila e, sem que ainda hoje se saiba com certeza o porquê, alteraram-lhe o nome para Castelo Branco. No século seguinte, D. Dinis, na senda da sua campanha de melhoramentos das fortalezas do reino, mandou reconstruir o castelo e alargar a cintura de muralhas da vila – ainda hoje vemos as casinhas e ruinhas instaladas monte abaixo. Acontece que a terra de granito não era fértil, obstando ao desenvolvimento da vila. Apenas se viu alguma evolução a partir do século XVI com a fundação da Misericórdia e a construção de alguns conventos, mas acabou por durar pouco, uma vez que com a expulsão dos judeus de Portugal – quem mais fazia por mover o comércio e a economia – voltou a entrar em apatia. Só com a criação da diocese de Castelo Branco e a elevação a cidade, em 1771, por determinação de D. José I e do Marquês de Pombal, começa por se destacar sobre as demais na região. A bela remodelação do Jardim do Paço Episcopal data, aliás, desse mesmo século XVIII.

É precisamente pelo Jardim do Paço Episcopal que iniciaremos este passeio por Castelo Branco, momento enorme e inesquecível no nosso país. O Paço Episcopal já existia desde o século XVI e incluía uma zona de olival, vinhas, hortas e bosque, mas foi sob a orientação de D. João de Mendonça, então bispo da Guarda, que a partir do primeiro quartel do século XVIII o seu jardim ganhou a forma que ainda hoje mantém. Em estilo barroco, este espaço verde de recreio tem jardins de buxo, canteiros, espelhos de água, vários terraços e uma série de estátuas, como na Escadaria dos Apóstolos e na Escadaria dos Reis, esta com indicação do nome e cognome de cada um deles, incluindo o do Conde D. Henrique, pai do primeiro rei português.

E, ainda, no jardim do patamar inferior, estátuas que representam as virtudes cardeais e teologais e os signos do zodíaco, continentes e estações do ano. Ou seja, o jardim pode ser considerado uma evocação do paraíso na terra.

Destaque, também, para lago designado Jardim Alagado, um autêntico labirinto com canteiros imersos em água, e o Lago onde se veem repuxos encimados por coroas que jorram água.

O edifício do antigo Paço Episcopal acolhe o Museu Francisco Tavares Proença Júnior e à sua frente e junto ao Convento da Graça, hoje Santa Casa da Misericórdia de Castelo Branco, estende-se o Parque da Cidade.

Uns passos mais adiante encontramos o elegante Cruzeiro de São João, em estilo gótico com influências manuelinas.

E assim damos entrada no centro medieval, feito de ruas estreitas e irregulares, algumas íngremes a caminho do outeiro do castelo. Uma delas é a rua dos Peleteiros, com os seus portais quinhentistas.

Perdemos o miradouro São Gens mas não a vista do alto do monte da Cardosa. A 430 metros de altitude, daqui temos toda a cidade e uma vasta paisagem sob mira. Não espanta, pois, que o lugar tenha sido escolhido em tempos ancestrais para abrigo e refúgio e no século XIII para a implantação do castelo como defesa da linha do Tejo. Resta pouco mais do que uma torre e uma pequena parte da muralha, mas algum ambiente ainda lá anda. Assim como a Igreja de Santa Maria do Castelo, que se crê que já existisse no século XII, sendo hoje um sítio arqueológico.

Alcançada a parte mais alta da cidade, há agora que descê-la, retornando de forma a percorrer as restantes ruas do casco antigo. O seu coração é a Praça Luís de Camões, também conhecida como Praça Velha. Aqui fica o primitivo edifício dos paços do concelho – o Domus Municipalis, com a sua característica escadaria e balcão, hoje Centro de Interpretação do Bordado de Castelo Branco – e a Casa do Arco do Bispo.

No centro medieval existiam alguns solares, sendo o mais gabado o Solar dos Cardosos. Numa rua bem apertada, onde mal conseguimos perceber a escala deste edifício de dois andares, deixamo-nos encantar com o seu belo brasão.

É também num solar, neste caso o Solar dos Cavaleiros, que desde 2005 fica o Museu Cargaleiro. Em 2011 a mostra da colecção foi estendida para um edifício vizinho construído de raiz, ambos na mesma praça larga que acolhe ainda uma espécie de anfiteatro. Como resultado, uma boa requalificação urbanística desta zona da cidade antiga.

Manuel Cargaleiro, ceramista nascido na Beira Baixa, também se dedicou à pintura e à tapeçaria e neste Centro, para além de obras do artista, podemos ver expostas peças de cerâmica antiga e contemporânea portuguesa e estrangeira e até peças de Pablo Picasso.

A partir do século XX a cidade de Castelo Branco cresceu e alargou-se para lá daquela que vinha da época medieval. O que era então considerado o arrabalde foi tomado por diversos equipamentos públicos, incluindo a instalação dos novos paços do concelho no Palácio dos Viscondes de Oleiros. Um novo centro da cidade foi criado, coexistindo hoje como que duas cidades, a antiga e a moderna. Um exemplo desta última é o Centro de Cultura Contemporânea de Castelo Branco, no Largo da Devesa.

E para comprovar que é possível andar cá e lá, entre o moderno e o antigo, terminamos este itinerário de volta ao seu ponto inicial com uma passagem obrigatória pela Sé Catedral. A Igreja de São Miguel da Sé tem fundação medieval, mas foi reedificada no século XVII em cantaria de granito sob uma fachada de traça renascentista despojada e austera. Há quem diga que é a Sé portuguesa mais pobre, mas parece-nos que é o remate certeiro nesta cidade nada espampanante mas pela qual é fácil deixar encantar pelo seu conjunto equilibrado e bem conservado.

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