Jardim da Estrela

O Jardim da Estrela é um dos mais concorridos e populares jardins de Lisboa. Inaugurado em 1852 e construído ao estilo dos jardins ingleses, este espaço verde de 4,6 hectares é um convite ao desfrute e relaxe dos lisboetas.

Possui diversas entradas, mas escolhemos aquela que fica em frente à Basílica da Estrela. Portão em ferro, a tradição aqui comanda, não apenas pelo típico eléctrico amarelo que passa na Calçada da Estrela colada ao jardim e representado de forma original à entrada, mas também pelos engraxadores que mantém o seu lugar e função ali mesmo.

A sua criação é de clara inspiração romântica, um jardim de recreio com lagos, vegetação exuberante, canteiros donde saem caminhos, um coreto e diversa estatutária, remetendo para uma ideia de paisagem natural. Nos lagos passeiam-se os patos e as carpas. Na vegetação encontramos espécies exóticas vindas das matas reais e dos jardins do Conde de Farrobo. (actual Jardim Zoológico).

O coreto verde de ferro forjado foi construído em 1884 e estava originalmente no Passeio Público da Avenida da Liberdade até ser transferido para a Estrela em 1936. Nos meses de Verão fazem-se aqui concertos.

E as esculturas encontram-se um pouco por todo o lado no jardim, quer a embelezar os lagos, quer num relvado verdejante, quer num dos muitos recantos do jardim, como este dedicado a Antero de Quental. Há ainda lugar para parques infantis, um café, um quiosque da Biblioteca Municipal e até um chalé destinado a creche / jardim de infância, onde chegou a funcionar a Escola Froebel ou Lactário-Creche n.º 3, a primeira creche da cidade de Lisboa, mas que hoje, apesar de envolvido numa frondosa vegetação, não esconde o seu estado de abandono. Um jardim muito diverso e animado, portanto, mas também com diversos pontos escondidos de recolhimento e refrescantes.

Tapada das Necessidades

A Tapada das Necessidades, na Estrela, é um lugar esquecido.

Para o bem e para o mal. Se são muitos os seus edifícios ao abandono, a Tapada preserva ainda largas zonas verdes ideais para nos abstrairmos da realidade, fazer um piquenique ou tão só passear, atravessando-a de um lado ao outro na companhia de pavões e de patos e de vistas para a Ponte 25 de Abril e para os Prazeres, enquanto nos embrenhamos pelos seus caminhos carregados de vegetação exótica.

Foi D. João V quem, no século XVIII, mandou construir a Tapada das Necessidades, Convento e Palácio (hoje sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros) no lugar de uma antiga ermida. Um século depois, D. Fernando II, o Rei Artista, redesenhou o espaço e a zona de hortas e pomares foi transformada em jardim inglês, tendo ainda aí instalado um jardim zoológico com aves raras e macacos. Ao seu filho, D. Pedro V, deveu-se a construção da estufa circular, o apontamento edificado mais bonito da Tapada, embora a Casa do Regalo, de iniciativa do Rei D. Carlos I, tome uma designação que lhe faz forte concorrência. Ou seja, os 10 hectares da Tapada de gosto barroco foram sofrendo alterações e acrescentos ao longo da sua história até chegarem aos nossos dias. Neste que é considerado o primeiro jardim paisagista de Portugal e que foi lugar de lazer e experimentação botânica por parte da realeza, podemos hoje caminhar pelos seus vários jardins, lagos, estátuas e edifícios.

Entrando pela porta junto ao Palácio das Necessidades, iniciamos o passeio pelo jardim inglês e de buxo. Há um frondoso dragoeiro e lago e patos, sim, mas a grande atracção são os pavões que fazem questão de vir até nós, com as suas penas resplandecentes bem abertas, como se nos cumprimentassem.

Logo de seguida, estende-se diante nós um largo relvado verde com um edifício delicioso no cimo, a estufa circular em ferro e vidro.

É aqui que começa o desfile de edifícios abandonados e degradados. A Casa do Fresco, por exemplo, tem até na sua fachada uma das estatuetas decapitada. No topo tem ainda o tanque que lhe garantia um ambiente fresco, mas que servia também como elemento estético, devidamente acompanhado por uns vasos ornamentais. Por aqui segue a alameda que ladeia o que era o jardim zoológico com os seus edifícios rosas todos em muito mau estado. Mas temos uma boa opção: dirigir antes o olhar para o lado esquerdo, para umas boas vistas da Ponte 25 de Abril enquadrada na Tapada.

Mais adiante passamos pela Casa do Regalo, tão intensamente rodeada de vegetação que pode passar despercebida. De fachada amarela e com brasão, foi mandada construir por D. Carlos I para servir de estúdio de pintura para ele e para D. Amélia. Este edifício, sim, está bem conservado, uma vez que, afecto à Secretaria-Geral da Presidência da República, foi restaurado para nele ser instalado o gabinete de Jorge Sampaio, ex-Presidente da República.

Foi a tentar perceber um pouco melhor a fachada escondida da Casa do Regalo que escutei, surpreendida, o grasnar estridente de um papagaio (na verdade, um periquito-de-colar). Tão louro, tão louro que também ele se confundia com o arvoredo. Esta é uma zona de mata mediterrânea, talvez não muito domada, e é logo a seguir que encontramos o Jardim dos Cactos. É uma colecção bastante generosa, exótica e exuberante, imperdível na visita.

E aqui ficamos num dos pontos mais elevados da Tapada, ela que está já implantada numa encosta de Lisboa. As vistas para o Tejo são emolduradas pela vegetação, uma perspectiva bem diferente daquela a que estamos acostumados.

Quando ao futuro da Tapada, designadamente no que respeita à recuperação dos seus espaços degradados, espera-se que em breve possa arrancar um projecto que prevê a instalação de quiosques, esplanadas e equipamentos expositivos e para eventos. Mas que, ao mesmo tempo que a permita ser fruída por todos, possa continuar com o recato que a fez chegar até nós.

Quinta dos Azulejos

O Paço do Lumiar está ainda, neste primeiro vinténio do século XXI, cheio de quintas centenárias, daquelas que serviam de recreio às portas de Lisboa aos bem instalados no tempo da realeza, a maior parte delas desconhecidas dos lisboetas. Também conhecida por Quinta dos Embrechados, foi fundada na primeira metade do século XVIII por António Colaço Torres e frequentada pela família real e é um bom exemplo deste património.

Quando chegamos ao largo onde está instalada percebemos de imediato o palacete, hoje transformado em Colégio Manuel Bernardes, totalmente revestido a azulejos de um tom azul convidativo. O que não imaginamos é o que o seu jardim interior esconde.

O jardim da Quinta dos Azulejos é um espaço verde pequeno. Protegido por muros altos, tem a forma quadrangular, cortado a meio por um caminho, e podemos adentrar pelo jardim de buxo e nele encontrar dois bustos escultóricos em homenagem a vultos importantes na fundação e direcção do colégio. Mas não são nem estes nem as plantas que nos chamam a atenção, antes os seus inúmeros e deliciosos painéis azulejares que dominam por completo os nossos sentidos.

O interior dos muros do jardim está quase totalmente revestido a azulejos. Houve várias campanhas de decoração da Quinta ao longo dos tempos, mas a primeira delas datará de 1745 – 1755, o que coincide com a laboração da Real Fábrica de Faianças do Rato, pelo que se tem como assente que foi nesta que se produziram as mais antigas cerâmicas que ainda nos dias de hoje podemos observar. O Grande Terramoto de Lisboa veio logo depois e alguns desses azulejos conseguiram sobreviver-lhe.

Os azulejos policromo, mas com destaque para o azul e branco, da Quinta dos Azujelos mantém-se, em grande parte, bem conservados e revestem ora os muros, ora as colunas, os bancos, os canteiros e as fontes do jardim. São de uma beleza e variedade temática ímpar. É como se nos contassem histórias com recurso a cenas quotidianas, mitológicas ou religiosas. Admirando-os, vemos um desfile de cenas de festas, galanteio, passeios, caçadas e motivos bíblicos decorados ao gosto rococó. Pessoas, animais e seres mitológicos estão representados.

Como Ícaro a cair depois das suas asas terem disso derretidas pelo sol; ou as sete irmãs plêiades; ou Narciso que morreu apaixonado pela contemplação da sua própria beleza e assim se viu transformado numa flor; ou a sua amada mas desprezada ninfa Eco.

São várias as fontes no jardim da Quinta com falsas cascatas e interior revestido a embrechados, uma logo à entrada, outras duas em cada um dos flancos e uma outra junto ao caramanchão.

O caramanchão coberto de plantas que conferem maior protecção e recato ao banco corrido com colunas sob ele é o momento mais bonito do jardim. O lago diante de si está vazio mas isso não retira um pingo de encanto a este espaço.

Há que continuar a apreciar cada figura e cada detalhe, e deixar-nos esquecer do tempo num espaço tão curto.

Panorâmico de Monsanto

O Panorâmico de Monsanto é desde Setembro de 2017 o mais novo miradouro oficial da cidade. E entrou logo para o lugar cimeiro no campeonato da melhor vista de Lisboa. Não que a sua vista fosse desconhecida até esta data. O que acontece é que o lugar estava abandonado e algo inseguro.

Aberto em 1968 como Restaurante Panorâmico de Monsanto, no centro do Parque de Monsanto, desde o Alto da Serafina, a 205 metros de altitude, este edifício circular enorme que mais parece um ovni logo se tornou um sucesso. No início restaurante de luxo frequentado por figuras do Estado Novo e famosos portugueses e estrangeiros de visita à cidade, os seus 7000 m2 acabariam por servir de discoteca, depois de bingo e até de armazém. A decadência e o abandono a que esteve sujeito desde 2001 não lhe levou, porém, qualquer milímetro da sua vista absolutamente soberba.

Daqui de cima tudo se avista. Uma vista totalmente desafogada para todos os lados da cidade. Avistamos ao longe a nova cidade junto à Ponte Vasco da Gama, o Aqueduto ali bem próximo, a Lisboa dos anos oitenta revisitada pelas Torres das Amoreiras, o Panteão a erguer-se do rio e a Ponte 25 de Abril a abrir-se para a outra banda, onde se destacam claramente na paisagem o Cristo-Rei e o pórtico da Lisnave. A Linha perde-se na densa vegetação do Parque de Monsanto.

Se aqui se obtém uma percepção exacta de Lisboa sob a óptica dos pássaros, é aqui também que ficamos com a noção real da imensidão do coração verde da cidade que é Monsanto. A vista do Aqueduto envolvido por este manto verde é impressionante.

A paisagem é rainha, mas o ambiente de ruína deste edifício abandonado desempenha pelo menos o papel de príncipe nesta história. Projectado pelo arquitecto Chaves da Costa e com murais de Luis Dourdil, azulejos de Manuela Madureira e painéis de Querubim Lapa, hoje são os grafittis que ornamentam os vários pisos deste Panorâmico. A Câmara Municipal limpou alguns deles, bem como o muito lixo e vidros acumulados. O espaço está agora seguro (existe até um segurança à entrada), mas seguimos com a sensação de expectativa pelo que vamos encontrar neste deserto escuro de paredes esventradas que vão deixando aqui e ali espreitar a paisagem lá fora.

O Panorâmico continua situado num local isolado e o acesso não é dos mais fáceis. Vale, todavia, todo o esforço da caminhada ou as voltas de bicicleta ou carro que se tenham de dar para aqui chegar.

Palácio dos Marqueses de Fronteira

O Palácio dos Marqueses de Fronteira está situado às portas de Monsanto, o pulmão verde de Lisboa, sítio privilegiado para tantas caminhadas e vistas largas.

Quando foi construído, em 1670, por ordem do 1.° Marquês de Fronteira, D. João de Mascarenhas, ficava fora da cidade e era utilizado como pavilhão de caça e casa de campo juntamente com os seus jardins.

Hoje o lugar está plenamente integrado na cidade e, se fica no sopé deste pedaço de natureza, fica igualmente colado a uma via rápida.

A sua situação geográfica pode ser surpreendente, mas mais surpreendente é a excelência deste Palácio e Jardins.

Após o Terramoto de 1755, a residência dos Marqueses no centro de Lisboa ficou totalmente destruída, pelo que o Palácio em Monsanto passou a constituir a sua habituação, para o que lhe foi acrescentado uma nova ala e refeitos muitos detalhes. E detalhes são o que não falta a este conjunto fabuloso. Os azulejos são riquíssimos e as esculturas belíssimas.

Mas muito mais há para apreciar.

A arquitectura do corpo principal da casa possui influência italiana, mas revela também características da arquitectura civil portuguesa. No pátio com estrelas desenhadas na calçada portuguesa encontramos em cada um dos lados da casa uma fonte com carranca no meio de duas janelas. Ainda antes da entrada, um indício do trabalho de tectos que nos esperará depois.

Passada a porta da residência (acabam-se as fotos), uma fonte nos aguarda. Originalmente este espaço não era fechado, estando hoje para lá da entrada do Palácio. Nessa época, um ribeiro passava por baixo do edifício e a sua água era aproveitada para beber, tendo este sido um lugar de repouso, com um banco a permitir o desfrute do som da água e da frescura do ambiente.

Uma escadaria dupla transporta-nos ao piso superior e a ante-câmara, apesar de algo austera, começa de imediato a maravilhar-nos com o seu ambiente renascentista com paredes em estuque onde as janelas mais parecem portas.

A sala correspondente à biblioteca privada da família possui objectos interessantes, mas é a vista fabulosa para o jardim que rouba toda a nossa atenção – já haveremos de o visitar mais próximo.

Seguem-se duas salas absolutamente deliciosas na decoração das suas paredes e tectos.

A primeira, a Sala das Batalhas, a principal sala da casa, cujas paredes estão carregadas de azulejos (os azulejos são uma das grandes riquezas do Palácio e Jardins, quer pela sua qualidade, diversidade temática e quantidade – estão por todo o lado). Estes azulejos mais parecem a história das batalhas das guerras da Restauração contada em banda desenhada. Foi o próprio D. João de Mascarenhas que encomendou estes painéis de azulejos. Participante de relevo nas guerras da Restauração, o seu esforço valeu-lhe então, precisamente, o título de 1.° Marquês de Fronteira. Quer isto dizer que estes painéis de azulejos não se limitam a representar algo; antes documentam a história contada por quem a viveu directamente. Para além do busto do fundador, nesta sala podemos observar ainda bustos dos seus familiares. O tecto é em estilo barroco.

A Sala dos Painéis é a mais bonita. Altamente decorada, o trabalho em estuque em estilo rocaile é soberbo. As pinturas que aqui vemos, cuja temática vai desde cenas das colónias (Brasil? África?) a cenas marítimas e de caça, estão emolduradas com o dito estuque. Para completar a riqueza desta sala, uns azulejos a azul e branco importados da Holanda e, no tecto, uma espécie de pintura do rei sol.

Mais duas salas, a Sala dos Quatro Elementos e a Sala de Juno, de ambiente mais intimista e decoradas com mobiliário indo português, porcelana chinesa e tapeçaria, há ainda para visitar antes de sairmos do Palácio e nos depararmos com o deslumbrante terraço – varanda virado para o jardim superior.

Este terraço, também conhecido como Galeria da Artes, está carregado de azulejos azul e brancos e oferece-nos uma sequência de estátuas, cada uma delas com uma concha a seus pés, e bustos esculpidos na parede e envoltos em materiais naturalistas, num trabalho minucioso. Estes painéis em azulejo representam as sete artes liberais e as estátuas correspondem a divindades gregas. Os bustos são de imperadores romanos.

Todo este conjunto de elementos é apelativo esteticamente e soberbo na sua qualidade. Soa algo austero, mas é claramente um lugar acolhedor a que não falta uns bancos decorados com azulejos representando cenas mais corriqueiras do dia-a-dia e muita vegetação exótica a envolver-nos. Para além disso, podemos ainda observar uns painéis satíricos, com figuras de gatos e macacos e pássaros com cabeça de mulher.

No final deste terraço fica a Capela da casa. Igualmente lindíssima na sua decoração, com pequenas estátuas de santos no seu interior, mas sobretudo pelos seus azulejos e embrechados (conchas). A este propósito, diz a lenda que, aquando da inauguração do Palácio, foi D. Pedro convidado e o 1.º Marquês de Fronteira mandou depois partir toda a loiça usada no banquete. Os restos de porcelana, bem como pedrinhas e conchas, serviram assim para a ornamentação da capela por meio do recurso ao revestimento por embrechados.

Da Capela descemos por umas escadas que nos deixam no jardim superior ou Jardim de Vênus. Um pavilhão se destaca, a Casa de Fresco, também decorado com embrechados. E azulejos, claro. É riquíssima a sua beleza. À entrada, o Lago dos S, rodeado de bancos com painéis em azulejo representando, entre outras, cenas de pesca.

Daqui percebem-se as cores azul e vermelho fortes do Palácio, um contraste poderoso que lhe confere ainda mais luz e vida. A rematar, a vegetação intensa.

Este jardim superior é um jardim de carácter mais privado do que o jardim inferior, mais formal e monumental e escancarado a todos os visitantes. Antes de descermos, porém, um passeio ao redor da fonte com a estátua de Vênus com golfinho e tartaruga.

O jardim formal é impressionante. Os seus enormes canteiros de buxo e o tanque que mais parece um lago formam um conjunto superior. O tanque monumental tem 48 por 18 metros e de cada lado adorna-o duas escadarias encimadas por torres que ligadas formam uma varanda com esculturas com bustos de reis portugueses – a Galeria dos Reis. Tudo perfeito. Incluindo a vista.

Cá em baixo, o muro do lago, onde vemos cisnes e peixes a nadar, é revestido de azulejos representando diversos cavaleiros – o Tanque dos Cavaleiros. Três grutas se deixam ver para lá da água onde flutuam umas estátuas.

Depois de toda esta fantasia, resta-nos perder-nos com agrado por entre os desenhos do jardim de buxo, descobrindo aqui e ali uma fonte ou uma esbelta estátua.

Apesar de no início deste texto ter referido que o Palácio dos Marqueses de Fronteira está hoje dentro de Lisboa, a verdade é que neste pedaço de São Domingos de Benfica conseguimos ainda sentir-nos apartados do frenesim da cidade.

A visita a esta residência privada que é ao mesmo tempo monumento nacional é, pois, essencial para a compreensão da nossa cidade ainda hoje.

Nos anos 1980, o 12.º Marquês de Fronteira, Fernando Mascarenhas, aristocrata de esquerda e mecenas cultural activo na cena lisboeta até há sua morte, em 2014, instituiu a Fundação das Casas de Fronteira e Alorna. É nesse contexto que podemos visitar o Palácio e os Jardins, bem como vê-los ser palco de iniciativas culturais, científicas e educativas várias.

A Vertente norte do Parque Florestal de Monsanto

A vertente norte de Monsanto possui, a noroeste, um dos primeiros miradouros do Parque.

A Luneta dos Quartéis é um dos locais mais elevados da cidade, a cerca de 178 metros de altitude, e aqui existiram algumas estruturas militares. No início da construção do Parque, nos anos 1930-1940, foi transformado em miradouro.

Do Miradouro da Luneta dos Quartéis temos praticamente a mesma vista que a do Jardim de Montes Claros. Mas na Luneta o abandono e o descaso são a nota dominante. Não falo da pouco atraente vista para a zona industrial da CRIL, mas antes do facto de terem deixado a vegetação à solta e esta ter crescido de tal forma que só nos empoleirando conseguimos apreciar a confusão da paisagem.

Se este lugar já não desempenha o papel de miradouro que foi em tempos (vêem-se ainda as caravelas nas lápides dos dois lados da sua entrada, mas nada mais), também o edifício lá no topo já viu melhores dias como restaurante e hoje está completamente grafitado e esventrado.

A uma curtíssima caminhada daqui ficam os quase escondidos Moinhos do Mocho. Até lá sentimo-nos totalmente envolvidos pela floresta, com copas das árvores altíssimas. Estes dois moinhos propõem-se a recordar o tempo em que a serra de Monsanto era uma de campos de cereais – e estas estruturas moíam a farinha que abastecia Lisboa – e entre eles existe um pequeno jardim que é o único sinal a contrariar a regra do abandono por aqui.

Este miradouro, por exemplo, simplesmente desapareceu por entre o arvoredo cerrado. Nada se vê daqui. Mas se conseguirmos abstrair-nos de um ligeiro sentimento de insegurança pelo remoto do lugar, é até um sítio tranquilo que nunca se imaginaria ser parte de uma cidade.

A nordeste do Parque Florestal de Monsanto encontramos a Mata de São Domingos de Benfica. Bem junto à Radial e com os comboios a passarem também por ali, consegue-se ao mesmo tempo ouvir os passarinhos a chilrear.

Os eucaliptos são a espécie dominante e o cheiro a orvalho acompanha-nos nas caminhadas pelos seus inúmeros trilhos após estes dias chuvosos.

A Mata de São Domingos acolhe ainda um parque infantil, uma torre de escalada e aquele que, provavelmente, será o mais bonito parque de merendas de Monsanto. Como bónus um tanque que oferece um belo reflexo na sua água.

Deixados para trás os Pupilos do Exército e o Palácio dos Marqueses de Fronteira, rapidamente chegamos ao Parque Recreativo do Calhau.

Com uma extensa área verde, daquelas em que em qualquer cidade do centro da Europa os seus cidadãos chamariam um figo ao acto de estender a toalha e deixar-se estar em biquíni aos primeiros raios de sol, este parque é ideal para nos deixarmos estar, seja a ler, namorar, brincar com crianças ou animais ou piquenicar.

Possui um miradouro na sua parte mais elevada, o Miradouro do Moinho das Três Cruzes. A vista dá para o trânsito do Eixo Norte Sul, com as Twin Towers lisboetas e as Torres das Amoreiras como testemunhas, o moinho está em ruína e um grupo de brasileiros fazia uma reza a uma deles, certamente para tirar o demónio de seu corpo.

Àqueles gritos pavorosos não pude senão descer rapidamente bosque adentro antes que me confundissem com algum parente do demo. E o bosque que envolve o prado do Calhau é bem bonito. Por entre sobreiros, azinheiras, carvalhos e pinheiros-mansos vamos descobrindo umas torres (moinhos?) cuja função original desconheço.

Atravessada a estrada da Serafina, do Parque Recreativo do Calhau passamos para o Parque Recreativo da Serafina.

Este parque, também conhecido como Parque dos Índios, deve ser um sonho para as crianças de hoje, com equipamentos que daqui a uns anos preencherão as suas memórias e os farão emocionar da mesma forma que o avião do Alvito fez e faz às das gerações de setenta e oitenta. Temos umas tendas, um farol, um labirinto. E baloiços mais convencionais para os menos aventureiros.

O restaurante Papagaio da Serafina fica aqui. Uma deliciosa pérgola também.

E o miradouro do Alto da Serafina é um ponto alto para os caçadores de grandes paisagens, mais um grande miradouro em Monsanto. Vemos a Ponte, vemos o Cristo e, como não podia deixar de ser, as Torres das Amoreiras ali estão, sempre a aparecer no postal em lugar de destaque.

Saindo do Parque Recreativo da Serafina temos, a uma curta distância, o Parque da Pedra e sua parede de escalada.

Curiosamente, o bairro da Serafina, ali mesmo em baixo do miradouro e na envolvência do Parque Recreativo, não se vislumbra – para se perceber os seus contornos nada melhor do que atravessar o Aqueduto das Águas Livres pelo alto dos seus arcos. E é de aproveitar os fins de semana deste ano de 2018, que as entradas em todos os núcleos do Museu da Água, e não apenas no seu maior ex-libris e de Monsanto, são gratuitas, em comemoração dos 150 anos da EPAL.

A vertente sul do Parque Florestal de Monsanto

Rasgado pela A5, o Parque Florestal de Monsanto tem a sul alguns dos equipamentos pioneiros na sua construção.

O Jardim e a Casa de Chá (ou restaurante) de Montes Claros é um lugar recolhido com vistas tão contraditórias como aquela que dá para o bulício da paisagem da CRIL inundada de edifícios industriais e comerciais ou aquela outra que se abre à foz do Tejo.

O edifício modernista rectangular, projecto de Keil do Amaral construído em 1949, mantém a sua fachada inalterada, embora tenha sofrido diversas obras de recuperação do seu interior por forma a receber eventos. Desde este edifico branco de dois andares estende-se pelo jardim um canal estreito de 90 metros de comprimento que no final se torna mais largo, criando um lago a cuja volta exterior se desenvolve uma pérgola. Não é só de arquitectura e de vistas de que se trata Montes Claros. O relvado do seu jardim é ideal para relaxar ou para pequenos jogos.

Não muito longe daqui fica a residência oficial do Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, edifício cujo destino se discute nos nossos dias.

Um pouco mais a norte encontramos uma das entradas para a muito frequentada Alameda Keil do Amaral. Uma alameda exclusivamente pedonal ou ciclável, com um circuito de manutenção em vários pontos do caminho, onde nos vemos envolvidos por uma densa vegetação. Algumas frestas nas árvores permitem-nos ir antecipando o cenário que teremos totalmente aberto à nossa frente quando chegarmos, uns metros depois, ao Anfiteatro Keil do Amaral. Esta é uma das vistas mais bonitas para a Ponte 25 de Abril.

Uns metros mais elevado, no Miradouro do Moinho do Penedo (ou do Alferes), podemos apreciar a mesma paisagem desde o campo de basquete. Aqui fica um dos mais concorridos parques de merendas de Monsanto. E, claro, o moinho que dá nome ao lugar.

Acima do Anfiteatro, outro miradouro essencial, o Miradouro Keil do Amaral, com uma vista fantástica para o Palácio da Ajuda.

Daqui podemos fazer um percurso circular por entre caminhos até ao final da Alameda, junto à outra entrada na Estrada do Alvito.

É interessante constatar que apesar de ficarmos por aqui totalmente rodeados de vegetação em caminhos estreitos, nem sempre conseguimos alcançar o silêncio, uma vez que os veículos passam na estrada mesmo ao lado. Não os vimos, mas ouvimos. É talvez a única coisa a lastimar por aqui.

No entanto, consegue-se encontrar lugares de recolhimento, como este arranjo paisagístico ao redor de um pequeno lago. De volta à Alameda, encenamos outro dos mais frequentados parques de merendas de Monsanto.

Ainda não cansados de miradouros, outra vertente da cidade se nos oferece agora no Miradouro do Alvito, antes de chegarmos ao parque recreativo de mesmo nome. São as torres das Amoreiras e Campolide em destaque.

Para terminar este passeio, passamos o Clube de Ténis sem nele entrar e seguimos directos para o último miradouro do dia: o miradouro do Bairro do Alvito, construído num descampado com uma vista directa para a Ponte sobre o Tejo, numa direcção de olhar, e para o Aqueduto e Prazeres, na outra.

Parque Florestal de Monsanto

O Parque Florestal de Monsanto é um enorme pedaço de natureza que corresponde a 10% da área total do concelho de Lisboa.

O pulmão verde da cidade não é, no entanto, uma obra natural. Pelo contrário. Instalado na Serra de Monsanto, os quase 1000 hectares que podemos hoje desfrutar em todos os sentidos foram criados por Decreto.

A Serra de Monsanto era quase desprovida de arvoredo, com excepção para a Mata de São Domingos e para a Tapada da Ajuda, sendo antes um lugar de searas, pastos de gado e pedreiras.

Embora já datassem de 1868 planos para arborizar o lugar, foi na década de 1930 que o engenheiro Duarte Pacheco, ministro do Estado Novo, determinou a criação do Parque Florestal de Monsanto. A Mocidade Portuguesa iniciou então a plantação de milhares de árvores. E o arquitecto Keil do Amaral foi o escolhido para o projectar.

O Aqueduto das Águas Livres, elemento icónico não só de Monsanto mas de toda a cidade de Lisboa, marcava já presença há séculos. Igualmente, o Palácio dos Marqueses de Fronteira, perto da Mata de São Domingos, reinava já em toda a sua monumentalidade. E o antigo Forte de Monsanto, Estabelecimento Prisional de Monsanto desde há décadas, que antes havia servido de linha defensiva, emprestou alguns dos seus reclusos para a empreitada de florestação.

A estes monumentos e equipamentos vieram a acrescentar-se outros no novo Parque.

Desde logo, diversos miradouros.

Como os miradouros dos Montes Claros, dos Moinhos do Mocho, do Penedo e da Luneta dos Quartéis, todos eles nas vertentes sul e oeste do Parque. As vistas que se obtém de Monsanto são privilegiadas, ora totalmente desafogadas ora pequenas nesgas abertas na vegetação. Daqui se avista toda a Lisboa, com o Tejo, em especial, bem perto.

A referência a “moinhos”, deve-se ao facto de este ter sido o tal local de searas e pastos. Embora nenhum deles esteja já em funcionamento, encontramos ainda alguns na paisagem.

Obras como a Casa de Chá e Jardim de Montes Claros e o Clube de Ténis são projectos de Keil do Amaral cuja preponderância persiste.

No âmbito da habitação, ao Bairro do Alvito, de 1937, veio juntar-se a construção do Bairro da Boavista, em 1943, do Bairro do Caramão, em 1945, do Bairro de Caselas, em 1947, e do Bairro da GNR, em 1958.

Apesar de o projecto inicial de Keil do Amaral não ter sido todo implementado, ao parque infantil do Alvito, cujas memórias de brincadeiras e aventuras no seu avião perdurarão pelo menos para quase todas as crianças lisboetas nascidas nos anos 70, vieram a juntar-se nos anos 90 o Parque Urbano e Recreativo do Alto da Serafina e o do Calhau, bem como a recuperação da Mata de São Domingos de Benfica.

Em resumo, o Parque Florestal de Monsanto, quase três vezes maior do que o Central Park de Nova Iorque, é um espaço de ar puro (ainda que rodeado de auto-estradas e vias rápidas), interacção com a natureza, paisagens de tirar o fôlego, trilhos para caminhadas e passeios de bicicleta, desportos e aventuras várias, parques infantis, piqueniques. Um lugar para famílias, casalinhos ou solitários. Um projecto modernista, com preocupações ecológicas e urbanísticas, em que a natureza e o recreio dão a mão e caminham lado a lado.

Parque e Palácio de Monserrate

A caminhada desde o centro da Vila até Monserrate é agradável e fácil, pela estrada com não muito trânsito mas sem bermas.
Monserrate tem uma história curiosa que começou com o nome de Quinta da Boa Vista no século XVI, mesmo século em que foi aí construída uma capela dedicada a Nossa Senhora de Monserrat.
Depois de propriedade de nacionais passou para uma série de ingleses, como De Visme, o responsável pela construção do primitivo palácio neo-gótico no lugar da capela, ou William Beckford que se dedicou à construção do jardim, incluindo a cascata e os arcos de pedra. Com a partida deste no princípio do século XIX o local entrou em declínio e a sua fama romântica cresceu, muito por causa de Lord Byron e dos seus relatos de viagem. Em 1841 inicia-se a reabilitação de Monserrate – palácio e jardins – por intermédio de outro inglês de nome Francis Cook. Em 1949, após a compra da propriedade por um português comerciante de antiguidades que leiloou o recheio do palácio e tentou lotear a quinta, o Estado adquiriu-a. Se dissermos que só em 2001 se iniciou o processo de recuperação do hoje imóvel classificado, dá para ver muito bem quantas décadas teve esta beleza para se degradar.
O certo é que hoje ela aparece-nos em todo o seu esplendor. No seu conjunto é um excelente exemplo da arquitectura do período romântico em Portugal, com uma mescla de gótico veneziano com influências indianas e mouriscas. O jardim, que vem por aí abaixo do palácio, ou este vem por aí acima, bem pertinho do céu, como se um troféu se tratasse, o jardim, dizia, é um manto interminável de verde, com caminhos que se entrecruzam com direito a ramos a fazer de ponte e laguinhos com nenúfares.
As obras no interior ainda estão a desenrolar-se ao mesmo tempo que podemos ir aproveitando o já recuperado. E que bem recuperado. Uma maravilha que deixo para as fotos. Mas não deixo de pensar e dizer… ai aqueles tectos!